(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

Daniele Almeida Duarte · Capítulo 3 de 6 · parte 3/3

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(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

2 - (Des)encontros trabalho-família

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A família, como situa Giddens (2000) e os referidos autores, remete às

relações20 macrossociais, mas também às pessoais e singulares, uma vez que diz respeito à intimidade, afetividade e subjetividade. Deslindá-las é buscar identificar transformações fundamentais que nos acometem em meio a uma realidade marcada por inseguranças e incertezas diante de um “mundo turbulento, difícil e desconhecido” (Giddens, 2000, p.189, tradução nossa).

Temporalidades para as famílias: caleidoscópios em

suspensão

Apresentaremos, de forma sucinta, como que em uma suspensão temporal, os principais marcos históricos que distintos autores retomam para investigar a família, seja para situar sua dinamicidade, seja para fazer mera oposição entre modelos.

Birman (2007) destaca duas mudanças fundamentais, apontadas pela literatura sociológica e antropológica, para discutir as reinvenções da família da modernidade para a atualidade, discussão essa que parte da família extensa (patriarcal) e da família nuclear (burguesa) para apontar suas transformações.

A família extensa remetia a um espaço onde conviviam distintas gerações, além do casal parental central e seus descendentes. Junto a esse cerne, havia os agregados e extensões em que propriedades, coisas e pessoas condensavam-se em uma relação de pertencimento e submissão à autoridade absoluta e incontestável da figura do pai, o patriarca.

Para Trigo (1989), a ordem patriarcal convergiu para uma política de manutenção e transmissão do patrimônio. Não havia no casamento espaço para os interesses pessoais, pois a finalidade principal da aliança matrimonial era de ordem econômico-social, a contiguidade do status, preservação da herança, fortalecimento de grupos de parentescos e do poder do capital. Nesse quadro, essa formação familiar correspondeu à manutenção de um sistema de dominação política e econômica, atrelado ao modo de produção capitalista, conforme Engels (2010). De modo correlato, Chaui (2000) menciona o fato em sua obra ao afirmar que o patriarca era não somente o chefe de família, como detinha a vontade absoluta.

O poder era exercido por um chefe de família ou de famílias (clã,

tribo, aldeia), cuja autoridade era pessoal e arbitrária, decidindo

sobre a vida e a morte de todos os membros do grupo, sobre a

posse e a distribuição das riquezas, a guerra e a paz, as alianças

(em geral sob a forma de casamentos), o proibido e o permitido.

(Chaui, 2000, p.480)

Do século XVIII em diante, delineia-se a vida familiar moderna 21. Através de outros espaços físicos e simbólicos começa a surgir a família burguesa e nuclear. Iniciam-se outras composições divergentes da família extensa e pré-moderna. Burguesa porque há um incremento do poder social e econômico assumido pela burguesia no Ocidente durante o recrudescimento do capitalismo. Sua força e ascensão passam a pautar as relações sociais e culturais daquela época em diante.

Vemos, com a historiadora Perrot (1991), o percurso que constituiu essa unidade social nuclearizada em torno da ideia de lar. O processo de individualização dá-se por meio das relações de intimidade e de espaço privado, pois ocorre um distanciamento cada vez maior da família em relação à sociedade circundante, isto é, a ordem familial encontra-se circunscrita à esfera doméstica em oposição à área pública, visto que esta é tida como hostil e estranha, não digna de confiança.

Forjam-se normas de conduta e valores moral, matrimonial, de higiene e de relacionamento, tidas como adequadas. O reduto familiar, o “ninho”, gravitava em torno da figura paterna. Ao redor dele, estavam os filhos e a esposa. A figura do chefe de família remete ao provedor, se não único, o principal responsável pelo bem-estar e pela educação dos filhos. À mulher, como um ser especial, cabia o cuidado com a casa e os filhos. Estava reduzida à reprodução e ao trabalho doméstico. Contudo, por meio de seu papel enquanto figura maternal, a mulher passou a ter incrementada a sua função mediante o cuidado e a gestão do espaço doméstico e de seus infantes, porém, com diversas sujeições ao pátrio poder familiar. Essas transformações irromperam com a família extensa, gerando outros modos de ser, relacionar, trabalhar e viver (D’incao, 1989; Donzelot, 1986).

Na atualidade, particularmente o cenário familiar brasileiro reverberando o internacional, segundo Birman (2007), Machado (2001) e Sarti (2010), houve uma profunda transformação, a partir de 1950 e 60, com a assunção de outras posições sociais da mulher na sociedade. A força propulsora foi o movimento feminista, em que a relação da mulher perante o homem requisitava igualdade, buscava reconhecimento e conquista de outros papéis, inclusive sua inserção no mercado de trabalho.

Essa condição alçou maiores proporções com o controle da natalidade por meio da inovação dos métodos anticoncepcionais, concedendo à mulher a escolha de ser ou não mãe e a vivência do desejo e da sexualidade desprendidos da reprodução. Com a profissão e a educação acessíveis e priorizadas pela mulher, sua independência financeira possibilitou o desejo de realização enquanto sujeito singular e a desatou da maternagem, deixando de ser o papel materno a forma que lhe conferisse reconhecimento e valor.

Isso pode ser percebido de maneira mais clara a partir do período da consolidação do Estado moderno, impulsionador do avanço do processo civilizatório, transformador da conduta e dos sentimentos humanos. Soma-se a isso o privilegiamento do indivíduo em relação à comunidade. A família passa a isolar-se, pois a privacidade é valorizada e oposta ao mundo social e exterior (D’incao, 1996).

Segundo Giddens (2000), na Idade Moderna, o amor e a sexualidade vinculam-se, denotando outras formas de relações, aproximações e exercícios de poder. Esses componentes se articulam com outros fenômenos da existência humana e passam a corresponder a valores eleitos e tidos como apropriados a uma época, como assinala Chaui (2000, p.437):

Nossos sentimentos, nossas condutas, nossas ações e nossos

comportamentos são modelados pelas condições em que vivemos

(família, classe e grupo social, escola, religião, trabalho,

circunstâncias políticas, etc.). [...] Dessa maneira, valores e

maneiras parecem existir por si e em si mesmos, parecem ser

naturais e intemporais, fatos ou dados com os quais nos

relacionamos desde o nosso nascimento: somos recompensados

quando os seguimos, punidos quando os transgredimos.

As transformações nas relações de gênero, atreladas às transformações sociais, econômicas e culturais na busca por relações mais libertárias, democráticas e igualitárias, geraram profusas transformações na família. A inovação tecnológica e sua dissipação social propiciaram o aceleramento desse processo de transição.

A descendência desprende-se dos laços de consanguinidade e surgem possibilidades de fertilização, reprodução assistida, banco de sêmen e barriga de aluguel, oriundos das novas tecnologias reprodutivas, disseminadas a partir de 1980, o que levou a mudanças não apenas nos modos de conceber, mas também de constituir novas formas de paternidade e de maternidade, de relações de gênero e de composição familiar, como especificam Sarti (2010) e Beck-Gernsheim (2011). Isso vai desde a dissociação da gravidez, como fruto da relação sexual entre homem e mulher, até os impactos do exame de DNA que permite identificar a paternidade e responsabilizá-la, transformando também o lugar masculino, garantido até então pelo patriarcalismo. São os direitos da criança e da mulher, logo, os da família, que passam a ser

reformulados também no plano jurídico22.

A conjugalidade passa a ser vivida em outros parâmetros, mesmo em meio à crise das identificações, do mal-estar na contemporaneidade e da fragilidade dos laços sociais e afetivos. Se outrora o casamento era um negócio, haja vista que amor e o matrimônio não se vinculavam e o desejo não tinha vez, com as transições deflagradas por meio da construção da família burguesa, os sentimentos modernos fazem reluzir a protagonização de um sujeito de desejos. São acionados outros modos de amar e se relacionar. Como expõe Enriquez (2003, p.14): “proclama-se o amor para exorcizar o ódio ou a indiferença”. Com essas mudanças, os laços afetivos passam a se sustentar enquanto houver o desejo de estar junto e de investir na relação, seja esta hétero ou homoafetiva. Abrem-se possibilidades de se nutrir uma relação amorosa não restrita ao prazer erótico, mas que envolva a expansão e potencialização do ser e da existência, como teorizam e apreciam, com distintos olhares, Birman (2007) e Enriquez (2003).

Outra variante é a inovação da composição familiar, as famílias recompostas. Frutos de novas conjugalidades e relações, as famílias diferem-se da tradicional família nuclear, pois nessas novas relações os filhos dos respectivos cônjuges passam a compor uma nova e atual família. Os filhos passam a integrar tanto a nova relação de um de seus progenitores como a de outra figura parental, ampliando as possibilidades de vivências familiares e de convivência com novos membros. Mas não se trata apenas de ampliação, há um deslocamento vigoroso que passa da importância do grupo para a de seus membros, como assinalam Machado (2001) e Beck-Gernsheim (2011).

Há também o aumento das famílias monoparentais, integradas pela figura paterna ou materna, em que o número de membros é reduto. A monoparentalidade tem se incumbido do sustento financeiro, dos cuidados e das responsabilidades na criação do(s) filho(s) que até então eram partilhadas por meio da conjugalidade.

O que se constata nessa conjuntura são transformações nas sociabilidades e nos modos de subjetivação, gerando-se grandes modificações na sociedade como a terceirização, a delegação da educação e da socialização primária a babás, creches e escolas – diante do relativo esvaziamento das figuras paternas e maternas no cuidado com as crianças. O estilo adolescência se prolonga tanto nos filhos como nos próprios pais, transformando as relações de autoridade parentais, as quais se diferenciam cada vez menos das de seus filhos (Birman, 2007).

Isso faz com que vivenciemos um período singular acerca dessas transformações. Mudanças a serem compreendidas em seus desdobramentos e reverberações quanto à dessacralização e desidealização da família.

Temporalidades das famílias: caleidoscópios em

movimento No tópico anterior, destacamos algumas das principais classificações da composição familiar. Apontamos transformações e inovações, tanto no que diz respeito ao âmbito social, cultural, político e econômico quanto aos processos de subjetivação. Contudo, como nos atemos à questão da dinamicidade familiar e da coexistência de temporalidades, sinalizaremos as distintas temporalidades familiares de forma a romper com os marcos históricos que empreendem uma leitura estática (de simples sucessão e/ou superação de modelos familiares).

Nossa concepção é a da coexistência desses modelos, especificamente o da família extensa (patriarcal) e da família nuclear (burguesa), ao longo da história, e sua constante reinvenção, o que faz as modalidades do “ontem” e do “hoje” coexistirem no presente. Ou seja, um passado que se faz presente e um presente que se faz futuro, pois falar de família é se deparar com a sua multiplicidade, tais como as peças do

caleidoscópio23 que revolvem e se combinam de diferentes formas a cada movimento. Ademais, é nesse caleidoscópio em movimento que conseguiremos compreender os distintos arranjos das famílias dos barrageiros, especialmente por carregarem consigo as marcas da migração laboral, oportunizadoras de enlaces e desenlaces dentro e fora do espaço doméstico e do laboral.

A família brasileira de ontem se faz ainda presente e remete a um futuro não longínquo, ao pensarmos nas constatações da pesquisa de Machado (2001) sobre o grande modelo referencial na literatura científica e na sociedade brasileira colonial: a família patriarcal. A partir disso, podemos inferir dois aspectos. Primeiro, a família patriarcal, no que se refere às relações de gênero (subjugação da mulher pelo homem) e o poder e divisão de trabalho assimétrico (no espaço doméstico e laboral), não foi suplantada na atualidade. Há um passado recente que apresenta, ainda hoje, seus reflexos e imprime conformações familiares. Segundo, tanto no período do Brasil Colônia quanto na atualidade existiram e existem modelos distintos do patriarcal. É preciso assinalar esse fato referente ao passado para situar o presente.

A ideia de essa monocultura temporal persistir faz que se acredite em uma época do Brasil colonial desprovida de outras formas familiares que não fossem as patriarcais e que na atualidade o pátrio poder familiar, o qual exerce subjugação da mulher pelo casamento/ conjugalidade ou por seu companheiro, tenha desaparecido.

Historiadores, sociólogos e antropólogos brasileiros já destacaram

a importância da “família patriarcal” tal como caracterizada por

Gilberto Freire (1980) [1933] em “Casa-grande e Senzala” e em

“Sobrados e Mocambos” (1951) [1936], para a construção social de

um tipo de modelo familiar que fez efeito em toda a sociedade

colonial, mas também no período da Independência, da República

até a contemporaneidade, senão para impor uma mesma forma de

família, mas para instaurá-la como modelo referencial. (Machado,

2001, p.15)

Destaca-se na exposição da autora que, apesar de esse modelo se impor e legitimar-se do período colonial à atualidade, ainda nos séculos XIX e XX se fazia presente, embora invisibilizado, desqualificado e negado – como situa Boaventura de Sousa Santos (2004) sobre a relação da temporalidade dominante sobre a dominada – a presença constante e expressiva de famílias monoparentais com menor número de integrantes, concubinagens e rearranjos distintos, especificamente as das classes populares.

Essa evidência pode ser confirmada nos estudos de Samara (2002) que, ao analisar os recenseamentos da população no Brasil nos últimos 150 anos, identificou que as famílias extensas patriarcais não foram as composições predominantes na história da família brasileira a partir do

período colonial24. A mesma autora destaca que, no meio urbano, no século XVIII, embora não reconhecidos oficialmente nem valorizados, havia uma multiplicidade de modelos e formas familiares que transformaram os comportamentos vigentes acerca do papel restrito de gênero, da rigidez na divisão de tarefas e de trabalho. Essa conjuntura estava atrelada às novas relações mercantis que o Brasil colônia vivenciava – o que desmistifica o sistema patriarcal como único modelo possível de família nessa época.

Disso podemos depreender que um passado presente, pouco (re) conhecido, faz-se perceptível ainda hoje. Isto é, não é novidade nem exclusivo da atualidade um arranjo familiar (ao menos quanto ao número médio de integrantes) mais simples e reduto, com poucos

componentes por família25. Essa composição já se fazia presente na maior parte do período do Brasil colônia, conforme registrado em censos do século XIX (Samara, 2002). Outro dado importante da pesquisadora é sobre o chefiamento e a manutenção econômica de famílias por mulheres. Esse fato se fazia expressivo já em meados de 1800.

Tudo indica, portanto, ao menos na primeira metade do século XIX,

os domicílios de pessoas pobres eram, geralmente, chefiados por

mulheres, que contavam com o trabalho da família para

sobrevivência [...]. Em todos esses lares era comum a liderança

feminina, organizando as tarefas, gerenciando os pequenos

negócios e exercendo o controle da família, o que, sem dúvida,

fugia à regra do modelo patriarcal [...] as evidências históricas

examinadas são enriquecedoras para repensarmos o perfil da

nossa família na atualidade e a complexidade de padrões que

existiram nos séculos XVIII e XIX nas diferentes regiões, etnias e

grupos sócio-econômicos, o que comprova que ao menos

numericamente a família brasileira não era sinônimo de família

extensa. (Samara, 2002, p.37)

Temos que reconhecer que o modelo patriarcal prevalecia no imaginário social (e por que não científico?) por se apresentar, ideologicamente, como ideal e necessário para a manutenção da divisão de classes e manutenção do status quo. Conferia prestígio, moral e reconhecimento social. Percebemos essa lógica sendo reiterada no atual modelo adotado, que concebe como ideal a família nuclear burguesa, pois são a sua forma e a composição que determinam o que é família “completa”, “funcional” e “estruturada”. O que fugir desse parâmetro, se não for taxado como “incompleto” e “desestruturado”, é ignorado ou normatizado pelos dispositivos de controle do Estado e do capital.

Contudo, como tratamos de uma instituição que não cessa de se reinventar, em que o indivíduo e o social se encontram e a realidade macro e microssocial se tocam, temos de buscar recursos teóricos e metodológicos que legitimem essas coexistências históricas.

É nos termos dessa lógica que a modernidade ocidental produz a

não-contemporaneidade do contemporâneo, e que a ideia de

simultaneidade esconde as assimetrias dos tempos históricos que

nela convergem. (Santos, B. S., 2004, p.15)

Entendemos que a atualidade traz as marcas de produções e processos que coexistem, fazendo que composições e lógicas das famílias de ontem (como os resquícios da família patriarcal, cujo código hierárquico, de poder e de gênero são bastante divisos e desiguais) ainda se façam

presentes26. De modo similar, o presente se faz futuro, quando avistamos transformações não livres de tensões e de conflitos, oriundos das transições sociais, econômicas, culturais, tecnológicas e dos processos de subjetivação. Desse confronto, podemos avistar três possibilidades: as famílias que se reinventam, gerando rupturas e transformações dos modelos ideários; as que se reinventam na esteira da reprodução e repetição; e as que, por meio de novos arranjos geradores de relações, poderes, afetos e laços, estão por ser conhecidas e compreendidas em seus efeitos.

Constatar esses aspectos é fundamental para podermos problematizar o contexto dos barrageiros, se o cônjuge deste, ao escolher manter uma atividade produtiva remunerada, fora de casa, consegue romper a lógica centrada no gênero masculino que ressoa o patriarcalismo. Poder indagar como as peças desse caleidoscópio se movem a fim de compreendermos como os sentidos e configurações familiares dos barrageiros conseguem romper ou manter as temporalidades do “ontem” e do “hoje”.

Outro aspecto a destacar da combinação do ontem e do hoje27, que nos faz chamar o passado presente e o presente futuro com a finalidade de situar as temporalidades que coexistem, diz respeito às pesquisas de Fonseca (2005), Machado (2001) e Sarti (2010). As referidas autoras, em estudos respectivos, constatam que a família estendida não desapareceu nem tende ao desaparecimento iminente perante a família nuclear, principalmente no que diz respeito às classes populares investigadas em suas pesquisas. Aliás, mesmo as famílias monoparentais podem se encontrar vinculadas às famílias extensas, independente de classe social, pois podem estar em relação de não oposição, mas de complementaridade de rede de parentela, de circulação, de sociabilidade, de solidariedade, de reciprocidade, de ajuda e cuidado mútuos. Essa característica é um arranjo inventivo e criativo. Um recurso diante das necessidades de luta pela sobrevivência. Vemos nesse contexto as relações de gênero também se diversificando, os cuidados com os filhos não se restringindo apenas à figura parental (paterna e/ou materna), além do próprio redimensionamento do que é privado e público nas relações de vizinhança e comunidade.

Sobre esse aspecto, Giddens (2000) identifica modalidades de família europeia entre os séculos XVI e XIX que se assemelhavam à família nuclear. Essas relações, podendo incluir desde parentes mais distantes até as relações comunitárias, não possuíam fronteiras delimitadas que as separassem umas das outras, mas se constituíam de forma complementar. Embora a conjuntura histórica e social se diferenciasse, e aqui não pretendemos fazer justaposições atemporais, queremos situar que em momentos históricos distintos as famílias puderam se (re) (de)compor e vivenciar relações próximas entre o público e o privado, entre a família e a comunidade, tal como Fonseca (2005), Machado (2001) e Sarti (2010) nos apresentam com os resultados de suas pesquisas recentes. Essa constatação é exemplar para apreendermos a dinamicidade de seus arranjos ao longo da história dessa instituição.

Nesse ínterim, a cisão entre família extensa e família nuclear não se deu para todas as formas familiares a partir da instauração da modernidade e da constituição da família nuclear burguesa. Pelo contrário, os dados atuais das mencionadas autoras nos sugere que essas relações não ficaram em um passado remoto nem tendem ao desaparecimento, mas foram ressignificadas e reinventadas em novos contextos sociais, familiares e subjetivos. Daí advém nossa terminologia “passado presente” como forma de explicitar esse aspecto, haja vista que se trata de uma premissa analítica da coexistência de temporalidades.

Por sua vez, quanto ao termo nomeado como “presente futuro”, devemos reconhecer a conotação de possibilidades que se delineiam na atualidade. Dito de outro modo, seriam os traços esboçados pelas transformações familiares em curso que sugeririam formas e expressões de seu caráter dinâmico e criador, contudo, ainda a se definir de modo mais preciso e aprofundado, mas sem deixar de manifestar sua existência. Para isso, Machado (2001) e Giddens (1993) apontam algumas tendências. A primeira diz respeito à composição familiar que possibilita relações de gênero, funções, papéis, vínculos e provedores de família podendo ser vividos de modo mais igualitário. A segunda, as famílias recompostas, permite outros laços a serem feitos entre padrastos, madrastas, filhos de outros relacionamentos etc. Outra tendência a se difundir são os espaços e ações mais individualizados que comportam negociações e escolhas que não necessariamente venham a envolver ou incluir o parceiro, isso é perceptível em várias dimensões como moradia, projeto profissional, criação dos filhos etc. Nesse prospecto, a autora também identifica relações entre avós e netos que tendem à diminuição e distanciamento, pois as filiações dos pais adultos restringem-se ao seu núcleo e se desprendem da sobreposição ascendente.

Devemos admitir que essas são expressões de algumas transformações identificadas. Parte delas remete às relações de gênero, de filiação e concepção que possibilitam o reinventar e rearranjar em outros parâmetros a família, algumas delas apontando para a diversidade e igualdade. Elas não são únicas nem lineares. Tampouco definidoras dessas transições. Precisamos conhecer melhor seus desdobramentos, suas temporalidades e como esse presente articula o passado e se projeta em um futuro.

Giddens (2000) nos convida a problematizar essa questão, que vai ao encontro da nossa perspectiva de temporalidade quando ontem e hoje se mostram convergir. Vejamos o que o sociólogo britânico nos diz ao retomar Boswell (1995 apud Giddens, 2000, p.192193, tradução nossa):

Na Europa pré-moderna, o casamento costumava começar como

um contrato de propriedade, centrava-se posteriormente na criação

dos filhos e terminava convertendo-se em amor. Na realidade,

poucos casais se casavam “por amor” mas, com o passar do

tempo, muitos chegavam a se amar à medida que organizavam sua

casa, criavam os filhos e compartilhavam as experiências da vida.

Quase todos os epitáfios dedicados a esposas ou esposos que se

conservam desvelam um afeto profundo. Pelo contrário, na

sociedade ocidental atual, o casamento quase sempre inicia com

amor, depois se centra também na criação dos filhos (se os há) e

termina – frequentemente – ocupando-se das propriedades,

quando o amor já não existe e é apenas uma lembrança distante.

Diante disso, Giddens (2000) aponta que a família na contemporaneidade tem sido atravessada pelo consumo, as novas relações de trabalho e do capital que geram possibilidades e ao mesmo tempo produzem limitações. As relações de propriedade não desapareceram, até porque o sistema de produção permaneceu, mas o que se vê são atuações das forças do capital no ideário neoliberal se sobrepondo à família, à casa, às relações, à intimidade e aos afetos – o tempo de trabalho colonizando o tempo de vida, como havíamos discutido em tópicos anteriores.

Acerca do assunto, os estudos de Scheinvar (2006) são seminais. A autora verificou que, ao se estabelecer a institucionalização de um modelo (hegemônico) de família, fortalecem-se as forças que fazem dela um espaço de privatização do social em um sistema controlado pela lógica individualista e privada. Isso se constitui porque a família, enquanto elo entre o público e o privado, tem sido posicionada como alvo estratégico para a efetuação de cobranças e intervenções do controle social.

E de que maneira essa privatização do social na família se efetivaria? Scheinvar (2006) apresenta alguns elementos. O primeiro, situado do fim do século XIX em diante, no Brasil, menciona os efeitos da adoção do modelo higienista, calcado no poder do médico. Instrumentaliza-se um ordenamento social por meio da articulação entre família moderna e os aparelhos do Estado. São lançadas bases do conhecimento científico que, enquanto dispositivo de captura, abrange a esfera social e subjetiva por meio do esquadrinhar das dimensões espacial, arquitetônica, biológica, educacional, afetiva etc.

Um aspecto que vem reafirmar essa discussão e avançar na análise dessa conjuntura, em que as vias de captura se operacionalizam não somente mediante o aparelho do Estado, mas a partir do ordenamento dos afetos e do amor, é apontado na obra de Costa (1979, p.23):

O ponto culminante da união conjugal era o amor. Mas, ao contrário

do amor romântico, o amor higiênico era pragmático. Reclamava

seus vínculos com a sexualidade e procriação. [...] Caberia,

portanto, perguntar o que levou o pensamento médico a recorrer ao

amor quando, do ponto de vista da higiene, ele estava

perigosamente contaminado pela noção do amor romântico. Tanto

mais quanto, à primeira vista, o simples controle da sexualidade no

casamento parecia poder cumprir a contento a missão disciplinar

médico-estatal junto ao casal. Estas questões encontram algumas

de suas respostas quando se analisa o enfoque tático dado pela

higiene à simbiose entre sexo e amor. Num primeiro nível, observa-

se que o amor tornou-se necessário à higiene porque era um dos

poucos estandartes morais disponíveis na luta contra os valores

patriarcais. Em particular, na luta pelo direito de escolha afetiva e

pessoal do cônjuge contra as razões do grupo familiar. Neste

registro, os médicos aderiam, sem restrições, ao amor romântico.

Esse modelo potencializa o padrão da família nuclear e burguesa, individualizando a responsabilidade por problemas sociais e formatando concepções de saúde, higiene, normalidade e segurança. Nesse bojo, firmam-se práticas institucionais e exercícios de poder, baseados nas relações de filantropia, clientelismo, paternalismo e autoritarismo. Como consequência, há uma crescente despolitização, culpabilização dos pobres e das famílias que fogem ao modelo nuclear burguês, um incremento da cultura submissa e desagregadora, que operam individualmente e que buscam conter o movimento social, além da crescente falta de autonomia e depredação de práticas e ações coletivas.

Como isso se operacionalizou na existência dos barrageiros? Essa questão foi elementar para que nos atentássemos não para uma classificação de modelos familiares da conjuntura dos barrageiros, mas para circunstanciar sua trajetória social e seu enredo familiar, tecidos no campo da migração laboral, econômico e político-ideológico.

Diante desse complexo quadro, Scheinvar (2006) assinala que é preciso sair de uma produção naturalizada, generalizada e unívoca de família para que esta possa vir a protagonizar e intervir nos processos a que está submetida. Nega-se uma única definição de família que redunde na homogeneização desta para se afirmar uma concepção que abarque a sua diversidade, que não oculte os efeitos das estruturas políticas, sociais e econômicas do modo de produção capitalista neoliberal. Disso, depreendemos que a família não é apenas transformada por essas forças, mas também pode agir em sua transformação.

Por fim, a partir desse percurso, culminamos na afirmativa: “a família ainda é como era e a família não é mais a mesma” (Oliveira, 2007, p.10). A autora dessa afirmação diz que podemos comprovar no Brasil a existência de diversos arranjos familiares, a diversidade de modelos coexistindo com formas que, ao entrelaçar um passado e um presente, projetam um futuro. Essas temporalidades não estão em vias de extinguir sua ambiguidade nem sua contradição, o que reafirma nossa posição de que a coexistência de diferentes temporalidades familiares forja a pluralidade familiar – força capaz de perdurá-la e transmutá-la simultaneamente.

Considerações sobre o caleidoscópio familiar

Ao nos referirmos aos caleidoscópios, remontamos ao movimento paradoxal e tensionado que as transformações históricas, sociais, culturais e econômicas expressam acerca da existência humana e de seus processos de subjetivação. Todavia, não devemos esquecer que nessas forças os indivíduos, os grupos sociais e as próprias famílias produzem outros arranjos com essas peças, logo, outras formas de viver podem ser encontradas e ressignificadas por meio de suas experiências sociais e subjetivas mediante as artes de viver. A cada movimento, nesse confronto do sujeito social com a realidade, configuram-se não somente impedimentos e obstáculos, mas reinvenção e criação da família e do social.

Entendemos que importantes pesquisadores, como os citados até aqui, trouxeram contribuições científicas relevantes sobre o tema da família brasileira ao se reportarem ao horizonte discursivo da metáfora da “colcha de retalhos” (Arantes et al., 1993). Esses autores não apenas realizaram um resgate histórico da diversidade da organização familiar para além dos modelos hegemônicos, refutando-os, como também apontaram seu caráter sócio-histórico e político-econômico que uma análise desse tema deve conter para haver uma devida contextualização.

Sendo assim, a perspectiva da colcha de retalhos permitiu avanços inestimáveis no debate sobre a instituição familiar. Contudo, almejamos um passo adiante ao optarmos pela terminologia caleidoscópio a fim de ampliar a necessária problematização nesse campo de estudo e por este termo comportar de maneira mais contundente o caráter dinâmico, dialético e polissêmico do insistente (re)inventar dessa instituição.

Nesse prisma, pudemos debater ao longo deste capítulo dois eixos dominantes que se apresentam como opostos na literatura científica sobre os arranjos familiares: o modelo da família patriarcal e extensa (a família de ontem) e o modelo da família burguesa nuclear (a família de hoje). Essas leituras, quando entendidas como modelo estático e linear, na perspectiva da monocultura temporal, impedem de reconhecer a coexistência, complexidade e diversidade familiar presentes ao longo de toda a história brasileira.

Diante disso, poderíamos perguntar se de fato essas modalidades foram superadas na atualidade ou mesmo se estão em vias de desaparecer e/ou serem superadas. Ao chegarmos à conclusão de que a família é constantemente reinventada, mesmo dentro desses tradicionais arranjos, podemos passar da pergunta: quais são os modelos de família existentes? para a seguinte: quais são as formas de se viver a família? Logo, quais são os sentidos e significados atribuídos pelos sujeitos (barrageiros) àquilo que denominam de família?

A partir desse olhar, podemos avistar a singularidade que nela reside, uma vez que, para sobreviver, é preciso rearranjar a norma, reinventar o modelo preconizado pelo ideário dominante, pois estes são insuficientes e distantes da realidade vivida. Insuficientes porque não bastam em si mesmos como únicos modelos possíveis de se viver a família (ou mesmo defini-la), uma vez que não são capazes de abarcar as reais condições existenciais em sua diversidade e adversidade. Insuficientes porque os sujeitos sociais em suas diferenças e experiências produzem um conjunto de conhecimentos, perspectivas, desejos e anseios que, por meio da astúcia e da inventividade, podem encontrar outros subterfúgios e saídas diante de suas necessidades e dos imperativos da realidade – que dentro do padrão predominante e dual de família não seriam viáveis ou nem mesmo possíveis de conferir resposta.

Percebemos que as atuais transformações referentes às relações de poder e a de gênero delimitaram novas configurações para o que era tradicional no modelo familiar, principalmente para possibilidades que ensejam o avanço da desconstituição (ou questionamento) do patriarcalismo. Consoante a Giddens (1993, 2000), seria arriscar a dizer que as mudanças experimentadas na família, em seus arranjos, matrimônios, composições, formas de amar e conviver, suas relações de gênero entre outros, fazem-se irreversíveis. Isso porque foram transformadas não apenas as possibilidades de se constituir família, mas também o indivíduo e a sociedade.

Entretanto, não podemos omitir que a família, enquanto um “entre” na relação indivíduo e sociedade, é um topos estratégico para exercício de poder, controle e dominação. Somado isso às perversas formas neoliberais que têm solapado os laços sociais, vivenciamos uma contemporaneidade cravada pela crise das instituições, do individualismo narcisista, do Estado reduzido, da cidadania frágil e negada. Esse é o cenário propício para que a importância da família seja reativada e ao mesmo tempo sobrecarregada, o que vem torná-la alvo tanto das políticas libertárias quanto das reacionárias (Sawaia, 2010).

De que modo, então, a família teria subsistido ao longo da história a essas forças que buscam homogeneizá-la e dominá-la? É possível encontrar indícios disso na afirmação de Sawaia (2010) de que, se a família permaneceu na história da humanidade, foi em razão de sua principal força: o valor do afeto. Ela é uma instituição que, afora suas forças coercivas, possui a capacidade de promover aos indivíduos um protagonismo social, experimentar a sensibilidade e vínculos que permitem viver o comum – além de poder ser um recurso material e imaterial para a manutenção da própria sobrevivência. Essa afirmativa é deslindada pela autora sem romances, tampouco a ideais e estereótipos que costumam rondar a família.

Longe desse engano, a autora não nega os conflitos e sofrimentos que são sua condição e empreende uma releitura em que há um ponto de conversão: das imposições que ela sofre, uma manobra é feita: fazer outro uso daquilo que lhe é designado. Isso possibilita emergir as artes de viver que De Certeau (2012) afirma, ao empreender uma leitura da sociologia do cotidiano: no lugar de disciplina e normatividade, poder viver a liberdade. Experimentar a autonomia e criar outros modos de existência.

Ao tratarmos dos (des)encontros trabalho-família, tal como um caleidoscópio ao rearranjar suas peças a cada movimento, veremos nas narrativas como essas contraposições, produtoras de paradoxos, vêm à tona, ao nos debruçarmos sobre os dispositivos da empresa que ao mesmo tempo que promovem controle também podem gerar aproximação; como a colonização do tempo de trabalho sobre o de vida pode produzir projetos familiares, articulados ao registro laboral; como o individualismo, constituído no neoliberalismo, pode produzir solidariedades e ajuda mútua entre essa categoria profissional; como migrar pode depredar referências e pertencimentos enquanto forja novos vínculos, relações e redescoberta de si e do outro.

Nessas circunstâncias, em que pudemos conjugar trabalho e família, deparamo-nos com a pluralidade e contradição que existem em torno da instituição familiar. Isso exigiu um constante indagar integrado ao percurso investigativo, como nos sugere Machado (2001): traçar caminhos norteadores para uma análise elucidativa, aqueles que fizessem menção às diferenças; estas, sim, seriam a “nata” das análises (Machado, 2001, p.18). É poder superar modelos ideais (ideológicos) que não somente limitam o campo de análise, mas também ignoram a interlocução entre as diferenças familiares, as temporalidades e as áreas de conhecimento.

Também compartilhamos com a concepção de Corrêa (1993), em que outra forma de captar as temporalidades familiares dos barrageiros seria a abertura para o estudo contextualizado de grupos familiares, investigações que se aproximassem da riqueza do cotidiano e de suas especificidades.

Esse foi o caminho que permitiu estabelecer pontes entre o contexto sociossubjetivo e a pluralidade familiar a fim de superar dicotomias: o externo e interno, público e privado, objetivo e subjetivo, material e imaterial. Uma análise dialética e persistente que não negou suas contradições e polissemias, mas se atreveu a trabalhar com elas.

Finalmente, diante do mal-estar, dos riscos e incertezas que acometem a sociedade, suas instituições e processos identificatórios – como havíamos mencionado no início deste subcapítulo –, deparamo-nos com o ressurgimento da família como instância capaz de constituir outra ordem simbólica, social e de legitimação para o sujeito – seja para a tirania do capital neoliberal seja contra as crises das instâncias referenciais (Estado, partido, Igreja, nação, trabalho etc.). Esse insurgimento, de acordo com Roudinesco (2003), é possível se a família promover uma condição, um lugar social e de subjetivação, capazes de conjugar o eu e o nós, a diversidade e a alteridade para o sujeito constituir-se – ser uma superfície enraizadora. Contudo, será preciso que o passado presente e o presente futuro não deixem de ser reinventados. Fagulhas de possibilidades acerca disso Beck-Gernshein (2011) nos aponta, como o próprio título de sua obra sugere, em La reinvención de la familia.

 

1 Esclarecemos que ao longo do texto recorreremos à etimologia por entendê-la como um importante recurso interpretativo. No resgate das palavras, reavemos suas origens e o manifestar de novas zonas de sentido que, conforme Barthes (2003), promovem uma operação fecunda de desdobramento dos significantes, tal como um dossiê a ser aberto e explorado. Ademais, nas palavras humoradas de Lebrun (1998, p.12): “Nunca se perde tempo exercitando um pouco a etimologia”.

2 Gostaríamos de especificar que Castro (1998) discute essas duas terminologias, opus e poiesis, relacionando-as à questão da poética e da interpretação.

3 Dados complementares acerca dessa discussão e estudos específicos dessa população foram feitos por Pochmann (2000) em A batalha pelo primeiro emprego.

4 Ritmo imposto por outrem, fazendo alusão ao termo evocado por Barthes (2003) para debater nosso objeto em que a singularidade é negada pela imposição produtiva do capital.

5 Outra narrativa das experiências operárias do trabalho precarizado no Brasil se refere às Crônicas da vida operária, de Jatobá (2006). Nela, o cenário é o das fábricas do ABC paulista onde o universo subjetivo dos trabalhadores, expresso em seus medos, sofrimentos e inseguranças, é trazido à tona a partir do cotidiano social de trabalho e moradia. A relação trabalho e sociedade encontra-se intimamente vinculada, o que reverbera as denúncias de Pagu (1994) até a atualidade.

6 Estamos cientes de que esses autores possuem diversas outras produções e publicações nessa área, assim como outros nomes poderiam ser mencionados, contudo, assinalamos apenas algumas referências para destacar ao leitor literaturas que têm contribuído para essa discussão, inclusive as que foram utilizadas para a nossa pesquisa.

7 Depois de pelo menos 50 anos de controle estatal, o setor hidrelétrico passa por uma intensa reestruturação ao ser privatizado. As companhias operadoras desse ramo, que antes eram controladas no nível estadual e no federal, passam a fazer parte da iniciativa privada. Isso gera divisões nas atividades outrora concentradas no Estado, isto é, passam a atuar de modo independente companhias responsáveis pela geração, transmissão e distribuição, além de surgirem novas entidades para controlar e fiscalizar esse setor, como a ANEEL em 1996 (ANEEL, 2008).

8 Para termos uma ideia dessa diferença abismal, Gaulejac (2007, p.170) nos aponta essa realidade com uma questão denunciadora: “O que vale uma sociedade na qual as 80 maiores fortunas representam ganhos médios de mais de um bilhão de pessoas? Um mundo no qual 1% dos mais ricos tem um ganho igual a 57% dos mais pobres, no qual as três pessoas mais ricas possuem uma fortuna superior ao PIB de 58 países mais pobres? Não há nessas cifras algo de insensato?”.

9 Bourdieu (1998) denomina isso de um “discurso forte”, pois sua força faz-se vigorosa por dispor de potências econômicas, políticas e de relações dominantes.

10 A amplitude neoliberal, que veio tomar conta de governos e Estados, deu-se a partir de 1970 e em uma década alastrou-se pelo globo: fim de 1979 na Inglaterra com Tatcher; 1980 nos EUA com Reagan; 1982 na Alemanha com Khol; 1983 na Dinamarca com Schluter; em seguida tomou a maioria dos países ocidentais da Europa, exceto Suécia e Áustria. Na década de 1990, no Brasil, nos governos Collor e FHC, esses ideais encontraram-se aplicados com maior rigor pela política nacional (Anderson, 1995).

11 Burckhardt, a quem Blumenberg (1990) faz referência, é interessante para nós porque foi um historiador pioneiro ao incluir os aspectos sociais e culturais no estudo do passado. Sua peculiar visão de história produziu ressonâncias em importantes pensadores, como Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Theodor Adorno e Norbert Elias. Para saber mais sobre esse historiador, ver o artigo de Vermeersch, 2003.

12 São os esboços do que viria a ser, segundo Pochmann (2001), os países do centro, semiperiféricos e periféricos.

13 Barthes (2003) lembra que nesse período viveram 27 anos, contemporaneamente, Marx, Mallarmé, Nietzsche e Freud, sendo possível reuni-los em alguma cidade da Suíça em 1876. Se isso tivesse sido possível, nesse encontro Freud teria 20 anos; Nietzsche, 32; Mallarmé, 34; e Marx, 56 anos!

14 No jogo de palavras entre apostasia (ato de renúncia e renegação) e hipostasia (atribuir de modo abusivo uma realidade absoluta a algo relativo), vemos não apenas um futuro enquanto desejo, projeto e longo prazo fragilizados por advirem de um passado que sofre insistente esquecimento (apagamento), mas também uma ideia de futuro supervalorizada enquanto revelação ou progresso, que também desconsidera a história passada e a própria vivência do presente.

15 Barthes (2003) menciona esse termo que pode nos auxiliar a pensar a singularidade e a subjetividade. Na etimologia, idiorritmia é formado do grego e significa ritmo próprio, particular. Originalmente faz menção a um aglomerado de monges que viviam um gênero de vida particular. Diferenciado do das comunidades (cenobíticas) onde tudo era feito junto, vivia-se o próprio ritmo ao escolher o momento de fazer suas refeições, orações e atividades litúrgicas – passíveis de serem realizadas em períodos facultativos, além da existência de celas separadas.

16 Gostaríamos de pensar a ternura em termos éticos, reconhecedora dos afetos e das subjetividades, uma vez que o substantivo não remete apenas à brandura do carinho, mas também da tristeza e do sofrer da condição humana. Seria viver esses afetos, nomeá-los e negociá-los de modo legítimo no campo social, inclusive do trabalho e da família.

17 Pesquisadores de diferentes áreas que buscaram tanger a polissemia, em torno da concepção de família, refratam no título de suas obras esse aspecto: A família em desordem (Roudinesco, 2003), Colcha de retalhos (Arantes et al., 1993), Família em movimento (Cerveny et al., 2007), La reinvención de la familia (Beck-Gernsheim, 2011), entre outros.

18 A simetria a que Boaventura de Sousa Santos (2004) faz menção são os caminhos histórico-analíticos que expressam uma referência explicativa para o ponto de partida e o de chegada, entendidos como únicos e verdadeiros.

19 Como visto, é interessante lembrar que Benjamin (1994a) já combatia essa linearidade histórica em 1940 ao escrever suas 18 teses sobre o conceito de história. Dialogamos as teses 14 e 15 com a monocultura linear de Boaventura de Sousa Santos (2002, 2004) ao contestar o ideário de história como fatos dispostos em um continuum. Para Benjamin (1994a), o tempo histórico é objeto de construção e está saturado de “agoras”. São temporalidades que se produzem, se ressignificam e se (des)encontram, não livre de tensões, mas imersas em jogo de forças e de exercícios de poder.

20 Giddens (2000) traz uma curiosa constatação acerca da historicidade do termo “relação” e de seu uso que se generalizou de modo recente. A palavra “relação” se difundiu com maior vigor, a partir de 1960, remetendo à ideia de esfera privada em termos de intimidade e compromisso com alguém, não se vinculando apenas à sexualidade, mas se estendendo aos pais, cônjuges, parceiros, filhos, amigos e conhecidos. O autor delimita o uso prosaico e corrente que essa acepção assumiu na atualidade com a seguinte pergunta: “como vai a sua relação com...?”.

21 Especificamente no cenário brasileiro, Outeiral (2003) demarca esse período de transição da família patriarcal para a nuclear com dois fatos sociais: 1o período de 1940-1950, com o intenso fluxo migratório, advindo da zona rural para a urbana, quando as cidades cresceram de forma acentuada e caótica; 2a inserção da mulher no mercado de trabalho.

22 Devemos atentar para essas mudanças na legislação, especialmente as que puderam contrapor os primórdios do Código Civil brasileiro de 1916, que reconhecia e legitimava a supremacia masculina, relegando a figura feminina a uma série de restrições acerca do acesso ao trabalho, à propriedade, educação e autonomia (Samara, 2002).

23 A etimologia “caleidoscópio” vem do grego e é formada pela conjunção das palavras belo; forma; olhar. Essa raiz nos sugere um significante em que o olhar do pesquisador deve se posicionar por meio de uma postura ética, estética e política que possibilite a redescoberta das formas de existir para poder apreciá-las. Desse modo, tal qual o artefato ótico do caleidoscópio, que possibilita arranjos múltiplos se formarem conforme o movimento, somos convidados a rever o percurso da produção científica e do real a fim de reconhecer o caráter dinâmico da vida e as distintas possibilidades de existência ao longo da história, não restrita a modelos pré-estabelecidos.

24 Importante notar o predomínio que o modelo patriarcal da obra de Freyre (1963), Casa grande e senzala, atingiu na literatura científica. Essa obra, que data do início do século XX e refere-se às áreas de lavoura canavieira do Nordeste, fez dessa modalidade familiar o parâmetro de análise para investigações das famílias brasileiras, generalizando de modo equivocado ao ignorar outras temporalidades, etnias, grupos sociais, regionalidades, contextos econômicos e culturais, relações de gêneros e migração que geraram outras composições familiares (Samara, 2002).

25 Em São Paulo, em 1836, os censos apontavam que predominavam as famílias nucleares, sendo o número médio de habitantes por domicílio de uma a quatro pessoas (Samara, 2002).

26 Machado (2001) desenvolveu pesquisas sobre esse tema o qual denomina “patriarcado contemporâneo” ao mencionar as relações de gênero ainda desiguais e com marcas da violência do homem sobre a mulher.

27 Se fôssemos mais longe nessa discussão acerca da temporalidade, capaz de conjugar passado e presente, retomaríamos as análises de Giddens (2000) que contestam a existência da família nuclear apenas na modernidade. O autor afirma que, a partir do século XVII, já se podiam encontrar na Europa Ocidental famílias não extensas cujo tamanho médio era de 3,04 (Reino Unido) e 4,75 (Inglaterra) pessoas. Além disso, o autor menciona que a recomposição familiar e a dissolução de famílias se faziam presentes de modo intenso nos períodos pré-moderno e moderno, não tão diferente da atualidade em que esses mesmos fatores atuam em função do predomínio maior de divórcios. Contudo, o que se referia aos primórdios da modernidade e pré-modernidade e o que interferia na continuidade dos vínculos familiares, por exemplo, eram as elevadas taxas de mortalidade infantil e materna (ou mesmo a morte da esposa ou do marido), fatos passíveis de dissolver a família.