Do Mil ao Milhão: Sem Cortar o Cafezinho
Pilar 2. Investir melhor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Sem aprofundamento, essa informação pode nos induzir ao erro. Vamos supor que, apesar de a empresa B ter um P/L maior, ela dobra de tamanho todo ano, enquanto a empresa A apenas mantém seus lucros constantes. Essas novas informações fazem toda a diferença. Isso porque, se o preço das ações permanecer constante, e a empresa B dobrar seu lucro, o P/L irá para dez, fazendo com que ela se torne uma alternativa mais barata do que a empresa A, sendo necessário apenas tempo para revelar isso.
Onde você encontra o P/L de empresas?
Economática (serviço pago)
Fundamentus (serviço gratuito)
DIMENSÃO DE INDICADORES
MACROECONÔMICOS
Esta dimensão serve para averiguar o pulso do mercado no médio e longo prazo. As sinalizações dos indicadores macroeconômicos se modificam lentamente e, por essa razão, podem se distanciar dos ruídos do dia a dia.
Aqui, é importante entender que existem indicadores diferentes. Um deles é o que chamamos de “antecedentes”, que antecipam o andar da economia. Outro indicador são os chamados “atrasados”, que mostram algo que já aconteceu.
O Produto Interno Bruto (PIB) é um exemplo de indicador atrasado, pois seu valor reflete toda a movimentação ocorrida na economia. Por isso, dê preferência aos indicadores antecedentes, que antecipam o que vai acontecer. Um interessante, por exemplo, é o indicador referente ao consumo de papelão ondulado. Apesar de indicar algo que ocorreu no passado – a compra de papel para embalagem no último mês –, se o índice de alta for recorrentemente positivo, pode indicar que a atividade industrial também está positiva e que a economia do país tem possibilidade de melhora.
Saber interpretar cada um desses indicadores é importante para que eles não acabem atrapalhando sua decisão. Um fato isolado em um setor, por exemplo, pode ter um impacto negativo em um índice que não é necessariamente relacionado à economia geral do Brasil. Isso ajuda, mas para o investidor comum pode ter pouco impacto.
DIMENSÃO DO SENTIMENTO
Esta dimensão revela o ânimo dos investidores em relação às perspectivas do mercado. Ela exerce enorme influência sobre os preços, mas não pode ser mensurada de forma exata pelo estudo de finanças modernas. Sua aplicação se dá, em especial, no médio e longo prazo.
Em certas circunstâncias, a movimentação de preços e os indicadores de sentimento sobrepujam as sinalizações apresentadas pelos indicadores macroeconômicos, preenchendo suas lacunas. Em outras palavras, quando há um sentimento positivo ou negativo em relação ao mercado, esse mesmo sentimento tem o poder de induzir o aumento ou a queda dos preços.
Nessa dimensão, na maioria das vezes a massa consegue manter um índice de acerto relativo por certo tempo, já que vai atrás do sentimento de alta ou baixa daquele papel para o momento. O maior erro desses investidores, no entanto, é perder muito dinheiro quando há uma reversão de tendência, pois é muito difícil acertar o momento de mudança.
Para exemplificar o que seria a ação do sentimento, vamos a algumas imagens.
No primeiro quadro, vemos em destaque a alta máxima de 1971. No dia 26 de maio daquele ano, a revista Veja publicou uma capa em tom positivo sobre a “BolS/A” com a manchete “A multiplicação do dinheiro”.
Em outro exemplo, observe o gráfico de 1983. A Veja de 9 de fevereiro do mesmo ano trouxe uma capa alarmante: com cores fortes e tons sombrios, ela anunciava o Brasil em crise, a inflação, a recessão, o desemprego, as dívidas.
E em 2008, no auge da Bolsa pré-crise, a mídia, mais uma vez, estava muito otimista. A revista IstoÉ publicou uma edição que prometia ensinar ao leitor “como ganhar na Bolsa” com a experiência de quem já havia lucrado até 1,5 bilhão.
A ação do sentimento é notada quando alguma aplicação começa a render muito. Quando o bitcoin esteve com a cotação nas alturas é que todos começaram a ouvir sobre o assunto, ou quando a Bolsa subiu tudo o que tinha de subir, é que as pessoas começaram a se sentir tentadas a comprar. Somos influenciados por noticiários, capas de revista, conversas de escritório, opinião de família e amigos. Com o tempo, o feeling fica mais apurado. Se todos estiverem falando que algo é uma oportunidade, pense que é impossível isso fazer sentido, pois a grande massa está sabendo do assunto. E, se deixou de ser oportunidade, virou um erro para o investidor atento.
DIMENSÃO DA AÇÃO DOS PREÇOS
Esta dimensão serve para avaliar a saúde de uma tendência no curto prazo, do seu timing. Um de seus princípios é buscar indicadores que identifiquem logo no início o nascimento de uma tendência de alta. Aqui nós utilizamos conceitos básicos de preço, volume e volatilidade para entender como está a “zona de guerra” com os investidores de maior porte.
No jargão do mercado, trata-se da análise técnica. Ela tenta, por meio do estudo de diferentes dados relativos ao mercado, tendências e variações, descobrir oportunidades de ganho por meio dos padrões que aparecem nas oscilações do preço das ações. Isso é possível porque, idealmente, a formulação do preço de uma ação não é dada somente pela situação macroeconômica do país ou por notícias sobre determinada empresa, mas sim pela maneira como compradores e vendedores reagem a esses fatos na tomada de decisões dentro da Bolsa de Valores.
Essas reações acabam formulando alguns padrões nos gráficos de análises de ações, e com eles tentamos entender se uma ação está em tendência de alta ou baixa. Não vou me aprofundar na análise gráfica, mas aqui estão alguns indicadores nos quais investidores podem se basear para o curto prazo.
Suporte e Resistência: representam os patamares mais baixos e altos, respectivamente, que constituem pontos onde as ações tendem a cair ou subir. Quando uma ação bate muitas vezes no mesmo preço alto, configura-se o que chamamos de resistência. Quando o preço bate diversas vezes no preço baixo, chamamos de suporte. A importância disso é que, sob a ótica da análise técnica, o ativo tende a voltar sempre que atinge um desses pontos, mas quando o rompe, pode quebrar a tendência e seguir indefinidamente.
Índice de Força Relativa (IFR): considera as forças compradoras e vendedoras para ilustrar o fôlego de uma ação. É medido de zero a cem e sua análise pode ajudar a indicar oportunidades de curto prazo. Quanto mais baixo, melhor a oportunidade de compra. Como podemos ver no gráfico a seguir, do Itaú, os grandes fundos do ativo geralmente são caracterizados por um IFR baixo, e vice-versa.
Volume Financeiro: indica a quantidade de dinheiro negociada em um determinado período. Quanto maior o volume, maior a consistência da movimentação apresentada.
Por exemplo, faz sentido olhar para o volume de compra e venda do mercado para entender como ele está agindo. Quando as dimensões se juntam e temos, por exemplo, um volume alto de negociações começando a acontecer, indicadores antecedentes apontando recuperação econômica e um mercado barato por meio do P/L, é possível que o mercado esteja entrando em um momento de alta. E aí chega a hora de agir.
TESOURO DIRETO, O PRIMEIRO INVESTIMENTO A plataforma do Tesouro Direto é o destino de muitos pequenos investidores. Como já foi dito, é o tipo de investimento mais seguro do país, fácil de ser compreendido e acessado. Neste capítulo, iremos um pouco mais a fundo e entenderemos como essa modalidade funciona, como investir nela e o que podemos esperar de seu rendimento.
Comecemos, então, pela identificação dos três principais títulos do Tesouro Direto, que são disponibilizados para o investidor: o Tesouro Selic, o Tesouro IPCA e o Tesouro Prefixado.
O Tesouro Selic é o título público que tem seu rendimento atrelado à taxa Selic Over, possui pouca oscilação ao longo do tempo e seu rendimento segue uma linha praticamente crescente.
Vamos supor que Vanessa, uma investidora, ao ouvir falar muito bem sobre o Tesouro Direto, decidiu investir na plataforma. Ela reservou o total de quinhentos reais para o seu primeiro investimento. Na plataforma, decidiu escolher o Tesouro Selic 2023.
Supondo que a taxa Selic permaneça constante na casa dos 6,5% ao ano e que Vanessa destine mensalmente cem reais para o seu investimento, de 31/07/2018 até o dia 01/03/2023, temos o seguinte cenário:
Valor bruto de resgate até 01/03/2023: 6.474,35 reais
Custos operacionais + imposto de renda: 176,37 reais
Valor líquido de resgate até 01/03/2023: 6.294,55 reais
Esse número, por si só, talvez não diga muita coisa. Por isso, vamos imaginar a mesma situação, com a mesma investidora e os mesmos aportes, mas num investimento diferente, a poupança.
Com a taxa Selic em 6,5% ao ano, segundo a regra nova da poupança, temos que a rentabilidade da poupança seria 70% da Taxa Selic + TR. Porém, desde setembro de 2017, a TR esteve em 0%, como mostra a tabela seguinte:
TAXA TR
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
2017 0,1700 0,0302 0,1519 0,0000 0,0764 0,0538 0,0623 0,0509 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,5975 2018 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 - - - -
FONTE: Portal Brasil.
Por conta disso, para a simulação, irei considerar como rentabilidade da poupança apenas os 70% da Selic, já que assim vem sendo durante todo o período em que o Brasil teve a taxa Selic na casa dos 6,5% ao ano.
Pois bem, tendo tudo isso em mente, temos o seguinte cenário:
70% da Selic: 4,55% ao ano.
Rendimento líquido da poupança: 6.089,53 reais
Não há custos a serem considerados, porque a poupança é um investimento isento de imposto de renda, e não há uma taxa de 0,3% ao ano como no Tesouro. Ou seja, o rendimento final dela já é líquido. E, mesmo assim, vemos que a poupança é uma alternativa pior do que o Tesouro Selic quando falamos de rentabilidade.
Se considerarmos ainda um prazo de vinte anos, a diferença entre os dois investimentos chega a ser de 9.331,21 reais, podendo aumentar ainda mais caso o valor dos aportes se altere. Num exemplo apenas pontual, se mantivermos esse prazo em vinte anos, mas mudando os aportes para mil reais por mês, a diferença entre os dois investimentos pula para 42.052,73 reais, a favor do Tesouro Selic.
Caso haja alguma dúvida em relação a investimentos maiores, aqui vai outro exemplo, mas com um valor de aporte bem maior do que nos exemplos anteriores:
Valor inicial R$ 15.000,00 Valor mensal R$ 345,00
Taxa de juros (ano) 6,4%
Taxa referencial (ano) 0,00% Período (mensal) 120
Tesouro Selic (bruto) R$ 85.111,06
Tesouro Selic (líquido IR) R$ 80.804,40 Poupança R$ 75.452,77
No caso apresentado, é importante entender que na poupança, quando a taxa Selic está maior ou igual a 8,5% a.a., ela rende 0,5% a.m. + TR. Abaixo de 8,5% a.a., esse rendimento muda, e a poupança passa a render TR + 70% da Selic, como informado antes.
OUTROS TIPOS DE TESOURO
Já o Tesouro IPCA é o título público com rendimento atrelado à inflação (tendo como base o índice do IPCA), juntamente a uma taxa fixa. O Tesouro IPCA é mais indicado para longo prazo por dois motivos muito importantes: 1) as datas de vencimento são maiores; 2) essa modalidade de investimento garante rentabilidade acima da inflação, o que torna esse título interessante para assegurar um aumento do poder de compra no longo prazo.
Por conta disso, ele é interessante também para investidores focados em aposentadoria, uma vez que consegue elevar o padrão de vida de acordo com a inflação. Isso, à primeira vista, pode não parecer tão impactante, mas segundo dados do IBGE, hoje apenas 1% da população brasileira consegue se aposentar com um padrão de vida igual ou maior ao que tinha como trabalhador ativo. Imagine que, de cada cem pessoas que você conhece, 99 delas vão se aposentar em uma situação pior do que a que se encontravam enquanto ainda trabalhavam. Um dado preocupante, ainda mais sabendo que a população brasileira está envelhecendo mais rápido, o que vai pressionar ainda mais o sistema previdenciário e de saúde nas próximas décadas.
Para termos uma ideia de como pode render o Tesouro IPCA, vamos a algumas simulações:
Primeiro, vamos considerar um Tesouro IPCA 2038. Se investirmos quinhentos reais inicialmente e cem reais por mês, considerando ainda que o IPCA fique em 4,17% ao ano,
[51] que sua taxa prefixada seja de 5,56% ao ano e que a taxa Selic fique em 6,5% ao ano,
chegamos ao seguinte resultado:
DATA DE APORTE: 24/07/2018
Soma dos valores
Data do Valor inicial Aportes
investidos
resgate investido mensais
(nominal)
24/07/2038 R$ 500,00 R$ 100 (239)
R$ 24.400,00
Valor bruto Valor do Valor líquido
Rentabilidade Rentabilidade
Investimento de resgate Custos (R$) imposto de do resgate
bruta (a.a.) líquida (a.a.)
(R$) renda (R$) (R$)
Título 74.579,48 9,98% 1.521,69 7.533,11 64.258,45 8,73%
Se formos comparar com a poupança para o mesmo período, temos um valor líquido de resgate de 8.757,55 reais, menor do que o valor retornado pelo Tesouro IPCA para o período.
Importante dizer, porém, que existe a possibilidade de ganhar mais ou menos do que o esperado num Tesouro IPCA ou Tesouro Prefixado, caso a aplicação seja resgatada de forma antecipada, mas esse risco será comentado um pouco mais adiante. O importante neste momento é perceber a dinâmica do Tesouro IPCA: ele não apenas renderia mais do que a poupança, como retornou uma rentabilidade de 5,56% ao ano, acima da inflação. Se formos olhar para a rentabilidade real da poupança com as suposições da mesma simulação, teríamos um retorno de pífios 0,4% ao ano. Muito pouco.
A diferença, assim como no Tesouro Selic, cresce com o tempo. Se considerássemos um investimento durante vinte anos, mantendo as mesmas taxas, teríamos uma diferença de 24.778,25 reais a favor do Tesouro IPCA.
Por fim, o Tesouro Prefixado é o título público que tem o seu rendimento atrelado a uma taxa fixada. O Tesouro Prefixado é o mais indicado para quando entramos em uma situação em que vale a pena fixar a taxa de juros, por acreditar, por exemplo, que esse valor vai cair no futuro. Ou seja, é um título mais usado para movimentos especulativos – que serão abordados nas próximas páginas.
O Tesouro Prefixado é simples. Como sua taxa é prefixada e vai até o vencimento, se você investir num Tesouro Prefixado de 10%, independentemente de oscilação de taxa de juros e inflação, o seu título renderá 10%. Por isso, quando a taxa de juros e a inflação caíram no Brasil após 2015, o Tesouro Prefixado ganhou alguns holofotes.
É importante salientar que existem duas versões para o Tesouro IPCA e para o Tesouro Prefixado. Os dois títulos possuem ainda uma modalidade que chamamos de “cupom semestral”. Basicamente, esses dois títulos permitem recebimento de juros do investimento sempre ao fim de cada semestre, em vez de esperar para receber no vencimento da aplicação ou em seu resgate.
A parte boa é que podemos utilizar esse retorno semestral para investir em mais títulos ou tê-lo como uma renda periódica garantida. O problema é que perdemos um pouco do poder dos juros compostos, já que esse rendimento acaba não sendo acrescentado no título, como acontece com os demais.
Apesar de ser visto como uma modalidade de investimento muito segura, existem três riscos ligados ao Tesouro Direto, que são comuns a qualquer investimento: o risco de crédito, o risco de liquidez e o risco de mercado.
Risco de crédito: O investimento no Tesouro, por estar atrelado à possibilidade de
pagamento por parte do governo, é o investimento mais seguro do país. Porém, é importante entender que o risco sempre existe, por menor que seja.
Risco de liquidez: Precisar se desfazer do ativo às pressas pode ser prejudicial ao seu
rendimento. Logo, corremos o risco de arcar com prejuízos advindos de resgates antes do previsto. Apesar disso, todos os títulos do Tesouro Direto têm alta liquidez, caindo na conta um dia útil após o pedido de resgate.
Risco de mercado: Volatilidade nos preços.
Ainda falando de Tesouro Direto, existe uma forma de ganhar mais dinheiro do que o esperado com os títulos públicos. Mas é uma forma que envolve risco e especulação.
TESOURO DIRETO
Dados da
compra
PU Valor
Data da Quantidade Rentabilidade
Compra investido
compra de títulos contratada
(R$) (R$)
20/11/2014 8,00 735,75 5.886,00 IPCA + 6,15% Total 8,00 5.886,00 Situação hoje (no caso de venda antecipada)
Tempo Valor
Rentabilidade Valor Alíquota Taxa
de Imposto previsto (R$) líquido
bruta hoje bruto I.R. devida (R$)
aplicação (R$)
Anual
Dias Agente
Acumulada R$ % IR IOF B3 R$
corridos custódia
%
IPCA+
13,82 6.699,28 192 20 162,65 0,00 9,53 0,00 6,527,10
14,91%
Total 6.699,28 162,65 0,00 9,53 0,00 6.527,10
Acima, temos uma imagem real de uma operação que realizei em 2014. Eu comprei, no dia 20/11/2014, oito títulos de Tesouro IPCA + 2035. Mas em 31/05/2015 meu título tinha se valorizado 13,82%, mesmo tendo uma rentabilidade contratada de IPCA + 6,15% ao ano. Como isso é possível?
Basicamente, há uma peculiaridade nos investimentos do Tesouro que possuem taxas prefixadas. Eles, de maneira diferente do Tesouro Selic, que rende em linha reta, têm oscilações de preço no mercado secundário. Isso acontece por dois principais motivos:
1 No Tesouro Direto, ao resgatarmos um título antes do prazo de vencimento, o que
estamos fazendo é, na realidade, uma venda antecipada do título. Por ser uma venda, nós o vendemos em mercado secundário, que está sujeito a alterações conforme oferta e demanda.
2 Nesse tipo de investimento há o que chamamos de valor de face. Basicamente, o
valor de face é o valor bruto a ser recebido para cada unidade de título. Como esse valor é fixado em mil reais, nós já sabemos que, no vencimento do título, uma unidade dele terá que obrigatoriamente valer mil reais. Por causa dessa característica, se a rentabilidade do título na hora da compra se altera, o preço de mercado também se altera.
Na imagem abaixo, há uma ilustração de como isso acontece para o Tesouro Prefixado:
TESOURO PREFIXADO
Data de compra: Dias úteis entre data de liquidação e a data de Valor nominal de resgate: R$ 3/1/2012 vencimento: 755 1.000,00 R$ 733,86 Data de vencimento: 1/1/2015
Agora, para podermos entender melhor, vamos a um exemplo. Pense em um título do Tesouro Prefixado com o vencimento para um ano e que tenha a taxa de juros em 25% a.a. Se o valor de face de um título é fixado em 1 mil reais e o seu vencimento é para apenas um ano, quer dizer que ao fim desse primeiro ano uma unidade do título terá de te retornar exatamente 1 mil reais, certo?
Então, temos uma lógica a seguir: se ele rende 25% em um ano, isso significa que, para chegar em 1 mil reais do valor de face, o título precisa render 25% de juros em relação ao preço de compra.
Em uma fórmula matemática simples, em que du: dias úteis do vencimento, essa relação seria expressa por:
Preço de uma unidade × (1 + taxa de juros)*du/252 = valor de face
Vamos supor que realizo uma compra de um título para um ano, com taxa de juros de 25%.
Fazendo o cálculo com a fórmula descrita anteriormente, teremos:
Preço de uma unidade × (1 + 0,25)252/252 = R$ 1.000,00
Preço de uma unidade = R$ 1.000,00 ÷ 1,25
Preço de uma unidade = R$ 800,00
Obervação: 252 é o número de dias úteis em um ano. Como o título público rende somente em dias úteis, e a aplicação do exemplo é para um ano, chegamos a esse número. Caso o tempo seja para dois anos, mudamos no número de cima; o de baixo (denominador) continua o mesmo.
Replicando a fórmula, mas supondo que a taxa de juros do investimento tenha subido para 30% ao ano, o resultado seria:
Preço de uma unidade × (1 + 0,3) 252/252 = R$ 1.000,00
Preço de uma unidade = R$ 1.000,00 ÷ 1,3
Preço de uma unidade = R$ 769,23
Pois bem, pelo fato de o valor de face ser fixado em mil reais, isso quer dizer que uma alteração na taxa de juros do investimento consequentemente leva a uma alteração obrigatória no preço da unidade. Essa alteração acontece para que, ao fim do investimento, ainda seja respeitado o valor de face de mil reais. Temos, então, uma conclusão importante: o preço da unidade tem uma relação de dependência com a taxa de rendimento do título.
Só que, pense comigo: à medida que a taxa de juros do título aumenta, isso significa que mais juros são necessários para o investimento chegar a mil reais do valor de face, certo? Isso nos dá outra informação importante, a de que quanto maior é a taxa de juros do título, menor é o preço de uma unidade do título no mercado.
Como a taxa de juros do título oscila no mercado, isso faz com que seja possível vender o nosso título do Tesouro por um preço maior ou menor do que o preço que pagamos na compra. E a parte boa disso é que você não precisa se preocupar em calcular. O Tesouro Direto poupa todo seu trabalho com a conta, e você consegue ver, pelo próprio extrato do seu investimento, se vai vender o título por um preço mais caro do que você comprou ou por um preço mais barato – basta olhar para a taxa efetiva mostrada no extrato.
Só temos que lembrar de um dado importante: o mercado sempre precifica o futuro. Para você ganhar dinheiro com as oscilações, precisa antecipar o andamento dos juros dos títulos. Muitas pessoas só tentam especular com esses títulos quando as taxas estão caindo, ou seja, quando o mercado antecipou o andamento da curva de juros. Por conta disso, elas acabam tomando ações atrasadas e não ganham tanto dinheiro quanto poderiam ganhar. Se você quer mesmo ganhar dinheiro com esses movimentos de taxas, entenda que terá que prever o mercado, o que não é algo simples de ser feito.
Na prática, basta imaginar alguns cenários hipotéticos de mudança de juros. Você compra um título que paga 10% ao ano de juros, mas a taxa de juros sobe após algum tempo. Caso queira fazer uma venda antecipada deste título, terá que oferecer um desconto ao mercado, que tentará pagar um valor por ele que garanta um rendimento, em seu vencimento, semelhante à taxa de juros que está sendo praticada no momento da negociação.
A mesma lógica ocorre na direção inversa. Quando os juros caem, um título atrelado a uma taxa de juros maior poderá ser vendido com um prêmio maior.
AÇÕES: CONCEITOS GERAIS
Se você já viu algum filme sobre o mercado financeiro, provavelmente escutou sobre investimentos em ações e Bolsa de Valores. É possível que tenha tido a impressão de que é algo muito complexo, com milhões de operações acontecendo e muita gente fora de si. Acontece que a realidade pode ser – e na maioria das vezes é – bem diferente do que os filmes apresentam.
Por exemplo, ações não são difíceis de serem compreendidas; são apenas um tipo de investimento que representa o capital social de uma companhia. Basicamente, o mercado acionário é uma alternativa que uma empresa tem para se financiar e expandir os seus negócios. É por meio delas que os investidores podem, efetivamente, se tornar sócios/acionistas de uma empresa de capital aberto, ou seja, listada em Bolsa. E isso exige conhecimento de alguns conceitos que vamos tratar a seguir:
Initial Public Offering (IPO): Basicamente, é a oferta primária de ações, que é quando
a empresa coloca pela primeira vez suas ações na Bolsa de Valores, visando ganhar capital para expandir seus negócios. É apenas no IPO que a empresa consegue de fato dinheiro para financiar suas atividades, já que depois disso as ações vão para o chamado mercado secundário, que envolve apenas a compra e a venda de ações entre
investidores. É importante frisar que, mesmo que a empresa não ganhe dinheiro com o mercado secundário, ele é de extrema importância para dar liquidez ao mercado de ações como um todo.
Um IPO é essencial para o crescimento saudável da economia. O mercado acionário serve como porta de entrada para capital em empresas que estão crescendo e acelerando seus planos de investimento. A abertura de capital também padroniza empresas, que precisam cumprir uma série de regras impostas pela Bolsa e autoridades legais, como publicação de balanços e fatos relevantes, trazendo maior transparência aos negócios e protegendo os investidores.
Ações ordinárias: São as que dão direito a voto na Assembleia Geral da empresa.
Ações preferenciais: Ações que garantem prioridade no repasse de dividendos feitos
pela empresa, mas que não dão direito a voto.
Nesta tabela, vemos a composição acionária de ações do Banco Inter antes e depois do IPO realizado em 2018. Veja que muitas ações que estão com os principais acionistas sairão da mão deles.
Antes
Após a
da
oferta(1)
oferta
Ações Ações Ações Ações
% % % %
ordinárias preferenciais ordinárias preferenciais
Rubens Menin
28.390.424 56,40 4.345.492 21,18 28.390.424 56,40 4.345.492 8,73
de Souza
João Vitor
Nazareth Menin 6.186.552 12,29 – – 6.186.552 12,29 - -
Teixeira de Souza
Maria Fernanda
Nazareth Menin 2.086.788 4,15 3.658.710 17,83 2.086.788 4,15 3.489.102 7,01 Souza Maia
Rafael Menin
NazarethTeixeira 2.086.788 4,15 3.658.716 17,83 2.086.788 4,15 3.489.108 7,01 de Souza
Aquiles
Leonardo 5.201.016 10,33 3.443.610 16,78 5.201.016 10,33 - -Diniz
José Felipe Diniz 5.732.484 11,39 2.899.980 14,13 5.732.484 11,39 1.449.990 2,91 Marcos Alberto
675.940 1,31 1.951.220 9,51 675.940 1,31 975.610 1,96
Cabaleiro Fernandez
Ações em tesouraria - - 120.100 0,59 - - 120.100 0,24 Outros - - 438.516 2,14 - - 35.915.236 72,14 Total 50.341.992 100 20.516.344 100 50.341.992 100 49.784.638 100
(1) Não haverá alteração
no número de ações
ordinárias
As ações serão vendidas para capitalizar a empresa, que poderá investir em projetos e acelerar seu crescimento sem contrair uma dívida cara, pois está trocando ações por dinheiro.
E já que falamos de dividendos – que nada mais são do que uma forma que a empresa tem de remunerar o acionista –, é bom notar que existe uma diferença entre dividendos e os chamados juros sobre capital próprio (JSCP).
Tanto os dividendos quanto os JSCP são duas maneiras diferentes de acionistas ganharem dinheiro com ações, porém os JSCP são uma forma disponível de que a empresa pague menos imposto.
Dividendo: Dividendos são isentos de IR, pois vêm do lucro líquido, este tributado na
declaração da empresa para a Receita Federal.
JSCP: Os juros sobre capital próprio não possuem incidência de IR para a empresa, pois
são tratados como “despesa”, mas o IR é cobrado do investidor.
A seguir, podemos ver os dividendos anuais recebidos por acionistas da Itaúsa. Em 2017, o investidor recebia 0,88 centavos por cada ação que possuía. As ações de ITSA4 fecharam o ano de 2017 cotadas a 10,82 reais.
DIVIDENDOS TOTAIS PAGOS POR ANO
Total de dividendos pagos (bruto) Total de dividendos unitários Total de dividendos unitários
Ano
(R$ mil) (bruto) (R$) (líquido) (R$)
2017 7.296.969 0,97631 0,88315 2016 4.315.039 0,5828 0,50438 2015 3.034.528 0,4492 0,4021 2014 2.704.762 0,4433 0,3996 2013 2.151.178 0,3936 0,3436 2012 1.904.082 0,3928 0,3429 2011 1.858.611 0,4217 0,3668 2010 1.635.544 0,3739 0,3262 2009 1.406.671 0,3237 0,2835 2008 1.596.841 0,4114 0,3646 2007 1.340.336 0,3800 0,3302 2006 1.301.953 0,4092 0,3478 2005 891.786 0,2800 0,2380
2004 696.775 0,2161 0,1837 2003 613.242 0,1910 0,1624 2002 414.561 0,1317 0,1119 2001 394.713 0,1286 0,1093 2000 333.164 0,1121 0,0953 1999 250.663 0,0855 0,0727 1998 208.545 0,0678 0,0599 1997 121.398 0,0389 –
Uma estratégia interessante na Bolsa de Valores é sempre reinvestir o dinheiro que se ganha com os dividendos de uma empresa. Assim, o investidor vai aumentando tanto seu patrimônio quanto os aportes ao longo do tempo. No futuro, os dividendos poderão se tornar uma fonte de renda extra.
Porém, um lembrete importante é o de que o mercado de ações faz parte do mercado de renda variável. Por isso, é importante entender que não há um rendimento fixo, ele vai depender das oscilações do mercado. Pode-se ganhar por meio da valorização da ação como por meio dos dividendos/proventos pagos, mas tudo isso possui riscos consideráveis, já que, ao investir em uma ação, estamos sujeitos ao risco de os preços das ações oscilarem e de a empresa da qual somos acionistas quebrar.
Faça um paralelo com o empreendedor que investe em seu próprio negócio. Ele também pode passar por períodos de altos e baixos, com fases em que a empresa própria cresce com a necessidade de poucos investimentos, outros em que é preciso aportar recursos para combater a concorrência e diminuir as margens. Ao ser acionista de uma grande corporação comprando as suas ações, você deve entender por quais ciclos ela está passando e se, mesmo em um momento de baixa, ela possui fundamentos sólidos que poderão se converter em novo crescimento adiante.
Na tabela a seguir, indica-se o rendimento anual de pessoas que ficaram famosas por ganharem dinheiro na Bolsa de Valores. Os números entre parênteses indicam por quantos anos cada um investiu.
RENTABILIDADE DOS INVESTIDORES
Retornos Retornos Retornos
Nome capitalizados Nome capitalizados Nome capitalizados
anualmente anualmente anualmente
Richard Dennis 120% (19) George Soros 29% (34) Lou Simpson 20,3% (24) Michael Marcus 120% (10) Eddie Lampert 29% (16) W. Schloss 20% (49) Jaffray Woodriff 118% (10) P. Tudor Jones 26% (19) R. C. Perry 20,8% (20) Bruce Kovner 87% (10) Scott Ramsey 25.7% (11) P. Watsa 20% (15) Randy McKay • 80% (20) Paul Rabar 25.5% (23) Tom Knapp 20% (16) V. Sperandeo 72% (19) Martin Zweig 25% (19) Edward Thorp 19,8% (29) Ed Seykota • 60% (30) J Robertson 25% (20) B. S. Sherman 19,6% (20) W. Eckhadt • 60% (13) M. Steinhardt 24.7% (28) D. Einhorn 19,4% (17) Gil Blake 45% (12) C. Munger 24% (12) Steve Clark 19,4% (11)
J. Greenblatt 45% (19) Joe Vidich 24% (10) G. Michaelis 18,4% (15) William O’Neil • 40% (25) Liz Cheval 23,1% (23) Bill Ruane 18% (14) Jim Ruben 40% (10) Warren Buffett 23% (54) G. Greenberg 18% (25) Jim Rogers 38% (11) Bruce Karsh 23% (25) Jack Dreyfus 17.7% (12) S. Druckenmiller 37% (12) S. Perimeter 23% (18) Daniel Loeb 17.6% (15) Robert Wilson 34% (20) H. Seldler 22,8% (23) M. J. Whitman 17,2% (21) James Simons 34% (24) F. G. Paramés 22,53% (14) A. Vandenberg 16,6% (33) Rick Guerin 34% (19) Jerry Parker 22,2% (23) S. Klarman 16,5% (25) Jeff Vinik 32% (12) Shleby Davis 22% (45) T. Rowe Price 16% (38) Louis Bacon 31% (12) Martin Taylor 22% (11) Tom Russo 15,8% (24) David Bonderman > 30% (20) S. Abraham 21,7% (19) Peter Cundill 15,2% (33) R. Driehaus 30% (12) Tom Claugus 21% (26) J. Templeton 15% (38) Tom Shanks 29.7% (22) B. Graham 21% (20) John Neff 14,8 (31) Peter Lynch 29.2 (13) A Bolton 20,3% (27) Philip Carret 13% (55)
FONTE [52] : Excess Returns: A comparative study of the methods of the world’s greatest investors.
Desses investidores, vale a pena destacar três que possuem os maiores retornos anuais compostos: Benjamin Graham, Warren Buffett e Peter Lynch.
Benjamin Graham: Conhecido como o pai do value investing, foi um dos grandes
ícones da arte da análise fundamentalista. Graham foi um dos precursores do que conhecemos como “investir com base nos fundamentos da empresa” em seu livro Security Analysis. Certamente, foi um dos investidores mais inspiradores de todos os tempos, tendo sido fonte de exemplo inclusive para um dos mais reconhecidos investidores dos tempos modernos, Warren Buffett.
Warren Buffett: Sempre presente no noticiário, é o investidor vivo mais bem-sucedido e
o terceiro homem mais rico do mundo segundo a Forbes (2018). Tornou-se um “guru” absoluto no mundo dos investimentos, pois nenhum outro investidor chegou próximo de seus 23% de retornos anuais com 54 anos de investimento. O mais próximo foi Philip Carret, com 55 anos de trajetória, porém com rendimento médio bem menor, de 13% ao ano.
Peter Lynch: Apesar de não ter um histórico muito longo, Lynch fez seu nome por sua
atuação no Magellan Fund – fundo que geriu por treze anos –, que obtinha resultados que quase dobravam as performances do S&P500 durante sua gestão. O patrimônio
de 18 milhões de dólares do fundo atingiu expressivos 14 bilhões de dólares ao longo do tempo.
Ainda há mais algumas informações importantes para a análise de ações, como:
Liquidez: A liquidez do mercado de ações é D+3, ou seja, em três dias úteis após o
pedido de compra/venda ocorre a sua liquidação. Não há mínimo para investir, mas temos de ter em mente que é melhor:
1 Ter uma carteira de investimentos previamente formada com, pelo menos, um fundo
de emergência.
2 Não investir a ponto de ser altamente prejudicado pelas taxas – principalmente para
quem quer especular.
Pensando na segunda questão, suponha que a taxa de uma corretora de um banco tradicional seja de 10 reais + 0,25% por ordem. Nesse caso, você pagará mais conforme o valor que você compra e vende em ações, já que o custo aumenta ou diminui com base no valor da ordem. Se forem comprados cem reais em ABEV3, o valor seria de 10 reais + 25 reais, ou seja, 35 reais em taxas somente na compra, um prejuízo de 35%.
Uma vez que a corretagem acontece tanto na ordem de compra quanto na venda, podemos então considerar que teremos outros 35 reais e 35% para pagar com o lucro dessa ABEV3. Logo, para sair no zero a zero com a compra da ABEV3, o investidor precisaria ter pelo menos 70% de ganhos, o que é bem difícil de imaginar até mesmo para uma ação com bons ganhos, pelo menos em curto prazo.
E se a empresa que me assiste como corretora quebrar? Nada acontece. Corretora, como explicado antes, é apenas um agente de custódia (um intermediário). Caso a corretora quebre, o investidor apenas perderá o intermediário entre ele e o investimento, que está numa central de custódia e terá de ser intermediado por outro agente.
Na tabela abaixo, há o desempenho de algumas ações da Bolsa de Valores ao longo do tempo:
INVESTIMENTO EM CADA UMA DAS OPÇÕES (DESCONTANDO A INFLAÇÃO) Inicio dos Históricos Período (anos) R$ 100,00 R$ 10.000,00 R$ 100.000,00 Ambev 1988 30 R$ 31.049,44 R$ 3.104.944,12 R$ 31.049.441,17 Alpargatas 1986 32 R$ 482,23 R$ 48.223,00 R$ 482.229,99 Itaú Unibanco 1986 32 R$ 9.411,98 R$ 941.197,87 R$ 9.411,987,69 Magazine Luiza 2011 7 R$ 473,40 R$ 47.339,52 R$ 473.395,19 Petrobras 1986 32 R$ 624,81 R$ 62.480,91 R$ 624.809,10 Vale 1986 32 R$ 4.422,36 R$ 442.235,73 R$ 4.422.357,35 CDI 1986 32 R$ 2.561,78 R$ 256.177,55 R$ 2.561.775,49
Caso você não saiba onde encontrar informações como essas ou, mais do que isso, como achar informações e fatos relevantes sobre as empresas listadas na Bolsa de Valores, recomendo dois lugares especiais para procurar: o próprio site da Bolsa e o site Fundamentus. Neles, você irá encontrar cotações, gráficos, indicadores e notícias, além de detalhes bem específicos como dados administrativos e CNPJ.
COMO OPERACIONALIZAR O INVESTIMENTO EM AÇÕES Para operacionalizarmos tanto uma compra quanto uma venda de uma ação, o processo é o
mesmo. Precisamos recorrer ao home broker [53] de uma instituição. É por meio dessa plataforma que temos acesso à Bolsa de Valores.
Ignorando a forma do home broker, que varia de corretora para corretora, o principal será mostrado a seguir: a aba de ordem de compra e a aba de ordem de venda. Será por meio dessas abas que você fará a compra e a venda de uma ação.
Irei explicar cada informação que aparece nas abas de compra e venda. Comecemos pelos campos semelhantes.
Ativo: Papel ou título que deseja comprar.
Lote padrão: As ações são negociadas normalmente em lotes de cem ações. Ainda é
possível comprar ou vender menos do que o seu lote padrão, mas aí entramos no que chamamos de mercado fracionário, que oferece menor liquidez do que a negociação por lote padrão. Esta parte será preenchida automaticamente após a identificação do ativo.
Mercado: Em caso de compra de ações, determina que será realizada no modo
tradicional, com liquidação em três dias úteis – o que é também conhecido como
“mercado à vista”. Existem ainda o mercado a termo e o mercado futuro, mas não iremos nos aprofundar nestes por enquanto.
Quantidade: O número de ações que você deseja comprar.
Preço: O preço pelo qual você deseja comprar cada unidade de ação. Será multiplicado
pela quantidade desejada, informando o valor total de compra.
Valor ordem: Aqui será mostrado o valor total da ordem, ou seja, o valor total de
compra. Será um valor preenchido automaticamente.
Validade: Existem quatro tipos de validade:
Hoje: Caso a ordem de compra/venda não aconteça no dia em que ela foi posta no mercado, a ordem será cancelada.
Executa ou cancela: Em caso de, na Bolsa, não haver uma contraparte para comprar/vender o volume de ações que foram postas na ordem, o sistema irá executar a compra/venda com o número que estiver disponível; a quantidade excedente indicada na ordem é cancelada.
Para a data: Você coloca a validade da sua ordem.
Até cancelar: A ordem ficará no sistema até ser cancelada ou executada, lembrando que, em caso de alguma mudança na forma de negociação, a própria Bolsa pode cancelar a ordem.
Por fim, você deve ter percebido que há os campos “start” e “start móvel” (na ordem de venda, há os campos “stop” e “stop móvel”). Essas são ferramentas de gerenciamento de risco. O “start” é útil quando a cotação da ação a ser comprada atingir valor igual ou superior ao preço de disparo, chamado de “preço start”. Assim, você automatiza a compra de uma ação, que vai “disparar” conforme o preço que foi estipulado.
Da mesma forma funciona o “stop”, mas para venda. Estipula-se um preço no “stop”, e, caso o preço de uma ação caia ou suba até o preço de disparo, o “stop” vai vender a ação conforme o preço estipulado.
“Start móvel” e “stop móvel” realizam as mesmas funções. Mas, no caso de “stop” e “start”, se você deseja alterar os preços estipulados para um valor mais alto ou mais baixo, terá que fazer isso de forma manual. Por sua vez, o “stop móvel” e o “start móvel” fariam a operação automaticamente, em um limite de tempo estipulado por você.
COMO IDENTIFICAR SE UMA AÇÃO ESTÁ BARATA OU CARA? Para entender como identificar se o preço de uma ação está alto ou baixo, primeiro precisamos entender melhor o preço. Ele reflete o consenso de mercado, porém, este subvaloriza uma ação. Isso acontece porque o mercado, no fim das contas, refere-se a pessoas, e, enquanto algumas pessoas acertam, outras erram. É normal.
Agora, quais indicadores podemos considerar para decidir quando devemos ou não comprar uma ação? Há alguns principais:
P/L: Como apresentado em páginas anteriores, ele é um dos mais importantes
indicadores do mercado de ações, pois dá uma ideia do quanto o mercado está disposto a pagar pelo lucro de uma empresa.
Return on Equity (ROE): Em português, Retorno sobre o Patrimônio. É um valor
obtido por meio da divisão entre lucro líquido e patrimônio líquido. Esse indicador é importante para entender a rentabilidade de uma empresa sob o valor de patrimônio dela. É por meio do ROE, por exemplo, que entendemos se a empresa está gerando um “prêmio”, ou seja, um retorno melhor ou pior do que a renda fixa ou do que as outras empresas do mesmo setor também listadas na Bolsa.
Aqui há um gráfico do valor anualizado do ROE da ação preferencial do Itaú Unibanco (ITUB4):
FONTE: Fundamentus.
Porém, é importante dizer que apenas este indicador não revela muito. Apesar de ser bom, é necessário estar alinhado com outros indicadores.
Preço sobre o valor patrimonial (P/VPA): Indicador muito interessante para se
observar durante crises. Isso porque, nas turbulências, em geral encontramos um cenário em que várias empresas estão sendo negociadas por um preço abaixo do seu valor patrimonial.
Quando isso acontece, pode ser interessante a aquisição, pois se adquiríssemos todas as ações da empresa estaríamos comprando por um valor abaixo do que ela vale. É apenas necessário ter cautela, porque entender o valor patrimonial de uma empresa não é algo tão simples. Durante a famosa “crise das pontocom”, por exemplo, fazer o valuation das empresas de tecnologia que estavam na moda era complexo, pois eram de negócios novos, sem um histórico próprio de rendimentos.
Isso fez com que muitos investidores apenas especulassem o crescimento dessas empresas. Algumas apostas deram muito certo – como a Dell e a Microsoft, que juntas
retornaram cerca de 9,8 milhões de dólares [54] –, mas outras nem tanto.
Uma das melhores formas de usar esse indicador é em análises de setores (Itaú x Bradesco, por exemplo). Comparar um banco com uma empresa de tecnologia por meio do P/VPA pode levar a conclusões erradas, dado que a dinâmica das duas empresas é muito diferente.
Dividend Yield: Indicador que mostra o quanto uma empresa paga de dividendos em
relação ao preço de sua ação. É um indicador muito importante, porque é por meio dele que o investidor pode ter uma ideia do quanto lhe é pago em dividendos, e o quanto isso representa do valor que pagou pela ação.
Porém, o investidor deve tomar cuidado, pois é muito comum comparar o Dividend Yield com a taxa de juros de investimentos de renda fixa para decidir qual paga mais. Mas vale lembrar que, mais do que os dividendos, uma empresa remunera o acionista por meio da valorização das suas ações.
Existe ainda um trade-off para as empresas no que se refere ao seu lucro. Elas têm de escolher entre remunerar seus acionistas por meio de dividendos ou usar esse dinheiro para investir no próprio negócio. Por isso, nem sempre um valor alto de Dividend Yield é interessante, já que pode significar que a empresa não sabe como reinvestir os seus lucros.
O cálculo desse indicador é feito pela seguinte fórmula:
FONTE: The Economic Times.
Na tabela a seguir, você encontra o valor do Dividend Yield de algumas ações na Bolsa de Valores:
Nome Classe Código Subsetor Bovespa DY (12 meses) DY (média 5 anos)
Ambev S/A ON ABEV3 Bebidas 2,89% 3,26% Itaú Unibanco PN ITUB4 Intermediário financeiro 8,34% 5,49% Magazine Luiza ON MGLU3 Comércio 2,11% 1,89% Petrobras ON PETR3 Petróleo, gás e biocom. 0,37% 0,64% Petrobras PN PETR4 Petróleo, gás e biocom. 0,39% 1,07% Vale ON VALE3 Mineração 3,34% 4,88%
CUSTOS DE OPERAR COM AÇÕES
Investir em ações, apesar de muitas vezes envolver ótimos ganhos, pode gerar perdas consideráveis. Esses erros de trajetória não advêm apenas de prejuízos com operações mal realizadas, mas também dos custos envolvidos. Nem todos os investidores prestam atenção a isso.
É muito importante entender não apenas os custos que envolvem o investimento em ações, mas também como é possível evitar despender muito dinheiro com ele. O primeiro passo é, obviamente, saber com quais custos estamos lidando.
Existe uma forma muito fácil de verificar quais são todos os custos: a nota de corretagem. É um documento oferecido pela corretora de investimentos que nos informa sobre uma operação que realizamos, além de quase todos os custos que incidiram sobre essa operação.
Em suma, existem quatro custos em ações para os quais precisamos nos atentar:
1 Corretagem
2 Emolumentos
3 Custódia mensal
4 Imposto de renda
CORRETAGEM
Você paga a corretagem sempre que compra ou vende um ativo na Bolsa de Valores. Ela pode ser cobrada de forma fixa ou variável.
Quando é cobrada de forma fixa, o valor é travado por operação realizada. Por exemplo, uma instituição pode cobrar dez reais de corretagem a cada operação de compra ou venda realizada, independentemente do valor da operação.
O valor variável costuma ser indicado em percentual. Pode ser cobrado, por exemplo, 10% sobre o volume da operação em forma de corretagem.
E veja que os benefícios de cada forma variam bastante. Para quem investe em grandes quantidades, a corretagem variável em geral acaba representando um custo bem maior do que a fixa, mas esta tende a beneficiar quem investe pouco dinheiro.
A forma mais comum de cobrança de corretagem é a fixa. A forma variável aparece apenas nos casos em que estamos investindo, por exemplo, por meio de um assessor de investimentos – e, nesses casos, é comum que se peça uma taxa fixa de corretagem e uma parte variável.
É importante salientar que, sempre que pagamos a taxa de corretagem, uma parte desse valor é destinado ao imposto sobre serviços, o ISS. A taxa do ISS varia entre os municípios, e, por isso, acaba dependendo de onde está localizada a instituição financeira que intermedeia suas operações em Bolsa de Valores. Por isso, é até interessante que você, como investidor, vá atrás da sua instituição para entender qual o valor que ela efetivamente paga de ISS, até para entender se o valor que você paga – e que aparece na nota de corretagem – é justo ou não.
Na imagem a seguir, podemos ver um modelo de nota de corretagem com as taxas de emolumento + corretagem + ISS evidenciadas pelo destaque cinza:
Resumo dos negócios Resumo dos negócios D/C
Debêntures 0,00 CBLC Venda à vista 0,00 Valor líquido das operações 481,26 D Compra à vista 481,26 Taxa de liquidação 0,13 D Opções – compras 0,00 Taxa de registro 0,00 D Opções – vendas 0,00 Total CBLC 481,39 D Operações a termo 0,00 Bovespa/Soma Valor das operações com títulos públicos (V.Nom) 0,00 Taxa de Terno/Opções 0,00 D Valor das operações 481,26 Taxa A.N.A. 0,00 D
Emolumentos 0,02 D Total Bovespa/Soma 0,02 D Corretagem/Despesas
Corretagem 8,90 D ISS (São Paulo) 0,84 Outras 0,00 D Total Corretagem/Despesas 8,90 D Líquido para 30/05/2018 491,16 D
EMOLUMENTOS
Os emolumentos são um tipo de custo cobrado por operação. São recolhidos pela B3 e pela CBLC, a central responsável por fazer a custódia e a liquidação das ações. Essa taxa incide sobre o volume de compra das ações, mas é importante entender que aquela que é cobrada pela B3 é diferente da taxa da CBLC. Essa taxa também varia a depender da natureza da operação; o custo devido por uma operação de swing trade é diferente da de day trade.
O swing trade indica que a compra da ação foi realizada em data diferente de sua venda. O day trade indica que a movimentação de compra e a de venda de uma ação foram feitas no mesmo dia.
Hoje, em 2018, a B3 cobra 0,0275% sobre o volume no swing trade, e no day trade cobra 0,02%. Já a CBLC cobra 0,005% sobre o volume no swing trade e no day trade.
CUSTÓDIA
A custódia é cobrada todos os meses pela corretora, no caso de você ter alguma “posição”, ou seja, algum ativo investido no mês. É diferente da corretagem, que é recolhida apenas se alguma operação for realizada.
A parte boa é que muitas corretoras isentam os investidores dessa taxa. Caso isso não aconteça, geralmente é cobrada uma taxa fixa.
Nas tabelas a seguir podemos ver todas essas taxas dentro de um modelo de nota de corretagem, com as taxas destacadas:
Resumo dos negócios Resumo dos negócios D/C
Debêntures 0,00 CBLC Venda à vista 0,00 Valor líquido das operações 23.550,00 D Compra à vista 23.550,00 Taxa de liquidação 6,47 D Opções - compras 0,00 Taxa de registro 0,00 D Opções – vendas 0,00 Total CBLC 23.556,47 D Operações a termo 0,00 Bovespa/Soma Valor das operações com títulos públicos (V.Nom) 0,00 Taxa de Terno/Opções 0,00 D Valor das operações 23.550,00 Taxa A.N.A. 0,00 D
Emolumentos 1,14 D Total Bovespa/Soma 1,14 D Corretagem/Despesas
Corretagem 16,20 D ISS (São Paulo) 1,73 D
COMO PAGAR MENOS IR COM AÇÕES
É fato: ninguém gosta de pagar imposto. Mas pensa comigo: pagar imposto de renda é um bom sinal para o investidor. Afinal se ele paga esse imposto, é porque está tendo lucro.
Então, não temos que ter “desgosto” com o imposto de renda, ele pode ser um bom sinal. É importante não negligenciar seu pagamento, porque isso poderá causar problemas no futuro.
Neste subcapítulo, contarei como funciona a aplicação do imposto de renda em ações e fundos imobiliários. Mais do que isso, revelarei como podemos escapar dele em algumas situações, como na compra de ações.
Duas coisas aqui devem ser entendidas:
1 Só pagaremos imposto de renda se tivermos lucro com o investimento. Em caso de
prejuízo, o pagamento não é necessário. Porém, sempre que o investidor for obrigado
a declarar, ele deve fazer isso todo mês por meio de uma emissão de um Documento de Arrecadação de Receitas Federais, o Darf.
2 Temos alíquotas diferentes de imposto para swing trade e day trade. Para o primeiro,
a alíquota é 15% sobre o lucro. Exemplo: se eu comprei 100 mil reais em uma ação e as vendi por 110 mil reais, tive 10 mil reais de lucro. Calculando: 15% de 10 mil reais são 1,5 mil reais. No day trade a alíquota é de 20%.
Mas há um detalhe aqui: tanto no swing trade quanto no day trade a corretora retém um percentual da sua venda. No caso do swing trade, esse valor chega a ser de 0,005% das vendas, direto na fonte. No day trade, é retido 1% das vendas direto na fonte.
Por conta disso, se formos considerar uma operação de day trade, temos que considerar que o pagamento de imposto de renda, na realidade, será de 15% menos 1%, que já foi retido na fonte. Isso é importante para a Receita Federal, porque assim ela consegue rastrear possíveis sonegadores.
Mas existe uma forma de pagar menos imposto nessas operações. Isso porque somos obrigados a declarar e pagar o imposto apenas se as vendas de ações no mês superarem o valor de 20 mil reais. Ou seja, se eu vender até 19.999 mil reais no mês de janeiro, não pago o imposto referente a essas vendas.
Por isso, muitos investidores que têm posições altas em ações acabam se limitando a vender no máximo 20 mil reais por mês. Dessa forma, a incidência do imposto de renda de 15% ou 20% é evitada.
Para fugir do imposto, também há o conceito de “linha d’água”, que consiste em considerar o último dia útil do mês, que é o tempo-limite para emissão do Darf, para evitar o pagamento de um imposto. Se, por exemplo, você tiver um lucro interessante com uma ação de sua carteira ao mesmo tempo que registra prejuízo com outra, pode vender as duas e abater do imposto de renda do seu lucro com a primeira o prejuízo da segunda. No primeiro dia útil do mês seguinte, bastaria recomprar as ações, evitando assim o imposto de renda.
Por exemplo: você comprou 20 mil reais em ações da empresa A, e atualmente elas estão valendo 25 mil reais. Você também comprou 30 mil reais em ações da empresa B, mas hoje elas estão valendo 24 mil reais. Se você só vendesse as ações da empresa A, teria que pagar imposto sobre os 5 mil reais de lucro. Porém, se você vender as ações da empresa B no mesmo mês, terá registrado um prejuízo de 1 mil reais, e não precisará pagar imposto.