Do Mil ao Milhão: Sem Cortar o Cafezinho
Pilar 2. Investir melhor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
ESPECULAÇÃO VERSUS INVESTIMENTO
Gostaria de elucidar ao leitor uma coisa muito importante: a diferença entre “especulação” e “investimento”. Isso porque é comum as pessoas confundirem investimento com trading, que é a compra e venda de ações visando lucrar com a oscilação de preços.
O trading é uma forma de ganhar dinheiro por meio da especulação. Você não está investindo de fato em uma empresa. Em outras palavras, você não está aspirando a um retorno com base no crescimento da empresa nem está considerando a solidez dos negócios dela; você está considerando apenas o preço da ação da empresa e analisando se esse preço pode subir ou descer a ponto de viabilizar uma operação. De acordo com as próprias palavras de Benjamin Graham, um dos pais da ideia de investimento: “Uma operação de investimento é aquela que, após análise minuciosa, promete segurança do capital e uma remuneração apropriada. As operações que não cumprem esses requisitos são especulativas”.
E não é que especular seja uma forma errada de ganhar dinheiro, pelo contrário, o trader profissional tem os seus méritos.
Mas temos que considerar que é muito difícil ser trader. O nível de conhecimento e dedicação exigido é muito alto, de forma que poucas pessoas conseguem, de maneira efetiva, viver apenas dessas operações no dia a dia. No fim, investimentos na Bolsa de Valores devem ser realizados considerando o longo prazo, e o investidor deve ter a intenção de fazer parte dos negócios das empresas.
Por isso, acredito que se investimos estudando os fundamentos das empresas, podemos ter maior segurança de que estamos fazendo bons negócios. O fator tempo também diferencia o investidor do especulador. O investidor geralmente pensa no longo prazo, pretendendo ser sócio, e por isso busca bons negócios. Já o especulador não liga para isso. Ele pretende apenas se beneficiar de algum cenário, seja positivo ou negativo.
Quando você tem muito dinheiro, fica mais difícil especular. Quando você tem pouco dinheiro, seu ganho é pequeno e exige muito esforço. Você poderia colocar esse esforço em outro lugar, talvez empreendendo, o que geraria muito mais dinheiro.
De qualquer forma, recomendo aos leitores que, se possível, sempre pensem em investir na Bolsa de Valores, e não especular. O caminho para ganhar dinheiro de verdade por meio da especulação é bem difícil e poucos conseguem. É algo que exige muito talento, esforço e controle emocional. Além disso, no curto prazo – ou seja, quando tem pouco dinheiro –, o especulador acaba se expondo muito mais do que o investidor ao que chamamos de “risco da ruína”, que é o risco de que algo muitoruim aconteça e nos faça perder um montante de dinheiro que dificilmente recuperaremos algum dia.
QUAL É A SEGURANÇA DO MERCADO ACIONÁRIO? É provável que você tenha se perguntado qual é a real segurança ao investir, principalmente se você investe por intermédio de uma corretora. E isso não é nada anormal, pelo contrário: no fim das contas, você está lidando com o próprio dinheiro.
Para entendermos se um investimento é seguro, temos duas instituições muito importantes a considerar: a CBLC e o CEI.
Quando você compra uma ação, geralmente utiliza uma corretora de valores para fazer a intermediação entre você e a Bolsa de Valores, que é o ambiente de negociação dos ativos. Porém, quando você compra a ação, onde ela fica? Guardada na corretora? Na Bolsa? Não. Ela fica na CBLC, a Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia. Sua segurança é essa. A CBLC garante a segurança porque, mais do que guardar o seu investimento fora do risco financeiro das instituições, ela faz o registro das ações em seu nome e em seu CPF, o que possibilita a certeza de que as ações que você comprou são suas.
Além disso, há o CEI, o Canal Eletrônico do Investidor: quando você abre conta em uma corretora, esta faz seu registro na Bolsa, permitindo que você tenha acesso ao CEI. É por meio desse canal que o investidor consegue acompanhar informações diretamente da CBLC e pode consultar a posição e a movimentação de ativos negociados na B3, sem correr o risco de as informações serem manipuladas.
IMÓVEIS E FUNDO IMOBILIÁRIO
Se você nunca ouviu falar de fundo imobiliário, este é o grande momento para isso. Os fundos imobiliários – chamados de FIIs – são um tipo de ativo negociado em Bolsa que expõe o investidor ao mercado imobiliário. Na verdade, ao investir em um fundo imobiliário, em vez de comprar um imóvel sozinho, você estará se associando a vários outros investidores que também têm interesse em entrar no mercado imobiliário. O dinheiro de todos os investidores vai para um fundo, e esse fundo terá como objetivo uma série de compras no mercado imobiliário.
Com isso, temos um aspecto favorável do fundo imobiliário: diferente de uma compra financiada, na qual às vezes compramos um apartamento por 500 mil reais ou 1 milhão de reais, no fundo imobiliário conseguimos ter uma “parte” de um grande prédio comercial sem precisar de um grande valor em dinheiro para investir. Essa “parte” nós chamamos de “cota”.
Além disso, assim como as ações, os fundos imobiliários repassam dividendos, que são equivalentes ao capital que temos no FII.
É importante entender que existem fundos imobiliários diferentes, que podem ser classificados da seguinte forma:
Fundos de renda (fundo de tijolo): Compram empreendimentos já construídos, com o
foco na distribuição de rendimentos. Uma recessão econômica, porém, pode impactar a taxa de vacância e locação.
Fundos de títulos e valores mobiliários: Concentrados em CRI, [55] são títulos atrelados
ao IGP-M, entre outros índices. Estão também relacionados aos riscos de mercado, como variação das taxas e risco de crédito.
Híbridos: Mistura entre empreendimentos imobiliários, cotas de outros FIIs e títulos.
Em geral, os fundos imobiliários representam algumas outras vantagens para investidores:
1 Possibilita que pessoas com pouco capital para investir possam entrar no mercado
imobiliário, algo que antes era possível apenas com financiamento.
2 O imposto de renda também é diferenciado. No caso da aquisição dos imóveis, se
você adquirisse um e o alugasse, teria que pagar imposto de renda pelos rendimentos auferidos pelo aluguel. No caso dos fundos imobiliários, o rendimento já é isento de imposto de renda para o investidor pessoa física. Mas não se engane: ele é isento nos rendimentos mensais/dividendos. Para ganhos por meio da compra e venda de fundos imobiliários, há a incidência do imposto.
3 A liquidez para saída tende a ser melhor no fundo imobiliário. “Desfazer-se” de um
imóvel, principalmente se ele for caro, não é algo tão simples. Envolve muito tempo
e negociação. No caso dos fundos imobiliários, não. Você só precisa ir à Bolsa de Valores e colocar a ordem de venda!
4 A burocracia é importante nesse caso. Na aquisição de imóveis no modo tradicional,
temos que nos preocupar com escritura, IPTU, advogado, condomínio e diversos outros documentos para conseguir completar a negociação sem nenhum problema. Mas no fundo imobiliário essa parte burocrática fica a cargo do gestor do fundo. A sua única preocupação será com a compra e a venda das suas cotas!
5 O reinvestimento no fundo imobiliário é mais fácil. Se você recebe 5 mil reais de um
aluguel de um imóvel em seu nome, nem sempre será fácil usar esse dinheiro para reinvestir no imóvel. Inclusive, a valorização nesses casos não acontece da noite para o dia. Já no FII, você consegue reinvestir o dinheiro em mais cotas nos fundos imobiliários, com aumento de repasse para suas cotas no mês seguinte.
6 Por fim, a gestão profissional do fundo é muito interessante. Para uma pessoa
comum, muitas vezes é difícil lidar com todos os problemas e riscos que percorrem o mercado imobiliário, enquanto para o gestor profissional esses percalços são parte da rotina. Logo, a escolha de um gestor pode se mostrar algo mais assertivo.
IMÓVEIS E FUNDO IMOBILIÁRIO — COMO ESCOLHER UM BOM FUNDO IMOBILIÁRIO
Para fazermos uma escolha de um bom fundo imobiliário, temos diversos pontos a considerar. Farei aqui uma lista dos indicadores para os quais devemos olhar atentamente.
Taxa de vacância: É muito importante para qualquer análise de investimento de fundos
imobiliários de imóveis em que haja inquilinos. Ela é a relação entre o volume de imóveis disponíveis e o volume total existente. Ou seja: é uma taxa que mostra os imóveis que estão vagos e, por isso, não estão “rendendo”. Se você tem um fundo imobiliário que tem um imóvel com dez lugares e todos eles estão ocupados, ótimo! Isso significa que você receberá um rendimento que tende a ser interessante. Porém, se apenas cinco estiverem ocupados, você terá um problema, pois estará recebendo apenas metade da capacidade do fundo.
Gestão do fundo: É muito importante que procuremos conhecer melhor o gestor do
fundo. Precisamos saber se ele tem experiência no mercado e se as experiências foram positivas, ou seja, se ele tem histórico de boa gestão de fundos imobiliários. Um erro muito comum de muitos investidores é considerar apenas o histórico de rendimentos do fundo imobiliário, e não do gestor.
Acontecem casos em que o fundo imobiliário troca de gestão. Se o investidor continua acompanhando somente o histórico de rendimento, depois pode ser pego de surpresa com performances ruins devido à troca de gestão. Ironicamente, ao mesmo tempo em que devemos ver com bons olhos o gestor, também devemos ter alguns cuidados. É normal que gestores com performances muito boas acabem sendo “disputados” pelos fundos imobiliários, e isso pode fazer com que ele não só mude bastante de instituição, mas também deixe de ter incentivos para melhorar a performance. Com boa remuneração salarial e disputado pelo mercado, pode ser que ele apenas se acomode em manter os ativos dos fundos estáveis.
Yield: É a relação do quanto o FII distribui em relação ao preço de sua cota. Quanto
maior o yield, melhor para você. Mas, no caso dos fundos imobiliários, é necessário ter cuidado com a origem do yield. Isso porque é comum acreditar, em um fundo imobiliário, que o yield advém dos aluguéis dos imóveis do fundo. Acontece que há casos em que alguns outros fundos imobiliários conseguem rendimento não por meio dos aluguéis, mas pela valorização de suas cotas, o que é uma estratégia mais agressiva. Então, é importante se informar sobre a origem do yield para entender, de fato, se estamos investindo em algo que coincide com a nossa própria estratégia e percepção de risco.
Rentabilidade garantida: Alguns fundos imobiliários têm o que chamamos de
“rentabilidade garantida”, que nada mais é do que uma garantia de determinado rendimento em dinheiro durante um período firmada pelo fundo imobiliário com os cotistas. O problema é que essa rentabilidade pode não vir exatamente do desempenho do fundo, e sim do patrimônio dele. Neste caso, seria como se o fundo não estivesse conseguindo “se pagar” e, por causa da garantia, estivesse queimando uma parte do seu patrimônio para cumprir o prometido aos cotistas. Só que, ao fazer isso, o fundo acaba comprometendo o próprio valor de mercado. Um caso recente foi o FIGS11, um fundo imobiliário que acabou tendo suas cotas desvalorizadas, pois teve que reduzir seu valor patrimonial consideravelmente para cumprir com as obrigações de rentabilidade.
Taxas: O que é cobrado pelas partes envolvidas na transação.
Onde o fundo imobiliário aplica: O fundo imobiliário que você tem em mente aplica
em imóveis ou em ativos, como os CRI? Mais ainda: em relação aos ativos em que o fundo aplica, quais são seus ratings? Veja que é importante entender a carteira do fundo, porque, afinal, o dinheiro estará em uma dessas aplicações. Entender se a carteira é boa ou não é entender se o dinheiro está ou não bem investido.
Valor patrimonial: Isso é muito importante, e é por meio dele que nós encontramos boas
oportunidades. Por exemplo, se um imóvel é avaliado com o valor patrimonial de 500 mil reais e nós conseguimos adquiri-lo por 250 mil reais, fizemos um ótimo negócio, porque o compramos pela metade do preço que ele efetivamente vale. Do mesmo modo, isso pode acontecer com fundos imobiliários. De tempos em tempos é possível que surjam aqueles que tenham o seu preço abaixo do valor patrimonial, o que pode sinalizar ótimos negócios. O contrário também é possível.
Cap rate: É a relação entre o preço do aluguel e o preço do imóvel. É importante até
mesmo para entender o valor que está sendo pago em aluguel, comparado ao valor total dos imóveis que estão na sua carteira de fundo imobiliário. Geralmente imóveis de menor valor apresentam cap rate maior. Pode servir de comparativo entre os seus
próprios imóveis em carteira, assim você pode melhorar as suas decisões ao escolher fundos imobiliários mais eficientes.
O maior ponto de atenção aqui é sermos justos e fazermos comparações apenas entre investimentos semelhantes. Não faz muito sentido comparar fundo imobiliário com um título público, por exemplo. São investimentos com dinâmicas completamente diferentes e, por isso, terão também características distintas.
E se você está se perguntando onde poderia encontrar boas fontes para pesquisar essas informações, você pode procurar entre estas alternativas:
1. Site de relacionamento com investidores do fundo (gratuito). 2. Site da B3 (gratuito).
3. Sites especializados, como Clube FII e fiis.com.br.
TÍTULOS DE CRÉDITO PRIVADO
Quando algum banco lhe oferece algum produto de renda fixa, ou quando você encontra um desses na plataforma da sua corretora, você está investindo em um título de crédito privado.
Esses títulos podem até parecer incompreensíveis, mas não são: ao investir num título como um CDB, o que você estará fazendo é emprestar o seu dinheiro para uma instituição, que se torna sua credora, ou seja, estará em dívida com você. É um processo bem semelhante ao dos títulos públicos.
Porém, é importante entender que os títulos de crédito privado representam um risco um pouco maior do que os títulos públicos, afinal de contas, estamos emprestando dinheiro não para o governo, e sim para instituições do mercado. Apesar de ainda haver opções conservadoras dentro do crédito privado, estas não terão um risco menor do que aquele inerente aos títulos públicos.
O processo de decisão de investimento em crédito privado é simples: se temos um risco maior no crédito privado do que no título público, esse risco tem que ser justificado com uma rentabilidade extra. Como também a liquidez no crédito privado pode ser bem menor do que no Tesouro, essa falta de liquidez tem que ser justificada por rentabilidade maior. Se essa rentabilidade maior não existir, então não temos uma boa justificativa para entrar nesse meio.
A ideia é que, ao entrar na plataforma de investimentos da sua corretora, você tenha acesso a diversas aplicações de renda fixa, inclusive de CDBs diferentes, que até podem ser do mesmo emissor, mas que possuem taxas e características diferentes. Qual deles vai valer mais a pena para você? Depende muito. Lembre-se que, assim como mostrei no Triângulo de Nigro, é importante que os investimentos tenham um prêmio de risco. Caso não tiverem, simplesmente vai valer mais a pena investir nas aplicações do Tesouro Direto, já que elas têm o menor risco do mercado.
A seguir, abordarei alguns investimentos de crédito privado no detalhe, que são:
1 Debêntures.
2 CDBs.
3 LCI/LCAs.
DEBÊNTURES
Assim como os títulos públicos e os títulos bancários, as debêntures são títulos emitidos por empresas para captação própria com o objetivo de financiar algum projeto. As debêntures possuem vencimentos um pouco alongados, porém, muitas delas pagam juros semestrais ou anuais, ou seja, é possível aumentar muito a sua rentabilidade com esse produto.
Por isso, e pelo fato de não possuir garantia do FGC, é normal que os investidores acreditem que as debêntures representam investimentos de maior risco. Mas isso nem sempre é verdade. Basta fazer um exercício mental básico: apesar de ser uma empresa, emprestar dinheiro para uma empresa como a Apple dificilmente seria um investimento “de risco”. Pelo contrário, é uma empresa tão grande que é difícil de imaginar um cenário em que a Apple daria calote em investidores.
De toda forma, isso não quer dizer que toda debênture é conservadora. Podemos encontrar debêntures tanto mais “conservadoras” como debêntures com riscos consideráveis. Inclusive, grande parte das debêntures tem prazos mais extensos e é atrelada ao IPCA, dando a oportunidade de garantia de rentabilidade real com os rendimentos advindos da debênture.
Mas nunca é demais tomar algum cuidado, pois, como comentado antes, as debêntures podem representar (apesar de não sempre) um risco maior ao investidor.
Uma forma de termos noção desse risco é por meio dos ratings. Existem agências no mercado que fazem avaliação de empresas, às quais atribuem uma classificação de risco. Assim, o investidor consegue ter uma informação mais clara sobre a situação financeira da empresa.
Na imagem a seguir temos um exemplo de como esse rating é fornecido pela Standard&Poor’s, com rating aplicável à Vale S.A. (antiga Vale do Rio Doce):
RATINGS RECEBIDOS PELA VALE
Vale S.A.
Issuer Credit Rating
Rating Regulatory CreitWatch/Outlook
Rating Type Rating CreitWatch/Outlook
Date Identifiers date
BBB-Regulatory 29-jan-
Local Currency LT EE Stable 20-mar-2018
Disclosures 2016
Foreign National BBB-Regulatory 29-jan-
EE Stable 20-mar-2018
Scale LT Disclosures 2016
Brazil National 16-nov-
BrBAAA - Stable 20-mar-2018
Scale LT 2006
Caso fique um pouco confuso, aqui está uma imagem com as classificações de risco e suas interpretações:
Outro ponto muito relevante a ser considerado é que as debêntures ligadas ao setor de infraestrutura são isentas de imposto de renda (são as “debêntures incentivadas”). Essa característica permite a muitas debêntures apresentarem rentabilidades relevantes.
Para você entender o impacto disso, vamos a uma comparação, levando em conta um IPCA de 4,17% ao ano, como nos exemplos dados no capítulo sobre o Tesouro Direto:
Se nós investíssemos 10 mil reais em um Tesouro IPCA que rendesse IPCA + 5,5% ao ano, desconsiderando os custos operacionais e considerando apenas o imposto de renda, ao fim de vinte anos teríamos o valor líquido de 156.950,62 reais.
Agora, se aportássemos numa debênture incentivada que estivesse rendendo IPCA + 4,9% ao ano, à primeira vista, olhando pela taxa, pode parecer que o Tesouro IPCA renderia mais.
Mas, na realidade, isso não aconteceria: a debênture, ao final de vinte anos, retornaria o valor líquido de 174.796,24 reais.
Vale a pena frisar que das aplicações de crédito privado, as debêntures são os investimentos que mais exigem conhecimento do investidor. Por isso, é fundamental olhar o prospecto de emissão das debêntures, que contém todas as informações necessárias para o investidor entender para que tipo de empresa ele pretende emprestar dinheiro e para o que essa empresa pretende usar o dinheiro.
O prospecto tem uma cara deste tipo:
Imagem referente ao processo de emissão de uma debênture da BrasilPharma.
CERTIFICADO DE DEPÓSITO BANCÁRIO (CDB) Basicamente, no CDB você empresta dinheiro para uma instituição bancária, que usará esse dinheiro para financiar suas atividades e, em troca, vai remunerar você com juros. É uma lógica similar à de outros investimentos apresentados neste livro.
É uma aplicação simples. Diferente do Tesouro Direto, em que os títulos, apesar de terem vencimento, podem ser resgatados a qualquer momento, os CDBs podem ter liquidez diária (permitindo o resgate rápido) ou baixa liquidez (o que possibilita o resgate do investimento apenas na data de vencimento).
A minha dica aqui é procurar pela chamada “data de carência”, que indica até quando o investimento deve ser mantido pelo investidor. Para os CDBs que tiverem a data de carência igual à de vencimento, deixe seu dinheiro “preso” no CDB até o vencimento. Caso as datas sejam diferentes, é possível para o investidor resgatar seu dinheiro antes da data do vencimento chegar.
Seguindo uma lógica um pouco parecida com a do Tesouro, os CDBs podem ser indexados no IPCA e terem taxas prefixadas. Mas, diferente do Tesouro, no qual há possibilidade de seguir a taxa de juros, os CDBs pós-fixados são indexados a um indicador que chamamos de Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Vale dizer que, apesar da Selic e do CDI serem indicadores diferentes, ambos possuem uma proximidade muito grande. Geralmente, quando a Selic cai, o CDI cai na mesma proporção, ou de uma forma parecida.
No caso dos CDBs ligados ao CDI, o primeiro ponto é verificar se a sua taxa de rendimento é maior ou igual a, pelo menos, 100% do CDI. Em caso negativo, você pode estar dando de cara com um CDB não muito bom.
Há algo muito importante para entender antes de escolher um CDB, que é o triângulo dos investimentos, composto por: risco, rentabilidade e liquidez. Ou seja, é o Triângulo de Nigro!
Isso porque CDBs de menor rentabilidade tendem a fornecer riscos menores e/ou liquidez mais alta para o investidor. Ou seja, há possibilidade de retirar rapidamente o seu dinheiro. Um bom exemplo são os CDBs de liquidez diária, que podem ter rentabilidade de, por exemplo, 99% do CDI (sendo uma exceção à regra dos 100%), mas que, em troca, permitem ao investidor um resgate até melhor do que o fornecido pelo Tesouro Direto. Enquanto no Tesouro o investidor leva um dia útil para obter o resgate, com os CDBs o valor pode cair na conta do investidor no mesmo dia em que é pedido. Esta tabela indica as características do CDB de liquidez diária fornecido pelo Banco Inter, atrelado ao CDI:
Valor investido % do CDI
R$ 100.000,00 a R$ 249.999,99 100% R$ 250.000,00 a R$ 499.999,99 100,5% R$ 500.000,00 a R$ 749.999,99 101% R$ 750.000,00 a R$ 999.999,99 101,5% Acima de R$ 1 milhão 102% * Taxas sujeitas a alteração.
FONTE: B3.
Quando falamos de CDBs de bancos de risco considerável, ou que permitem o resgate apenas no vencimento, tendemos a ver CDBs com taxas de rendimento maiores. Mas essas taxas, obviamente, precisam representar a realidade. E aqui, serve o mesmo mecanismo que utilizamos nas debêntures: os ratings. Assim como para a renda fixa, as agências de risco desempenham um papel importante de classificar o risco das empresas, e essa classificação deve ser usada como um indicativo importante para a tomada de decisão do investidor, mesmo que o CDB seja garantido pelo FGC.
Devemos entender que o CDB serve como uma alternativa interessante, em vários casos, para o Tesouro. Além das opções oferecidas para o investidor escolher livremente – há vários CDBs com taxas e características diferentes – e também deve ser levado em consideração o fato de não incidir no CDB a taxa de administração, de 0,3%, que recai nos títulos do Tesouro. Em investimentos de pouco valor aplicado, essa taxa pode até não parecer tão importante, mas, se estivermos falando de um investimento de, por exemplo, 1 milhão de reais, ou de um investimento de longo prazo, essa taxa se mostra relevante.
Exemplificando, se investirmos 100 mil reais em um título do Tesouro que paga 7% ao ano e em um CDB de mesma rentabilidade e deixarmos ambos os investimentos correndo durante vinte anos, teremos um custo de 12.255 reais que não irá existir no CDB, apenas no Tesouro, devido à taxa de 0,3%. Isso prejudica, e muito, a perspectiva de longo prazo, principalmente se considerarmos que a taxa de 0,3% ao ano não incide sobre os rendimentos, mas sobre o montante investido.
Mas vale a ressalva: apesar de a taxa de 0,3% ser um problema, não é indicado que se invista em CDBs pensando no longo prazo como alternativa ao Tesouro. Isso porque não há CDBs hoje no mercado que cheguem a dez, vinte, 25 anos de investimento, como o Tesouro. Portanto, um investimento de longo prazo nessa modalidade significa pagar um imposto de renda alto. Explico com outro exemplo:
Imaginemos que vamos investir 30 mil reais em 2018 para resgatar em 2045. Temos duas opções:
CDB três anos – IPCA + 5,2% a.a.
Tesouro IPCA 2045 – IPCA + 5,08% a.a.
Se fôssemos levar em consideração apenas a taxa para escolher o investimento, escolheríamos o CDB, pois ele tem uma taxa maior, certo?
Errado. Essa lógica nos induziria ao erro, pois:
CDB
Rendimento bruto no período (27 anos – até 2045): 196.234,65 reais Rendimento líquido no período: 190.016,57 reais
Tesouro
Rendimento bruto no período: 247.596,78 reais
Rendimento líquido no período (descontados IR + taxa Tesouro): 195.899,85 reais
Isso acontece porque, no caso do Tesouro, o imposto de renda só será pago ao fim da aplicação, em 2045. No CDB, a cada três anos o imposto de renda teria de ser pago, já que o CDB alcançaria a sua data de vencimento. Em outras palavras, enquanto no Tesouro o imposto de renda seria pago uma única vez, no CDB ele seria pago, ao todo, nove vezes até 2045. Como você pode ver, isso prejudica a sua rentabilidade.
Por isso, a melhor forma de investir no CDB é fazer a aplicação pensando em objetivos. Se você precisa fazer uma reserva de emergência, há a alternativa dos CDBs de liquidez diária. Agora, caso você tenha pronta sua reserva de emergência, os CDBs fazem muito sentido para os objetivos de médio prazo, nos quais já se sabe, mais ou menos, a data em que você vai precisar do dinheiro. Viagens marcadas para fim do ano, casamento, compra da casa própria. Todos esses objetivos podem fazer um CDB valer a pena para você, basta escolher um que te agrade e que se encaixe na data desejada – e mãos à obra.
LCI/LCAs
Como apresentado anteriormente, as LCAs e LCIs podem ser muito interessantes em um investimento de prazo médio, pois são isentas de IR.
FUNDO MULTIMERCADO
Os fundos de investimento, hoje, nos permitem estratégias variadas, seja com ativos em renda fixa, ações, entre outros. A melhor parte é que você não precisa se preocupar se tem dinheiro o bastante para aplicar em todos os ativos investidos, basta atingir a cota mínima de entrada no fundo para poder participar de uma série de investimentos interessantes. Isso porque, quando você aplica em um fundo de investimento, ele reúne recursos de uma série de investidores para realizar aplicações e depois distribui os lucros entre seus cotistas igualmente. Isso pode parecer insignificante, mas é o grande diferencial de se colocar dinheiro nos fundos.
Com o conceito de cotas, deixa de ser relevante o ativo no qual dinheiro foi aplicado, mas sim a quantidade de cotas que se tem. Agora o investidor, apenas aplicando seu dinheiro, consegue diversificar sua carteira, pois suas cotas dependem do desempenho do fundo como um todo. E ele não precisa se preocupar em como aplicar o dinheiro, há uma equipe que trabalha por ele para melhorar o desempenho do fundo.
Imagino, então, que agora você deve estar se perguntando: “Legal, mas como escolher um bom fundo de investimento? Como saber se ele é bom?”.
O que você deve fazer primeiro é traçar um objetivo. Muitas pessoas se preocupam apenas com a rentabilidade e acabam cometendo erros bobos, que podem prejudicá-las no futuro.
Por exemplo, se o objetivo do investidor for criar seu fundo de emergência, não faz sentido algum procurar investir em um fundo de ações, que, além de possuir riscos e oscilações maiores que outros tipos de fundo, costuma ter uma liquidez muito menor, o que pode comprometer o objetivo para o qual foi investido. O fundo deixa de ser um de emergência se você não pode contar com o dinheiro em caso de imprevistos.
Por isso, o primeiro passo é definir o objetivo: se é fundo de emergência, um fundo de renda fixa/multimercado com alta liquidez é ideal. Caso a procura por maiores rentabilidades, mesmo que representem riscos altos, seja o objetivo, o fundo de ações é interessante. Caso não queira tanto risco, mas ainda procure um rendimento acima do estipulado em renda fixa, um fundo multimercado pode servir.
Enfim, determinado o objetivo, agora o próximo passo é saber como identificar se as taxas valem a pena ou não.
As principais taxas a que se deve ficar atento são:
1 Taxa de rendimento (médio);
2 Taxa de administração;
3 Taxa de performance;
4 Taxa de carregamento.
Para o rendimento, é sempre bom ter em mente que ele não é tão bom se for abaixo do CDI. Para as taxas de administração, valores acima de 1% para renda fixa e acima de 2% para multimercado/ações são questionáveis. Valeriam a pena caso o rendimento fosse muito bom se comparado a outros fundos, pois muitos fundos de qualidade hoje trabalham nesse limite.
Para taxa de performance, cobrada em fundos com maiores riscos (multimercado/ações), existe uma taxa de 20% padrão de mercado, mas tome cuidado com taxas adicionais. Pode compensar, mas depende do retorno que o fundo oferece.
A taxa de carregamento é difícil de ser vista em fundos competitivos. Por isso, se encontrar uma em seu caminho, é bom analisar bem esse fundo antes de escolhê-lo. Pesquise opções semelhantes, do mesmo segmento.
Por fim, é claro, fique atento ao saldo mínimo e de movimentações do fundo. Muitos investidores não dão atenção a essa parte, mas ela é importantíssima. Do que adianta, por exemplo, você ter disponibilidade para investir apenas 1 mil reais por mês e escolher um fundo que só deixará você adicionar no mínimo 10 mil reais?
Lembre-se: você precisa escolher um fundo que seja acessível. Atento a todos esses detalhes, é só botar as mãos na massa e investir!
Existem algumas figuras nos fundos de investimentos que você precisa conhecer:
1 Administrador do fundo: gerencia todas as partes envolvidas. 2 Gestor: é quem escolhe o lugar em que seus títulos serão aplicados e qual será a
estratégia utilizada.
3 Custodiante: quem faz a guarda dos ativos e dá segurança para tudo. 4 Auditor: garante que tudo está sendo feito conforme manda o regulamento do fundo.
5 Distribuidor: faz o fundo chegar até você. 6 Cotista: você mesmo!
Além disso, nos fundos multimercado, temos alguns pontos de atenção importantes:
1 Esse tipo de fundo investe em mercados diferentes e, em teoria, aproveita momentos
diferentes.
2 Existe uma dificuldade de achar um fundo realmente bom. Muitos fundos
multimercado apenas servem como justificativa para se cobrar taxa de performance
do investidor. Por exemplo, há casos em que o fundo multimercado apresenta uma carteira muito conservadora, assim como um fundo de renda fixa, mas, pelo fato de ser fundo multimercado, recai sobre ele uma taxa de performance do investidor (algo que não se encontra nos fundos de renda fixa).
3 Geralmente os melhores fundos são fechados, limitados ao investidor.
4 Quando o fundo fica grande, você perde oportunidades. Os cotistas pressionam
negativamente os preços em momentos de oscilação de mercado, pois a massa é “emocional”. O efeito manada nos fundos tende a tirá-los do mapa, já que fundos com resultados negativos acabam tendo resgates em massa. Por conta disso, vários fundos não conseguem aproveitar a oportunidade causada pelo momento de baixa.
CRIPTOMOEDAS
Para entender o que são criptomoedas, primeiro precisamos definir o que significa ser uma moeda digital. No fim, a ideia de moeda digital não é tão difícil de entender: é uma moeda, assim como o real e o dólar, porém sem unidade física. É como se fosse uma commodity do mundo digital.
O que talvez seja mais difícil de entender, na realidade, é a tecnologia por trás das criptomoedas/moedas digitais, chamada de blockchain, permitindo que a criptomoeda funcione de forma descentralizada e haja segurança nas transações.
Ele é como se fosse um livro-razão, no qual são registradas todas as transações feitas com criptomoedas. É muito importante salientar, porém, que existem blockchains diferentes entre as criptomoedas. Por exemplo, o blockchain do bitcoin é diferente do blockchain da Ethereum. O que importa, porém, é que o conceito é bem semelhante.
No caso do blockchain do bitcoin, por exemplo, existe o que chamamos de Proof of Work (PoW). O PoW faz uma ligação entre todas as transações registradas no blockchain, e desta forma qualquer um que tente falsificar uma transação tem que falsificar não só a transação desejada, mas todas as outras anteriores dentro do blockchain. Isso, dentro da tecnologia existente, é quase impossível de ser feito, o que torna todo o funcionamento de blockchain muito seguro, até mais do que os sistemas bancários convencionais.
Inclusive, é justamente por ser melhor do que os sistemas bancários de hoje que, além dos bancos estarem estudando formas de implementar o blockchain em seus sistemas, existe uma moeda específica para o setor bancário: a Ripple. A Ripple é uma moeda criada para facilitar remessas de dinheiro. Segundo o próprio site da Ripple, empresas como Santander, RBC e American Express a utilizam. Outro ponto interessante é que o Banco Central do Brasil começou a estudar e a desenvolver projetos com blockchain.
Talvez isso esteja ainda um pouco confuso para você, mas, para entender melhor o funcionamento do blockchain, precisamos falar do papel dos mineradores.
Os mineradores são responsáveis por registrar as transações no blockchain. Ao fazerem isso, é possível ver a transação concluída e registrada no sistema. Eles, por sua vez, conseguem bitcoins (no caso do blockchain do bitcoin) como retorno pelo trabalho.
Porém, aqui tem um problema: como o número recebido pelos mineradores diminui pela metade a cada quatro anos, existe uma taxa que pode ser paga para os mineradores para que eles registrem sua transação mais rapidamente. Ela não é obrigatória, mas regida pela lei de oferta e demanda. Como o mercado de bitcoin cresceu bastante, e o número de pessoas transacionando a moeda também aumentou, os mineradores podem escolher quais transações querem registrar, e as que eles não querem.
Se você opta por não adicionar a taxa, corre o risco da sua transação demorar dias para ser registrada (ou até mesmo nunca ser registrada, de fato). Para facilitar esse trabalho, existem as corretoras de criptomoedas, que cobram uma taxa adicional pelo serviço.
Apesar de toda a segurança envolvida no sistema, guardar bitcoins/criptomoedas exige cuidados adicionais. Por exemplo, não se deve guardar criptomoedas nas corretoras: os hackers não conseguem invadir o blockchain facilmente, mas isso não é aplicável para os sistemas de uma corretora.
Justamente por isso é recomendável guardar suas criptomoedas nas chamadas wallets/carteiras. Existem versões online, mais práticas, e físicas, mais seguras.
Criptomoedas que rendem 1.000.000%
Primeiro, preciso deixar claro uma coisa: não é possível investir em criptomoedas, mas apenas especular.
Isso porque, assim como o dólar, o real ou qualquer outra moeda, as criptomoedas não rendem juros nem nada do tipo. Nós só ganhamos dinheiro com as criptomoedas quando especulamos o preço delas no mercado.
Entendendo isso, podemos seguir para o passo seguinte e falar de um acontecimento interessante no mercado de criptomoedas: o que aconteceu com o bitcoin no final de 2017?
Na minha opinião, a valorização crescente que aconteceu com o bitcoin no final de 2017 e sua posterior queda foi um fenômeno que só aconteceu por causa de um efeito manada. Vamos aos fatos.
No começo da valorização, tivemos notícias favoráveis – empresas começaram a aceitar bitcoin, países anunciaram que estavam estudando a ideia, entre outras notícias positivas. A demanda aumentou por consequência, o mercado só falava em bitcoin e nos retornos estratosféricos. O preço da moeda subiu muito, e houve o boom.
Mas... quando até a mídia mais comum começou a falar sobre criptomoedas, o resultado já era esperado, com uma correção prestes a chegar. A partir de janeiro de 2018, começaram a surgir notícias negativas sobre o tema, principalmente na China. A demanda diminuiu e, consequentemente, o mercado corrigiu suas apostas na moeda, o que fez com que o ativo deixasse de apresentar altas de valor acentuadas.
Isso quer dizer que não vale mais a pena? Pelo contrário. Como possivelmente o efeito manada em grande parte já passou, vale considerar comprar bitcoin, caso o seu desejo seja especular.
E como podemos comprar criptomoedas? Existem duas formas: a P2P e por meio de corretoras.
P2P: Como não envolve os custos com corretora, geralmente é um meio mais barato. O
problema é que você precisa confiar inteiramente na contraparte, e o risco de tomar
calote é considerável. Basicamente, você paga o valor em reais para o vendedor de bitcoins, e ele, em troca, manda os bitcoins que tem para a sua wallet, ou vice-versa.
Corretoras: Apesar de envolverem mais custos, representam uma forma mais segura de
negociar bitcoins. O processo é o mesmo de uma corretora de valores. Você cria uma conta com e-mail/senha e, uma vez aprovado, pode utilizar a plataforma da corretora. Porém, diferentemente de como acontece em uma corretora de valores convencional, até pelo fato de o mercado de criptomoedas não ser regulado no Brasil, as corretoras de criptomoedas possuem mais passos de segurança na hora de efetuar uma compra/venda.
Custos: Variam de acordo com cada corretora ou forma de compra. Porém, é importante
entender que as corretoras cobram em depósitos/saques, tanto em reais quanto em
criptomoedas, e também nas execuções de ordem (ordem de compra e ordem de venda,
semelhante à forma como acontece nas corretoras de valores mobiliários). Por isso,
geralmente tendem a ser uma opção mais custosa.
Na imagem a seguir temos as top oito criptomoedas, com base no Market Capitalization (capitalização de mercado), do dia 29/06/2018:
Tabela tirada do site coinmarketcap.com.
COMO ACOMPANHAR (E REMANEJAR) SUA CARTEIRA DE INVESTIMENTOS COM UMA HORA POR MÊS
Para fazermos um acompanhamento da nossa carteira de investimentos, principalmente em ações, não há segredo: precisamos criar uma planilha de operações.
Acontece que muitas pessoas fazem essa planilha de uma forma não muito prática, e pior: não é nem por culpa da planilha, e sim por culpa da forma como elas investem.
Isso porque muitos investidores, na tentativa de diversificar seus investimentos, acabam investindo em ações demais. Por causa disso, chega uma hora em que o volume e variedade de ações que possui acabam sendo tão grandes que o investidor tem problemas para tomar decisões rápidas de investimento.
Portanto, para entender como acompanhar sua carteira de investimentos, existe um conceito principal: uma carteira de investimentos deve ser simples. Deve ser composta por poucos ativos, mas ativos que você conheça bem. Dessa forma, tomar uma decisão será um processo rápido e eficaz. Ao mesmo tempo, você não pulveriza o seu capital.
E qual é a melhor forma de fazer uma planilha eficiente?
Dou um exemplo a seguir:
Até aí, nada muito fora do normal, certo? Temos todas as informações relevantes para entender o estado da nossa carteira de ações. Porém, fique atento ao campo “Por que comprei?”. Isso porque muitos investidores, ao verem prejuízos consideráveis (assim como a ITUB3, na imagem, está indicando), acabam agindo impulsivamente, o que leva a vendas precipitadas e sem necessidade. Por isso, é muito importante também que nós possamos registrar, mais do que somente números, o motivo pelo qual investimos.
ANTIFRAGILIDADE NOS INVESTIMENTOS
Nesta seção vamos revisitar o conceito de antifrágil. Afinal, quando falamos de finanças, a antifragilidade não é apenas aplicável para o risco da ruína: ela também é aplicável para quando vamos falar de risco sistêmico e não sistêmico nos investimentos.
Mas é possível que você ainda não saiba, exatamente, o que são esses tipos de risco. Por isso, primeiro vou explicar a diferença entre os dois.
Risco sistêmico (ou risco sistemático) é, como o próprio nome diz, o risco que envolve o sistema como um todo. Basicamente, é um risco que, como envolve todo o “sistema”, não pode ser eliminado. Todas as empresas que estão dentro do “sistema” estão sujeitas a esse risco.
Pense na crise de 2008 como exemplo. Não importa o tipo de ação, desde o setor imobiliário até o setor de serviços, o fim foi o mesmo: todo investidor viu suas ações despencarem junto com todas as Bolsas de Valores norte-americanas (nos EUA, diferentemente do Brasil, há mais de uma Bolsa de Valores). Obviamente, alguns setores da economia sofreram mais do que outros, mas todos foram atingidos. Por isso, é importante entender que não é possível anular o risco sistêmico. Querendo ou não, estaremos sujeitos a ele.
O risco não sistêmico é diferente. É o risco que, como o nome já diz, não envolve o sistema como um todo. Porém, ele compreende um risco que pode afetar tanto só uma empresa quanto um setor inteiro.
Por exemplo: vamos imaginar que temos 100% do nosso capital investido em uma empresa que subitamente perdeu um cliente que representava 80% das suas vendas.
Sem esse cliente, a empresa terá grandes problemas com as finanças, assim como nós, acionistas, também teremos. Mas o fato de esse problema ter acontecido não vai fazer com que o mesmo aconteça com todas as outras empresas listadas em Bolsa. Logo, o risco de ter problemas com a perda do cliente era não sistêmico, porque envolvia apenas uma empresa.
E é justamente por isso que conseguimos reduzir o risco não sistêmico, ao contrário do risco sistêmico. Não é possível anular, mas sim reduzir significativamente.
A forma mais comum de fazer isso é por meio de uma diversificação. Afinal, se no exemplo tivéssemos não 100% do nosso dinheiro nessa empresa, mas apenas 20%, o impacto negativo na nossa carteira de investimentos seria reduzido de maneira relevante.
Lembro, porém, que devemos diversificar, e não pulverizar o nosso dinheiro. Se diversificamos demais, passamos a ter uma carteira muito complexa e com pouca efetividade. Acabamos tendo tantos ativos em carteira que a tomada de decisão, tanto para comprar quanto para vender, acaba se atrasando. Isso nos prejudica bastante. Por isso, recomendo que uma boa carteira de investimentos tenha no máximo dez ativos. Assim, cada um representaria 10% da carteira, e o risco estaria muito bem diversificado.
Talvez você tenha sentido falta de tratar da antifragilidade, e é aqui que ela entra. Mais do que suportar a volatilidade, a antifragilidade pressupõe lidar com a volatilidade e se tornar mais forte com ela. Temos que reduzir o risco não sistêmico não somente para “aguentar o tranco”, mas para nos aproveitarmos dele também.
Podemos seguir nessa direção fazendo uma diversificação em que, por exemplo, há correlação negativa entre dois ativos. Peguemos um exemplo: o Ibovespa e o dólar. Sempre que o Ibovespa sobe, é normal vermos uma queda no dólar, e o contrário é verdadeiro também. Por isso, quando temos os dois em carteira, se há volatilidade negativa em um compensamos com a presença do outro.
Outra ferramenta boa para isso são as opções. Não entrarei em muitos detalhes, mas basicamente uma opção é o direito de compra ou de venda de um determinado ativo no futuro por um preço predeterminado. Exemplificando, pode haver no mercado uma opção de ação da Petrobras que dê ao investidor o direito de vender ações da estatal daqui a um ano por vinte reais, sendo vinte reais o preço da ação hoje. Se daqui a um ano o preço da ação abaixar para dez reais, você está em ótima posição, já que tem uma opção que lhe dá o direito de vender essas ações não por dez, mas por vinte reais. Logo, você aproveitou da volatilidade do ativo para fazer um ótimo negócio!
Só é importante lembrar duas coisas:
1 Para se ter esse direito, precisamos pagar um valor a mais por ele, o que chamamos
de “prêmio”.
2 Assim como pode dar certo, a opção também pode dar errado. O legal, nessa parte, é
que o detentor do direito tem a opção de exercer ou não o direito que ele comprou.
Porém, como você deve ter percebido, as opções são ótimas ferramentas para reduzir o risco sistêmico, já que elas permitem que você se aproveite da volatilidade em um momento futuro. Se você fizer isso e diversificar bem (e não demais), o risco não sistêmico não será um problema.
PREVIDÊNCIA PRIVADA
Previdência Privada é um tipo de investimento demonizado no Brasil, devido aos bancos, mas que, na realidade, pode ser uma ótima alternativa para o investidor.
Para eu conseguir elucidar isso, entrarei no detalhe em sete características específicas da Previdência, que te ajudarão não somente a entender como ela funciona, mas também a diferenciar uma Previdência boa de uma ruim.
PLANO GERADOR DE BENEFÍCIO LIVRE (PGBL) VERSUS VIDA GARANTIDOR DE BENEFÍCIO LIVRE (VGBL)
O PGBL é um tipo de Previdência mais indicado para aqueles que já fazem a declaração de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) pelo modelo completo, pois com ele poderá ser feita a dedução de até 12% de sua base tributável. Assim, é só calcular o valor de sua renda bruta anual, aplicar 12% e você terá o valor ideal que deve ser aplicado para que, além de contribuir com sua aposentadoria, possa pagar menos imposto no curto prazo.
O VGBL, por outro lado, não permite que seja feito tal abatimento, porém, é mais indicado para quem pensa no longo prazo, já que ao final do plano existe a necessidade de pagamento de IRPF somente sobre os valores auferidos, diferentemente do PGBL, que paga o imposto sobre o montante total investido.
TABELA PROGRESSIVA X REGRESSIVA
A melhor opção para o longo prazo costuma ser a tabela regressiva, pois, com o passar dos anos, diminui sua alíquota de imposto de renda. Se você fosse resgatar sua Previdência um dia após tê-la feito, você pagaria 35% de imposto nessa opção. Porém, a cada dois anos você diminui sua alíquota em 5%, chegando aos incríveis 10% de imposto depois de dez anos.
Na tabela progressiva, ela será somada com sua base de cálculo e entrará na mesma tabela de imposto do IRPF, chegando até 27,5% se o montante resgatado for muito grande. Se o seu objetivo é investir no longo prazo, provavelmente vai ter um belo montante aplicado. A tabela regressiva pode te ajudar a pagar menos imposto se o objetivo for alcançado.
TAXA DE ADMINISTRAÇÃO
Parece óbvio, mas nem todos sabem. A taxa de administração é a remuneração paga pelo investidor na prestação dos serviços de gestão e administração do fundo de investimentos em questão. É uma taxa medida ao ano sobre seu patrimônio total. Imagine que você tem 1 milhão de reais investidos em um fundo que cobra 2% de administração. Todos os anos, você terá um custo mínimo de 20 mil reais. Por isso é tão importante brigar por baixas taxas de administração!
TAXA DE CARREGAMENTO
Em teoria, é um percentual que incide sobre todas as contribuições pagas em uma Previdência e tem como objetivo atender despesas administrativas e a colocação do plano. Na minha opinião, é uma besteira, afinal de contas, a taxa de administração remunera todas as partes necessárias. Sendo assim, todos os planos bons têm taxa de carregamento de 0%. Se você paga essa taxa, saiba que é por falta de informação, pois existem muitas opções com essas condições disponíveis no mercado e com valores extremamente baixos.
Se você aportar quinhentos reais por mês em um plano de Previdência e tiver uma taxa de carregamento de 5%, significa que você vai deixar 25 reais na mão do banco, e 475 reais investidos no seu fundo. Significa que você já entra no plano perdendo mais de cinco meses de rentabilidade! Quanto menor, melhor.
TAXA DE RENTABILIDADE
Aqui parece fácil, né? Porém é bem provável que você faça a conta errada. Se por acaso você diz que seu investimento rendeu “10% no ano” ou “0,8% ao mês”, saiba que não é bem assim na prática de mercado. Nos investimentos, sempre temos que ter uma referência, que vai funcionar como nossa base comparativa. Já fizemos contas com a taxa Selic e CDI, mas vale relembrar.
Se a Selic render 10% ao ano, imagine que o CDI vai estar muito próximo disso, em torno de 9,9% ao ano. Agora que temos nossa taxa de referência, podemos dizer que, se o seu fundo rendeu 9,9% no ano, ele rendeu 100% do CDI! Aqui, quanto maior melhor.
Aliás, você tem uma noção da diferença de rentabilidade que 0,1% ao mês pode causar no longo prazo?
100 mil reais investidos por trinta anos a 0,8% =
1.761.130,58 reais.
100 mil reais investidos por trinta anos a 0,9% =
2.516.632,75 reais.
Por isso, não menospreze esses 0,1% ao mês!
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