Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas
12. AIDS e sexualidade entre universitários solteiros de Porto Alegre: um estudo antropológico
12. AIDS e sexualidade entre
universitários solteiros de Porto
Alegre: um estudo antropológico
Patrice Schuch
A AIDS tem sido reconhecida como 'epidemia mutante'. Isto porque o perfil dos infectados pelo HIV, desde o princípio dos anos 80, vem sofrendo expressivas transformações. Oficialmente, a epidemia desta doença iniciou-se no Brasil em duas grandes metrópoles - Rio de Janeiro e São Paulo. A partir de 1987, se difunde de modo contínuo para o conjunto da Federação, chegando a apresentar elevadas taxas de incidência em regiões geograficamente afastadas do Sudeste, no início dos anos 90. Assim, há contínua expansão do registro de casos de AIDS tanto nos epicentros geográficos tradicionais quanto no conjunto do País.
Paralelamente a essa transformação, ocorre uma tendência de mudança nas categorias de exposição ao HIV em que chama a atenção o aumento da transmissão heterossexual. Importa destacar que não há redução no número absoluto de casos novos entre homo ou bissexuais, o que reflete a extensão da epidemia a outros segmentos da população, sem decréscimo dos casos entre as categorias mais atingidas no início dos anos 80 (Dados, 1996).
Segundo Guimarães (1992), vivemos hoje a época da "etapa heterossexual" da epidemia no Brasil, em que a "população geral", "normal" e "familiar" perdeu sua "imunidade ideológica", produzida para fechar seus corpos contra a AIDS e suas vítimas, afastando-se das "sexualidades perigosas".
Este trabalho pretende discutir as concepções de risco e o comportamento preventivo contra a AIDS entre jovens universitários solteiros de Porto Alegre. A preocupação com este grupo de pessoas reside no fato de que este segmento da população revela altos índices de infecção pelo HIV. Além disso, os pesquisados são heterossexuais, o que os coloca em uma das categorias de exposição com índices crescentes de soroprevalência. As pessoas estudadas, então, pertencem ao grupo das possuidoras de 'imunidade ideológica' contra a AIDS, a qual estaria atualmente em decadência, tendo em vista a alta incidência desta doença em heterossexuais.
Apesar disso, levantamos a hipótese de que, no grupo pesquisado, essa 'imunidade ideológica' continua atuando e demarcando identidades sociais que justificam práticas não preventivas com relação à infecção pelo HIV.
Nesse sentido, por um lado, dizemos que o perfil epidemiológico da AIDS transforma-se mais rapidamente do que as concepções que a cercam, ainda marcadas por valores morais que identificam o soropositivo como desviante/marginal. Por outro, o estudo concernente a jovens universitários, ou seja, pessoas escolarizadas, atende à preocupação de romper com a idéia que vê a utilização das práticas preventivas como questão apenas de posse/veiculação de informações. O que enfatizamos é a necessidade de perceber os significados socialmente construídos de AIDS, de corpo e das relações sexuais e afetivas que estão sendo produzidos e vivenciados no cotidiano do grupo pesquisado.
Desta forma, procuramos destacar as lógicas culturais especificas que justificam determinados comportamentos e as negociações envolvidas para a definição da prevenção ou não contra a AIDS. Importa ressaltar que, apesar de existirem outras formas de transmissão do HIV, salientaremos a sexual, em razão de ser a mais freqüente e de sugerir questões sobre sexualidade e afetividade.
Metodologia e universo de estudo Nesta pesquisa, utilizamos a metodologia tradicional em Antropologia, a etnografia, que contou com as técnicas de observação participante, feita em locais de sociabilidade do universo pesquisado - como bares das universidades e danceterias e entrevistas semi-estruturadas com vinte jovens universitários solteiros moradores de Porto Alegre, Capital do Rio Grande do Sul -onze homens e nove mulheres. As entrevistas foram feitas tanto em locais públicos quanto nos espaços domésticos e duraram em média seis horas cada, tendo havido de dois a três encontros por entrevistado.
Os pesquisados situam-se na faixa etária dos vinte aos trinta anos. Com base na pesquisa podemos perceber que a atividade de estudo ocupa posição central na vida dos mesmos, caracterizando-se como fronteira distintiva de outros grupos sociais e garantia de
prestígio e ascensão social.1 Apenas dois entrevistados não exerciam nenhum tipo de atividade remunerada, ao passo que a maior parte possuía bolsa de pesquisa ou monitoria nas universidades onde estudavam. A maioria morava com os pais e dependia da família para complementação de renda. Somente quatro pessoas não moravam com a família de origem, pois vieram do Interior do estado do Rio Grande do Sul para estudar em Porto Alegre. Também estes recebiam ajuda financeira da família, alguns regularmente e outros de forma eventual.
Quase a metade dos informantes possui pais com nível superior de educação, sendo em sua maioria profissionais liberais e professores. A outra metade é composta pelos estudantes que têm pais com nível secundário de graduação, trabalhando como comerciantes e funcionários públicos. A trajetória dos pais se distingue pelo deslocamento das cidades do Interior do estado para Porto Alegre. Estas pessoas, após o casamento, foram para esta metrópole em busca de estudo e de novas oportunidades de trabalho, constituindo aqui suas famílias, pois grande parte dos pesquisados, seus filhos, é originária de Porto Alegre. Fato notável é que as famílias caracterizam-se pela trajetória de ascensão social e, como membros das camadas médias, há a preocupação com a atualização de um código simbólico em permanente mudança. Como Velho (1981) escreve, embora esta preocupação esteja presente em qualquer categoria social, nas camadas médias ela aparece com mais vigor, em virtude de ser mais exposta às ideologias de modernização.
Doença do desvio e da marginalidade: a AIDS e
seus significados sociais
Até o momento, a maior parte dos estudos sobre as respostas sociais que a AIDS desperta concentra-se naqueles grupos associados, desde o registro dos primeiros casos da doença, à marginalidade, como as prostitutas, os homossexuais masculinos e os usuários de drogas injetáveis. Essa realidade vem se modificando, devido à própria transformação no perfil epidemiológico da AIDS, que se difunde para o conjunto da população e coloca em cena novos atores sociais.
Apesar disso, as pesquisas com esses novos atores sociais - como por exemplo, a de Guimarães (1992, 1996), Knauth (1996) e Rodrigues (1996) - têm salientado a elaboração de identidades sociais que mantém a AIDS como 'perigo distante'. Assim, embora as estatísticas referentes aos novos casos de infecção pelo HIV estejam destacando a disseminação desta doença entre o conjunto da população, persiste uma associação AIDS/marginalidade/perigo, a qual, por sua vez, produz uma identidade social do soropositivo que estaria comprometida com a prática de comportamentos considerados desviantes.
Uma das grandes dificuldades da prevenção contra a infecção pelo HIV provém dessa identificação da referida doença com um comportamento desviante/marginal. Os estudos sobre percepção de risco entre mulheres monogâmicas de grupos populares são exemplares desta problemática, pois, como destaca Guimarães (1992), a infecção pelo HIV produz a perda da identidade de "mulher de respeito", que é colocada junto com aquela "outra mulher".
Knauth (1996), por sua vez, pesquisa a resposta que mulheres soropositivas, as quais não são identificadas como 'as outras' mulheres, dão ao fato de serem portadoras do HIV, afirmando que há negociação das identidades, produzindo-se separação entre as soropositivas que 'procuraram' a AIDS e as que 'não procuraram', o que vem fortificar a idéia da existência dos chamados 'grupos de risco'.
Percebemos a recorrência dessa classificação no universo pesquisado, cujos integrantes negociam sua identidade social constantemente ao falar sobre AIDS. Nesse sentido, os jovens universitários evocam tanto uma concepção de não responsabilidade da infecção pelo HIV quando o discurso sobre a contaminação diz respeito a uma pessoa conhecida ou próxima, quanto uma concepção de responsabilidade pessoal da infecção pelo vírus, quando o discurso sobre a contaminação diz respeito à população em geral.
A primeira concepção, que se refere àquelas pessoas que 'não procuraram' a AIDS, considera esta doença como do 'outro', pois como diz Loyola (1994), os indivíduos não se percebem como possíveis infectados pelo HIV em razão da sua própria conduta, mas por um 'outro': namorado(a) que traiu, transfusão de sangue, destino etc.
No decorrer da pesquisa, coletamos algumas histórias, sobre o contrair o vírus da mencionada doença, que são indicativas dessa lógica de não responsabilidade pela infecção do HIV. Além de demostrarem a 'inocência' das vítimas que 'adquiriram' o vírus, as histórias também evocam a associação da AIDS como arma, concebendo que os soropositivos têm o poder de ameaçar os outros
com seus próprios fluidos corporais. 2 O seguinte depoimento é pertinente:
Eu sei de uma história de uma guria que anda por aí, na noite
de Porto Alegre... fica com os caras, é tri bonita. Ela e o
namorado estavam dentro de um carro quando vieram dois
negrões assaltá-los. Um dos caras segurou o namorado da
guria no banco de trás e o outro estuprou a guria na frente do
namorado. Aí o outro cara mudou de posição e a estuprou pela
frente e por trás. Depois ela foi fazer o exame da AIDS e deu
positivo. Mas ela continua por aí, ninguém sabe que ela está
com AIDS, ela é tri-bonita, está contaminando um monte de
gente. (Fábio, 20 anos, Medicina)
Vemos, através do relato, a identificação do portador HIV como um marginal que, utilizando a AIDS como arma, contamina a vítima através de seus fluidos corporais. Esta, após ser infectada pelo vírus, de vítima passa a adotar comportamento marginal, agindo de modo a contaminar outras pessoas. O vírus HIV, portanto, além de atacar a imunodeficiência do organismo, também age sobre os atributos morais de seu portador. Através dessa ótica, a contaminação pelo HIV, além de física, é também moral.
Ao mesmo tempo, apesar de se mostrarem bem informados sobre o que é a AIDS e suas formas de prevenção, quando o discurso sobre a contaminação pelo HIV diz respeito à população em geral, a maior parte dos pesquisados identifica a existência dos chamados 'grupos de risco', que seriam aqueles responsáveis pela própria contaminação, ou seja, aqueles que 'procuraram' esta doença. Tais 'grupos' são classificados como sendo o dos 'homossexuais', o dos 'drogados' e o das 'prostitutas', em clara estigmatização de comportamentos sociais considerados desviantes.
Como vemos, há dupla associação da Aros com marginalidade, tanto porque o vírus HIV exerce ação sobre os atributos morais de seu portador, como porque, como já dito, há estigmatização de comportamentos sociais desviantes na identificação dos 'grupos de risco'. A associação com a marginalidade explicita alguns valores morais atribuídos à doença em questão e caracteriza um imaginário social marcado pelo desvio, o que dificulta a prevenção a ela, uma vez que demonstrar preocupação com precaução pode ser tomado como indicativo de comportamento desviante/marginal.
Nesse sentido, várias jovens relatam o constrangimento envolvido no fato de levar o preservativo masculino dentro da bolsa, já que essa atitude, paradoxalmente, pode ser encarada como sintoma de comportamento de risco, ou seja, de 'transar com todo mundo'. Se fizéssemos uma hierarquia de riscos, o de infecção pelo HIV apareceria como menor que o risco de julgamento referente aos atributos morais da portadora do preservativo.
O grande desafio vivido pelos pesquisados é a produção de estratégias sociais que permitam negociar a prevenção sem esquecer de lidar com os julgamentos morais sobre a AIDS, caracterizados pelo desvio e pela marginalidade. Um desses arranjos sociais, formulados pelas mulheres, relaciona-se ao pedido da utilização do preservativo tendo por 'desculpa' o não uso da pílula anticoncepcional, mesmo que a utilizem de fato. Assim, o preservativo como contraceptivo é aceito com menos resistência do que como prevenção à doença em foco, que evoca em torno de si uma série de valores morais.
Essas resistências contra a utilização do preservativo como prevenção à AIDS estão explícitas no discurso de alguns informantes, que relataram que o pedido para o uso do condom é muitas vezes vivenciado como acusação, notadamente de 'sujeira'. Tendo por base as leituras de Douglas (1976), podemos perceber que sujeira é subproduto de uma ordenação e classificação e, sendo essencialmente desordem, aproxima-se simbolicamente da idéia de mal e impureza. O seguinte depoimento é exemplar:
Eu disse a ela: vamos fazer sem camisinha. Aí ela me disse
que queria transar com camisinha. Eu perguntei: por que? Eu
não sou sujo, eu sou limpo nesse aspecto. (Vítor, 30 anos,
Ciências Sociais)
Em outras situações, a associação com 'sujeira' está relacionada a determinados tipos de comportamentos, como se certas atitudes fossem 'sujas', ou seja, impuras. Percebe-se, nesse caso, a ação puríficadora do teste de infecção do HIV, o qual é acompanhado de projeto de mudança de comportamento.
Chegou uma época em que eu resolvi parar, dar um tempo. Eu
pegava uma guria, ficava com ela, levava ela pra um motel e
transava com ela. Era bom na hora, mas depois dava um vazio.
Estou cansado de tudo isso... de ir nos bares, elas só agarram
tua bunda, teu pescoço... Agora estou limpo, fiz o teste da AIDS
e deu negativo. Não vou mais transar com todo mundo: tem
outras formas de fazer a coisa, é o negócio do carinho, do
estarjunto, de abraçar, de tocar um no corpo do outro. (Márcio,
23 anos, Administração)
Relação sexual como encontro: interação de
sentimentos e fluidos
A referência ao limpo/sujo também orienta a classificação das relações sexuais em puras e impuras. As relações em que os parceiros já são conhecidos e nas quais existe algum tipo de envolvimento sentimental seriam as relações puras, 'limpas'. Já aquelas em que há um rápido conhecimento dos parceiros antes da prática sexual, que acontece sem nenhum tipo de envolvimento, a não ser o 'tesão', seriam as impuras. Nesse tipo de relação, muitos entrevistados, em geral homens, referiram a necessidade de tomar banho para 'se limpar' do ato sexual, que é, segundo afirmam, 'bom na hora', mas depois causa sensação de 'vazio'.
Desta forma, assim como a troca de fluidos corporais com um portador do HIV proporciona o acesso a substâncias físicas e a qualidades morais, aqui também a troca de secreções com o
parceiro envolve mais do que substâncias corporais. 3 Assim, a relação sexual é concebida como encontro, relação social, enfim, uma comunicação entre duas pessoas que implica trocas de substâncias corporais, emoções, sentimentos, expectativas.
Transar', 'possuir', 'entregar-se', 'dar', 'comer', 'fazer amor' são termos que necessariamente envolvem relações, trocas, construções, interações, misturas, fusões, uniões. 'Transar' refere-se a intercâmbio, acordo, reciprocidade, combinação. Nessa combinação, simultaneamente os parceiros 'se possuem' e 'entregam-se'. Há um 'dar' significando um doar-se dos parceiros, que são 'comidos', atingindo a plenitude no 'fazer amor', como significante maior de todo o processo, expressando unicidade e complementação.
Como vemos, a relação sexual não é percebida como mera atividade corporal ou instinto natural: é plena de significados sociais. No entanto, é preciso interpretar com cuidado estas informações, uma vez que são suscitadas em contexto situacional específico, no qual há a preocupação quanto à pesquisa em torno do tema da AIDS em torno do qual existe um imaginário social caracterizado pelo desvio/marginalidade/ perigo. Por conseguinte, o discurso que classifica as relações sexuais em limpas/sujas, ou seja, puras/impuras, tendo por base o nível de envolvimento sentimental entre os parceiros, é acionado pela temática da AIDS, que, de certa forma, vem produzir e/ou fortalecer essas dicotomias. Além disso, é preciso lembrar o discurso moral desta doença como aquela que surge para 'limpar' a sociedade de seus males e exageros. Desse modo, as classificações de limpo/sujo, puro/impuro, não podem ser substantivadas, mas sim encaradas em seu aspecto situacional.
A lógica situacional de classificação das relações sexuais entre puras e impuras, com base no critério de conhecimento anterior dos parceiros, é explicitada quando percebemos a constante recorrência de relações eventuais na contemporaneidade, as quais colocam em evidência um imperativo da ideologia de compromissos não obrigatórios, em que o intimismo, o isolamento e a privacidade ganham ênfase. Assim, coexistem um discurso sobre as relações eventuais que as classifica como impuras discurso elaborado situacionalmente - e uma prática que revela a recorrência de envolvimentos eventuais e descompromissados entre os parceiros.
Relacionamentos afetivos: namoro, paixão e
'ficar'
Essencial para a percepção dos significados simbólicos e práticos das medidas preventivas contra a AIDS é a compreensão da diversidade dos envolvimentos afetivos e sexuais, procurando entender seus valores e características. Logo, importa analisar as formas de relacionamento entre os parceiros e os sentimentos e expectativas envolvidos em torno dos mesmos, porque interferem nas negociações a respeito da prevenção a esta doença.
Esta etnografia realizada entre jovens universitários solteiros de Porto Alegre aponta para a existência de uma diferenciação recorrente entre as relações estáveis -o 'namoro' - e as relações eventuais - que podem ser 'paixão' ou 'ficar', havendo a possibilidade de existir continuidade (ou não) entre estes tipos de relações: 'ficar', se apaixonar e namorar; nelas, o discurso sobre a prevenção à AIDS com o uso do condom durante as relações sexuais é diferente. Isso porque as informações sobre prevenção podem ser usadas seletivamente, de acordo com as diferentes concepções de risco relacionadas com os valores associados aos diversos tipos de relações afetivas.
As relações estáveis, ou seja, o namoro, caracterizam-se pela confiança mútua entre os parceiros que, em geral, já se conhecem antes de iniciar a relação. O envolvimento é caracteristicamente público, com um compromisso entre os parceiros e perante o grupo social, ou seja, há toda uma rede de relações sociais. O sentimento de cumplicidade é enfatizado na insistência de 'estar junto', que envolve múltiplos aspectos da vida dos parceiros. O namoro também implica expectativa de desenvolvimento, que pode (ou não) culminar em aliança. Nesse caso, a noção de tempo utilizada marca continuidade, com a contagem referindo-se a um mês e meio de namoro, dois anos etc, o que envolve, além da progressividade da relação, a demarcação de convívio cotidiano. É, portanto, relação estável e crescente entre duas pessoas, na qual o amor é referido como sentimento estruturador. O seguinte depoimento é expressivo:
Confio no meu namorado. Eu conheço o meu namorado
bastante pra não usar a camisinha. Confiar é achar que ele não
vai me trair, que não vai mentir. Eu transei com ele quando eu
tinha um mês e meio de namoro, mas já o conhecia há três
anos. Nós falamos das relações anteriores dele, ele transou
uma vez sem camisinha, mas foi com 14 anos. No meu caso
não tem porquê o uso da camisinha, Eu conheço os amigos, a
família, as relações anteriores dele. Acho quefundamental é o
amor, porque se tem amor eu acho que tem o resto: respeito,
confiança, carinho. Amar é tu gostares muito daquela pessoa,
sentir sua falta quando ela não está contigo, fazer as coisas
junto com ela, se doar, respeitar suas vontades, suas idéias. É
dividir as coisas, compartilhar. (Ana, 21 anos, Educação Física)
O uso do preservativo masculino nas relações sexuais entre namorados aparece então como destituído de sentido, uma vez que o namoro se baseia na fidelidade enquanto valor e na noção de amor como garantia da confiança no parceiro. Como diz a informante, o amor é o fundamental, pois com ele se tem o 'resto': respeito, confiança, carinho. Desta forma, há baixa percepção do risco de infecção pelo HIV nesse tipo de envolvimento afetivo caracterizado pela estabilidade. A percepção do amor como integração - amar é dividir, compartilhar - também vem juntar-se às razões de recusa ao uso do preservativo, que é reforçada pela já referida visão da relação sexual como encontro que envolve sentimentos e fluidos corporais.
Na fala dos informantes, vemos a distinção básica que é feita entre amor e paixão. O amor é saudável. Segundo um informante, "ele te dá tranqüilidade, te coloca num patamar mais elevado", enquanto a paixão é doença: "...aquela coisa obsessiva da paixão". Igualmente, a afirmação de que paixão 'só o tempo cura' exemplifica esse tipo de visão.
Assim, a paixão é o domínio da irracionalidade, da falta de controle, do predomínio da emoção sobre a razão. Desta forma, constitui-se como domínio privilegiado da irrupção do irracional na vida destes indivíduos, influenciados por sistema de valores altamente racional, que é a cientificidade. Segundo Velho (1986), a paixão é uma das experiências individuais mais fortes, sendo expressão das individualidades. Neste sentido, a paixão é pensada e vivida como experiência única de um 'eu' particular. Além disso, é algo inexplicável, envolve experiência privada, em contraposição ao namoro, público por excelência. Dizem os informantes:
A paixão não se explica, se sente. É uma coisa intensa. A
paixão muda tudo. (Karem, 21 anos, Direito)
A paixão é algo tórrido, intenso, ela é efêmera, única, a gente
perde a cabeça, enlouquece. Mas de repente acaba tudo, a
gente se cura. (Marcos, 25 anos, Geologia)
Ao mesmo tempo em que a experiência da paixão evoca um domínio individualizante que tem o sujeito como principal referencial, ela foge ao domínio do indivíduo, pois é percebida como incontrolável. Há o predomínio da emoção sobre a razão, expressa no dizer: "a gente perde a cabeça, enlouquece..." situação que provoca associação da paixão como doença, ou seja, essencialmente desordem.
Em experiência tão desequilibrada, como controlar a atividade sexual introduzindo a obrigatoriedade do uso do preservativo masculino? Embora se tenha consciência da necessidade de sua utilização nas relações sexuais quando se está apaixonado, uma vez que a paixão é vista como súbita e efêmera, torna-se impossível controlar o desejo.
Já o 'ficar', ao contrário do 'apaixonar-se', é relação controlada e consciente de envolvimento entre duas pessoas. Uma pessoa pode 'ficar' com outra apenas uma ou duas vezes, quem sabe três, o que explicita noção de tempo de ruptura, pois a contagem não é feita em razão de dias/meses/anos como no namoro, mas sim em vezes, o que demostra descontinuidade no envolvimento, em termos de vivência de um cotidiano.
O 'ficar' é envolvimento momentâneo: as pessoas que 'ficam' são companhias uma da outra, entendendo-se companhia como pessoa com quem se está. É um 'estar com' livre de compromissos, em que os valores da liberdade, autonomia e prazer pessoal ganham ênfase. Vejamos o depoimento:
É tu ires num lugar, bater o olho em alguém, azarar, tu já estás
com a boca seca, cheia de vontade, tu já não disfarças mais e
aí vai... pode ser na mesma noite. Azaração é na mesma noite:
tu estás numa festa, azara a noite toda, final da noite tu vais
conferir. É uma coisa passageira, sei lá, tu queres ter alguém...
não ligas pra mais nada, te liberta. (Cláudia, 25 anos, Ciências
Sociais)
Por isso é que o 'ficar' pode ser entendido como exacerbação da individualidade, muito mais que a paixão. Há um 'eu' que se sente liberto das pressões e condicionamentos sociais, tornando o 'ficar' um domínio privilegiado do 'culto do eu', já que o nível de escolha individual é extremamente valorizado, pois o indivíduo 'inventa' um envolvimento, controla suas vontades. Não é algo irracional como a paixão, na qual as pessoas são tomadas por emoções vistas como doentias e incontroláveis. Aqui, o domínio individual sobre os sentimentos é enfatizado por um 'eu' que se sente descompromissado em relação ao seu parceiro e em relação ao grupo social.
É preciso ressaltar, no entanto, que se pode começar um namoro mediante o 'ficar' se os parceiros escolherem dar continuidade ao envolvimento. Apesar dessa possibilidade, que se dá a partir do 'ficar' e não é algo intrínseco a ele, não há expectativa de desenvolvimento de relações posteriores no momento em que se 'fica', pois justamente o domínio da falta de compromisso é que o define.
Uma das causas que dificultam a utilização do preservativo masculino, nas relações sexuais das pessoas que 'ficam', parece ser a contradição entre um código de valores influenciado pela ideologia individualista - em que os domínios do privado, do íntimo e das escolhas individuais são enfatizados - e a normalização proposta pela Medicina, com a prescrição do uso do preservativo masculino nas relações sexuais, a qual vem abalar o domínio da
escolha individual exacerbada no 'ficar' .4
Ao mesmo tempo, é preciso indicar que há aceitação do uso do preservativo neste tipo de relação eventual, o que se explica pelo pouco conhecimento dos parceiros e do não compartilhamento de sentimentos afetivos entre eles. Além disso, a relação sexual desprotegida provoca a troca de fluidos, que suscita outras trocas diversas, como por exemplo, as de sentimentos, de expectativas que não estão previstas nesse tipo de envolvimento.
Existe, então, consciência da necessidade da utilização do preservativo masculino nas relações sexuais ao 'ficar', o que não quer dizer que fatores de outra ordem não intervenham, dificultando a prevenção. Um desses fatores diz respeito à perda do prazer nas relações sexuais com a utilização do condom, o que remete a causas físicas que também interferem nas negociações para a prevenção da AIDS.
Corpo e preservativo: uma difícil relação
Além das concepções a respeito da AIDS expostas até aqui, temos algumas percepções do corpo que influenciam na prevenção desta doença. Assim, existem reclamações recorrentes, em sua maior parte masculinas, a respeito do desconforto causado pela utilização do preservativo masculino. Foram comuns as falas dando conta de que "a camisinha é pequena demais para o meu pênis", ou que "deveria haver um número maior de camisinha". A referência ao pênis na terceira pessoa "ele não gosta, ele não quer" e a existência de apelidos "o sem-vergonha, o guri" ou nomes ("Bráulio"), evocam a concepção do pênis como órgão viril, ativo e sujeito de vontade.
A falta de sensibilidade durante o ato sexual é outro incômodo que o preservativo traz, pois impede o encontro entre os corpos, a troca de temperaturas. O depoimento seguinte é interessante:
O Cláudio sempre reclama que com a camisinha ele não tem
contato com aquilo de dentro de mim, aquele contato do corpo
com o corpo, de pele com pele, aquela coisa apertada,
quentinha da gente. (Crístiane, 22 anos, Direito)
A quebra do ritmo durante a relação sexual para a colocação do condom é tomada, da mesma forma, como desfavorável à prevenção. Através dessa lógica, o preservativo masculino 'corta o clima da relação', linguagem que indica a visão do ato sexual como algo quente, em contraposição ao preservativo masculino, tido como frio, em associação simbólica com impessoalidade. Assim, a frieza do preservativo masculino liga-se ao frio da impessoalidade na relação que se produz por falta de contato entre os corpos, de trocas de substâncias, fluidos, emoções e sentimentos.
Eu acho um saco. Tu estás com uma pessoa, começas a te
envolver, aí de repente tens que parar, te levantar da cama,
procurar a camisinha (e é quase certo que tu não vais achar). Aí
tu voltas para cama, começas tudo de novo, e é aí que
acontece. Eu acho uma droga, uma sacanagem da natureza
conosco, porque afinal, no contato mais íntimo que duas
pessoas podem ter, tu ainda tens que pôr uma coisa no meio,
um plástico, uma coisa morta... (Júlio, 24 anos, Ciências
Sociais)
Como se vê, a utilização do condom, além de impedir a realização da relação sexual plena, manifestando quebra do ritmo do envolvimento durante o ato sexual e barreira ao encontro de sentimentos e de fluidos corporais, ainda coloca em cena o perigo e a idéia da morte, que se consubstancializa no preservativo.
Considerações finais
Na busca de uma apreensão das concepções a respeito da AIDS e dos significados simbólicos e práticos de suas formas de prevenção no que concerne à transmissão sexual do vírus HIV, produzimos algumas interpretações ligadas às concepções de risco e às características e valores concernentes às relações sexuais e afetivas entre jovens universitários solteiros moradores de Porto Alegre.
Nesse sentido, apesar do perfil epidemiológico da AIDS mostrar registros de elevado número de casos novos entre heterossexuais, a pesquisa aponta para a existência de uma 'imunidade ideológica' contra esta doença, que continua atuando e demarcando identidades sociais, as quais justificam práticas não preventivas com relação à infecção pelo HIV. Esta 'imunidade ideológica' é marcada por valores morais que identificam o soropositivo como desviante/marginal.
Para os jovens estudados, há dupla associação da AIDS com marginalidade, tanto porque o vírus HIV, além de atacar a imunodeficiência do organismo, interfere nos atributos morais de seu portador - a contaminação, além de física, é também moral -, como porque há estigmatização de comportamentos sociais considerados desviantes, como o dos homossexuais, o das profissionais do sexo e o dos usuários de drogas, identificados como 'grupos de risco'.
Essa visão acerca da AIDS e dos soropositivos dificulta a prevenção da doença, uma vez que os desviantes/marginais são sempre Os outros'. Neste sentido, o desafio vivido pelos pesquisados é o da produção de estratégias sociais que permitam negociar a prevenção sem esquecer de lidar com os julgamentos morais acerca desta doença, caracterizados pelo desvio e marginalidade.
Neste trabalho, indicamos a possibilidade de uso seletivo das informações quanto à prevenção contra aAIDS e procuramos ressaltar os diversos tipos de relacionamentos afetivos e as diferentes concepções de risco relacionadas com as características e valores a eles associados.
Em síntese, o namoro baseia-se na fidelidade enquanto valor e na noção de amor como garantia de confiança no parceiro, o que faz existir baixa percepção de risco de infecção pelo HIV nesse tipo de envolvimento. A paixão, por sua vez, é vista como súbita e efêmera, o que faz os pesquisados assumirem a importância de procedimentos preventivos contra a AIDS, porém a paixão é experiência em que há predomínio da emoção sobre a razão, na qual não é possível controlar o desejo. Já o 'ficar' é envolvimento momentâneo e descompromissado, no qual os valores da liberdade, autonomia e prazer pessoal estão colocados. Como a troca de fluidos durante a relação sexual supõe trocas de secreções e também de emoções, sentimentos e expectativas que não estão previstas nesse tipo de envolvimento afetivo, há percepção da necessidade do uso do condom.
Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de que fatores de ordem física intervenham nas negociações da prevenção, como o tamanho do preservativo, a quebra do ritmo e a falta de sensibilidade durante a relação sexual. A idéia da morte, consubstancializada no preservativo, também se faz presente e lembra, como diz Perazzo (1992), que a escolha pela vida deve incluir, necessariamente, a morte em sua trajetória.
Apesar de destacar os pontos aqui levantados, assumimos a impossibilidade de apreender a multiplicidade de aspectos envolvidos no tema e no objeto desta pesquisa. Sem dúvida alguma, a importância deste estudo reside menos nas interpretações produzidas do que por suscitar interrogações e questionamentos a serem desenvolvidos em trabalhos posteriores.
Notas
1 Sobre o distintivismo, ver BOURDIEU (1983). Para um paralelo com o grupo social ao qual pertencem os informantes, ver SALEM (1980).
2 SEFFNER (1995) aborda a temática da potencialidade que o soropositivo possui de ameaçar os outros com seus próprios fluidos corporais, afirmando que esse é estigma que muito incomoda os soropositivos. Segundo o autor, os não soropositivos exageram na possibilidade de ocorrência desse tipo de comportamento, o que é reforçado em notícias de jornal que relatam boatos sobre a contaminação de iogurtes ou sucos pelo sangue contaminado. Também há casos em que os soropositivos mantêm relações sexuais desprotegidas e, depois, anunciam a entrada da vítima para o "Clube dos HIV Positivos". A disseminação de histórias de transmissão proposital do vírus parece confirmar a interpretação de que, no grupo pesquisado, há percepção de que a contaminação pelo HIV, além de física, é também moral.
3 LEAL (1995), em sua pesquisa sobre práticas contraceptivas entre mulheres de classes populares porto-alegrenses, relata a existência de concepção da relação sexual muito parecida com a esboçada aqui. Segundo a autora, a relação sexual é representada como momento em que ocorre a troca de fluidos corporais, que são substâncias transmissoras tanto daquilo que pode ser poluído quanto da vida, das emoções e das substâncias morais.
4 Uma análise das fronteiras da medicalização em domínios em que a autonomia individual é valorizada encontra-se em CORRÊA (1994). Também RODRIGUES (1996) busca entender as mediações que sofre o discurso médico, referindo o crescente direito à diferença e a veiculação da Psicanálise no que se refere ao desejo e suas variadas formas de satisfação.
Referências bibliográficas
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