Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas

Luiz Fernando Dias Duarte · Capítulo 2 de 14

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Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas

Parte I - Corpo e reprodução

 

1. Marcas no corpo: gravidez e

maternidade em grupos populares

 

Heloísa Helena Salvatti Paim

Este estudo tem como objetivo analisar alguns dos significados sociais atribuídos aos eventos biológicos da reprodução. Busca-se descrever e estudar algumas concepções e práticas acerca da vivência da gravidez e da maternidade de algumas mulheres de grupos urbanos de baixa renda em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

A gravidez e a maternidade são temas antropologicamente relevantes, uma vez que não se esgotam apenas como fatos biológicos, mas abrangem dimensões que são construídas cultural, social, histórica e afetivamente. A gravidez processase no corpo das mulheres, porém, como outros acontecimentos do mesmo tipo, tem significados construídos com base na experiência social. Por conseguinte, pode-se pensar que são variáveis conforme a posição social ocupada pelos sujeitos, segundo classe, sexo, idade etc.

Propõe-se, como hipótese, que as mulheres pesquisadas têm um universo simbólico específico, segundo o qual percebem e vivenciam suas experiências corporais, ao contrário de segmentos das camadas médias, que costumam compartilhar concepções médico-científicas do corpo e da saúde caracterizadas por visão compartimentalizada, individualista e normatizada (cf. Motta, 1995). Os membros de grupos populares adotam outras explicações para os fenômenos corporais. Mesmo quando há utilização do discurso médico, verifica-se uma ressemantização destas informações.

Neste sentido, entende-se que gravidez e maternidade não devam ser fenômenos estudados isoladamente e sim integrados aos sistemas de valores mais amplos dos grupos populares. Assim, é fundamental analisá-los no contexto das concepções de corpo, de reprodução e das relações de gênero inseridos em situação concreta de classe, onde adquirem significados.

Este trabalho compõe-se de uma discussão de cunho teórico acerca das concepções de corpo e de gênero como construções sociais e objetos de estudo. Em seguida, tenta-se ressaltar aspectos de

vivência da gravidez obtidos a partir do método etnográfico, 1 traçando paralelos com parte da literatura antropológica.

 

Corpo e gênero: construções sociais e objetos

antropológicos

A sensibilidade, os sentimentos e os afetos, tomados em geral como dados 'naturais' ou biológicos, têm sido objeto de estudo das áreas humanas com o intuito de demonstrar as dimensões sociais, históricas e culturais destes fenômenos. Pode-se citar, por exemplo, o trabalho de Ariès (1981), que descreve o surgimento do "sentimento de infância e de família"; o de Badinter (1985), contrapondo-se aos defensores do instinto materno; o de Leroi-Gourhan (s/d), mostrando que a utilização do suporte orgânico do homem difere da do animal, na medida em que incorpora uma rede de símbolos; o de Bastide (1983), que mostra como o "sentimento de cansaço" não se refere apenas à vivência de certo estado fisiológico, mas é condicionado a "categorias do espírito" que podem estimular ou ocultar a consciência das sensações do corpo.

Do mesmo modo, as concepções de saúde, doença e corpo, os quais em geral são percebidos como noções meramente biológicas, também têm sido apontadas como construções sociais. A este respeito, a contribuição fundamental da Antropologia consiste em demonstrar que qualquer apreensão do que seja a natureza já é feita com base em um universo cultural. Dentro desta perspectiva, entende-se que o corpo, ainda que algo natural e individual, é conformado e moldado socialmente. O corpo é, desse modo, compreendido e usado por referência ao universo cultural específico a cada grupo social.

Mauss (1974), em seu texto clássico As Técnicas Corporais, problematiza as manifestações corporais, analisando-as como fenômenos sociais e não apenas como reflexos mecânicos de um corpo físico. Fundamenta a sua dimensão social mediante a enunciação da diversidade de formas que uma atividade pode tomar. Observa, por exemplo, que, na índia, muitas mulheres costumam ter seus filhos em pé; já nos países europeus, opta-se pela posição deitada ou de cócoras. Sua argumentação salienta que as posições adotadas no parto não derivam de escolhas individuais ou meramente mecânicas, mas resultam de intenso processo educativo que começa desde a mais tenra idade e que se distingue conforme a idade e o sexo das pessoas.

Percebe-se como é possível vislumbrar inúmeros aspectos da organização social que expressam pressões sociais sobre os indivíduos, tomando-se por base o estudo das concepções, usos e cuidados com o próprio corpo ou com o dos outros. Tais reflexões encontram-se de modo bastante desenvolvido nos estudos sobre gênero, que são uma das preocupações primordiais neste trabalho.

A utilização da categoria de gênero expõe a preocupação de pesquisadores em desnaturalizar as identidades sexuais, a divisão sexual do trabalho e as relações desiguais entre homens e mulheres (v. Rosaldo, 1979). Trata-se de tentativa de romper com explicações essencialistas acerca da posição de subordinação das mulheres em diferentes sociedades. Sendo assim, 'gênero' refere-se a uma construção social do sexo. 'Sexo', por sua vez, diz respeito ao fenômeno 'natural' - cabe lembrar que, em verdade, toda elaboração sobre este fenômeno natural já é social; sexo e natureza também são construções históricas e culturais. Contudo, mantêm-se estas distinções em termos analíticos.

Busca-se ressaltar o caráter eminentemente arbitrário da ordem simbólica. Não se está negando a importância do fator biológico, mas sim salientando que ele, isoladamente, não nos informa sobre o mundo social, já que este fator é vivido e interpretado no âmbito de uma cultura. Desta forma, não se deve interpretar 'gênero' como noção unívoca que é determinada do mesmo modo em todos os lugares e épocas, mas como produto da interação de forças sociais.

O caráter socialmente construído da gravidez e da maternidade é ilustrado pela diversidade de significados que podem assumir dentro de uma mesma sociedade ou em sociedades distintas. Como coloca Mead (1979) em seu estudo sobre três tribos da Nova Guiné, a notícia da gravidez é recebida com desgosto entre os Mundugomor, havendo afastamento dos demais membros quanto ao casal. As mulheres não gostam de amamentar, caracterizando-se este momento mais pelo incômodo do que pela afeição. A relação entre mãe e filho é marcada pela impaciência e por ressentimentos. Os homens e as mulheres são bastante agressivos, nascendo a criança em um mundo hostil, onde terá maior possibilidade de sobreviver se for violenta também. Já os Arapesh devotam atenção especial às crianças, procurando deixá-las sempre confortáveis e bem alimentadas. Entre os Tchambuli, por sua vez, há fortes laços de solidariedade entre as mulheres. A responsabilidade pela alimentação e cuidado das crianças é dividida entre as esposas do pai.

Em suma, a gravidez e a maternidade, em particular, e os eventos corporais, em geral, não são apenas indícios do desempenho de uma atividade biológica, ou seja, natural. Constituem também eventos culturais: são submetidos a uma construção simbólica que se impõe aos indivíduos. Por esta razão, seus estudos tornam-se relevantes para a Antropologia. Sendo assim, para que se compreenda como são experienciados estes fenômenos corporais, deve-se inseri-los em contexto mais amplo.

Ainda que as experiências da maternidade e da gravidez sejam experiências sociais, são percebidas pelos indivíduos como meramente naturais. Como argumenta Bourdieu (1990), se certos fenômenos são considerados naturais, como a divisão sexual do trabalho, isto deve-se ao fato de estarem presentes de forma objetiva no mundo social e por terem sido incorporados à própria estrutura cognitiva do sujeito. Quer dizer, são pensados como sistema de categorias de percepção e ação. Desse modo, o arbitrário torna-se necessário, assume a aparência de ter fundamento natural, quando, em verdade, é imposição social que se efetiva por meio do processo de formação e educação:

E no entanto o golpe de força que o mundo social exerce sobre

cada um de seus sujeitos consiste em imprimir em seu corpo

(...) um verdadeiro programa de percepção e apreciação e de

ação que, na sua dimensão sexuada e sexuante, como em

todas as outras, funciona como uma natureza (cultivada,

segunda) isto é, com a violência imperiosa e (aparentemente)

cega da pulsão ou do fantasma (socialmente construído).

(Bourdieu, 1990:15)

Na concepção de Bourdieu, o mundo social imprime no corpo as categorias fundamentais de uma visão de mundo baseada em princípios sociais de divisão e oposição que são arbitrários. A diferença biológica é usada como forma de justificar as diferenças socialmente construídas:

... o trabalho visando transformar em natureza um produto

arbitrário da história encontra neste caso um fundamento

aparente nas aparências do corpo, ao mesmo tempo que nos

efeitos bem reais que produziu, nos corpos e nos cérebros...

(Bourdieu, 1990:15)

Com base na explicação de Bourdieu, pode-se entender o outro lado da moeda: em primeiro lugar, vistos como fenômenos biológicos, em verdade, são vivenciados mediante um universo cultural; em segundo lugar, compreende-se que as imposições culturais tornam-se tão arraigadas que são percebidas como naturais.

Até este momento, procurou-se demonstrar que os aspectos sociais e culturais perpassam as noções de corpo e de gravidez para, desta forma, salientá-los e construílos como objetos antropológicos. Nas seções seguintes, buscar-se-á aproximar o universo dos grupos populares pela descrição e análise do trabalho etnográfico, bem como por intermédio da literatura específica.

 

Considerações acerca da cultura popular:

domínio público e privado

Inicialmente, é preciso explicitar aspectos que têm servido como pano de fundo para pensar a vivência da gravidez no universo de estudo escolhido: em primeiro lugar, noção de cultura popular; em segundo, como se compreende, dentro deste contexto, a posição ocupada pela mulher na realidade social. Quanto à noção de cultura popular, ressaltar-se-á apenas suas características principais.

A cultura popular não constitui dimensão completamente autônoma, uma vez que se pode tomar elementos de outros universos para compor determinada visão de mundo, como, por exemplo, na apropriação do discurso médico pelas mulheres de grupos populares. Em tais processos de negociação de significados, certas ressemantizações estão presentes. Neste sentido, Fonseca (1992) enfatiza a necessidade de buscar a alteridade do grupo estudado, não negando a "força da moralidade vigente", mas ressaltando seu caráter criativo.

Também Duarte (1987) argumenta ser a cultura popular construção específica, que tem lógica própria, diferenciada do modelo dominante. Salienta que esta cultura não deve ser tida como resquício arcaico ou reflexo diluído do presente: "se há aí uma 'cultura', ela é diferente da nossa, e diferente não no sentido de pequenas variações, mas no sentido forte e verdadeiramente contrastivo" (Duarte, 1987:213), devendo ser investigada em suas especificidades.

Outra particularidade fundamental da cultura popular mencionada por estes pesquisadores é sua heterogeneidade. Qualquer sistema cultural apresenta diversidades e tensões internas que deverão ser consideradas pelo antropólogo. Sendo assim, é preciso ter claro que a cultura de um grupo é produzida historicamente em condições sociais e materiais específicas.

Neste contexto, Duarte (1986) identificou o elemento feminino subordinado ao elemento masculino ao descrever as relações de gênero nas classes trabalhadoras urbanas. Os papéis sexuais são definidos de modo relacionai; há complementaridade hierárquica. O homem tem, como espaço privilegiado de ação, o domínio público, sendo também o mediador entre a mulher e este espaço - trabalho, lazer. A mulher estaria restrita ao espaço doméstico. O autor estabelece pares de oposição que associam a mulher ao que é interno, natural e privado, em oposição à exterioridade, ao social e ao público da posição masculina.

Desta perspectiva, constata-se que há atribuições distintas assumidas por homens e mulheres para que haja a reprodução social. O homem é responsável pelo sustento familiar - marido provedor - e por garantir o respeito dos membros da família. Já o desempenho das tarefas consideradas femininas não é percebido como se exigisse o desenvolvimento de habilidades especiais e sim como qualidades inerentes à condição feminina. Estas tarefas consistem primordialmente em cuidar dos filhos e do marido e em atividades domésticas. Victora (1991), entre outros autores, salienta que os cuidados com a contracepção, gravidez e amamentação são também de responsabilidade feminina.

Ser mulher, nos grupos populares, inclui a maternidade como condição inerente e necessária para sua completa realização como sujeito deste universo simbólico. As meninas, desde muito cedo, são preparadas para a maternidade por meio do cuidado dos irmãos menores e das atividades domésticas para auxiliar suas mães. A gravidez e a maternidade são vividas não apenas como processo corporal, mas como a atribuição de status superior à mulher - em relação às mulheres sem filhos -, como veremos adiante.

No universo pesquisado, fica claro esta posição atribuída às mulheres dos grupos populares. Durante o período de trabalho de campo, nenhuma das informantes tinha emprego fixo e nem demonstrava preocupação em desenvolver carreira profissional; comentavam que exerciam atividades remuneradas temporariamente em momentos de dificuldades financeiras. Também a escola não apareceu como opção atraente. Todas tiveram sua primeira gravidez entre 14 e 17 anos. A maioria das informantes mantinha relação conjugai estável com co-residência. Naquele momento, o cotidiano das informantes era perpassado pelas obrigações domésticas, pelo cuidado dos filhos e dos maridos e por redes de troca e de sociabilidade com a vizinhança. Em resumo, verifica-se que a construção da identidade feminina, nos grupos populares, parece estar predominantemente associada à esfera doméstica.

 

Identidade feminina e reprodução

Alguns trabalhos antropológicos têm destacado o papel fundamental que a capacidade reprodutiva assume na construção da identidade feminina nos grupos populares. A especificidade do corpo feminino tem sido usada como forma de marcar sua inserção na realidade social.

Victora destaca que as mulheres identificam diferentes fases em suas vidas a partir da seleção (social) de alguns fenômenos biológicos. Isto fica claro no depoimento de uma de suas informantes:

Antes de menstruar é menina, quando menstrua é mocinha e

quando tem relação é mulher. (Victora, 1991:106)

A menarca, que comumente ocorre em torno dos 11 ou 12 anos, é encarada como marco importante, porque indica aptidão à reprodução e mais um passo em direção à vida adulta, a qual será instaurada definitivamente com o primeiro filho. Este período de 'mocinha' é em geral curto, pois é comum, nos grupos populares, as moças envolverem-se em relações sexuais-amorosas que podem

resultar em gravidez ou em casamento2 ou em ambos, por volta dos 14 ou 15 anos.

Em trabalho anterior (Paim, 1994), procurou-se mostrar a importância da primeira gravidez para as mulheres de grupos populares. Partiu-se da hipótese de que a primeira gravidez e a consecutiva maternidade estruturam-se como ritos de passagem da mocidade para a vida adulta, isto é, são tidas como elementos constitutivos da identidade social feminina em grupos populares. Sendo assim, compreende-se o desejo e a aceitação da gravidez por parte das jovens - e também dos familiares - logo após ficarem 'mocinhas'. Tais idéias e práticas são esclarecidas pelo trabalho de Duarte (1986), que enfatiza o quanto o status de adulto é valorizado nas classes trabalhadoras.

Junto a isto, verificou-se a pouca importância dada à virgindade nos grupos populares. Fonseca (1986), ao analisar a noção de honra neste universo, argumenta que "não existe uma noção particular de honra ligada à moça solteira", pois a honra da mulher é fundada no espaço doméstico e a moça solteira ainda não tem este espaço exclusivo para si. Como se vê, nos grupos populares a identidade feminina completa está muito vinculada ao desempenho do papel de mãe e de esposa.

Knauth (1991) acrescenta que a concepção de saúde da mulher está associada a sua fertilidade. A autora expõe que as mulheres percebem-se mais resistentes à doença e à dor do que os homens. Esta resistência, em particular à dor, está relacionada ao parir, caracterizado por dor intensa, mas suportável pela própria condição feminina dada naturalmente.

Neste trabalho etnográfico, verifica-se igualmente que a gravidez é percebida como manifestação de saúde e não como doença. Isto pode ser visualizado no fato de as mulheres grávidas não abandonarem suas atividades diárias quando grávidas e no fato de a maioria delas não contar com a ajuda dos familiares, além dos auxílios comuns, a não ser em alguns casos e nos períodos próximos ao parto e no pós-parto. Deve-se ter em mente, como afirma Duarte, que, nestes grupos, a doença é constatada quando as pessoas deixam de realizar suas atividades rotineiras.

A importância da gravidez na construção social da identidade feminina pode ser confirmada também nos relatos das informantes, ao falarem, com profundo pesar, das mulheres estéreis ou com dificuldade de engravidar, temendo a manifestação de conflitos latentes devido a esta situação.

 

Contraponto

Lo Bianco (1985) aborda um aspecto da 'cultura psicanalítica', entendida como difusão das psicologias e da psicanálise em alguns grupos brasileiros, no que se refere ao cuidado com as crianças. Ela visa a apreender o desenvolvimento de um fenômeno, denominado "psicologização do feto", que consiste em tentativas das mulheres em aperfeiçoar a relação materno-infantil antes mesmo do nascimento da criança, para garantir o seu bem-estar emocional. A autora analisa este fenômeno, articulando-o com as mudanças nos papéis sociais da mulher e com as reformulações de padrões tradicionais de comportamento em relação à maternidade. Para isso, Lo Bianco faz estudo comparativo entre 19 mulheres das camadas médias (Grupo 1) e 21 mulheres moradoras do subúrbio, em sua maioria migrantes nordestinas (Grupo 2) residentes no Rio de Janeiro. Nas entrevistas, enfocavam-se as mudanças constatadas durante a gravidez, a relação mãe-feto, a preparação para o parto e o papel atribuído à mulher na sociedade.

Lo Bianco distingue a vivência da gravidez e maternidade em dois tipos: para o Grupo 1, a gravidez é "estágio transitório da maternidade"; para o Grupo 2, é "período transitório para a maternidade" (Lo Bianco, 1985:101). Esta diferença estaria presente na forma de a mãe referir-se à sua situação de mãe e ao feto. Para o Grupo 1, a mulher se torna mãe ao engravidar, passando a ter cuidados concretos em relação à constituição física e psicológica do feto. Já as mulheres do Grupo 2, segundo Lo Bianco, pensam que suas obrigações enquanto mãe se instauram com o nascimento da criança. Sendo assim, neste segundo grupo não se têm preocupações específicas com a gravidez, mas com as condições de sobrevivência após o nascimento da criança. Ou seja, enquanto o Grupo 1 aponta que sua vida sofreu transformações com a notícia da gravidez, o Grupo 2 espera que as mudanças ocorram após o nascimento da criança. Para a autora, isto explicaria porque as mulheres do Grupo 2 respondem de forma breve sobre a gravidez e têm interesse de falar sobre outros assuntos, como a relação conjugal. Já o Grupo 1 faz detalhadas descrições do período da gravidez nos aspectos físicos e psicológicos.

Neste universo de pesquisa tem-se verificado, por meio das observações e dos relatos sobre o cotidiano no período da gestação, diferentes práticas e percepções das mulheres quanto à gravidez daquelas descritas por Lo Bianco como sendo os comportamentos típicos dos grupos populares.

As informantes fazem recorrentes comentários acerca das alterações emocionais e físicas associadas diretamente à gestação. O crescimento da barriga instaura de forma marcante o estado de gravidez. Uma informante, perguntada se era possível esquecer que estava grávida, responde de forma contundente:

Não, porque a barriga chega sempre antes, vai lavar a louça,

ela chega antes na pia, vai cortar, ela chega antes na mesa.

(Renata, 25 anos, cinco filhos)

A partir do acompanhamento do crescimento da barriga é marcado o tempo. Entre os quatro e cinco meses, a barriga começa a ficar saliente. Nos primeiros meses, a gravidez parece transcorrer em tempo 'normal', ou seja, semelhante ao cotidiano anterior; já nos últimos meses, é vivida de modo mais lento, 'não passa nunca'. No período que antecede o parto, há maior cansaço, a barriga torna-se mais pesada, mas nem por isso há afastamento completo das tarefas, com exceção de duas informantes que afirmam terem tido deslocamento de placenta e, para manter a gravidez, foram obrigadas a ficar em repouso total.

As mulheres que estão tendo sua primeira gravidez, como já foi colocado, anseiam adquirir o status adulto. Com isto, há maior expectativa quanto ao surgimento da barriga e com o nascimento como indício deste novo status:

Primeiro eu queria muito que a barriga crescesse e demorou

muito, depois só queria ganhar logo e acabar com a barriga.

(Rosane, 16 anos, primeira gravidez)

No grupo estudado, observa-se que a maioria das mulheres tem relação de ambivalência com seus corpos grávidos. Em certos momentos, acham lindas suas barrigas, em outros, têm a sensação de um corpo disforme, gordo. Muitas se deparavam com comentários externos de aprovação pela sua aparência, mas isto nem sempre correspondia a um sentimento pessoal. Uma das informantes afirma:

... eu olhava [no espelho], via aquele barrigão. Eu achava a

minha barriga linda, isso é que eu não entendo, eu achava o

corpo horrível, mas a barriga estava brillhosa, nem via os pés.

(Paula, 16 anos, um filho)

Quanto a manter relações sexuais, o que parece influir não é estar ou não grávida, mas a forma como está sendo experienciada a gestação - nervosismo, fragilidade. Além disto, a gravidez não parece ser percebida como empecilho para o estabelecimento de laços amorosos com ou sem co-residência, mesmo quando o filho esperado é de relação anterior.

Deve-se levar em conta que as diferenças encontradas entre o trabalho de Lo Bianco e o aqui desenvolvido podem ser causadas pela escolha de diferentes regiões para objeto de estudo, nas quais as pessoas vivem sob condições sociais e históricas distintas. Acreditamos, porém, que seria possível considerar outra hipótese. Em texto anterior, Lo Bianco (1981) parece deixar claro que os grupos populares adotam concepções próprias no que diz respeito à família, à infância e à mulher, o que lhe permitiu analisar o fracasso de atendimento a gestantes em um hospital público. Entretanto, no artigo mencionado inicialmente (1985), ela parece tomar como parâmetro a cultura psicanalítica que é própria de um grupo e de determinado período histórico, não conseguindo perceber a forma específica como as mulheres dos grupos populares (Grupo 2) vivenciam a gravidez. Lo Bianco poderia ter afirmado que as mulheres do Grupo 2 não estavam usando o mesmo referencial psicológico que o usado pelas mulheres das camadas médias, para orientar a vivência da gravidez. Ao invés disto, assevera que, para o Grupo 2, "a gravidez em si não é objeto de considerações" (Lo Bianco, 1985:101).

Lo Bianco aparenta julgar como sendo falta de observação o fato de as mulheres dos grupos populares não apontarem transformações no modo como elas e suas mães 'viviam' a gravidez. O que parece é que, ao contrário do outro grupo, que tem como meta desenvolver um projeto de maternidade e de mulher diferente daquele da geração anterior, como descrito pela autora, nos grupos populares esta não é a maior preocupação. Os conhecimentos sobre como cuidar dos filhos são transmitidos de uma geração a outra, estando mãe e filha até mesmo gerando filhos simultaneamente, ambas se auxiliando nos cuidados que se requere. Já os trabalhos de Lo Bianco, Salem (1985) e Almeida (1987) observam que alguns grupos das camadas médias vêem as experiências da geração anterior como parâmetro negativo para suas experiências.

Além disso, para melhor compreensão de como as mulheres dos grupos populares experienciam suas gestações, é preciso ter clareza acerca de algumas concepções que elas têm sobre seus corpos, a saber: que cada corpo é único, e que as experiências podem variar de uma gestação para outra; que o corpo feminino é caracterizado por movimentos de abertura e fechamento.

Corpo: uma experiência particular

Victora (1992) trata das representações sociais de algumas mulheres dos grupos populares acerca de seus corpos e de seus aparelhos reprodutores, a partir de desenhos e das explicações fornecidas sobre estes últimos. Ela aponta que as mulheres percebem seus corpos como únicos. Desta forma, não seria possível dar explicação geral nem para o processo menstrual nem para a fecundação, como também não para a vivência da gravidez. São eventos aleatórios, que podem ou não vir a ocorrer:

... ao falarem sobre o interior do corpo feminino, sobre a vida

intra-uterina dos bebês, sobre a origem e o desenvolvimento da

gestação referem-se exclusivamente ao seu corpo. Depreende-

se então que as representações do corpo embora construam-se

por categorias e sistemas classificatórios coletivos, apresentam-

se. de forma particular. Em outras palavras, os corpos mantém-

se [sic] similar enquanto órgãos que o compõem, mas singular

em seu funcionamento.

(Victora, 1992:43)

Neste universo de pesquisa, também foram encontradas mulheres que consideravam ter havido variação quanto a sua experiência da gravidez de uma gestação para outra, que, por sua vez, eram diferentes das experiências das outras mulheres quanto às sensações corporais e emocionais, valendo o mesmo para o parto. Isto pode ser visto no seguinte depoimento:

Cada gravidez é diferente da outra, uma se passa bem a outra

não, uma se fica inchada a outra se emagrece. (Renata, 25

anos, cinco filhos)

Contudo, há um repertório bastante difundido de crenças - que retomarei posteriormente - acerca dos significados destas alterações corporais, isto é, toma-se o tipo de mudança apresentada pelo corpo, por exemplo, como indício do sexo do bebê.

Além das alterações corporais, confirma-se que as mulheres vivenciam mudanças em seus estados emocionais. Assim como Lo Bianco verificou nos grupos populares, as informantes desta pesquisa mencionavam que em algumas gestações tinham ficado mais irritáveis e nervosas. Porém, nem sempre este era o sentimento que acompanhava a gravidez nem mesmo durante todo o período. Por exemplo, Renata diz que na primeira e na última gravidez "não conseguia olhar direito" para seu marido, pois até a voz dele a incomodava. Nas outras gestações, gostava de sua companhia. Andréa (23 anos, duas filhas) diz que ficou fragilizada na segunda gravidez e que qualquer coisa, que antes não a atingiria, quando grávida a fazia chorar. São constantes as referências ao nervosismo e a um sentimento incômodo sem causa aparente, a não ser a gravidez, esperando-se que cesse após este período.

Ao contrário de Lo Bianco, que afirma que as mudanças ocorridas durante a gravidez, no modo como são constatadas pelas mulheres dos grupo populares, "carecem da possibilidade mencionada de desencadear questões acerca dos sentimentos para com o feto" (Lo Bianco, 1985:104), neste trabalho etnográfico, ao mesmo tempo em que se menciona a presença do nervosismo, demonstra-se preocupação em desfazêlo, pois pode afetar o bebê. A mãe de uma grávida, sugerindo que a filha e o marido resolvessem alguns conflitos sem afetar o 'nenê', diz: "não se deve ficar nervosa que afeta o nenê e ele não pode se defender, os grandes [adultos] podem".

Também outras mulheres referem-se ao fato de que o feto "sabe tudo o que se passa com a mãe" e, em função disso, procuram evitar incômodos. Acreditam que exista uma ligação e uma influência mútua entre mães e filhos. Maria (50 anos, nove filhos) explica que o sofrimento que passou em decorrência da venda mal feita de sua casa, durante a gestação de seu sexto filho, fez com que ele se tornasse muito nervoso.

Quanto à comunicação intra-uterina entre mãe e feto, Lo Bianco destaca que, nas camadas médias, é elemento tido como importante para a formação psicológica do feto; sendo assim, as mães preocupam-se em estabelecê-la. Já as mulheres do outro grupo mostram grande estranhamento com esta prática, pois "ele não tá ouvindo mesmo" (Lo Bianco, 1985:107). Entretanto, neste trabalho etnográfico, inúmeras vezes foi mencionado que as informantes e seus maridos costumavam conversar com seus bebês, principalmente quando eles se mexiam. Uma das informantes sugere a hipótese de que talvez sua filha tenha nascido prematura de tanto que ela e o marido conversavam com o bebê antes mesmo dele nascer: diziam que estavam muito felizes e que queriam conhecê-lo logo. Não se está sugerindo que este comportamento se baseie nos mesmos fundamentos que o das mulheres das camadas médias - visão psicologizada - e sim que há uma atenção e uma interpretação feita pelas mulheres de grupos populares no que concerne a seus corpos e ao do feto, com base em um universo simbólico próprio.

Verifica-se também que, além dos movimentos fetais estimularem a comunicação da mãe, também podem indicar descontentamento ou prazer do bebê, ou mesmo são usados como explicação para certos acontecimentos. Por exemplo, Vanessa (30 anos, dois filhos) revela que, durante sua gravidez, enjoava ao comer frango, pois estava preparando esse alimento na primeira vez em que sua filha se mexeu.

Durante a gravidez, o corpo manifesta-se também quanto a certas comidas, no desejo e no enjôo, que variam de uma mulher para outra. O aspecto enfatizado é a referência a alimentos aos quais as mulheres não apresentavam as mesmas reações em período de não-gravidez. Os alimentos que são mencionados como causando desejo não são exóticos ou incomuns ao cotidiano destas mulheres, citando-se, como exemplo: goiaba, pão com margarina e chá preto. Em geral, o que se ressalta é o aumento do consumo. Apenas uma informante diz ter comido cera e tijolo. Da mesma forma, os alimentos que causam enjôos fazem parte da alimentação ordinária, como carne, feijão, tomate, pimentão; em geral, alimentos a que as informantes se referem como fortes.

Junto a esta compreensão de que as experiências corporais são vivenciadas de forma particular pelas mulheres, acrescenta-se a noção de que o corpo feminino costuma abrir e fechar.

 

Corpo: 'abrindo os ossos'

O corpo feminino, nos grupos populares, é caracterizado por movimentos de abertura e fechamento que são naturais, indicando, assim, seu bom funcionamento. Leal (1995) observa que períodos menstruais e fecundação são percebidos como momentos em que o corpo está aberto. É recorrente à representação de que ambos os fenômenos estão vinculados:

No jogo de significações dos humores do corpo que envolvem a

menstruação e a concepção, a representação do corpo

feminino como algo que se abre e se fecha é determinante

sobre todas as outras e chave para compreendermos a lógica

da reprodução. O corpo é sempre pensado como algo pleno de

movimentos internos, uma dinâmica de fluidos determinantes

do próprio estado de estar vivo... O corpo da mulher é portador

de uma cavidade oca, o útero, espaço onde se desenvolverá

ofeto. O sangue menstrual é específico e indicador da condição

de fertilidade feminina. (Leal, 1995:27)

As mulheres aqui investigadas são unânimes em afirmar que a gravidez não atrapalha o desempenho das atividades cotidianas (cuidar da casa, dos filhos, do marido ou o trabalho remunerado). Algumas enfatizam que sentiam vontade de trabalhar mais durante a gravidez. A constante ressalva de que não há necessidade de romper com as atividades cotidianas pode ser compreendida a partir de três elementos: como já foi dito, a gravidez é assimilada como fenômeno saudável e a doença, em geral, é constatada pela ruptura com as atividades rotineiras, trabalho, sono; o trabalho é visto como ajuda para a preparação para o parto, pois vai 'abrindo os ossos'; a gravidez e o trabalho doméstico são percebidos como atividades próprias das mulheres, demarcando sua posição social circunscrita ao espaço doméstico.

O corpo grávido é visto como um corpo que se abrirá para permitir que o bebê nasça. A mãe de uma informante justifica que 'a mulher grávida só abre'; por isso, ficou apavorada quando viu que uma médica grávida faria o parto de sua filha. Em conseqüência desta situação, a filha teria tido vários problemas com os pontos do corte feitos em seu parto, que foram cicatrizar apenas quando a médica teve seu próprio filho. Verifica-se haver uma concepção mágica associada a esta explicação, que segue o princípio simpático, ou seja, o semelhante age sobre o semelhante: a mulher grávida que 'só abre' não poderia fechar um corte feito por ela mesma, sob o risco de isso trazer problemas para o seu próprio parto.

 

O sexo do bebê

Junto às concepções próprias a este grupo acerca de seus corpos, mostram-se marcantes as elaborações mágicas que tentam explicar certos fenômenos. Deve-se ter em mente que as crenças falam das pessoas que as anunciam e não do mundo. A crença constitui-se de elementos simbólicos que produzem uma apreensão do mundo, isto é, lhe atribui significados.

Fundamentando-se nas crenças coletadas, torna-se possível constatar-se dois aspectos: as alterações emocionais e corporais são observadas e fornecem base empírica para as explicações elaboradas pelas mulheres e seu grupo de convívio; diferentes conhecimentos são utilizados e reinterpretados, por eles, para compreender os fenômenos corporais.

Aqui, apenas serão destacadas as informações sobre como saber o sexo do bebê. Cabe ressaltar que, mesmo a maioria das mulheres tendo feito acompanhamento pré-natal em um posto ou hospital, apenas duas fizeram ecografia por terem corrido risco de aborto espontâneo. Assim, eram utilizados outros métodos para a descoberta do sexo do bebê, tais como o da observação do formato do corpo ou do estado emocional da mãe. Por exemplo: se a mãe fica com o rosto inchado é menino; se fica com o rosto magro é menina. Se as dores são nas costas é menino, se são na barriga é menina. Ou ainda: se a mãe fica 'chata' é um menino; se ficar 'legal' é uma menina. Ou quando uma criança fica agressiva e inquieta em presença da mulher grávida, o bebê nascerá com o mesmo sexo da criança.

 

Parto e pós-parto

Nesta parte do trabalho, far-se-á o registro de alguns dados coletados com relação ao parto e ao pós-parto, esperando que futuramente venham a ser analisados, pois revelam interessante enfoque de estudo.

Os momentos anteriores ao parto são narrados como constante incômodo do qual não se consegue desfazer:

Tomei banho não era aquilo, deitei não era aquilo, fui no

banheiro não era aquilo... (Paula, 16 anos, um filho)

Eu não conseguia nem ficar deitada. Deitava e levantava para

fazer xixi, deitava de novo e levantava para fazer xixi. (Renata,

25 anos, cinco filhos)

Apenas duas informantes contaram não ter tido muitas dificuldade e dores para fazer o parto: uma havia feito duas cesarianas; a outra teve nove filhos e só teve problemas na primeira - 'porque não tinha experiência' - e na última, porque a criança estava sentada e a médica preferiu fazer 'parto pélvico' ao invés de cesariana.

A maioria dos partos relatados foi normal e ocorreu em hospital; apenas esta última informante fez três partos com parteira. As descrições de movimentos e dores incontroláveis são recorrentes e colocadas como manifestações da natureza que independem da vontade da mulher. Nos depoimentos, não se encontra consenso quanto às descrições das sensações corporais:

O segundo parto é melhor que o primeiro porque tem

experiência e a mulher já tá mais aberta, tem lugar. (Ana, 20

anos, dois filhos)

O pior parto foi este último (terceiro), senti muita dor. Nos

primeiros, a dor era comprida e menos forte; na última foi

menos comprida e mais forte... nessa última eu não berrava, eu

urrava. (Bianca, 35 anos, três filhos)

Ao narrarem seus partos, as mulheres comumente citam dois novos sujeitos: os médicos e os enfermeiros. De modo geral, na visão delas, eles não entendem que as dores e as forças são independentes delas. Várias mulheres contam que, ao sentirem que o bebê ia nascer, avisavam aos atendentes, que pediam que esperassem 'um pouquinho'. Em conseqüência disto, uma informante teve o filho sozinha, na maca, e a outra enquanto a suspendiam para colocá-la na cama de parto. Esta última mãe, que recebeu do médico a sugestão de colocar na criança o nome de Leandro para formar outra dupla caipira, referindo-se ao seu próprio nome, que é Leonardo, respondeu:

Que dupla? A dupla aqui fui eu e meu filho, porque eu já

cheguei ganhando aqui. (leda, 29 anos, quatro filhos)

Nenhuma das mulheres entrevistadas estava acompanhada do marido durante

o parto. Os comentários feitos a este respeito confirmam o que já foi colocado por Knauth, isto é, que as mulheres se consideram mais fortes que os homens em relação à resistência à dor. A expectativa delas era de que, se vissem o parto, os homens desmaiariam. Ao ouvi-las, fica-se com a impressão de que a presença dos maridos não as auxiliaria de nenhuma forma.

Ao contrário do que Salem (1985) e Almeida (1987) encontram ao analisar casais de camadas médias da década de 80, que se propunham vivenciar conjuntamente a gravidez e o parto, neste universo pesquisado o marido parece não assumir papel muito ativo, ou melhor, não há alteração das atribuições que são consideradas como suas durante a gravidez e o parto.

O período de repouso de 48 horas após ter dado à luz, prescrito pelo hospital e lá cumprido, é tido como suficiente para que as mulheres retomem suas atividades, exceto nos casos em que tenha havido problemas durante o parto. Neste período, pessoas do sexo feminino integrantes da família, sua ou do marido, residentes em áreas próximas, tanto 'cuidam' seus filhos quanto até mesmo de seu marido, administrando a alimentação e a casa.

Algumas mulheres relatam dores no pós-parto; uma delas explica que são movimentos que ocorrem dentro da barriga porque "o corpo da mãe está procurando o corpo do filho". No discurso sobre o parto e o pós-parto, verifica-se que as explicações recorrem mais a uma sujeição à natureza.

 

Marcas no corpo

As marcas inscritas no corpo após as experiências da gravidez, do parto e aleitamento parecem deixar, no corpo das mulheres, o registro da função social considerada ideal neste universo simbólico. Junto a estes relatos, as mulheres costumam mostrar as marcas que ficaram em seus corpos. Como argumenta Fonseca (1995), é característica da cultura popular ser oral, mas acompanhada por ilustrações, por encenação teatral, enfim, há uma corporalidade das informações.

Sendo assim, sem maiores constrangimentos, as informantes abrem as calças, levantam as blusas para que a pesquisadora veja - não sem constrangimento - as inúmeras estrias na barriga e nos seios, a concentração de pigmentação que forma um traço entre o umbigo e os seios, o corte da cesariana ou o ventre avantajado, revelando as marcas permanentes que a experiência da maternidade deixou em seus corpos.

Em apenas um caso, a mulher diz estar 'traumatizada' em virtude da cicatriz que ficou da cesariana de emergência a que foi submetida.3 As demais mulheres não faziam maiores comentários, apenas as mostravam.

Não se sugere que estas marcas sejam causadas pela falta de atenção com o corpo ou pela ausência de preocupação com o embelezamento do corpo da mulher, pois, além das cicatrizes, estas exibem ornamentos, como anéis, pulseiras, brincos, unhas pintadas, encontrando-se em suas casas também shampoos e cremes. As marcas parecem ficar como um registro do status de mulher adulta, alcançado através da maternidade e que não se tem a preocupação de prevenir.

 

Considerações finais

Este estudo pretende ser apenas uma primeira versão da sistematização dos dados coletados no trabalho de campo e do diálogo com parte da literatura antropológica. Mediante a exposição dos elementos que estão envolvidos na gravidez e na maternidade, procurou-se ressaltar sua importância na construção social da identidade feminina em meio aos grupos populares, destacando-se a especificidade da lógica simbólica deste universo cultural.

Alguns trabalhos têm trazido contribuições fundamentais acerca das práticas e das representações sociais de corpo, de concepção, de gestação e de contracepção em grupos populares, tais como os de Duarte (1986), Leal (1995), Leal & Lewgoy (1995) e Victora (1991; 1992). A tentativa aqui realizada foi a de aprofundar a compreensão da vivência da gestação neste mesmo universo, procurando demonstrar de que maneira um acontecimento biológico como a gravidez é experienciado a partir de código cultural próprio, que compreende a posição da mulher como vinculada ao espaço domestiço e que toma a vivência da gravidez como um dos pontos altos da construção da identidade feminina.

Está clara, no discurso a respeito da gravidez das mulheres entrevistadas, uma tentativa de reforçar o desempenho ideal do papel feminino. Este não é descrito sob a forma de comportamentos frágeis; pelo contrário, as informantes reforçam constantemente suas grandes responsabilidades junto à família e expressam a imagem de mulheres valentes ao descreverem os incômodos durante a gravidez, as dores intensas do parto, as marcas corporais. Tudo, porém, minimizado pelo nascimento de um novo ser.

Sendo assim, constatamos que o corpo feminino neste universo, como coloca Motta, está fortemente vinculado à noção de um corpo que:

... produz, que fabrica através de processos incontroláveis e

imprevisíveis. Um corpo comunicável e comunicante com o qual

e através do qual a mulher dialoga, observa e interpreta sinais.

Faz parte de um saber feminino conhecê-lo e interpretá-lo, mas

talvez manobrar e barganhar com ele (distinguir um coágulo de

uma gravidez) ou exercer algum poder sobre ele (como o de

interromper uma gestação. (Motta, 1992:30-31)

As explicações e as práticas da gravidez destas mulheres não podem ser plenamente compreendidas caso se tenha como parâmetro o saber médico-científico; ainda que em algumas de suas explicações utilizem expressões das quais, provavelmente, tenham tomado conhecimento a partir do contato com os médicos e enfermeiras nos postos de saúde ou hospitais, este saber é reinterpretado - em alguns casos, até contestado - com base em uma lógica simbólica própria à cultura popular em que estão inseridas as informantes.

Enfim, ao contrário das mulheres de camada média estudadas por Lo Bianco, que rejeitam ser lembradas apenas e tão somente pela gravidez, por não quererem ser reduzidas à dimensão de mãe, nos grupos populares tem ficado nítido que a experiência de ser mãe é a que garante o 'ser mulher' no sentido pleno da palavra. A especificidade do corpo feminino foi tomado como determinando sua posição, status e função social.

 

Notas

1 O material etnográfico foi coletado em dois momentos: pesquisa intensiva, iniciada em abril de 1994, com quatro mulheres que estavam tendo seus primeiros filhos entre 14 e 17 anos; em julho de 1995, foram feitos contatos com seis mulheres, moradoras da Vila Jardim, em Porto Alegre. Procurou-se conversar com pessoas que haviam tido filhos recentemente e também com mulheres que tinham longa experiência em gestações. O primeiro momento foi realizado em companhia de Elisiane Pasini.

2 Não se está tratando diferenciadamente se são ou não alianças formais. 3 Talvez ela tenha enfatizado o trauma por associar Antropologia à Psicologia.

 

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