Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas
5. O ethos masculino e o adoecimento relacionado ao trabalho
5. O ethos masculino e o adoecimento
relacionado ao trabalho
Henrique Caetano Nardi
A capacidade e as habilidades para o trabalho - em especial, aquele duro e pesado - são elementos constituintes importantes do 'ethos masculino' nas classes trabalhadoras (Duarte, 1986; Guedes, 1992). O espaço masculino é o espaço público (Bourdieu, 1990), onde ocorrem as relações dos homens adultos, trabalhadores e chefes de família.
Nesse âmbito, por um lado, configuram-se as condições que permitem o exercício do papel-função de 'pai provedor' desempenhado no espaço da casa, ou seja, do privado, da família, do feminino e do infantil. A doença, por outro lado, se conforma como fraqueza, incapacidade, e é o domínio do feminino, pois a mulher, tradicionalmente, é encarregada dos cuidados com a saúde e a doença (Leal, 1992:8). O espaço do doente e da doença é o do privado. No entanto, este sofre determinação social, pois, como destaca Auge (1986:36): "O paradoxo da doença é que ela é ao mesmo tempo a mais individual e a mais social das coisas".
Quando o trabalhador homem adoece ou se acidenta, em razão de seu trabalho, confronta-se com uma situação de incapacidade para o exercício desse labor, o que, muitas vezes, destrói as possibilidades de retorno a sua atividade habitual; por conseguinte, a enfermidade, ao retirá-lo do espaço público e masculino do trabalho, o remete para o espaço do privado, do feminino. Nesse momento o trabalhador enfrenta uma ruptura de identificação, ou seja, passa a pôr em xeque os elementos constituintes do que está definido socialmente e internalizado como 'ser homem' e 'ser trabalhador'. Quanto a esse fato, Bourdieu afirma:
... o homem é um ser implicado no dever ser, que se impõe
como se fosse evidente por si mesmo, sem discussão: ser
homem é estar instalado de imediato numa posição que implica
poderes e privilégios, mas também deveres, e todas as
obrigações inscritas na masculinidade... (Bourdieu, 1990:17)
O material etnográfico a ser analisado neste texto1 provém de entrevistas realizadas com um grupo de trabalhadores afastados de suas atividades laborais por doenças e acidentes relacionados ao
trabalho.2 No momento das entrevistas, esse grupo esteve afastado de suas atividades laborais por período superior a cinco meses. A temática abordada nos encontros tratava das repercussões do afastamento do trabalho por doença ou acidente ocupacional. O grupo se constituiu de trabalhadores homens do Pólo Petroquímico
de Triunfo, no Rio Grande do Sul.3
A discussão nos quatro encontros realizados girou em torno das modificações ocorridas, desde o adoecimento do trabalhador, no cotidiano da vida destes, nas concepções que faziam de seu trabalho, da saúde, das relações saúde/trabalho e de ordem familiar. A metodologia utilizada na condução dos grupos foi aquela preconizada por Dejours & Abdouchely (1994), empregando-se também elementos teórico-conceituais oriundos da Psicanálise, como demonstrado por Costa (1989).
Neste texto pretendemos explorar as dimensões sociais e individuais da doença, conforme propõe Auge (1986) ao abordar um momento de conflito na constituição do ethos masculino que vincula trabalho a outros atributos e funções morais, tais como: ser bom pai, bom marido, provedor do lar, forte, honesto, entre outras características descritas por Costa (1989) e por Duarte (1986). O conflito de identidade se apresenta, neste contexto, porque o trabalho que tem eficácia simbólica para garantir as atribuições sociais constitutivas da identidade masculina é aquele que vai provocar a doença e determinar uma série de limitações morais e físicas que colocam em jogo os atributos necessários para ser homem e trabalhador.
Identidade de trabalhador e sofrimento mental no
afastamento do trabalho por doença ou acidente
A vivência do afastamento do trabalho determina sofrimento subjetivo, pois implica sentimentos de impotência, vergonha e isolamento. Silva (1993:21) refere que
o trabalhador se autoculpabiliza pela doença ou acidente e enfrenta sentimento de fracasso individual. Podemos entender esse sentimento, com base na compreensão do rompimento de elementos de identificação ligados ao trabalho no momento do afastamento do empregado pela incapacidade conseqüente ao acidente ou doença. O lugar do trabalho na estruturação da identidade é evidenciado por vários autores (Costa, 1989; Duarte, 1986; Guedes, 1992; Tittoni, 1994; Nardi & Tittoni, 1995). Baró (apud Silva, 1993:19) analisa a importância do trabalho, na construção da identidade, como núcleo ao redor do qual o indivíduo desenvolve o significado para a própria vida.
A identidade é definida por Costa (1989:83) como o produto dos papéis que o indivíduo assume no desempenho social e, citando Freud (apud Costa, 1989:85), afirma que ela é o amálgama dos afetos e representações que o sujeito experimenta e formula como sendo a natureza do próprio Eu e do Outro. Lembra, no entanto, que essas representações e afetos são transitórios, móveis e múltiplos, mudam conforme a posição que o sujeito ocupa nas relações com os outros, posição constantemente cambiante e permutável. Esse conceito é fundamental para compreendermos o sofrimento advindo do afastamento do trabalho, pois como refere:
O distúrbio mental existe quando as representações de que o
indivíduo dispõe para sentir e pensar sua identidade ou as
causalidades e finalidades de seus projetos e emoções não se
articulam em nenhuma rede de significados presente em sua
consciência socializada. (Costa, 1989:77)
O rompimento dos elementos estruturantes da identidade de trabalhador, conseqüência do afastamento por doença ou acidente do trabalho, faz com que sejam substituídos por um exercício da subjetividade que se coloca a partir de um lugar marginal. No imaginário social desse grupo de trabalhadores - para o qual a virilidade, a força e a convivência com o perigo são importantes traços constituintes da identidade -, o lugar de quem adoece e não trabalha é a casa e o sentimento de exclusão do grupo é extremamente marcante. Costa afirma:
Todo indivíduo está constantemente convivendo com o tipo
padrão de seu grupo social. Quando imagina-se próximo do
sujeito ideal pode sentir-se, como de hábito se sente, satisfeito
e realizado; quando se imagina afastado, pode experimentar
aflição, insatisfação ou mal-estar. Este tipo de sofrimento não
configura um quadro psicopatológico, embora seja,
inequivocamente sofrimento mental (...) Este tipo ideal, uma vez
definido, é socializado e, por alienanle que seja, ele sempre
remete o indivíduo ao mundo das significações coletivas, à
lógica do discurso cultural. (Costa, 1989:73)
No grupo estudado, podemos evidenciar claramente as situações de sofrimento nas falas dos trabalhadores, quando relatam a primeira sensação ao ficar em casa premidos pela doença ou acidente:
A primeira sensação que o cara tem é de ser inválido.
(Trabalhador 1)
O cara fica com um sentimento de ficar inutilizado, impotente,
assim para fazer as coisas, pelo menos comigo, também me
colocaram na cabeça que eu precisava parar total. É eu
gostava de cuidar, consertar coisas em casa, deixar o jardim
cheio de flores. É aí,ficaaquele clima, pois os vizinhos saem e
tuficaali, todo mundo sai, eu, pelo menos, me afetou. É tu,
aparentemente bem e os vizinhos todos saindo. Eu não
transmiti meu problema para o pessoal. Eles foram descobrindo
depois. Eu não quis falar mas ficava em casa. É eles, acho que
pensavam, aquele foi para a rua. Não sei porque não disse Cabe apontar que a vivência de sofrimento só foi superada, ou relativizada, no momento em que os trabalhadores puderam reintegrar-se de alguma forma ao mundo do trabalho. No único caso em que, durante a pesquisa, ainda não tinha havido alguma forma de reintegração às atividades laborais, o trabalhador persistia com quadro depressivo e de isolamento social.
nada, sei lá. Senão de repente o cara não vai na tua casa
achando que vai se contaminar. Daqui a pouco os caras estão
construindo um muro em volta da minha casa. (Trabalhador 2)
Neste último caso, o trabalhador sabia que sua patologia não era contagiosa, mas a sensação de vergonha ou culpa faz com que ele utilize a metáfora do 'muro', evidenciando seu distanciamento do tipo ideal de trabalhador, que é aquele que sai todos os dias para o trabalho e ao qual o adoecimento não é permitido. Esse trabalhador alude a um quadro posterior de auto-enclausuramento, referência comum aos outros trabalhadores que apresentaram quadros de isolamento ou fobia social presentes em algum momento do afastamento.
Como afirmam Herzlich & Pierret (1991:78), ser saudável a partir da Revolução Industrial passa a ser sinônimo de ser capaz de trabalhar, fato esse confirmado por outros autores, como Minayo (1994):
Para a classe trabalhadora a representação de estar doente
como sinônimo de inatividade tem a marca da experiência
existencial. Trata-se de uma equivalência social e não natural.
As expressões correntes: a saúde é tudo, é a maior riqueza,
saúde é igual a fortuna, é o maior tesouro; em oposição a
doença como castigo, infelicidade, miséria etc. são
representações eloqüentes de uma realidade onde o corpo se
tornou, para a maioria, o único gerador de bens. (Minayo,
1994:185)
Silva (1993:21), analisando o trabalho de Lira & Weisntein, considera que, na situação de desemprego, ocorre a gradual destruição da identidade pela forma como o projeto de vida individual e o ideal de si mesmo são duramente confrontados com as práticas, papéis e valorizações sociais experimentadas pelo indivíduo; a resultante queda de auto-estima, a quebra da identidade ocupacional - em verdade, indissociável da identidade global - leva ao surgimento de identidade negativa, produto da dissolução dos vínculos de integração da identidade.
Redimensionamento dos referenciais de gênero
As repercussões do afastamento do mundo do trabalho pela incapacidade causada por acidente ou doença do trabalho têm repercussões nítidas nos referenciais de gênero, segundo afirma Guedes:
Sob esse ângulo avaliavam que, após o acidente ou doença
incapacitante, tinham se modificado substancialmente,
aparecendo comfreqüênciafrasescomo 'eu não sou o mesmo
homem' e outras versões daquela destacada acima, ligando,
nitidamente, as condições de homem e trabalhador, através do
operador corpo masculino. (Guedes, 1992:3)
De acordo com Tittoni (1994:166), o trabalhador petroquímico, principalmente o operador de processo - quatro entre os cinco componentes do grupo tinham essa função -, constitui-se em força de trabalho composta pelos traços de cultura masculina que permeiam o discurso dos trabalhadores em questão.
Guedes, em seu estudo da construção da 'pessoa' homem-trabalhador, afirma:
O valor do homem como trabalhador mede-se tanto por sua
competência específica no trabalho quanto por sua
competência em manter sua mulher como não-trabalhadora,
evitando o substantivo que colocaria em perigo a 'ordem natural
das coisas' e retendo-lhe o qualitativo de 'trabalhadeira', ou
seja, a que não economiza esforços para manter sob controle Também percebemos a relativização da divisão dos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher no ambiente familiar. Nos casos em que já havia estrutura familiar menos rígida, com autonomia do casal, a relação se sustentava de forma menos desgastante. Em alguns casos, a mulher passou a trabalhar e, em outros, o homem sentiu falta da autonomia da esposa.
estrito a administração cotidiana da casa e dos filhos. (Guedes,
1992:402)
Nossos dados etnográficos apontam para uma redefinição dos referenciais de gênero construídos com base no trabalho, no momento em que os trabalhadores relatam suas situações familiares quando do adoecimento e o conseqüente afastamento de sua ocupação. A metáfora utilizada pelo grupo foi 'a casa cai', ou seja, a casa - que se sustenta na divisão dos papéis sociais - cai quando o homem passa a ocupar lugar indefinido para ele no ambiente familiar. Fato este que podemos perceber nas falas dos trabalhadores:
Toda a organização da casa é pensada contando que o velho
vai sair para trabalhar, e eles têm a vida deles, eu acho, dentro
de casa. A mãe e os filhos ali, ela administra a casa. É tu
começa a meter o bedelho e o clima começa a ficar ruim e
começa a aparecer problemas de relacionamento. Isso foi uma
coisa que eu comecei a sentir já bem no início. (Trabalhador 1)
Dividi os filhos na escola, de manhã e de tarde. As vezes me
irrito e saio, mesmo tendo que ficar em casa. Isso foi no ano
passado. Esse ano eles que estão saindo de casa, arranjam
qualquer desculpa para sair de casa. (Trabalhador 2)
Ficar em casa para quem é casado é tipo gato e rato; começam
as brigas e desentendimentos com a mulher e os filhos, a gente
sente falta dos colegas, ainda mais em função das turmas; a
turma era a compensação do trabalho em turnos. (Trabalhador
3)
Em alguns casos, no grupo, não foi possível sustentar a relação do casal no período do adoecimento e afastamento, levando a soluções como o divórcio ou o trabalho em outra atividade fora da cidade, afastando-se da família por toda a semana. Mesmo quando a relação se manteve, o trabalhador chegou a utilizar expressões como a de ser 'estorvo' dentro de casa.
Mulher trabalhar é bom, eu acho isso excelente para a
harmonia dentro de casa [no caso, a mulher não trabalhava fora
de casa]. Como agora, no caso do cara ter de ficar dentro de
casa. Ela sai e volta e tudo se renova. No caso dos dois ficarem
encerrados em casa, chega o ponto que não dá certo.
(Trabalhador 1)
Tem dias que eu faço a comida toda, desde que ela começou a
trabalha; antes ela fazia tudo e eu nem me imaginava
cozinhando. (Trabalhador 2)
As representações do trabalho masculino e feminino quanto aos papéis sexuados tornam-se, como afirmamos, relativizados e transformados. O espaço do privado, para o qual o trabalhador homem é remetido no momento da doença, faz com que os condicionantes da dominação masculina revertam em dependência do feminino. Trata-se da violência simbólica (Bourdieu, 1994:6) repercutindo sobre o homem que, por adoecer, deixa de cumprir com suas Obrigações' de trabalhador, ou seja, a incapacidade implica valoração social negativa, incoerente com os atributos masculinos. O homem que não trabalha, que adoeceu devido ao seu trabalho, é vislumbrado como fraco e tem menos valor que aquele que resiste e vence o trabalho duro, perigoso, insalubre e
arriscado.4 Bourdieu, ao tratar da dominação masculina e da violência simbólica necessária para instaurá-la e mantê-la, considera que:
Quando os dominados aplicam os mecanismos ou as forças
que os dominam aos dominantes, ou, muito simplesmente,
categorias que são produto da dominação ou, em outros O trabalho tem função estruturante na sociedade; portanto, conforma os indivíduos nos seus vários aspectos, dentre estes 'os gêneros', que também se estruturam a partir da divisão sexual e social do trabalho. Quando momentos de ruptura são experienciados no cotidiano da vida dos indivíduos - conforme, nesse caso, a doença - é que podemos perceber a forma visceral como essas distinções são construídas socialmente.
termos, quando suas consciências e seus inconscientes são
estruturados de acordo com as estruturas mesmas da relação
de dominação que lhes é imposta, seus atos de conhecimento
são, inevitavelmente, atos de reconhecimento da dupla
imposição, objetiva e subjetiva, do arbitrário do qual constituem
o objeto. Isto posto, a indeterminação parcial de alguns
elementos do sistema mítico-ritual, do ponto de vista da
distinção mesma entre o masculino e o feminino que está no
fundamento de sua ação simbólica, pode servir de ponto de
apoio a reinterpretações antagônicas pelas quais os dominados
adotam uma forma de revanche contra o efeito da imposição
simbólica. (Bourdieu, 1990:12)
Os trabalhadores, ao adoecerem, passam a ser 'marcados' nos grupos de origem; cria-se uma ideologia da culpabilização imposta, com o isolamento dos indivíduos que se acidentam. Trata-se de mecanismo de defesa coletivo dos trabalhadores (Dejours, 1987) -além de estratégia das empresas -, pelo qual os trabalhadores ativos estabelecem marca de diferença com relação àqueles que adoeceram e se acidentaram e, desta forma, passam a negar o risco, o que permite que se continue atuando em profissão arriscada e perigosa. As empresas, mediante as chefias diretas e os serviços médicos, utilizam-se desta 'ideologia da culpabilização individual' e reforçam o isolamento do trabalhador como forma de ocultar as condições de risco sob as quais se dá o trabalho em questão.
O Estado, por meio da Previdência Social 5 e de seus peritos, na visão dos trabalhadores, tem por função pôr em dúvida a incapacidade e o nexo causai da doença ou do acidente com o trabalho, sendo considerado pelos trabalhadores como extensão das empresas. Os trabalhadores avaliam:
O INSS faz o jogo da empresa. (Trabalhador 1)
O perito me disse que tinha ordens superiores para dar alta aos
pacientes do Pólo e vários colegas confirmaram. (Trabalhador
2)
O meu chefe me disse que estava me demitindo pois eu estava
mais preocupado com a saúde que com o trabalho.
(Trabalhador 3)
A suspeita coloca os trabalhadores em posição subjetiva complicada, pois, ao mesmo tempo que é difícil aceitar o fato de estar doente e, portanto, não cumprir com a norma internalizada do que implica ser homem e trabalhador, os trabalhadores têm também que provar sua incapacidade, uma vez que dependem de julgamento favorável do perito para ter acesso aos direitos constitucionais.
O sentimento comum aos trabalhadores, no que diz respeito às empresas, é o de traição; passam a utilizar expressões de autodesvalorização e referem ter sido transformados em 'coisas descartáveis', 'peças estragadas e facilmente repostas'.
No entanto, quando indagados sobre o futuro - já que vários deles estavam com ações de reintegração contra as empresas -, esses afirmam seu desejo de provar àquelas, aos colegas e aos chefes que não são incapazes, ou então que a própria empresa foi a culpada pelos acidentes ou pelo adoecimento. Podemos entender estas intenções não somente como reivindicações de seus direitos legais e de recompensa financeira, mas também como forma de obter o reconhecimento social de não terem falhado como homens e trabalhadores e, pela via da justiça e da lei, resgatar um lugar de direito, ou seja, o de homem, trabalhador e pai provedor.
Considerações finais
A estreita relação que se impõe entre ser trabalhador, ser homem, ser pai e responsável pelo sustento da família, como condições constituintes da identidade, do ethos, ou ainda, do habitus masculino, fazem da vivência da doença e - em particular, no grupo analisado - da incapacidade, com origem no trabalho, uma vivência de sofrimento.
Temos percebido, com Bourdieu (1990), que a violência simbólica, garantia da dominação masculina, também retorna sobre aqueles homens que adoeceram no enfrentamento com o modelo produtivo e, ao serem remetidos do espaço público para o espaço privado, o do feminino, enfrentam sentimentos de perda, vergonha e culpa.
O grupo estudado demonstra como é difícil sustentar o que Herzlich & Pierret (1991) chamam de identidade construída com base na doença, pois como as autoras afirmam:
Ser doente, portanto, torna-se cada vez mais freqüentemente
viver com uma doença, ou com um handicap, e a doença tende
a tornar-se, por ela mesma, uma identidade, e para os outros,
uma categoria de percepção social (Herzlich & Pierret,
1991:82)'
Com a emergência da doença, a luta desses trabalhadores passou a se constituir na tentativa de fuga desta marca, deste estigma social de serem percebidos como doentes do trabalho, incapazes de exercer seus papéis e atributos de homens trabalhadores, tal como inscrito na cultura das classes trabalhadoras e imposto pela ordem social.
Isto porque o trabalho adquiriu, em nossa sociedade, um valor com contornos sacralizados e sacrificiais; sacralizado por comportar valor moral, qualificando como honestos e valorosos aqueles que trabalham e desonestos e sem valor aqueles que não o fazem; sacrificial porque, em seu nome, em nome da 'produção', milhares de trabalhadores adoecem e morrem submetidos a condições perigosas e insalubres. Talvez em razão desta lógica social é que Herzlich & Pierret (1991:90) afirmam que, apesar da importância estatística das doenças e acidentes de trabalho, esse adoecer específico não se faz presente no imaginário coletivo. Para os trabalhadores entrevistados, a saída encontrada para esta vivência de sofrimento foi o retorno a sua ocupação, pois mostrar-se capaz de produzir tornou-se a única garantia de reconquistar a identidade de trabalhador no mundo público do trabalho; buscaram, portanto, voltar a ocupar o lugar de homem no espaço do público e, por conseqüência, no espaço da casa, da família, do privado.
Notas
1 Os dados aqui utilizados como base empírica se encontram descritos integralmente em minha monografia de conclusão, requisito para obtenção do título de especialista em Medicina do Trabalho (Nardi, 1993).
2 Acidente de trabalho, do ponto de vista legal, "é aquele que acontece pelo exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause morte, perda ou redução, temporária ou permanente da capacidade para o trabalho" (BRASIL, 1991). Doenças do trabalho, ou relacionadas ao trabalho, são aquelas que decorrem do exercício profissional, como por exemplo: intoxicação por chumbo em fábricas de baterias, mercúrio no garimpo do ouro, cromo nas indústrias de cromagem, silicose no jateamento de areia, pneumoconiose nos mineiros de carvão, tenossinovite nos digitadores, alergia ao giz e calo nas cordas vocais nos professores etc.
3 O processo produtivo no Pólo Petroquímico de Triunfo tem algumas peculiaridades descritas por TITTONI (1994). O trabalho é realizado em turnos, pois a produção de derivados de petróleo impõe o fluxo contínuo (24h sobre 24h); em conseqüência, os trabalhadores são divididos em equipes, nas quais o imperativo do grupo é mais intenso. A vida do trabalhador fora da fábrica é organizada em função dos turnos e da equipe, já que, em razão da alternância dos horários, a convivência social, as amizades e o lazer familiar passam a depender de sua disponibilidade. As indústrias do Pólo também ofereciam, no momento da pesquisa, uma série de 'vantagens' ao trabalhador, como: creche, vale-supermercado, convênio médico etc, tornando-o dependente, nas várias esferas da vida privada e familiar, da estrutura Oferecida' pelo empregador. Podemos vislumbrar que o adoecimento e a conseqüente ruptura com esse vínculo social construído em torno do trabalho assume conseqüências mais agudas, em virtude da extrema ligação do trabalhador com a empresa.
4 Cabe salientar que GUEDES (1992:3) encontrou material etnográfico semelhante, e que TITTONI (1994:166) refere que o trabalhador petroquímico tem, como característica de constituição da identidade de trabalhador, o fato de ser capaz de enfrentar o risco e o perigo constantes de seu processo de trabalho. Não podemos deixar de lembrar que as representações referentes à autoculpabilização do trabalhador pelo acidente ou doença são altamente ideológicas e cumprem sua função ao deslocar a discussão da determinação histórico-social dos processos de saúde/doença na população operária, da exploração da força de trabalho em processos e ambientes ocupacionais penosos para uma relação individualizante, em que o trabalhador é colocado na posição de único culpado pelas estatísticas alarmantes de acidentes de trabalho no Brasil. Encontramos vasta bibliografia do assunto nos estudos de LAURELL & NORIEGA (1989), COHN (1985), OLIVEIRA (1991), MENDES (1988), entre outros.
5 Através do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), a Previdência Social é responsável pelo amparo ao trabalhador no momento do adoecimento e dos acidentes profissionais, por meio de tratamento diferenciado da incapacidade por doença comum, ou seja, do Seguro Acidente do Trabalho. Para fornecer o 'benefício acidentado', o perito tem que julgar que existe incapacidade para o trabalho e também que a doença ou o acidente decorrem da função que o trabalhador desempenhava.
* Traduzido do francês pelo autor.
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