Esconderijo
Capítulo I
Quando chegou à garagem, a porta estava inteiramente aberta, e Lindsey já estava com o motor do carro ligado.
Hatch acomodou-se no assento ao lado, e ela viu o crucifixo.
— Para que isso? — disse.
— Vamos precisar.
Dando uma ré para fora da garagem, ela disse:
— Precisar para quê?
— Não sei.
Quando tomaram a direção da rua, ela fitou Hatch com curiosidade.
— Um crucifixo?
— Não sei por que, mas talvez seja útil. Quando estive em contato com ele, ele estava... ele se sentia grato às forças infernais, era assim que a coisa surgia na mente dele... grato às forças infernais por lhe presentearem Regina. — Ele apontou para a esquerda. — Por ali.
O medo fizera Lindsey envelhecer alguns anos nos últimos dez minutos. As rugas em seu rosto pareciam mais fundas, quando ela trocou a marcha do carro e virou à esquerda como ele havia indicado.
— Hatch... Quem é que estamos enfrentando? Um desses satanistas, um desses malucos desses cultos sobre os quais a gente lê nos jornais? Esses caras, que quando são presos, a polícia descobre cabeças humanas na geladeira e ossos enterrados sob a porta da frente?
— Sim, talvez, alguma coisa assim. — Surgiu um cruzamento mais adiante, e ele apontou: — À esquerda aqui. Talvez alguma coisa desse tipo. .. mas acho que é pior ainda.
— Hatch, não podemos enfrentar isso.
— Claro que podemos — disse ele secamente. — Não temos tempo para pedir ajuda a ninguém mais. Se não enfrentarmos, Regina está perdida.
Chegaram a um cruzamento com a Crown Valley Parkway, uma avenida com largura que variava de quatro a seis faixas de tráfego e uma faixa de grama e árvores ao longo da parte central. A hora ainda não era muito avançada, e a avenida tinha um tráfego intenso, ainda que fluente.
— E agora? — disse Lindsey.
Hatch colocou a Browning no chão do carro. Não largou o crucifixo; segurou-o com ambas as mãos. Olhou para a esquerda e a direita, esquerda e direita, esperando por uma sensação, um sinal, qualquer coisa. Os faróis dos outros carros incidiam sobre eles ao passar, mas não traziam nenhuma revelação.
— Hatch?... — insistiu Lindsey, impaciente.
Esquerda, direita, esquerda, direita. Nada. Oh, meu Deus.
Hatch pensou em Regina, seu cabelo ruivo, seus olhos cinzentos, sua mão direita encolhida e recurva como uma garra... uma dádiva de Deus. Não, não de Deus. Não desta vez. Não se pode atribuir tudo a Deus. Ela devia estar certa ao dizer que era uma dádiva de seus pais, uma herança do vício das drogas.
Um carro se aproximou por trás deles, esperando para entrar também na avenida.
O modo como ela caminhava, decidida a reduzir ao mínimo sua coxeadura. O modo como ela nunca escondia a mão deformada; nem envergonhada nem orgulhosa, apenas aceitando-a como era. Querendo ser uma escritora. Porcos inteligentes do espaço exterior.
O motorista por trás deles buzinou.
— Hatch?...
Regina, uma menina tão frágil suportando o peso do mundo inteiro, e ainda assim com as costas sempre eretas e uma cabeça que nunca se curvava. Fazia tratos com Deus. Em troca de alguma coisa que lhe era importante, prometia comer feijão. E Hatch sabia que aquela coisa importante, embora ela nunca o tivesse revelado, era ter uma família, uma chance de deixar a orfandade.
O motorista voltou a buzinar.
Lindsey estava tremendo e começou a chorar.
Uma chance. Bastava uma chance. Era tudo que a garota queria: não continuar sozinha. Uma chance de dormir numa cama com flores pintadas. Uma chance de amar, de ser amada, de crescer. A pequena mão retorcida. Aquele sorriso miúdo, doce. Boa noite... papai. O homem começou a buzinar insistentemente.
— Para a direita — disse Hatch de súbito. — Direita.
Com um soluço de alívio, Lindsey virou para a direita na avenida. Ia guiando mais depressa do que o habitual, mudando de faixas à medida que o tráfego se abria à sua frente, cruzando a parte plana do sul do condado rumo às colinas distantes e às montanhas do leste, envoltas nas trevas da noite.
A princípio Hatch não tinha certeza de ter feito algo mais além de adivinhar a direção em que deveriam ir. Mas logo ficou convencido de que estavam no rumo certo. A avenida conduzia na direção leste, entre intermináveis fileiras de casas que deixavam as colinas salpicadas de luzes como se fossem milhares de chamas de velas votivas, e a cada quilômetro percorrido ele sentia de forma mais intensa que ele e Lindsey estavam seguindo as pegadas da besta.
Eles tinham prometido que não haveria mais segredos entre os dois, e além do mais Hatch sentiu que Lindsey precisava saber — para enfrentar melhor — toda a extensão do perigo que ameaçava Regina.
— O que ele quer — disse — é arrancar o coração dela e segurá-lo nas mãos até que ele pare de bater, para sentir a vida se esvaindo dele.
— Oh, meu Deus.
— Ela ainda está viva. Ela tem chances. Ainda temos esperança.
Ele acreditava que aquilo era verdade; tinha de acreditar naquilo então enlouquecer de vez. A única coisa que o incomodava era a lembrança de quantas e quantas vezes dissera aquelas mesmas palavras, durante últimas semanas em que o câncer consumira Jimmy.
Parte III
CAMINHANDO ENTRE OS MORTOS
A morte não é um mistério que amedronta.
Ela é uma velha conhecida nossa.
Ela não esconde segredos que possam
perturbar o sono de um homem honesto.
Não vires o teu rosto ao ver a Morte.
Não te incomodes se ela parar tua respiração.
Não a temas, porque ela não é o teu amo
que vem em tua perseguição.
Não o teu amo, mas um simples servo
do teu Criador, aquilo ou Aquele
que criou a Morte, e te criou
— e que é, ele sim, o único mistério.
- LIVRO DAS LAMENTAÇÕES