Esconderijo
Sete
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
1
Jonas Nyebern e Kari Dovell estavam sentados em poltronas diante da larga janela na sala de estar da casa dele em Spyglass Hill; começava a escurecer, e eles olhavam para os milhões de luzes que cintilavam ao longo dos condados de Orange e Los Angeles. A noite era relativamente límpida, e eles podiam avistar até o porto de Long Beach ao norte. A civilização parecia se espalhar como uma espécie de fungo luminescente, devorando tudo.
Uma garrafa de vinho branco estava num balde de gelo entre as duas poltronas. Era a segunda garrafa. Ainda não haviam jantado, e Jonas estava falando muito.
Vinham se encontrando socialmente uma ou duas vezes por semana, há mais de um mês. Não tinham ido para a cama, e ele não achava que iriam. Ela era uma mulher atraente, com aquela rara combinação de graça e falta de jeito que às vezes lembrava a Jonas uma exótica ave pernalta; mas o seu outro lado, o fato de ser uma médica séria e dedicada à profissão, nunca deixava que o seu lado mulher surgisse plenamente. Ainda assim, Jonas duvidava que ela tivesse qualquer expectativa de uma aproximação mais íntima, física, entre os dois. Ele próprio não se julgava capaz disso. Era um homem atormentado; havia muitos fantasmas dispostos a persegui-lo se clc achasse que a felicidade estava ao seu alcance. O que aquela relação proporcionava a ele e Kari era um ouvido atento para as confidencias, paciência e simpatia sem pieguismo.
Naquela noite ele estava falando sobre Jeremy o que certamente não era um assunto favorável a um clima romântico, se existisse alguma possibilidade nesse sentido. Ele confessava sua preocupação quanto aos sinais na loucura congênita de Jeremy, sinais que ele deixara de reconhecer — ou de admitir.
Ainda durante a infância, Jeremy tinha sido anormalmente quieto, preferindo sempre a solidão à companhia de outras crianças. A explicação para isto tinha sido: timidez. Desde muito cedo ele parecia não se interessar por brinquedos, mas isso era atribuído a sua inteligência e a um temperamento muito sério. Agora, no entanto, todos aqueles brinquedos intactos — os aeromodelos, os jogos, as bolas, os modelos para armar — eram indicações perturbadoras de que as fantasias de sua vida interior tinham sido mais ricas do que qualquer passatempo que pudesse ser fornecido por fabricantes como Tonla, Mattel ou Lionel.
— Sempre que alguém o abraçava ele ficava com o corpo rígido — recordou Jonas. — Quando retribuía um beijo, beijava sempre o ar, nunca o rosto da outra pessoa.
— Muitas crianças sentem dificuldade em dar demonstrações de afeto — insistiu Kari. Ela ergueu a garrafa de dentro do balde de gelo, inclinou-se e voltou a encher seu copo. — E isto seria apenas um aspecto a mais da timidez dele. Timidez e introversão não são defeitos, e ninguém poderia exigir de você que visse algo mais além disso.
— Mas não era introversão — disse Jonas, deprimido. — Era uma incapacidade completa de sentir, de se importar com os outros.
— Não pode continuar se martirizando assim, Jonas.
— E se Marion e Stephanie não fossem as primeiras pessoas que ele matou?
— Devem ter sido.
— Mas e se não foram?
— Um adolescente pode ter a capacidade de matar, mas não tem sofisticação suficiente para ocultar isso durante muito tempo.
— E se ele matou mais alguém, depois que fugiu do hospital de reabilitação?
— E mais provável que ele tenha matado a si mesmo, Jonas.
— Não. Ele não é do tipo "vítima".
— Provavelmente já está morto.
— Ele está vivo, em algum lugar. Por minha causa.
Jonas ficou contemplando aquele vasto panorama de luzes. Diante dele, a civilização brilhava como uma maravilha cintilante, com todo o resplendor de sua glória, e de seu terror.
Quando se aproximavam da rodovia de San Diego, a interestadual 405, Hatch disse:
— Sul. Ele foi para o sul.
Lindsey ligou a sinaleira e pegou a pista correta no derradeiro instante.
A princípio ela tinha olhado para Hatch sempre que podia afastar os olhos da estrada, esperando que ele revelasse o que estava vendo ou que emissão estava recebendo do homem a quem perseguiam. Mas depois de algum tempo ela passou a prestar atenção apenas na estrada, o tempo inteiro, porque Hatch cortara toda comunicação com ela. Ela interpretou seu silêncio como um sinal de que ele estava captando pouco, que o elo entre ele e o assassino estava enfraquecendo ou falhando. Ela não insistiu para que ele lhe desse atenção; tinha medo de distraí-lo, romper a conexão em definitivo... e perder Regina.
Hatch continuava segurando o crucifixo. Pelo canto do olho, Lindsey podia ver como as pontas dos dedos de sua mão esquerda percorriam sem cessar os contornos da figura de metal pregada sobre a cruz de madeira. O olhar de Hatch parecia voltado para dentro de si mesmo, como se ele estivesse virtualmente cego a tudo que havia diante dele e do carro onde estavam.
Lindsey percebeu que sua vida tinha se tornado tão surreal quanto suas pinturas. Experiências sobrenaturais estavam justapostas ao mundo familiar e cotidiano. Elementos disparatados preenchiam esse quadro: crucifixos e pistolas, visões paranormais e lanternas elétricas.
Nos seus quadros, ela utilizava o surrealismo para esclarecer um tema, fornecer uma visão mais profunda. Na vida real, cada intrusão do surreal servia apenas para deixá-la mais confundida e perplexa.
Hatch estremeceu e inclinou-se para a frente até onde o cinto de segurança permitia, como se tivesse visto algo fantástico e ameaçador mais à frente, embora Lindsey percebesse que ele não estava enxergando o asfalto diante deles. Então ele voltou a se recostar no assento.
— Ele pegou a saída da Ortega Highway — disse. — Para leste. Essa saída vai aparecer daqui a... uns três quilômetros. Para leste, na Ortega Highway.
Às vezes os faróis dos carros que vinham em sentido contrário forçavam Vassago a apertar os olhos, mesmo por trás das lentes negras dos seus óculos.
Enquanto dirigia, ele olhava de vez em quando para a garota inconsciente ao seu lado, com o rosto voltado para ele. Regina tinha o queixo apoiado no peito. Embora a cabeça estivesse assim pendida e o cabelo ruivo caísse sobre um lado de seu rosto, ele podia ver os lábios repuxados para trás pela mordaça, a ponta do seu nariz sardento, um olho fechado e parte do outro — seus cílios eram tão longos! — e parte da sua testa. A imaginação de Vassago distraiu-se em imaginar todas as maneiras possíveis de desfigurá-la para produzir uma oferenda mais digna.
Ela era perfeita para seus propósitos. Com sua beleza prejudicada pela perna e pela mão deformadas, ela era um símbolo da falibilidade de Deus. Um troféu para sua coleção, sem a menor dúvida.
Estava desapontado por não ter conseguido também a mãe, mas ainda não perdera as esperanças de transformá-la numa aquisição. Estava brincando com a idéia de não matar a garota naquela mesma noite. Se ele a mantivesse viva por uns poucos dias, poderia ter a chance de fazer uma nova investida em busca de Lindsey. Se conseguisse colocar as duas juntas, podendo trabalhar nas duas ao mesmo tempo, poderia apresentar seus corpos como uma versão perversa da Pietà de Miguel Ângelo ou esquartejá-las e misturar seus membros, numa colagem obscena cheia de imaginação.
Ele ainda espera por alguma orientação... uma visão que lhe indicasse melhor o que fazer.
Ao enveredar pela saída da Ortega Highway e virar para leste, ele lembrou como Lindsey, desenhando à prancheta, de costas para ele, tinha trazido a sua memória a imagem de sua mãe, tricotando, naquela tarde em que ele a matara. Ao liquidar sua irmã e sua mãe com a mesma faca, e na mesma hora, ele soubera com certeza que tinha aberto seu caminho para o Inferno; soubera isso com tanta convicção que acabara dando o passo final, empalando-se na mesma arma.
Ele tinha descoberto essa rota para a maldição através da leitura de um livro, O Escondido, uma obra publicada por uma pequena e obscura editora. O livro tinha sido escrito por um criminoso chamado Thomas Nicene, o qual, após matar a mãe e um irmão, cometera suicídio. Sua descida ao Abismo, tão cuidadosamente planejada, tinha sido sabotada por uma equipe de paramédicos dotados de muita dedicação e alguma sorte. Nicene foi reanimado, curado, preso, levado a julgamento, declarado culpado de homicídio e condenado à morte. Aquela sociedade baseada no jogo da simulação de regras queria deixar bem claro que o poder sobre a morte, mesmo o poder de escolher a própria morte, não era para ser concedido a um simples indivíduo.
Enquanto aguardava a execução, Thomas Nicene registrou no papel as visões do Inferno que ele experimentara durante o tempo em que estivera semimorto, antes de os paramédicos lhe negarem o direito à eternidade. Seus escritos foram subtraídos clandestinamente da prisão por amigos fiéis que compartilhavam suas crenças e que se encarregaram de imprimir e distribuí-los em forma de livro. O texto de Nicene estava cheio de imagens poderosas e convincentes de escuridão e frio; não o calor das imagens tradicionais do inferno, mas as visões de um reino de vastos espaços, e de um vazio arrepiante. Perscrutando através das portas da Morte e dos portões do Inferno mais adiante, Thomas tinha avistado forças titânicas em ação por entre misteriosas estruturas. Demônios de força e tamanho colossais atravessavam a névoa noturna, cruzando continentes sem luz em missões desconhecidas, cada um deles vestido de negro, com longas capas esvoaçantes e tendo sobre a cabeça um reluzente elmo negro de bordas largas. Tinha visto as ondas de oceanos escuros rebentando de encontro a praias de areias negras, debaixo de céus sem luas e sem estrelas, semelhante ao bojo de um mundo subterrâneo. Navios gigantescos, sem janelas, enigmáticos, deslocavam-se por sobre o mar encapelado, movidos por máquinas poderosas que produziam um ruído como um grito de dor emitido por milhões de vozes.
Ao ler o livro de Nicene, Jeremy soube por fim que tudo aquilo era verdade, que era a coisa mais verdadeira que alguém já colocara sobre uma folha de papel; e decidiu seguir o exemplo daquele grande homem. Marion e Stephanie tornaram-se os seus bilhetes de entrada para aquele mundo subterrâneo, exótico e fascinante, ao qual ele sabia pertencer. Tinha carimbado aqueles bilhetes com uma faca ensangüentada e arremessara a si mesmo naquele reino das trevas, encontrando precisamente o que Nicene descrevera. Nunca imaginara que sua fuga daquele mundo odioso dos vivos pudesse ser abortada, não por uma simples equipe de paramédicos, mas pelo seu próprio pai.
Mas logo ele conquistaria sua repatriação para o mundo dos malditos.
Olhando mais uma vez para a garota, Vassago lembrou da sensação que tivera ao senti-la estremecer em seus braços e perder os sentidos, afrouxando o corpo inteiro de encontro ao dele. Um tremor de deliciosa expectativa o percorreu.
Ele havia considerado a possibilidade de matar o próprio pai, na esperança de que este ato lhe garantisse para sempre a cidadania no Hades. Mas ele receava o pai. Jonas Nyebern era um homem devotado à vida e parecia brilhar com uma luz interior que mantinha Vassago à distância. As recordações mais antigas que tinha de seu pai eram cercadas de imagens de Cristo, dos anjos, da Virgem Maria e de milagres, cenas das pinturas que Jonas colecionava e das quais a sua casa estava sempre cheia. E, apenas dois anos atrás, seu pai o tinha ressuscitado, da mesma forma como Jesus ressuscitara Lázaro. Em conseqüência disso, ele via em Jonas não apenas um inimigo, mas uma figura poderosa, a encarnação das forças da Luz que se opunham à vontade do Inferno. Sem dúvida alguma, o seu pai era alguém protegido, intocável, alguém que vivia sob a detestável proteção da outra divindade.
Suas esperanças, portanto, se concentraram na mulher e na garota. Uma aquisição estava consumada; a outra, ainda pendente.
Continuou guiando rumo ao leste, por entre bairros que haviam brotado ali nos últimos seis anos, desde que o Mundo da Fantasia tinha sido abandonado. Ele percebia com satisfação que a proliferação daquelas multidões hipócritas, adoradoras da vida, não tinha ainda atingido o perímetro de seu esconderijo, o qual ficava ainda a uma distância de vários quilômetros das derradeiras ruas. A medida que as colinas cobertas de casas iam passando e à medida que o terreno se tornava mais acidentado, apesar de ainda habitável, Vassago começou a guiar mais lentamente do que de costume.
Estava esperando por uma visão que lhe dissesse se devia matar a garota assim que chegasse ao esconderijo ou esperar até que a mãe também estivesse em seu poder.
Virando a cabeça para fitá-la mais uma vez, percebeu que a garota o olhava. Seus olhos refletiam as luzes do painel do carro. Vassago percebeu que ela estava muito amedrontada.
— Pobre garota — disse ele. — Não tenha medo, tá? Não tenha medo. Estamos indo para um parque de diversões... só isso. Sabe como é, como a Disneylândia, como a Montanha Mágica.
Se ele não conseguisse adquirir a mãe, talvez pudesse ir à procura de outra garota do mesmo tamanho de Regina; uma garota especialmente bonita, com membros fortes e saudáveis. Assim, poderia refazer Regina, usando o braço, a mão e a perna da outra, como que para mostrar que ele, um mero exilado do Inferno, com vinte anos de idade, podia fazer um trabalho melhor que o do Criador. Seria uma bela conquista para sua coleção, uma autêntica obra de arte.
Ele prestou atenção ao estrondo contínuo e represado do motor do automóvel, o rumor dos pneus no asfalto, o sibilar do vento nas janelas...
Esperava por uma epifania. Esperava orientação. Esperava ser informado sobre o que teria de fazer. Esperava ter acesso a uma visão.
Antes mesmo de alcançarem a pista de saída da Ortega Highway, Hatch recebeu um jorro de imagens mais estranhas do que qualquer coisa que já tivesse visto antes. Nenhuma delas durou mais do que alguns segundos, como se ele estivesse assistindo um filme desprovido de estrutura narrativa. Oceanos escuros, ondas rebentando em praias de areia negra, sob céus vazios de lua e de estrelas. Navios enormes, sem janelas, misteriosos, impelidos sobre o mar encapelado por poderosas máquinas que produziam um ruído como o de milhões de vozes humanas gritando em agonia. Demônios colossais, com mais de trinta metros de altura, com suas cabeças cobertas por capacetes negros e reluzentes como vidro. Máquinas titânicas entrevistas em pleno funcionamento por entre estruturas monumentais de forma extravagante e cuja utilidade e função era impossível adivinhar.
Às vezes Hatch avistava essa paisagem apavorante em forma de imagens vividas e detalhadas; outras vezes ele via apenas descrições delas em forma de palavras nas páginas de um livro. Se aquilo existia, devia ser num planeta remoto, porque não pertencia a este mundo. Mas ele não sabia se estava recebendo imagens de um lugar real ou de algo que tinha sido apenas imaginado. Às vezes, parecia algo tão nítido como qualquer avenida real por onde ele passava, outras vezes parecia algo tão tênue e sem espessura quanto um desenho em papel de seda.
Jonas voltou à sala trazendo a caixa onde guardava os objetos que recolhera no quarto de Jeremy e a colocou ao lado de sua poltrona. Retirou da caixa um livro pequeno, mal encadernado, em cuja capa aparecia o título: O Escondido, e o estendeu a Kari. Ela o examinou, segurando-o como se estivesse tocando um objeto coberto de sujeira.
— Tem razão em fazer essa cara — disse Jonas, pegando seu copo de vinho e parando ao lado da janela. — É um livro absurdo. Mórbido, doentio, mas absurdo. O sujeito que o escreveu era um condenado à morte, que afirmava ter estado no Inferno. A descrição que ele fornece não tem nada a ver com o Inferno de Dante. Oh, claro, tem um certo romantismo, algumas imagens poderosas. Um adolescente psicótico, com sonhos de grandeza e inclinação para a violência, tendo ainda por cima um nível de testosterona anormalmente elevado, como se dá nesses casos, veria no Inferno desse livro a sua fantasia de Poder mais perfeita. Iria ficar hipnotizado por isto. Não seria capaz de tirar essas imagens de sua mente. Ansiaria por isto, faria qualquer coisa para ir para esse lugar, para ser condenado à danação eterna.
Kari pousou o livro e limpou as pontas dos dedos na blusa.
— Esse autor, Thomas Nicene... ele diz que matou a própria mãe.
— Sim. A mãe e o irmão. Deu o exemplo. — Jonas sabia que já tinha bebido demais, mas tomou outro gole do vinho. Virando as costas à paisagem noturna, disse: — E você sabe o que é que torna tudo isso ainda mais absurdo, pateticamente absurdo? Se ler esse maldito livro, como eu fiz, tentando entender o que acontecera.... Se você ler isso e não for um psicopata disposto a acreditar em tudo, vai perceber que Nicene não estava descrevendo o que viu no Inferno. A sua fonte de inspiração é tão estupidamente óbvia quanto ridícula. Kari, esse "Inferno" não é nada mais nada menos do que o Império da série Guerra nas Estrelas. Um pouco modificado, ampliado, filtrado através das lentes de uma mitologia religiosa... mas Guerra nas Estrelas, ainda assim. — Uma risada amarga escapou por entre seus lábios, e ele tomou mais um gole de vinho. — Seus demônios não passam de versões com trinta metros de altura de Darth Vader... meu Deus do céu. Leia a descrição que ele faz de Satã, e depois vá assistir qualquer um dos filmes da série onde aparece o grande Jabba. Satã não passa de um sósia de Jabba, a acreditar no que esse lunático escreveu. — Mais um copo de vinho branco... mais um copo. — Marion e Stephanie morreram... — Um gole; um gole muito grande; metade do copo. — ...morreram para que Jeremy pudesse ir para o Inferno e ter aventuras grandiosas e demoníacas... fantasiado de Darth Vader.
Ele a tinha ofendido, ou talvez desagradado; talvez as duas coisas juntas. Não tinha sido sua intenção, e ele o lamentava. Não sabia mais qual tinha sido sua intenção real. Talvez apenas desabafar. Nunca fizera aquilo antes, e não sabia por que motivo decidira fazê-lo justamente naquela noite... exceto pelo fato de que o desaparecimento de Morton Redlow o deixara mais amedrontado do que qualquer outra coisa desde aquele dia em que chegara em casa e encontrara os corpos da mulher e da filha.
Em vez de se servir de mais vinho, Kari ergueu-se da poltrona.
— Acho que a gente devia comer alguma coisa.
— Não estou com fome — disse ele, sentindo a voz pastosa pela embriaguez. — Ora... tudo bem, talvez a gente possa comer algo.
— Podíamos sair para algum lugar—disse ela, pegando o copo da mão dele e o colocando sobre a mesa mais próxima. Seu rosto estava belo à luz que entrava pelas largas vidraças da janela, o resplendor da teia rendilhada de luzes urbanas lá embaixo. — Ou podíamos pedir uma pizza.
— Que tal uns bifes? Tenho uns filés no freezer.
— Vai demorar muito.
— Que nada. É só colocar no microondas e depois na assadeira. Tenho uma assadeira elétrica na cozinha.
— Bem... se é isso que você quer.
Ele fitou-a nos olhos. O olhar dela era claro, penetrante e franco como sempre, mas Jonas viu agora nele uma ternura maior do que em qualquer outra ocasião. Pensou que aquilo talvez fosse a mesma preocupação que ela demonstrava em relação aos seus pequenos clientes, e que fazia dela uma pediatra de primeira linha. Talvez aquela ternura tivesse existido ali à sua disposição, desde sempre, e ele simplesmente não a tinha percebido até agora. Ou talvez ela só tivesse percebido agora o quão desesperadamente ele precisava de apoio.
— Obrigado, Kari.
— Porquê?
— Por ser você — disse ele. Pôs o braço em redor dos ombros dela e caminharam juntos para a cozinha.
Em mistura com as visões de máquinas ciclópicas e mares tenebrosos e demônios gigantescos, Hatch recebeu um jorro de imagens de outro tipo. Corais de arcanjos. A Virgem Maria, orando. Cristo cercado pelos apóstolos, na Última Ceia, Cristo no Getsêmani, Cristo em agonia sobre a cruz, Cristo subindo aos céus.
Reconheceu essas imagens como as pinturas que Jonas Nyebern colecionava; eram quadros de épocas e estilos diferentes dos que ele tinha visto no consultório do médico, mas o espírito era o mesmo. Sentiu que dentro de seu subconsciente algum tipo de associação de idéias estava se formando, um entrelaçar de conexões, mas ainda não conseguia entender o seu significado.
Mais uma visão: a Ortega Highway. Vislumbres da paisagem noturna deslizando de ambos os lados de um carro que rumava na direção leste. Instrumentos no painel de um automóvel. Luzes de carros que vinham na direção contrária, fazendo-o contrair os olhos. E de súbito, Regina. Regina iluminada pelo débil reflexo das luzes do painel. Os olhos fechados. A cabeça descaída para a frente. Alguma coisa enfiada na sua boca e mantida no lugar com uma mordaça.
Ela abriu os olhos.
Fitar os olhos aterrorizados da garota foi o bastante para fazer Hatch emergir daquela visão como um mergulhador emerge em busca de ar.
— Ela está viva! — disse ele.
Olhou para Lindsey, que afastou os olhos da estrada para encará-lo.
— Mas você nunca disse que não estava — disse ela.
Até aquele instante Hatch não tinha percebido o quanto temia pela vida da garota.
Mas, antes de poder extrair um novo ânimo daquela visão dos olhos cinzentos de Regina à luz do painel do carro do assassino, Hatch foi atingido por um novo fluxo de imagens que o sacudiram dos pés à cabeça, com um impacto tão forte quanto o de uma saraivada de socos:
Figuras contorcidas, surgindo do meio das sombras. Formas humanas em posições bizarras. Um corpo de mulher mumificado, tão ressequido quanto um tufo de capim seco; outra num repugnante estado de decomposição; um rosto mumificado, de sexo indefinido; uma mão esverdeada, coberta de bolhas, erguida num gesto horrível de súplica.
A coleção. Sua coleção. Viu o rosto de Regina mais uma vez, os olhos abertos, à luz do painel de instrumentos. Havia tantas maneiras de desfigurar, de mutilar, de escarnecer da obra de Deus... Regina. Pobre garota. Não tenha medo. OK? Não tenha medo. Estamos indo para um parque de diversões... só isso. Sabe como é, como a Disneylândia, como a Montanha Mágica. Como vai ficar bem na minha coleção. Cadáveres como uma instalação artística, mantidos no lugar através de fios, barras, pedaços de madeira. Ele viu gritos congelados, silenciados para sempre. Mandíbulas de caveiras abertas num interminável pedido de misericórdia. A preciosa coleção. Regina, uma menina doce, uma menina linda, uma aquisição tão preciosa.
Hatch emergiu do seu transe, agarrando em desespero o cinto de segurança, porque sentia como se estivesse amarrado com arames, cordas e fios. Puxou as correias com o mesmo gesto de pânico com que uma vítima de sepultamento prematuro rasgaria a mortalha que envolvia seu corpo. Percebeu que estava gritando, também, e arquejando como se temesse morrer sufocado, deixando o ar escapar dos pulmões em exalações explosivas. Ouviu Lindsey chamar seu nome e entendeu que ela estava assustada, mas durante mais alguns segundos não conseguiu parar de gritar ou de debater-se, até que encontrou a fivela do cinto e finalmente libertou-se dele.
Com isso, sentiu-se totalmente de volta ao Mitsubishi, o contato com o assassino rompido por enquanto; o horror que sentira diante daquela coleção macabra, no entanto, não podia ser esquecido com facilidade. Virou-se para Lindsey, lembrando a força que ela demonstrara ao enfrentar a correnteza gelada daquele rio na noite em que salvara sua vida. Ela iria precisar de toda aquela força, e um pouco mais, nas horas seguintes.
— Vamos para o Mundo da Fantasia—disse ele, com urgência na voz. — Aquele parque de diversões abandonado, onde houve um incêndio anos atrás. É para lá que ele está indo. Meu Deus do céu, Lindsey, pise no acelerador, corra como nunca correu em sua vida, porque esse filho da puta, esse maldito filho da puta vai levá-la para o meio dos mortos!
O carro quase levantou vôo. Embora Lindsey não pudesse fazer uma idéia muito clara do que Hatch queria dizer com aquilo, logo eles estavam voando na direção do leste com mais velocidade do que era seguro naquela estrada, atravessando os derradeiros quarteirões onde as casas eram cada vez mais distantes umas das outras, afastando-se da civilização e rumando para um domínio tenebroso.
Enquanto Kari remexia no refrigerador da cozinha à procura de ingredientes para uma salada, Jonas foi até a garagem para pegar um par de bifes no freezer. As aberturas de ventilação da garagem deixavam entrar o ar frio da noite, que ele aspirou com satisfação. Ficou parado por um momento junto à porta, respirando devagar e profundamente, para clarear a cabeça um pouco.
Não tinha vontade de comer nada, e sim de tomar um pouco mais de vinho, mas não queria que Kari o visse bêbado. Além disso, embora não tivesse nenhuma cirurgia marcada para o dia seguinte, nunca podia saber se um caso de emergência não iria requisitar a presença da equipe de ressurreição, e ele sentia sua responsabilidade para com esses possíveis pacientes.
Nos seus momentos de maior depressão, ele às vezes pensava em abandonar a medicina de ressurreição para se dedicar totalmente à cirurgia cardiovascular. Todas as vezes que ele via um paciente reanimado dedicar-se novamente a uma vida útil, voltada para o trabalho e a família, ele se sentia recompensado de uma forma que a grande maioria dos homens jamais chegaria a experimentar. Mas nos momentos de crise, quando o candidato a ressurreição jazia deitado na mesa do hospital, Jonas geralmente não sabia quase nada sobre ele, o que implicava que estava correndo o risco de devolver ao mundo uma criatura má de quem o mundo acabara de se ver livre. Isto era mais do que um dilema moral para ele: era um peso esmagador sobre sua consciência. Até aquele ponto, sendo um homem religioso — embora tendo seu quinhão de dúvidas—ele confiara em Deus para guiá-lo. Tinha resolvido que Deus lhe dera uma mente e um talento para que fossem usados, e não era de sua competência querer antecipar-se aos desígnios de Deus e recusar seus serviços a qualquer paciente.
Jeremy, é claro, tinha sido um fator de desequilíbrio naquela equação. Se ele tinha trazido Jeremy de volta, e Jeremy tinha matado pessoas inocentes... Era algo que ele não conseguia encarar de frente.
O ar fresco da noite já não parecia tão refrescante e começou a fazer arrepios percorrerem sua espinha.
OK... jantar. Dois bifes. Filé mignon. Grelhado de leve, com um pouco de molho inglês. Salada, sem molho, apenas uma espremida de limão e um pouquinho de pimenta-do-reino. Hum... talvez ele estivesse com um pouco de fome. Não comia muita carne vermelha; era um prato para ocasiões raras. Era um cirurgião cardíaco, afinal de contas, e via em primeira mão os resultados sombrios de dietas ricas em gorduras.
Caminhou até o freezer no canto da garagem. Puxou o fecho e ergueu a tampa.
Dentro do freezer estava Morton Redlow, da Agência de Detetives Redlow, pálido e cinzento como se tivesse sido esculpido num bloco de mármore, mas ainda não recoberto por uma camada de gelo. Uma mancha de sangue tinha se congelado numa crosta endurecida sobre seu rosto e havia um orifício horrendamente aberto no lugar onde devia estar o seu nariz. Seus olhos estavam abertos. Para sempre.
Jonas não recuou. Como cirurgião, tinha familiaridade com os horrores e as maravilhas da biologia e não sentia repulsa física diante de muitas coisas.
Alguma coisa nele, contudo, ressecou e partiu-se no instante em que ele viu Redlow. Alguma coisa nele morreu. Seu coração tornou-se tão frio quanto o do detetive à sua frente. De alguma maneira crucial, ele soube naquele instante que era um homem acabado, Não confiava mais em Deus. Não. Que Deus? Mas não se sentiu nauseado, nem foi forçado a afastar os olhos com repulsa.
Viu o bilhete amassado entre os dedos rígidos da mão direita de Redlow. Desprendeu-o com facilidade, pois os dedos haviam se contraído durante o resfriamento, afrouxando a pressão sobre o pedaço de papel colocado ali pelo assassino,
Aturdido, Jonas desdobrou o papel e reconheceu de imediato a caligrafia delicada de seu filho, A afasia pós-coma, então, tinha sido fingida. Todo o seu retardamento mental não passara de uma artimanha diabólica.
O bilhete dizia:
Caro papai: Para um enterro adequado, vão precisar saber onde encontrar o nariz dele, Olhem dentro do seu traseiro. Ele andou metendo o nariz nos meus negócios, de modo que resolvi responder da mesma forma. Se ele tivesse boas maneiras, eu o teria tratado melhor. Desculpe caso o senhor se sinta perturbado por tudo isto.
Lindsey dirigia com uma sensação premente de urgência, forçando o Mitsubishi até os seus limites e descobrindo todas as falhas de planejamento de tráfego numa estrada não projetada para altas velocidades. O tráfego foi se tornando cada vez mais rarefeito à medida que eles se afastavam rumo leste, o que acabou sendo positivo em algumas ocasiões, como no momento em que ela fez uma curva muito aberta e jogou o carro «inteiro para a pista oposta.
Hatch tinha afivelado novamente o seu cinto de segurança e usou o telefone do carro para ligar para Informações e conseguir o número do consultório de Jonas Nyebern. Uma telefonista de plantão atendeu sua ligação para o consultório e recebeu seu recado, ainda que um tanto surpreendida. A mulher parecia sincera ao garantir que transmitiria a mensagem para o doutor, mas Hatch não tinha certeza de que seu conceito de "imediatamente" fosse o mesmo dele.
Todas as conexões agora lhe pareciam claras e evidentes, mas compreendeu que não poderia ter percebido aquilo antes. A pergunta que Jonas lhe fizera, naquela tarde em seu consultório, assumia agora um novo significado.
Ele perguntara se Hatch acreditava que o Mal era apenas a conseqüência dos atos dos homens ou se era uma força real, uma presença física que andava à solta pelo mundo. A história que Jonas lhe contara, sobre o filho psicopata que matara sua esposa e sua filha, se ligava agora àquela visão que ele tivera, da mulher morta enr janto tricotava. A coleção de pinturas do pai. E a "coleção" do filho. Os aspectos satânicos daquelas visões eram o que se poderia esperar de um mau filho em rebelião cega contra um pai para o qual a religião era um dos pilares da existência. E, finalmente... ele e Jeremy Nyebern partilhavam de uma ligação mais poderosa que qualquer outra: uma ressurreição miraculosa às mãos do mesmo homem.
— Mas o que é que isto explica? — disse Lindsey, quando ele lhe explicou tudo, dando um pouco mais detalhes do que dissera à telefonista do consultório de Nyebern.
— Não sei.
Ele não conseguia pensar em mais nada além daquelas derradeiras visões que tivera, das quais não compreendera quase nada. A parte que chegara a compreender — a verdadeira natureza da "coleção" de Jeremy — o deixava cheio de temor pela sorte de Regina.
Sem ter, como Hatch, tido um vislumbre dos horrores da coleção, Lindsey preferia concentrar sua mente no mistério daquele elo, que era parcialmente explicado — mas não de todo — pela identidade do assassino de óculos escuros.
— Mas, e essas visões? — perguntou ela. — Onde é que elas se encaixam? — Ela tentava fazer o sobrenatural ter algum sentido, numa atitude não muito diferente da que a levava a dar sentido ao mundo reduzindo-o a imagens organizadas sobre uma superfície de Masonite.
— Não sei — disse Hatch.
-— Esse elo, que permite a você seguí-lo ..
— Não sei.
Ela fez uma curva muito aberta, O carro saiu do asfalto, deslizando pelo cascalho do acostamento, A traseira derrapou, e os pedregulhos se espalharam em todas as direções, voando para longe dos pneus, martelando o fundo do carro. A balaustrada de proteção aproximou-se, perigosamente perto, e o carro foi sacudido pelo bang-bang-bang do choque de metal contra metal, Lindsey conseguiu manter o controle sobre o volante por um simples esforço de vontade, mordendo o lábio inferior até quase fazê-lo sangrar,
Embora Hatch estivesse com sua atenção voltada para Lindsey e o carro, e a louca disparada em que iam ao longo daquela estrada cheia de curvas perigosas, ele não conseguia tirar da mente as atrocidades que havia presenciado naquela derradeira visão. Quanto mais pensava na possibilidade de Regina ser incluída naquela galeria de horrores, mais o seu medo era estimulado pela raiva. Era aquela mesma raiva fervente, incontrolável, que ele vira com tanta freqüência em seu pai, mas agora dirigida contra alguém que merecia aquele ódio, contra um alvo que era digno de um rancor tão feroz.
Ao se aproximar da estrada que dava acesso ao parque abandonado, Vassago afastou os olhos da rodovia agora deserta e fitou a garota encolhida e amordaçada no banco ao lado do seu. Mesmo com a pouca iluminação do interior do carro ele pôde ver que ela tentara forçar as amarras que a prendiam. Seus pulsos estavam esfolados e começavam a sangrar. Apequena Regina tinha esperança de se libertar das cordas, pular do carro ou sair correndo, embora sua situação fosse claramente desesperadora. Que vitalidade. Ela o excitava.
Aquela criança era tão especial que ele talvez acabasse nem precisando da mãe. Tinha apenas que pensar num modo de incluí-la em sua coleção em forma de uma obra de arte com todo o poder estético das várias combinações mãe/filha que tinha imaginado até então.
Não vinha se preocupando muito com a velocidade, mas agora, depois de sair da rodovia principal e pegar a estrada que conduzia ao parque, ele acelerou, ansioso para retornar à galeria dos mortos, na esperança de que aquela atmosfera lhe trouxesse inspiração.
Anos atrás, aquela estrada de quatro faixas de trânsito era ladeada por canteiros floridos, arbustos, palmeiras ornamentais. As árvores e os arbustos mais encorpados tinham sido arrancados e transportados para outro local, por .ordem dos credores. As flores haviam morrido e se transformado em poeira depois que o sistema de irrigação automático foi desligado.
O sul da Califórnia era um deserto tornado habitável pela mão do homem, e quando a mão do homem mudava-se para outro lugar o deserto reivindicava de volta seu território. Era assim o gênio da humanidade, das imperfeitas criaturas de Deus. O asfalto estava rachado e esburacado devido a anos de abandono, e em várias partes já começara a sumir debaixo de camadas de solo arenoso. Os faróis do carro de Vassago revelavam tufos de capim seco e pedaços i as plantas do deserto, já marrons e ressequidos, menos de seis semanas após o fim da estação das chuvas, e empurrados para o oeste por um vento noturno que vinha das colinas áridas.
Quando atingiu as guaritas do pedágio, ele diminuiu a marcha. As guaritas estavam instaladas transversalmente em todas as quatro pistas. Tinham sido deixadas de pé para servirem de barreira, dificultando o acesso de algum curioso às instalações abandonadas do parque; estavam ligadas umas às outras por fortes correntes, que não seriam cortadas com facilidade por um ladrão comum. O interior das guaritas e o espaço por onde antes passavam os automóveis estavam agora atulhados de mato, tufos de capim soprados pelo vento e lixo largado ali pelos muitos vândalos que no correr dos anos fizeram incursões ao local. Vassago desviou o carro para fora da pista, transpondo com cautela um meio-fio que corria ao longo do acostamento, e depois sacolejando pelo terreno irregular dos canteiros onde um dia haviam florescido luxuriantes plantas tropicais, mas que agora estavam vazios e permitiam a passagem; mais adiante, depois que as guaritas ficaram para trás, ele fez a curva e retornou à pista.
Ao se aproximar do final da estrada de acesso ao parque, ele desligou os faróis do carro. Não precisava deles para guiar, e agora estava fora do alcance de algum patrulheiro rodoviário que poderia aplicar-lhe uma multa por dirigir com os faróis apagados. Imediatamente, seus olhos se sentiram mais aliviados, e se algum perseguidor se aproximasse não poderia mais localizá-lo pela luz.
Entrou em diagonal pelo vasto pátio de estacionamento, sinistramente deserto. Foi na direção de uma estrada de serviço no lado sudoeste da cerca que delimitava, dentro daquela imensa área, o parque propriamente dito.
Enquanto o Honda sacolejava pelo asfalto arruinado, Vassago vasculhava sua imaginação, que era uma espécie de matadouro no centro de uma indústria psicótica extremamente atarefada. Ali, ele procurou soluções para o problema estético que Regina representava e foi rejeitando cada idéia que aparecia. Tinha de ser uma imagem que produzisse nele um certo frêmito. Que o excitasse. Se fosse pura arte ele saberia reconhecê-la no momento em que a encontrasse; no momento em que ela lhe provocasse a emoção certa.
Enquanto saboreava mentalmente as possíveis torturas a que submeteria a garota, tomou consciência de uma outra presença estranha que parecia brotar da própria noite, uma presença pulsante de raiva... De súbito, viu-se arremessado no meio de outra visão psíquica, um jorro de elementos que já lhe eram familiares, e apenas um era novo: o vislumbre de Lindsey ao volante de um carro... um telefone celular na mão trêmula de um homem... e depois um objeto, um objeto que no mesmo instante lhe deu a solução para seu dilema artístico: um crucifixo. O corpo torturado de Cristo, pregado à cruz em sua célebre posição de nobre auto-sacrifício.
Ele piscou os olhos diante daquela imagem, olhou para a garota ao lado, ainda petrificada de terror, e na sua imaginação viu as duas imagens combinadas: a garota e a cruz. Usaria Regina para fazer uma paródia da Crucificação. Sim: perfeito. Uma beleza. Mas não erguida sobre uma cruz de madeira. Em vez disso, ela deveria ser executada por sobre o corpo segmentado da Serpente, junto ao peito do Lúcifer de dez metros de altura que a esperava nas regiões mais profundas do parque; crucificada, e com o coração à mostra, como uma chave de ouro para encerrar sua coleção. Usá-la de uma maneira tão cruel e inesperada dispensaria a presença de sua mãe, porque uma semelhante pose seria o bastante para transformá-la em sua obra-prima.
Hatch tentava desesperadamente ligar para o xerifado do condado de Orange, mas o telefone celular parecia estar tendo algum problema, e nesse instante ele sentiu a intrusão da outra mente na sua. Ele "viu" imagens de Regina sendo desfigurada das mais diversas maneiras e começou a tremer de fúria. Então, foi assaltado pela imagem de uma crucificação. Era uma imagem tão vivida, tão real e tão monstruosa que quase o deixou desacordado, como se fosse uma pancada seca de um martelo no seu crânio.
Disse a Lindsey para guiar mais depressa, mas não revelou o que tinha visto. Não conseguiria dizer aquilo em voz alta.
O seu terror era aumentado ainda mais pelo fato de entender o que Jeremy tentava exprimir através daquele sacrilégio. Será que Deus errara ao fazer de um homem o Seu Filho Único? Será que o Cristo não deveria ter sido uma mulher? Não eram as mulheres que sofriam mais, e assim mereciam ser o símbolo do auto-sacrifício, da graça divina e da transcendência? Deus tinha concedido às mulheres uma sensibilidade especial, um talento para a compreensão e a ternura, um talento para cuidar, para alimentar... e depois as tinha arremessado num mundo de violência selvagem, onde suas qualidades únicas as tornavam alvos fáceis para os algozes e os pervertidos.
Havia uma dose suficiente de horror num tal conceito, mas para Hatch o horror maior consistia em perceber que alguém tão insano quanto Jeremy Nyebern pudesse lidar com idéias de tal complexidade. Se um psicopata homicida podia intuir uma tal verdade e perceber as implicações teológicas que ela acarretava, então o mundo devia ser mesmo um asilo de loucos.
Porque certamente, se o universo fosse um lugar racional, um louco não seria capaz de entender nenhuma porção dele.
Lindsey alcançou a rodovia que levava ao Mundo da Fantasia e fez a curva de modo tão brusco que o Mitsubishi derrapou para um lado, por um instante parecendo que ia capotar. Mas recuperou a estabilidade, enquanto ela agarrava firme a direção, aprumava o carro outra vez, pisava no acelerador.
Não. Regina não. Jeremy não iria poder usar aquela ovelha inocente para realizar suas fantasias pervertidas. Hatch estava pronto a morrer para evitar isso.
O medo e a fúria fluíam em doses iguais dentro dele. O invólucro de plástico do telefone celular estalou em sua mão direita, como se a pressão de seus dedos pudesse parti-lo com a mesma facilidade com que partiria uma casca de ovo.
Uma série de guaritas escuras apareceu mais adiante. Lindsey freou, incerta quanto ao que fazer em seguida, mas logo ela e Hatch avistaram ao mesmo tempo as marcas de pneus na terra, deixando o asfalto e rodeando aquela barreira. Ela desviou o carro para a direita, e ele passou sacolejando por cima do que em outros tempos fora um canteiro de cimento para abrigar plantas.
Hatch dizia a si mesmo que precisava manter sob controle aquela raiva e não sucumbir a ela como seu pai sempre fazia, pois se não tivesse controle sobre si mesmo Regina podia se considerar morta. Ele tentou mais uma vez chamar 911, o número da emergência. Tentou manter a calma. Não podia descer ao mesmo nível daquela escória ambulante através de cujos olhos ele tinha acabado de enxergar os pulsos amarrados e os olhos aterrorizados de sua filha.
Aquela onda de raiva que brotava através da ligação telepática excitou Vassago, estimulou o seu próprio ódio latente e o convenceu de que ele não deveria esperar até que tanto a mãe quanto a filha estivessem em seu poder. A perspectiva daquela crucificação, ainda que de uma só pessoa, trazia em si um tal potencial de repulsa e abominação que deixava claro para ele todo o seu valor artístico. Uma vez concretizada com o auxílio da carne daquela garota de olhos cinzentos, aquela obra de arte garantiria seu retorno ao Inferno para sempre.
Teve que parar o Honda na entrada da estrada de serviço, que parecia estar barrada por um portão trancado de cadeado. Ele próprio tinha arrombado aquele cadeado maciço muito tempo atrás. Ele apenas estava recolocado na posição original, parecendo intacto. Vassago desceu do carro, abriu o portão, pôs o carro para dentro, voltou a descer e a fechar o portão atrás de si.
De volta ao volante, resolveu não deixar o Honda na garagem subterrânea ou descer para o museu dos mortos através das catacumbas. Não havia tempo. Os lentos mas teimosos paladinos de Deus estavam vindo ao seu encalço. Ele tinha tanta coisa a fazer, tanta, no espaço de uns poucos minutos. Não era justo. Ele precisava de tempo. Todo artista precisa de tempo. Para poupar uns poucos minutos, ele teria que dirigir ao longo das largas alamedas destinadas aos pedestres, passando por entre os pavilhões vazios e arruinados, estacionar diante do túnel-do-terror, levar a garota nos braços através do lago vazio e ao longo da passagem das gôndolas, cruzando o túnel onde os trilhos no chão de concreto conduziam ao Inferno pelo caminho mais curto.
Enquanto Hatch fazia contato telefônico com o Departamento do Xerife, Lindsey guiou o carro para dentro do pátio de estacionamento. Os longos postes de luz estavam todos apagados. Vastas área cobertas de asfalto sumiam a perder de vista em todas as direções. A algumas centenas de metros mais adiante estava a fachada de castelo através da qual, em outros tempos, o público tinha acesso ao Mundo da Fantasia: luminosa e colorida antigamente, mas agora escura e em decomposição. Ela não viu nenhum sinal do carro de Jeremy Nyebern, e sobre aquele piso aberto, varrido pelo vento, não havia poeira suficiente para guardar rastros de pneus.
Ela dirigiu até chegar o mais perto possível da entrada do castelo, até parar diante de várias fileiras de bilheterias e de balaústres de metal destinados a enfileirar a multidão diante dos guichês. Tudo aquilo se assemelhava a uma gigantesca barricada montada numa praia para impedir que tanques inimigos fossem desembarcados na areia.
Quando Hatch pousou com violência o telefone, Lindsey não tinha podido acompanhar totalmente sua conversação, que alternara entre momentos de súplica e momentos de insistência furiosa. Ela não sabia se a polícia viria ou não, mas não queria perder tempo perguntando. Queria apenas mover-se, continuar, seguir em frente. Puxou o freio de mão no mesmo instante em que o carro se imobilizou e nem se deu o trabalho de desligar o motor ou apagar os faróis. Aquela luz lhe trazia um certo conforto no meio de uma escuridão tão espessa. Ela escancarou a porta do carro, pronta para continuar a pé. Mas Hatch sacudiu a cabeça em sinal negativo e apanhou a Browning que estava aos seus pés no chão do carro.
— E então? — disse ela.
— Ele entrou com um carro de alguma maneira, não sabemos por onde.
Acho que vamos achá-lo mais depressa se ficarmos no seu rastro, entrarmos por onde ele entrou, deixando que esse meu contato com ele nos sirva de guia. Além do mais, este lugar é tão grande que é melhor continuarmos no carro.
Lindsey voltou a sentar atrás do volante, engrenou marcha e perguntou:
— Para onde?
Ele hesitou apenas um segundo, talvez uma fração de segundo, mas teve a impressão de que um número incalculável de Reginas podiam ter sido assassinadas antes que ele pudesse dizer:
— Esquerda. Vá pela esquerda, ao longo da cerca.
2
Vassago estacionou perto do lago, desligou o motor, saltou do carro e o rodeou, indo até a porta do lado de Regina. Abrindo a porta, ele disse:
— Aqui estamos, meu anjo. Um parque de diversões, como eu tinha lhe
prometido. Não é legal? Não está se divertindo?
Ele mudou o corpo dela de posição no assento, para poder puxar-lhe as pernas para fora do carro. Tirando o canivete do bolso, ele o abriu com um estalido, mostrando-lhe a lâmina reluzente.
Mesmo ao brilho fraco da lua crescente, e embora os olhos de Regina não fossem tão sensíveis quanto os de Vassago, ela viu a lâmina. Ele percebeu que ela havia visto e ficou deliciado com o terror que viu se espalhando pelo rosto e pelos olhos dela.
— Vou desamarrar suas pernas para que possa andar — anunciou ele, girando a faca devagar, fazendo com que um brilho prateado deslizasse como um líquido espesso ao longo do gume afiado. — Se você for estúpida o bastante para tentar me chutar, se acha que pode me nocautear com um chute na cabeça durante o tempo suficiente para fugir daqui... então é porque é muito idiota, meu anjo. Não daria certo. E aí eu teria que cortar algumas coisinhas em seu corpo, para lhe dar uma lição. Está me ouvindo, tesouro? Está me entendendo?
Ela emitiu um som abafado através do pano que lhe tapava a boca, mas aquilo soou como uma aceitação do que Vassago tinha dito.
— Muito bem — disse ele. — Boa menina. Muito esperta. Você vai dar um Jesus perfeito, sabia? Um Jesusinho muito lindo, uma beleza.
Ele cortou as cordas que prendiam seus tornozelos e ajudou-a a sair do carro. Ela estava vacilante, provavelmente devido a alguma cãibra durante o percurso, mas ele não queria vê-la cair. Agarrando-a pelo braço, deixando seus pulsos amarrados diante do corpo e a mordaça no lugar, ele a fez rodear o carro, e os dois foram na direção do muro de contenção do lago.
O muro de contenção do lago tinha sessenta centímetros de altura pelo lado de fora e o dobro disso pelo lado de dentro, na parte que um dia estivera cheia de água. Ele ajudou Regina a passar por cima, até ficar de pé sobre o chão de concreto do lago. Ela odiava ter que deixar que aquele homem a tocasse, mesmo vendo que ele ainda estava usando luvas; podia sentir através das luvas o quanto as mãos dele eram frias, ou pelo menos pensava que sentia. Aquelas mãos frias e a pele úmida quase a faziam gritar. Ela já sabia que não ia poder gritar, não com aquela mordaça tapando-lhe completamente a boca. Se tentasse gritar iria acabar apenas engasgando-se e com dificuldade para respirar, de modo que teve de deixar que ele a ajudasse a saltar o muro. Mesmo quando ele não tocava com a luva na sua mão nua, mesmo quando ele a agarrava pelo braço e havia o suéter dela separando-os, aquele contato fazia sua barriga se contrair tanto que se via a ponto de vomitar, mas ela reprimia aquela ânsia, porque, com a boca amordaçada, corria o risco de sufocar no próprio vômito.
Ao longo de dez anos de uma vida de adversidade, Regina tinha desenvolvido uma porção de truques que a ajudavam a enfrentar situações difíceis. Havia o truque de pense-alguma-coisa-pior, onde ela forçava-se a imaginar coisas muito mais horríveis do que aquilo que estava lhe acontecendo. Como pensar comer ratos mortos com chocolate, quando lamentava ter que comer geléia de limão com pêssegos. Como pensar em ser cega, além de todos os seus outros problemas. Depois do tremendo choque de ter sido rejeitada durante o período de testes para sua adoção pelos Dotterfields, ela passara horas a fio com os olhos fechados, tentando mostrar a si própria como levaria uma vida de sofrimento caso seus olhos fossem tão defeituosos quanto seu braço direito. Mas a tática do pense-alguma-coisa-pior não estava funcionando agora, porque não conseguia pensar em nada pior do que estar onde estava, com aquele estranho vestido de preto e usando óculos escuros no meio das trevas, chamando-a de "meu anjo" e "tesouro". E nenhum dos seus outros truques parecia capaz de funcionar naquelas circunstâncias.