Esconderijo
— Sei que é meio confuso para…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Claro.
— Sei que é meio confuso para você... toda esta nova situação. Você ainda não se sente totalmente em casa, e provavelmente não vai se sentir por um longo tempo...
— Oh, estou gostando muito daqui — protestou a garota.
Lindsey passou o arame por cima do gancho na extremidade do prego e ajustou a moldura até deixá-la bem horizontal. Depois sentou-se sobre o banquinho, o que a deixou em posição de olhar para a garota face a face. Tomou as mãos de Regina nas suas, tanto a normal quanto a mão defeituosa.
— Eu sei — disse. — Você está gostando daqui. Mas sabemos que não é a mesma coisa que estar em sua própria casa. Não quero forçar você a coisa alguma; preferiria dar tempo ao tempo, mas... Mesmo que isto pareça um pouco cedo demais para você, será que hoje, durante o jantar, você poderia não nos chamar de Sr. e Sra. Harrison? Especialmente Hatch. Seria muito importante para ele, neste momento, se você pudesse chamá-lo pelo menos de Hatch.
A garota baixou os olhos e fitou as mãos entrelaçadas das duas.
— Bem, eu acho que... claro... Tudo bem.
— Ê sabe de uma coisa? Acho que isto é pedir a você mais do que seria justo... fazer esse pedido antes que você o conheça melhor. Mas... sabe qual seria a melhor coisa no mundo para ele, atualmente?
A garota continuava fitando suas mãos.
— Qual? — disse ela.
— Se alguém conseguisse chamá-lo de "papai". Não diga "sim" ou "não" agora. Basta que pense nisso. Mas seria uma coisa maravilhosa para ele, por motivos que não tenho tempo de explicar agora. E lhe garanto uma coisa, Regina... ele é um homem muito bom. Fará qualquer coisa por você, dará a vida por você, se necessário, e nunca lhe pedirá nada em troca. Ele ficaria aborrecido comigo se soubesse que estou tendo esta conversa com você, mas na verdade tudo que estou pedindo é que pense um pouco neste assunto.
Após um longo silêncio, a garota ergueu os olhos e assentiu.
— OK. Eu vou pensar, sim.
— Obrigada, Regina—disse Lindsey, erguendo-se. —Vamos pendurar aquele último quadro.
Lindsey fez as medidas, marcou cuidadosamente com um lápis o ponto exato da parede e pregou mais um gancho.
Quando Regina lhe estendeu o quadro, disse:
— É que durante toda minha vida... nunca houve ninguém que eu chamasse "mamãe" e "papai". É uma coisa muito nova para mim.
Lindsey sorriu.
— Eu entendo, querida. Entendo mesmo. E Hatch também, mesmo que demore algum tempo.
Por entre a fornalha ardente que era a Casa Assombrada, enquanto os gritos por socorro e os uivos de dor se tornavam cada vez mais altos, um estranho objeto apareceu no meio da luz das chamas. Uma rosa. Uma rosa negra. Flutuava como se um mágico, à distância, a mantivesse solta no ar. Vassago nunca vira nada mais belo do que aquilo no mundo dos vivos, no mundo dos mortos ou nos seus sonhos. Ela cintilava diante dos seus olhos e suas pétalas eram tão lisas e suaves que pareciam ter sido feitas de fatias cortadas do bloco negro de um céu vazio de estrelas. Os espinhos eram incrivelmente pontudos e pareciam agulhas de vidro. A haste verde tinha o aspecto luzidio da pele de uma serpente. Em cima de uma das pétalas, havia uma gota de sangue.
A rosa foi se desvanecendo aos poucos em meio ao seu sonho, mas daí a pouco retornou —juntamente com a mulher chamada Lindsey e a garota de cabelos avermelhados e belos olhos cinzentos. Vassago sentiu um intenso desejo de possuir as três: a rosa negra, a mulher, a garota de olhos cinzentos.
Hatch banhou-se para o jantar e, enquanto Lindsey também se preparava no banheiro, ele sentou-se na beira da cama em seu quarto de dormir e leu o artigo de S. Steven HonelI na Arts American. Ele podia dispensar sem muito esforço qualquer insulto contra si próprio, mas se alguém agredisse Lindsey ele sempre reagia com raiva. Nem mesmo conseguia ler críticas sobre o trabalho dela que ela própria admitia como justas. Lendo o artigo de Honell, e vendo o quanto era maldoso, vulgar, e em última análise estúpido, Hatch foi ficando mais irritado a cada frase que lia daquela longa diatribe que classificava toda a carreira artística de Lindsey como "um desperdício de energia".
E, assim como acontecera na noite anterior, seu aborrecimento avolumou-se até se transformar numa erupção de fúria vulcânica. Suas mandíbulas se cerraram com tanta força que os dentes começaram a doer. A revista tremia, porque suas mãos tremiam de fúria. Sua vista ficou embaçada como se ele estivesse contemplando as coisas através de ondas tremulantes de calor, e ele teve que piscar e apertar os olhos para recuperar o foco sobre as palavras e prosseguir na leitura.
Tal como na noite anterior, ele sentiu como se sua raiva tivesse aberto uma porta, permitindo a entrada de alguém — um espírito mau que não conhecia outra coisa senão o rancor e o ódio. Ou talvez estivesse dentro dele o tempo todo, só que permanecia adormecido e tinha sido despertado pela sua irritação. Hatch sentia que não estava sozinho dentro de sua própria mente. Tinha consciência de uma presença estranha, como uma aranha caminhando pelo espaço estreito entre a parte interna de seu crânio e a superfície de seu cérebro.
Tentou jogar a revista para um lado e acalmar-se. Mas continuou lendo, porque não tinha mais controle sobre si mesmo.
Vassago movia-se através da Casa Assombrada, sem que o fogo o tocasse, porque já tinha planejado uma rota de fuga. Às vezes ele tinha doze anos de idade naquela cena, outras vezes tinha vinte. Mas seu trajeto era sempre iluminado pelas mesmas tochas humanas, algumas das quais já haviam tombado ao chão, transformando-se em montes que se derretiam silenciosamente sobre o chão fumegante ou que explodiam em labaredas à sua passagem.
No sonho ele levava nas mãos uma revista, aberta na página de um artigo que por alguma razão lhe causava raiva, mas que ele se sentia poderosamente impelido a ler, mesmo assim. As bordas das páginas se dobravam sobre si mesmas devido ao calor e ameaçavam pegar fogo. Nomes saltavam daquelas páginas para os seus olhos. Lindsey. Lindsey Sparling. Agora ele tinha um sobrenome para ela. Sentiu um impulso repentino de jogar a revista para um lado, dominar a respiração, acalmar-se. Mas em vez disso estimulou a própria raiva, deixou aquela doce torrente de fúria correr através de si e disse a si mesmo que precisava ver mais, saber mais. As bordas das páginas já estavam totalmente retorcidas pelo calor. Honell. Outro nome: Steven Honell. Pedaços de destroços em chamas caíam do teto sobre a página da revista. Steven S. Honell. Não... o S. vinha primeiro. S. Steven Honell. O papel inflamou-se. Honell. Um escritor. Um bar... um bar-restaurante em Silverado Canyon... Em suas mãos, a revista irrompeu em chamas que saltaram de encontro ao seu rosto...
Ele saltou para fora do sono como uma bala disparada salta para fora de seu cartucho e sentou-se no colchão, no meio da treva profunda de seu esconderijo. Totalmente desperto. Excitado. Agora sabia o bastante para chegar até a mulher.
Num instante o ódio lavrava como uma fogueira através de Hatch, e no instante seguinte estava extinto. Seu queixo se descontraiu, seus ombros retesados relaxaram e seus dedos se afrouxaram tão bruscamente que a revista tombou no chão aos seus pés.
Ele continuou por algum tempo sentado na beira da cama, atordoado e confuso. Olhou na direção da porta do banheiro, aliviado em perceber que Lindsey não tinha entrado no quarto enquanto ele estava... estava o quê? Em transe? Possuído?
Cheirou algo estranho, algo fora do normal... Fumaça.
Olhou para o exemplar de Arts American no chão, entre os seus pés. Apanhou-o, hesitante. Ainda estava aberto na página do artigo de Honell a respeito de Lindsey. Embora nenhum vapor se evolasse da revista, ela exalava um perceptível cheiro de fumaça. Cheiro de madeira queimada, plástico, alcatrão, borracha queimada... e algo pior. As bordas das páginas estavam enroladas sobre si próprias, como se tivessem sido expostas a uma temperatura capaz de fazer o papel entrar em combustão espontânea.
7
Quando bateram à porta, Honell estava sentado numa cadeira de balanço perto da lareira. Bebia uma dose de Chivas Regal e relia um de seus romances, Miss Culvert, que escrevera há 25 anos, quando tinha trinta anos de idade.
Todos os anos ele costumava reler cada um dos nove livros que tinha publicado, porque vivia numa perpétua competição consigo mesmo, tentando aperfeiçoar-se à medida que ficava mais velho, em vez de deixar-se deslizar mansamente para a senilidade, como a maioria dos escritores. Esse aprimoramento constante era um enorme desafio, porque ele tinha sido tremendamente bom quando era mais jovem. Cada vez que relia seus trabalhos, ficava surpreendido ao constatar que sua obra era consideravelmente mais forte do que ele próprio era capaz de lembrar.
Miss Culvert era um tratamento ficcional da vida de sua mãe, uma vida totalmente voltada para si mesma, na respeitável sociedade de alta classe média de uma cidade do interior de Illinois; e uma crítica à cultura superficial e conservadora do Meio-Oeste. E ele tinha de fato captado ali a essência da megera. Oh, se tinha. Ao reler Miss Culvert ele lembrou do horror com que sua mãe recebera o livro quando de sua primeira edição; e naquele instante decidiu que, assim que terminasse a leitura, iria reler também a sua continuação, Mrs. Towers, que tratava do casamento dela com seu pai, sua viuvez e seu segundo matrimônio. Ele ainda estava convencido de que este segundo livro causara a morte de sua mãe. Oficialmente, tinha sido um ataque cardíaco. Mas um ataque cardíaco geralmente é deflagrado por alguma coisa, e naquele caso ele sucedera de modo estranhamente coincidente com o lançamento de Mrs. Towers e a atenção que o livro recebeu por parte de toda a mídia.
Quando alguém bateu inesperadamente à porta, uma contração de aborrecimento passou através do corpo de Honell. Seu rosto se fechou numa carranca. Preferia a companhia de seus personagens à de qualquer pessoa que tivesse a idéia de fazer-lhe uma visita sem ser convidado. Ou mesmo sendo. Todas as pessoas em seus livros eram cuidadosamente definidas e delineadas, enquanto que as pessoas da vida real eram sempre... bem, eram desfocadas, opacas, incomodamente complexas.
Olhou para o relógio por sobre a lareira. Nove e dez.
Bateram novamente, desta vez com mais insistência. Provavelmente um dos vizinhos, o que era uma idéia preocupante, uma vez que seus vizinhos eram todos uns idiotas.
Pensou em não atender. Mas numa região rural como a daquele canyon, as pessoas tinham o hábito de ver a si próprias como "bons vizinhos", e nunca como os pentelhos que eram de fato; e se ele não atendesse à porta o visitante certamente iria rodear a casa e espreitar pelas janelas, imbuído daquela preocupação provinciana com o bem-estar do outro. Deus do céu, como ele detestava aquilo. Só conseguia conviver com eles porque detestava ainda mais as pessoas das grandes cidades e tinha verdadeira repulsa por gente dos subúrbios.
Pousou a dose de Chivas e o livro, levantou-se da cadeira de balanço e foi até a porta com o firme propósito de passar uma descompostura em quem estivesse ali no pórtico. Com a sua verve, ele era capaz de deixar qualquer pessoa arrasada em menos de um minuto e não precisava de mais de dois minutos para fazê-la bater em retirada em busca de proteção. O prazer de humilhar alguém dessa forma quase serviria como uma boa compensação por aquele incômodo.
Quando afastou as cortinas que cobriam a vidraça da porta da frente, ficou surpreso ao ver que o visitante não era um de seus vizinhos — na verdade, ninguém que ele conhecesse. Era um rapaz de não mais de vinte anos, pálido como as asas das mariposas que esvoaçavam em redor da lâmpada do terraço. Vestia-se totalmente de preto e usava óculos escuros.
Honell não teve qualquer receio sobre as intenções do visitante. O canyon ficava a menos de uma hora das áreas mais populosas do condado de Orange, mas ainda assim podia ser considerado um lugar remoto, devido aos acidentes geográficos e à má condição das estradas. O crime não constituía um problema ali: assaltantes eram geralmente atraídos para as áreas mais populosas, onde as possibilidades de sucesso eram mais ricas e variadas. Além do mais, a maioria das pessoas que vivia naquela área não tinha nada que valesse a pena roubar.
Ele sentiu uma certa curiosidade por aquele rapaz pálido,
— O que deseja? — disse, sem abrir a porta,
— Sr. Honell?
— Sim.
— S. Steven Honell?
— Sim. Vai me torturar, ou o quê?,..
— Desculpe, senhor, mas... o senhor é o escritor?
Oh. Um universitário, Era só o que faltava.
Uma década atrás — ou pensando bem, quase duas—Honell vivera sob o assédio de estudantes universitários de literatura, que pretendiam transformar-se em aprendizes sob sua orientação ou simplesmente transformá-lo em objeto de culto. Eram uma multidão inconstante, contudo, jovens sempre à caça da última moda e sem nenhum gosto genuíno pela verdadeira arte.
Que diabo.., nos anos mais recentes, a maioria desses garotos nem sequer sabia ler: eram universitários apenas no nome. As instituições onde estudavam não passavam, na verdade, de creches para jovens em casos terminais de imaturidade, e "estudar" era para eles algo tão remoto quando alcançar o planeta Marte batendo as asas.
— Sim, sou o escritor. O que que há?
— Sou um grande admirador dos seus livros, Sr. Honell,
— Ah. Você deve escutá-los em audioteipe.
— Como? Oh, não, senhor. Eu os li, todos eles.
Os audioteipes, cujos direitos seu editor tinha negociado sem sua autorização, eram versões faladas de seus livros, reduzidas a um terço do original. Contrafações.
— Oh. Então você deve ter lido alguma adaptação deles para quadrinhos — disse Honell com azedume, embora, até onde fosse do seu conhecimento, o sacrilégio da adaptação de seus textos para os quadrinhos ainda não tinha sido perpetrado.
— Não, senhor. Sinto muito vir importuná-lo desta forma. Precisei de muito tempo para criar coragem e vir até aqui ao seu encontro. Hoje finalmente me deu um impulso, e soube que se não fosse hoje jamais teria coragem de tentar novamente. Tenho uma fascinação pela sua obra, Sr. Honell, e se pudesse me conceder algum tempo, não muito, para responder algumas perguntas... eu ficaria muito grato.
Alguns minutos de conversa com um rapaz inteligente bem que poderia, na verdade, ser um programa mais interessante do que a releitura de Miss Culvert. Há muito tempo que ele não recebia tais visitas; a última vez tinha sido no refúgio que ele tivera em SantaFé. Depois de uma pequena hesitação, ele abriu a porta.
— Entre — disse — e vamos ver se você foi mesmo capaz de entender a complexidade do que andou lendo.
O rapaz cruzou a porta, e Honell o conduziu para dentro da sala, indo na
direção de sua cadeira de balanço.
— Muito gentil de sua parte, senhor — disse o rapaz, fechando a porta atrás de si.
— A gentileza é uma qualidade dos fracos e dos estúpidos, meu jovem.
Minhas motivações são bem diferentes. — Ao alcançar sua cadeira, ele virou-se e disse: — E tire esses óculos. Óculos escuros à noite são o pior tipo de afetação desse pessoal de Hollywood e não cabem numa pessoa séria.
— Sinto muito, senhor, mas não se trata de afetação, É que este mundo é demasiado luminoso, e a luz aqui dói mais nos olhos do que a luz do Inferno... algo que o senhor mesmo irá descobrir, em seu devido tempo.
Hatch não mostrou muito apetite durante o jantar, Tudo que ele gostaria de fazer seria sentar-se sozinho a um canto, tendo nas mãos aquele exemplar chamuscado do Arts American, e examiná-lo até, por Deus do céu, obrigar a si mesmo a entender o que estava se passando com ele. Era um homem racional. Não podia aceitar facilmente explicações sobrenaturais, Não era por acaso que se dedicara ao ramo das antiguidades: tinha necessidade de se cercar com coisas que contribuíssem para criar uma atmosfera de ordem e de estabilidade.
Mas crianças também precisavam de estabilidade, e no caso delas isso se traduzia em refeições em horários regulares; de modo que eles foram para uma pizzaria e em seguida foram ver um filme no cinema ao lado. Era uma comédia. Embora o filme não conseguisse fazer Hatch esquecer os estranhos problemas que, o afligiam, o som musical das numerosas gargalhadas de Regina contribuiu para acalmar um pouco os seus nervos.
Mais tarde, em casa, depois que ele levou a criança para a cama, beijou sua testa, desejou-lhe bons sonhos e apagou a luz, ela disse:
— Boa noite.,, papai.
Ele estava parado na soleira da porta, já de saída para o corredor, quando aquela palavra fez com que parasse, Ele voltou-se e olhou para Regina.
— Boa noite — disse, decidindo que seria melhor receber aquele presente de uma maneira casual, assim como ele tinha sido ofertado. Pensou que se fizesse muito estardalhaço a respeito a garota voltaria a chamá-lo de Sr. Harrison para sempre. Mas por dentro seu coração pareceu levantar vôo. No quarto de dormir, enquanto Lindsey se despia, ele disse:
— Ela me chamou de "papai".
— Ela quem?
— Estou falando sério. O que você acha disto?
— Quantos dólares você lhe deu?
— Está com ciúme. Claro. Porque ainda não foi chamada de "mamãe".
— Oh, ela vai chamar ainda. Já está perdendo o medo.
— Medo de você?
— Medo de se arriscar.
Antes de se despir e ir para a cama, Hatch desceu ao andar térreo para checar a secretária eletrônica na cozinha. Coisa engraçada... Depois de tudo que lhe acontecera, e considerando ainda todos os problemas que tinha pela frente, o simples fato de que a garota o havia chamado de "papai" fora o bastante para deixar seu coração mais leve e seu passo mais rápido. Desceu a escada de dois em dois degraus.
A secretária eletrônica estava no balcão, à esquerda da geladeira, junto a uma prancheta de anotações pendurada na parede. Ele esperava uma resposta do inventariante a quem fizera uma proposta, naquela mesma tarde, para comprar a coleção de porcelanas Wedgwood. O visor da máquina indicava ter recebido três recados. A primeira era de Qlenda Dockridge, sua assistente imediata na loja de antiguidades. A segunda era de Simpson Smith, um amigo e também negociante de antigüidades em Melrose Place, em Los Angeles. O terceiro era de Janice Dimes, uma amiga de Lindsey. Todos três davam a mesma notícia. Hatch, Lindsey, Hatch e Lindsey, vocês viram os jornais? Leram os jornais? Viram a notícia sobre Cooper, sobre aquele cara que provocou o acidente de vocês, sobre BiU Cooper? Ele está morto, ele foi assassinado, alguém o assassinou ontem à noite...
Hatch sentiu como se um refrigerante gelado, e não sangue, estivesse circulando em suas veias.
Na noite passada praguejara contra a possibilidade de Cooper sair daquele episódio sem punição, e tinha desejado que ele morresse; Não... espere. Tinha dito que gostaria de pegá-lo, dar-lhe um castigo, fazê-lo pagar pelo que fizera, atirá-lo dentro do rio gelado... mas na verdade ele não queria ver Cooper morto. Mas, e se de fato tivesse chegado a desejar isso? Ele não matara o homem. Não podia ser culpado pelo que ocorrera.
Apertando o botão para apagar os recados, ele pensou: a polícia vai me chamar para depor, cedo ou tarde.
Então imaginou por que motivo iria se preocupar com a polícia. Talvez o assassino já tivesse sido preso, e nesse caso nenhuma suspeita poderia recair sobre ele. E por que motivo ele devia ser visto como suspeito? Ele não havia feito nada. Nada. E por que motivo aquela sensação de culpa estava rastejando dentro dele, como a Centopéia ao longo do seu túnel escuro?
Centopéia?
A natureza radicalmente enigmática daquela imagem lhe provocou um calafrio. Ele não era capaz de localizar sua origem. Era como se não fosse um pensamento, seu, e sim algo... recebido. Subiu a escada.
Lindsey já estava deitada, ajustando os cobertores sobre si. O jornal do dia estava dobrado sobre a mesa-de-cabeceira, onde ela sempre o colocava. Ele o apanhou e começou a esquadrinhar a primeira
página.
— Hatch? — disse Lindsey. — Alguma coisa errada?
— Cooper está morto.
— O quê?!
— O cara que estava no caminhão. William Cooper. Foi assassinado.
Ela jogou os lençóis para o lado e sentou-se na cama. Hatch encontrou a notícia na terceira página. Sentou-se ao lado de Lindsey, e os dois leram juntos a notícia.
De acordo com o jornal, a polícia estava procurando um homem de cerca de vinte anos, com rosto pálido e cabelos pretos. Um vizinho o tinha visto fugindo ao longo de um beco, por trás do conjunto habitacional de Palm Courts. Ao que parece, o rapaz estava usando óculos escuros. Em plena noite. — É o mesmo cara que matou a loura—disse Hatch, e havia medo em sua voz, — Os óculos escuros no retrovisor... E agora ele está captando meus pensamentos. Está concretizando os meus impulsos de raiva, matando as pessoas que eu queria ver castigadas.
— Hatch, isso é absurdo. Não pode ser.
— Mas é. — Ele sentiu-se nauseado. Olhou para suas mãos, como se na verdade esperasse ver nelas o sangue do motorista. — Meu Deus... eu o mandei matar Cooper.
Estava tão arrasado, tão deprimido psicologicamente pela responsabilidade do que tinha acontecido, que sentiu uma súbita necessidade de lavar as mãos, esfregá-las até deixá-las avermelhadas e doloridas. Quando tentou ficar de pé, suas pernas estavam fracas demais para suportar seu peso, e ele teve que sentar de novo.
Lindsey estava perplexa e horrorizada, mas não reagiu diante daquelas notícias com a mesma intensidade de Hatch.
Então ele lhe contou sobre o rapaz vestido de negro, com óculos escuros, que vira na porta espelhada em vez de sua própria imagem, na noite anterior, na mesma saleta onde estivera praguejando contra Cooper. Falou também como tinha ficado na cama, depois que ela adormecera, pensando em Cooper, e como de repente sua raiva explodira numa crise que quase lhe rompera as artérias. Falou de como tivera a impressão de estar sendo invadido e possuído por algo, e de seu desmaio final. E, para completar, contou de seu novo acesso de raiva crescente durante a leitura do Arts American naquela noite... e apanhou a revista sobre a mesa-de-cabeceira, mostrando-lhe as páginas chamuscadas.
Quando terminou, a ansiedade de Lindsey estava igual à sua, mas sua mágoa pelo fato de ele ter guardado segredo sobre aquilo tudo era maior do que qualquer outra coisa.
— Por que escondeu isso de mim?
— Não queria que você se preocupasse — disse ele, sabendo o quanto aquilo soava idiota.
— Nós nunca escondemos nada um do outro. Sempre contamos tudo.
Tudo.
— Sinto muito, Lindsey. É que... é que durante todos estes meses... esses pesadelos com corpos em decomposição, violência, fogo... e agora nos últimos dias toda essas coisas anormais...
— De agora em diante — disse ela — não vai haver mais nenhum segredo.
— Eu só queria poupá-la de...
— Nenhum segredo — insistiu ela.
— OK. Nenhum segredo.
— E você não é responsável pelo que aconteceu com Cooper. Mesmo que haja algum tipo de conexão entre você e o assassino, e mesmo que por esse motivo Cooper tenha se transformado num alvo para ele, a culpa não é sua. Você não sabia que por ter raiva de Cooper o estaria condenando à morte.
Você não podia ter feito nada para evitá-lo.
Hatch fitou as páginas tostadas da revista em suas mãos, e um calafrio de terror correu pelo seu corpo.
— Mas vai ser minha culpa se eu não salvar Honell.
— O que quer dizer? — disse Lindsey, franzindo a testa.
— Se de algum modo minha raiva jogou esse sujeito contra Cooper, por que não aconteceria o mesmo com Honell?
Honell recobrou os sentidos, e tudo que sentia era uma dor insuportável. A diferença era que desta vez ele sentia essa dor, ao invés de produzi-la — e era dor física, não emocional. Seu baixo-ventre doía devido ao pontapé que o atingira. Uma pancada na garganta tinha deixado seu esôfago parecendo cheio de vidro moído. A dor de cabeça era excruciante. Seus pulsos e tornozelos também ardiam; a princípio ele não entendeu por que, mas em seguida percebeu que estava amarrado a quatro pontos simétricos, provavelmente em sua própria cama, e as cordas esfolavam sua pele ao menor movimento.
Não podia ver muita coisa, em parte porque sua visão estava embaçada pelas lágrimas, mas também porque suas lentes de contato haviam sido arrancadas durante a agressão que sofrerá. Ele sabia que tinha sido atacado, mas por um instante não teve idéia de quem poderia ser o agressor.
Então o rosto do rapaz surgiu diante de seus olhos, a princípio pouco nítido, como a superfície da lua vista através de um telescópio mal ajustado. O rapaz curvou-se, mais e mais, até que por fim seu rosto entrou em foco, um rosto belo e pálido, emoldurado por cabelos negros e curtos. Ele não estava sorrindo com a expressão dos psicopatas dos filmes, a expressão que Honell esperava ver nele. Seu rosto era inexpressivo — exceto, talvez, por uma leve sombra daquela curiosidade profissional e solene com que um entomologista estuda uma nova mutação ocorrida numa espécie banal de inseto.
— Sinto muito por este tratamento descortês, senhor — disse ele —, depois que me recebeu tão bem em sua casa. Mas acontece que estou com muita pressa e não posso me dar o luxo de manter uma conversa convencional até descobrir o que preciso.
— Diga o que quer — falou Honell, num tom apaziguador. Ficou chocado em ver como sua voz melíflua, que sempre lhe valera como um eficaz instrumento de sedução e uma impiedosa arma de sarcasmo, tinha mudado drasticamente. Estava áspera, e tinha algo de um gorgolejar úmido que lhe deu náuseas.
— Gostaria de saber quem é Lindsey Sparling — disse o rapaz, sem emoção alguma na voz — e como posso encontrá-la.
Hatch ficou surpreso ao constatar que o número de telefone de Honell constava da lista. Claro que o nome do escritor não era mais tão familiar ao leitor médio como tinha sido em seus breves anos de glória, quando ele tinha publicado Miss Culvert e Mrs. Toxvers. Nos últimos tempos, Honell não precisava se preocupar muito com privacidade; era evidente que o público lhe concedia muito mais isolamento do que ele desejaria.
Enquanto Hatch discava o número, Lindsey andava sem parar de um lado para outro do quarto. Tinha deixado bem clara sua posição: achava que Honell iria interpretar a advertência de Hatch como uma ameaça desajeitada, e nada mais do que isto.
Hatch concordava com ela. Mas tinha que tentar.
Acabou sendo poupado da humilhação e da frustração de ouvir a reação de Honell, no entanto, porque ninguém atendeu a chamada na casa remota, no meio do canyon. Ele deixou o fone tocar vinte vezes.
Estava prestes a desligar quando uma série de imagens cascateou pela sua mente com um som semelhante ao de um curto-circuito elétrico: um pulso sangrando, amarrado com corda; um par de olhos míopes, injetados de sangue, com expressão aterrorizada... e naqueles olhos, os reflexos gêmeos de um rosto que se curvava sobre eles, e no qual era possível distinguir apenas um par de óculos escuros.
Hatch bateu o fone com toda força, e afastou a mão como se o receptor tivesse se transformado numa cobra venenosa.
— Está acontecendo — disse. — Agora mesmo.
O telefone parou de tocar.
Vassago continuou olhando para ele, mas a campainha não recomeçou.
Ele voltou sua atenção para o homem que continuava atado às quatro colunas de metal nos cantos da cama.
— Quer dizer então que o nome de casada é Lindsey Harrison.
— Sim — grasnou o homem amarrado.
— Muito bem, senhor. O que preciso urgentemente agora é o endereço.
O telefone público estava do lado de fora de uma Loja 24 Horas num shopping center a cerca de três quilômetros da casa dos Harrisons. Estava protegido dos elementos por uma concha de Plexiglas, arredondada para servir também de concha acústica. Hatch teria preferido a segurança maior de uma cabine telefônica totalmente fechada, mas estas eram mais difíceis de encontrar agora; eram um luxo, naquela época mais atenta aos custos desse tipo de serviço público.
Ele estacionou na extremidade oposta do shopping, longe o bastante para que ninguém que circulasse pela loja pudesse ver, ou recordar, o número de sua placa.
Caminhou até o telefone, em meio a um vento que uivava e gelava até os ossos. Os postes de luz estavam infestados de insetos; folhas secas e esmagadas eram arrastadas pela ventania na mesma direção em que Hatch seguia, fazendo um ruído seco e irritante. Na luz amarelada das lâmpadas, pareciam uma horda de insetos, talvez gafanhotos mutantes, fugindo em bando rumo a uma colmeia subterrânea.
A loja tinha poucos fregueses; àquela hora quase todo o shopping center estava fechado. Hatch encurvou mais os ombros, abrigando a cabeça bem no interior do orelhão, confiante de que não seria fácil algum transeunte ouvir o que iria dizer.
Não queria ligar de casa para a polícia, porque sabia que eles dispunham de equipamento para registrar imediatamente o número do aparelho que chamava. Se encontrassem Honell morto, Hatch não queria ser o primeiro nome na lista de suspeitos. E se sua preocupação pela segurança do escritor provasse ser infundada, ele não queria ficar registrado numa delegacia como mais um caso de histeria ou de delírio paranóico.
Enquanto apertava os botões do aparelho com os nós dos dedos e segurava o fone com um lenço de papel, para evitar deixar impressões digitais, ainda não sabia ao certo o que ia dizer. Sabia muito bem o que não ia dizer: Olá... passei oitenta minutos morto, fui trazido de volta à vida, e agora tenho uma ligação telepática com um psicopata homicida, uma coisa meio precária mas que funciona, e acho bom avisar que ele vai atacar outra vez. Não podia imaginar que as autoridades o levassem a sério, não mais do que se ele aparecesse na chefatura usando um chapéu de alumínio em forma de pirâmide para proteger sua mente de radiações e denunciasse uma conspiração de parasitas mentais alienígenas que estariam infestando sua vizinhança.
Decidira ligar para o xerife do condado de Orange, em vez de qualquer delegacia comum, porque os crimes cometidos pelo homem de óculos escuros afetavam mais de uma jurisdição. Quando a telefonista do xerifado atendeu, Hatch falou depressa, continuou falando quando ela tentou interrompê-lo, porque sabia que se lhes desse tempo suficiente eles localizariam o aparelho de onde falava.
— O homem que matou aquela loura e a jogou do carro, semana passada, é o mesmo cara que matou William Cooper ontem à noite, e agora mesmo ele vai tentar matar Steven Honell, o escritor, se vocês não lhe derem proteção logo, e estou querendo dizer agora mesmo. Honell vive em Silverado Canyon. Não sei o endereço, mas certamente está dentro da jurisdição de vocês; e se vocês não se mexerem logo, ele é um homem morto.
Pendurou o receptor, afastou-se do orelhão e, amassando o lenço de papel, guardou-o no bolso da calça. Sentiu-se menos aliviado do que previra; e mais tolo do que parecia razoável.
No trajeto de volta ao carro, ia caminhando no sentido contrário ao vento. Todas as folhas secas arrastadas pela ventania vinham agora de encontro a ele, em vez de na mesma direção. Raspavam as pontas ressequidas no asfalto e eram esmigalhadas pelas solas dos seus sapatos.
Achou que havia perdido a viagem e que aquele esforço para salvar Honell tinha sido inútil. O xerife iria simplesmente considerar que era um trote a mais, entre tantos outros.
Ao chegar em casa, estacionou na frente, temeroso de que o ranger da porta da garagem pudesse despertar Regina. Seu couro cabeludo arrepiou-se quando saiu do carro. Ficou parado por um ou dois minutos, examinando as sombras que cercavam a casa, os arbustos, as árvores. Nada.
Quando entrou na cozinha, Lindsey estava servindo uma xícara de café quente para ele.
Ele apanhou a xícara e deu um gole cheio de gratidão por aquela bebida quente. De repente, sentiu mais frio do que quando estava em pleno vento.
— O que acha? — disse Lindsey, o rosto preocupado. — Será que acreditaram em você?
— Duvido — disse ele.
Vassago ainda dirigia o Honda cinza-pérola que tinha pertencido a Renata Desseux, a mulher que ele atacara no estacionamento de um shopping na noite de sábado e adicionara à sua coleção logo em seguida. Era um excelente carro e tinha bom desempenho naquelas estradas sinuosas por onde ele corria agora, saindo da casa de Honell e indo na direção das áreas mais populosas do condado de Orange.
Quando rodeou uma curva mais fechada do que as outras, um carro de patrulha do xerifado cruzou por ele, indo na direção do canyon. A sirene não estava ligada, mas os faróis de emergência piscavam suas luzes azuis e vermelhas de encontro aos paredões de argila e aos galhos retorcidos das árvores.
Ele passou a dividir sua atenção entre a estrada cheia de curvas à sua frente e as luzes traseiras do carro da polícia, que diminuíam no seu retrovisor, até que a estrada fez mais uma curva e elas desapareceram. Aquele insistente chamado telefônico sem resposta, que interrompera seu interrogatório contra Honell, certamente tinha colocado em ação a polícia, embora ele não conseguisse imaginar como nem por quê.
Vassago não aumentou a velocidade. No final de Silverado Canyon, virou na direção do sul em Santiago Canyon Road e manteve o limite máximo de velocidade, como qualquer cidadão decente teria feito.
8
Deitado na escuridão, Hatch sentia como se o mundo estivesse desabando pouco a pouco à sua volta. Tudo que iria restar seria a poeira.
A felicidade, com Lindsey e Regina, estava ao seu alcance. Ou era apenas uma ilusão? Estaria ela eternamente além de suas possibilidades?
Desejou que alguma inspiração súbita pudesse lhe trazer uma nova perspectiva para encarar aqueles acontecimentos aparentemente sobrenaturais. Enquanto não compreendesse qual a verdadeira natureza daquele Mal que tinha invadido sua existência, não seria capaz de enfrentá-lo.
A voz do Dr. Nyebern ecoou baixinho em sua mente: Eu acredito que o mal é uma força real, uma energia de essência diferente da nossa, uma presença estranha neste mundo. Ele achou que ainda podia sentir um leve cheiro de fumaça que vinha das páginas chamuscadas do Arts American. Tinha colocado a revista na mesinha da saleta do andar térreo, dentro de uma gaveta trancada. E guardara a pequena chave da gaveta no chaveiro que habitualmente trazia consigo.
Nunca antes trancara qualquer coisa naquela mesa. E não sabia ao certo por que motivo o fizera agora. Estava guardando uma prova em lugar seguro, pensou. Mas uma prova de quê? As páginas queimadas da revista não provariam nada aos olhos de quem quer que fosse.
Não. A verdade era outra. A existência daquela revista provava, se não para outras pessoas, para ele mesmo, que não estava apenas imaginando coisas e que o que lhe sucedia não era uma simples alucinação. O que havia trancado ali, para sua própria tranqüilidade, era sem dúvida uma prova. Prova de que não estava louco.
Ao seu lado, Lindsey também estava desperta, fosse por não querer adormecer ou simplesmente por não consegui-lo.
— E se esse assassino... — começou ela a dizer.
Hatch esperou. Não precisava pedir-lhe que terminasse a frase, porque já sabia o que ia dizer. Depois de alguns instantes, ela disse exatamente o que ele esperava:
— E se esse assassino estiver consciente de você, de sua presença, tanto quanto você está da presença dele? E se ele aparecer procurando por você...por nós... Regina...?
— Amanhã vamos começar a tomar precauções.
— Que precauções?
— Armas, para começar.
— Talvez isso não seja uma coisa de que possamos cuidar nós mesmos.
— Não temos escolha.
— Talvez precisemos de proteção da polícia.
— Tenho a leve impressão de que a polícia não vai designar um destacamento inteiro para proteger um sujeito somente porque ele alega ter uma comunicação paranormal com um psicopata.
O vento que tinha arrastado as folhas secas no shopping deserto encontrara agora um pedaço solto na calha do telhado e começava a balançá-la, produzindo um arranhar de metal contra metal.
Hatch continuou:
— Quando eu morri, fui para algum lugar, certo?
— O que quer dizer com isso?
— Purgatório, Paraíso, Inferno... essas são as possibilidades para um católico, se é que são verdadeiras essas coisas nas quais dizemos acreditar.
— Você sempre disse que não teve nenhuma dessas experiências que outras pessoas alegam ter tido.
— E não tive. Não consigo lembrar nada do... do Outro Lado. Mas isso não quer dizer que eu não tenha estado lá.
— E daí?
— Talvez esse assassino não seja um homem comum.
— Não estou entendendo.
— Talvez eu tenha trazido alguma coisa comigo, ao voltar.
— Trazido alguma coisa?
— Do lugar para onde fui, enquanto estava morto.
— E que coisa seria essa?
A escuridão tinha suas vantagens. O ser primitivo que existia dentro de cada um podia falar livremente sobre coisas que teriam parecido ridículas, se ditas num lugar iluminado.
— Um espírito — disse Hatch. — Uma entidade.
Lindsey nada disse.
— Minha passagem para a morte, indo e depois voltando, pode ter
aberto algum tipo de porta — disse ele — e permitido que alguma coisa se
esgueirasse através dela.
— Alguma coisa —- repetiu Lindsey, mas desta vez não havia entonação de pergunta em sua voz. Hatch percebeu que ela agora sabia o que ele queria dizer... e não gostava.
— E agora — prosseguiu ele — essa coisa está à solta no mundo. O que explica esse laço que nos une... e por que ele mata as pessoas que me provocam raiva.
Lindsey continuou calada por algum tempo. Depois disse: — Se você trouxe alguma coisa ao voltar, essa coisa evidentemente é maldade pura. Está querendo dizer que quando morreu você esteve no Inferno e trouxe esse assassino "montado" nas suas costas?
— Talvez. Eu não sou nenhum santo, não importa o que você pense a meu respeito. Afinal de contas, pelo menos o sangue de Cooper está em minhas mãos.
— Isso aconteceu depois de sua morte e seu retorno. Além do mais, você não teve nenhuma culpa nesse caso.
— Foi minha raiva que orientou esse sujeito, minha raiva que...
— Bobagem — disse Lindsey secamente. — Você é o melhor sujeito que pode existir neste mundo. Se as acomodações no outro mundo estão divididas em Paraíso e Inferno, você certamente merece acomodações numa quadra nobre.
Ele estava imerso em pensamentos tão sombrios que se surpreendeu com o próprio sorriso. Estendeu a mão por baixo dos lençóis, encontrou a mão dela e apertou-a com gratidão.
— Eu também amo você — disse.
— Se quiser me manter desperta, e interessada, pode ir pensando noutra teoria.
— Então vamos fazer uns pequenos ajustes na teoria que já temos. Que tal se existir de fato uma vida após a morte, mas ela não é uma coisa tão bem ordenada como os teólogos a descrevem. Eu não teria necessariamente que ter ido ao Céu ou ao Inferno. Podia ser apenas... um outro tipo de lugar, mais estranho do que aqui, um lugar diferente, com perigos desconhecidos.
— Não acho essa teoria muito melhor que a outra.
— Se eu vou ter que enfrentar essa coisa, tenho que explicá-la de alguma maneira. Como posso lutar, se nem sei para onde dirigir meus socos?
— Deve existir uma explicação mais lógica.
— É isso que estou dizendo a mim mesmo. Mas quando eu tento encontrá-la, acabo desembocando sempre no ilógico.
A calha rangeu. O vento zuniu ao longo do beirai, soprou em remoinho através da chaminé da lareira do quarto de dormir.
Hatch imaginou se Honell podia escutar o vento no lugar onde estava agora... e se seria o vento deste mundo, ou o do lado de lá.
Vassago estacionou mesmo em frente da Harríson Antigüidades, na extremidade sul de Laguna Beach. A loja ocupava todo um casarão em estilo Art Déco. As enormes vitrines tinham todas as luzes apagadas, porque já passava da meia-noite de terça para quarta-feira.
Steven Honell tinha sido incapaz de dizer-lhe onde os Harrisons moravam, e uma rápida consulta mostrara que seu número não constava do guia telefônico. O escritor sabia apenas o nome da loja de Hatch e que ela ficava situada a uma certa altura da rodovia do Pacífico.
Com certeza ele poderia encontrar o endereço da residência entre os papéis do escritório. Mas não ia ser fácil pôr as mãos nele. Um decalque na vitrine e outro na porta dianteira indicavam que o prédio estava provido de sistema de alarme e protegido por uma companhia de seguros.
Vassago havia retornado do Inferno com a capacidade de ver no escuro, com reflexos rápidos como os de um animal, uma ausência de inibições que o tornava capaz de qualquer ato, por mais atroz, e um destemor que o tornava um adversário tão temível quanto teria sido um robô. Mas ele não podia passar através das paredes ou transformar sua própria carne em vapor e depois em carne novamente, ou voar, ou praticar qualquer das façanhas geralmente atribuídas a um demônio autêntico. Enquanto não conquistasse o direito de retornar ao Inferno — fosse pela instalação de uma coleção perfeita no seu museu dos mortos ou pelo extermínio daquelas pessoas para cuja destruição retornara — ele iria possuir apenas os poderes menores de um demônio marginal, poderes que eram insuficientes para derrotar um simples alarme para ladrões.
Ele ligou o motor e afastou-se da loja.
No centro da cidade, localizou uma cabine telefônica num posto de gasolina, Apesar da hora, o posto continuava atendendo fregueses, e as luzes da fachada eram tão brilhantes que Vassago teve de apertar as pálpebras por trás das lentes escuras.
Esvoaçando em redor das lâmpadas, mariposas enormes projetavam no piso de cimento sombras do tamanho de corvos.
O chão da cabine telefônica estava coberto de pontas de cigarro. Formigas fervilhavam sobre o corpo de um besouro morto.
Alguém tinha pregado um letreiro manuscrito sobre o aparelho: COM DEFEITO. Vassago não se preocupou: estava interessado no guia telefônico, que estava preso à parede da cabine por uma grossa corrente.
Procurou o setor ANTIGÜIDADES das Páginas Amarelas, havia um grande número de itens: Laguna Beach era conhecida como um paraíso dos consumidores. Examinou cuidadosamente os anúncios. Vários deles tinham nomes vagos como "Antigüidades Internacionais", mas outros usavam os nomes dos proprietários, como era o caso de "Harrison Antigüidades".
Alguns dos anúncios exibiam nomes completos, porque num negócio como aquele a reputação profissional de um nome era um chamariz. "Antigüidades Robert O. Loffman" nas Páginas Amarelas conferia com Robert O. Loffman na lista de endereços. Vassago leu cuidadosamente o endereço e guardou-o na memória.
De volta ao Honda, ele viu um morcego cortando o ar da noite, descrevendo um arco através da claridade branco-azulada das luzes do posto de gasolina, abocanhando em pleno vôo uma gorda mariposa e sumindo de volta na escuridão de onde tinha surgido. Nem predador nem presa fizeram o menor som.