Esconderijo
Cinco
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
1
Quando se mudou para a casa dos Harrisons, Regina quase chegou a pensar que morrera e fora transportada para o Paraíso, exceto pelo fato de ter um banheiro só para si, e ela não acreditava que no Paraíso alguém pudesse ter um banheiro exclusivo, já que no Paraíso os banheiros certamente não seriam necessários. Não que as pessoas no Paraíso vivessem eternamente com prisão de ventre ou que fizessem suas necessidades em público, pelo amor de Deus (perdão, Deus); porque ninguém em seu juízo perfeito pensaria em ir para o Paraíso se este fosse o tipo de lugar onde é preciso se preocupar o tempo inteiro com o próprio comportamento. É só que no Paraíso, certamente, todas as preocupações da vida terrena deveriam estar eliminadas para sempre. As pessoas nem mesmo teriam um corpo no Paraíso; provavelmente seriam umas esferas de energia mental, uma espécie de balões cheios de um gás dourado e brilhante, flutuando por entre os anjos, cantando hinos de louvor a Deus—o que, pensando bem, seria uma cena mais do que esquisita, aqueles balões brilhantes, todos cantando... mas o fato é que em matéria de excreção o máximo que haveria seria cada balão deixar sair um pouquinho de gás de vez em quando, um gás que inclusive nem sequer cheiraria mal, seria algo como o incenso das igrejas ou perfume.
Seu primeiro dia na casa dos Harrisons começou numa tarde de segunda-feira, 29 de abril, uma data que iria recordar para sempre, porque eles foram tão maravilhosos. Eles nem sequer mencionaram a razão pela qual deixaram que ela escolhesse entre o quarto de dormir do andar de cima e a saleta no térreo que poderia ser adaptada para servir de quarto.
— Um detalhe a favor desta saleta—disse a Sra. Harrison—é a vista.
Melhor do que a vista que se tem do quarto de cima.
Ela conduziu Regina até a enorme janela, que se abria para um roseiral bordejado por uma faixa de enormes samambaias. E a vista era uma beleza.
— E você ainda teria todas estas estantes — continuou ela. — Você
pode enchê-las de livros pouco a pouco, já que adora livros.
Embora eles não tivessem feito nenhuma alusão nesse sentido, tinham um certo receio de que ela tivesse problemas com a escada. Mas ela não ligava para escadas. Na verdade, gostava de escadas, adorava escadas, comia escadas todos os dias no café da manhã. No orfanato, eles a tinham confinado no andar térreo até os oito anos de idade, quando ela descobriu que tinha sido alojada ali por causa daquela armação de metal em volta de sua perna e da mão deformada — o que a fez exigir imediatamente sua transferência para o terceiro andar. As freiras se recusaram a considerar o pedido, de modo que ela produziu um ataque de nervos. Mas as freiras sabiam como lidar com tais ataques, de modo que ela mudou sua tática para Sarcasmo Devastador. Acontece que as freiras não se deixavam devastar com facilidade, de modo que recorreu a uma greve de fome, até que elas resolveram ceder às suas exigências e fazer um teste. Desde aquela data, ela vivia no terceiro andar do orfanato sem nunca ter utilizado o elevador. Quando preferiu o quarto do andar de cima na casa dos Harrisons, antes mesmo de vê-lo, nenhum dos dois tentou dissuadi-la ou pareceu ficar conjeturando "se ela seria capaz"; os dois nem mesmo piscaram. Ela os amou por isso.
A casa era fantástica — paredes em cor creme, com vigas pintadas de branco, mobília moderna misturada com antiguidades, porcelanas e vasos chineses, tudo perfeito. Quando eles a levaram de aposento em aposento, Regina começou a se sentir tão desajeitada quanto tinha alegado ser, durante a reunião no escritório do Sr. Gujilio. Procurou mover-se com um cuidado exagerado, temendo a qualquer instante acertar o cotovelo em alguma preciosidade e dar início a uma reação em cadeia que se espalharia por todo o aposento, e depois no aposento ao lado, e dali para o resto da casa, com cada um daqueles tesouros tombando e derrubando o mais próximo, como os dominós daqueles concursos internacionais onde se disputa quem derruba um número maior de pedras; porcelanas de duzentos anos fazendo-se em cacos, mobília antiga desmoronando em lascas e estilhas, até que ela e os Harrisons se vissem de pé no meio de um montão de destroços e escombros, e uma gigantesca nuvem de poeira se elevando daquele local onde minutos antes existira uma mansão cuja decoração deveria valer uma verdadeira fortuna.
Ela estava tão segura de que isso acabaria acontecendo que começou a remexer na sua imaginação, enquanto ia de aposento em aposento, para encontrar algo de espirituoso para dizer quando a catástrofe começasse ou então quando o derradeiro vaso de cristal caísse ao chão devido ao desmantelamento da mesinha que um dia pertencera ao primeiro rei da França.
"Ooopa" parecia não ser algo muito apropriado, assim como "Meu Deus do céu!" — uma vez que eles imaginavam ter adotado uma boa garota católica, e não uma herege de boca suja (perdão, Deus). O mesmo valia para "alguém me empurrou", porque seria uma mentira, e uma mentira equivale a um bilhete de ida para o Inferno, embora ela já desconfiasse que estava destinada ao Inferno, de qualquer modo, se levasse em conta a maneira como ela não conseguia deixar de usar o nome do Senhor em vão e pensar vulgaridades.
É... ela não parecia destinada a se transformar num balão cheio de gás dourado.
Por toda a casa as paredes exibiam quadros, e Regina notou que as pinturas mais bonitas tinham todas a mesma assinatura no canto inferior direito: Lindsey Sparling. Mesmo uma idiota como ela era capaz de perceber que o nome Lindsey não poderia ser uma mera coincidência, e Sparling devia ser o nome de solteira da Sra. Harrison. Aquelas eram as pinturas mais estranhas e mais belas que Regina já tinha visto; algumas eram tão brilhantes e cheias de boas sensações que tornava-se impossível não sorrir ao contemplá-las; outras eram sombrias e meditativas. Ela gostaria de poder passar um longo tempo diante delas, como que para embeber-se de cada uma, mas temia que o Sr. e a Sra. Harrison acabassem imaginando que ela era uma bajuladora hipócrita, fingindo interesse pelos quadros apenas para se desculpar pelas piadas que fizera no escritório do Sr. Gujilio acerca de pinturas sobre veludo.
Bem ou mal, conseguira percorrer a casa toda sem destruir nenhum objeto, e o último aposento que visitaram foi o seu quarto.
Era maior do que qualquer quarto de dormir do orfanato, e ainda por ,cima ela não teria que dividi-lo com ninguém. As janelas tinham persianas em estilo tropical; a mobília incluía uma escrivaninha e uma cadeira no canto do quarto, uma estante, uma poltrona com um descanso para os pés, mesas-de-cabeceira com lâmpadas de pedestal — e uma cama absolutamente inacreditável.
— É de 1850, mais ou menos—disse a Sra. Harrison, enquanto Regina deslizava a mão de leve sobre a cama.
— É inglesa — completou o Sr. Harrison. — Mogno, com decoração pintada à mão em várias camadas de laça.
Nos pés da cama havia suportes laterais; na enorme cabeceira, as rosas eram pintadas num vermelho e amarelo brilhantes e as folhas num verde tão intenso que pareciam estar vivas; não porque simplesmente contrastassem com a madeira de um escuro profundo, mas porque pareciam tão luzidias c orvalhadas que ela teve a impressão de que se encostasse o nariz seria capaz de aspirar o perfume das pétalas.
A Sra. Harrison disse:
— Pode ser que ela pareça um pouco antiga demais para uma garota, um tanto pomposa...
— Claro, claro—disse o Sr. Harrison.—Se for o caso, podemos levá-la para a loja, vendê-la, e enquanto isso você escolheria uma coisa mais ao seu gosto, mais moderna. Isto aqui, na verdade, era usado como um simples quarto de hóspedes.
— Não, não — disse Regina rapidamente. — Gosto dela, verdade.
Posso continuar com ela... quer dizer, mesmo sendo uma coisa cara?
— Oh, não é tão cara assim — disse o Sr. Harrison. — E é claro que você pode continuar com ela, se quiser.
— Ou pode se desfazer de qualquer coisa de que não goste — disse a Sra. Harrison.
— Menos de nós dois, é claro — disse o Sr. Harrison.
— Oh, sim — disse a Sra. Harrison. — Sinto muito, mas nós viemos junto com a casa.
O coração de Regina pulsava com tanta força que ela mal conseguia respirar. Felicidade. E medo. Tudo estava tão maravilhoso! — mas é claro que aquilo não poderia durar. Nada que fosse tão bom poderia durar por muito tempo.
Uma das paredes do quarto era coberta por portas espelhadas que deslizavam lateralmente; a Sra. Harrison fez uma das portas correrem, revelando um armário embutido. Era o maior armário do mundo. Talvez uma pessoa precisasse de um armário daquele tamanho, no caso de ser uma estrela de cinema ou no caso de ser um daqueles homens a respeito dos quais ela lera, homens que de vez em quando gostam de vestir roupas de mulher, de modo que precisariam de espaço para roupas masculinas e femininas. Mas era algo muitíssimo maior do que ela precisava; ali cabiam dez vezes mais roupas do que as que ela possuía.
Constrangida, ela olhou de esguelha para os dois velhos baús que tinha trazido com ela do São Tomás. Eles continham tudo que ela possuía no mundo. Pela primeira vez em sua vida percebeu que era pobre. Era engraçado, não ter percebido isto antes, sendo uma órfã que não chegara a herdar absolutamente nada. Bem... nada, a não ser uma perna defeituosa e uma mão torta onde faltavam dois dedos.
Como se pudesse ler os seus pensamentos, a Sra. Harrison anunciou: —- Agora vamos às compras.
Rumaram para o South Coast Plaza Mall. Os Harrisons compraram para ela uma quantidade despropositada de roupas, livros, tudo que ela quis. Regina ficou receosa de que eles estivessem fazendo uma despesa grande demais e tivessem que passar um ano inteiro comendo apenas feijão para equilibrar o orçamento — ela não gostava de feijão —, mas nenhum deles pareceu entender suas indiretas sobre as virtudes da frugalidade. A única maneira de detê-los foi fingir que a perna tinha começado a doer.
Do shopping foram jantar num restaurante italiano. Ela já tinha comido fora duas vezes, mas sempre numa lanchonete_fast-food, onde as crianças do orfanato recebiam todas rações idênticas de hambúrgueres e batatas fritas. Mas aquele era um restaurante de verdade, e havia tanta coisa para observar em redor que ela mal conseguia se concentrar na comida, participar da conversa e admirar o lugar ao mesmo tempo. As cadeiras não eram feitas de plástico rígido, e o mesmo se aplicava aos talheres. Os pratos não eram de papel nem de isopor; e as bebidas vinham em copos de verdade; isso certamente significava que os fregueses de restaurantes como aquele não eram tão desajeitados quanto os fregueses de lanchonetes, e era possível colocar objetos frágeis em suas mãos. As garçonetes não eram adolescentes, e elas traziam a comida até a mesa, em vez de entregá-la por trás de um balcão. E ninguém era obrigado a pagar coisa alguma antes de comer!
Mais tarde, de volta à casa dos Harrisons, Regina desfez as malas, escovou os dentes, vestiu seu pijama, retirou o aparelho ortopédico e deitou-se. Logo em seguida, os Harrisons vieram desejar-lhe boa-noite. O Sr. Harrison sentou-se na beira da cama e disse que a princípio tudo poderia parecer-lhe meio estranho, até mesmo perturbador, mas que logo iria se sentir em casa; depois beijou-a na testa e disse: "Tenha bons sonhos, princesa." A Sra. Harrison veio logo depois e também sentou na beira da cama. Falou durante algum tempo sobre todas as coisas que iriam fazer juntas nos dias seguintes. Depois beijou-a no rosto e disse: "Boa noite, querida"; e apagou a luz antes de sair.
Regina jamais ganhara um beijo de boa-noite, de modo que não soube o que responder. Algumas das freiras do orfanato eram carinhosas e gostavam de dar-lhe abraços de vez em quando, mas nenhuma delas Costumava beijá-la. Nas recordações mais remotas de Regina, um piscar da luz do dormitório era o sinal para que todas estivessem na cama dentro de quinze minutos, e quando as luzes eram apagadas cada criança tinha que se aconchegar e adormecer por conta própria. Agora, ela ouvira boa-noite duas vezes e recebera dois beijos, tudo numa noite só, e ficara tão surpreendida que não conseguira beijar os dois — o que, só agora ela percebia, era o que devia ter feito.
— Você sempre estraga tudo, Regina — disse em voz alta.
Deitada naquela cama magnífica, com as rosas pintadas na cabeceira parecendo flutuar na escuridão, ela podia imaginar muito bem a conversa que eles estariam tendo naquele mesmo instante, no seu quarto de dormir.
"Ela lhe deu um beijo de boa-noite?"
"Não. E em você?"
"Também não."
"Que garota mais fria."
"Talvez ela seja psicopata. Ou satânica."
"Sei. Como aquele garoto do filme A Profecia."
"Sabe o que está me preocupando?"
"Ela pode nos matar a facadas enquanto dormimos."
"Vamos esconder todas as facas da cozinha."
"Melhor esconder as ferramentas também."
"Você está com o revólver na mesa-de-cabeceira?"
"Sim, mas um revólver não deve adiantar nada contra ela."
"Graças a Deus temos um crucifixo."
"Vamos dormir em turnos alternados, OK?"
"E amanhã de manhã a mandamos de volta ao orfanato."
— Estraga tudo — repetiu ela. — Que merda! — Suspirou. — Desculpe, Deus. — De mãos postas em atitude de prece, ela começou a murmurar baixinho:—Querido Deus, se você convencer os Harrisons a me darem outra chance, nunca direi "merda" novamente e prometo que serei uma pessoa mais decente. — Aquilo não parecia ser um bom negócio do ponto de vista de Deus, de modo que ela tentou outros argumentos: — Vou manter minha média "A" na escola, nunca mais colocarei geléia de fruta na pia de água benta e vou pensar seriamente em ser freira.—Ainda não bastava. — E vou comer feijão.
Isso devia ser suficiente. Deus certamente tinha orgulho de um produto como o feijão: afinal de contas, tinha criado tantas variedades dele. A recusa de Regina em comer qualquer uma dessas variedades — feijão preto, mulatinho, manteiga, cavalo, fradinho — sem dúvida nenhuma já tinha chamado a atenção do Paraíso, onde devia estar registrado no Grande Livro de Insultos à Divindade: Regina, dez anos de idade, considera que Deus fez uma grande besteira ao inventar o feijão.
Ela bocejou. Sentia-se melhor quanto aos Harrisons e acreditava que suas relações com Deus pareciam estar bem encaminhadas. O problema, agora, era a sua dieta...
Mas acabou adormecendo.
2
Enquanto Lindsey lavava o rosto, escovava os dentes e escovava o cabelo no banheiro, Hatch sentou-se na cama, folheando o jornal do dia, que não tivera tempo de ler pela manhã. Costumava ler primeiro a página de ciências, onde estavam aquelas que eram as verdadeiras notícias do mundo atual. Depois ia até a página de variedades e lia suas tiras de quadrinhos favoritas, antes de ir para o primeiro caderno, onde as façanhas dos políticos eram tão aterrorizantes e ridículas como sempre.
Foi na página três que ele viu a pequena notícia a respeito de Bill Cooper, o motorista do caminhão de cerveja cujo veículo tinha se atravessado na estrada da montanha, naquela fatídica noite de março.
Dois dias depois de sua ressurreição, Hatch ficara sabendo que o motorista tinha sido indiciado por estar dirigindo embriagado: a percentagem de álcool no seu sangue era mais do dobro do índice necessário para ser punido com a prisão. George Glover, o advogado pessoal de Hatch, chegou a perguntar se ele queria processar o motorista ou a companhia transportadora para a qual ele trabalhava, mas Hatch não tinha uma índole litigiosa. Além do mais, ele detestava a perspectiva de se ver enredado no mundo insípido e espinhoso das questões judiciais. Estava vivo; e isso era tudo que importava. O motorista seria acusado por dirigir bêbado, independentemente do envolvimento de Hatch, e para ele isso já era punição suficiente.
Tinha recebido desde então duas cartas de William Cooper, a primeira delas quatro dias após a ressurreição. Era uma carta aparentemente sincera, apesar de confusa e obsequiosa, e parecia pedir desculpas e uma espécie de absolvição pessoal; havia sido entregue no hospital, durante o período em que Hatch estava entregue à fisioterapia. "Pode me processar, se quiser", escreveu Cooper, "eu mereço. Posso pagar tudo que exigir, embora eu não seja um homem de muitas posses. Mas, não importa o que o senhor venha a lazer, espero que encontre no seu coração generoso um modo qualquer de me perdoar. Se não fosse pela genialidade do Dr. Nyebern e de seus maravilhosos assistentes, o senhor estaria morto a esta hora, e eu ficaria com isto cm minha consciência pelo resto da vida," Ele prosseguia nesse tom ao longo de quatro páginas, em caligrafia apertada e às vezes quase ilegível.
Hatch mandou em resposta um bilhete curto, assegurando a Cooper que não pretendia processá-lo e que não guardava nenhuma animosidade contra ele. Também aconselhava o outro a procurar o auxílio de grupos que combaliam o alcoolismo, se é que ainda não o havia feito.
Algumas semanas depois, quando Hatch já tinha voltado para casa, e depois que o frenesi da mídia em torno dele já ultrapassara o ponto máximo, uma segunda carta de Cooper chegou às suas mãos. Hatch ficou perplexo ao ver que ele pedia sua ajuda para conseguir seu emprego de volta, após ter sido demitido em função do que sucedera. "Tudo bem", dizia Cooper, "eu já tinha sido pego duas vezes dirigindo bêbado, mas nas duas vezes foi nas minhas horas de folga e em meu próprio carro, não no caminhão da firma. Mas agora perdi o emprego e eles estão querendo cancelar minha carteira de motorista, e isso vai complicar minha vida. Quer dizer, como é que vou conseguir outro emprego se não tiver minha carteira? O que quero é somente o seguinte: pela sua carta tão educada, o senhor provou que é um cavalheiro e um bom cristão. Pois bem, se puder testemunhar a meu favor, isso será de uma grande ajuda para mim. Quer dizer, no final das contas o senhor não morreu, e de fato acabou conseguindo muita publicidade na história toda, e isso é capaz de ter até ajudado no seu negócio de antiguidades."
A primeira reação de Hatch foi de perplexidade, e logo em seguida de uma irritação fora do comum. Mas limitou-se a arquivar a carta, sem lhe conceder resposta. Na verdade, fez o possível para afastar da mente aquele assunto, temeroso ao ver o quanto aquilo o enfurecia cada vez que lembrava do fato.
Agora,de acordo com a notícia na página 3 do jornal, tinha havido um pequeno erro de pormenor técnico no relatório dos policiais, e o advogado de Cooper conseguira anular todas as acusações contra ele. A notícia fazia um resumo em três linhas narrando todo o incidente e se referia a Hatch como "o atual detentor do recorde de morte mais longa antes de uma ressurreição bem-sucedida", como se ele tivesse organizado toda aquela via-crucis com o único objetivo de entrar na edição seguinte do Livro Guiness dos Recordes.
Outras informações no texto da matéria fizeram Hatch praguejar em voz alta e dar um pulo da cama. Cooper anunciava que iria processar seus ex-patrões por demissão sem justa causa, esperando obter de volta seu antigo emprego ou pelo menos uma polpuda indenização. "Sofri muitas humilhações nas mãos dos meus ex-patrões", dizia ele aos repórteres, evidentemente recitando de memória um texto preparado pelos advogados. "Devido a isso, acabei sendo vítima de problemas de saúde devido ao estresse. E o próprio Sr. Harrison me escreveu uma carta dizendo que eu não tinha a menor culpa no que aconteceu naquela noite."
A raiva fez Hatch dar um salto e ficar de pé no meio do quarto. Tinha o rosto afogueado, e seu corpo tremia dos pés à cabeça.
Muito engraçado. O sacana estava tentando conseguir o emprego de volta, usando como aval o bilhete que Hatch lhe enviara por mera polidez; aquilo era uma distorção completa do que Hatch de fato escrevera no bilhete. Era desonesto; era inescrupuloso.
— Mas é preciso muita cara de pau!—exclamou ele, por entre os dentes cerrados.
Atirando no chão os demais cadernos do jornal, ele agarrou a página com a notícia sobre Cooper e rumou para fora do quarto, descendo a escada de dois em dois degraus. Na saleta do andar térreo, jogou o jornal em cima da escrivaninha, abriu com violência a porta corrediça do arquivo e puxou a gaveta do alto, onde guardava as pastas com sua correspondência.
Tinha guardado as cartas manuscritas de Cooper e, embora o motorista não usasse papel timbrado, ele lembrava claramente que o homem tinha colocado o endereço para resposta, além do número de seu telefone, em ambas as cartas. Estava tão descontrolado que retirou a pasta errada, praguejou, colocou-a de volta, até encontrar a pasta correta—NEGÓCIOS DIVERSOS — e a abriu sobre a escrivaninha. Enquanto folheava o seu conteúdo, outras cartas deslizaram por entre os papéis, esvoaçando até pousar no chão, junto aos seus pés.
A segunda carta de Cooper trazia um número de telefone cuidadosamente escrito à mão no alto da folha. Hatch deixou a pasta em cima da escrivaninha e dirigiu-se para o telefone, colocado sobre uma pequena mesa ao lado .
Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia ler o número, de modo que ele pousou a carta sobre um bloco de anotações, embaixo do cone de luz projetado por uma lâmpada de pedestal.
Apertou os botões do número de William Cooper, preparando mentalmente o que iria dizer.
A linha estava ocupada.
Ele pressionou o polegar sobre o botão que cortava a ligação, esperou o sinal de linha e tentou outra vez. Ocupado.
— Filho da puta!
Hatch bateu o fone com toda força, mas acabou erguendo-o de novo até o ouvido, porque não tinha outra coisa a fazer para desabafar aquela pressão emocional. Chamou mais uma vez, usando o botão de rediscagem automática. A linha continuava ocupada, é claro, porque não se passara mais do que meio minuto desde a sua primeira tentativa. Ele bateu o fone com tanta força que quase arrebentou o aparelho.
Uma parte de sua mente estava admirada pela violência de sua própria reação, a infantilidade de tudo aquilo. Mas a outra parte estava além do seu controle, e a consciência de estar fora de si não contribuía nem um pouco para que ele se forçasse a recuperar a calma.
— Hatch?...
Ergueu os olhos surpreso ao ouvir o seu nome, e viu Lindsey, vestindo roupão de banho, parada no umbral da porta que separava a saleta do saguão. Franzindo a testa, ela perguntou:
— Alguma coisa errada?...
— Errada? — repetiu ele, sentindo sua fúria aumentar de modo irracional, como se de algum modo ela estivesse mancomunada com Cooper, como se ela estivesse apenas fingindo não estar a par dos últimos acontecimentos.
— Vou dizer a você o que está errado. Deixaram esse sacana do Cooper escapar da justiça! O filho da puta me mata, me joga para fora da porra da estrada e me mata, e depois arma uma jogada para escapar da justiça, e ainda tem a cara de pau de usar a carta que lhe mandei para conseguir seu emprego de volta! — Ele agarrou a folha amassada de jornal e a estendeu para ela, num gesto quase acusatório, como se ela já soubesse o que havia ali.—Pegar de volta seu maldito emprego... para poder atirar algum outro idiota para fora da estrada e matá-lo também!
Com uma expressão confusa e preocupada, Lindsey entrou na saleta.
— Ele escapou da justiça? Mas como?
— Uma "tecnicalidade". Gostou dessa? Um dos policiais soletrou uma palavra errada no relatório ou coisa equivalente. E aí o cara sai livre. Livrei
— Querido, fique calmo...
— Calmo? Ficar calmo?! — Ele agitou novamente a folha de jornal diante do rosto dela. — Sabe o que mais diz aqui? Esse cara vendeu sua história a esse jornaleco, este aqui, que ficou semanas infernizando minha vida por uma entrevista, e eu me recusei a falar com eles. Pois agora o tal bêbado dá uma entrevista a eles e fala sobre...
Hatch estava tão furioso que havia gotas de saliva e espuma em seus lábios, ao falar; ele alisou a folha do jornal, localizou a notícia, leu em voz alta:
— "...a via-crucis emocional que atravessou, e o seu papel crucial no esforço de resgate que acabou salvando a vida do Sr. Harrison." Qual foi o papel que ele teve no meu salvamento? Só porque usou o rádio do seu caminhão para pedir socorro? Ora, ele nem precisaria ter feito isso, se não tivesse nos jogado naquele rio. Agora, o cretino não apenas vai ter sua carteira de motorista de volta, como provavelmente vai ser readmitido no emprego, e ainda por cima vai ganhar um monte de dinheiro com essa história toda! Se eu pudesse botar minhas mãos nesse filho da puta eu o mataria, ah, eu mataria sim.
— Você não está falando sério — disse Lindsey, com uma expressão chocada.
— Melhor acreditar que estou. Que cara mais irresponsável, mais mercenário. Eu bem gostaria de dar uns chutes na sua cabeça, para incutir algum bom-senso nela, e depois atirá-lo dentro dum rio gelado...
— Querido, fale baixo...
— Ora que merda, não venha me mandar falar baixo em minha própria...
— Você vai acordar Regina.
Não foi a menção do nome da garota que o arrancou daquele acesso de fúria cega, mas a visão de seu próprio reflexo na porta espelhada do armário, do lado de Lindsey. Porque na verdade ele não viu a si mesmo. Por um breve instante, enxergou um rapaz com cabelos negros e revoltos caindo sobre a testa, óculos escuros, roupa inteiramente negra. Ele sabia que estava fitando o assassino, mas ao mesmo tempo parecia que o assassino era ele. Naquele instante, os dois eram uma só pessoa. Aquela idéia aberrante e a imagem daquele rapaz estranho duraram apenas um ou dois segundos, e logo Hatch estava novamente fitando seu próprio reflexo.
Menos aturdido pela alucinação do que por aquela momentânea confuso de identidades, Hatch continuou com os olhos cravados no espelho, e o que via agora o chocou tanto quanto a rápida visão do assassino. Ele tinha uma aparência apoplética. Seu cabelo estava em desalinho, o rosto vermelho e contorcido pela raiva, e seus olhos estavam... selvagens. Estava parecido com seu pai. Aquilo era inadmissível, era insuportável.
Não conseguia lembrar-se da última vez em que estivera tão furioso. Na verdade, nunca havia se sentido daquela forma. Até então, julgava-se incapaz de explosões descontroladas e dos sentimentos que podiam conduzir a elas.
— Eu... — gaguejou — eu não sei o que houve.
Jogou para o lado a folha amarrotada de jornal; ela bateu na beirada da escrivaninha e caiu ao chão com um barulho áspero e roçagante, que evocou de súbito em sua mente uma imagem brusca e vivida...
...folhas secas, cor de ferrugem, sendo arrastadas pela brisa ao longo de um piso rachado de cimento, num parque de diversões abandonado, em ruínas...
...e por um momento ele estava lá, com o matagal brotando do chão pelas rachaduras no asfalto, as folhas secas sendo levadas pelo vento, a lua brilhando por entre as estruturas metálicas de uma montanha-russa abandonada. E no instante seguinte ele estava de novo na saleta de sua casa, tomado por uma vertigem e apoiando-se à escrivaninha.
— Hatch?
Ele piscou os olhos na direção de Lindsey, sem conseguir falar.
— Hatch, alguma coisa errada? — disse ela, vindo rapidamente ao seu encontro. Ela tocou seu braço, num gesto hesitante, como se temesse que aquele contato pudesse fazê-lo explodir em pedaços.,, ou talvez como se temesse que ele respondesse àquele gesto com um rompante de agressividade e violência.
Ele pôs os braços em volta dela e abraçou-a com toda força,
— Lindsey, Desculpe, Não sei o que aconteceu, não sei o que é isso comigo,
— Está tudo bem,
— Não, não está. Eu estava tio... tão furioso.
— Você se aborreceu. É normal.
— Desculpe - repetiu ele, sentindo-se infeliz.
Mesmo que para Lindsey aquilo não tivesse passado de um acesso banal de irritação, ele sabia que tinha sido mais do que aquilo — alguma coisa estranha, uma raiva fora do normal. Ódio em estado puro, Psicose. Ele sentiu-se como se estivesse balouçando à beira de um precipício, com apenas os calcanhares apoiados em solo firme.
Aos olhos de Vassago, o monumento de Lúcifer projetava uma enorme sombra, mesmo no meio da escuridão mais absoluta, mas mesmo assim ele ainda era capaz de se deleitar com a visão dos cadáveres em suas posições degradantes. Ele sentia-se arrebatado pela colagem orgânica que tinha criado, pela visão daquelas formas humilhadas e pelo mau cheiro que exalavam. Sua audição não podia se comparar em acuidade à sua visão noturna, mas ele acreditava que não eram totalmente imaginários os ruídos suaves e úmidos de decomposição que o embalavam do mesmo modo que os acordes de Beethoven embalavam um amante da música.
Quando ele começou a ser invadido pela raiva, ele não soube o motivo. Era uma espécie de raiva contida, a princípio, meio fora de foco. Ele abriu seu espírito àquele sentimento, desfrutando-o, alimentando-o, fazendo-o crescer.
A imagem de um jornal cruzou sua mente, num rápido vislumbre. Ele não pôde enxergá-lo com clareza, mas soube que era alguma coisa naquela página que tinha causado sua raiva. Ele apertou as pálpebras, como se isso pudesse ajudá-lo a discernir as palavras impressas.
A visão passou, mas a raiva permaneceu. Ele a estimulou, do mesmo modo como um homem alegre consegue forçar uma gargalhada a ser mais longa do que o natural, pelo simples fato daquele som lhe dar uma sensação agradável. Palavras brotaram de seus lábios: — Mas é preciso muita cara de pau!
Ele não tinha idéia da origem daquela exclamação, assim como não tinha idéia do motivo por que mencionara o nome "Lindsey" naquele restaurante de Newport Beach, semanas atrás, quando aquelas experiências estranhas tinham começado.
Ele se sentiu de repente tão tomado pela fúria que girou nos calcanhares, dando as costas à sua coleção, e saiu caminhando através do salão enorme, subindo a rampa ao longo da qual as gôndolas tinham um dia deslizado, e saindo para o ar livre, onde o brilho da lua o obrigou a recolocar seus óculos escuros. Não conseguiu ficar parado. Tinha que andar, andar. Saiu caminhando através das alamedas abandonadas, sem saber o que ou quem estava procurando, curioso a respeito do que poderia acontecer em seguida.
Imagens truncadas passavam por sua mente em rápidos flashes, sem que nenhuma delas durasse o bastante para permitir uma contemplação mais acurada: o jornal, uma saleta cheia de livros, um arquivo de papéis, uma carta manuscrita, um telefone... Ele andava cada vez mais depressa, girando à direita ou à esquerda para enveredar por outras avenidas ou para cruzar os becos que separavam os edifícios arruinados, numa busca infrutífera por uma conexão qualquer que pudesse dizer-lhe algo sobre a origem daquelas imagens que surgiam e se desvaneciam no interior de sua mente.
Ao passar pela montanha-russa, o brilho pálido do luar filtrava-se através do labirinto entrecruzado de armações metálicas, refletindo-se nos trilhos com tal intensidade que aquelas duas faixas paralelas de aço pareciam trilhos de gelo. Quando Vassago ergueu os olhos para contemplar aquela estrutura monolítica, e subitamente misteriosa, outra exclamação irritada brotou de dentro dele:
— ...atirá-lo dentro de um rio gelado!
Uma mulher, em algum lugar, disse: querido, fale baixo.
Embora ele soubesse que aquela frase tinha sido pronunciada por ele mesmo, como uma espécie de trilha sonora acompanhando aquelas visões fragmentárias, ele girou sobre si próprio, olhando em redor. E ela estava lá. Vestindo um roupão de banho. Parada no umbral de uma porta que não poderia estar ali, um umbral e uma porta sem paredes de nenhum dos dois lados. Do lado esquerdo da porta, do lado direito, e acima dela, havia apenas a noite escura, e o parque abandonado e silencioso. Mas dentro da moldura da porta, e por trás da mulher que estava ali parada, surgia algo que parecia o saguão de uma residência, uma pequena mesa com um vaso de flores, uma escada de madeira que descrevia uma curva, levando ao andar de cima.
Era a mulher que até então ele só vira em seus sonhos, primeiro numa cadeira de rodas, e ultimamente num carro esporte vermelho, numa estrada banhada pelo sol. Vassago deu um passo na direção dela, que disse: você vai acordar Regina.
Ele deteve-se, não porque temesse acordar Regina, fosse quem diabo fosse, e não porque não quisesse pôr suas mãos naquela mulher, como desejava (ela era tão cheia de vida...); mas porque naquele instante ele percebeu a existência de um enorme espelho, do lado esquerdo daquela porta que parecia saída da vinheta de abertura do Além da Imaginação; um espelho da altura de uma pessoa, que flutuava impossivelmente em pleno ar. E ali ele viu seu reflexo, só que não era ele próprio, e sim um homem que ele nunca tinha visto antes, da sua altura, mas aparentando o dobro de sua idade, um homem esbelto e de boa aparência, com o rosto contorcido de fúria.
A expressão de fúria deu lugar a uma de choque e de repulsa, e num gesto sincronizado Vassago e o homem viraram o rosto para a mulher parada à porta.
— Lindsey. Desculpe — disse Vassago.
Lindsey. O nome que ele tinha falado três vezes naquele restaurante em Newport Beach.
Até então, não lhe ocorrera ligar aquele nome à mulher anônima que vinha aparecendo em seus sonhos mais recentes.
— Lindsey — repetiu ele.
Desta vez falou por sua própria intenção, em vez de estar apenas repetindo o que o homem no espelho dizia, e isso pareceu romper o encanto.
O espelho e a imagem do homem desconhecido explodiram em um bilhão de estilhaços, assim como o umbral da porta e a mulher de olhos escuros.
O parque voltou a ser dominado pelos sussurros mansos da noite e pelo brilho imóvel da lua. Vassago estendeu a mão na direção do ponto onde a mulher tinha estado parada.
— Lindsey.
Ele sentiu um desejo intenso de tocá-la. Era tão cheia de vida.
— Lindsey.
Ele desejou poder rasgar o seu peito, retirar seu coração pulsante e segurá-lo nas mãos em concha, até que o seu bater ritmado fosse ficando mais lento... mais lento... até cessar de todo. Ele queria estar segurando o coração dela quando a vida se esvaísse por completo e a morte se apossasse dele.
A crise de fúria de Hatch se dissipou tão depressa quanto surgira. Ele amassou , as folhas do jornal e as atirou na cesta de papéis ao lado da escrivaninha, sem olhar de novo para a notícia a respeito do motorista. Cooper era um sujeito patético, autodestrutivo, e iria receber um castigo qualquer, cedo ou tarde; e seria certamente algo bem pior do que qualquer coisa que Hatch pudesse fazer contra ele.
Lindsey juntou as cartas que tinham ficado espalhadas pelo chão, em frente ao arquivo, e guardou-as na pasta com a etiqueta NEGÓCIOS DIVERSOS.
A carta de Cooper continuava na mesinha, ao lado do telefone. Quando Hatch a apanhou, olhou para o endereço manuscrito na parte superior, junto j ao número do telefone, e voltou a experimentar um pouco da irritação de minutos atrás. Mas era apenas uma sombra da sensação anterior e logo se desvaneceu. Ele entregou a carta a Lindsey, que a guardou na pasta junto com as outras, guardando tudo no arquivo.
De pé ao luar, à sombra da montanha-russa, sentindo a brisa da noite, Vassago esperou por mais visões.
Estava intrigado com tudo que vinha acontecendo; mas não demais. Ele viajara para o Além. Sabia que existia um outro mundo, separado deste por uma película muito delgada. Desse modo, eventos sobrenaturais não o deixavam assombrado.
Quando começava a pensar que aquele episódio enigmático tinha se encerrado, uma nova visão cruzou sua mente. Viu uma folha de papel escrita à mão. Papel branco, pautado. Tinta azul. No alto da página havia um nome escrito. William X. Cooper. E um endereço na cidade de Tustin.
"Atirá-lo dentro de um rio gelado", murmurou Vassago, e de algum modo pressentiu que William Cooper era o objeto daquela fúria irracional que o acometera quando estava no subterrâneo, admirando sua coleção, e que de algum modo parecia ser uma ligação entre ele e aquele homem que avistara no espelho. Ele tinha acolhido e estimulado aquela raiva, porque queria saber sua origem e de que modo ele era capaz de senti-la, mas também porque a raiva era uma espécie de fermento para a massa-de-pão da violência... e esse era o seu pão de cada dia.
Da montanha-russa ele desceu direto para a garagem subterrânea. Dois carros estavam ali à espera.
O Pontiac de Morton Redlow estava estacionado na extremidade mais distante da garagem, num trecho completamente às escuras. Vassago não tornara a utilizá-lo desde a quinta-feira anterior, a noite em que matara Redlow e a loura. Embora ele confiasse que o fog daquela noite lhe garantisse uma cobertura ideal, havia sempre a possibilidade de que alguma testemunha tivesse visto a mulher na hora da queda e pudesse reconhecer o carro.
Ele estava ansioso para retornar à terra da noite eterna e da maldição infinita, para se reunir aos seres de sua própria espécie, mas não queria ser morto a tiros pela polícia enquanto sua coleção não estivesse completa. Ele temia que, se morresse com a sua oferenda ainda inacabada, podia ser considerado ainda indigno do Inferno e ser remetido de volta mais uma vez ao mundo dos vivos para iniciar uma outra coleção.
O segundo carro era um Honda cinza-pérola que pertencia a uma mulher chamada Renata Desseux, que ele tinha abatido com uma pancada na cabeça, no estacionamento de um shopping na noite de sábado, dois dias após oi fracasso com a loura. Em vez da neo-punk chamada Lisa, ela se tornara a aquisição mais recente para sua galeria.
Ele havia removido e atirado fora as placas do Honda, substituindo-as por placas roubadas de um velho Ford na periferia de Santa Ana. Além do mais, aquela região estava tão infestada por automóveis Honda que ele se sentia seguro e anônimo ao volante daquele. Ligou o carro e deixou a área do parque abandonado, afastando-se das colinas pouco povoadas a leste da cidade, descendo na direção daquele tapete faiscante de luzes que se estendia lá embaixo, perdendo-se no sentido do norte e do sul, até onde a vista podia alcançar.
A colmeia urbana. A civilização. Seu campo de caça.
O maior aliado de Vassago, em sua implacável busca de peças para sua coleção, sem chamar a atenção da polícia, era a própria imensidão do sul da Califórnia: milhares de quilômetros quadrados, dezenas de milhões de pessoas, mesmo sem contar com os condados de Ventura ao norte e San Diego ao sul. Três de suas vítimas tinham sido escolhidas em diferentes comunidades ao redor de Los Angeles, duas de Riverside e o resto do condado de Orange, e todos esses desaparecimentos tinham se dado ao longo de vários meses. Entre as centenas de registros de pessoas desaparecidas nesse período, suas poucas aquisições não iriam afetar as estatísticas o bastante para alarmar o público ou chamar a atenção das autoridades.
Outro aspecto positivo era o fato de que os últimos anos do século e do milênio eram uma época de inconstância. Pessoas mudavam com freqüência de emprego, de residência, de amigos, de cônjuge, com pouca ou nenhuma preocupação de manter uma continuidade em suas vidas. Em resultado disso, era cada vez menor o número de pessoas capazes de perceber o desaparecimento de alguém e de se preocupar a ponto de procurar as autoridades. Além do mais, crescia o número de pessoas que, tendo desaparecido, eram descobertas muito tempo depois, vivendo por escolha própria uma vida totalmente diversa da anterior. Um jovem executivo trocava a rotina massacrante da vida corporativa por um trabalho como crupiê em Reno ou Las Vegas, e uma jovem mãe de família, esgotada pelo esforço de lidar com as crianças ou com um marido imaturo, podia ser achada depois trabalhando como garçonete numa daquelas cidades, servindo drinques e fazendo números de topless. Pessoas que fugiam movidas por uma decisão repentina e inesperada e procuravam ocultar suas vidas passadas como se uma existência normal de classe média fosse algo tão vergonhoso quanto uma vida com antecedentes criminais. Outros desaparecidos eram encontrados, tempos depois, completamente entregues aos mais diversos tipos de vício, vivendo em hotéis imundos e infestados de ratos, hotéis que viviam de alugar quartos por períodos semanais para legiões de viciados de olhar mortiço. Sendo aquilo a Califórnia, muitos desaparecidos eram encontrados um dia fazendo parte de comunidades religiosas em Marin ou no Oregon, adorando algum novo deus ou alguma nova manifestação de um deus antigo ou simplesmente algum indivíduo de olhos chamejantes que se dizia deus.
Era uma época diferente, uma época que desprezava a tradição. Nela, qualquer um podia escolher o estilo de vida que lhe conviesse. Inclusive Vassago.
Se ele tivesse deixado cadáveres pelo caminho, alguém poderia ter estabelecido conexão entre as mortes, baseando-se nas semelhanças entre as vítimas ou no método de assassinato. A polícia iria descobrir que havia um assassino à solta, um assassino de rara eficiência e esperteza; e iria designar uma equipe especial para caçá-lo.
Mas os únicos corpos que ele não tinha levado para o seu Inferno subterrâneo eram o do detetive e o da loura. Nenhuma ligação poderia ser estabelecida entre os dois, pois tinham morrido de forma totalmente diversa. Além do mais, o corpo de Redlow talvez levasse semanas para ser encontrado.
A única ligação possível entre Redlow e Lisa, a neo-punk, eram o revólver dele, que disparara os dois tiros fatais, e o carro, de onde ela caíra. O carro estava escondido em lugar seguro na garagem do parque abandonado; o revólver estava guardado no isopor onde Vassago guardava seus salgadinhos e bebidas, no fundo do poço do elevador, dois andares abaixo do nível do chão. E ele não tinha a menor intenção de usá-lo de novo.
Estava sem arma alguma quando, depois de guiar rumo norte durante um bom tempo, chegou ao endereço que tinha lido naquela carta manuscrita em sua visão. William X. Cooper, fosse ele quem fosse — e admitindo que existisse de fato — morava num conjunto habitacional de boa aparência chamado Palm Court. O nome do lugar e o número estavam gravados numa placa de madeira cheia de ornamentos, iluminada por um spot de luz amarelada e cercada pelas palmeiras que o próprio nome anunciava.
Vassago passou devagar diante do conjunto, virou à direita na esquina seguinte e estacionou a dois quarteirões de distância. Não queria que alguém se lembrasse de ter visto um Honda estacionado em frente ao prédio. Ele não pretendia matar o tal Cooper sem mais nem menos; primeiro queria conversar, fazer algumas perguntas... principalmente sobre a tal mulher de cabelos e olhos escuros, chamada Lindsey. Mas estava pisando em terreno desconhecido e precisava tomar todas as precauções possíveis. E a verdade é que nos últimos tempos ele tinha matado quase todas as pessoas com quem chegara a trocar algumas palavras.
Depois de fechar a gaveta do arquivo e apagar a lâmpada da mesinha, Hatch e Lindsey subiram para o andar superior e pararam diante do quarto de Regina para certificar-se de que ela estava dormindo. Caminharam pé ante pé até a cama; a luz do corredor entrava pela porta entreaberta, deixando ver a garota mergulhada em sono profundo. Tinha a mão fechada apoiada de encontro ao queixo e respirava com regularidade por entre os lábios entreabertos. Se estava sonhando, eram sonhos agradáveis.
Hatch sentiu uma pontada no coração ao contemplá-la. Ela parecia tão desesperadamente jovem. Não conseguia imaginar que ele próprio tivesse um dia sido tão jovem quanto Regina, porque juventude, para ele, significava inocência. Tendo sido criado por um pai colérico e opressor, ele fora forçado muito cedo a abrir mão de sua própria inocência trocando-a por um domínio intuitivo de psicologia, capaz de fazê-lo conviver com aberrações emocionais e sobreviver numa casa onde o rancor e a disciplina brutal eram as conseqüências dos erros mais inocentes e dos pequenos equívocos. Ele sabia que Regina não podia ser tão delicada quanto parecia, porque a vida lhe dera razões de sobra para desenvolver uma alma calejada e um coração cheio de defesas.
Por mais calejados que os dois pudessem ser, entretanto, tanto ele quanto a garota eram vulneráveis. Naquele momento, para falar a verdade, Hatch sentia-se mais vulnerável do que Regina. Se ele pudesse escolher entre as deficiências da garota — a perna atrofiada, a mão retorcida e defeituosa — e as deformações que poderiam ter se incrustado em regiões profundas de sua mente, ele optaria sem hesitar pelos defeitos físicos dela. Depois de suas experiências mais recentes, inclusive aquela escalada de fúria inexplicável, Hatch não se sentia mais com pleno controle sobre si próprio. E desde seu tempo de garoto, tendo o tempo todo diante de seus olhos o exemplo amedrontador de seu próprio pai, nada lhe causava mais medo do que a possibilidade de perder o autocontrole.
Não vou lhe falhar, prometeu ele em silêncio, olhando a criança adormecida.
Olhou para Lindsey, a quem devia a vida duas vezes, tanto antes quanto depois de morrer. Silenciosamente, fez a mesma promessa: não vou falhar a você.
Imaginou se aquelas eram promessas que seria capaz de cumprir.
Mais tarde, em seu quarto de dormir, com as luzes apagadas, deitados lado a lado na cama, Lindsey disse:
— Os resultados dos outros exames devem ser entregues a Nyebern amanhã.
Hatch havia passado a maior parte do sábado no hospital, fornecendo amostras para exames de sangue e de urina, submetendo-se a exames de raios X e ultra-sonografia. A certa altura, viu-se preso a um tal número de eletrodos que achou-se parecido com a criatura que o Dr. Frankenstein, nos velhos filmes de terror, tinha energizado através de pipas empinadas durante uma tempestade cheia de relâmpagos.