Esconderijo
Quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
1
Hatch sentia como se o tempo tivesse caminhado às avessas até o século XIV e ele fosse um infiel sendo julgado por um tribunal da Inquisição.
Dois padres estavam presentes no escritório do advogado. Embora fosse de estatura apenas mediana, o padre Jiminez tinha a imponência de alguém muito mais alto, com seus cabelos negros e olhos mais negros ainda, vestindo um terno de modelo eclesiástico com colarinho romano. Estava de pé, as costas viradas para a janela. As palmeiras ondeantes e o céu azul de Newport Beach por trás dele não bastavam para iluminar a atmosfera no escritório forrado de mogno e cheio de móveis antigos onde estavam reunidos, e a silhueta de Jiminez, recortada contra a luz, parecia um vulto ameaçador. O padre Duran, ainda na casa dos vinte, provavelmente uns 25 anos mais novo do que Jiminez, era magro, com feições ascéticas e rosto pálido. Parecia absorvido no exame de uma coleção de vasos, incensários e tigelas Satsuma, do período Meiji, enfileirados nas prateleiras de um armário na extremidade oposta do escritório; mas Hatch não podia evitar o pensamento de que Duran apenas fingia interesse nas porcelanas japonesas e, na verdade, olhava sorrateiramente para ele e Lindsey, sentados num sofá Luís XVI.
Havia também duas freiras presentes, e aos olhos de Hatch elas pareciam mais ameaçadoras do que os padres. Pertenciam a uma ordem que dava preferência ao uso de hábitos imponentes e meio fora de moda; usavam toucas engomadas, e aquela moldura oval de linho branca fazia seus rostos parecerem excepcionalmente severos. A irmã Imaculada, a encarregada do Lar São Tomás para Crianças, tinha a aparência de uma enorme e negra ave de rapina pousada sobre o braço do lado direito do sofá, e Hatch não teria ficado surpreso se ela de súbito soltasse um grito agudo, levantasse vôo tatalando as longas mangas do seu hábito e, depois de esvoaçar em torno do salão, mergulhasse sobre ele com a intenção de arrancar seu nariz com uma bicada. Sua assistente executiva era uma freira um pouco mais jovem e de aparência dinâmica, que caminhava sem parar de um lado para outro e tinha um olhar mais penetrante do que um feixe de raios laser. Hatch esquecera momentaneamente seu nome e pensava nela como a Freira Sem Nome, porque algo nela lhe lembrava Clint Eastwood no papel do Estranho Sem Nome, nos velhos faroestes italianos.
Estava sendo injusto, e mais do que injusto: estava sendo irracional, devido a uma tensão nervosa. Todas aquelas pessoas no escritório do advogado estavam ali para ajudá-lo, a ele e a Lindsey. O padre Jiminez, superior da igreja de São Tomás e responsável pela maior parte da arrecadação de fundos para o orfanato dirigido pela irmã Imaculada, não era de fato mais ameaçador do que o padre interpretado por Bing Crosby em O Bom Pastor, com um ligeiro toque latino; e padre Duran parecia ser um homem tímido e de temperamento afável. E, na verdade, irmã Imaculada parecia-se tanto com uma ave de rapina quanto com uma dançarina de strip-tease, e a Freira Sem Nome tinha um sorriso permanente e espontâneo, que compensava largamente qualquer emoção negativa que alguém imaginasse ler em seu olhar penetrante. Os padres e as freiras tentavam manter acesa a conversação; eram Hatch e Lindsey, na verdade, que estavam tensos demais para se comportarem com a descontração que aquele encontro requeria.
Havia muita coisa em jogo. Era isso que deixava Hatch tenso, o que não era comum, visto que habitualmente ele era o homem mais jovial que se poderia encontrar em qualquer circunstância que não um concurso de bebedores de cerveja. Ele queria que aquele encontro transcorresse bem, porque ele e Lindsey estavam jogando ali sua felicidade, seu futuro e o sucesso de sua nova vida.
Bem, isso também não era exatamente verdade. Estava mais uma vez exagerando.
Mas não dava para evitar.
Desde que tinha sido ressuscitado, sete semanas atrás, ele e Lindsey passaram juntos por uma imensa transformação emocional. Aquela longa e sufocante maré de desespero que se abatera sobre eles após a morte de Jimmy acabara se dissipando. Perceberam que continuavam juntos apenas devido a um milagre da medicina. Não mostrar gratidão por aquela nova chance, não desfrutar integralmente o tempo extra da vida que lhes fora proporcionado teria sido uma ingratidão para com Deus e com a medicina. Mais do que isso (cria sido uma estupidez. Estava certo que tivessem lamentado a morte de Jimmy, mas houvera um momento a partir do qual haviam permitido que a dor se transformasse em autopiedade e em depressão crônica, e isso não estava certo de jeito nenhum.
Tinha sido necessária a morte e a ressurreição de Hatch, e a quase morte de Lindsey, para sacudi-los e arrancá-los daquela lamentável mania depressiva, o que acabou lhe mostrando que ele era mais obstinado do que jamais pensara. O mais importante porém é que tinham sido arrancados daquele torpor e estavam determinados agora a viver uma nova vida.
Para os dois, viver uma nova vida significava ter novamente uma criança cm casa. O desejo por uma nova criança não era uma mera tentativa sentimental de recapturar algo da atmosfera de sua vida passada, nem era uma ansiedade neurótica em substituir Jimmy para poder superar o impacto de sua morte. Eles simplesmente adoravam crianças; tinham jeito para cuidar delas; e o ato de se dedicar a uma criança era para ambos extremamente gratificante.
Precisavam fazer uma adoção. Essa era a questão. A gravidez de Lindsey fora problemática, e o parto tinha sido anormalmente longo e doloroso. Jimmy nascera vivo por pouco e, logo após o parto, os médicos informaram a Lindsey que ela não seria capaz de voltar a ter filhos.
A Freira Sem Nome parou de caminhar de um lado para outro, puxou para cima a longa manga do hábito e olhou seu relógio de pulso.
— Talvez eu deva ir ver o que está havendo com ela—disse.
— Dê um pouco mais de tempo à criança—advertiu a irmã Imaculada calmamente. Com a mão rechonchuda ela alisou as pregas do hábito. — Se for à procura dela, ela vai achar que não confiamos na sua capacidade de cuidar de si própria. No banheiro feminino não há nada que ela não consiga usar sozinha. Aliás, duvido que tenha desejado usar o banheiro. Acho que queria apenas ficar sozinha alguns minutos antes deste encontro, para acalmar os nervos.
Virando-se para Lindsey e Hatch, o padre Jiminez disse:
— Desculpem essa demora.
— Está tudo bem — disse Hatch, remexendo-se no sofá. — Nós entendemos. Também estamos meio nervosos.
Suas pesquisas iniciais tinham demonstrado que um grande número — aliás, um verdadeiro exército—de casais estavam na fila à espera de crianças para adoção. Alguns já esperavam há cerca de dois anos. Depois de cinco anos sem um filho, Hatch e Lindsey não teriam paciência para ir até o final da fila.
Sobraram-lhes apenas duas opções; a primeira delas era tentar adotar uma criança de outra raça: negra, asiática ou hispânica. A maioria dos pretendentes à adoção eram brancos, e esperavam por uma criança branca que pudesse passar como sendo sua, enquanto incontáveis órfãos de minorias étnicas viam-se condenados a passar a vida inteira em instituições, sem realizar seu sonho de pertencer a uma família. A cor da pele nada significava para Lindsey e Hatch. Ficariam felizes com qualquer criança, independente de sua origem. Mas nos últimos tempos um certo bom caratismo equivocado, em nome dos direitos civis, tinha conduzido à promulgação de uma série de leis destinadas a dificultar adoções inter-raciais, leis que a burocracia governamental teimava em cumprir com irritante fidelidade. A teoria por trás disso era a de que nenhuma criança poderia ser feliz se fosse criada fora de seu grupo étnico, o que era uma espécie de absurdo elitista — e de racismo às avessas — que sociólogos e acadêmicos formulavam sem se dar o trabalho de consultar as crianças a quem afirmavam querer proteger.
A segunda opção era adotar uma criança deficiente. O número de tais crianças na fila de adoção era muito menor do que o de crianças de minorias étnicas — mesmo incluindo-se aí as crianças consideradas tecnicamente órfãs, aquelas cujos pais estavam vivos em alguma parte, mas que tinham sido abandonadas ou entregues à igreja devido a sua deficiência. Por outro lado, embora em número mais reduzido, havia menor demanda por elas do que pelas crianças de outros grupos raciais; elas tinham a vantagem de estar naquele momento fora do raio de interesse de grupos de pressão que pudessem estar ansiosos para instituir normas "politicamente corretas" no modo de lidar com elas. Mas, sem dúvida, cedo ou tarde um batalhão de idiotas iria garantir a aprovação de leis proibindo a adoção de crianças surdas, louras e de olhos verdes por pais que não fossem também surdos, louros e de olhos verdes; mas Hatch e Lindsey tiveram a sorte de dar entrada ao seu processo antes que esse caos começasse a imperar.
Às vezes, quando Hatch pensava nos labirintos burocráticos que tivera de enfrentar seis semanas atrás ao dar início ao processo de adoção, ele sentia impulsos de retornar àquelas agências, agarrar pela garganta as assistentes sociais que tinham colocado tantos obstáculos diante deles e enfiar um pouco de bom senso pelas suas cabeças adentro. E, quem sabe, se os padres e as freiras do Lar São Tomás tivessem conhecimento desses seus impulsos, talvez ficassem mais propensos a deixar aos cuidados dele uma de suas crianças.
— Mas, depois de tudo que passou... você não tem sofrido nenhuma sequela? Está se alimentando bem, dormindo bem?... — perguntou o padre Jiminez, numa clara tentativa de preencher com um pouco de conversa o tempo de espera até a chegada da criança; evidentemente ele não estava questionando a afirmação de Hatch, de que gozava de boa saúde.
Lindsey, cujo temperamento era mais nervoso do que o de Hatch e usualmente tinha reações mais intempestivas, replicou de imediato:
— Hatch está no ponto mais alto da curva de recuperação, em se tratando de pacientes reanimados. O Dr. Nyebern está entusiasmado com a recuperação dele e lhe deu um atestado de saúde perfeita. Está anexado à nossa documentação.
Hatch procurou suavizar um pouco as coisas, antes que os padres e as freiras começassem a se perguntar por que razão Lindsey estava sendo tão veemente.
— A verdade é que nunca me senti tão bem — disse. — Aliás, eu recomendaria a todo mundo uma mortezinha de vez em quando... Ajuda a descontrair e a ter uma perspectiva diferente sobre a vida.
Todos riram polidamente.
Na verdade, Hatch estava com excelente saúde. Durante os quatro dias seguintes à reanimação, ele tinha sofrido de fraqueza, tonturas, náusea, letargia e momentos de amnésia. Mas logo suas forças, sua memória e suas funções intelectuais retornaram cem por cento; fazia cerca de sete semanas que vinha levando uma vida normal.
A referência casual de Jiminez ao seu sono tinha lhe causado um certo desconforto, e provavelmente fora isso que havia despertado a reação de Lindsey. Ele não tinha sido totalmente honesto ao deixar implícito que estava dormindo bem; mas os sonhos esquisitos que vinha tendo e o estranho efeito emocional que provocavam nele não pareciam nada de mais sério, nem precisavam ser comentados ali. De fato, ele não achou que estivesse mentindo ao padre.
Estavam tão próximos de começar uma vida nova que ele não queria correr o risco de estragar tudo dizendo algo inadequado. As entidades católicas que trabalhavam com adoção de crianças eram bastante cuidadosas com tudo que faziam, mas não eram nem de longe tão lentas e burocráticas quanto as entidades públicas — principalmente quando os pretendentes à adoção eram membros respeitáveis.da comunidade, como Hatch e Lindsey, e quando a criança pretendida por eles era uma criança deficiente cuja única outra opção parecia ser a vida inteira passada no orfanato. O futuro poderia começar para todos eles naquela mesma semana, contanto que não dessem motivos para que as pessoas do São Tomás, que já os viam com simpatia, pensassem em voltar atrás.
Hatch estava surpreendido com a intensidade do seu desejo de ser novamente pai. Sentia-se como se tivesse estado vivo apenas pela metade, na melhor das hipóteses, durante os últimos cinco anos, Agora, de repente, todas as energias não utilizadas durante aquela meia década pareciam estar circulando dentro dele, deixando-o mais vibrante; as cores pareciam mais vivas, os sons mais melodiosos e os sentimentos mais intensos, enchendo-o com um desejo intenso de ir, de vir, de fazer, de ver, de existir. E de ser, uma vez mais, o pai de alguém.
— Andei pensando se poderia lhe fazer uma pergunta — disse o padre Duran para Hatch, dando as costas à coleção de porcelanas. Sua fisionomia pálida e seus traços agudos ganhavam uma dimensão mais viva graças aos olhos grandes, cheios de calor e de inteligência, parecendo ainda maiores por trás das lentes espessas dos óculos. — É uma coisa meio pessoal, por isso não sei se devo.
— Oh, por favor — disse Hatch. — Fique à vontade.
O jovem padre continuou:
— Algumas pessoas que estiveram clinicamente mortas por um breve período de tempo, um ou dois minutos, relataram que... bem... que passaram por uma certa experiência, bastante semelhante em todos os casos...
— A impressão de estar sendo arrastado ao longo de um túnel, com uma luz muito intensa na extremidade oposta — disse Hatch. — E uma enorme sensação de paz, como quem está finalmente voltando para casa?...
— Sim — disse Duran, com os olhos brilhando. — É exatamente isso.
O padre Jiminez e as freiras fitavam Hatch com um novo interesse, e ele desejou poder dizer-lhes o que eles evidentemente esperavam escutar. Olhou para Lindsey sentada ao seu lado no sofá, e em seguida para os outros.
— Sinto muito — disse —, mas nada disso aconteceu comigo.
Os ombros do padre Duran descaíram um pouco.
— Então, o que aconteceu?
Hatch abanou a cabeça.
— Nada; mas eu bem que gostaria, Teria sido algo... reconfortante, não é mesmo? Levando isso em conta, acho que minha morte foi um tanto tediosa.
Não consigo me lembrar de coisa alguma desde o momento em que desmaiei, logo quando o carro virou, até acordar horas depois numa cama de hospital, a noite, com a chuva batendo na vidraça...
Nesse momento, a narrativa de Hatch foi interrompida pela entrada de Salvatore Gujilio, em cujo escritório estavam reunidos. Gujilio — um homem alto e corpulento — entrou no recinto como sempre o fazia: empurrando a porta, dando passos largos, batendo a porta atrás de si num gesto teatral. Com a determinação implacável de uma verdadeira força da natureza — algo como um furacão dotado de autodisciplina — ele circulou pela sala, cumprimentando um por um. Hatch não teria ficado surpreso se visse de súbito a mobília se elevando no ar e os quadros se desprendendo da parede à simples passagem do advogado: ele parecia dotado de energia bastante para fazer levitar os objetos no raio de alguns metros ao seu redor.
Sem parar de tagarelar um instante sequer, Gujilio deu um abraço de urso no padre Jiminez, trocou um vigoroso aperto de mãos com Duran e fez diante de cada uma das freiras uma reverência, com a sinceridade de um monarquista fanático cumprimentando membros da família real. Gujilio era uma dessas pessoas que se apegam às outras como se fossem duas peças de cerâmica grudadas com supercola; já no segundo encontro com Lindsey ele a tinha cumprimentado com um enorme abraço. Ela simpatizara com ele e o abraço não chegara a incomodá-la, mas depois disse a Hatch que se sentira como uma criança abraçando um lutador japonês de sumo. "Deus do céu", disse ela, "ele me ergueu no ar!" Desta vez, ela permaneceu sentada no sofá e trocou com o advogado um simples aperto de mãos.
Hatch se ergueu e estendeu a mão direita, pronto para vê-la desaparecer dentro da mão do outro, como um pedaço de alimento atirado no interior de um caldo de cultura cheio de amebas famintas — e foi exatamente o que aconteceu. Gujilio, como sempre, tomou a mão de Hatch entre as suas, e já que cada uma delas era quase duas vezes maior do que a mão de um homem normal, Hatch na verdade não as apertou: limitou-se a deixar-se apertar.
— Que dia maravilhoso — disse Gujilio —, um dia especial. Espero, para o bem de todos, que tudo corra às mil maravilhas.
Todas as semanas o advogado dedicava algumas horas de trabalho à Igreja de São Tomás e ao orfanato. Parecia extrair uma grande satisfação dessa tarefa de ajudar crianças deficientes a encontrar pais adotivos.
— Regina foi ao banheiro das senhoras mas já vem — disse ele. — Parou para trocar umas palavrinhas com a recepcionista, e mais nada. Acho que ela está um pouquinho nervosa e vai se demorar até quando for possível; mas não vai ser muito.
Hatch olhou para Lindsey, Ela deu um sorriso nervoso e tomou-lhe: mão.
— Bem, vocês entendem — disse Gujilio, com sua enorme silhueta avultando diante deles como um daqueles enormes balões coloridos das paradas do Dia de Ação de Graças. — O objetivo desta reunião de hoje é fazer com que vocês conheçam Regina, e ela conheça vocês. Ninguém vai tomar nenhuma decisão hoje, aqui. Vocês vão para casa, pensar no assunto, e amanhã ou depois de amanhã dão a sua resposta. A mesma coisa vale para ela. Ela tem um dia para pensar no assunto.
— É um grande passo — disse o padre Jiminez.
— Um passo enorme — concordou irmã Imaculada.
Apertando a mão de Hatch, Lindsey murmurou:
— Nós entendemos.
A Freira Sem Nome foi até a porta, abriu-a e olhou para o corredor. Evidentemente, Regina ainda não estava à vista. Rodeando a escrivaninha, Gujilio disse:
— Ela já está vindo, tenho certeza.
O advogado enfiou seu corpanzil na cadeira giratória por trás de sua mesa, mas era tão grande que mesmo sentado tinha quase a mesma altura de quando estava de pé. Seu escritório era totalmente mobiliado com antiguidades, e a escrivaninha era na verdade uma mesa Napoleão III, tão refinada que Hatch desejou ter uma idêntica na vitrine de sua loja. Reforçado com metal dourado, o topo da escrivaninha, feito de algum raro tipo de madeira, formava uma panóplia central com motivos musicais circundados por um friso reproduzindo uma folhagem estilizada. O conjunto inteiro se apoiava em pernas cilíndricas, onde o bronze dourado se moldava em forma de folhas de acanto, e convergiam para a parte central, onde um grande "X" com adornos de metal dourado exibia um acabamento de bronze reproduzindo a tampa de uma urna, montada sobre pés delicados. Cada vez que tinham se reunido ali, o enorme peso e o perigoso nível de energia cinética acumulado no corpo de Gujilio faziam com que a escrivaninha e todos os outros móveis parecessem extremamente frágeis, e correndo o risco constante de serem despedaçados a um movimento mais brusco. Depois de alguns minutos, no entanto, ele e a sala pareciam envolvidos por uma tal harmonia que as outras pessoas chegavam a ter a estranha impressão de que Gujilio reproduzira ali um tipo de ambiente que lhe fora familiar em outra encarnação, quando havia habitado um corpo mais magro.
A atenção de Hatch foi desviada do advogado e da escrivaninha por um som distante... um som estranho, abafado.
A Freira Sem Nome abandonou a porta e voltou a entrar na sala, às pressas, como se não quisesse ser vista, anunciando:
— Aí vem ela.
O som se repetiu mais uma vez. E outra. E outra.
Era cadenciado, e estava ficando cada vez mais alto.
Thud. Thud.
A mão de Lindsey se cerrou com mais força sobre a de Hatch.
Thud. Thud.
Era como se alguém estivesse acompanhando uma música inaudível, percutindo ritmadamente um cano de ferro sobre as tábuas do assoalho do corredor lá fora.
Perplexo, Hatch olhou para o padre Jiminez, que estava com os olhos fitos no chão, abanando a cabeça, com uma expressão indecifrável no rosto. À medida que o som foi se tornando cada vez mais alto, o padre Duran fitou com espanto a porta entreaberta que dava para o corredor, sendo imitado pela Freira Sem Nome. Salvatore Gujilio ergueu-se de sua cadeira, os olhos alarmados. As bochechas rosadas da irmã Imaculada estavam tão brancas quanto o linho da touca que lhe emoldurava o rosto.
Hatch começou a perceber um ruído arrastado entre as pancadas que se aproximavam.
Thud! Scurrrrr... Thud! Scurrrr...
À medida que os sons iam se aproximando, o efeito que produzia nas pessoas foi se tornando mais e mais intenso, até que a mente de Hatch se viu assaltada por imagens de centenas de filmes de terror: o-monstro-da-lagoa-negra arrastando-se como um caranguejo na direção de sua vítima; a-coisa-que-brotou-da-crípta rastejando pelas alamedas de um cemitério, sob o brilho redondo de uma lua cheia; o-monstro-de-outro-mundo caminhando com o auxílio de sabe-se lá que tipo de patas, aracnóides, reptilianas, forradas de cascos... THUD!
As vidraças das janelas estremeceram. Ou seria apenas a imaginação dele?
Scuuurrrrrr...
Um calafrio subiu pela sua espinha.
THUD!
Ele olhou em redor: o advogado estava com uma expressão alarmada, o padre Jiminez continuava balançando a cabeça, o jovem padre tinha os olhos excessivamente abertos, as freiras estavam pálidas. Ele voltou a fitar a porta entreaberta, tentando imaginar que tipo de deficiência física essa criança traria de nascença, meio que esperando a entrada de um vulto alto, retorcido, espantosamente semelhante ao Charles Laughton de O Corcunda de Notre Dame e um sorriso de dentes pontiagudos, levando a Irmã Imaculada virar-se para ele e dizer: "Sabe, Sr. Harrison, Regina foi deixada sob o. cuidados das irmãs do São Tomás, mas não por um casal de pais come qualquer outro, mas por um laboratório onde os cientistas estão fazendo experiências genéticas realmente interessantes..."
Uma sombra cruzou o umbral. ,
Hatch percebeu que a pressão dos dedos de Lindsey sobre os seus chegava a ser dolorosa, e que suas próprias mãos tinham as palmas úmidas de suor.
Os sons pararam diante da porta. Um silêncio de expectativa instalou-se na sala.
Devagar, impelida pelo lado de fora, a porta foi se abrindo.
Regina deu um passo para o lado de dentro, arrastando a perna direita como se fosse um peso morto: scccuuuurrrrr... E então deixou-a cair com força sobre as tábuas do assoalho: thuál
Ela parou e lançou um olhar de desafio ao redor.
Hatch teve dificuldade em acreditar que ela tinha sido a fonte daquele ruído tenebroso. Era de estatura pequena para uma garota de dez anos, um pouco mais baixa e mais delgada do que a média das crianças de sua idade. Suas sardas, seu nariz petulante e o cabelo de um ruivo profundo a desqualificavam por completo para o papel de coisa-da-cripta ou monstro-da-lagoa-negra, embora houvesse algo nos seus olhos cinzentos e solenes que Hatch não esperava encontrar nos olhos de uma criança. Uma consciência das coisas semelhante à de um adulto. Uma percepção aguçada. Mas, a não ser por aqueles olhos e por uma aura de férrea determinação, a garota parecia frágil, quase assustadoramente delicada e vulnerável.
A visão dela trouxe à memória de Hatch uma terrina de porcelana chinesa do século XVIII, ornamentada ao estilo mandarim, que ele tinha para vender em sua loja de Laguna Beach. Ao receber um leve piparote desferido com o dedo, ela emitia um tinido muito suave, lembrando a mais delicada das campânulas, e dava a impressão de que se estilhaçaria em milhares de fragmentos se sofresse uma pancada mais forte ou se fosse atirada ao chão. Mas ao examiná-la com mais vagar, pousada na base de acrílico onde estava exposta, podia-se ver os templos e as cenas de jardins pintados na sua face externa, bem como os desenhos florais que corriam ao longo de suas bordas; essas imagens possuíam uma tal finura artística e transmitiam uma tal impressão de força que só então o observador se apercebia da idade daquela peça e da enorme história que ela trazia dentro de si. E a impressão que se tinha, apesar de todas as aparências, era de que se atirada ao chão ela ricochetearia, talvez até produzindo uma rachadura na superfície com que se chocasse, mas sem sofrer o menor arranhão.
Consciente de que era dona total da situação, Regina moveu-se na direção do sofá onde Hatch e Lindsey estavam à espera, fazendo menos barulho a partir do ponto em que passou a pisar no caro tapete persa. Estava usando uma blusa branca, uma saia verde que descia até alguns centímetros abaixo de seus joelhos, meias também verdes, sapatos pretos — e na perna direita uma armação de metal que ia do tornozelo até acima do joelho, assemelhando-se a um instrumento de tortura medieval. Ela mancava de modo tão acentuado que seu tronco, à altura dos quadris, oscilava de um lado para o outro a cada passo, dando a impressão de que iria cair a qualquer instante.
A irmã Imaculada ergueu-se da sua poltrona, com uma carranca de reprovação.
— Quer me explicar exatamente qual a razão de todo esse teatro, senhorita?
Ignorando a evidente intenção da pergunta, a menina respondeu:
— Desculpe ter me atrasado, irmã. Mas alguns dias são mais difíceis para mim do que outros. — Antes que a freira pudesse responder, a garota voltou-se para Hatch e Lindsey, que tinham largado as mãos um do outro e ficado de pé. — Oi, meu nome é Regina. Sou uma aleijada.
Estendeu a mão. Hatch estendeu a sua também, antes de perceber que o braço e a mão direita dela também eram deformados. O braço era quase normal, somente um pouco mais fino do que o esquerdo, até a altura do pulso, onde os ossos sofriam uma estranha torção. Em vez de uma mão completa, ela possuía apenas dois dedos e um toco de polegar, que pareciam ter muito pouca flexibilidade. Apertar a mão dela era uma sensação estranha, sem dúvida, mas não desagradável.
Seus olhos cinzentos estavam fitos diretamente nos de Hatch. Tentando ler a reação dele. Ele soube de imediato que lhe seria impossível algum dia1 esconder daquela garota os seus sentimentos reais; e sentiu-se aliviado pelo fato de não ter sentido repulsa pela deformidade dela.
— Que bom conhecer você, Regina - - disse ele.—Sou Hatch Harrison e esta é minha mulher, Lindsey.
A garota virou-se para Lindsey e trocou também com ela um aperto de mãos, dizendo:
— Bem, sei que sou uma decepção. As futuras mamães ansiosas, como você, gostam de crianças mais novas, que possam aconchegar...
A Freira Sem Nome soltou um arquejo, chocada.
— Regina, francamente!...
A irmã Imaculada parecia apoplética e incapaz de falar; dava a impressão de um pingüim subitamente congelado, a boca aberta e os olhos arregalados em protesto, atingido por um vento ártico demasiado frio até mesmo para um pássaro da Antártida.
O padre Jiminez deixou seu posto junto à janela e veio na direção deles, dizendo;
— Sr. e Sra. Harrison, peço desculpas pela...
— Não há nada para ser desculpado — disse Lindsey rapidamente, sentindo, como Hatch, que a garota os estava submetendo a um teste, e que se eles tinham esperança de ser aprovados não poderiam se deixar envolver numa situação tipo adultos-contra-criança.
Regina moveu-se na direção da outra poltrona — pulando, coleando, contorcendo-se — e Hatch teve certeza de que ela estava tentando parecer muito mais desajeitada do que era de fato.
A Freira Sem Nome tocou a irmã Imaculada no ombro, e a freira mais velha voltou a sentar-se, mas mantendo a expressão de pingüim congelado. Os dois padres pegaram para si as cadeiras reservadas aos clientes do advogado, em frente à escrivaninha, e a freira mais jovem sentou-se noutra cadeira no canto da sala, de modo a ficar próxima ao grupo. Hatch percebeu que ele era a única pessoa de pé, e voltou a sentar no sofá, ao lado de Lindsey. Já que todos enfim estavam presentes, Salvatore Gujilio insistiu em servir refrigerantes — Pepsi, água mineral Perrier, ginger ale — e o fez sem pedir ajuda à secretária, trazendo tudo de um bar discretamente situado por trás de um painel de mogno num canto do gabinete. Enquanto o enorme advogado se atarefava servindo a todos, rápido e discreto apesar de sua corpulência, sem se chocar contra a mobília ou derrubar um vaso, sem nem sequer destruir as duas lâmpadas com rebuscados abajures em forma de flor, Hatch percebeu que ele deixara de ser uma figura imponente e o centro das atenções naquela sala: ele não era capaz de competir com a garota, que devia ter cerca de um quarto do seu tamanho.
Regina aceitou um copo de Pepsi oferecido por Gujilio. Enquanto o segurava, com a mão sadia, virou-se para Hatch e Lindsey.
— Muito bem — disse. — Vocês vieram até aqui para saber coisas a meu respeito, portanto acho melhor começar eu mesma dizendo algumas. A primeira delas, claro, é que eu sou uma aleijada. — Ela inclinou a cabeça para um lado e os fitou com uma expressão curiosa. — Vocês sabiam que eu era aleijada?
— Estamos sabendo agora — disse Lindsey.
— Quero dizer, antes de virem aqui.
— Sabíamos que você tinha um... um tipo de problema.
— Mutação genética — disse Regina.
O padre Jiminez soltou um suspiro pesadamente audível, A irmã Imaculada pareceu a ponto de dizer alguma coisa, olhou para Hatch e Lindsey e decidiu permanecer em silêncio.
— Meus pais eram viciados em drogas — disse a garota.
— Regina! — protestou a Freira Sem Nome. — Você não tem certeza, você não sabe nada sobre isso-
— Ah, mas a gente deduz — disse a garota. — Já faz uns vinte anos que drogas ilegais são a principal causa de defeitos de nascença. Sabiam disso? Li num livro. Eu leio muito. Sou maluca por livros, Não vou dizer que sou uma verdadeira traça, acho isso meio bobo, vocês não acham? Mas se eu fosse alguma coisa assim preferiria ser uma traça do que um desses vermes de frutas. Para uma criança aleijada, gostar de livros é ótimo; as pessoas não nos deixam fazer as mesmas coisas que crianças normais fazem, mesmo que a gente tenha certeza de que pode fazê-las tão bem quanto elas; aí, os livros acabam valendo por uma outra vida. Gosto de histórias de aventuras onde os personagens vão para o pólo Norte, ou para Marte, ou Nova York... lugares assim. Gosto de histórias de mistério, e as que mais gosto são as de Agatha Christie; mas o que mais gosto são histórias sobre animais, principalmente animais falantes, como em The Wind in the Willows. Eu já tive um bicho que falava. Era um peixinho dourado, e é claro que quem falava de verdade era eu, e não ele. Eu tinha lido um livro sobre ventriloquismo e aprendi a colocar minha voz, é o maior barato. Aí, eu sentava do outro lado da sala e colocava minha voz no aquário dele.—Ela começou a fazer uma voz esganiçada, sem mover os lábios, e a voz parecia provir da Freira Sem Nome: — Oi, meu nome é Binky, o Peixinho, e se vocês tentarem me botar num sanduíche para me comer, eu cago na maionese. — Ela voltou à sua voz normal, elevando-a acima dos protestos das freiras.—Isso é outro problema com aleijados como eu. Muitas vezes a gente pode se dar o luxo de ser desbocada, porque ninguém tem coragem de nos dar umas palmadas na bunda.
A irmã Imaculada tinha uma atitude de quem estava disposta a fazer precisamente isto, mas limitou-se a murmurar algo sobre "nada de TV pelo resto da semana".
Hatch, que no seu primeiro encontro com a freira a tinha achado tão ameaçadora quanto um pterodáctilo, não se deixou impressionar por ela naquele instante, apesar de ter registrado pelo canto do olho a intensa onda de irritação que a perpassou. Mas ele não conseguia tirar os olhos da garota.
Regina continuou a falar, mais jovial do que antes.
— Tem outras coisas que vocês precisam saber sobre mim, além desse detalhe de ser rneio desbocada. Eu sou muito desajeitada e passo o dia mancando pra lá e pra cá feito Long John Silver... aliás, esse, sim, foi um bom livro... e eu provavelmente vou acabar quebrando muitos objetos de valor na casa de vocês. Sem querer, é claro. Vai ser uma olimpíada de destruição permanente. Será que vocês vão ter paciência para isso? Eu não gostaria de ser espancada sem dó nem piedade e depois trancada no sótão somente porque sou uma pobre aleijada que não consegue controlar seus movimentos. Esta perna aqui... ela não está tão mal assim, juro, e se eu continuar fazendo exercícios ela vai ficar até bonitinha; mas eu não tenho muita força nela, e por falar nisso também não tenho muita sensibilidade nela.
— Ela cerrou a mão deformada e deu um soco tão forte na coxa direita que assustou Gujilio no momento em que ele servia um ginger ale ao padre
Duran, cujos olhos fitavam magnetizados a garota. Ela deu outro soco na coxa, com tanta força que Hatch fez uma careta; e continuou: — Viu só?
Carne morta. E aliás, por falar em carne... eu sou muito chata com comida.
Não consigo comer carne morta. Oh, não, não estou dizendo que como animais vivos. É que eu sou vegetariana, o que provavelmente torna as coisas um pouco mais difíceis para vocês, mesmo admitindo que vocês não liguem para o fato de eu não ser um bebezinho com quem possam brincar de boneca.
Minha única virtude é que sou muito, muito inteligente... sou praticamente um gênio. Mas até isso chega a ser um problema para certas pessoas. Eu sou esperta demais para minha idade, de modo que não me comporto exatamente como uma criança, e...
— Você sem dúvida está se comportando como uma, agora — disse a irmã Imaculada, satisfeita por conseguir encaixar um pequeno golpe.
Mas Regina a ignorou.
— ...e o que vocês querem, na verdade, é uma criança, uma coisinha engraçada e ignorante que vocês possam exibir para todo mundo, possam se divertir vendo como ela cresce e aprende as coisas; ao passo que eu já cresci e aprendi minhas coisas por minha própria conta. Coisas intelectuais, claro. Ainda não tenho nem peitinhos... Também não gosto muito de TV; nem pensem que vou participar daquelas noites-felizes quando a família fica reunida vendo algum programa. E sou alérgica a gatos, caso vocês tenham algum. E sou muito cabeça-dura... coisa que muita gente acha insuportável numa pirralha de dez anos. — Ela fez uma pausa, bebericou a Pepsi, sorriu para eles. — Pois é. Acho que é mais ou menos isso.
— Ela nunca é assim — grunhiu o padre Jiminez, mais para si mesmo ou para Deus do que para Hatch e Lindsey. Sorveu de um só gole metade de sua Perrier, como se fosse uísque.
Hatch virou-se para Lindsey. Os olhos dela estavam brilhantes. Ela não parecia saber o que dizer, de modo que ele virou-se para a menina.
— Bem, acho que o mais correto seria eu falar um pouco sobre nós — disse.
Pondo seu copo de lado, a irmã Imaculada fez menção de erguer-se, dizendo:
— Francamente, Sr. Harrison, não permito que...
Com um gesto apaziguador, Hatch a fez sentar-se novamente.
— Não, não, está tudo bem. Regina está um pouco nervosa, e...
— Nem tanto — disse a garota.
— Ora, claro que está — disse Hatch.
— Não, não estou.
— Um pouco nervosa — insistiu Hatch —, tanto quanto eu e Lindsey também estamos. Não é nada de mais. — Ele sorriu para a garota da maneira mais sincera que conseguiu. — Ora, vamos ver... Passei minha vida inteira interessado em antiguidades. Gosto de coisas que perduram, que têm personalidade própria; e eu tenho minha loja de antiguidades, com dois empregados. É assim que ganho a vida. Eu também não gosto muito de televisão, ou de...
— Que diabo de nome é Hatch? — interrompeu a garota, dando uma risadinha como se achasse aquele nome engraçado demais para ser nome de alguém, exceto, talvez, de um peixinho dourado.
— Meu primeiro nome completo é Hatchford.
— Continua engraçado.
— A culpa é da minha mãe — disse Hatch. — Ela sempre achou que meu pai ia ficar rico e subir de classe social, e ela achava que Hatchford era um típico nome de milionário: Hatchford Benjamin Harrison. A única modificação para melhor que esse nome poderia ter era, talvez, Hatchford Benjamin Rockefeller.
— E ele? — perguntou Regina.
— Ele quem?
— Seu pai. Ficou rico, afinal?
Hatch deu uma explícita piscadela para Lindsey e disse:
— Ih, parece que caímos nas mãos de uma caçadora de fortunas.
— Olha, se vocês fossem mesmo ricos eu levaria isso em consideração — disse a garota.
A irmã Imaculada deixou um ar represado nos pulmões escapar sibilante por entre os dentes; a Freira Sem Nome reclinou-se na cadeira e fechou os olhos com ar resignado. O padre Jiminez ficou de pé e, fazendo um gesto enérgico para Gujilio, foi na direção do bar com a intenção de encontrar algo um pouco mais forte do que Pepsi, Perrier ou ginger ale. Mas, já que nem Hatch nem Lindsey davam mostras de sentir-se ofendidos com a atitude da garota, nenhum deles se sentia autorizado a interromper a entrevista ou mesmo voltar a repreendê-la
— Receio que nós não sejamos ricos — disse Hatch. — Temos uma vida confortável. Não nos falta nada. Mas também não temos um Rolls-Royce, e não usamos pijamas feitos de caviar.
Um brilho divertido passou pelos olhos da garota, mas ela logo o reprimiu. Virando-se para Lindsey, perguntou:
— E você?
Lindsey piscou os olhos. Pigarreou.
— Oh, bem, eu sou artista. Eu pinto.
— Como Picasso?
— Não naquele estilo, mas sou uma artista, sim, como ele.
— Certa vez vi uma pintura que mostrava um grupo de cachorros jogando pôquer — disse a menina. — Foi você quem pintou aquilo?
— Não, receio que não — disse Lindsey.
— Ainda bem. Era um quadro muito estúpido. Também vi um quadro mostrando um touro e um toureiro; era feito de veludo, e as cores eram muito brilhantes. Você pinta com cores assim, sobre veludo?
— Não — disse Lindsey. — Mas se você gosta disso, posso pintar em veludo alguma coisa que você goste, para seu quarto.
Regina franziu o rosto inteiro num esgar de desgosto.
— Por favooooor... — disse. — Eu preferiria pendurar um gato morto na parede.
Não havia nada mais que pudesse surpreender os religiosos do São Tomás. O padre Duran desta vez chegou a sorrir, e a irmã Imaculada murmurou "gato morto", não em desespero, mas como se concordasse que essa decoração macabra ainda seria preferível a uma pintura sobre veludo.
— Meu estilo — disse Lindsey, tentando melhorar a própria imagem após ter feito semelhante proposta — é geralmente descrito como uma mistura de neoclassicismo e surrealismo. Sei que parece um tanto pretensioso, mas...
— Bem, não é meu estilo predileto — disse Regina, como se tivesse a mais remota idéia do que eram tais estilos e do que poderia ser uma mistura entre os dois. — Se eu fosse morar com vocês, e se tivesse um quarto só para mim, você não ia me obrigar a pendurar um monte de quadros seus na minha parede, ia?
A inflexão com que o "seus" foi pronunciado deixava claro que ela preferiria um gato morto na parede, mesmo que os quadros não tivessem nada a ver com veludo.
— De modo algum — garantiu Lindsey.
— Ótimo.
— Acha que poderia gostar de viver conosco? — perguntou Lindsey, e
Hatch imaginou se aquela idéia lhe causava excitação... ou medo.
De súbito a garota ergueu-se da poltrona, o corpo oscilando perigosamente assim que ficou de pé, como se de um instante para outro ela fosse tombar para a frente. Hatch também se ergueu, pronto para segurá-la se fosse necessário, mesmo desconfiando de que tudo aquilo era uma pequena encenação.
Quando ela se reequilibrou, pousou o copo já vazio na mesinha de centro e disse:
— Tenho que fazer xixi. Tenho uma bexiga muito frouxa. Acho que são os meus genes mutantes. Nunca consigo me segurar. O tempo inteiro acho que vou acabar fazendo xixi nos lugares mais inconvenientes, como aqui no gabinete do Sr. Gujilio; isso é outra coisa que vocês têm que pensar, antes de querer me levar para morar na sua casa. Vai ver que a casa de vocês é cheia de preciosidades, já que vocês mexem com antiguidades, e arte, e tudo o mais; a casa cheia de coisas caras e lá vou eu me arrastando e caindo e arrebentando tudo, ou pior: lá estou eu, incapaz de controlar minha bexiga justamente quando estiver sentada numa dessas mobílias bem caras... Vocês iam me despachar de volta para o orfanato, e eu, que sou muito sentimental, ia acabar subindo no telhado e me jogando lá de cima. Nenhum de nós ia querer que isso acontecesse. Olha... prazer em conhecê-los.
Ela saiu mancando ao longo do tapete persa até deixar o aposento: scccuuurrrr... THUD. Era uma cena levada a cabo com o mesmo talento com que ela executara o número de ventriloquismo. Sua cabeleira ruiva oscilava de um lado para o outro enquanto ela se afastava, e brilhava como uma labareda.
Ficaram todos em silêncio, escutando o ruído dos passos da garota sumindo ao longe. A certa altura, ela pareceu cambalear e chocar-se com a parede, produzindo um ruído surdo; talvez tivesse se machucado, mas logo prosseguiu corajosamente seu caminho, scurrr... thud!
— Ela não tem nenhum problema com a bexiga — disse o padre Jiminez, sorvendo um gole de um líquido âmbar em seu copo. Parecia ter trocado a Perrier por um bourbon. — Isso não faz parte dos problemas dela.
— Ela não é assim — disse o padre Duran, piscando os olhos redondos como se eles tivessem sido atingidos por fumaça. — É uma criança maravilhosa. Sei que depois disto vocês não vão acreditar, mas...
— E ela anda muito melhor do que aquilo — disse a Freira Sem Nome.