Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 2 de 8 · parte 1/2

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Esconderijo

Sob a luz das lâmpadas de halogênio,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

5

Sob a luz das lâmpadas de halogênio, as superfícies de aço inoxidável, ou esmaltadas de branco, magoavam os olhos, fazendo com que a sala de cirurgia se assemelhasse a uma paisagem do Ártico, repleta de formas geométricas polidas pelo brilho pálido do sol de inverno. A sala parecia estar mais fria, como se o calor que penetrava aos poucos no corpo daquele homem estivesse expulsando o frio de dentro dele, fazendo cair a temperatura ambiente. Jonas Nyebern foi percorrido por um calafrio.

Helga verificou o termômetro digital que estava afixado ao corpo de Harrison.

— Temperatura do corpo, vinte graus.

— Setenta e dois minutos — disse Gina.

— Vamos lá, pessoal, rumo à fama — disse Ken. — Nosso nome na

História da Medicina, no Livro Guiness dos Recordes, sem falar nas entrevistas na TV, livros, filmes, camisetas com nossa foto, chapéus promocionais!

jardins decorativos podados para reproduzir nossos rostos...

— Já houve casos de cães trazidos de volta depois de noventa minutos — lembrou Kari.

— Sim — disse ele —, mas eram cães. Além do mais, voltaram com defeito. Corriam atrás de ossos e enterravam automóveis.

Gina e Kari riram baixinho, e a piada quebrou um pouco a tensão entre todos, menos com Jonas. Ele era incapaz de relaxar um só momento durante um processo de ressurreição, mesmo sabendo que era possível um médico, uma vez ultrapassado determinado limite de tensão, começar a produzir abaixo do seu ponto ideal. Ele admirava o modo como Ken era capaz de aliviar o acúmulo de tensão nervosa, em benefício do paciente; mas era incapaz de fazer o mesmo no meio de uma batalha. — Vinte e um graus. Vinte e um e meio.

Era uma batalha. A morte era o adversário: hábil, poderoso e infatigável. Para Jonas, a morte não era apenas um estado patológico, nem o destino inevitável de todas as criaturas vivas, mas uma entidade real que percorria o mundo; talvez não fosse o vulto mítico envolto numa capa negra e com uma caveira por sob o capuz, mas era uma presença real, a Morte com M maiúsculo.

— Vinte e dois graus.

— Setenta e três minutos — disse Gina.

Jonas introduziu mais neutralizadores de radicais livres no sangue que corria através do tubo transparente.

Ele pensou na sua crença na Morte como uma força sobrenatural, dotada de vontade própria e de consciência; pensou na sua certeza de que ela percorria o mundo em forma corporal, e que estava ali na sala de cirurgia, naquele mesmo instante, protegida por um manto de invisibilidade; e imaginou que tudo isso iria parecer aos seus colegas uma tola superstição. Podia até mesmo ser encarada como sinal de desequilíbrio mental ou loucura incipiente. Mas Jonas estava certo de sua própria sanidade. Afinal, sua crença na Morte se baseava em provas concretas. Ele vira o inimigo quando tinha apenas sete anos de idade; ouvira sua voz, olhara dentro de seus olhos e respirara seu hálito fétido, sentira o toque gelado daqueles dedos no seu rosto.

— Vinte e três graus e meio.

— Estejam prontos — disse Jonas.

A temperatura do paciente se aproximava daquele limite a partir do qual a reanimação poderia se dar a qualquer momento. Kari encheu uma seringa hipodérmica com epinefrina, e Ken ativou a máquina de desfibrilação, para começar a carregá-la. Gina abriu a válvula de um tanque contendo uma mistura de oxigênio e dióxido de carbono, preparada especialmente para processos como aquele; checou a máscara do pulmão artificial para ver se estava tudo OK.

— Vinte e quatro graus. Vinte e quatro e meio.

Gina olhou o relógio.

— Estamos aos... setenta e quatro minutos.

 

6

No final da rampa descendente, ele penetrou num aposento cavernoso, tão vasto quanto um hangar. Tempos atrás, a pouca imaginação do designer do parque de diversões tinha se esforçado para criar ali uma réplica do inferno, com tubulações de gás produzindo chamas por entre enormes rochas falsas, feitas de concreto, que se elevavam por toda parte.

O gás tinha sido cortado, muito tempo atrás. O inferno agora vivia numa escuridão total... menos para ele.

Caminhou devagar ao longo do piso de concreto, que era dividido ao meio por um canal serpenteante por onde se estendia o mecanismo das correntes. As gôndolas tinham navegado por ali, singrando um lago de água que era levado a parecer um lago de fogo através de truques de iluminação e de jatos dágua borbulhante que criavam a ilusão de óleo fervente. À medida que caminhava, ele saboreou o odor da carne em decomposição, que crescia mais a cada segundo.

Antes, uma dúzia de demônios mecanizados erguiam-se ali, abrindo imensas asas de morcego, olhando para baixo com olhos ameaçadores que varriam as gôndolas e seus passageiros com inofensivos jatos de laser. Onze daqueles bonecos tinham sido levados para algum outro parque ou vendidos como sucata. Por alguma razão, no entanto, um deles havia ficado para trás — um silencioso e imóvel aglomerado de metal coberto de ferrugem, envolto em panos roídos pelas traças, tendo em seu interior mecanismos emperrados e sujos de graxa. Ele continuava inclinado do alto de uma escada em espiral cavada na falsa rocha, próximo ao teto, uma criatura mais patética do que ameaçadora.

Ao passar por aquela grotesca figura mecânica, ele pensou: Eu sou o único demônio que este lugar já conheceu ou virá a conhecer. Esse pensamento lhe trouxe prazer.

Meses atrás, ele tinha parado de designar a si próprio pelo seu nome de batismo, adotando o nome de uma criatura que lera certa vez num livro sobre satanismo. Vassago. Um dos três mais poderosos príncipes-demônios do Inferno, que deviam homenagens apenas a Sua Majestade Satânica Vassago. Gostava daquele som. Quando o pronunciava em voz alta, aquele nome rolava pela sua língua tão fluentemente que era como se nunca tivesse usado outro.

— Vassago.

No denso silêncio daquele recinto subterrâneo, o som ecoou de volta até ele, reverberando nas rochas de concreto: Vassago.

 

7

— Vinte e sete graus.

— Já era para ter começado — disse Ken.

De olho nos monitores, Kari disse:

— Linha contínua. Nenhum bipe.

Seu pescoço longo e esguio era tão delicado que Jonas podia ver o pulsar acelerado de sua carótida.

Ele baixou os olhos até o pescoço do homem imóvel na mesa de cirurgia. Nenhuma pulsação.

— Setenta e cinco minutos — anunciou Gina.

— Se der tudo certo a partir de agora, já estamos com um recorde — disse Ken. — Vai ser terrível... vamos ter que comemorar, beber horrores, vomitar nos sapatos, fazer um papelão.

— Vinte e oito graus.

Jonas sentia-se tão frustrado que não conseguia dizer nada — temendo conseguir apenas soltar um palavrão ou um simples rosnado de raiva impotente. Tinha seguido corretamente todos os passos, mas estavam perdendo a batalha. Ele detestava perder. Detestava a Morte. Detestava as insuficiências riu medicina moderna, todas as precariedades do conhecimento humano, e suas próprias limitações.

— Vinte e oito graus.

De súbito, o homem arquejou.

Jonas teve um sobressalto, e seus olhos fitaram os monitores. A tela de eletrocardiograma mostrava movimentos espasmódicos no coração do paciente.

— Lá vamos nós — disse Kari.

 

8

As figuras mecânicas dos condenados ao inferno, que no auge das atividades do parque somavam mais de uma centena, tinham sumido dali juntamente com os demônios; com elas desapareciam os gritos de agonia e de dor que emitiam através dos alto-falantes baratos instalados em suas bocas. Aquele recinto desolado, no entanto, não estava totalmente vazio de almas penadas, só que agora abrigava dentro de si algo mais apropriado do que bonecos mecânicos: a coleção de Vassago.

No centro do salão, Satã estava postado em toda a sua majestade, uma figura aterradora e colossal. A estátua maciça do Príncipe das Trevas em pessoa estava colocada no centro de um poço circular com cerca de seis metros de diâmetro. Seu vulto não aparecia de corpo inteiro; mas do umbigo até a ponta de seus chifres ele media dez metros de altura. Quando o parque de diversões estava em funcionamento, a escultura monstruosa ficava instalada no interior de um poço com oito metros de profundidade, oculta sob as águas do lago, de onde emergia a intervalos regulares, com a água escorrendo do seu corpo, mostrando os enormes olhos fulgurantes, movendo as mandíbulas, rangendo os dentes aguçados, mostrando a língua bífída e bradando com voz estentórea o clássico aviso "Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais...", para depois emitir uma gargalhada malévola.

Quando garoto, Vassago fizera inúmeras vezes aquele percurso, no interior das gôndolas..; no tempo em que ainda pertencia totalmente ao mundo dos vivos, antes de ter começado a fazer parte do mundo onde existia agora — a região fronteiriça entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Naquele tempo, sentira terror diante daquele Satã mecanizado, terror principalmente devido àquela risada aterradora. Se agora, inesperadamente, aquele mecanismo pudesse superar os anos e anos de corrosão e trazer o monstro novamente de volta à vida, Vassago não se deixaria impressionar: já tinha idade e experiência suficientes para saber que Satã era incapaz de rir.

Parou junto à base da enorme figura de Lúcifer e a examinou com um misto de escárnio e admiração. Sim, aquilo era ridículo, um monstro de trem-fantasma capaz apenas de fazer criancinhas urinarem de medo e de dar a garotas adolescentes um motivo para soltar gritinhos histéricos e se abrigar nos braços dos namorados. Mas ele era forçado a admitir ", que havia uma certa inspiração naquela figura. O desenhista não tinha optado pela tradicional imagem de Satã como um sedutor de almas atormentadas — de rosto magro, nariz adunco e lábios finos, o cabelo : luzidio penteado para trás, o queixo pontudo terminando num cavanhaque caprino. Em vez disso, ali estava uma Besta digna desse nome: parte réptil, parte inseto, parte humanóide, repulsivo a ponto de impor respeito, familiar a ponto de parecer verdadeiro e alienígena a ponto de inspirar terror. Anos e anos de poeira, umidade e mofo tinham-no coberto com uma camada que atenuava as cores berrantes da pintura e lhe conferiam algo da autoridade dos deuses de pedra do Antigo Egito, encontrados em templos cobertos pela areia, por trás das dunas remotas do deserto.

Embora não tivesse idéia de como poderia ser a verdadeira aparência de Lúcifer, e admitindo que o Pai da Mentira deveria ser muito mais aterrador e apavorante do que aquela caricatura, Vassago considerava aquele monstro de plástico e espuma suficientemente impressionante para ocupar o centro da existência secreta que ele mantinha ali naquele refúgio. Na base da estátua, sobre o chão de concreto do lago agora vazio, ele tinha arrumado a sua coleção — em parte para seu próprio prazer e divertimento, em parte à guisa de oferenda para o deus do medo e da dor.

Os corpos nus e apodrecidos de sete mulheres e três homens estavam ali dispostos, como se fossem dez estranhas estátuas de um Miguel Ângelo perverso, exibidos num museu de horrores.

 

9

Um único arquejo curto, um breve espasmo dos músculos cardíacos, uma reação nervosa involuntária que sacudiu seu braço direito e fez os dedos de sua mão se contraírem como as patas recurvas de uma aranha nas contorções da morte: foram esses os únicos sinais de vida exibidos pelo paciente antes de voltar à postura inerte e silenciosa dos mortos.

— Vinte e oito graus e meio — disse Helga.

Hesitante, Ken Nakamura perguntou:

— Desfibrilação?...

Jonas abanou negativamente a cabeça.

— O coração não está fibrilando. Não está batendo, absolutamente.

Melhor esperar.

Kari tinha uma seringa em punho.

— Mais epinefrina?

Jonas voltou a fitar os monitores.

— Espere — disse. — Não adianta trazê-lo de volta apenas para precipitar um ataque cardíaco por excesso de medicação.

— Setenta e seis minutos—disse Gina com a voz ofegante, e percorrida por uma excilação juvenil, como se estivesse anunciando a marcha do placar de uma partida de vôlei de praia.

— Vinte e nove graus.

Harrison arquejou de novo. Seu coração disparou, fazendo corcovear por várias vezes a linha brilhante do monitor cardíaco. Todo o seu corpo começou a tremer. Em seguida aquietou-se, e a linha voltou a ser horizontal.

Ken Nakamura olhava para Jonas cheio de expectativa, segurando com cuidado os pólos negativo e positivo da máquina desfíbriladora.

— Trinta graus — anunciou Helga. — Faixa térmica adequada... e ele está tentando voltar.

Jonas sentiu uma gota de suor descer ao longo de sua têmpora, rápida como uma centopéia, seguindo depois a curva do queixo. Estavam entrando na parte mais difícil, quando tinham de dar ao paciente uma chance de se recobrar por si próprio, sem desgastá-lo mais ainda com as técnicas artificiais de reanimação.

Um terceiro surto de atividade cardíaca começou a ser registrado pelos aparelhos, numa série de tremores mais curta do que a anterior, e sem o acompanhamento de atividade pulmonar. Nenhuma contração muscular er; visível. Harrison permanecia frouxo e gelado sobre a mesa.

— Ele não vai conseguir sozinho — disse Kari Dovell.

— Vamos perdê-lo — concordou Ken.

— Setenta e sete minutos — disse Gina.

Não tinham sido quatro dias no túmulo como Lázaro, antes que Cristo o chamasse de volta, pensou Jonas; mas ainda assim era tempo demais para alguém estar morto.

— Epinefrina — disse ele.

Kari estendeu-lhe a longa seringa hipodérmica e, sem perda de tempo, ele aplicou a dose através das mesmas aberturas do tubo endovenoso por onde tinha administrado os neutralizadores de radicais livres.

Ken ergueu as placas negativa e positiva da máquina de desfibrilação e tomou posição ao lado do paciente, pronto para administrar-lhe um choque elétrico, se necessário.

Mas nesse instante a dose maciça de epinefrina, um poderoso hormônio extraído das glândulas supra-renais de reses e de ovelhas, e chamado por alguns especialistas em ressurreição de "suco reanimador", atingiu o organismo de Harrison, produzindo um choque tão intenso quanto qualquer choque elétrico que Ken Nakamura fosse capaz de administrar-lhe. O bafo fétido da morte explodiu para fora de seus pulmões; ele arquejou como se ainda estivesse prestes a afundar no rio gelado, seu corpo foi percorrido por violentos espasmos e seu coração começou a bater acelerado, como o coração de uma lebre que dispara pelo campo com uma raposa no seu encalço.

 

10

Vassago arrumara cada uma das peças de sua coleção macabra com um cuidado mais do que casual. Aquilo não era apenas um grupo de dez cadáveres jogados descuidadamente sobre o chão de concreto. Ele não apenas respeitava a morte, mas também a amava, com um ardor semelhante à paixão de Beethoven pela música ou à fervorosa devoção de Rembrandt pela pintura. A morte, afinal de contas, era a dádiva que Satã trouxera para os habitantes do Jardim, uma dádiva disfarçada de algo mais belo; ele era o Distribuidor da Morte, e aqueles seus domínios eram o reino da morte eterna. Qualquer corpo tocado pela morte era para ser visto com a mesma reverência que um católico devoto dedica à Eucaristia. Assim como estes acreditam que seu Deus está presente e vivo no interior daquela delgada fatia de pãonão-fermentado, da mesma forma o rosto do Deus impiedoso de Vassago podia ser visto por toda parte, nas formas da carne apodrecida e decomposta. O primeiro corpo depositado aos pés da enorme imagem de Satã era o de Jenny Purcell, uma garçonete de 22 anos que durante algum tempo tinha trabalhado no turno da noite de uma lanchonete que reproduzia os ambientes da década de 50, e cuja vitrola automática tocava Elvis Presley e Chuck Herry, Lloyd Price e The Platters, Buddy Holly, Connie Francis e os Everly Brolhers. Quando Vassago entrou lá certa noite e pediu uma cerveja e um hambúrguer, Jenny achou atraente aquele homem jovem todo vestido de preto, usando óculos escuros à noite e sem fazer a menor menção de tirá-los no sentar. Seu rosto de bebê parecia ainda mais interessante devido à linha resoluta do queixo e à leve contorção dos lábios, que lhe dava um toque de crueldade; com aquele cabelo negro caindo sobre a testa, ele parecia uma versão jovem de Elvis. "Como é seu nome?", perguntou Jenny, e ele disse: Vassago, ao que ela retrucou: "Perguntei seu primeiro nome." E ele disse: "É isso, o nome todo, primeiro e último"; o que provavelmente a deixou intrigada e deu asas à sua imaginação, porque ela perguntou: "Ah, quer dizer como Cher, que só usa um nome... ou Sting, ou Madonna..." Ele a encarou através dos óculos e disse: "É, sim... algum problema?..." Não. Por ela, problema nenhum. Na verdade ela estava sentindo atração por ele. Achou que ele era "diferente"... mas só mais tarde iria acabar descobrindo o quanto ele era diferente.

Tudo na figura de Jenny lembrava-lhe uma prostituta barata; portanto, depois de matá-la com um estilete enfiado entre as costelas até perfurar seu coração, ele a instalou numa posição adequada a uma mulher promíscua. Após despi-la por completo, ele a colocou sentada, com as pernas abertas e os joelhos dobrados; amarrou seus pulsos delicados aos tornozelos, para mantê-la naquela posição. Depois, usou uma peça de corda para puxar sua cabeça para a frente, forçando-a numa posição em que ela jamais conseguiria ficar quando viva, brutalmente dobrada sobre seu próprio ventre; e amarrou as cordas às coxas, deixando Jenny a contemplar perpetuamente a fenda entre suas pernas, para não esquecer dos seus pecados.

Jenny tinha sido a primeira peça de sua coleção. Morta há cerca de nove meses, toda atada de cordas como um presunto pendurado na despensa, ela estava agora murcha, ressequida, uma carcaça mumificada, que não tinha mais atrativos para os vermes ou outros agentes da decomposição. E não exalava mais o mau cheiro que tinha quando viva.

Na verdade, naquela posição, enrolada como uma bola sobre si própria à medida que era ressecada pelo tempo, ela lembrava tão pouco um ser humano que era difícil pensar nela como alguém que um dia fora uma pessoa viva, e assim era igualmente difícil pensar nela como uma pessoa morta. Assim, a morte parecia não estar presente em seus despojos. Para Vassago, ela havia cessado de ser um cadáver e se tornara simplesmente um objeto curioso, uma coisa impessoal que bem poderia ter sido sempre inanimada. Em resultado disso, embora ela tivesse sido o primeiro item de sua coleção, tinha agora muito pouco interesse para ele.

Ele era fascinado unicamente pela Morte e pelos mortos. Os vivos lhe despertavam interesse apenas na medida em que carregavam a madura promessa da morte no seu interior.

 

11

O coração do paciente oscilava entre uma leve e uma forte taquicardia, ou seja, de 120 a mais de 230 pulsações por minuto, uma condição passageira provocada pela ação conjunta da epinefrina e da hipotermia. Só que aquilo não estava parecendo uma condição passageira. A cada vez que o ritmo das pulsações diminuía, não retornava ao ritmo anterior, e a cada nova aceleração o eletrocardiograma mostrava uma arritmia crescente, que poderia ter como única conseqüência uma parada cardíaca.

Jonas já não transpirava, e estava mais calmo agora que a decisão de enfrentar a Morte tinha sido tomada e a batalha estava em curso. — Vamos dar-lhe uma sacudida — disse ele. Ninguém teve dúvidas sobre a quem se destinava a ordem, e Ken Nakamura aplicou sobre o peito de Harrison as placas metálicas dos pólos da máquina de desfibrilação. A descarga elétrica fez o corpo do paciente se arquear violentamente sobre a mesa, e o recinto foi percorrido pelo som de um pilão de aço chocando-se contra um sofá de couro — wham!

Jonas olhou para o eletrocardiógrafo, enquanto Kari interpretava em voz alta os saltos da bolinha luminosa ao longo da tela:

Duzentos por minuto ainda, mas agora o ritmo está voltando... Urine... sim, firme...

Ao mesmo tempo, o eletroencefalógrafo exibia ondas alfa e beta dentro dos parâmetros normais para um homem inconsciente.

- Sinais de atividade pulmonar auto-suficiente — disse Ken.

OK — decidiu Jonas. — Vamos ajudá-lo a respirar. Quero que ele tenha bastante oxigênio para as células cerebrais.

Gina imediatamente pôs a máscara de oxigênio sobre o rosto de Harrison.

— Temperatura do corpo, trinta e dois graus — anunciou Helga.

Os lábios do paciente ainda estavam azulados, mas suas unhas já tinham perdido essa coloração ameaçadora.

Da mesma forma, seu tônus muscular estava parcialmente restaurado. Sim carne já não tinha a flacidez da carne morta, e à medida que a sensibilidade retornava às extremidades do seu corpo, após seu quase congelamento, as dolorosas agulhadas em suas terminações nervosas produziam uma série de tremores e espasmos em seus membros.

Seus olhos moviam-se de um lado para outro sob as pálpebras cerradas, num sinal evidente de sono com sonhos.

— Cento e vinte batidas por minuto — disse Kari — e diminuindo... ritmo perfeito agora... muito firme.

Gina consultou seu relógio de pulso e deixou escapar a respiração, num uuufa! cheio de assombro.

— Oitenta minutos.

— Que filho da mãe — disse Ken em tom meditativo. — Bateu o recorde por dez minutos.

Jonas hesitou apenas durante um breve instante antes de olhar para o relógio de parede e fazer em voz alta o registro oficial para a gravação em fita:

— Paciente ressuscitado com sucesso às nove horas e trinta e dois minutos da noite de segunda-feira, quatro de março.

Seguiu-se um murmúrio de mútuas congratulações, acompanhado por sorrisos de alívio, o mais próximo que eles se permitiam chegar do grito uníssono de vitória que poderia se fazer ouvir num campo de batalha propriamente dito. O que os detinha não era a modéstia, mas o seu conhecimento da verdadeira condição de Harrison. Eles tinham vencido a batalha contra a Morte, mas o paciente ainda não recuperara a consciência. Enquanto ele não despertasse, e a sua atividade mental pudesse ser medida e avaliada, haveria sempre o risco de que ele tivesse sido reanimado apenas para levar uma vida de angústia e de frustração, com seu potencial tragicamente mutilado por uma lesão cerebral irreversível.

 

12

Deliciando-se com o pungente aroma da morte, e sentindo-se totalmente em casa dentro da escuridão do subterrâneo, Vassago caminhou ao longo da fileira de corpos que compunha a sua coleção e que rodeava cerca de um terço da base da colossal estátua de Lúcifer.

Entre as vítimas masculinas, havia um que fora apanhado ao trocar um pneu baixo num trecho deserto da Ortega Highway, durante a noite. Outro tinha adormecido dentro do carro, no estacionamento de uma praia. O terceiro abordara Vassago num bar, em Dana Point. Não tinha sequer sido uma abordagem gay: era apenas um sujeito bêbado, desesperado, solitário... e imprudente.

Nada nas outras pessoas irritava Vassago mais do que a carência sexual e a excitação. Ele não se interessava mais por sexo, e não violentara nenhuma das mulheres que matara. Sua raiva e sua angústia, despertadas pela simples percepção da sexualidade alheia, não resultavam da inveja; ele não sentia sua impotência como uma maldição ou mesmo como um fardo imerecido. Não: ele estava feliz por se ver livre da luxúria e do desejo. Desde que se tornara um habitante do mundo fronteiriço entre a vida e a morte, e desde que tinha aceitado as promessas simbolizadas no túmulo, ele não lamentava a perda da sua capacidade de sentir desejo. Ele não tinha certeza do motivo por que a simples idéia de sexo era o bastante para causar-lhe um acesso de fúria, ou por que uma piscadela convidativa ou uma minissaia ou um suéter modelando um par de seios podiam incitá-lo à tortura e ao homicídio; mas ele suspeitava de que era porque sexo e vida eram duas coisas tão intimamente interligadas. Depois do instinto de conservação, o impulso sexual, segundo todas as pessoas, era a mais poderosa das motivações humanas. Através do sexo, a vida se reproduzia. E como ele odiava a vida em todas as suas incontáveis manifestações, porque a detestava com tal intensidade, era natural que votasse ao sexo um ódio semelhante.

Ele preferia matar mulheres porque elas, mais do que os homens, eram aprisionadas pela sociedade a exibir seu apelo sexual, com o auxílio de maquilagem, batom, perfumes provocantes, roupas indiscretas e comportamento coquete. Além disso, era do ventre das mulheres que novas vidas brotavam, e Vassago tinha jurado a si mesmo destruir a vida sempre que lhe fosse possível. Das mulheres vinha aquela coisa que ele mais desprezava em si mesmo: aquela centelha de vida que ainda crepitava dentro dele próprio e que o impedia de transferir-se de vez para a terra dos mortos, que era seu lugar legítimo.

Das outras seis mulheres que faziam parte de sua coleção, havia duas ex donas de casa, uma jovem advogada, uma secretária médica e duas universitárias. Ele tinha arrumado cada um dos corpos de modo correspondente a sua personalidade, seu espírito, e de acordo com as fraquezas da pessoa que o habitara; além disso, ele tinha um talento considerável para decoração de cadáveres, fazendo uso brilhante de uma grande variedade de adereços; mas havia uma daquelas peças cujo resultado final lhe agradava mais do que todas as outras juntas.

Ele deteve-se diante dela.

Fitou-a com intensidade em meio às trevas, deliciando-se com sua criação...

Margaret...

Ele a vira pela primeira vez durante uma de suas intermináveis caminhadas noturnas, num bar mal-iluminado perto do campus universitário, onde ela estava bebericando uma Coca-Cola Diet — ou porque ainda não tinha idade suficiente para beber com os amigos ou porque era mesmo abstêmia. Ele suspeitou que esta última hipótese estaria mais perto da verdade.

Ela parecia estranhamente pouco à vontade no meio da fumaça e do vozerio reinantes no bar. Observando-a do lado oposto do recinto, avaliando suas reações ao que os amigos diziam e a sua linguagem corporal, Vassago percebeu que ela era uma garota tímida fazendo um enorme esforço para se integrar à turma, mesmo sabendo no fundo que aquele não era o seu ambiente. O barulho da conversa estimulada pelo álcool, o tinido dos copos, a música ensurdecedora de Madonna, Michael Jackson ou Michael Bolton na vitrola automática, o cheiro de cerveja e de fumaça de cigarro, o odor do suor dos rapazes em plena azaração... nada disso parecia tocá-la. Estava sentada ali no bar mas parecia manter-se à parte, sem que nada parecesse atingi-la, cheia de uma energia misteriosa possivelmente maior do que a de todas as pessoas que superlotavam aquele recinto.

Era uma pessoa tão cheia dessa energia vital que parecia emitir uma espécie de irradiação. Vassago quase não conseguiu acreditar que o sangue viscoso e comum do resto da humanidade fosse o mesmo que se movia no interior de suas veias. Era como se o coração dela bombeasse, em vez de sangue, a essência destilada da própria vida.

Aquilo o atraiu. Seria fantástico ter o privilégio de extinguir uma chama de vida tão brilhante quanto aquela.

Para saber onde ela morava, ele a seguiu depois do bar. Durante os dois dias seguintes ele percorreu o campus, colhendo informações sobre ela com a diligência de um estudante preparando-se para um exame de fim de semestre.

Ela se chamava Margaret Ann Campion. Vinte anos, fazendo o curso de graduação em música. Tocava piano, flauta, clarinete, violão e praticamente qualquer instrumento que lhe ocorresse estudar. Era a aluna mais conhecida e mais admirada do curso de música, e todos viam nela um grande talento para composição. Era essencialmente uma garota tímida, mas tinha tomado a decisão de quebrar um pouco essa barreira, de modo que a música não era seu único interesse. Fazia parte da equipe de atletismo e era a segunda atleta mais rápida do grupo, além de ter grande espírito de competição; escrevia sobre cinema e música para o jornalzinho da faculdade; e participava das atividades da igreja batista.

Sua impressionante vitalidade era evidente não apenas na alegria com que escrevia e executava música, nem na aura quase espiritual que Vassago tinha percebido naquela primeira noite no bar, mas também em sua aparência física. Era extraordinariamente bonita, com o corpo de uma estrela de Hollywood e o rosto de uma santa. Pele macia. Ossatura perfeita no rosto. Lábios grossos, uma boca generosa, um sorriso angelical. Olhos azuis e límpidos. Vestia-se de modo discreto, numa tentativa de disfarçar o contorno arredondado dos seios, a cintura delgada, a firmeza das nádegas e as linhas firmes e longas de suas pernas. Mas Vassago tinha certeza de que, quando a despisse, iria constatar que ela era de fato aquilo que ele tinha percebido logo naquele primeiro encontro: uma mulher com imensa capacidade reprodutora. uma fornalha ardente de vida onde mais cedo ou mais tarde uma outra vida, de brilho incomparável, acabaria sendo gestada e dada à luz. Ele decidiu que ela deveria morrer.

Decidiu que precisava fazer seu coração parar e depois ficar abraçado ao corpo dela durante horas, sentindo a vida irradiar-se para sempre, abandonando seu corpo até deixá-la fria e inerte.

Aquele crime seria o bastante, pensou ele, para lhe conceder a passagem definitiva para além da zona fronteiriça onde ele vivia, deixando-o penetrar na (erra dos mortos e dos condenados, o seu lugar de origem, e para onde ele ansiava retornar.

Margaret cometeu o erro de descer sozinha até a lavanderia do edifício onde morava, às onze da noite. Muitos daqueles apartamentos eram alugados a pessoas com boas condições financeiras e, como o conjunto habitacional ficava próximo do campus da Universidade da Califórnia, em Irvine, muitos estudantes se juntavam em grupos de dois ou de três para dividir um aluguel, Essa vizinhança amistosa, o fato de estar num lugar seguro e cheio de gente conhecida, e a abundância de iluminação distribuída por entre a paisagem e a parte interna dos prédios—tudo tinha se combinado para dar-lhe uma falsa sensação de segurança.

Quando Vassago entrou na lavanderia, Margaret começava a colocar a roupa suja numa das máquinas de lavar. Ela o olhou com um sorriso de surpresa mas sem qualquer receio aparente, embora ele estivesse todo vestido de preto e usando óculos escuros em plena noite.

Provavelmente ela imaginou que ele não passava de um estudante que se vestia de modo excêntrico para alardear seu espírito rebelde e sua superioridade intelectual. Todo campus universitário estava cheio de tipos assim, já que é sempre muito mais fácil vestir-se como um intelectual rebelde do que realmente sê-lo.

— Oh, desculpe — disse ele. — Pensei que não tinha ninguém aqui.

— Tudo bem — disse Margaret. — Vou usar somente uma máquina, e as outras duas estão desocupadas.

— Não, obrigado, já lavei minha roupa. É que... — Ele olhou em redor.

— Quando cheguei no meu quarto e esvaziei o cesto vi que estava faltando uma meia. Não sei se ficou na máquina de lavar ou na secadora. Desculpe incomodar.

O sorriso dela se alargou, talvez porque estivesse achando engraçado que aquele pseudo James Dean todo vestido de preto e com ar de rebelde sem causa pudesse falar de um modo tão educado, e mais ainda... pudesse ser capaz de lavar suas próprias roupas e de sair em busca de meias desaparecidas.

Mas a essa altura eleja estava ao lado dela. Bateu-lhe no rosto — dois socos rápidos e demolidores que a jogaram inconsciente ao chão, onde ela desmoronou sobre o piso de vinil como se fosse uma pilha de roupas sujas largada por alguém.

Quando recobrou a consciência, estava no interior do inferno mecânico, na parte subterrânea do túnel-do-terror abandonado. Ao perceber que estava nua sobre o chão de concreto, praticamente cega naquela escuridão total, e com os pés e as mãos amarrados, ela não tentou negociar para salvar a própria vida, como algumas das outras tinham feito. Não ofereceu a ele o próprio corpo, não fingiu sentir-se excitada pela crueldade dele ou pelo domínio absoluto que ele assumira sobre ela. Não lhe ofereceu dinheiro, nem tentou afirmar que o compreendia e que simpatizava com ele, num esforço patético para convertê-lo de algoz em amigo. Não gritou, não chorou, não gemeu, não o amaldiçoou. Era diferente das outras, porque encontrou esperança e conforto numa série infindável de preces murmuradas numa voz calma, cheia de gravidade. Mas em momento algum ela rezou pedindo para ser libertada de seu raptor e levada de volta para o mundo de onde tinha sido arrancada — como se ela já soubesse que a morte era inevitável. Em vez disso, rezou para que sua família tivesse forças para suportar sua perda, para que Deus cuidasse de suas duas irmãs mais novas, e para que até mesmo seu assassino pudesse contar com a a graça e a misericórdia divinas.

Vassago começou aos poucos a odiá-la. Ele sabia que amor e misericórdia não existiam, não passavam de palavras vazias. Nunca sentira amor: nem depois de ter se tornado um ser da zona fronteiriça entre a vida e a morte, nem quando ainda pertencia ao mundo dos vivos. Mesmo assim, de vez em quando fingira amar alguém — o pai, a mãe, uma garota—para obter o que queria, e sempre tinha conseguido enganá-los. Acreditar que o amor pudesse existir em outras pessoas, quando ele mesmo não o sentia, teria sido um erro fatal. Afinal de contas, as relações humanas não passam de um jogo, e o que distingue um bom jogador de um jogador incompetente é a sua capacidade de enxergar através das mentiras do oponente.

Para mostrar a ela que não se deixaria iludir, e que o Deus em que ela acreditava era um Deus impotente, Vassago recompensou suas preces com uma morte lenta e dolorosa. Até que, afinal, ela gritou. Mas eram gritos que não o satisfaziam, porque não passavam de sinais de sofrimento físico; neles não havia nenhum sinal de terror, raiva ou desespero.

Ele tinha pensado que iria gostar mais dela depois de vê-la morta, mas mesmo então percebeu que continuava a odiá-la. Por alguns minutos apertou o corpo da moça de encontro ao seu, sentindo o seu calor se dissipar lentamente. Mas o avanço gelado da morte através de sua carne não chegou a ser tão excitante quanto havia imaginado. Ela morrera sem ver abalada a sua fé na vida eterna, privando assim Vassago da satisfação de ver nos seus olhos o medo pela aproximação da morte. Ele empurrou seu corpo flácido para o lado, com uma careta de repulsa.

Agora, duas semanas depois que Vassago terminara seu trabalho, Margaret Campion estava ajoelhada numa posição perpétua de oração, no chão do inferno subterrâneo, como a mais recente peça da sua coleção. Ela permanecia com o corpo ereto, amarrada a uma barra de aço que ele havia chumbado num buraco no chão de concreto. Nua, estava com as costas voltadas para a enorme estátua de Lúcifer. Embora em vida ela tivesse sido uma batista, um crucifixo estava agora preso em suas mãos, porque Vassago considerava a imagem de um crucifixo mais interessante do que a de uma simples cruz; ele estava virado de cabeça para baixo, com a cabeça de Cristo, coroada de espinhos, virada para o chão. A cabeça de Margaret tinha sido cortada e novamente costurada no pescoço com uma precisão obsessiva. Embora seu corpo estivesse dando as costas a Satã, seu rosto estava virado na direção dele, sem fitar o crucifixo que segurava de forma irreverente em suas mãos. Sua posição simbolizava a hipocrisia e satirizava sua crença pretensiosa na fé, no amor, na vida eterna.

Vassago não extraíra do assassinato de Margaret tanto prazer quanto o que tinha obtido através do que fizera depois ao seu cadáver; mas ainda assim estava satisfeito em tê-la conhecido. Sua obstinação, sua estupidez e sua auto-ilusão tinham feito com que sua morte acabasse sendo menos divertida do que ele havia imaginado, mas pelo menos a aura que ele percebera em torno dela, naquele primeiro encontro no bar, finalmente se dissipara. A única energia que se abrigava agora em seu corpo era o da miúda multidão de vermes que fervilhava dentro dela, consumindo sua carne e prestes a reduzi-la a uma carcaça ressequida como a de Jenny, colocada na extremidade oposta da coleção.

Enquanto ele examinava o corpo de Margaret, uma sensação familiar começou a brotar dentro dele, até se transformar numa verdadeira compulsão. Ele voltou as costas aos corpos enfileirados e refez seu caminho ao longo do vasto salão, indo na direção da rampa que conduzia ao túnel de entrada. Normalmente, o trabalho de selecionar uma nova aquisição, matá-la e colocá-la numa posição esteticamente satisfatória era o bastante para deixá-lo saciado por pelo menos um mês. Mas depois de menos de duas semanas ele começava a sentir a compulsão de procurar uma nova vítima para seu próximo sacrifício.

Meio a contragosto, ele subiu de volta a rampa, afastando-se do cheiro purificante de carne morta, e mergulhando num ar poluído pelos odores da vida, como um vampiro que precisa ir à caça entre os vivos, embora prefira a companhia dos mortos.

13

Às 10:30, quase uma hora depois de ter sido ressuscitado, Harrison permanecia inconsciente. A temperatura de seu corpo estava normal. Os sinais vitais estavam em ordem. E embora os padrões de suas ondas cerebrais alfa e beta indicassem um homem em sono profundo, nada havia neles que pudesse indicar algo tão grave quanto um estado de coma.

Depois que Jonas declarou que o paciente já não corria riscos imediatos e podia ser transferido para um apartamento no quinto andar, Ken Nakamura e Kari Dovell decidiram ir para casa. Deixando Helga e Gina fazendo companhia ao paciente, Jonas acompanhou o neurologista e a pediatra até o lavatório, e em seguida até a porta que dava acesso ao estacionamento reservado ao pessoal do corpo médico. Conversaram sobre Harrison e sobre as medidas que teriam que tomar a partir da manhã seguinte, mas durante a maior parte do tempo eles limitaram-se a conversas casuais sobre a política interna do hospital e fofocas sobre os amigos, como se não tivessem acabado de ser protagonistas num milagre diante do qual tudo o mais devesse parecer irrelevante.

Por trás da porta de vidro, a noite era fria e inóspita. A chuva começara a cair. Poças dágua já se formavam em cada depressão do pavimento, refletindo o brilho das luzes do estacionamento; pareciam espelhos despedaçados ou milhares de cacos prateados de vidro amontoados uns sobre os outros.

Kari inclinou-se para Jonas e deu-lhe um beijo no rosto, abraçando-o por um momento. Deu a impressão de querer dizer alguma coisa, mas parecia não encontrar as palavras. Então voltou a se endireitar, ergueu a gola do casaco e saiu caminhando através da chuva e do vento.

Ken Nakamura demorou-se um pouco após a partida de Kari.

-- Já deve ter percebido que vocês dois dão certo um com o outro — comentou ele.

Jonas acompanhou com os olhos, através da porta de vidro por onde as gotas de chuva escorriam, a mulher que se afastava a passos rápidos na direção do seu carro. Estaria mentindo se dissesse que nunca tinha olhado Kari como mulher. Embora alta, magra e dotada de uma formidável presença, ela era também feminina. Às vezes ele ficava maravilhado diante da delicadeza de seus pulsos ou diante da graciosidade de seu pescoço, semelhante ao de um cisne, e que parecia quase não ser capaz de suportar o peso da cabeça. Intelectual e emocionalmente, ela era mais forte do que parecia. Se não fosse assim, não poderia ter suplantado os obstáculos que certamente encontrara no longo de sua carreira médica, numa profissão ainda dominada pelos homens, para os quais, em alguns casos, o machismo era menos um traço de caráter do que uma profissão de fé.

Ken prosseguiu:

— Bastaria dizer uma palavra a ela, Jonas.

— Ainda não estou livre para isso — respondeu ele.

— Você não pode guardar luto por Marion eternamente.

— São apenas dois anos.

— Sim, mas você vai ter que voltar à vida normal, mais cedo ou mais tarde.

— Não por enquanto.

— E quando? Nunca mais?

— Não sei.

Lá fora, Kari Dovell tinha acabado de entrar no seu automóvel.

— Ela não vai esperar por você a vida toda — disse Ken.

— Boa noite, Ken.

— Oh, claro. Entendi o recado.

— Ótimo.

Com ar pesaroso mas sorridente, Ken abriu aporta, deixando entrar uma rajada de ar frio que espalhou gotas reluzentes de chuva ao longo do piso cinzento, e desapareceu na noite.

Jonas girou nos calcanhares e retornou, ao longo de uma série de corredores, até o elevador. Subiu ao quinto andar.

Não tinha sido necessário avisar a Ken e Kari que ele passaria a noite no hospital. Eles sabiam que esse era o seu hábito após cada reanimação aparentemente bem-sucedida. Para eles, a medicina de ressuscitação era um novo e fascinante campo de atividade, um interessante complemento profis¬sional ao seu trabalho; uma maneira de ampliar seu conhecimento profissio¬nal e manter suas mentes flexíveis. Cada sucesso que obtinham era profundamente gratificante, uma lembrança de qual tinha sido a sua primeira motivação ao escolher a carreira médica: a de curar. Mas para Jonas era muito mais do que isto. Cada reanimação era uma batalha a mais que tinha sido ganha ao longo da sua guerra interminável contra a Morte, não apenas um ato de cura mas um ato de desafio, um punho irado erguido diante do rosto do Destino. A medicina de ressuscitação era seu amor, sua paixão, era sua própria definição como pessoa, sua única razão para levantar da cama de manhã e continuar vivendo, num mundo que, de outra forma, tinha se tornado difícil de suportar — sem sentido, sem alegria.

Ele submetera projetos e propostas a meia dúzia de universidades, oferecendo-se para lecionar em seus cursos de medicina em troca da instalação de uma unidade de pesquisa de técnicas de ressuscitação, sob seu comando, e para a qual se oferecia a contribuir com uma parte razoável do investimento inicial. Jonas era conhecido e respeitado tanto como cirurgião cardiovascular quanto como um especialista em reanimação, e acreditava que em breve alcançaria seus objetivos. Mas estava impaciente. Já não se dava por satisfeito com a mera supervisão de reanimação de pacientes. Queria estudar os efeitos daqueles breves intervalos de morte clínica sobre as células humanas, pesquisar os mecanismos dos radicais livres e de seus neutralizadores, testar suas próprias teorias, e descobrir novas maneiras de evitar a Morte naqueles sobre quem ela já estabelecera sua jurisdição.

No quinto andar, na seção das enfermeiras, ele foi informado de que Harrison tinha sido levado para o 518. Era uma enfermaria semiparticular, mas a grande quantidade de leitos disponíveis no hospital garantia que Harrison poderia permanecer sozinho ali durante o tempo que fosse neces¬sário.

Quando Jonas entrou no 518, Helga e Gina estavam terminando de instalar o paciente na cama mais afastada da porta, perto da janela açoitada pela chuva. Harrison tinha sido vestido numa bata do hospital e estava ligado a um eletrocardiógrafo com uma unidade de telemetria, através da qual sua pulsação cardíaca seria transmitida a um monitor colocado na sala das enfermeiras. Um frasco cheio de um fluido claro estava pendurado num suporte ao lado da cama e conectado a um tubo plástico endovenoso afixado ao seu braço esquerdo, o qual já exibia uma série de marcas deixadas por outras injeções endovenosas aplicadas pelos paramédicos naquela mesma noite. O fluido contido no frasco era uma solução de glicose misturada a um antibiótico destinado a evitar a desidratação e manter o organismo do paciente a salvo de uma das muitas infecções que poderiam pôr a perder todo o trabalho da equipe de ressuscitação. Helga tinha penteado o cabelo de Harrison e estava terminando de guardar o pente na gaveta da mesinha-de-cabeceira; Gina aplicava um lubrificante sob as pálpebras dele para evitar que elas ficassem pregadas aos globos oculares, uma ocorrência freqüente com pacientes em estado comatoso que passavam longos períodos de tempo sem abrir os olhos ou sequer piscar, e que ainda por cima sofriam às vezes de diminuição de secreção das glândulas lacrimais.

— O coração está regular como um metrônomo—disse Gina ao avistar Jonas. — Tenho o palpite de que antes do fim da semana o rapaz vai estar dançando, jogando golfe, fazendo o que bem entender. — Ela afastou com um gesto maquinai as mechas de cabelo que lhe caíam sobre a testa.—É um cara de sorte.

— Vamos devagar — disse Jonas com cautela; sabia muito bem como a Morte costumava provocá-los, fingindo que batia em retirada e em seguida voltando à carga de surpresa e invertendo o resultado de uma batalha que parecia ganha.

Quando Gina e Helga se despediram e foram para casa, Jonas desligou todas as luzes. Iluminado apenas pelo reflexo das luzes fluorescentes do corredor e pelo brilho esverdeado da tela do monitor cardíaco, o quarto 518 ficou povoado por sombras.

E pelo silêncio também. O sinal de áudio do eletrocardiógrafo tinha sido desligado, e o aparelho mostrava apenas os saltos rítmicos e regulares da bolinha luminosa, deixando um rastro esmaecido enquanto percorria hori¬zontalmente a pequena tela. Os únicos ruídos que se ouviam eram o gemido distante do vento do lado de fora e o tamborilar ocasional da chuva nas vidraças.

Jonas ficou parado ao pé da cama, olhando para Harrison. Mesmo tendo salvado a vida daquele homem, pouco sabia a respeito dele. Tinha 38 anos, l,70m e 72 quilos. Cabelo castanho, olhos castanhos. Excelentes condições físicas.

Mas e quanto à pessoa no interior daquele corpo? Hatchford Benjamin Harrison seria um homem bom? Honesto? Digno de confiança? Fiel à sua esposa? Seria um homem razoavelmente a salvo da inveja e da cobiça, capaz de sentir piedade, cônscio da distância entre o certo e o errado?

Ele tinha um bom coração?

Ele amava alguém? No calor da luta pela reanimação de um corpo, quando cada segundo era vital e havia coisas demais para serem feitas num curto espaço de tempo, Jonas nunca se atrevia a pensar sobre o principal dilema ético com que se defrontava cada médico que assumia o papel de reanimador, porque pensar naquilo poderia fazê-lo hesitar, prejudicando o paciente. Depois de tudo terminado, no entanto, havia tempo para dúvidas, para meditações... Embora todo médico tivesse um compromisso moral e a obrigação profissional de salvar vidas sempre que possível, será que todas essas vidas mereciam ser salvas? Se a Morte punha suas garras sobre um homem mau, não seria mais prudente — e eticamente mais justo — deixar que o levasse consigo?

Se Harrison fosse um homem mau, qualquer ato que viesse a cometer após deixar o hospital seria, em parte, responsabilidade de Jonas Nyebern. A dor que Harrison viesse a causar a outras pessoas lançaria também uma sombra sobre a alma de Jonas.

Por sorte, essa questão parecia não se aplicar no presente caso, Harrison, pelo que Jonas fora informado, era um cidadão decente, um comerciante respeitado no ramo de antigüidades; sua esposa era uma pintora de certa reputação, cujo nome era familiar a Jonas. Uma artista certamente tinha que ser uma pessoa sensível, perceptiva, capaz de ver o mundo com mais clareza do que as pessoas comuns. Não era assim? Se ela viesse a se casar com um homem mau acabaria percebendo e não continuaria casada com ele. No presente caso, tudo levava a crer que aquela vida que ele acabara de salvar de fato merecia ser salva.

Jonas desejou que seus atos fossem sempre tão corretos quanto naquela ocasião.

Virou as costas para a cama e caminhou dois passos na direção da janela. Cinco andares abaixo estendia-se o pátio de estacionamento quase deserto. Os postes de iluminação projetavam sua luz sobre as poças dágua, que, devido à chuva incessante que as salpicava, pareciam borbulhar em ebulição — como se um fogo subterrâneo estivesse consumindo o asfalto.

Ele podia ver o local onde o carro de Kari Dovell estivera estacionado, e olhou naquela direção por longo tempo. Tinha uma grande admiração por Kari. Também a achava atraente. Às vezes sonhava com ela, e esses sonhos lhe produziam uma surpreendente sensação de bem-estar. Admitia que mais de uma vez sentira desejo por ela, e achava agradável pensar que ela também poderia sentir o mesmo em relação a ele. Mas ele não precisava dela. Não precisava de nada além do seu trabalho, da satisfação ocasional em poder derrotar a Morte, e...

— Tem... alguma coisa... lá fora...

A primeira palavra interrompeu o fluxo de pensamentos de Jonas, mas a voz, era tão débil e apagada que ele não percebeu de imediato a sua origem. Virou-se, olhando na direção da porta que permanecia aberta; mas a voz não vinha do corredor. Somente no final da frase ele percebeu que era Harrison quem falava.

A cabeça do paciente estava voltada na direção de Jonas, mas seus olhos localizavam-se na janela.

Caminhando rapidamente para junto da cama, Jonas deu uma rápida olhadela para o eletrocardiógrafo e viu que o coração de Harrison estava butendo depressa, mas, graças a Deus, num ritmo regular.

— Tem alguma coisa... lá fora — repetiu Harrison.

Reparando bem, seus olhos não pareciam estar focalizados na janela propriamente dita ou em alguma outra coisa próxima, mas num ponto indefinido situado à distância, no meio da noite chuvosa.

— É só a chuva — disse Jonas, em tom tranqüilizador.

— Não.

— Uma chuva de inverno. Só isso.

— Uma coisa ruim — sussurrou Harrison.

Passos apressados soaram no corredor, e uma jovem enfermeira irrompeu no quarto. Seu nome era Ramona Perez; Jonas a conhecia. Era uma jovem competente e dedicada.

— Oh, Dr. Nyebern, que bom que está aqui. O coração dele, na unidade

de telemetria...

— Sim, eu sei, estava acelerado. Tudo bem, ele apenas acordou de repente.

Ramona aproximou-se da cama e acendeu a lâmpada acima dela, iluminando melhor o paciente.

Harrison estava ainda com os olhos voltados na direção da janela, como se não se apercebesse das presenças de Jonas e da enfermeira. Numa voz mais baixa do que antes, cheia de um enorme cansaço, ele repetiu:

Continuar: parte 2 de 2