Eurico, o Presbítero

Alexandre Herculano · Capítulo 24 de 61

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Eurico, o Presbítero

Do Presbytero ao Duque de Corduba.


Eurico a Theodemiro, saude!


Não comprehendeste, duque de Corduba, quão fundo é o abysmo cavado neste coração pela desventura. Não me queixo de ti; porque nem a ti, nem a ninguem é dado comprehendê-lo. Medes o meu espirito pelos affectos humanos; mas é porque não sabes como elle saíu depurado do crisol de padecer infernal.

Gloria! Que m'importa a mim a gloria? Que posso fazer dessa riqueza, inutil como as outras riquezas?

Examina bem a consciencia e dize-me qual é para os corações puros e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições de poder, de opulencia, de renome? É um só—a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações. Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo, porque ainda não descubriu a estrella polar da sua existencia, o astro que ha-de illuminar-lhe a noite do coração, como o sol com os seus primeiros raios illumina as trevas de um templo, para esse a mulher é uma idéa vaga e confusa, mas formosa e querida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visivel da filha da sua imaginação, e, todavia, é para lhe pôr aos pés gloria, poderio, riqueza, que elle cubiça tudo isso. Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos os affectos humanos.

Theodemiro, eu amei como ninguem, talvez, ainda amara. Este amor foi desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso assim recalcado?—Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois disso, que possa restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem, porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a morte do espirito.

Não, eu não quero a gloria inutil e inintelligivel hoje para mim. Não, eu não quero o mando e o poderio, porque já não sei para o que elles prestam. Como o febricitante em dia ardente do estio, que aspira a brisa da tarde, a qual não póde sará-lo, mas que lhe refrigera por momentos o ardor do sangue, assim eu ainda me deixo affagar pela idéa de me atirar ao maior fervor das batalhas pelejadas em nome da patria: esse delirio dos perigos, essa loucura que o cheiro de sangue produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a colera enthesourada por annos neste coração. Tiuphado, seria constrangido a vigiar as acções dos outros, a usar do valor tranquillo que affronta immovel a morte; mas que é tal valor para aquelle a quem a vida serve só de martyrio? Uma hypocrisia mais; mais um meio de enganar o mundo. E que tenho eu com o mundo para curar d'enganá-lo?

Homem de paz—dir-me-has tu—pela profissão do sacerdocio; tendo buscado o repouso á sombra eterna da cruz, como é que desejas só o que nos combates ha mais brutal, ignobil e obscuro, o furor da matança, e recusas o que nelles ha mais nobre e puro, a intelligencia com que um unico individuo move milhares delles e lhes multiplica a força com a rapidez das idéas, com a sublimidade das concepções, com a robustez de uma vontade immutavel? Homem de paz, cingindo a espada do guerreiro, que outro mister deverá ser o teu?

Busquei, é verdade, o repouso e a paz no sanctuario de Deus!—Dias e dias, passei-os orando com a fronte unida ás lageas do pavimento sagrado, esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanço e esquecimento; mas o sepulchro foi esteril. Noites e noites, vagueei-as pelas solidões: assentei-me ao luar sobre os penhascos dos promontorios, com os olhos cravados no céu ou errantes pela vastidão das aguas, e onde todos acham lagrymas de consolo e d'esperança eu não achei uma só, porque as minhas morriam apenas brotavam. O Senhor não me escutou as preces: não me acceitou a resignação. Este espirito, que tentava erguer-se nas asas da philosophia do Christo para as alturas, despenhava-se de novo para o pelago medonho das recordações amargas. Ainda os homens abençoavam o Presbytero, e já a consciencia lhe bradava, a todos os momentos:—condemnação para a tua alma!

Quando o céu é um deserto para a esperança, onde a acharei na terra? Que póde hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?

Já me teria assentado a esse phrenetico banquete nas guerras civís, se ainda não vivesse em mim o sentimento moral, ultimo que se desvanece naquelle que por largos annos viveu vida pura de crimes. Mas, sem crime, se póde assentar a elle um desgraçado como eu, ao chamar por nós todos, no meio de um grande perigo, a terra de que somos filhos.

Theodemiro, breve virá, talvez, o dia em que vejas que o braço do gardingo não enfraqueceu debaixo das roupas do Presbytero; em que elle te prove que a mortiça côr de uma negra armadura póde ser tão bella ao sol das batalhas como as couraças e os elmos resplandecentes de nobres guerreiros: que o frankisk grosseiro de um obscuro soldado póde contribuir para a victoria como a pericia militar de capitão famoso. Oxalá que, entretanto, seja verdade o que dizes!—Oxalá que eu me enganasse, e que a traição não tenha tornado inuteis a intelligencia e o braço do homem para salvar as Hespanhas!