Eurico, o Presbítero
Notas
Pag. X
«Chronica-poema, lenda, ou o que quer que seja.»
Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me afflige demasiado. Sem ambicionar para elle a qualificação de poema em prosa—que não o é por certo—tambem vejo, como todos hão-de ver, que não é um romance historico, ao menos conforme o creou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo fixar a acção que imaginei n'uma epocha de transição—a da morte do imperio gothico, e do nascimento das sociedades modernas da Peninsula, tive de luctar com a difficuldade de descrever successos e de retratar homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da Hespanha tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia, precediam immediatamente, por outro, a epocha a que, em rigor, podemos chamar historica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a ultima pagina do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa traçada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes, outros, que não eu, o dirão.
Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica melhor que a d'Oviedo e Leão, que a do nosso Portugal no primeiro periodo da sua existencia como individuo politico. Sabemos melhor quaes foram as instituições dos godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilisação intellectual e material, do que sabemos o que era isso tudo em seculos mais proximos de nós. O esplendor dos paços, as formulas dos tribunaes, os ritos dos templos, a administração, a milicia, a propriedade, as relações civís são menos nebulosas e incertas para nós nas eras gothicas que durante o longo periodo da restauração christan. E, comtudo, o reproduzir a vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as fórmas do verdadeiro romance historico temo-lo por impossivel, ao passo que o representar a existencia dos homens do undecimo ou dos seguintes seculos será para o que os tiver estudado, não digo facil, mas, sem duvida, possivel.
Qual é a causa d'isto?
É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos e não a sua vida íntima, emquanto os seculos da Hespanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos restam-nos codigos, historia, litteratura, monumentos escriptos de todo o genero, mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano, e a historia desconhece o povo. O gothicismo hespanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se. Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria, immovel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete sellos do Apocalypse: são a campa da familia. A familia goda é para nós como se nunca existira.
Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei quê de magestade esculptural que conserva sempre a raça wisigothica, por mais que tentemos galvanisá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante a reacção contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando lhes applicamos a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da imaginação, vai despertar os tempos que foram do seu calado sepulchro.
Desta differença, que é mais facil sentir que definir, nasce a necessidade de estabelecer uma distincção nas fórmas litterarias applicadas ás diversas epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica, e a moderna.
O periodo wisigothico deve ser para nós como os tempos homericos da Peninsula. Nos cantos do Presbytero tentei achar o pensamento e a cor que convem a semelhante assumpto, e em que cumpre predominem o estylo e fórmas da Biblia e do Edda—as tradições christans, e as tradições gothicas, que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se e completar-se, em relação á poesia da vída humana, no extremo occidente da Europa.
O romance historico, como o concebeu Walter Scott, só é possivel áquem do oitavo—talvez só áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa data a vida da familia, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado para apparecer na praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando. As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos seriam, desde então, absurdos e, parece-me, até, que ridiculos.
A Hespanha romano-germanica transformou-se na Hespanha rigorosamente moderna no terrivel cadinho da conquista arabe. A obra litteraria (novella ou poema—verso ou prosa—que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas—indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik ou de Leuwighild será o ascendente do Cid ou do lidador; que o heroe se vai transformar em cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguez.
E a fórma e o estylo devem approximar-se mais ou menos d'um ou d'outro extremo, conforme a epocha em que lançamos a nossa concepção está mais vizinha ou mais remota da que vai deixando d'existir ou da que vem surgindo. A difficultosa mistura dessas cores na palheta do artista nenhuma doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha o instincto.
Tive eu esse instincto?—É mais provavel o não que o sim.—Se a arte fora facil para todos os que tentam possuí-la, não nos faltariam artistas!