Eurico, o Presbítero
XIX Conclusão
Da morte ás trévas,
Immortal, te diriges!Merobaude: Poema de Christo.
A ventura das armas mosselemanas tinha chegado ao apogeu, e a sua declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Hespanha era como uma ara immensa, onde as chammas das cidades incendiadas serviam de fogo sagrado para consummir aos milhares as victimas humanas. O silencio do desalento reinava por toda a parte, e os christãos viam com apparente indifferença os seus vencedores polluirem as ultimas cousas que, até sem esperança, ainda defende uma nação conquistada—as mulheres e os templos. Theodemiro pagava bem caro o procedimento que o desejo de salvar os seus subditos o movera a seguir. O pacto feito por elle com os arabes não tardou a ser por mil modos violado, e o illustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade. Fora isto o que Pelagio preferira, e a victoria coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.
Os que tem lido a historia daquella epocha sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro élo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quasi oito seculos, fez recuar o koran para as praias d'Africa e restituiu ao evangelho esta boa terra d'Hespanha, terra, mais que nenhuma, de martyres. Na batalha de juncto do Auseba foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Chryssus; porque mais de vinte mil sarracenos viram pela ultima vez a luz do sol naquellas tristes solidões. Mas, nesse dia da punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam vendido a patria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gosavam nas brenhas intractaveis das Asturias.
O ardil de Pelagio para resistir com vantagem aos mosselemanos, cem vezes mais numerosos que os christãos, surtira o desejado effeito. Ainda que muito a custo, os cavalleiros enviados em cilada para a floresta á esquerda das gargantas de Covadonga poderam chegar ahi sem serem sentidos dos arabes, que se haviam approximado mais cedo do que o fizera crer a narração do velho Vellido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sitio em que rompia do valle, e os seus almogaures tinham ousado penetrar ávante. Os cavalleiros da cilada, que a pouca distancia passavam manso e manso, ouviram distinctamente o tropeiar dos ginetes inimigos.
Mas, quando, ao primeiro alvor da manhan, Pelagio se encaminhava com o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os arabes rompiam por ella e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo de leito apertado, se dilata pela campina. Os christãos recuaram, e os infiéis, attribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se após elles. Pouco a pouco, o duque de Cantabria attrahiu-os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado alli, pondo á boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Immediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inaccessiveis, cubriram-se de fundibularios e frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. Vacillaram; mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se, esquadrões após esquadrões, á entrada da caverna, onde, finalmente, encontravam desesperada resistencia. Então, como se despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre elles dos cimos do precipicio que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisiveis os impelliam. Cada rocha traçava no meio daquelle vulto informe que oscillava, naquella vasta planicie de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura mancha, semelhante a chaga horrivel. Eram dez ou vinte guerreiros, cujos membros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho!—porque a esse espectaculo se ajunctava o grito de raiva e desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só comparavel ao bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem, na ausencia dellas, roubado os seus cachorrinhos.
Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exercito dos arabes alguns milhares de cavalleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Asturias, que os perseguiam incansaveis além de Cangas de Onis.
Fora no momento em que Pelagio penetrava, na sua fingida fuga, sob o vasto portal da gruta que o cavalleiro negro saía. O joven guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pallido e transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquillidade que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam a entrada elle esteve quedo, como indifferente ao combate; mas, logo que os arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelagio pôde combater na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho com o frankisk, desappareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantabria o buscou: nem elle, nem ninguem mais o viu.
Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa epocha denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dous rochedos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara celtica. Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da Gallecia. Quatro cavalleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquelle apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se que eram tres christãos e um sarraceno. Chegados á clareira, este parou de repente e, voltando-se com aspecto carregado para um dos tres, disse-lhe:
«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se te seguissemos: fiámo-nos em ti, porque não precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos dos soldados de Pelagio, e foi a um aceno teu que elles cessaram de perseguir-nos. Porém o silencio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria arabe, Juliano, o conde de Septum e Oppas, o bispo d'Hispalis.»
«Sabía-o:—respondeu o cavalleiro—por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote do Christo!»
«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando os olhos em roda. Para que fim?»
«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido lealmente comnosco, inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes, porque nos venceste com esforço e á luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te conduza em salvo ás tendas dos teus soldados. É por alli!... A estes, que venderam a terra da patria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganharam nas trevas a victoria maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseraveis, segui-o!»
E quasi a um tempo dous pesados golpes de frankisk assignalaram profundamente os elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento mais tres ferros reluziram.
Um contra tres!—Era um combate calado e temeroso. O cavalleiro da cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dous godos. Primeiro o velho Oppas, depois Juliano cahiram.
Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:
«Meu Deus! Meu Deus!—Possa o sangue do martyr remir o crime do Presbytero!»
E, largando o frankisk, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si.
Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada: o craneo do seu adversario rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.
Como tomba o abeto solitario da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro mysterioso do Chryssus cahia para não mais se erguer!...
Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranquilla, o mancebo adormeceu, tambem, perto della, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhan, acordou ao som de cantico suavissimo. Era sua irman que cantava um dos hymnos sagrados que muitas vezes elle ouvira entoar na cathedral de Tárraco. Dizia-se que seu auctor fora um Presbytero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.
Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os cabellos, tão tristes, soturnas e dolorosas são ellas: tão completamente exprimem irremediavel alienação d'espirito.
A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.