Eurico, o Presbítero

Alexandre Herculano · Capítulo 27 de 61

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Eurico, o Presbítero

XI Dies Irae



Por quantas desventuras a patria dos Godos tem sido abalada: quão repetidos a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda suberba dos transfugas, quasi ninguem ignora.

Codigo wisigothico II-1-7.


A passagem de tão avultado numero de godos para os inimigos e o crepusculo que descia obrigaram Ruderico a fazer cessar o combate, emquanto a noite pousava tranquilla sobre aquella campina povoada de afflicções e dores. A aurora rompeu meiga e serena, como nos dias em que vinha trazer as alvoradas alegres ás malhadas dos pastores que, colmadas, amarelejavam outr'ora pelas margens relvosas do Chryssus, em vez das tendas de guerra que alli alvejavam agora com os primeiros resplendores da madrugada. O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava envolto na sua gloria, indifferente ás angustias d'aquelles que, em seu ridiculo orgulho, se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; passava, sem lh'importar se os vermes vestidos de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.

Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante, de passadas d'homens e de tropeiar de cavallos soara horas inteiras em um e em outro campo. Era que em ambos elles surgira uma idéa unica. O rei godo havia resolvido formar um corpo só das reliquias da sua hoste e com elle acommetter a principal batalha dos inimigos, para a destruir rapidamente antes que as alas podessem soccorrê-la. O mesmo pensamento tivera Tarik. Semelhante á trovoada do estio, que se amontoa durante a noite em dous polos encontrados e ao alvorecer semeia de coriscos as solidões do céu e povoa d'estampidos discordes os echos da terra, assim cada um dos campos se agglomerava em uma pinha gigante; convertia-se n'um homem só, para em duello de morte resolver com o seu contendor se os filhos das Hespanhas deviam acceitar a lei do koran ou continuar a abrigar-se á sombra da divina cruz.

Tarik lançara na frente da hoste mosselemana os transfugas do inimigo. Sisebuto, Ebbas, o bispo d'Hispalis e o conde de Septum com os seus numerosos guerreiros constituiam a vanguarda. Seguia-se a cavallaria arabe: os bereberes cingiam este massiço de homens e ginetes, em parte cubertos de ferro, e os indisciplinados cavalleiros da Mauritania, dispersos como almogaures, deviam vagar soltos para fazer entradas nas alas inimigas e impedir assim que ellas podessem a tempo soccorrer o centro do exercito, que o general arabe esperava desbaratar no primeiro impeto.

Ruderico, pela sua parte, tinha posto na vanguarda as tiuphadias victoriosas de Theodemiro, os cavalleiros da Cantabria guiados pelo moço Pelagio, filho de Favilla, que succedera a seu pae no governo daquella provincia, e, finalmente, os guerreiros escolhidos da Lusitania e da Gallecia, que elle proprio capitaneiava. Como Tarik, o rei godo collocara de um e de outro lado da hoste apinhada os frecheiros e fundibularios selvagens do Herminio e os montanhezes vasconios, antiga raça de celtas, irmãos em linhagem, em valor, em crueza, em armas e em costumes. Na retaguarda estavam os soldados da provincia Carthaginense que não tinham seguido o exemplo dos transfugas por andarem derramados em outros logares ou, talvez, porque, não corrompidos, guardavam ainda no coração vestigios d'amor da patria.

Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos viu com assombro que a mesma traça de guerra de que pretendera valer-se para obter a victoria occorrera á mente do seu adversario. Era, porém, tarde para alterar a ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas godas e os anafis arabes deram o signal do combate, e o grito de—Christo e ávante!—confundiu-se em estampido medonho com o brado de—Allah-hu-Acbar—o brado de guerra dos pelejadores sarracenos.

O chão pareceu affundir-se com o encontro daquellas duas mós enormes de homens armados, e o echo dos botes das lanças nos escudos convexos e nas armas sonoras dos cavalleiros repercutiu nas encostas fronteiras e desvaneceu-se ao longe, murmurando entre as quebradas. Desde o primeiro embate, não mais fora possivel distinguir os exercitos, travados como dous luctadores furiosos. Eram um vulto só, indelineavel, monstruoso, immenso, cujo topo ondeiava, semelhante ao de cannaveal movido pelo vento, cujos contornos indecisos se agitavam, torciam, alargavam, diminuiam, oscillavam, como tapete de nenuphars sobre marnel revolto pelo despenhar das torrentes. Nuvens de settas sibillavam nos ares: as espadas sarracenas cruzavam-se com as espadas godas: a cateia teutonica ía, zumbindo, abrir fundos regos nas fileiras arabes, e os membros ossudos dos peões lusitanos e cantabros estouravam debaixo das pancadas violentas dos mangoaes da peonagem mourisca. Muitos ginetes vagueiavam sem donos; muitos cavalleiros combatiam a pé. Desgraçado do que, ferido, cahia em terra; porque para elle não havia misericordia: o punhal acabava o que o frankisk ou a cimitarra começara. Dir-se-hia que os regatos de sangue, serpeiando por entre as duas hostes enredadas e salpicando as frontes e corpos, eram as veias descarnadas e rotas daquelle grande vulto, coleiando na derradeira agonia.

O cavalleiro negro, ao cessar a batalha do dia antecedente, desapparecera do campo, sem que ninguem soubesse dizer como ou onde se escondera. Só Theodemiro parecia não o ignorar; porque, ao falarem do desconhecido e das suas quasi incriveis façanhas, os tiuphados e quingentarios que em volta delle esperavam o romper da manhan e o recomeçar da peleja, o duque de Corduba buscara sempre mudar de conversação ou respondera, carregando-se-lhe o semblante de tristeza:—«É, porventura, algum desgraçado que procura o repouso da morte, e para o homem que resolveu morrer, que feito de valor será impossivel? Se elle não quer deixar na terra nem o echo vão de um nome glorioso, respeitae-lhe os desejos, porque profundo deve ser o abysmo da sua desventura!»

Ao som, porém, das trombetas que annunciavam o renovar do combate, o cavalleiro negro não tardara a apparecer onde mais accesa andava a briga. Via-se, comtudo, que era principalmente nas fileiras dos arabes, onde as púas agudas e cortadoras da sua temerosa borda ou maça d'armas faziam maiores estragos. Mas, quando algum dos godos transfugas ousava esperar-lhe os golpes ou tentava ferí-lo, ouvia-se-lhe um rugido como o de maldicção preso na garganta por colera immensa, e o seu miseravel contrario não tardava a golfar o sangue na terra da patria que trahira e a entregar aos demonios a alma tisnada pela infamia da perfidia. Os arabes supersticiosos quasi criam ver nelle Iblis, o rei infernal do Gehenna, armado da espada percuciente, solto por Deus para os punir das offensas commettidas contra o divino koran. Diante delle recuavam os mais esforçados mosselemanos, e só de longe os frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que se lhe empennavam no escudo ou, roçando por este, vinham bater-lhe na armadura, debaixo da qual manava já o sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a impetuosidade do espirito.

Como na vespera, o sol inclinava-se das alturas do céu para o occaso, e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que incutia o cavalleiro negro no logar onde pelejava não fazia pender um pouco a balança do lado dos godos. De repente, um grito agudo partiu do mais espesso revolver do combate; este grito gigante, indizivel, d'intima agonia, era o brado unisono de muitos homens; era o annuncio doloroso de um successo tremendo. O cavalleiro negro, que, impellido pela ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do Islam, volveu os olhos para o logar onde soara o bramido retumbante da multidão. Era no centro do exercito godo. As tiuphadias vergavam em semicirculos para a banda do Chryssus, como o açude minado pela torrente, a ponto de desprender-se das margens, oscilla e se curva, bojando sobre a veia inferior das aguas. A muralha de ferro que, posta entre o Islamismo e a Europa, dizia á religião do propheta d'Yatrib—não passarás d'aqui—vacilla, como a quadrella da cidade fortificada batida muitos dias por vaivem d'inimigos. Por fim, aquelles vastos massiços d'homens ligados pela cadeia fortissima da disciplina, do pudor militar e do esforço, derivam rotos ante os turbilhões dos arabes, ondeiam e derramam-se na campina. Pelo boqueirão enorme aberto no centro da hoste goda precipitam-se as ondas dos cavalleiros mohametanos, e, após elles, a turba dos bereberes, com um bramido barbaro. Debalde as alas tentam ajunctar-se, travar-se uma com outra, soldar os membros despedaçados do leão iberico. Passa por lá a impetuosa corrente dos netos d'Agar, que envolve e arrasta os que pretendem vadeia-la. Deus contara os dias do imperio de Lewighild, e o sol do ultimo delles era o que descia já para o occidente!

O cavalleiro negro vira a fuga das batalhas godas, advertido pelo clamor que a precedera. Voltando as rédeas do seu murzello, esporeiou-o para aquella parte. Levava lançado ás costas o escudo, onde os tiros dos archeiros africanos ciciavam, como a saraiva no inverno batendo nos troncos despidos do roble. Pendia-lhe da esquerda do arção a borda ensanguentada, da direita o frankisk. O ginete tresfolegava na furia da carreira, açoutando os ares com as crinas ondeiantes e atirando-se ao meio da especie de voragem aberta nas fileiras christans, a qual como que tragava uns após outros os esquadrões mosselemanos. Ao chegar á confluencia daquellas encontradas torrentes de homens armados, o guerreiro parou e, olhando em roda por um momento, ouviu-se-lhe um grande brado. Era a primeira vez que a sua voz soava no meio da batalha, e a unica palavra que lhe saíu da boca foi o nome de Theodemiro. Esse brado devia chegar longe, reboando como o trovão. Dir-se-hia que o cavalleiro estava habituado á conversação do bramido dos mares revoltos e do rugir das ventanias pelas fragas das serras; porque naquelle grito, conjuncto inexplicavel de colera e de dor, havia uma semelhança, uma harmonia com o gemido immenso da natureza quando lucta comsigo mesma no passar da tempestade.

Mas aos ouvidos de Theodemiro não podia chegar a voz do desconhecido. Arrastado pelos turbilhões de fugitivos, forcejando por obrigá-los a voltar o rosto contra os arabes, ora com palavras de amarga reprehensão, ora com o exemplo, o duque de Corduba combatia mui longe delle. Em vão o cavalleiro negro lhe repetia o nome: era inutil este chamar e, apenas, servia para attrahir os golpes dos agarenos victoriosos. As achas d'armas, as cimitarras, os dardos faziam centelhar a armadura e o escudo do desconhecido, que, tomado, ao que parecia, d'um pensamento doloroso, alongava os olhos por toda a parte em busca de Theodemiro. Com um gemido de desalento, o cavalleiro saíu, emfim, da especie de torpor que o tornava immovel ante o espectaculo de tanta desventura, e o seu despertar foi tremendo. Erguendo em alto a maça d'armas e vibrando-a furiosamente em volta de si, começou a partir espadas e a abolar armaduras. Em breve, ao redor delle, no meio dos mosselemanos vencedores, o terror invadia os animos, como na vespera, como nesse mesmo dia, se espalhara por toda a parte onde haviam reluzido as púas da sua ensanguentada borda ou o ferro do seu cortador frankisk.

Apenas, á força de golpes, o cavalleiro negro abriu no meio dos mosselemanos vencedores uma larga clareira, esporeiando o ginete, lançou-se para o lado em que os godos desordenados se retrahiam ante as espadas do Islam. No espaço intermedio entre os fugitivos e os arabes fluctuava sem recuar o pendão do duque de Corduba. Em volta desse pendão tremolavam as signas das tiuphadias da Betica, que, cercadas por todos os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos. No meio, porém, dos que abandonavam vilmente o campo de batalha nem uma unica bandeira se hasteiava; mas, pelo esplendido das armas, o guerreiro conheceu aquelles que não ousavam resgatar com a vida a deshonra da Hespanha. Eram os soldados escolhidos de Ruderico; era a brilhante cavallaria que elle proprio capitaneiava! A indignação trasbordou da alma do guerreiro:

«Rei dos godos, rei dos godos!—exclamou elle—és covarde! Embora vás esconder a tua ignominia nos muros de Toletum. Ainda neste campo de batalha restam homens valentes: ainda Theodemiro combate, não por teu throno deshonrado, mas pela terra de nossos paes. Foge tu com os que não sabem morrer pela patria; que nas margens do Chryssus ficam os que hão-de perecer com ella! Maldicto o godo e christão que foge para ser servo!»

E o cavalleiro apertou de novo as esporas ao possante murzello.

Não tardou, porém, que o furor se lhe convertesse em tristeza, e que as lagrymas, rebentando-lhe dos olhos, lhe apagassem a maldicção que haviam murmurado os labios. O seu valente cavallo galgava na carreira por cima de cadaveres e de moribundos, de christãos e de infiéis, e a terra, convertida em bréjo de sangue, apenas soava debaixo dos pés do ligeiro animal. Passando por meio dos esquadrões sarracenos, podia-se dizer que o desconhecido se assemelhava ao anjo do Senhor, quando desce por entre os mundos onde habitam os demonios, solitario e temido no imperio dos filhos das trevas que o odeiam. A fama das suas façanhas tinha-o cercado d'uma auréola de terror supersticioso, e, quando passava, os guerreiros do deserto apontavam para elle e em voz sumida diziam uns aos outros—«Ei-lo que vem! ei-lo, o cavalleiro negro!»

Mas, porque parou elle, soffreiando subitamente o ginete? Que ha ahi, nessa extensa seara ceifada de homens de guerra, que possa attrahir os olhos do mais incansavel dos segadores? No sitio em que parou estava, poucas horas antes, hasteiada a signa real: era o centro da hoste goda; mas dos que ahi pelejavam, uns lá vão ao longe precipitar-se no abysmo da ignominia; outros, os mais felizes, adormeceram do seu ultimo somno no regaço da patria. O guerreiro fitou os olhos no chão: a fouce da morte, passando por alli, cerceiara a derradeira esperança do imperio de Theoderik. O espectaculo que se lhe antolhava era a explicação do terror que se apossara de tantos homens valentes. Fugiam: Ruderico, porém, estava ahi! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não sería debaixo de seus pés que o throno da Hespanha se desfaria aos golpes do machado dos arabes. Um sceptro sem dono em Toletum e mais um cadaver juncto ás margens do Chryssus, eis o que restava do ultimo rei dos godos! Com a sua morte fenecera ao redor delle a esperança, e com a esperança dera em terra o esforço dos animos mais robustos. As alas ignoravam este triste acontecimento e por isso pelejavam ainda.

Mas pouco tardou a ser geral a róta; porque pouco tardou a espalhar-se aquella nova fatal. Um dia bastara para anniquilar o imperio que durante quatro seculos fora o mais poderoso e civilisado entre as nações germanicas estabelecidas nas diversas provincias romanas. A corrupção dos ultimos tempos concluira a sua obra, e o edificio da monarchia gothica, ainda rico de magestade exterior, mostrara, emfim, desconjunctando-se e desabando, o ferver dos vermes que interiormente o roíam. A cruz, derribada com elle, só devia tornar a hasteiar-se triumphante em todos os angulos da Hespanha depois do combater de oito seculos.

Uma parte do exercito godo ainda podera salvar-se atravessando o rio; mas as pontes lançadas na vespera tinham por fim estalado, derivando pela corrente, debaixo do peso dos fugitivos, e as aguas devoravam muitos que o ferro havia poupado. Theodemiro, que não perdera o animo no meio daquella desventura, alcançara fazer passar á margem opposta as reliquias dos soldados da Betica e os restos de muitas tiuphadias de outras provincias. Nos arraiaes, os arabes, senhores do campo, saudavam a victoria com o som dos instrumentos barbaros e com clamores de alegria que íam sussurrar ao longe pelos valles e campos, desertos dos seus moradores. Um homem só combatia ainda daquelle lado á beira do rio. Era o cavalleiro negro. Cercavam-no muitos sarracenos, mas de longe, porque os que ousavam approximar-se delle cahiam a seus pés moribundos. Ás vezes, como que tentava romper por entre os inimigos, mas era tentar o impossivel. No volver dos olhos inquietos para um e para outro lado, parecia buscar descubrir alguma cousa naquelle vasto campo, onde só descortinava os cadaveres dos vencidos e os vultos ferozes dos vencedores. Por fim, voltando o rosto para a margem opposta, viu fluctuar sobre uma eminencia o pendão de Theodemiro. Uma expressão fugitiva de contentamento lhe assomou então ao gesto. Despedindo das mãos a borda ensanguentada, que sibilou por meio dos arabes apinhados em volta, o guerreiro arrojou-se á torrente. Á luz do sol que se punha, viu-se-lhe umas poucas de vezes reluzir o elmo, alongando-se pela superficie das aguas e desapparecendo por largos espaços. As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade da corrente que o arrastava não permittiram prever-se qual sería a sua sorte. Eurico era a ultima e tenuissima esperança que bruxuleiava nos horisontes do imperio godo: como uma estrella cadente que se immerge nos mares, aquelle esforço brilhante se desvanecera na escuridão que tingia as aguas do Chryssus!