Eurico, o Presbítero

Alexandre Herculano · Capítulo 34 de 61

Páginas do PDF

Eurico, o Presbítero

XVIII Impossivel!



Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.

Lenda de S. Pedro Confessor—9.


Apenas Pelagio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com ancia, como se aquelle ambiente tepido não bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia n'um pensamento devorador, n'uma synthese atroz, o seu longo e doloroso passado e o seu torvo e irremediavel futuro. Como voltara áquelle logar? Como, sem lhe vergarem os joelhos, tinha elle descido das alturas do Vinnio com Hermengarda nos braços? Que tempo durara essa carreira deliciosa e ao mesmo tempo infernal? Não o sabía. Imagens confusas de tudo isso eram apenas o que lhe restava,—do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeiara, das penedias agras, dos recostos dos montes, das selvas que recuavam para trás delle, dos cabeços negros que, ás vezes, lhe parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiaes outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por horas, que haviam sido para elle uma eternidade de ventura, o respirar daquella que amava como insensato se misturara com o seu alento; por horas sentira o ardor das faces della aquecer as suas, e o coração bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espirito a imagem veneranda de Siseberto e o altar da sé d'Hispalis, juncto do qual vestira a pura stringe de sacerdote, e Carteia e o presbyterio e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se contradizia, se repellia, se condemnava, o amor pelo sacerdocio, o sacerdocio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquella alma, dilacerada no combate destes pensamentos, quasi cedia ao peso de tanta amargura.

Eurico deu alguns passos e encostou-se á boca da gruta; porque os membros exhaustos lhe fraqueiavam, apesar de que nem um momento o abandonasse a força da sua alma energica. A brisa frigidissima da madrugada consolava-o como ao febricitante a aragem de um sol-posto do outono. A seus pés estavam as trevas do valle, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeiado dos pontos rutilantes das estrellas e mal desbotado ao occidente pela ultima claridade da lua minguante que desapparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepusculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; desde que se votara ás solemnes tristezas da soledade e a derramar beneficios e consolações sobre a cabeça dos miseraveis e humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abysmos do firmamento: lá, ao menos, havia instantes em que se esquecia do seu destino. Mas, depois que o phrenesi das batalhas o arrastara; depois que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas do Estreito pelo gemer de moribundos nos combates e pelo retinir dos golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espirito. O seu presente e o seu porvir eram, como esse valle, um precipicio sem fundo, indelineavel, tenebroso e maldicto.

E pelo céu tão placido e melancholico; pelo céu, que elle ás vezes se punha a contemplar ás horas mortas no pobre presbyterio de Carteia ou assentado em algum promontorio, a sua imaginação voou até os desvios do sul, e as lagrymas de saudade começaram a rolar-lhe mansamente pelas faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já não podia ter desejos dos contentamentos humanos.

Engolfado naquellas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou-se por algum tempo immovel e com os olhos cravados nos astros scintillantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio immenso do Senhor. As lagrymas correram-lhe então mais abundantes, e o coração parecia dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhou e estendeu as mãos para o firmamento: os seus labios murmuravam com cicío quasi imperceptivel. Era a oração d'alma, férvida, procellosa, que os agitava: era essa oração que todos nós sabemos no momento de suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escriptura poderiam representar; oração que é um mysterio entre Deus e o homem e que nem os anjos comprehendem; gemido energico de todas as miserias terrenas, cuja intensidade só a providencia, que as accumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças da justiça e da piedade divinas.

A morte; esta idéa, tremenda, indifferente ou formosa, segundo a vida é risonha, pallida ou negra, veio suavisar o martyrio daquella alma attribulada, como em estio ardente as grossas aguas da trovoada refrigeram a terra, que estûa sob os raios aprumados do sol. Tinha-a buscado; buscado com a placidez horrivel da desesperança; como um remedio de cuja efficacia a consciencia da immortalidade o fazia duvidar. Sería não mais do que ir deitar-se em leito de dores eternas? Talvez: mas a mudança podia ser refrigerio: tanto bastava. A morte parecia, comtudo, fugir delle para que nem este ultimo desejo se lhe cumprisse. Houve um instante em que lhe occorreu o pensamento de subir ao pinaculo escarpado do Auseba e despenhar-se no valle. Refugiu d'esta idéa, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não devia fenecer impia e vilmente; devia depôr o peso intoleravel da vida no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Hespanha. E no recontro daquelle dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de obter.

Este anhelar pela morte era uma bem triste cubiça! E quando se lembrava de que essa mulher que ahi jazia a poucos passos delle; essa mulher, em cuja adoração concentrara todos os affectos dos mais formosos dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo diante dos olhos da sua alma, gravada como um sello de saudade e de amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia, por horas de delicioso delirio, apertara contra o peito, e o podera, outr'ora, tornar o mais feliz dos homens; quando se lembrava de que sobre isso tudo elle deixara cahir a campa de bronze do sacerdocio, que ninguem podia erguer, o desgraçado sentia estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao que rebenta dos labios do condemnado ao supplicio do potro, no primeiro movimento da mão pesada do algoz.

E, como se quizesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquelle inquieto dormir. Era bella; mais bella que nos tempos da primeira mocidade! O seu gesto angelico, desbotado pela pallidez, emmagrecido pelos pesares e terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos o que perdera em viço e em toques d'innocencia. Bonina desabrochada nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vecejar á luz da manhan; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas a sua fragrancia perdia-se nas auras que passavam; nas suas côres harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquella alma fugia solitaria pela terra n'um viver incompleto e volveria aos abysmos da creação sem conhecer o mais profundo e energico dos affectos humanos, o amor, que une dous espiritos como dous fragmentos de um todo, os quaes a providencia separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se, unir-se, completar-se, até irem, depois da morte, formar, talvez, uma só existencia de anjo no seio de Deus.

Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era um sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitaria como elle julgava, e que esse coração que poucas horas antes pulsára tão perto do seu batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A tocha baça e funebre que mal alumiava a irman de Pelagio pareceu-lhe retincta em sangue; e, como o cedro arrancado por tufão repentino, foi encostar-se á rocha lateral, cuja superficie irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-la despertara todo o delirio do seu primeiro amor, e aquella idéa intoleravel, que tantas vezes o atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado furor.

E assim ficou por alguns momentos mudo, anhelante, anniquilado. Quem era, onde estava, porque viera alli, não o saberia dizer: os pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas n'um sorvedouro maritimo, tempestuosos, rapidos e indistinctos.

De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquella especie de torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Approximou-se manso e manso, de modo que ella o não visse. Assentada sobre o leito, demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irman de Pelagio estendia os braços, voltando o rosto para o lado, como quem tentava affastar visão medonha. Pelas suas palavras incoherentes e truncadas, o guerreiro conheceu que um sonho máu a agitava, até que, inteiramente desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em periodos intelligiveis. O pulsar do coração d'Eurico redobrava de violencia, ao passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptivel.

«Sempre elle! sempre esta visão de remorso!—murmurou Hermengarda.—Meu pae, meu pae! Perdoe-te o céu o orgulho com que repelliste o gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés desse orgulho o sentimento de amor que se alevantara neste coração. Nós ambos assassinámos o desgraçado; mas a punição cahiu inteira sobre mim! Embora. Eu não te amaldicçoarei, oh meu pae! A tua filha nunca te accusará ante o supremo juiz.»

Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dançar e agitar-se á luz da tocha que ardia a curta distancia, e que a aragem movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cortando fugitivo o grande silencio nocturno.

«Vai-te, vai-te!—proseguiu ella.—Que posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e atroz tem sido o meu martyrio, porque ainda não achei no mundo alma com quem me fosse dado repartir o calis do infortunio; a quem houvesse de contar os tormentos que ha tanto tempo me varreram dos labios o sorrir. Se vivesses, sería tua; tua esposa, tua escrava!... mas a benção nupcial não póde descer entre o tumulo e a vida. Favila!... meu pae!... diante do throno do Senhor, onde são iguaes o duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repelliu o seu amor por obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei!»

E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade; mas aquella especie de terror febril que lhe haviam gerado no espirito os trances, qual mais doloroso, por que successivamente passara, se tornou a apossar della. Favoreciam-no o logar, a hora, o silencio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.

«Era Eurico!—murmurou ella.—Depois de dez annos, bem conheci a sua voz! Mais triste, só: triste, como tantas vezes a tenho ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pallido e carregado, só: pallido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulchro para vir mudamente accusar-me, silencioso e quedo ante mim, por longas e não dormidas noites. Era elle!... um espectro cujo coração eu sentia bater, cujos braços me apertaram por cima do abysmo revolto, através da floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos cahiu sobre o meu seio uma lagryma! As lagrymas dos mortos queimam... devoram a vida; porque bem sinto a morte chamar-me...»

Tinha-se posto de joelhos e, com as mãos estendidas, parecia implorar piedade.

«Morrer! tão cedo! Quando apenas tórno a vêr meu irmão?!... Pelagio! Pelagio! porque me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda. Eurico a espera para o noivado do sepulchro, e eu não posso tardar.»

E desvairada, poz-se em pé, chamando por Pelagio com voz suffocada. Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou um gemido agudo e ficou immovel. Diante della, realidade ou phantasma, estava a origem dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ella cria morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez atormentá-la. O vulto cravara nella um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava nos labios. Estendeu o braço, segurando a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquella mão, que segurava a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do gardingo tinha-se concentrado toda no coração, que lhe despedaçavam duas idéas, horriveis porque associadas: o amor correspondido e tornado ao mesmo tempo maldicto, monstruoso, impossivel por uma palavra fatal, que lá estava escripta em caracteres de fogo, e que elle via, escutava, sentia—o sacerdocio!

«Oh, Deus t'o pague!—disse Eurico em voz baixa e lenta—que lançaste na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz sancta e pura de contentamento e felicidade!... Ha dez annos que não me alumia, e ella é tão bella, ainda quando passa como o relampago!»—E, depois de estar calado alguns instantes, com um gesto de íntimo e angustiado cogitar, proseguiu:—Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida. Durante annos dei-a a devorar á desesperação, e a desesperação não pôde consummi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas, nas rochas escarpadas do mar do occidente, á beira dos precipicios, e o mar e os precipicios não quizeram tragá-la. Atirei-a á torrente impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se n'ella. O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de ineffavel doçura que nunca esperei escutar. É que na minha fronte está gravada a maldicção de cima: é que ainda me faltava o derradeiro martyrio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigerio. Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da deshonra, e todo o meu passado esqueci-o. Só uma cousa não, porque me subverteu para sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo desta alma, tranquilla na desesperança. Agora, se ha repouso debaixo da campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me, ainda outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquillo que proferiste diante da sombra creada pelo teu terror. Essas palavras e o morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a unica ventura possivel, mas que não tem igual na terra.

E Hermengarda sentia ao contacto daquella mão fria e trémula apertando a sua, no accento dessas phrases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu procelloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A especie de pesadelo em que se debatia desapparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora elle o objecto do seu quasi infantil e unico amor, amor condemnado ao silencio antes do primeiro suspiro, antes do primeiro volver d'olhos; era elle o cavalleiro negro, cujo nome se tornara conhecido e glorioso por todos os angulos da Hespanha; era elle, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salva-la. Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquella mysteriosa tristeza que escurecia as idéas desordenadas vindas de tropel aos labios do guerreiro. Procurando asserenar a violencia dos affectos que a agitavam, Hermengarda respondeu com voz fraca e tremula:

«Bemdicta a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre os mais nobres e leaes filhos dos godos! Graças á piedade do céu, que por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam ao filho do duque de Cantabria! No devaneiar do terror revelei-te, sem querer, o segredo do meu coração: a sua historia, ouviste-a. Perdoa á memoria de meu pae, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz. O orgulho que a ambos nos fez desgraçados não o herdou Pelagio. Que o herdasse, mal caberia n'estas brenhas, na caverna dos fugitivos. E depois, que nome ha hoje na Hespanha mais illustre que o do cavalleiro negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não? Salvaste Hermengarda do opprobrio: se nunca te houvera amado, ella te diria como te diz hoje: Sou tua, Eurico!»

A filha de Favila, cujo profundo e energico sentir mal poderia comprehender quem só a houvera visto no momento em que timida recuava diante do perigo mais apparente que real das margens do Sallia, proferiu estas palavras com um tom de enthusiasmo, com uma expressão affectuosa tão íntima, que o guerreiro cahiu a seus pés. A ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens: era mais que a loucura. Com um movimento delirante, apertou contra os labios a mão da donzella. Queimavam! Depois de largo silencio, elle murmurou emfim:

«Minha!... Quem ha na terra que possa roubar-m'a?... Annos de tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que absorveste esta existencia inteira; anjo que me fazes surgir do meu inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora ser bello, serena a aragem da tarde, meigo o murmurar do ribeiro, viçosa a verdura do prado!... Tinha-me tambem esquecido! Tens razão, Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso; delicioso, porque será comtigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem jurar que me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...»

A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte, rompeu agudo e rapido do seio do cavalleiro. A mão d'Eurico abandonou a mão d'Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal. Recuou, affastando de si a irman de Pelagio, sobresaltada por aquelle gesto subitamente demudado, por aquelle olhar ardente e vago. Ella não podia comprehender a causa de semelhante mudança... Com o braço esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si, emquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.

«Affasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu!—murmurou emfim.—Ha entre nós um abysmo: tu o abriste; eu precipitei-me nelle. Um crime, só um crime, póde unir-nos...» Fez uma pausa, e proseguiu:—E porque não se commetterá elle? Talvez obtivessemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus, não o terias para o sacrilego... não!—Affasta-te, Hermengarda. Diante de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!»

A donzella uniu as mãos lavada em lagrymas, e exclamou:

«Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este horroroso mysterio! Porque me repelles? que te fiz eu... eu que te amo, que sou tua, tua para sempre?!»

Mas os olhos scintillantes do cavalleiro tinham amortecido: derribado na lucta que travara com o destino, o seu combater de tantos annos terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as contracções habituaes de melancholia. Affigurava-se-lhe que em roda delle balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ardia segura no braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído, vacillante, assentou-se n'um fragmento da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na della e, com um sorriso indizivel, continuou em voz submissa:

«Dez annos!... Sabes tu, Hermengarda, o que é o passar dez annos amarrado ao proprio cadaver? Sabes tu o que são mil e mil noites consummidas a espreitar em horisonte illimitado a estrella polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrella reluzir um instante e, depois, desfechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco milliario onde o peregrino dê treguas aos pés rasgados e sanguentos, a borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É a minha triste historia! Estrella momentanea que me illuminaste, cahiste no abysmo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!»

Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia ella? Eurico proseguiu:

«Olha tu! Ao pôr do sol, no estio, ía eu assentar-me sobre um cerro maritimo, alongando a vista pelo oceano tranquillo, e parecia-me divisar-te desenhada na atmosphera a sorrir-me. Então, as lagrymas de felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lembrava-me de quem eu era, e essas lagrymas condensavam-se a meio das faces e queimavam como se fossem de metal candente. A horas mortas, correndo pelos desvios, quando o vento açoutava os arbustos enfezados da montanha, cada sombra que se meneiava ao luar, sobre o chão pardacento, era a tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranquillo podia, a sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me alumiava, e o hymno do Presbytero de Carteia, que devia, talvez, escrever-se nos hymnarios das cathedraes da Hespanha, ficava incompleto ou terminava por uma blasphemia; porque, tambem, te via sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua e, até, na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»

«Mas deliras!...—interrompeu Hermengarda.—Que tens tu com o Presbytero de Carteia; com esse illustre sacerdote, cujos hymnos sacros reboavam ainda ha pouco pelos templos da Hespanha, e a quem, de certo, o ferro impio dos arabes não respeitou? A tua gloria é outra e mais bella; a gloria de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era sancta e pacifica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu. Ninguem existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!»

O cavalleiro sorriu de novo dolorosamente, e disse-lhe:

«Que tenho eu com o Presbytero de Carteia?!... Hermengarda, lembras-te do seu nome?»

Os labios da donzella fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrivel lhe passara pelo espirito. Com voz affogada e quasi imperceptivel replicou:

«Era.... era o teu, Eurico!... Mas que póde haver commum entre o guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?.... que...»

O cavalleiro pôs-se em pé e, deixando descahir os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:

«Ha commum, que o guerreiro e o presbytero são um desgraçado só!... Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrilego. O pastor de Carteia...»

«Oh não acabes!—interrompeu Hermengarda, com indizivel afflicção.

«Era Eurico, o gardingo!»

Proferindo estas palavras, que explicavam o mysterio da sua existencia, o cavalleiro negro viu cahir como fulminada a filha de Favila. E elle não se moveu. A sua imaginação tresvariada affigurou-lhe perto de si o vulto suave e triste do veneravel Siseberto, que estendia a mão mirrada entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia salvar, e do sepulchro, a quem pertenciam.

Neste momento uma grande multidão de creanças, de velhos, de mulheres penetraram na caverna com gritos e chóros de terror. No coração das Asturias, entre alcantis intractaveis, no fundo de um vasto deserto, repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devastada Hespanha: «Os arabes!»

Amanhecera.

Aquelle sobresalto, tão impensado, revocou o cavalleiro ao sentimento da sua situação. Ajoelhou juncto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão já fria, beijou-lh'a. Nas raias da vida, aquelle beijo, primeiro e ultimo, era purificado pelo halito da morte que se approximava: era innocente e sancto, como o de dous cherubins ao dizer-lhes o Creador: «existí!»

Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou mão do frankisk e, rompendo por entre o tropel, que fizera silencio ao vê-lo, desappareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.