Extensão universitária na UFFS

Émerson Neves da Silva · Capítulo 8 de 9

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Extensão universitária na UFFS

Análise empírica da extensão na UFFS: críticas a partir de experiências com curso e evento

Análise empírica da extensão

 

na UFFS: críticas a partir de

 

experiências com curso e

 

evento

 

Humberto José da Rocha 1 2 , James Luiz Berto

 

Introdução

 

A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) tem na sua simbologia uma chama composta de três fagulhas que representam o ensino, a pesquisa e a extensão. Partindo de uma demanda da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), este capítulo apresenta algumas impressões, sobretudo sobre as práticas de extensão recorrentes na Universidade e sua relação com a temática do desenvolvimento territorial. Em perspectiva mais específica, a discussão se baseia nos regulamentos da extensão da UFFS e tem como objetos três práticas desenvolvidas a partir do ano de 2014: curso de extensão (2013-2015), curso de extensão (2015-2016) e evento (2016).

O capítulo está estruturado, além desta breve introdução, com mais três seções. A primeira seção trata de uma breve contextualização da extensão na UFFS na perspectiva da regulamentação das ações. A segunda apresenta os três projetos que servem como objeto de análise e discussão. E a terceira seção tem por objetivo destacar algumas virtudes e limites percebidos na prática extensionista nos três casos abordados. Contextualização da extensão na

 

UFFS

 

A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) concebe sua política de extensão segundo

 

um processo educativo, cultural e científico que, articulado ao Ensino e à

Pesquisa de forma indissociável, promova uma relação transformadora entre

a Universidade e a Sociedade, fomentando o diálogo de saberes, a

democratização do conhecimento acadêmico, a interdisciplinaridade e a

participação da comunidade na construção da Universidade, bem como a

participação da Universidade no desenvolvimento regional. (Art. 1, II da

Política de Extensão da UFFS).

 

O mesmo documento (Art. 3) orienta a extensão a partir de princípios dentre os quais se destacam: a “autonomia intelectual”, no sentido de “embasar suas decisões e práticas na reflexão crítica da realidade histórica”; a “cooperação”, implicando o “agir solidário, tanto na produção, quanto na apropriação e distribuição dos resultados nas distintas atividades humanas”; a “indissociabilidade entre o Ensino, a Pesquisa e a Extensão”, buscando a “articulação dialética entre a teoria e a prática” bem como contrapondo-se “à operacionalização e à massificação da Universidade que resulta na degradação do Ensino, na mercantilização da Pesquisa e na funcionalização da Extensão”; e o “caráter público”, segundo o qual a atuação vai ao encontro do “benefício da maioria da população, principalmente daqueles que foram historicamente mantidos à margem dos benefícios resultantes do saber”, tendo como preocupação “o mais amplo acesso possível a eles”.

As áreas do conhecimento nas quais a UFFS se propõe a atuar são aquelas elencadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq). No caso dos projetos em análise, destacamos as áreas das Ciências Sociais Aplicadas e Ciências Humanas (Art. 6 da Política de Extensão da UFFS). Já no que se refere às áreas temáticas das atividades de extensão, dentre as possíveis na UFFS, os projetos aqui discutidos se situam nas áreas dos Direitos Humanos e Justiça, Meio Ambiente e Trabalho (Art. 7 da Política de Extensão da UFFS).

Quanto às linhas de extensão, dentre as relacionadas no Artigo 8 do mesmo documento, os projetos seguem as linhas do “Desenvolvimento regional”, “Desenvolvimento rural e questão agrária”, “Desenvolvimento urbano”, “Direitos individuais e coletivos”, “Organizações da sociedade civil e movimentos sociais e populares”, “Questões ambientais” e “Recursos hídricos”.

As atividades de extensão estão caracterizadas, segundo o Art. 10 da Política de Extensão da UFFS, em cinco modalidades: programa, projeto, curso, evento e prestação de serviço. O mesmo artigo caracteriza cada modalidade da seguinte forma:

 

I - Programa: Conjunto articulado de Projetos e outras Ações de Extensão

(Cursos, Eventos, Prestação de Serviços), preferencialmente integrando as

ações de Extensão, Pesquisa e Ensino. Tem caráter orgânico-institucional,

clareza de diretrizes e orientação para um objetivo comum, sendo executado

a médio e longo prazo.

II - Projeto: Ação processual e contínua de caráter educativo, social e

cultural, científico ou tecnológico, com objetivo específico e prazo

determinado. O Projeto pode ser:

 

a. Vinculado a um Programa de Extensão (Projeto faz parte de uma

nucleação de ações);

b. Não-vinculado a um Programa de Extensão (Projeto isolado).

 

III – Curso: Ação pedagógica, de caráter teórico e/ou prático, presencial ou a

distância, planejada e organizada de modo sistemático, com carga horária

mínima de 8 horas e critérios de avaliação definidos, (FORPROEX,

2001/2002). […]

IV - Evento: Ação que implica a apresentação e/ou exibição pública, livre ou

com clientela específica, do conhecimento ou produto cultural, artístico,

esportivo, científico e tecnológico desenvolvido, mantido ou reconhecido pela

Universidade, (FORPROEX 2001/2002). […]

V - Prestação de Serviço: É o trabalho oferecido pela Instituição de

Educação Superior ou contratado por terceiros (comunidade, empresa, órgão

público, etc.), visando contribuir, prioritariamente, na formação acadêmica e

profissional e na qualificação do corpo docente da Universidade. De acordo

com o Plano Nacional de Extensão (p. 7, 2000/2001) “a prestação de

serviços deve ser produto de interesse acadêmico, científico, filosófico,

tecnológico e artístico do ensino, pesquisa e extensão, devendo ser

encarada como um trabalho social, ou seja, ação deliberada que se constitui

a partir da realidade e sobre a realidade objetiva, produzindo conhecimentos

que visem à transformação social”.

 

Ainda de acordo com o mesmo documento, em seu Artigo 11, as ações de extensão serão elaboradas mediante dois pontos de partida:

 

I - Proposição Interna: proposição institucional da Universidade; proposta de

docentes, acadêmicos e técnicos da UFFS sendo que a coordenação do

projeto deverá estar a cargo ou responsabilidade de um professor\docente e

que preferencialmente, estejam mencionadas\previstas nos PPP dos cursos

de graduação.

II - Proposição Externa: proposta de ação de uma entidade não-

governamental; demanda concreta da comunidade ou de representantes da

comunidade; demanda de órgãos governamentais para contribuir com o

desenvolvimento das políticas públicas.

 

Na mesma linha, é digno de registro o parágrafo único do Artigo 10, que prevê: “os programas e projetos de Extensão da UFFS serão desenvolvidos a partir de aprovação em editais internos e externos, projetos de demanda espontânea e por meio de convênios e contratos”.

De modo complementar, da Resolução nº 1/2014 da Câmara de Extensão do Conselho Universitário, que aprova o Regulamento da Extensão da Universidade Federal da Fronteira Sul, extraímos aspectos importantes para a nossa discussão no que diz respeito aos papéis dos extensionista da Universidade. De início, o Artigo 4 esclarece que a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), apoiada pela Direção e pelo Comitê Assessor da Pró-Reitoria, tem a responsabilidade de “formulação, implementação, coordenação, supervisão e avaliação das políticas de Extensão e de cultura” da UFFS. O Art. 5º especifica as atribuições da PROEC, dentre as quais destacamos as ações de “institucionalizar os programas, políticas e processos permanentes de Extensão e cultura”; “avaliar frequentemente a política institucional da Extensão e cultura” e “lançar editais internos para programas e projetos de Extensão e cultura e coordenar o processo seletivo dos mesmos”.

A PROEC reúne as atividades de extensão que, segundo o Art. 15 da resolução, “podem ser propostas por meio de editais internos ou externos ou por demanda espontânea e seguem as áreas temáticas, linhas de Extensão, caracterização e modalidades das atividades previstas na Política de Extensão da UFFS”, segundo as quais os projetos em questão estão enquadrados conforme apresentamos anteriormente. O Art. 16 prevê que essas ações “podem originar-se da proposta de docentes, acadêmicos e técnicos da UFFS, bem como de demandas de órgãos governamentais, de entidades não governamentais, da comunidade ou de seus representantes”, sendo que essas ações, “preferencialmente, devem estar articuladas com os cursos de graduação e envolver, preferencialmente, alunos dos cursos aos quais os projetos estão vinculados”, conforme o que prevê o Artigo 17 da mesma Resolução.

A proposição dessas ações estão previstas no Artigo 31 da Resolução mediante três modalidades: 1) Programa de Iniciação em atividades de Extensão da UFFS; 2) Projetos de demanda espontânea, mediante projetos, cursos, eventos, prestação de serviços encaminhados por “servidores docentes, servidores técnico-administrativos e alunos voluntários, quando for o caso” em fluxo contínuo mas sem contar com apoio financeiro e bolsistas por parte da PROEC; 3) Projetos de demanda induzida, que são submetidos mediante edital interno, podendo contar com apoio financeiro e bolsistas.

Esses projetos tendem a ser encaminhados por docentes, técnicos e alunos que, em consequência, assumem a coordenação na execução dessas ações. Executada a ação de extensão, ela pode ser certificada pela PROEC nos termos do que prevê o Artigo 54, mediante “formulário de solicitação de emissão de certificados e atestados deverá ser anexado ao relatório de atividades encaminhado pelo coordenador da atividade de Extensão”. Complementarmente, o Artigo 58 prevê que:

 

Os certificados serão expedidos em até 45 (quarenta e cinco) dias após a

aprovação do relatório de atividades de extensão e do formulário de

solicitação de certificação, no caso de atividades da demanda espontânea; e

em até 3 (três) meses, no caso dos projetos aprovados por edital, após a

aprovação do relatório das atividades pelo Comitê de Extensão e Cultura.

 

Essas pontuações normativas, embora fatigantes, servem para contextualizar as práticas e para embasar nossa discussão nas seções subsequentes. De maneira geral, é preciso ter em vista que a extensão está incluída no cenário universitário, que, por sua vez, não difere da maioria dos outros campos sociais no que diz respeito ao contingenciamento, ou seja, os cortes de recursos.

Quando a UFFS foi criada em 2009, o cenário político e econômico brasileiro se apresentava favorável. Isso significa condições melhores de trabalho e consequentemente um fluxo maior de recursos e projetos extensionistas. Na medida em que o tempo foi passando, a conjuntura se alterou ao ponto de dificultar as ações em curso e restringir a proposição de novos projetos. Nesse processo, a UFFS tende a mudar de uma condição de universidade nova, com um tratamento diferenciado no que diz respeito aos recursos, passando a concorrer a esses recursos com outras universidades do país, inclusive com longa trajetória. A UFFS contou com uma Reitoria pro tempore que foi submetida ao processo de consulta (eleições) e acabou ratificando sua permanência. Esse dado é importante para assinalar o fato de que parte substancial dos recursos destinados à extensão universitária da UFFS tem relação com demandas e articulações desta Reitoria, através de iniciativas e parcerias com a comunidade regional, que foram viabilizadas através de projetos de extensão.

A extensão é parte importante da UFFS, e as ações da Reitoria precisam ser compreendidas de forma a abranger a PROEC em suas instâncias, assim como os docentes, técnicos, discentes, voluntários e a comunidade regional, observando também o processo social em que a Universidade está inserida. Dessa forma, propõe-se a análise desta relação processual a partir de três projetos dos quais apresentamos nossas críticas, obviamente, no sentido agregador do termo.

 

Os projetos em questão

Resgatado o arcabouço normativo e tecidos os comentários contextuais sobre a extensão na UFFS, a apresentação dos projetos conferem o suporte empírico da discussão. Trata-se de três ações desenvolvidas desde 2014: o Curso de Formação de Jovens em Agricultura Sustentável, Gestão e Inovação Tecnológica, o Seminário Regional de Educação do Campo e o IV Encontro Internacional Ciências Sociais e Barragens.

 

Curso de Formação de Jovens em Agricultura

 

Sustentável, Gestão e Inovação Tecnológica

 

A concepção deste projeto remonta praticamente ao início da UFFS. O projeto surge, inicialmente, como uma demanda externa a partir de discussões de um “acampamento da Juventude” da referida entidade. Idealizado por docentes, técnicos e comunidade regional, a ação teve seu projeto-base submetido em 2012 e propunha uma parceria entre a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil (FETRAF-SUL) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

O projeto foi elaborado para ser desenvolvido em três turmas (denominadas de turmas estaduais) de 40 jovens agricultores familiares. Esses jovens se constituiriam em multiplicadores, devendo, para tanto, organizar, com apoio dos sindicatos, turmas de 40 jovens em suas bases sindicais, permitindo, assim, que o projeto envolvesse até 4800 jovens. As atividades formativas dos monitores foram desenvolvidas nos campi Erechim, Realeza e Chapecó, abrangendo os municípios dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. A metodologia desenvolvida foi em regime de alternância totalizando uma carga horária de 584 horas, sendo 296 horas de “Tempo Escola” (módulos, intercâmbio e estágios) e 288 horas de “Tempo Comunidade” (organização e realização das atividades da turma nos municípios de origem, pesquisa e preparação para as aulas e desenvolvimento do projeto final nas propriedades).

Após reformulações de forma e conteúdo, o projeto foi desenvolvido entre 2013 e 2015, através de doze módulos, com as três turmas estaduais que multiplicariam as informações nos municípios das respectivas regiões. O projeto resultou num desembolso de R$ 1.681.701,34 e contou com a gestão financeira da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (FAPEU). A mobilização dos jovens das turmas estaduais, a articulação com os sindicatos e o acompanhamento do desenvolvimento das turmas locais eram atividades de responsabilidade da FETRAF, sendo que no projeto havia recursos financeiros para pessoal e deslocamentos. À UFFS caberia a execução dos módulos das turmas estaduais e a orientação ao acompanhamento pedagógico das turmas locais realizado pela FETRAF.

O pioneirismo e a notoriedade do projeto em nível nacional foram assinalados pelos extensionista de diferentes partes do país quando de reuniões no MDA. A par e passo, o projeto também revelou problemas inerentes a ações de tal envergadura, mas que ficaram mais explícitos em função do referido pioneirismo.

A rotatividade de coordenadores foi um problema importante no curso, o que pode estar relacionado com sua concepção. Não obstante, ocorreram problemas pessoais ou mesmo institucionais, que são normais em projetos dessa envergadura. A criatividade dos envolvidos e os esforços da Reitoria para captação de recursos acabam sendo prejudicados por essa rotatividade. Apesar disso, a demanda externa, a abertura de edital, mesmo que não obrigatória, parece ser o mais conveniente para a extensão no sentido de abrir frentes distintas que possam favorecer a pluralidade e aumentar o alcance das ações ao mesmo tempo em que evita que um projeto de tal envergadura fique sob a responsabilidade de um único coordenador.

Ainda na perspectiva de pessoal, mas agora no sentido institucional, a falta de uma estrutura específica para apoiar os projetos extensionistas, tanto no que diz respeito a técnicos como de estrutura física, foi outro fator desafiador para sua execução. A inexistência, na época, de grupos de extensão (multicampi) consolidados na UFFS foi mais um fator limitante para a condução do projeto, principalmente devido à sua abrangência espacial, quantidade de ações e diversidade de temas tratados. Outro aspecto digno de pontuação se refere à forma como os recursos foram distribuídos. A comparação de rubricas destinadas ao pessoal interno e externo sugere uma disparidade de responsabilidade e remuneração. Assessores com nível de graduação e pós-graduação receberam bolsas e ajudas de custos substanciais ao passo que professores responsáveis pelos módulos e mesmo pela coordenação do projeto não contaram com nenhuma bolsa. Quanto aos alunos da UFFS, o número de bolsistas ficou muito aquém da necessidade de tamanho do projeto.

A ação da Reitoria também foi preponderante no projeto. A já referida capacidade de articulação interinstitucional e o apoio aos extensionistas são elementos marcantes. Por outro lado, em alguns momentos, percebe-se a sobreposição e, por que não, a confusão de papéis entre a Reitoria e a PROEC no sentido dos encaminhamentos, sobretudo com a comunidade regional.

Problemas e virtudes foram alternâncias que assumimos na coordenação do projeto, sejam anteriores, sejam resultantes de ações que passamos a desenvolver. Concluído esse projeto em novembro de 2015, já encaminhávamos uma segunda ação, dando continuidade à prática extensionista na Universidade.

 

Seminário Regional de Educação do

 

Campo

 

Em 2015 foi institucionalizado, na UFFS e no CNPq, o Grupo de Pesquisa “Movimentos Sociais na Fronteira Sul”. Dentre as primeiras inciativas planejadas no Grupo, estava a promoção de um curso envolvendo os movimentos sociais. Coincidentemente, um curso de extensão já existente na Universidade foi colocado como possibilidade de trabalho em parceria ao Grupo de Pesquisa. A proposta foi acolhida e se ofertou um “Projeto de Extensão por Demanda Espontânea” intitulado “Seminário Regional de Educação do Campo”.

A partir da proposta do Grupo de Pesquisa, da demanda dos movimentos sociais e da iniciativa de outros professores da UFFS, o curso foi ampliado e reconfigurado de forma a ocorrer paralelamente a um curso de especialização. Assim, o Seminário acontece paralelamente ao “Curso de Especialização em Educação do Campo com ênfase em Estudos da Realidade Brasileira”, uma pós-graduação lato sensu.

Iniciado em novembro de 2015, os cursos disponibilizam cem vagas para educadores que atuam nos espaços educativo-formativos dos movimentos sociais e sindicais populares do campo e da cidade. As turmas são compostas de cinquenta alunos de especialização e cinquenta de extensão. As aulas acontecem às sextas-feiras, aos sábados e domingos, compreendendo nove módulos com periodicidade mensal, com previsão de conclusão para agosto de 2017. A proposta original do curso era de executar cada módulo em dois encontros: um contando com professor externo e outro contando com professores da UFFS. O projeto previa um desembolso de R$ 53.963,00 com despesas, além de recursos externos que seriam captados; todavia, o contingenciamento dos recursos atingiu também nossos cursos.

Ante o corte severo de recursos, a UFFS pôs em prova seu comprometimento com os movimentos sociais. A Direção do Campus Chapecó organizou-se de forma a viabilizar, além do espaço para as aulas, alojamento e alimentação para os participantes nos respectivos módulos. Essa inciativa implicou em adequação de pessoal (técnicos administrativos, restaurante, vigilância) e de estrutura. O pernoite dos participantes no campus, banho e alimentação exigiram adequação de estruturas (banheiros, por exemplo) e a abertura do restaurante universitário (terceirizado) em horário além do habitual. Essa iniciativa da Universidade, especialmente da direção do Campus Chapecó, aliada ao esforço de iniciativas dos movimentos sociais participantes, acabou por garantir a execução dos cursos num cenário adverso econômica e politicamente.

Retomando o que foi exposto na primeira seção, essa ação promoveu efetivamente a relação entre a extensão, o ensino e a pesquisa. Acontece que o desdobramento do curso, que inicialmente era de extensão, em um curso paralelo de pós-graduação lato sensu, aproximou significativamente a extensão do ensino. Todavia, um problema ficou evidenciado: a assimilação do fluxo burocrático da Universidade no que diz respeito à Pós-Graduação (prazos de entregas de trabalhos, frequência), problemas esses que parecem ser equacionados na medida em que o curso se desenvolve. Quanto à pesquisa, ao propor o curso de pós-graduação e extensão tendo os movimentos sociais como público-alvo principal, o Grupo de Pesquisa “Movimentos Sociais na Fronteira Sul” passou a contar com um novo espaço de interação com esses grupos, tanto que, recentemente, outro projeto na mesma linha foi aprovado pela FAPESC. Esses pontos, no conjunto do projeto, corroboram o compromisso e aproximam de forma efetiva a Universidade dos movimentos sociais na Fronteira Sul, desdobrando-se em outras ações, como os eventos.

 

IV Encontro Internacional Ciências Sociais e

 

Barragens

 

Ainda em junho de 2014, uma atividade de extensão de demanda espontânea propunha um evento intitulado “I Seminário sobre hidrelétricas da bacia do rio Uruguai: impactos sociais, econômicos e ambientais”. O evento aconteceu em dois dias e contou com a participação de professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa iniciativa foi concebida a partir da pesquisa e extensão mantida por docentes da UFFS que acabaram se aproximando no Grupo de Pesquisa “Movimentos Sociais na Fronteira Sul”. Ao final do evento, em 2014, a UFRJ desafiou a UFFS a promover uma edição de um encontro internacional sobre a temática das barragens e os movimentos sociais a ser realizado em Chapecó no mês de novembro de 2015.

O evento corresponde à quarta edição de debates sobre o tema, anteriormente sediada no Rio de Janeiro, Salvador e Belém. Na etapa de Chapecó, o evento manteria os moldes das etapas anteriores e implicaria o desembolso de R$ 147.760,88. O mesmo problema do contingenciamento que refletiu na greve dos servidores acabou transferindo o evento para o ano seguinte. Então, o evento aconteceu no Campus Chapecó entre os dias 20 e 23 de setembro de 2016.

A transferência da data implicou desarticulação de iniciativas que já estavam adiantadas, além de impossibilitar recursos que já haviam sido liberados por agências de fomento. Dessa forma, novos projetos precisaram ser encaminhados, e os recursos, sob a nova conjuntura, acabaram sendo reduzidos drasticamente. Novamente, a disposição da Universidade foi decisiva para a manutenção da proposta. As agências de fomento restringiram o apoio de forma que passamos a contar com 20% dos recursos. Iniciativas como a produção de material de divulgação, a contratação de Fundação para gerenciar recursos e, principalmente, complementação de valores das inscrições, foram esforços empreendidos pela Reitoria sem os quais o evento ficaria inviabilizado. Disto, merece destaque a presteza da PROEC e de setores da Reitoria envolvidos na ação de forma que extrapola a mera obrigação desses setores, aspecto que precisa ser ressaltado pela disposição individual de técnicos e docentes.

 

Considerações acerca das práticas

 

extensionistas e do desenvolvimento

 

territorial

 

As três ações – Curso de Formação de Jovens em Agricultura Sustentável, Gestão e Inovação Tecnológica, Seminário Regional de Educação do Campo e IV Encontro Internacional Ciências Sociais e Barragens – aproximam a Universidade da comunidade regional, especialmente no que se refere aos movimentos sociais. O projeto com a juventude rural demonstrou essa articulação especialmente no âmbito da agricultura familiar. O curso reforçou essa aproximação e propiciou a efetiva relação entre os três alicerces da Universidade: extensão, pesquisa e ensino. Na mesma linha, o evento sobre barragens coloca a UFFS na rede de universidades que propõe eventos internacionais sobre a temática e reforça a relação com os movimentos sociais, tanto que, no âmbito do evento, foi lançado o Movimento de Afetados por Represas na América Latina (MAR).

As virtudes que percebemos nas práticas extensionistas caminham de mãos dadas com os problemas. A aproximação com os movimentos sociais implica equacionar diferenças procedimentais entre a burocracia normativa do órgão público e a flexibilidade de ações desses grupos. No que diz respeito aos recursos, o louvável esforço da Reitoria na captação junto a instâncias externas talvez pudesse ser melhorado quando do encaminhamento interno. A concentração de um valor milionário em um único projeto parece ir na contramão do princípio da sua abrangência, conforme apresentamos na primeira seção. A publicação de diferentes editais, mesmo que em demanda induzida, pode refletir na redução da rotatividade de coordenadores pelo fato de que o coordenador foi o idealizador teórico-metodológico do projeto e estabelece objetivos e assume responsabilidades previamente.

A formação de grupos de Extensão nos campi da UFFS e sua articulação são fatores importantes para a condução de grandes projetos de extensão, como o de capacitação de jovens. Também é necessária a conquista de estruturas de apoio à extensão, tanto físicas como de pessoal, pois, devido a sua natureza, é, normalmente, complexa em sua execução. E, além de envolver os professores e alunos, envolve a comunidade regional e, na maioria das vezes, espaços também externos à Universidade.

No que diz respeito ao desenvolvimento territorial, é fundamental explicitar a perspectiva buscada pela UFFS. Um desenvolvimento per se, baseado sobretudo no aumento do PIB, parece divergir da proposta da Universidade. Importante é a prática extensionista reforçar seu compromisso com um desenvolvimento que promova a “liberdade” no sentido do que propõe Amartya Sen (2010). Ainda, no que diz respeito à territorialidade, é preciso discutir o sentido e a ênfase política e institucional dos projetos, sob pena de ficarem reféns de políticas de governo. Nessa linha, os projetos precisam ter em vista ações que consideram um protagonismo das populações locais no sentido da “subpolítica” defendida por Ulrich Beck (2012).

Finalmente, retomando a simbologia da chama que representa os três pilares institucionais da UFFS, com base no que foi apresentado, a extensão aparece como ponto nevrálgico em vista ao compromisso assumido pela Instituição desde a sua concepção. Refletir constantemente sobre suas posturas, práticas e diretrizes significa determinar a medida deste compromisso.

 

Referências

 

BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In: GIDDENS, A.; LASH, S.; BECK, U. Modernização reflexiva: Política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-87.

 

ROCHA, Humberto José da; BERTO, James Luiz; AMES, Maria Alice Canzi (org.). Jovens na agricultura familiar: gestão e inovação para a sustentabilidade. Curitiba: CRV, 2016.

 

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL. Política de Extensão da UFFS. Chapecó, novembro de 2011.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL. Curso de Extensão: Capacitação de Jovens em Agricultura Sustentável, Gestão e Inovação Tecnológica. Chapecó-SC, 2013.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL. Resolução nº 1/2014 da Câmara de Extensão do Conselho Universitário que Aprova o Regulamento da Extensão da Universidade Federal da

Fronteira Sul. Disponível em: www.uffs.edu.br.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL. Seminário Regional de Educação do Campo. Chapecó-SC, 2015. UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL. IV Encontro Internacional Ciências Sociais e Barragens. Projeto de Evento. Processo n° 23205.001236/2016-38. Chapecó-SC, 2016.