Extensão universitária na UFFS

Émerson Neves da Silva · Capítulo 5 de 9

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Extensão universitária na UFFS

Evolução e balanço da atuação do Núcleo de Estudos Avançados em Cooperação (NECOOP) da UFFS em Laranjeiras do Sul-PR

Evolução e balanço da atuação

 

do Núcleo de Estudos

 

Avançados em Cooperação

 

(NECOOP) da UFFS em

 

Laranjeiras do Sul-PR

 

Pedro Ivan Christoffoli1 2 , Cristina Sturmer dos Santos

 

Introdução

 

A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) foi criada em 2009, a partir de demanda e mobilizações de comunidades, sindicatos e movimentos sociais de trabalhadores da região de fronteira do Sul do Brasil. Constitui-se como uma universidade com características populares em seu nascedouro. Isso implicou a definição de um projeto institucional e pedagógico voltado às dinâmicas populares e de um desenvolvimento sustentável e solidário da região.

É dentro desse escopo que, mais tarde, em 2012, se constitui o Núcleo de Estudos Avançados em Cooperação (NECOOP), vinculado à Reitoria da Universidade, com objetivo de estimular iniciativas de cooperativismo e associativismo populares em todo o entorno de atuação da UFFS. O desenvolvimento do NECOOP apresenta uma dinâmica diferenciada em cada um dos campi da Universidade. O presente estudo foca na experiência desenvolvida em Laranjeiras do Sul-PR e procura abordar as contradições derivadas de um processo que se propõe ancorado numa práxis militante comprometida com a ação concreta junto aos setores empobrecidos e explorados do território da Cantuquiriguaçu. Ao passo que busca produzir reflexões e estudos de natureza acadêmica, contribui para o avanço científico comprometido com o desenvolvimento solidário e sustentável dessa grande região da fronteira do Mercosul.

O capítulo estrutura-se em mais duas seções, além desta introdução: uma dedicada ao debate sobre a UFFS e o NECOOP, pontuando as dinâmicas de constituição e posterior funcionamento dessas instituições nas diferentes escalas; e uma última seção que trata dos limites e contradições do processo extensionista através da experiência vivenciada pelo NECOOP do Campus Laranjeiras do Sul.

 

UFFS e NECOOP: dinâmicas de

 

constituição

 

Para compreender as ações do NECOOP, é importante situar a proposta e o contexto de constituição da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Ela surge num período de avanços

institucionais3 trazidos pelos governos democrático populares, fruto de décadas de acúmulos e lutas sociais e sindicais no Brasil.

O Núcleo de Estudos em Cooperação4 (NECOOP) é oficializado em dezembro de 2012, com atuação em níveis distintos, em três campi da UFFS: Chapecó, Laranjeiras do Sul e Cerro Largo. Cada local exerce sua autonomia organizativa e segue lógica própria de estruturação. O núcleo tem por finalidade promover atividades de ensino, pesquisa e extensão em cooperação, economia solidária e cooperativismo como elementos indissociáveis de uma universidade comprometida com a transformação social.

Em sua missão, o núcleo se propõe a ser um centro de referência em formação, promoção e pesquisa em economia solidária, com foco a estimular a transformação social e o desenvolvimento includente e sustentável.

Uma questão fundamental para início de discussão sobre a UFFS e o NECOOP se refere ao entorno no qual atuam, de forma que se questiona: “Qual a base material em torno da qual se estruturam as práticas educativas e de extensão da UFFS?” Considerando as diferentes escalas de análise, se propõe alguns pontos de ponderação para construção de uma contextualização.

Um primeiro aspecto a se considerar é que o Brasil se constitui como sociedade capitalista periférica, situada na América Latina, continente historicamente explorado por europeus e estadunidenses, com a economia voltada à exportação de riquezas minerais e vegetais/biológicas (CANO, 1998; POCHMANN, 2016). Tal configuração e o entranhamento de uma elite subserviente ao capital das metrópoles (Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, dentre outros) levaram à construção de um projeto subalterno de país. A burguesia nacional satisfaz-se em se associar como parceiro menor do capital estrangeiro (FURTADO, 1998; PRADO JR, 1988).

Objetivamente isso traz implicações de longo alcance, em termos de políticas públicas em geral, bem como traz amarramentos para a política de Ciência, Tecnologia (C&T) e Educação, visto que um país subalterno não necessita desenvolver tecnologias competitivas e de ponta, a não ser naqueles setores, como o agronegócio (visto a divisão internacional do trabalho sob o capitalismo), e somente numa parcela diminuta e localizada da cadeia. Nesse quadro, as universidades se ressentem de um papel mais proeminente, consolidando-se aquelas poucas necessárias à formação da elite e dos técnicos que servirão às grandes empresas transnacionais na adaptação de tecnologias importadas às condições do país. Os demais brasileiros não necessitariam, de acordo com essa visão, de universidades públicas. E é por isso que sistematicamente elas são

bloqueadas 5 ou desmanteladas em sua função de produção de conhecimento e tecnologia de ponta, necessários para o desenvolvimento de uma potência mundial.

Fruto dessas interações gerais, a região da Grande Fronteira do Mercosul é, por sua vez, dentro do Brasil, uma região marginal ao eixo de acumulação de capital (que é historicamente litoralizado e geograficamente ancorado no sudeste do país). Ainda que seja uma região fronteiriça, apresenta baixa integração com os demais países vizinhos (a não ser na questão do contrabando e outras ações ilícitas). Além disso, a sua integração à economia nacional e internacional se deu historicamente através da exploração agrícola e de recursos naturais. Inicialmente a organização dessa região foca-se num extrativismo (gado, madeira, erva mate…) que se constitui pautado na figura dos latifúndios, com um processo conflituoso para controlar tanto os espaços vazios existentes, como os já habitados por populações tradicionais e, mais tarde, por posseiros e pequenos agricultores.

Atualmente a economia do agronegócio se estabelece como eixo estruturante, mas também desestruturador, numa dialética de criação-destruição. Como polo dinâmico exportador de commodities, revoluciona as condições de produção do meio rural; entretanto, a desestrutura subordina o uso do solo e das águas ao capital e induz a expulsão populacional do seu meio rural. Economicamente, vivencia-se uma etapa marcada pela proeminência das exportações, o que significa, por outro lado, extrema dependência externa, notadamente da China.

A dinâmica do agronegócio também levou, na região, à constituição de um parque industrial associado e setorializado. Esse surto localizado de industrialização relacionada à agricultura (agroindústrias, máquinas e implementos…) se estruturou principalmente no período 1950-1970 quando a indústria a montante da agricultura ainda fazia parte do arranjo político estabelecido pela ditadura militar, visando constituir um polo produtivo nacional de bens de consumo duráveis para a produção agrícola (BRANDÃO, 2004; CANO, 1998; DELGADO, 2012).

A economia do setor público nos governos estaduais e municipais da região vem “a reboque” e é extremamente funcional e subserviente ao latifúndio. Mesmo financeiramente “quebrados”, os estados seguem promovendo desoneração fiscal na exportação de produtos agrícolas, ao passo que taxam pesadamente a cesta básica para consumo dos trabalhadores e os serviços básicos como telefonia e energia elétrica. Tal arranjo é assegurado pela forte presença política do latifúndio via seu braço parlamentar, a bancada ruralista e, subsidiariamente, pelas cooperativas capitalistas.

Desse modelo inúmeras contradições vão se evidenciando principalmente na degradação ambiental, que ocasiona altas taxas de desmatamento, contaminação por agrotóxicos, erosão de solos e da base genética, entre outros problemas relacionados à saúde humana e a epidemias sanitárias (MACHADO e MACHADO FILHO, 2014; MARTÍNEZ ALIER, 2000; TOSETTO, 2016). No aspecto social, cresce a exclusão de parcela crescente de jovens, com a falta de perspectivas econômicas e sociais no meio rural, ocasionando êxodo e perda populacional absoluta nos pequenos municípios. Esses movimentos têm relação com o avanço do capital sobre a agricultura e com o aprofundamento do movimento da revolução verde, tendo como eixo a expansão do uso da mecanização, da engenharia genética e o aprofundamento da exploração da natureza e do trabalho (HESPANHOL, 2008; MACHADO e MACHADO FILHO, 2014).

Esses processos contribuem para a alimentação de um êxodo rural e regional que conduz as populações pobres para regiões metropolitanas, engrossando a massa urbana empobrecida, o que acentua o quadro de expulsão de força de trabalho excedente, que terá de se submeter a baixos salários e empregos de baixa qualificação nas cidades. Tal cenário tende a se acentuar na atual conjuntura de precarização do mercado de trabalho que se intensifica em momentos de crise.

Como contraponto, é oportuno caracterizar o processo de formação histórica e material na Mesorregião Grande Fronteira do Mercosul, de um conjunto importante de movimentos sociais do campo que tiveram aí sua origem, e ainda seguem ativos, como é o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura, além de cooperativas de extração popular como é o caso das cooperativas de crédito do Sistema CRESOL, as cooperativas

coletivas do MST6 e um grande número de pequenas associações e cooperativas camponesas, notadamente da agricultura familiar. Comporta também organizações em redes, seja de agroindústrias (como a Sabor Colonial e a Terra Viva) ou tantas outras iniciativas populares inovadoras no meio rural (MIOR, 2005).

Esse dinamismo se deve em grande medida às experiências de resistência ao avanço do capitalismo no campo na região nos anos 1960-1980, frente ao enorme deslocamento populacional e ao bloqueio das fronteiras agrícolas internas regionais, com a expulsão do campo de milhares de famílias camponesas. Alavancadas pelas contradições do capitalismo no campo e assessoradas pelas pastorais rurais e pelos sindicatos de oposição ao regime, ocorre a emergência de movimentos sociais em luta contra o sistema e, mais tarde, de organizações produtivas de estabilização e resistência social.

Essas organizações se caracterizam por buscar consolidar avanços econômicos e sociais, sendo gestadas e articuladas nos interstícios das lutas desencadeadas pelos movimentos políticos de massa. Inicialmente marginais, algumas dessas iniciativas se desenvolvem e agigantam, apesar de a grande maioria permanecer marginal ao sistema e às dinâmicas econômicas capitalistas na região.

A história desta região também é marcada pelo extermínio de

povos indígenas, pelas lutas sociais de resistência indígena, negra7 e camponesa, como na Guerra do Contestado (1912/16) e na Revolta dos Colonos do Sudoeste do Paraná (1957), dentre outras tantas (CEZIMBRA, 2015; COCA, 2011). A partir dos anos 1980, o ascenso de movimentos de base popular com ancoragem na igreja progressista (hoje um tanto desmobilizada, após o papado direitista de João Paulo II) contribui para uma nova etapa, na região, de lutas sociais radicalizadas.

Ainda que se constitua no berço de lutas sociais radicais desde o final da ditadura militar, a região padece sob domínio ideológico do capital tanto em termos de projetos individuais como coletivos. Tais projetos podem ser ilustrados, por um lado, na capilarização robusta do agronegócio no território via fortalecimento e expansão do cooperativismo capitalista. E, por outro, na existência de um caldo cultural racista, antipovo, de um segmento amplo entre os trabalhadores e a classe média sulista. Existe, assim, um processo contraditório de movimentos e contramovimentos dentro do tecido regional, que vão tensionar os segmentos marginalizados que se movimentaram tentando consolidar e ampliar sua territorialização. Obviamente isso também impacta sobre as opções político-institucionais da UFFS.

Essas movimentações podem ser visualizadas nas lutas dos segmentos sociais postos à margem do desenvolvimento econômico, que, regionalmente, se materializam, por exemplo, nas ações de luta por reforma agrária, nas ocupações realizadas pelo MST, que na Cantuquiriguaçu desde 1986 resultaram na criação do principal território reformado do sul do Brasil, com mais de cinco mil

famílias assentadas8.

Essa base material regional se articula na busca do projeto de uma universidade popular para a região, inicialmente via movimentos sociais do campo e, posteriormente, aproveitando a conjuntura favorável fomentada pelo governo federal no governo Lula (via programas de expansão universitária) e que vão possibilitar a conquista da UFFS para o território. Ou seja, a UFFS, em sua implantação regional, surge não da iniciativa dos representantes regionais do capital, que era descrente da possibilidade de uma universidade pública na região e que se opõe tenazmente, ainda hoje, a uma universidade de extração popular.

Com essas características em sua gênese e uma proposta de construir um desenvolvimento regional pautado em outras bases, com a sua implementação em 2010, inicia-se efetivamente o processo de disputa de poder em espaços internos da UFFS. Essa disputa se efetiva no espaço dos cursos de graduação, nas ações de pesquisa, na extensão e se apresenta em limites institucionais operativos.

Nesse campo de disputa, o NECOOP se constitui como um espaço que tem por objetivo fortalecer as iniciativas associadas à cooperação em todas as esferas, mas sempre priorizando a perspectiva popular. Estabelece como objetivos em médio prazo: (a) Contribuir para fortalecer a cultura da cooperação na Região da Cantuquiriguaçu e no estado do Paraná; (b) Apoiar processos de transformação social com base em organização de iniciativas econômicas associativas; (c) Contribuir para o fortalecimento do cooperativismo de base popular; (d) Aportar estudos e análises em vista do desenvolvimento da economia solidária; e (e) Ser um viveiro de formação de quadros comprometidos com os valores cooperativistas e da economia solidária (Ecosol).

Esses objetivos emergem de um processo que tem início com uma parceria e certa inspiração na experiência cooperativa de Mondragón. Apoiada num acordo já existente das cooperativas de Mondragón com o MST na região de Laranjeiras, a UFFS estabelece parcerias com o Instituto Lanki da Universidade de Mondragón e com a Fundação Mundukide, ambas instituições cooperativas bascas. Para tanto, foram realizadas jornadas conjuntas de formação para a equipe do Campus de Laranjeiras do

Sul. Posteriormente, feitas visitas9 de intercâmbio e estudos no país basco (Espanha), com membros de todos os campi articulados no NECOOP. Ainda, durante todo o processo de implantação do Núcleo tem-se a presença de cooperantes bascos na região de atuação do Campus Laranjeiras do Sul, ligados à Fundação Mundukide, em projetos de apoio ao MST.

Considerando os elementos até aqui evidenciados, da concepção da UFFS e a posterior constituição do NECOOP, imprime-se uma marca diferenciada de outras instituições tradicionais na educação pública superior no Brasil. A opção institucional que a coloca em proximidade às demandas e ações da classe trabalhadora dará um tom diferenciado também para as ações de extensão, um dos eixos da Universidade, e que será debatido no próximo tópico.

 

Concepção de extensão na UFFS e

 

sua relação com o ensino e a

 

pesquisa

 

Para discutir as dimensões da extensão em sua relação com as demais práticas universitárias, deve-se primeiro situar brevemente a evolução dessa ação nas universidades brasileiras. Historicamente, a ação extensionista pautou-se em uma perspectiva difusionista restrita que não contemplava um diálogo com os atores sociais inseridos na realidade do entorno (THIOLLENT, 2011).

Aliado a isso, destaca-se o histórico de incompletude da institucionalização da extensão na estrutura universitária brasileira, que se inicia em 1931 mediante o Decreto nº 19.851. A extensão universitária, mesmo sem pretensões de consenso, pode ser dividida em três etapas:

 

I. a anterior a 1964, cuja centralidade foi dada pela campanha

pela Escola Pública e pela aproximação com o movimento das Reformas de Base, a partir de obra e de prática de Paulo Freire;

II. a etapa que vai de 1964 a 1985, polarizada pela emergência e

demandas dos movimentos sociais urbanos;

III. a terceira etapa corresponde ao período pós-ditadura e se

caracteriza pela emergência de três grandes novos elencos de demandas: 1) as decorrentes do avanço dos movimentos sociais urbanos e rurais; 2) as que expressam a emergência de novos sujeitos e direitos, que ampliaram o conceito de cidadania; 3) as demandas do setor produtivo nos campos da tecnologia e da prestação de serviços (PAULA, 2013, p. 21).

 

Nesse processo extremamente recente de construção de uma extensão universitária no país, existe a predominância de uma proposição que se materializa na extensão propondo uma relação teórica-prática em que se parte da teoria elaborada na universidade e se realiza sua extensão aos atores sociais acompanhados. Portanto, muitos processos compreendem ainda a primazia do saber universitário sobre o popular nessa relação muitas vezes contraditória.

Na extensão tradicional, o conhecimento é construído por técnicos e pesquisadores e transferido para o público-alvo, que é encarado como um agente passivo que receberá e aplicará o que foi produzido. Um dos exemplos desse processo é a transferência de tecnologias realizada nos anos de 1950 e 1960 durante a revolução

verde 10, que conduz a um aumento de produtividade, gerando aumentos significativos de produtividade. Porém, causa impactos extremamente negativos por desconsiderar suas implicações socioeconômicas e as dimensões da prática dos agricultores, uma vez que é aplicada na forma de “receita” ou “pacote”.

Ainda no contexto das universidades, há a emergência de uma crítica a essa visão, de forma a alinhar a prática de extensão universitária a um processo dialógico entre o saber científico e o saber popular. Fundamental para isso foi também a criação do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX). Vários avanços conceituais e programáticos advieram de sua ação (PAULA, 2013).

Em contrapartida a esta concepção extensionista conservadora, o NECOOP busca construir uma metodologia tendo a práxis como eixo de atuação, buscando uma ação orientada pela relação prática-teoria-prática. Nesse sentido, a partir das determinações da realidade, se constroem reflexões que problematizam o real, que extraem orientações que deverão retornar em diálogo crítico, com a realidade. Considera-se este eixo de atuação da extensão como uma metodologia que permite a capilaridade das ações de extensão e uma efetividade maior das ações, bem como um compromisso com a reflexão crítica.

Historicamente, as ações de extensão universitária são marginalizadas e subsumidas ao foco colocado sobre a pesquisa e o ensino. Dentro da proposta de inserção regional e construção do conhecimento vinculado à realidade, pela UFFS, a extensão emergiria com outra finalidade, sendo a ligação com a comunidade regional, capaz de descortinar linhas de trabalho e questões de pesquisa, além de subsidiar conteúdos temáticos e práticas de ensino inseridas no contexto regional.

A extensão permitiria, ainda, uma formação mais adequada dos alunos envolvidos, ao possibilitar seu contato com fenômenos da realidade, que são complexos e fruto de múltiplas determinações (que não cabem em exemplos muitas vezes simplificadores, apresentados em sala de aula). Além disso, possibilitaria a

emergência de questões de pesquisa e casos de ensino11. Essa pesquisa pode contribuir mais diretamente como elemento de transformação social da realidade de entorno da UFFS.

Resumidamente podemos apontar para uma tripla relação ligada à extensão universitária: (1) eixo alimentador da pesquisa, voltada à superação dos problemas regionais e, a partir daí, de questões mais amplas para o conjunto da sociedade; (2) fonte de problematização e de vivências desafiadoras/formadoras e de conteúdos para o ensino; e (3) efetivação da implantação da universidade no tecido regional, de sua função precípua como ator social e institucional de desenvolvimento.

A extensão, portanto, pode contribuir muito para enfrentar os desafios da realidade regional, colocando a UFFS como um ator privilegiado, em campo. E, ao gerar interações com potencial de transformação do seu “que fazer”, influenciar seus rumos institucionais. Exemplo disso foi o esforço institucional em torno da organização da I Conferência de Ensino Pesquisa e Extensão (I COEPE) da Universidade (UFFS, 2010). No entanto, existe ainda uma distância significativa para que esta proposição dos documentos institucionais se consolide em ações práticas. Entendemos que a extensão pode ser o canal fundamental para isso.

 

A prática da extensão e o núcleo de

 

estudos avançados em cooperação

 

O NECOOP foi concebido de forma a poder assumir uma estrutura organizacional diferenciada em cada local onde seria

implementado (Figura 01), de maneira que o foco será diferenciado de acordo com os recursos humanos, as realidades regionais e os cursos de graduação aos quais está vinculado. No Campus Chapecó, o eixo de atuação do Núcleo centrou-se, inicialmente, na execução de projeto com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que visava à qualificação de dirigentes de diversos empreendimentos associativos do país. Em Cerro Largo, as ações prezaram pela estruturação de um laboratório multidisciplinar dos cursos de graduação em Administração e do Mestrado em Políticas Públicas e Desenvolvimento, no qual se insere a Incubadora Tecnossocial de Cooperativas e Empreendimentos Econômicos Solidários (ITCEES).

Figura 01 Estrutura institucional do NECOOP dentro da

UFFS e sua ramificação em ações práticas nos campi

Laranjeiras do Sul, Chapecó e Cerro Largo – 2016

 

Fonte: Elaboração dos autores, 2016.

 

No Campus Laranjeiras do Sul, as atividades do NECOOP envolvem ações que compreendem os eixos ensino, pesquisa e extensão, cujo objetivo é ser um aglutinador das atividades com foco em economia solidária e cooperativismo no Campus. Em outubro de 2016, havia 16 acadêmicos de graduação e pós-graduação vinculados ao Núcleo via algum projeto financiado pela UFFS ou por entidades externas de fomento (CNPq, Fundação Araucária, Prefeitura Municipal de Laranjeiras do Sul) sendo acompanhados por três professores e um técnico administrativo que se integram em níveis distintos às atividades.

No ensino, as ações focam na qualificação dos conteúdos e práticas educativas cooperativas/associativas na UFFS e escolas da região; na formação de profissionais comprometidos com a Ecosol, e qualificados para atuação profissional nesse campo; e na atuação junto a empreendimentos concretos, a partir do ensino de graduação, através de disciplinas, Trabalhos de Conclusão de Cursos, Estágios, entre outros.

Na extensão, o NECOOP desenvolve projetos junto a cooperativas de economia solidária e instituições públicas (prefeituras, escolas, etc.), além de um processo de incubação virtual e presencial de projetos cooperativos através do projeto Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (com apoio do CNPq) e ações de empreendedorismo social focado na criação de iniciativas associativas (2016).

No eixo da pesquisa, desenvolvem-se trabalhos acadêmicos e/ou aplicados às demandas dos coletivos da Ecosol, bem como uma linha específica de investigação crítica ao cooperativismo capitalista. De forma sintética, a problemática de pesquisa do NECOOP pode ser agrupada nas linhas:

 

1. Cooperativismo popular;

2. Fundamentos e perspectiva da cooperação no MST, FETRAF e

MPA;

3. História crítica do cooperativismo no sul do Brasil;

4. Crise e ressurgimento das cooperativas do agronegócio nos

anos 19902000;

5. Cooperativas de crédito: história e desenvolvimento das

finanças solidárias pelo campesinato;

6. Natureza e ação das redes sociais e de cooperação como a

Rede Ecovida e redes agroindustriais para agricultura familiar;

7. Jogos cooperativos como ferramenta de promoção de

educação cooperativa.

 

Ressalta-se também que existe um grupo de pesquisa ligado ao NECOOP registrado no CNPq com o título “Cooperação e Desenvolvimento”, que realiza um esforço, ainda que inicial, de dar um corpo coletivo às pesquisas realizadas pelo conjunto de professores e acadêmicos que trabalham com essa temática no Campus e em instituições parceiras. As linhas de pesquisa trabalhadas por este grupo são: “Cooperação e desenvolvimento”; “Educação para a cooperação”; e “Estado, dinâmicas territoriais e movimentos sociais”.

Considerando as atividades realizadas nos três eixos e tendo como concepção de extensão a relação entre prática-teoria-prática aqui expostas, no Campus Laranjeiras do Sul, o NECOOP busca a aplicação dessa concepção no seu dia a dia. O Núcleo, por sua estrutura institucional, possui uma atuação permanente, porém está sempre limitado pelos recursos financeiros, físicos e humanos à sua disposição, seja para investimentos seja para a contratação de bolsistas. Com foco em manter um fluxo contínuo com as ações práticas dos empreendimentos associativos e outros agentes que trabalham a cooperação no território, se utilizam as atividades de extensão como esse eixo articulador.

 

Figura 02 - Estrutura de ações nos eixos do ensino, da

pesquisa e extensão do Núcleo de Estudos em Cooperação

do Campus Laranjeiras do Sul (PR) – 2016

 

Fonte: Dados da pesquisa (elaboração dos autores), 2016.

 

Para o ensino, há iniciativa de levar o trabalho com os empreendimentos da ECOSOL para as salas de aula, nos componentes curriculares ligados à temática da cooperação ou da gestão. Considerando as estruturas curriculares e o foco explícito dentro da ementa do componente, atualmente nos cursos se tem os CCRs de Economia da Cooperação (curso de Ciências Econômicas, carga horária de 04 créditos), Teoria Cooperativista (cursos de Ciências Econômicas, Engenharia de Aquicultura e Agronomia, carga horária 04 créditos), Projetos em Cooperativismo (Ciências Econômicas, carga horária de 02 créditos), Direito cooperativo I e II (Ciências Econômicas, carga horária de 04 créditos cada CCR), Contabilidade Rural e Cooperativa (Ciências Econômicas, carga horária de 02 créditos). Trabalha-se também com a disciplina Organização de Cadeias Agroindustriais (2 créditos para os cursos de Agronomia e Ciências Econômicas) e com disciplinas ligadas à gestão, como Planejamento Estratégico, Administração de Marketing e Comercialização de Produtos Agrícolas, do Curso de Ciências Econômicas, para realização de trabalhos aplicados aos EES. Além disso, está se construindo com professores do curso de Engenharia de Alimentos a inserção dessa temática da cooperação em disciplinas aplicadas à análise de agroindústrias reais.

Há, de fato, um enorme potencial em várias outras disciplinas para realizar esse mesmo nexo, uma vez que existem possibilidades de contribuir para a formação profissional dos acadêmicos e para a qualificação das atividades dos empreendimentos. Porém, neste âmbito, existe uma limitação da participação dos professores, em termos de desconhecimento da metodologia e de interesse muitas vezes escasso em lidar com uma proposta que é mais complexa do que apenas atuar dentro das salas de aula.

Nessa perspectiva, tem-se constituído grupos de alunos ligados às disciplinas, os quais desenvolvem atividades junto aos empreendimentos de Economia Solidária, acompanhados pelo NECOOP (ou ainda não, já que outros EES podem ser propostos pelos alunos). Tanto o professor como os bolsistas atuam como tutores dos grupos de alunos, visando um maior avanço dos seus trabalhos. A atividade tem sequência ao longo do semestre para as turmas específicas e, ao longo dos vários semestres, envolve alunos de turmas distintas.

Esse processo de atuação dos estudantes ocorre com base em problemas concretos e delimitados dos empreendimentos. Tal atuação se finda ao término de cada semestre para os acadêmicos da disciplina, mas não para o NECOOP ou para os empreendimentos. De acordo com a capacidade operativa do Núcleo, alguns empreendimentos continuam a ser acompanhados, de forma que nos próximos semestres se continuará esse ciclo que, por ter uma equipe mais ou menos permanente, amparada por uma memória coletiva (registros e trabalhos referentes a cada empreendimento), busca tornar as ações pontuais das disciplinas em resultados concretos e sequenciais, para os empreendimentos e estudantes.

De maneira geral, o exemplo sobre a articulação ensino-pesquisa-extensão proposto através das disciplinas tenta ilustrar o esforço realizado pelo Núcleo em promover um processo de trabalho que prime por um laço forte e interação com a comunidade regional, principalmente movimentos sociais e empreendimentos produtivos populares.

Mesmo com essa riqueza de experiências e ações, é central destacar significativas lacunas e problemas vivenciados no desenvolvimento das atividades referentes ao NECOOP Laranjeiras do Sul. Em um primeiro momento, destacam-se os limites de organização interna do grupo que envolve três elementos centrais: (i) em decorrência da flutuação de recursos existe uma quase permanente ameaça à continuidade das atividades desenvolvidas, bem como dificuldades de manter uma memória coletiva do trabalho já desenvolvido; (ii) aliado a este fator, ressalta-se o desafio de construir uma organização interna ao NECOOP que se assuma cooperativa e autogestionária, que promova um processo de superação de práticas nocivas, como autoritarismo e motivação sob cobrança; e (iii) gestão do tempo e organização das atividades do grupo diante das cargas horárias dos cursos de graduação e disponibilidade da coordenação das atividades.

Além desses, existem os desafios de capilaridade regional do Núcleo que, considerando o universo da região onde o Campus está inserido, é extremamente marginal, não tendo uma influência significativa em termos de grupos ativos do público alvo (EES). Junto a estes, um fator significativo é a escassez de recursos à disposição do NECOOP, que permita o desenvolvimento de atividades realmente articuladas à realidade e que não foque apenas em projetos pontuais. De outro, um necessário amadurecimento das metodologias em utilização pelo Núcleo, que possibilitariam, de fato, a contribuição para resolução das questões e dos problemas enfrentados pelos grupos de economia solidária.

Diante dos elementos discutidos, se propõem algumas considerações, à guisa de conclusão, acerca dos limites e contradições das experiências de extensão com foco em cooperação.

 

Limites e contradições

 

A seguir buscamos elencar alguns elementos que trazem preocupações acerca do funcionamento do núcleo e das suas potencialidades:

 

1. O NECOOP pretende ser uma proposta inovadora de

articulação com o setor cooperativo popular e da economia solidária, mas a universidade brasileira, estruturalmente, não prioriza atividades de extensão e, menos ainda, a economia solidária. Nesse sentido, cabe indagar se a tão frequentemente citada indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão pode mesmo ser considerada como um objetivo permanente dessa instituição tão elitizada em nosso país como são as universidades?

2. Não se assegura tempo hábil para envolvimento dos alunos nas

atividades práticas e de extensão. Isso é efeito do sistema mencionado anteriormente, que foca apenas nas aulas como espaço formativo, que cobra os professores apenas pelas horas-aula e sua produção científica traduzida em publicações de prestígio (qualificadas pela Capes ou por seu fator de

impacto12).

3. A contradição existente entre a dinâmica individualista das

carreiras, competitiva até, fomentada pelo sistema universitário, versus uma proposta de compromisso coletivo consequente com ações e cobranças.

 

Nenhum grande programa de extensão tem funcionado nas universidades brasileiras em geral e mesmo na UFFS. As atividades são, na maioria das vezes, pontuais, empobrecidas e limitadas. Em alguns casos se consegue priorizar recursos para projetos e programas com impacto um pouco mais amplo, mas são mais exceções que a regra. Ainda assim são secundários em relação aos demais eixos.

Não se tem uma compreensão epistemológica da relação prática-teoria-prática nos processos formativos. Privilegia-se uma cultura livresca e enciclopédica, baseada em exposições orais e não na construção de conhecimento a partir da inserção crítica em processos sociais reais. Há sempre que se reafirmar que existem diversas experiências mundo afora que se articulam em torno da

inserção de práticas extensionistas à educação13.

Há falta de recursos, tanto financeiros, quanto materiais e humanos. No campo material, a proibição do uso de meios de transporte da universidade para o trabalho de extensão é a principal restrição. De outro, a não alocação de tempo de técnicos para os projetos de extensão dificulta uma continuidade de forma permanente. Esses problemas refletem a perspectiva geral da universidade que enxerga a atividade de extensão como um aspecto secundário dentre suas funções precípuas.

O NECOOP como elemento institucional com atuação no conjunto da UFFS não foi implementado de maneira razoável, via promoção de momentos de encontro, de formação e de ações articuladas, o que impossibilitou a elaboração de estratégias comuns entre os três campi que se propuseram a organizar o Núcleo. Enquanto Laranjeiras do Sul priorizou a projeção do Núcleo como um todo, Cerro Largo focou na criação de uma incubadora, via um laboratório, e Chapecó teve dificuldades em estruturar o Núcleo em si. Essa disparidade de estratégias enfraqueceu a sinergia possibilitada por um núcleo transversal a vários campi da UFFS, tanto para dentro como para fora da Instituição.

A economia nacional e regional não tem na ECOSOL seu polo dinâmico, antes pelo contrário. Apenas o cooperativismo de tipo capitalista encontra respaldo social e institucional. A economia solidária é identificada como uma iniciativa do campo popular, portanto marginal e absolutamente secundarizada no debate político e econômico, mesmo no campo da esquerda. A dinâmica econômica capitalista não favorece uma sobrevivência mais do que marginal das iniciativas da economia solidária ou do cooperativismo popular. Isso por uma série de fatores ligados à sua capacidade de gerar produtos competitivos no mercado (preços de produção conformes com o estágio do mercado, tecnologias competitivas, qualidade dos produtos e serviços, sistema de financiamento da Ecosol, etc.). Esse conjunto de fatores contribui para a debilidade tanto da extensão em geral como da economia solidária, em particular, nas universidades brasileiras.

 

Considerações finais

 

Este capítulo buscou refletir sobre o processo de constituição do Núcleo de Estudos Avançados em Cooperação na UFFS, de forma a verificar, nesses anos de funcionamento, quais ações vêm sendo desenvolvidas e com que tipo de perspectiva a extensão com foco em cooperação se desenhou na Universidade. São latentes os limites de disponibilidade de recursos e inadequação da estrutura institucional e universitária para uma extensão que vai além de uma relação difusionista. O trabalho de extensão, que se propõe a uma nova relação com a comunidade, é desestimulado diariamente por um conjunto de barreiras formais e informais, por critérios de seleção de professores, por políticas de avaliação e valorização de carreira, por restrições quanto ao uso de estruturas da Universidade, etc.

Entretanto, mesmo com os limites apontados, resultados importantes estão sendo obtidos com a extensão na UFFS, principalmente no que diz respeito à articulação com ensino e pesquisa e pela potencial colocação da Universidade a serviço efetivo da classe trabalhadora.

 

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