Extensão universitária na UFFS

Émerson Neves da Silva · Capítulo 6 de 9

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Extensão universitária na UFFS

Incubadora Tecnossocial de Cooperativas e Empreendimentos Econômicos Solidários (ITCEES): trabalho, atuação e desafios futuros

Incubadora Tecnossocial de

 

Cooperativas e

 

Empreendimentos Econômicos

 

Solidários (ITCEES): trabalho,

 

atuação e desafios futuros

 

Louise de Lira Roedel Botelho1 2 , Edemar Rotta, Jorge Adalberto

Schommer 3

 

A ITCEES: origem e trajetória no

 

campus Cerro Largo

 

No cenário mundial, as incubadoras sociais surgem com o propósito de auxiliar empreendimentos que apresentam dificuldades em seus processos de organização e funcionamento, propiciando-lhes condições, por meio de assessoramento, para que avancem e conquistem espaço na dinâmica dos processos de geração de trabalho e renda. Essas dificuldades estão relacionadas, em parte, à economia do modo de produção capitalista, que tem provocado exclusão social, além de significativas mudanças na dinâmica do mundo do trabalho, resultando na precariedade das condições e intensificação do desemprego. Assim, as incubadoras representam a possibilidade de geração de emprego e conhecimento, aumento de renda e inclusão social, além do incremento à economia local e consequente contribuição ao desenvolvimento. Nesse contexto, destacam-se as incubadoras de empreendimentos solidários de universidades, que se caracterizam por levar à academia a discussão das questões de melhoria de condições da comunidade por meio da economia solidária, como alternativa de geração de renda, inserção no mercado formal e promoção da cidadania (FROTA, BOTELHO, BARTH-TEIXEIRA, 2016).

A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) nasceu da ampla mobilização dos movimentos, das organizações e instituições da sociedade civil de uma vasta região de fronteira com a Argentina. Uma região que abrange mais de 400 municípios situados ao Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul, Oeste de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná, representando uma área de mais de 120.000 km² e uma população aproximada de 4 milhões de habitantes. Historicamente é uma região identificada com a experiência das Reduções Jesuíticas e do processo de disputa do território entre Portugal e Espanha, que acabou conformando as fronteiras do território brasileiro.

Foram mais de três décadas de mobilização pelo acesso ao ensino superior público e gratuito a uma população historicamente excluída desse nível de ensino pelas políticas públicas vigentes. Essas mobilizações, de diferentes matizes e origens, encontraram um terreno fértil diante de um novo contexto criado a partir de uma nova proposta de desenvolvimento colocada em prática pelo governo de Luís Inácio Lula da Silva que visava combinar políticas de crescimento econômico com políticas de distribuição de renda e inclusão social (ROTTA et al., 2016). A UFFS transformou-se em realidade a partir da sanção, por parte do Presidente Lula, da Lei nº 12.029, em 15 de setembro de 2009. Ela nasce profundamente comprometida com movimentos, organizações e instituições da sociedade civil regional que se mobilizaram pela sua criação e ciente do contexto no qual está inserida e do importante papel que passa a desempenhar nas dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão.

A UFFS surge nesse contexto, comprometida com a promoção de uma cultura da participação e da construção coletiva de seus processos de organização, estruturação e funcionamento. Possui seis campi instalados na fronteira oeste dos estados do Rio Grande do Sul (RS), Santa Catarina (SC) e Paraná (PR): Cerro Largo, Erechim e Passo Fundo (RS), Laranjeiras do Sul e Realeza (PR) e a sede em Chapecó (SC). A área de abrangência da UFFS – Campus Cerro Largo compreende as regiões Missões, Celeiro, Noroeste Colonial e Fronteira Noroeste.

O surgimento da ITCEES se deu a partir do Projeto Político Pedagógico do curso de Administração e tomou corpo com a aprovação de programas de extensão e pesquisa em relevantes editais nacionais, como o Edital PROEXT 2014 MEC/SESU e a CHAMADA MCTI/SECIS/MTE/SENAES/CNPq nº 89/2013. Esses programas de pesquisa e de extensão possibilitaram que se constituísse equipe de professores, servidores técnico-administrativos e bolsistas que foram dando corpo à ideia da Incubadora, construindo metodologias, realizando reflexões e tornando a ITCEES conhecida e reconhecida no espaço interno da UFFS e no cenário local-regional.

Outro ponto de destaque que permitiu a concepção da ITCEES foi a I Conferência de Ensino Pesquisa e Extensão (I COEPE), ocorrida no ano de 2010, cujo objetivo principal foi discutir com a comunidade acadêmica a missão e os objetivos da nascente UFFS. Nesse evento, algumas diretrizes foram traçadas, apontando, inclusive, a necessidade de a Universidade fomentar a criação de incubadoras em seus campi. Nesse sentido, tem-se a área temática “Desenvolvimento regional, tecnologias e inovação”. Nessa área de extensão está alocada a linha de fomento a parques e incubadoras tecnológicas, empreendimentos populares, empresas sociais e cooperativas.

A ITCEES define-se como um laboratório multidisciplinar do Bacharelado em Administração, ou seja, sua inserção promove a tríade: ensino, pesquisa e extensão. Tal associação reflete-se em “um conceito de qualidade do trabalho acadêmico que favorece a aproximação entre universidade e sociedade, a auto-reflexão crítica, a emancipação teórica e prática dos estudantes e o significado social do trabalho acadêmico” (ANDES, 2003, p. 30 apud MAZZILLI; MACIEL, 2010, p. 4).

Essa incubadora objetiva a prestação de assessoria para formação, desenvolvimento e crescimento de empreendimentos econômicos solidários, como também inserção da economia solidária e experiências de cooperativismo na região de abrangência do Campus Cerro Largo (RS).

A proposta da ITCEES na UFFS – Cerro Largo é potencializar a economia da região de abrangência do Campus, nos seus mais diferentes aspectos, principalmente no tocante ao desenvolvimento rural, às cooperativas, à formação de empreendimentos econômicos solidários, às pequenas propriedades rurais e às agroindústrias instaladas.

Para a compreensão do trabalho da incubadora na atualidade, se fazem necessárias a descrição e a superação de desafios ocorridas ao longo do tempo em que a ITCEES foi implantada. Tais desafios contemplam desde sua concepção inicial (projeto de pesquisa), consolidação (institucionalização) e expansão como laboratório de pesquisa, ensino e extensão. Desse modo, a Incubadora surge em virtude de dois momentos. No primeiro momento, por meio das demandas da sociedade percebidas, por parte de uma equipe constituída de professores e representantes da comunidade (sindicatos, cooperativas, movimentos sociais, ONGs, prefeituras, entre outros) e manifestadas, de uma forma especial, durante o processo de discussão desencadeado pela primeira I COEPE. Tal fato se explica pela configuração do cenário econômico e social que se desenha nas regiões atendidas pela incubadora, caracterizado por fatores como baixa renda da população rural, redução do número de habitantes no meio rural, dificuldades de organização associativa no meio rural e urbano, periferia urbana com poucas alternativas de geração de trabalho e renda, população jovem com dificuldades para a conclusão do ensino médio e acesso ao ensino superior, reduzido número de incubadoras de empreendimentos solidários em nível de região (apenas a experiência em prática na UNIJUÍ).

A região de atuação da incubadora apresenta-se por alguns segmentos de trabalhos mais característicos, como na atuação da agricultura familiar, na formação de cooperativas da agricultura familiar, cooperativas sociais, rede de cooperativas, associações, agentes de reciclagem (catadores de materiais recicláveis), entre outros. E, assim, ela visa o assessoramento de grupos para o seu desenvolvimento e crescimento, tanto sustentável como econômico, bem como oportunizar e direcionar suas ações para o mercado, no cooperativismo, na economia solidária, através das práticas de ensino, pesquisa e extensão, elevando o crescimento regional dos empreendimentos econômicos solidários incubados.

No segundo momento, o campus da Universidade em que se encontra inserida a incubadora, percebe a necessidade de ampliação de projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados para atores antes excluídos ou negligenciados. De uma forma especial, os cursos de Administração, Engenharia Ambiental e Agronomia passam a ter ações, projetos e programas voltados para grupos sociais ou segmentos de classe que encontram dificuldades de inserção social nos padrões estabelecidos pela economia capitalista em suas manifestações locais e regionais.

Por isso, a proposta de formalização da ITCEES surge com foco na potencialização da economia da região de abrangência do Campus, nos seus mais diferentes aspectos, principalmente no tocante ao desenvolvimento de empreendimentos econômicos solidários, legalizados como cooperativas e associações, visando reverter o baixo dinamismo apresentado.

Outro ponto de destaque da incubadora é seu trabalho com questões socioambientais. Num primeiro momento, a incubadora voltou seus esforços para o assessoramento gerencial de seus incubados, mas com o tempo outras demandas foram surgindo, como as questões ambientais do município de Cerro Largo. Nesse sentido, a ITCEES organiza mensalmente o Fórum de Gestão Social. Nesse encontro, participam membros da sociedade civil organizada – clubes de serviços (Lions Club, LEO Club, Rotary Club, Rotarct), Ministério Público, Defensoria Pública, Poder Judiciário, Prefeitura Municipal de Cerro Largo, munícipes, professores, estudantes, pesquisadores ambientais, grupo de agentes de materiais recicláveis, entre outros. Atualmente, as atividades do fórum estão voltadas a discutir os problemas sociais e ambientais do município, auxiliando na construção de soluções ou alternativas para os problemas vivenciados em Cerro Largo. Espera-se que este espaço de promoção da cidadania participativa e de dialogicidade democrática contribua para o desenvolvimento da cultura política desta região.

A ITCEES organiza suas ações de ensino, pesquisa e extensão focadas no assessoramento a partir de um modelo teórico de referência, no qual são utilizados quatro conceitos que o fundamentam: organização (Incubadora), as incubadas (empreendimentos econômicos solidários e cooperativas), representantes do grupo social beneficiário e a sociedade.

No que se refere à organização, foi utilizada uma definição derivada do Modelo da Congruência (NADLER, GERSTEIN e SHAW, 1994). Nessa perspectiva, a organização possui três características principais: primeiro, ela é considerada como um sistema em transformação que atua (influi e sofre influência) em uma realidade social, cultural e política; segundo, a organização atua em uma rede de grupos de relação – por exemplo, as cooperativas e empreendimentos econômicos solidários fazem parte de um sistema maior (o mercado) e estão articuladas com vários grupos de relação (universidades, movimentos sociais, ONGs, políticas públicas entre outros); terceiro, a organização, a partir de determinados insumos, produz serviços úteis e gera valor (MOORE, 1995) para a sociedade, especialmente, para os usuários.

A organização (Figura 1) é constituída por cinco componentes principais: pessoas, tarefas/tecnologias, organização formal, organização informal e representantes do grupo social beneficiário (gerentes = responsáveis pelas atividades de gestão da organização).

Figura 1: Modelo de organização

 

Fonte: Botelho, 2015.

 

Neste modelo a incubadora fornece suporte técnico e gerencial para as incubadas, essas por sua vez, por intermédio de seus gerentes são responsáveis por trazer à sociedade novos conhecimentos e inovação. Todo esse movimento leva ao desembocar do processo de desenvolvimento, não apenas econômico para uma região, mas também social e cultural.

 

Os primeiros incubados

 

Em 2015, foi aberto o primeiro edital de seleção para incubação de empreendimentos econômicos solidários e cooperativas (Edital nº 01/ITCEES/UFFS/2014), que previa a participação de empreendimentos sem fins lucrativos nos segmentos de atividades de agricultura familiar, rede de cooperativas, associações, catadores de resíduos, entre outros. Nesse edital foram selecionados os empreendimentos: Rede de Cooperativas, Associações e Agroindústrias do Território Missões (REMAF) e a Cooperativa de Produção e Comercialização da Agricultura Familiar de Cerro Largo (COOPACEL).

A REMAF é constituída por dez cooperativas associadas, contemplando mais de mil sócios (1063 beneficiados diretos), com o objetivo de disponibilizar aos associados maiores vantagens competitivas, maior lucratividade e eficiência no mercado dos municípios presentes das regiões de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Miguel das Missões, Roque Gonzales e Cerro Largo.

A COOPACEL é uma cooperativa de produção e comercialização e possui atualmente 64 famílias associadas, constituída, em sua maioria, por pequenos agricultores que produzem uma gama variada de alimentos, que comercializam em dois pontos de venda na cidade de Cerro Largo. Trata-se de uma experiência que possui articulação estreita com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e com o trabalho feito a partir dos Territórios da Cidadania.

 

O trabalho extensionista com os

 

primeiros incubados

 

Para a realização do trabalho extensionista, a equipe da ITCEES traçou um panorama analítico sobre a situação, demandas e necessidades de cada empreendimento incubado. Para auxiliar na elaboração de tal panorama, utilizaram-se as ferramentas do plano de negócios, das visitas técnicas aos empreendimentos, da realização de entrevistas com os gestores das cooperativas, realização de cursos e reuniões de trabalho com representantes dos incubados.

Como resultado da aplicação dessas ferramentas, pode-se tecer prioridades de trabalho para cada empreendimento incubado. Assim, para a REMAF, objetivou-se trabalhar com a elaboração de um plano de logística, marketing, gestão e financeiro. O plano de logística foi demandado, pois essa Rede adquirirá um caminhão para realização da logística da sua cadeia de suprimentos. Nesse sentido, se faz necessário o planejamento logístico dos produtos produzidos pelos agricultores cooperados de forma a garantir a efetividade da sistemática. E a incubadora está auxiliando os responsáveis pela atividade na elaboração desse planejamento logístico.

Quanto ao marketing, surgiu necessidade de tornar a REMAF mais evidente na região das Missões, numa proposta de que seus clientes reconheçam sua marca. Assim, propôs-se um selo de qualidade REMAF para os produtos comercializados pela Rede.

A REMAF ainda demandou à incubadora que fosse trabalhado com os gestores das cooperativas o espírito de rede de cooperação. Nesse sentido, a ITCEES promoverá uma série de encontros coletivos com os gestores como uma forma de fomentar essa demanda. Por fim, e como meta para o ano de 2017, a ITCEES espera promover, em parceria com a SICREDI, seminários de gestão financeira para os cooperados.

Na COOPACEL, através das visitas técnicas e entrevistas com os gestores, foram identificadas as seguintes demandas de trabalho para a Incubadora: pesquisa sobre o perfil dos clientes no quiosque, plano financeiro e marketing.

A pesquisa sobre o perfil dos clientes do quiosque foi realizada nos meses de agosto e setembro de 2016. Nessa pesquisa os resultados apontaram para questões estratégicas e rotineiras da administração da cooperativa. Esses resultados auxiliarão os gestores no processo de tomada de decisão. Outro ponto foi que a cooperativa propôs à Incubadora que tal pesquisa fosse ampliada para o outro ponto de venda e, assim, em novembro de 2016, iniciou-se a segunda fase da pesquisa.

Já para a demanda do plano financeiro, pesquisadores e técnicos da ITCEES elaboraram uma matriz financeira para auxiliar na gestão estratégica dos custos, o que contribui para a segurança na formação do preço de venda das mercadorias e demais tomadas de decisão da cooperativa. Esse produto foi entregue em outubro de 2016. Para as questões relativas ao marketing da cooperativa, a ITCEES sugeriu um selo de padronização nos produtos vendidos pela COOPACEL.

Para o ano de 2017, planejou-se a abertura de novo edital de seleção para incubados, como uma forma de continuar as atividades da incubadora e expandi-las, de forma especial, para uma atuação em segmentos mais vulnerabilizados no espaço urbano.

 

Contribuições da ITCEES para os três

 

pilares da universidade: ensino,

 

pesquisa e extensão

 

A criação da ITCEES, conforme mencionado, esteve pautada em sua possibilidade de contribuir para a amenização de diferentes problemas regionais, estimulando o desenvolvimento de novas metodologias de incubação articuladas com processos de desenvolvimento territorial e regional. Sua ação consiste em alavancar as condições de vida de uma população com dificuldades na obtenção dos benefícios do crescimento econômico e social, sem condições de acessar o mercado formal de trabalho pela baixa escolarização, ausência de qualificação ou até mesmo por ausência de oportunidades geradas pela economia capitalista, excludente por natureza.

As atividades da Incubadora estão pautadas nos três pilares de trabalho do ensino superior público: ensino, pesquisa e extensão, concebidos de forma articulada em suas ações, projetos e programas.

No ensino de graduação, o trabalho da incubadora centra-se no desenvolvimento de competências/habilidades que exigem uma prática pautada na interação com o aluno e na construção do seu conhecimento. Assim, as iniciativas dos alunos, o diálogo, os diferentes estágios de desenvolvimento cognitivo e sua autonomia devem ser considerados para que aconteça não somente o saber fazer, mas, acima de tudo, o saber por que está sendo feito. No ensino, as contribuições estão alicerçadas nas trocas de conhecimentos teóricos entre professores e alunos da UFFS. Esses conhecimentos oriundos da academia formam um arcabouço conceitual que auxilia na execução das atividades práticas e gerenciais da Incubadora. A análise da experiência vivida, até o momento, evidencia que alunos de diversos cursos de graduação contribuíram para a construção da própria incubadora, que incorporou ao seu quadro de bolsistas e voluntários (de vários projetos de pesquisa e/ou extensão) alunos de diferentes cursos – Administração, Letras, Engenharia Ambiental e Agronomia. Trabalhos de conclusão de cursos foram realizados na Incubadora e estágios não remunerados foram realizados nos empreendimentos incubados. Tudo isso proporcionou a troca de conhecimentos constantes entre alunos, professores e público atendido pela ITCEES.

No Ensino de Pós-Graduação, pode-se citar a inclusão da Incubadora como um dos laboratórios do Programa de Mestrado em Desenvolvimento e Políticas Públicas. A partir desta inclusão os alunos do mestrado têm este espaço como um locus de pesquisa e construção do conhecimento. No edital de programas e projetos de extensão realizado em 2016 (Edital nº 522/UFFS/2016), já estão inclusos dois alunos do Mestrado como integrantes da equipe de trabalho em programa submetido e aprovado no âmbito da ITCEES.

Na pesquisa, a incubadora deu início a novos projetos de pesquisa no âmbito da UFFS, bem como redefiniu linhas de pesquisa no âmbito dos grupos de pesquisa institucionalizados do CNPq, como no caso a Linha 3 – Inovação e tecnologia social – do grupo de pesquisa Estudos Organizacionais e Tecnologias de Gestão. Também existe integração da Incubadora nas atividades do Grupo de Pesquisa em Teorias e Processos de Desenvolvimento.

Dentre os projetos de pesquisa vinculados a ITCEES, estão: A ITCEES na dinâmica do desenvolvimento da região Norte e Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul: o papel da implantação, desenvolvimento e consolidação de uma ITCP em uma Universidade Federal e suas contribuições para o desenvolvimento local, aprovado na Chamada Universal – MCTI/CNPq n° 14/2014; Mapeamento das Incubadoras de Cooperativas Populares na região sul do Brasil; Projeto de elaboração de metodologia de desenvolvimento gerencial e de liderança para gestores incubados pela ITCEES.

Na extensão, a incubadora busca, além da troca de conhecimentos entre professores e alunos, a junção com os saberes populares da sociedade e os modelos de autogestão utilizados em cooperativas e empreendimentos econômicos solidários. Tudo isso causa nos participantes do projeto, mudanças em suas formas de pensar e agir. Além disso, a proposta visa promover uma forma alternativa de gestão sustentável de empreendimentos. Na extensão, a contribuição das atividades da incubadora é ímpar. Através de encontros, reuniões e visitas técnicas com os incubados, a Incubadora trabalha suas demandas.

Dentre os projetos de extensão vinculados à ITCEES, estão: Metodologia para implantação do programa de formação e institucionalização de incubadora Tecnossocial de Cooperativas e Empreendimentos Econômicos Solidários da Universidade Federal da Fronteira Sul no Campus Cerro Largo-RS, aprovado na Chamada MCTI/SECIS/MTE/SENAES/CNPq nº 89/2013 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Formação e institucionalização de incubadora tecnossocial de cooperativas e empreendimentos econômicos solidários da Universidade Federal da Fronteira Sul no Campus Cerro Largo-RS, aprovado no PROEXT 2013/MEC/SESu; Disseminação de conhecimentos sobre economia solidária e cooperativismo na área de atuação da UFFS no campus de Cerro Largo-RS, aprovado no Proext 2015; Programa de Extensão: Metodologia para implantação do programa de formação e institucionalização de incubadora tecnossocial de cooperativas e empreendimentos econômicos solidários da UFFS no Campus Cerro Largo-RS, aprovado no Edital nº 518/UFFS/2013; Projeto de formação, organização e institucionalização da ITCEES da UFFS – Campus Cerro Largo-RS, aprovado no Edital nº 518/UFFS/2013; Projeto Capacitação de agentes multiplicadores e estruturação da ITCEES da UFFS – Campus Cerro Largo-RS, aprovado no Edital nº 518/UFFS/2013; Implantação do laboratório do curso de Administração: incubadora tecnossocial de cooperativas e empreendimentos econômicos solidários da UFFS – Campus Cerro Largo; Formação e institucionalização de incubadora tecnossocial de cooperativas e empreendimentos econômicos solidários da UFFS – Campus Cerro Largo-RS, demanda espontânea.

 

Desafios futuros

 

A humanidade vive um momento de transição social. Em lugar do capitalismo industrial com forte presença do Estado como elemento de regulação social, está em desenvolvimento um tipo de capitalismo informacional, tecnológico e financeiro, profundamente globalizado e ancorado na ideia do livre mercado e das cadeias globais de valor. O processo de reestruturação produtiva, decorrente da crise do capitalismo e do socialismo real, gerou a expansão de novas formas de organização da produção, do trabalho e da própria vida em sociedade. A eliminação de postos de trabalho no mercado formal, especialmente decorrentes da nova onda tecnológica e das novas formas da acumulação capitalista, têm gerado intensos processos de exclusão e exposto grandes parcelas da população ao emprego informal ou a outras alternativas de sobrevivência para além dos padrões convencionais da economia capitalista.

A inserção do Brasil neste novo contexto da dinâmica capitalista se deu, de forma mais intensa, a partir da década de 1990. Nessa inserção defrontaram-se dois modelos, em grande parte, bastante diferenciados, especialmente no que concerne à participação do Estado e ao papel representado pela sociedade civil. De um lado, os defensores do ideário neoliberal que apregoavam uma inserção subordinada, controlada pelas forças do mercado, atribuindo ao Estado apenas o papel normatizador e compensador das desigualdades. De outro lado, os defensores de uma proposta neodesenvolvimentista, que advogavam uma participação mais incisiva do Estado enquanto indutor dos processos de desenvolvimento e de inclusão social. Esses modelos estiveram em confronto e/ou interação ao longo dessas duas décadas e meia, ora predominando um (neoliberal – década de 1990), ora predominando outro (neodesenvolvimentista – 2003 a 2014).

As consequências dessa inserção na nova dinâmica da economia capitalista têm evidenciado enormes dificuldades para garantir a participação de todos nos processos produtivos e nas dinâmicas sociais a partir de pressupostos essenciais de garantia de direitos e usufruto das “liberdades substantivas” (SEN, 2000). A organização de processos associativos de trabalho e de geração de renda vêm emergindo como uma das possibilidades de enfrentar a exclusão gerada pelo processo de reestruturação capitalista. As diversas formas com que se estruturam esses processos associativos, os sujeitos sociais envolvidos, os impactos produtivos e gerenciais, os mecanismos de articulação, as novas formas de geração e expansão da tecnologia, as formas de publicidade e comercialização dos produtos, entre outros aspectos, constituem-se em desafios a serem investigados pela academia e respondidos no tempo adequado em que exigem os processos sociais e o diálogo com os atores envolvidos.

Nessa nova conjuntura criada com a necessidade de rever a relação entre Estado, sociedade civil e mercado, a partir da década de 1990, é que se insere o debate a respeito da economia solidária. Com diversas denominações (Economia Solidária, Socioeconomia Solidária, Economia Popular, Economia Popular e Solidária, entre outras), carregando conotações teóricas e político-ideológicas diferenciadas e emergindo de diferentes espaços, representam uma resposta às mudanças estruturais da sociedade capitalista e à conjuntura de transformação da sociedade brasileira. Diferentemente dos padrões de produção, acumulação e organização do trabalho capitalista, essas novas experiências regem-se pelos princípios da solidariedade, da ajuda mútua, da partilha dos resultados, da deliberação democrática, da busca de novas formas de inserção e, por que não, da geração de novos mercados. A expansão dessas experiências, evidenciadas por Singer e Souza (2000), demonstram que a sociedade brasileira tem procurado responder aos desafios da construção de novos arranjos societários capazes de levar à maior inclusão social e garantia de direitos.

Cattani (2003) refere que a expansão dessas experiências fundadas na solidariedade não é exclusividade do Brasil ou dos países periféricos, mas insere-se no próprio centro dinâmico e nevrálgico do capitalismo central, tornando evidente as suas contradições e a necessidade de produzir novas formas de organização da sociedade. Em direção semelhante, Boaventura Santos (2002) entende necessário mapear essas experiências e discutir as potencialidades que apresentam em direção a uma economia não capitalista.

Nos embates teóricos e político-ideológicos a respeito da denominação que venha a assumir essas novas formas de produção e organização do trabalho, destacam-se duas concepções que são dominantes no Brasil, mesmo que não sejam contraditórias entre si. A primeira tende a afirmar a ideia de “economia solidária”, assentando-se nos princípios da propriedade coletiva dos meios de produção, da solidariedade, da autogestão, da repartição equitativa dos resultados, da democracia interna, da valorização dos sujeitos envolvidos e do cultivo de novas relações sociais. A segunda, tende a reforçar esses princípios e ainda ressaltar a ideia da “economia popular e solidária”, ou seja, evidenciando o caráter do espaço social onde são produzidas e a proposta de contraposição à racionalidade econômica capitalista (SINGER, 2000; GAIGER, 2004).

Considerando que essas tendências dominantes polarizam o debate nacional, cabe à universidade criar um espaço propício de reflexão e debate aberto a esse respeito, sem excluir as compreensões que são periféricas ou tomar posição, a priori, por alguma delas. O clima de reflexão constitui-se a essência da Universidade, deixando para os indivíduos, em suas instituições e experiências, tomar as posições político-ideológicas.

A representatividade econômica e social dessas experiências fundadas na solidariedade permite afirmar que se trata da emergência de uma nova forma de “fazer economia” e “produzir relações sociais e interpessoais”. A emergência dessas experiências representa uma realidade e um desafio para entendê-las no contexto nacional e, especialmente, no local e regional, onde a carência de estudos dessas experiências constitui-se um campo fértil para o espaço da Universidade. Para isso é preciso que elas sejam sistematizadas, isto é, que sobre elas se promova uma ampla reflexão, no sentido de avaliar suas virtudes e detectar os pontos de estrangulamento, inerentes a qualquer processo de inovação. Uma questão importante refere-se à necessidade de capacitar os sujeitos dessas experiências para a reflexão e a produção de conhecimentos sobre suas próprias experiências. Nesse sentido é que reside uma ampla contribuição da experiência das incubadoras de economia solidária para a produção de conhecimentos e geração de alternativas de trabalho e renda diante do contexto da reestruturação capitalista.

Por outro lado, a emergência dessas experiências de economia solidária tem evidenciado a dificuldade de organização e constituição sem a participação e o aporte decisivo de políticas públicas que tenham o Estado como indutor. O cenário mundial e brasileiro atual apontam para uma hegemonia dos ideários da economia e da sociedade de mercado, o que tende a trazer mais desafios ainda às experiências organizadas a partir dos princípios da economia solidária. Como construir formas de resistência ou como buscar mecanismos de sustentação, organização e financiamento, provando sua viabilidade e suas características transformadoras, constituem-se em enormes desafios que as incubadoras de economia solidária nos espaços universitários precisam enfrentar.

 

Referências

 

CATTANI, Antonio D. (org.). A outra economia. Porto Alegre: VERAZ Editores, 2003.

 

FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de; LAVILLE, Jean-Louis. Economia solidária: uma abordagem internacional. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

 

FROTA, M; BOTELHO, L; BARTH-TEIXEIRA, E. Incubadoras tecnossociais de empreendimentos de economia solidária: apontamentos sobre a articulação do ensino, da pesquisa e da extensão universitária. Senests, 2016.

 

GAIGER, Luiz Inácio (org.). Sentidos e experiências da economia solidária no Brasil. Porto Alegre: UFRGS, 2004. MAZZILLI, Sueli; MACIEL, Alderlândia S. A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão: caminhos de um princípio constitucional. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 33, 2010. Caxambú. Anais… Caxambú, MG: Anped, 2010.

 

MOORE, M. H. Creating public value. Cambridge (MA): Harvard University Press, 1995.

 

NADLER, D.; GERSTEIN, M. S.; SHAW, R. B. Arquitetura organizacional: a chave para a mudança empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

 

ROTTA, Edemar; BÜTTENBENDER, Pedro L.; HOFLER, Cláudio E. A presença dos princípios do cooperativismo no Noroeste do Rio Grande do Sul: revisitando a tradição histórica. In: CORAZZA, Gentil; RADIN, José Carlos (org.). Fronteira Sul: ensaios socioeconômicos. Florianópolis: Insular, 2016, p. 165-196.

 

SANTOS, Boaventura Souza (org.). Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

 

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

 

SINGER, Paul; SOUZA, André Ricardo (org.). A economia solidária no Brasil – autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000.