Extensão universitária na UFFS

Émerson Neves da Silva · Capítulo 3 de 9

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Extensão universitária na UFFS

Juventude rural e sucessão familiar: o que dizem jovens da agricultura familiar no Oeste de Santa Catarina?

Juventude rural e sucessão

 

familiar: o que dizem jovens da

 

agricultura familiar no oeste de

 

Santa Catarina?

 

Darlan Christiano Kroth1 2 , Jucimara Meotti Araldi, Tomé

Coletti3 4 5 , Valdecir José Zonin , Willian Simões

 

Introdução

 

O presente capítulo é resultado de um projeto de extensão intitulado “Fortalecimento da Juventude Rural na Região Oeste de Santa Catarina”, possível a partir de uma articulação entre o extinto Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a

Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 6. É preciso destacar, também, a interlocução permanente com representações da juventude ligadas à Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar do Sul do Brasil (FETRAF-SUL). O referido projeto objetiva, de modo geral, contribuir com a formação continuada de jovens da agricultura familiar, futura sucessora das unidades de produção agrícola, visando qualificar sua capacidade de inserção em mercados institucionais – a exemplo do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) – e práticas de circuitos curtos de comercialização – a

exemplo de feiras livres 7.

O projeto dialoga diretamente com, pelo menos, 45 jovens da

agricultura familiar, sindicalizados e bolsistas (Figura 01 destaca os municípios de origem dos jovens). Até 2016, foram realizadas oito (8) oficinas temáticas centralizadas, em que os jovens tiveram a oportunidade de discutir temas como juventude, sucessão na agricultura familiar, políticas públicas voltadas à agricultura familiar, gestão e cooperativismo. Ao mesmo tempo, iniciaram trabalhos diagnósticos junto de suas famílias e agricultores familiares pertencentes à sua comunidade. No tempo-comunidade, os jovens são instigados a desenvolver pesquisas e reflexões a respeito de sua realidade vivida, micro-oficinas, procurando articular teoria e realidade.

 

Figura 01 – Municípios de origem dos jovens, projeto

“Fortalecimento da Juventude Rural na Região Oeste de

Santa Catarina”

 

Fonte: Relatório do projeto (set. 2016).

 

Neste texto, serão tecidas algumas considerações histórico-geográficas em torno da prática de agricultura familiar no oeste de Santa Catarina, sul do Brasil. Será possível observar no texto que a agricultura familiar possui diferentes expressões territoriais, emerge, se fortalece e convive em meio a um conjunto de contradições provocadas pelo avanço do agronegócio de suínos, aves e leite na região, assim como vem traçando estratégias alternativas ao modelo de desenvolvimento proposto pelas grandes agroindústrias. Na sequência, são apresentados dados diagnósticos dos sujeitos da pesquisa – os jovens da agricultura familiar participantes do projeto – que acabam aparecendo em diferentes partes deste capítulo.

É a partir dos dados diagnósticos que a opção foi refletir em torno de um dos temas mais recorrentes e mais preocupantes no seio das entidades e representações públicas, privadas e da sociedade civil que trabalham diretamente com a agricultura familiar no Brasil: a permanência do jovem no campo, o que inclui a sucessão familiar. Assim, procura-se destacar e refletir os dilemas e os desafios que marcam essa discussão, com destaque para o campo das políticas públicas de juventude no país. Observa-se que os jovens clamam por um campo que seja mais do que um espaço-mercadoria, espaço de produção, que o campo seja entendido como espaço de vida, com trabalho (geração de renda), educação que respeite suas especificidades, com saúde, habitação, acesso à cultura e lazer, entre outros.

 

Juventude rural e agricultura familiar

 

no oeste de Santa Catarina: os jovens

 

sujeitos de um projeto de extensão 8

 

A juventude rural, enquanto categoria social, compreende mais do que sujeitos que vivem em uma determinada faixa etária ou uma fase preparatória para a vida adulta. Enquanto categoria social, “ser jovem”, ser identificado ou se autodefinir “jovem”, constituir juventude, depende, também, das condições de classes sociais, diversidade étnico-racial, religiosa, de gênero e diversidade sexual, territorial, organização política, entre outros (GROPPO, 2000; DAYRELL, 2003; CAPELO, MARTINS e AMARAL, 2007; CASTRO, CORREA, MARTINS e FERREIRA, 2010).

A compreensão de juventude como sendo uma categoria socialmente construída é possível desde nosso olhar do presente. É deste presente, olhando para diferentes cenários históricos vividos pela humanidade no Ocidente, que podemos definir que a juventude enquanto categoria social é “ao mesmo tempo, uma representação sociocultural e uma situação social” (GROPPO, 2000, p. 07). Nesse sentido, podemos compreender que:

 

[…] a juventude é uma concepção, representação ou criação simbólica,

fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como

jovens, para significar uma série de comportamentos e atitudes a ela

atribuídos. Ao mesmo tempo é uma situação vivida em comum por certos

indivíduos (GROPPO, 2000, p. 08).

 

Somamos a essa compreensão a noção de juventude enquanto sujeitos sociais de Dayrell (2003). Para o referido autor, a juventude:

 

[…] é, ao mesmo tempo, uma condição social e um tipo de representação.

Se há um caráter universal dado pelas transformações do indivíduo numa

determinada faixa etária, nas quais completa o seu desenvolvimento físico e

enfrenta mudanças psicológicas, é muito variada a forma como cada

sociedade, em um tempo histórico determinado, e, no seu interior, cada

grupo social vai lidar com esse momento e representá-lo. Essa diversidade

se concretiza com bases nas condições sociais (classes sociais), culturais

(etnias, identidades religiosas, valores) e de gênero, e também das regiões

geográficas, dentre outros aspectos (DAYRELL, 2003, p. 42).

 

Nessa perspectiva, podemos afirmar que ser jovem e/ou reivindicar juventude no território da agricultura familiar é diferente de ser jovem em um acampamento ou assentamento da reforma agrária ou, ainda, em territórios indígenas, quilombolas, de pescadores artesanais, faxinalenses, ilhéus e ribeirinhos do litoral e do interior, entre outros povos e comunidades tradicionais, muito embora possamos considerá-los integrantes de uma “juventude rural”. Dessa forma, corroboramos a compreensão de que há diferentes formas de ser e de viver a juventude no espaço rural brasileiro, nas interfaces entre campo/cidade ou rural/urbano, e, por isso, podemos afirmar que, como o rural é diverso, marcado por múltiplas Geo-grafias (PORTO-GONÇALVES, 2001), muitas delas invisibilizadas ao longo do processo de constituição do território nacional, a juventude é diversa e, portanto, pode-se afirmar que no rural brasileiro há “juventudes rurais”.

As juventudes já fazem parte da agenda de investigação de diferentes pesquisadores há algum tempo no Brasil (WEISHEIMER, 2005; CASTRO, 2010). As pesquisas anunciam sobre a necessidade de ampliar os conhecimentos a respeito das juventudes que habitam o espaço rural brasileiro, que muitos jovens ainda vivem em situações de invisibilidade, subalternidade e abandono, cujas culturas e identidades, suas formas de ser, constituir e viver juventude na agricultura familiar, nos acampamentos e assentamentos da reforma agrária, nos territórios dos povos e comunidades tradicionais, ainda são, em boa parte, desconsiderados no seio das famílias e das comunidades (pelos mais adultos), nos processos de escolarização, na gestão das políticas públicas sociais de direito, entre outros.

A literatura ainda sinaliza que a noção de juventude veio sendo hegemonicamente construída com referência no mundo adulto, deixando de explicitar aspectos que marcam a construção de sua identidade, como constroem as representações sobre o contexto histórico-geográfico em que estão inseridos, como vivem e se relacionam com seu território de vida em um contexto marcado pelo avanço do meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 2006). Aqui, trataremos, mais especificamente, considerando cenários vividos por jovens da agricultura familiar.

No Oeste catarinense, pesquisas como a de Silvestro (2001) e Stropasolas (2006) já sinalizavam mudanças estruturais e conjunturais da sociedade capitalista que acabaram por atingir a vida do jovem no campo. A vida na agricultura familiar passou a ser marcada por profundas transformações provocadas pelo avanço do capital no campo – nesta região, provocadas principalmente pelas mudanças técnicas e científicas do agronegócio de aves, suínos e leite, por exemplo – e seus mais diferentes desdobramentos, como o encarecimento da produção e a necessidade de integração no mercado multi-trans-nacional, o avanço das monoculturas e das práticas convencionais, entre outros.

Tais mudanças, somadas aos conflitos geracionais oriundos das tradições da cultura camponesa, a exemplo da centralidade na família cristã, mas também no descrédito dos jovens por parte dos mais adultos para assumir responsabilidades, assim como as dificuldades de acesso à educação, geração de renda e às atividades de cultura e lazer, vieram contribuindo para potencializar o êxodo rural da juventude. Cabe destacar, também, aquilo que podemos denominar de “fetiche do urbano”, que diante desse cenário negativo, desperta e alimenta uma compreensão de que o espaço urbano é a saída para o desenvolvimento, para o emprego fácil e rentável, para a vida “na sombra”, como dizem alguns jovens. Não por acaso, uma das maiores preocupações que permeia a pauta dos movimentos sociais e sindicais da agricultura familiar é a sucessão da unidade familiar.

É preciso salientar que este fetiche do urbano se constrói e se fortalece ao longo de nossa história, sustentado por uma tradição urbanocêntrica-eurocentrada que se deslocou, se pulverizou e veio se fortalecendo desde o processo de colonização do território que hoje chamamos Brasil, mais atualmente por uma mídia publicitária, assim como pelo próprio Estado cujos governos priorizam o urbano em sua agenda de políticas públicas, a exemplo do fechamento de escolas e o amplo e permanente processo de nuclearização da oferta de escolarização nas sedes dos municípios. Com base em Fernandes e Molina (2004), consideramos que desdobramentos perversos emergem de ideologias que sustentam esse triunfalismo do urbano sobre o rural ou, ainda, a superioridade da cidade sobre o campo – ideologias que precisam ser superadas se queremos lutar, construir e fortalecer o campo como espaço de vida (SIMÕES, 2016).

Pode-se dizer que há certo consenso na literatura sobre a região Oeste catarinense, que o desenvolvimento regional ocorreu a partir da formação do complexo agroindustrial de carnes, primeiramente no segmento suinícola, depois no segmento de aves, e atualmente em diferentes setores agroalimentares, que exerceu e ainda exerce a função de atividade motriz regional. Assim, a agroindústria suinícola (exemplo), por um lado, e a agricultura familiar, por outro, acabaram dinamizando a economia regional desde a década de 1940.

Mas a que lógica estamos nos referindo quando estamos falando de agricultura familiar e camponesa, território de vida dos jovens sujeitos de nosso projeto de extensão? De acordo com Coletti (2009), a agricultura familiar e camponesa tem uma lógica econômica que combina um conjunto de produções vegetais e animais com uma determinada quantidade de mão de obra e com um determinado patrimônio em que se assenta a organização dos sistemas de produção nas propriedades familiares. De acordo com o autor, é na formação de sistemas de produção eficientes e adaptados à realidade de cada unidade, combinando as necessidades de reprodução econômica, social e cultural da família, bem como do conjunto de seus membros, com os recursos materiais e culturais disponíveis, que se encontra a lógica do comportamento econômico da agricultura familiar e camponesa.

Essa lógica econômica se difere da baseada na avaliação a partir do lucro. Ela está fundamentada na avaliação de resultado, no atendimento das diferentes necessidades do grupo familiar. Conforme afirmado por Chayanov, ao não ter na categoria salário a principal motivação para a realização do trabalho, essa lógica difere em seu comportamento econômico ao fazer o seu planejamento, sendo, ainda, diferente quanto à forma de circulação do capital (apud BADALOTTI, 2003).

É com uma tática de pequenas tentativas, com acertos e erros, que experiências geram a formação de novas combinações de produtos, trabalho e patrimônio, organizando a produção familiar e avançando em termos de garantia da reprodução do sistema de vida das famílias. É assim, em relação à formação da melhor combinação de culturas e animais, que formam o seu sistema produtivo. O mesmo vale para as mudanças técnicas das produções comerciais, com a formação e utilização do patrimônio, com a alocação da mão de obra e com as diferentes táticas e estratégias de se relacionar com o mercado.

Nessa estratégia reprodutiva encontra-se a forma com que a agricultura familiar busca preservar, em seu domínio, o conhecimento tácito de gerações e também agregar novos conhecimentos que passam a fazer parte de seu patrimônio cultural. Na combinação eficiente de culturas e criações com os meios de produção de que dispõe – terra e instalações – e na intensidade da utilização da mão de obra disponível, em um regime de gestão altamente flexível, parecem estar as explicações para um resultado sistêmico, que possibilita a sobrevivência e reprodução das unidades familiares da região Oeste catarinense.

A integração dos produtores de suínos às agroindústrias do agronegócio, por exemplo, assim como as transformações dela decorrentes, provocaram a desarticulação do sistema de produção e reprodução da agricultura familiar durante a década de 1980. Desencadeando-se desse processo, na década de 1990, uma profunda crise na agricultura familiar da região com a perda de seu dinamismo econômico, por um lado, e, por outro, fez com que a agricultura familiar buscasse alternativas para a sua reprodução, criando dois movimentos distintos: (i) construção de novos sistemas de produção, ancorados em outros produtos de valor comercial em substituição aos suínos; e (ii) migração para os centros urbanos ao longo de décadas.

A diminuição do dinamismo econômico da agricultura familiar e os reflexos negativos no desenvolvimento social e econômico dele advindos, durante as décadas de 1980 e 1990, levaram à perda de capilaridade e renda na agricultura familiar, deixando de ser dinamizadora da economia local dos municípios e microrregiões mais distantes. Esse processo levou á recessão desses territórios em determinados períodos. Então, ocorre o aumento da concentração da população e da dinâmica econômica nas cidades-polos, sendo que, em determinados períodos, processos de depressão de toda a economia regional foram percebidos. Observou-se, também, que a perda da capacidade dinamizadora da agricultura familiar não foi compensada pelo ganho na dinâmica da agroindústria do agronegócio e nem pelo processo de diversificação que estava em curso, refletindo-se em esvaziamento econômico e populacional da região relativamente às demais regiões do Estado.

O processo recente de retomada do dinamismo da agricultura familiar por meio dos sistemas de produção articulado ao leite, por exemplo, tem contribuído com a dinamização da economia dos pequenos municípios e das regiões mais afastadas dos polos regionais. Essa retomada é fruto do processo histórico e também de um conjunto de políticas públicas que incentivaram e contribuíram para a criação de condições para que este desenvolvimento ocorresse. Mas a história tem nos permitido evidenciar que este dinamismo enfrenta uma série de problemas para continuar existindo no futuro próximo, destacando-se, entre eles, os rumos que seguirá a produção familiar e a sucessão das propriedades familiares, muitas delas sem sucessores, com a aposentadoria e a velhice dos atuais proprietários.

Neste contexto histórico-geográfico mais atual, podemos evidenciar na constituição do território de vida da agricultura familiar do Oeste catarinense, portanto, pequenas propriedades familiares integradas ao mercado de suínos, aves e leite, e, ao mesmo tempo, unidades familiares que buscaram alternativas mais diversificadas, procurando manter certa “re-existência” frente a este processo amplo e perverso de integração. A “re-existência” aqui é entendida com inspiração no conceito “r-existência”, de Porto-Gonçalves (2006), como sendo o movimento em que determinados grupos constroem estratégias de resistência frente ao processo de integração forçada pelas agroindústrias do agronegócio e, ao mesmo tempo, se recriam, forjando práticas alternativas ao modelo de desenvolvimento proposto.

Estariam nessa condição, por exemplo: i) práticas alternativas e diversificadas de cooperativismo e economia solidária, com foco na produção de alimentos (com presença de produções agroecológicas e de agricultura orgânica); ii) o predomínio de circuitos curtos de comercialização, valorizando a gestão familiar e o trabalho coletivo – maior autonomia dos agricultores em torno do circuito de produção e recriação social; iii) e a participação de agricultores familiares na luta política sindical e em movimentos sociais populares pela garantia de direitos, visando a melhoria das condições de vida no campo. É nesse cenário que entendemos que o tema da permanência do jovem no campo – em específico, da sucessão familiar – é atual e relevante para o debate.

No projeto de extensão, ponto de partida de nossas reflexões, contamos inicialmente com a participação de jovens, com idade entre 15 e 29 anos, sendo 50% do sexo masculino e 50% do sexo feminino. No que se refere a sua escolaridade, o trabalho diagnóstico realizado nos permitiu constatar que 35,2% está cursando o Ensino Médio e que 33,3% já concluiu esse nível de ensino da Educação Básica. Cerca de 16,7% está cursando o Ensino Superior, e 9,3% já concluiu esse nível de ensino. Há cerca de 3,7% investindo em formação técnica ou que já concluiu um curso nessa modalidade.

São jovens da agricultura familiar, moradores em propriedades cujos tamanhos possuem a seguinte variação: até 5 ha (11,5%); de 5 a 10 ha (25%); de 10 a 20 ha (40,4%); entre 20 e 50 ha (17,3%); mais de 50 ha (5,8%). Constata-se o predomínio de pequenas propriedades, em que se destacam, por exemplo, a produção de leite (59,3%), lavoura de milho e soja (25,9%), agropecuária de aves e suínos (16,7%), hortifruti (16,7%) e a produção de produtos agroindustriais – queijos, salames, geleias, entre outros (9,3%). Cerca de 9,3% dos jovens mencionaram cultivar produtos agroecológicos. Cabe salientar que a produção para autoconsumo também foi alvo desta investigação, quando cerca de 52% dos jovens afirmou que, pelo menos, 10% da unidade familiar em que atua é voltada para produção de alimentos que são apropriados pela própria família.

Além das fontes de renda oriundas do trabalho na unidade familiar, os jovens sinalizaram que compõem a renda familiar as aposentadorias/pensões (23,9%), o salário de membros da família que trabalham fora da propriedade – trabalho não-agrícola (23,9%), prestação de serviços fora da propriedade (10,9%). Os jovens sinalizaram, no diagnóstico, bens materiais aos quais possuem acesso por meio de suas famílias, com destaque ao celular (98,1%), automóvel (92,6%), computador (88,9%), aparelho de som (64,8%), televisão de Led (61,1%), moto (57,4%) e trator (51,9%).

Constatamos que os jovens são ativos no seio do trabalho familiar, uma vez que em torno de 60% responderam auxiliar nas principais tarefas da casa, outros 16% afirmaram agenciar diretamente a produção. Apenas 20% respondeu que se dedica somente aos estudos, ainda assim apareceram os/as que mencionaram contribuir no que denominaram de “auxílio nas tarefas de casa”. Assim também demonstram participar da vida em comunidade, entre os principais espaços frequentados emergiram: a igreja (88,7% confirmou frequentar); sindicatos (47,2%) e cooperativas (79,6%); atividades esportivas como times de futebol, vôlei ou outros (34%); clube de jovens (18,9%); grêmio estudantil ou centros acadêmicos (9,4%).

Entre o trabalho e a vida comunitária, os jovens destacaram suas atividades de lazer, com parte fundamental de sua vida no campo. Sair com os amigos e frequentar bailes ou as famosas “baladas” apareceram no topo de suas preferências (77,4%). Mas também foram mencionadas, entre outras, as seguintes atividades: praticar esportes (62,3%); assistir televisão ou frequentar cinemas (47,2%); ler livros e/ou jornais (45,3%); namorar (41,5%). Muito embora os jovens tenham relatado inúmeras dificuldades de acesso aos meios de comunicação, todos demonstraram acessá-los de alguma forma, entre os principais se destacaram a internet (96,3%), o uso de celular (88,9%), a televisão (77,8%), o rádio (57,4%) e os jornais impressos (11,1%).

Os jovens apontaram que “a permanência do jovem na atividade rural tem grande importância para que as atividades na agricultura permaneçam e cresçam cada vez mais”. Cerca de 53% responderam que está no seu projeto de futuro estudar e continuar morando no campo; outros 14,7% sinalizaram que podem até trabalhar na cidade, mas querem permanecer no campo; somente 9,3% assumiu, neste momento, que não pretendem ficar no campo.

Os jovens participantes do projeto que manifestaram a vontade de permanecer no campo identificam, entre os principais entraves desta permanência, as seguintes razões: i) falta de políticas públicas que atendam aos seus reais interesses (52,9%); ii) infraestrutura inexistente ou precarizada, tais como estradas, meios de comunicação, energia elétrica, etc. (43,1%); iii) dificuldades com a lida do trabalho no campo (31,4%); iv) baixa renda (27,5%); v) problemas familiares, com destaque para conflitos de gênero e geração (25,5%). Assim, passamos a compreender que, para além dos conflitos geracionais vividos por estes jovens com seus pais, discutir a sucessão familiar engloba a compreensão de campo como espaço de vida e a juventude como sujeito de direitos, sujeitos estratégicos de políticas públicas – é desde essa perspectiva que acreditamos que este debate faz sentido no âmbito da agricultura familiar.

 

Os desafios da sucessão na

 

agricultura familiar, por um campo em

 

que seja possível ser jovem…

 

Os jovens destacaram que a maior parte de seus pais não acreditam ou não confiam em seu potencial, causando o que denominaram de “desânimo jovem”, o que acaba por contribuir para que haja maior procura pela cidade em busca de novas alternativas, com destaque para trabalho e renda. E, nesse sentido, Castro, Correa, Martins e Ferreira (2010, p. 62), afirmam:

 

No contexto contemporâneo da configuração da categoria social juventude,

podemos afirmar que os jovens são colocados em posições de submissão,

seja no espaço da família – principalmente as que reproduzem as estruturas

patriarcais mais tradicionais – seja em espaços cotidianos da sociedade. A

ideia de um período da vida privilegiado em que a sociedade (isto é, a

família, a escola, a igreja, as organizações políticas etc.) pode moldar

pessoas, gera ações de controle e repressão com base na ideia de um

indivíduo que ainda não é pleno de direitos. É este tipo de construção que

legitima ações mais ou menos violentas, por parte dessas diferentes

instituições sociais, sejam elas ações de violência física ou simbólica. Assim,

temos uma percepção reproduzida em nossa sociedade que valoriza

determinados elementos como definidores, identificadores dos jovens e da

juventude e que reforçam uma posição social subalterna (CASTRO,

CORREA, MARTINS e FERREIRA, 2010, p. 62).

 

Portanto, superar a razão adultocêntrica e patriarcal, que ainda é predominante nas relações familiares no seio da agricultura familiar, torna-se um importante desafio para se efetivar a sucessão familiar. O jovem da agricultura familiar precisa ser compreendido como categoria social, sujeito credível e estratégico para o desenvolvimento do campo de modo geral – em atividades agrícolas e não agrícolas. A partir dessa perspectiva, cabe compreender, também, o campo como espaço de vida em que é possível acessar educação pública e de qualidade, cultura e lazer, saúde, habitação, alternativas de geração de renda, entre outros (SIMÕES, 2016). Assim, o tema das políticas públicas também gerou muita polêmica entre os jovens, destacando-se a necessidade de superação de um olhar do Estado que vá para além do campo como espaço-mercadoria, do trabalho agrícola. Um olhar que tenha o campo como espaço de vida, constituído por essas múltiplas dimensões.

Os jovens destacaram a importância de ter, por exemplo, infraestrutura de comunicação básica (internet, celular, entre outros), centros de diversão para além dos espaços criados pelos próprios jovens (como campos de futebol, realização de festas comunitárias, entre outros) e incentivos à geração de renda, pensando em atividades agrícolas e não-agrícolas. Assim, a partir de uma soma de fatores, seguimos constatando que enquanto o campo é tomado por uma razão adultocêntrica, em que o mundo adulto é referência e o jovem é visto como alguém incapaz de contribuir, a cidade vai se constituindo como um espaço hegemônico em que se pode reivindicar juventude. Os jovens deste projeto sinalizam para uma inter-relação campo-cidade. Eis que emergem desafios aos governos em suas múltiplas escalas de atuação (nacional, estadual e municipal).

Pode-se dizer que permanecer ou sair do campo tem sido um dos históricos e principais dilemas vividos pelas juventudes rurais no Brasil. É preciso salientar que o êxodo rural da juventude é uma temática de pesquisa entre intelectuais brasileiros desde antes dos anos de 1980 (CASTRO, 2010). Ao tratar deste assunto em investigação realizada com jovens faxinalenses do estado do Paraná, Simões (2015) destaca pesquisas que contribuem para fortalecer o debate a respeito do tema: a pesquisa realizada por Castro (2005), com jovens assentados da Reforma Agrária, Baixada Fluminense-RJ; a de Stropasolas (2006), com jovens da agricultura familiar do município de Ouro-SC; o trabalho realizado por Carrano, Dayrell e Silva (2007), a partir de jovens quilombolas em Valença-RJ; e, por fim, a pesquisa de Wanderley (2007), que tratou de jovens agricultores familiares, de pequenos municípios nordestinos. Sobre o Oeste de Santa Catarina, queremos ainda destacar a publicação de Renk e Dorigon (2014), intitulada “Juventude Rural, Cultura e Mudança Social”, que pode ser vista como uma importante contribuição no que diz respeito a este debate sobre juventude e

sucessão familiar9.

A pesquisa realizada por Castro (2005), cujo foco se deu sobre a cotidianidade de jovens assentados da Reforma Agrária na Baixada Fluminense, por exemplo, nos mostra que marcam a dinâmica de ficar ou sair da comunidade, principalmente questões como os conflitos intergeracionais, a formação de novos núcleos familiares (o casamento), os estudos, a procura por trabalhos não vinculados à propriedade rural (trabalhos não agrícolas).

Já a pesquisa de Stropasolas (2006, p. 17), realizada com jovens da agricultura familiar do município de Ouro-SC, situado no Vale do Rio do Peixe, região Oeste de Santa Catarina (Microrregião de Joaçaba), nos permite compreender que permanecer ou sair, neste contexto, também é um dilema perpassado pelas questões que envolvem os padrões sucessórios da agricultura familiar. O pesquisador constata que transformações técnico-mecânicas, conjuntamente com a gradativa integração das famílias em sistemas mais complexos e dinâmicos provocados pela chegada das agroindústrias de aves e suínos, impulsionados pelo ritmo do mercado, provocaram mudanças substanciais na vida cotidiana dos trabalhadores. O trabalho mais alinhado às regras destas agroindústrias vai sendo considerado mais árduo e menos rentável pelos trabalhadores.

Outro trabalho que podemos destacar é o de Carrano, Dayrell e Silva (2007), em que a elaboração de um documentário com jovens quilombolas que vivem na comunidade São José da Serra, localizada no município de Valença-RJ, permitiu constatar a existência de questões que envolvem viver a vida na interface entre dinâmicas do campo e da cidade, as tradições do quilombo e as manifestações culturais externas, a tensão entre diferentes gerações e suas experiências, entre outros. Eles relatam:

 

No filme estão presentes as relações que esses estabelecem com a tradição,

o trabalho, o lazer, o território quilombola e a urbanidade próxima. Entre

cotidianos e projetos, se entrelaçam as dúvidas entre “ficar na comunidade”

ou “fugir para a cidade” em busca de oportunidades, a luta pela titulação da

terra, as dificuldades para a continuidade dos estudos, a constituição das

identidades de jovens e quilombolas, dentre outros enlaces (CARRANO;

DAYRELL; SILVA, 2007, p. 262).

 

Ao apresentar parte dos resultados de uma pesquisa realizada em Pernambuco, junto a 615 jovens de 15 a 24 anos, que vivem nas zonas rurais dos municípios de Glória do Goita (Zona da Mata Norte), Orobó (Agreste Setentrional) e Ibimirim (Sertão do Moxotó), Wanderley (2007, p. 22) tomou como compreensão a juventude como sendo “um momento do ciclo da vida, caracterizado como período de transição entre a infância e a vida adulta”. Segundo a autora, a demarcação desta etapa da vida, culturalmente determinada, “é sempre imprecisa, sendo referida ao fim dos estudos, ao início da vida profissional, à saída da casa paterna ou à constituição de uma nova família ou, ainda, simplesmente a uma faixa etária” (2007, p. 22).

Destaca Wanderley (2010, p. 23) que os jovens pesquisados pertencem em sua maioria à realidade vivida por famílias de pequenos agricultores, com determinadas características como pequenas propriedades, com produção diversificada para autossustento da família e para comercialização, resultado do trabalho familiar (típico da agricultura familiar). Para a autora, a partir desse contexto, supõe-se, para estudo da juventude rural, uma dinâmica espacial e outra temporal, ou seja, a compreensão de uma dupla dinâmica social. Nas palavras da autora:

 

[…] Por um lado, uma dinâmica espacial que relaciona a casa (a família), a

vizinhança (a comunidade local) e a cidade (o mundo urbano-industrial).

Mais do que espaços distintos e superpostos, trata-se essencialmente dos

espaços de vida que se entrelaçam e que dão conteúdo à experiência dos

jovens rurais e à sua inserção na sociedade. Por outro lado, nestes espaços,

a vida cotidiana e as perspectivas para o futuro são imbuídas de uma

dinâmica temporal: o passado das tradições familiares – que inspira as

práticas e as estratégias do presente e do encaminhamento do futuro; o

presente da vida cotidiana – centrado na educação, no trabalho e na

sociabilidade local e o futuro, que se expressa, especialmente, através das

escolhas profissionais, das estratégias matrimoniais e de constituição

patrimonial, das práticas de herança e sucessão e das estratégias de

migração temporária ou definitiva (WANDERLEY, 2007, p. 23).

 

Os trabalhos de Castro (2005), Stropasolas (2006), Carrano, Dayrell e Silva (2007) e Wanderley (2010) nos permitem destacar elementos marcantes da vida de jovens no Brasil rural e que contribuem para entender dilemas que perpassam a discussão aqui proposta em torno da permanência da juventude no campo, sobretudo daqueles jovens que vivenciam uma relação muito próxima entre as dinâmicas da vida no campo e na cidade, tais como a invisibilidade dessa juventude em diferentes esferas da vida social, o significado do trabalho, da cultura e do lazer, da educação (como estratégia para mudar/melhorar de vida), os conflitos provocados por relações desiguais de gênero, em particular envolvendo o processo sucessório da propriedade agrícola.

 

Considerações finais

 

O presente capítulo procurou apresentar, ainda que sinteticamente, reflexões que temos promovido a respeito das realidades vividas por jovens da agricultura familiar do Oeste catarinense, com destaque para os dilemas que perpassam as possibilidades de sua permanência no campo, em particular, a sucessão familiar. Muito embora tenhamos identificado que os jovens ainda convivem em uma trama social que subalterniza seus saberes e práticas, destacamos que sua permanência no seio da agricultura familiar também compreende a existência de um campo com vida – com alternativas de geração de renda, educação, cultura, lazer, saúde, habitação, saneamento básico, entre outros.

Nesse sentido, destacamos a importância de potencializarmos a relação Universidade-Comunidade Regional, com o intuito de ampliarmos a oferta de processos formativo-educativos, que, desde uma concepção dialógica e popular de educação, contribuam para problematizar tais dilemas, assim como para apontar possibilidades de mudança. Corroboramos, portanto, o que afirmam Trevisol, Cordeiro e Hass (2011, p. 31-32): dois movimentos precisam se fazer presentes permanentemente em uma universidade que esteja a serviço da sociedade e em defesa de seus ideários (como a democracia, igualdade, respeito à diversidade, cidadania, justiça social, entre outros): o primeiro, sendo, “democratização de dentro para fora”, em que a UFFS supera distanciamentos/abismos na relação com os movimentos sociais e sindicais populares; já o segundo, denominado de “democratização de fora para dentro”, propondo um diálogo de saberes, intercâmbio de conhecimentos e práticas, reconhecendo que os sujeitos diversos da comunidade regional são sujeitos de conhecimento credível.

É desde essa perspectiva que nosso projeto de extensão vem atuando com jovens da agricultura familiar sindicalizada. Nesse sentido, o percurso formativo desencadeado procurou trazer para a arena de discussão dos jovens temáticas como “segurança alimentar e nutricional” procurando dar maior visibilidade aos pilares de sustentação de programas governamentais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), assim como tais programas podem se constituir em uma importante contribuição para o fortalecimento da agricultura familiar na região.

Na região Oeste catarinense, temos vivenciado o avanço das políticas públicas voltadas à agricultura familiar nos últimos 10 anos – PAA, PNAE –, compreendendo também a perspectiva de desenvolvimento territorial rural sustentável, o que tem ampliado cada vez mais a necessidade de melhor organização dos produtores, suas associações e cooperativas, como também a qualificação profissional com vistas à ampliação de suas capacidades de produção e escoamento de mercadorias. Nesse cenário, cabe acrescentar a emergência de demandas locais, como a implantação do restaurante universitário da UFFS e da gestão da compra de alimentos desta Instituição de Ensino Superior (IES) referente ao Hospital Regional (por causa do curso de Medicina), cenário que amplia a demanda por alimentos, uma vez que as chamadas públicas específicas com base em editais que já consideram as especificidades da agricultura familiar serão ampliadas.

A intenção foi promover um mergulho sistemático, dialógico e reflexivo em torno dos limites e das possibilidades dos programas como estratégia de fortalecimento da agricultura familiar. Cabe salientar, também, que ampliamos o debate sobre a importância da participação da sociedade em espaços que visam ao “controle social”, como é o caso do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA). O intuito pedagógico foi de poder detalhar a trama transescalar de poder, que envolve o campo político das políticas públicas que visam ao fortalecimento da agricultura familiar. Nesse sentido, entende-se que estudar e dialogar em torno do aporte teórico-jurídico que envolve e/ou sustenta os processos acerca do PAA e do PNAE é de fundamental importância no percurso formativo dos jovens da agricultura familiar participantes do projeto.

Os estudos realizados pelos jovens também contemplaram conhecimentos que visassem potencializar um “aprendizado teórico-prático sobre processos de gestão administrativa”, em uma perspectiva solidária e cooperada. Nesse sentido, priorizou-se o desenvolvimento de atividades que levassem os jovens a refletir sobre os desafios do trabalho coletivo, pressupostos e princípios do “trabalhar juntos”. Assim, de modo geral, a cooperação foi tomada como sendo “troca em que as partes se beneficiam” (SENNET, 2013). Nesse sentido, assumimos uma concepção de cooperação “ganhar-ganhar” em contraposição “tudo ao vencedor”. Nessa perspectiva, desde um contexto histórico atual marcado pela lógica do capital, em que a competição perpassa parte significativa das relações humanas, assumimos que enquanto na cooperação “ganhar-ganhar” as pessoas podem se unir e competir em torno da busca de um resultado/objetivo, no final de um processo “todas as partes saem ganhando”; já no “tudo ao vencedor”, aquele que se sobressai em um processo seletivo, está pensando apenas em seus interesses mais individualizados em que “nos negócios”, por exemplo, trata-se da lógica do monopólio, em que “a ideia é eliminar todos os concorrentes” (SENNET, 2013, p. 97-113).

E, por fim, cabe salientar a relação teoria e prática, uma vez que trabalhos de campo foram realizados com o intuito de conhecermos experiências positivas de produção e estratégias de comercialização, perpassadas pelos princípios do cooperativismo e economia solidária, assim como a preocupação em produzir e comercializar um alimento mais saudável à população. Defende-se, como eixo fundamental deste processo formativo, uma concepção de produção agrícola mais limpa, saudável, economicamente solidária e ecologicamente sustentável.

 

Referências

 

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