Fogo & Estrelas

Audrey Coulthurst · Capítulo 3 de 3 · parte 3/5

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Fogo & Estrelas

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Lorde Kriantz e alguns vassalos se embrenharam na mata para checar o

perímetro quanto a sinais do responsável pelo ataque. Shadow se mexia inquieta sob mim enquanto eu engasgava com o cheiro de carne queimada.

A Capitã Ryka se agachou ao lado do rei, encostando a bochecha em seu

rosto.

– Ele está respirando!

Thandi saltou de sua sela, entregou as rédeas de Zin a um cavaleiro que

estava por perto e correu para o lado do pai.

– Ele está vivo – Thandi sussurrou como se fosse uma oração. Desmontei de Shadow e apertei meu estômago. Aquilo não podia ser

culpa minha. Não podia. Eu jamais machucaria o rei. Eu jamais machucaria ninguém. Tentei relembrar de instantes atrás, se havia algo queimando. Eu me sentia enjoada, mas não era aquela sensação estranha de vazio e exaustão que geralmente vinha quando eu usava meu poder. Não podia ter sido eu.

Lorde Kriantz chegou trotando em sua égua.

– Não achamos ninguém – ele disse.

Thandi cerrava e rangia os dentes, olhando fixo para as árvores por um

instante antes de se virar para os vassalos que o rodeavam.

– Croden e Lianna, vasculhem a área novamente. Você no cavalo baio, vá

buscar um médico e uma maca, o mais rápido que seu cavalo conseguir. Os demais, continuem cavalgando. Ainda temos que levar as éguas de reprodução para casa.

Todos reagiram depressa às ordens confiantes dele, os cavalos se

movendo velozes por entre as árvores e a trilha abaixo. Pela primeira vez, enxerguei o homem que seria rei um dia. Um silêncio estranho se abateu sobre a floresta quando os cascos dos cavalos sumiram à distância. Entre o silêncio da mata e a imobilidade do corpo do rei, era difícil acreditar que ele fosse sobreviver.

– Há algo que eu possa fazer, Sua Alteza? – Lorde Kriantz perguntou. Thandi o encarou com olhos turvos.

– Fique por perto. Talvez eu precise de seus conselhos, amigo.

– Como quiser, Alteza.

– Como isso pôde acontecer? – Thandi grasnou. – Ele não tem nenhuma marca de arma.

Lorde Kriantz falou com pesar:

– Não foi um ataque comum, Sua Alteza. Deve haver magia por trás. Que outra coisa faria as chamas arderem na cor roxa?

O semblante de Thandi ficou sombrio.

– Se um usuário de magia for o responsável, nós o encontraremos. – Ele baixou a cabeça sobre o corpo do pai. – Nós o acharemos e o esquartejaremos.

Tremi. Não havia misericórdia em sua voz. E não haveria modo de explicar que a existência da minha Afinidade não me tornava culpada.

– Talvez seja hora de começarmos a testar todos os presentes nesta cavalgada com o artefato dos Dissidentes – a Capitã Ryka sugeriu. – O responsável pelo ataque deve estar entre nós.

O torpor tomou conta de mim.

– Sim. – Thandi assentiu. – Agora mesmo.

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TRINTA E QUATRO

 

A massa carbonizada sobre a maca mal lembrava um ser humano, quanto mais meu pai. Soquei a parede de pedras dos estábulos repetidamente enquanto os médicos debruçavam sobre a maca e o levavam para longe, com a Capitã Ryka os seguindo apressada. Por mais que eu estivesse brava com meu pai por diversos motivos, a ideia de tê-lo tão perto da morte me deixava arrasada. Afinal, eu já havia perdido minha mãe.

Eu devia ter participado da cavalgada, e teria feito isso se conseguisse ficar perto de Denna sem que meu coração ardesse feito uma fogueira. Se alguma coisa tivesse acontecido com ela, eu jamais me perdoaria. Não fui atrás dos médicos – não havia nada que eu pudesse fazer. Em vez disso, esperei na porta dos estábulos, pronta para ajudar com os cavalos. Pelo menos era algo que eu sabia fazer. Limpei a sujeira das mãos e saí para o crepúsculo.

Lorde Kriantz chegou primeiro, o pescoço de sua égua dourada ainda arqueado, revelando disposição. Eu a segurei enquanto ele apeava, e então passei as rédeas para seu tratador particular.

Eu o olhei nos olhos, querendo que ele entendesse o que eu estava perguntando sem que tivesse que usar palavras.

– Talvez ele sobreviva, milady – ele disse com um ar grave.

Balancei a cabeça, absorta, meus olhos focando nos outros cavaleiros que chegavam. Todos tinham a mesma expressão. Exaustão. Medo. Tristeza.

Lorde Kriantz apertou meu braço com gentileza.

– Sinto muito, Mare. Se houver algo que eu possa fazer por você ou sua família…

– O que aconteceu? – interrompi.

Ele chegou mais perto de mim.

– Foi um ataque de magia – ele disse, sua voz tão baixa que só eu podia ouvi-lo.

Fiquei tensa e ele se afastou. Aquilo não fazia sentido. Parecia que a

maioria dos Dissidentes havia sido capturada. Denna jamais machucaria alguém. Quem mais com uma Afinidade estaria à solta?

– Deu tudo certo com as éguas e os potros? – ele perguntou subindo a

voz.

– Sim. Tudo certo. Eles estarão prontos para a seleção… se acontecer na

próxima semana, como programado – falei.

O relincho estridente de um potro desmamado chamando sua mãe ecoou

no cercado de contenção. O som partiu meu coração. Embora dentro de alguns dias eles se acostumassem com a separação, naquele dia a perda de suas mães ainda era muito difícil. A coisa mais importante da vida deles lhes havia sido tirada.

– Ótimo. Se precisar de alguma coisa, por favor, me diga. – Lorde

Kriantz pôs uma mão reconfortante no meu ombro.

Thandi entrou nos estábulos, já desmontado de sua égua. A cabeça de Zin

estava baixa, as laterais de seu corpo manchadas de suor seco. Ela deu um suspiro quando o cavalariço segurou suas rédeas.

– Qual a gravidade? – perguntei a ele.

Thandi balançou a cabeça, seus olhos azuis inescrutáveis. – Diga qual a gravidade – falei, agarrando Thandi pelos ombros como eu

costumava fazer quando éramos mais jovens.

– É grave, Mare, ok? – Ele se livrou de mim. – Não posso falar agora.

Tenho… tenho providências a tomar.

Segurei o braço dele para fazê-lo parar um instante. – Estou aqui se precisar de mim – falei.

Ele apertou meu braço em resposta e assentiu. Lorde Kriantz gesticulou para Thandi.

–Vamos para o castelo. O Conselho precisará de você. Mare pode

acompanhar a Princesa Dennaleia.

Meu coração traiçoeiro acelerou.

Thandi assentiu mecanicamente e seguiu Lorde Kriantz colina acima,

com quatro vassalos de escolta. Os ombros de Thandi ainda não pareciam largos o bastante para carregar o fardo de ser rei, ainda que por um só dia. Era estranho pensar no meu irmão como um homem. Pouco mais de um ano mais jovem que eu, e já era um homem. Um rei, se os Seis levassem meu pai.

Sentei em um fardo de feno e me encostei na parede do estábulo, observando o desfile de cascos passar enquanto os últimos participantes da Cavalgada chegavam. Só me levantei quando Denna e Shadow se aproximaram do celeiro, e então corri para ajudar Denna com a sela. Seu semblante cansado mal mudou ao me ver, mas sua transformação discreta já bastava.

Ela saltou do lombo de Shadow direto para os meus braços, toda sal e suor e cachos lamacentos que ainda cheiravam a doces rosas de verão. Um cavalariço veio buscar seu cavalo e eu a estreitei em meus braços, abraçando-a como se ela fosse minha única âncora.

– Foi tão horrível, Mare – Denna murmurou em meu ouvido. – Ele estava bem na minha frente.

Eu me afastei um pouco e inspirei de forma irregular. Se ao menos eu estivesse lá para o meu pai… e para ela.

– Mas ele vai sobreviver. Precisa sobreviver – ela disse. Ela contou tudo que acontecera naquela tarde com a voz trêmula.

– Mas de onde veio o fogo? – perguntei.

– Eu gostaria de saber, mas não foi de mim. Juro! Eu jamais machucaria alguém. – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Mas Lorde Kriantz… ele olhou para mim logo em seguida como se enxergasse dentro de mim. Acho que talvez ele saiba da minha Afinidade. – Seu rosto foi tomado pelo medo.

– Não há como ele saber – falei. – O povo dele não usa magia. A maioria das tribos de Sonnenborne nem cultua os Seis.

– Mas e se ele disser aos outros que fui eu? – ela sussurrou.

– Por que ele faria isso? Ele tem tentado nos ajudar.

– Não sei. Estou com medo – ela admitiu. – Thandi disse que, se encontrasse o feiticeiro, ele o mataria. A Capitã Ryka sugeriu testar todos que participaram da cavalgada de hoje. Thandi concordou. Quem mais eles poderão culpar?

– Ninguém vai matar você – falei.

– Senti sua falta hoje – ela disse. – Até… até o acidente, eu mal consegui pensar em outra coisa. – Ela parecia uma garotinha assustada, tão perdida quanto um dos potros desmamados que chamavam por suas mães. Mas a única pessoa que ela chamava era eu, e esse chamado eu podia atender.

– Também senti sua falta – falei com a voz rouca.

Deixamos os estábulos em silêncio e ficamos de mãos dadas no jardim, onde ninguém podia nos ver. Segui Denna até seus aposentos feito um cão perdido. Eu me sentei diante de sua penteadeira e pedi que um pajem buscasse uma muda de roupa para mim, enquanto Auna a banhava no cômodo adjacente. Senti que enlouqueceria se não ficasse perto dela.

Depois que Denna dispensou Auna pelo resto da noite, ela finalmente

sussurrou meu nome.

– Mare.

A forma como ela disse foi cálida. Aconchegante como o lar. Como o

fogo na lareira e o rubor em minhas faces quando ela se aproximou.

– Denna – respondi.

Ela atravessou o cômodo e pegou minha mão, ficou na ponta dos pés e

encostou sua bochecha na minha. O toque fez um arrepio percorrer meu corpo. Não importava quantas vezes nos tocássemos, jamais me acostumaria com a perfeição do seu corpo encostando no meu.

Eu queria dizer a ela o quão vergonhoso era para a Coroa que eu ficasse

diante dela, o quão desonroso era permitir que meu coração batesse daquele jeito por ela. Eu já havia decepcionado muita gente, mas aquele era um novo nível, até para mim. Mas ela precisava de mim. E eu precisava dela. E, diabos!, a cabeça dela encaixava direitinho no meu ombro, como se tivesse sido feita sob medida para mim.

Ela me puxou para perto da lareira e nos sentamos juntas. Segurei a mão

dela no meu colo e percorri com o dedo as linhas de sua palma.

– Lorde Kriantz me pediu em casamento – falei. Ela puxou a mão e a fechou.

– O que você respondeu? – ela sussurrou.

O peso da pergunta se abateu sobre nós. Eu não sabia se ria, se chorava

ou se gritava.

– Ainda não respondi nada. Estou pensando a respeito. – Dei de ombros.

Tudo que eu precisava para declinar a proposta dele era a promessa do amor de Denna, a promessa de um futuro juntas. Mas ela tinha que oferecer isso de livre e espontânea vontade. Ela tinha tudo a perder.

– Só pode estar brincando – ela disse. – Ainda temos trabalho a fazer.

Ainda há uma pessoa lá fora que precisamos deter. – Uma fagulha pulou do fogo e se apagou chiando no chão de lajotas.

Olhei para aquilo desconfiada, e ela respirou fundo. – Posso continuar trabalhando nisso mesmo se estiver casada com Lorde

Kriantz. Talvez ele possa nos contar mais alguma coisa. – Enfim a olhei nos olhos, desejando que eles não causassem uma sensação estranha no meu estômago. Desejando que eles não fizessem com que eu quisesse beijá-la.

– Mas se não conseguirmos descobrir o que está havendo, os reinos entrarão em guerra com Zumorda. E você estará lá, tão perto das linhas de frente… – A voz dela vacilou.

– O que a faz pensar que eu me preocupo com isso? O que isso importa? Não posso ficar aqui, Denna. Não posso ver você se casando com meu irmão. – Quase não consegui pronunciar aquelas palavras.

– Mas Lorde Kriantz não ama você! – ela cuspiu as palavras.

– E você ama meu irmão? Como isso é diferente?

– É você quem eu amo. Até o casamento vou pensar em alguma coisa. Por favor, me dê mais um tempo. Preciso disso – ela implorou. – Preciso de você.

Ela ficou em pé e então se ajoelhou diante de mim.

– Por favor – ela disse, segurando minhas mãos entre as suas. – Por favor, fique comigo esta noite.

Uma guerra irrompeu no meu coração.

Ela beijou as costas das minhas mãos.

Eu não podia ficar.

Ela pôs a mão no meu joelho e a deslizou devagar pela minha coxa até eu ficar ofegante.

Eu tinha que ir embora.

Ela se levantou e se sentou no meu colo, e então tocou minha bochecha, um toque tão suave quanto uma pluma, fazendo minha pele se arrepiar até a linha dos cabelos.

Umedeci os lábios.

Ela encostou a boca no meu pescoço, beijando delicadamente um ponto em que era possível sentir a pulsação sob minha pele.

Eu não conseguia mais raciocinar.

– Não devíamos fazer isso – sussurrei.

– Eu sei.

Ela me conduziu até sua cama e me deitou ao seu lado. Deixei que suas mãos percorressem meu corpo, me perdendo em desenhos que ela traçava sobre minha pele. Quando seus lábios tocaram os meus, nos beijamos até quase ficarmos sem ar, até eu não resistir mais e deslizar minha mão por sua coxa, erguendo sua camisola até os quadris, sua pele macia feito seda e quente sob meus dedos.

Denna ganhou coragem com meu toque e enfiou sua mão por debaixo da

minha camisa até tirá-la por cima da minha cabeça. Sua boca se mexia sobre minha pele exposta, o constrangimento rapidamente se transformando em desejo. Quando ela colocou sua mão entre minhas pernas, o que restava da minha timidez desapareceu. A confiança de seu toque não deixava dúvida de que ela desejava cada milímetro do meu corpo, e eu estava adorando aquilo.

– Desejo você há tanto tempo – ela sussurrou.

Eu quase chorei com o impacto que aquelas palavras tiveram em mim.

Era aquilo – aquilo – que eu esperava. Ela era o que sempre precisei. Tirei a camisola dela por cima de sua cabeça para que nossas peles nuas se tocassem, fascinada pela forma como seus dedos delicados e insistentes faziam uma emoção irrefreável crescer em mim.

Denna beijou meu pescoço e foi descendo pelo meu ombro enquanto meu

corpo era tomado por um prazer tão grande que eu não sentia mais nada além daquilo. Ela me abraçou com força, até que a intensidade diminuiu e finalmente consegui recuperar o fôlego. Assim que meus membros voltaram a responder, eu a abracei, ansiosa por retribuir. Ela pressionava seu corpo contra o meu avidamente, deslizando sob meus dedos. Ela ofegava em meu ouvido, um som suave e desinibido, e meu corpo todo se encheu de desejo novamente quando ela gritava e apertava minha mão com as coxas.

Depois que vestimos nossas roupas e ela finalmente adormeceu,

continuei acordada, meu corpo encostado no dela, tentando memorizar como ela se encaixava perfeitamente em mim. Eu precisava dela mais do que jamais havia precisado de alguém. Ela suavizava meus modos rudes. Ela me fazia melhor – ela fazia com que eu fosse menos quem eu era e mais quem eu queria ser. O único problema era que ela sempre fora destinada a outra pessoa. Seu peito subia e descia em uma respiração regular, e apenas fagulhas ocasionais acompanhavam seu ritmo, subindo das brasas no fogo que se extinguia na lareira.

Fechei os olhos, mas não consegui dormir. A imagem do corpo queimado

do meu pai me assombrava, e a cada minuto que passava eu tinha mais certeza de que as trompas dos Cavaleiros Brancos estavam prestes a soar.

Mas não foram os Cavaleiros Brancos que nos acordaram.

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TRINTA E CINCO

 

A porta do meu quarto se abriu subitamente antes do amanhecer,

inundando o cômodo de luz artificial. Eu me sentei e esfreguei os olhos, pronta para dispensar Auna – até que um rosto apareceu.

Thandi.

Ele não disse nada, e de algum modo seu silêncio foi pior do que

qualquer palavra.

Atrás de mim, Mare se remexeu, o ar frio substituindo o calor de seu

corpo quando ela se sentou e tirou os braços da minha cintura. Sem ver, eu podia sentir o olhar gelado que ela lançava ao irmão. Mas todos nós sabíamos quem sairia vencedor. Ele cerrava e rangia os dentes. Eu me enfiei sob as cobertas, apertando-as contra o corpo como se elas pudessem me proteger.

Os olhos dele deslizaram pelo meu corpo e pousaram em sua irmã, seu

olhar afiado como uma espada desembainhada.

– Não… não consigo acreditar – Thandi disse afinal para Mare. – Vim

procurá-la para falar sobre nosso pai e é com isso que me deparo?

– Ela é minha amiga, Thandi – Mare falou, cruzando os braços. Embora eu também a chamasse de amiga, ouvir aquela palavra em seus

lábios doeu. Amigas fazem companhia e estão sempre prontas para ajudar com uma palavra de consolo ou um abraço. Mas amigas não se beijam de um jeito que faça o corpo arder de desejo. Amigas não fazem você deixar de raciocinar com um toque, e não fazem o que havíamos feito na noite passada.

Mas meu futuro pertencia a Thandi – se ele ainda me quisesse. Eu a perderia de qualquer forma.

– Não somos mais crianças. Você não pode mais continuar fazendo o que

quer sem pensar no reino – Thandi disse. A luz da lanterna escurecia as olheiras dele.

–Você já parou para pensar que Denna não é um objeto, Thandi? Que ela tem suas próprias vontades e necessidades? Porque, se já pensou, deve ter notado que ela tem o dobro da inteligência de nós dois juntos. É como um cavalo que você trancou na baia e não quis nem saber como ele cavalga.

Thandi atravessou o quarto a passos largos indo na direção dela, a lamparina em sua mão balançando, luz e sombra dançando pelo cômodo. O temor por ela cresceu em mim. Eu queria enfiar as palavras de volta na boca dela, fazer com que ela saísse enquanto ainda lhe restava alguma dignidade.

– E você andou cavalgando a minha futura esposa? – ele perguntou, cada palavra repleta de veneno.

– Ao contrário de você, eu a escuto – Mare respondeu, a voz tão fria quanto a dele.

– Ela não fez nada de errado – falei. A culpada era eu.

– Podemos conversar sobre isso depois – ele me respondeu.

– Sinto muito – falei. Mas era mentira. E aquilo só fez com que eu me sentisse pior.

– Quanto a você, Mare, qualquer escolha que tivesse com relação a se casar com Lorde Kriantz já era. Espero que goste de seu futuro no meio do deserto – ele disse.

Eu queria me cobrir até a cabeça com as cobertas e voltar a dormir, e acordar em um mundo em que aquilo não estivesse acontecendo. Minhas emoções fervilharam até as brasas na lareira ficarem cor de laranja, e reprimi meus sentimentos. Se Thandi visse a magia, ele teria mais de um motivo para me matar.

– Você não pode me obrigar a fazer nada. – Mare o encarou, desafiadora.

– Já basta – ele disse. – Guardas!

Os vassalos entraram no quarto, seus rostos impassíveis.

– Por favor, acompanhem minha irmã até os aposentos dela e garantam que ela fique por lá. Quero guardas em todas as saídas… inclusive nas janelas – Thandi instruiu.

O pânico surgiu no rosto de Mare. Os vassalos a seguraram, um de cada lado, e a conduziram para fora do quarto. Ela seria enjaulada feito um animal, e eu não teria como ir vê-la. A porta se fechou atrás deles, deixando-me a sós com Thandi. Meu coração se despedaçava em meu peito a cada batida.

Thandi aproximou-se da beirada da cama. Ele abaixou a cabeça, certamente em busca de palavras acusatórias. O pior era que elas seriam verdade. Ele devia me odiar pela traição. Ainda que não dissesse isso com todas as letras, o jeito que eu olhara para Mare já era evidência suficiente. Agarrei as cobertas para impedir que minhas mãos tremessem. Vários minutos se passaram antes que ele finalmente falasse.

–Você sabe que foi prometida, não sabe? Prometida a mim? – ele

perguntou, sua voz falhando no fim da pergunta.

– Sei – sussurrei.

– Fiz algo errado? – Ele ergueu os olhos para mim, examinando meu

rosto, implorando que eu lhe dissesse alguma coisa que fizesse sentido.

Eu não sabia como explicar que o que eu sentia por Mare não tinha nada

a ver com ele. Ele não havia me trancado na baia – as regras da minha vida o haviam feito. E não era culpa dele que ela me excitasse feito um desfile de inverno, cada uma das cores dos Seis acesas no meu coração toda vez que eu olhava para ela. Não era culpa dele que ela despertasse em mim aquele sentimento praticamente desde a primeira vez em que nos vimos, desde a primeira vez que ela me tocara.

– Temos que cumprir nosso dever – ele disse. A resignação em seu rosto

o fazia parecer bem mais velho.

– Eu sei – sussurrei novamente.

– Mare precisa cumprir o dela também. A guerra se aproxima. Assenti, sem conseguir focar meus olhos em nada. Sem ela, meu futuro

se estendia à minha frente feito uma escuridão infinita. Depois do que havia acontecido, era inevitável que ela fosse tirada de mim.

– Sei que você não precisa me amar, mas achei que talvez pudesse fazê-

lo. Talvez um dia – Thandi disse.

A culpa me inundava em ondas inevitáveis. Eu fora injusta com ele e, ao

fazê-lo, havia traído meu reino.

Pior, eu sabia que, se tivesse chance, faria tudo novamente, com prazer. Possivelmente não havia lugar para o perdão no coração dele. Talvez não

devesse haver.

– Sinto muito – falei. Eu não sabia mais o que dizer. O silêncio entre nós foi interrompido pelo chamado dissonante das

trompas de caça, o mesmo som pesaroso que eu ouvira quando Casmiel morrera.

O novo rei baixou a cabeça e chorou nos meus lençóis.

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TRINTA E SEIS

 

Os chamados dissonantes das trompas me despedaçaram, e desabei no

chão enquanto o som de cascos dos Cavaleiros Brancos tomava a cidade. Meu pai tinha morrido, e eu jamais tivera a chance de me despedir. Jamais teríamos a chance de salvar nossa relação, e eu jamais conseguiria provar que não era uma inútil. Thandi era rei. Não havia um lugar para mim no futuro de Denna, e meu irmão me mandaria para Sonnenborne como prometido. Eu poderia resistir a tudo que quisesse, mas sob as ordens do rei eu era impotente.

Fiquei deitada no piso de lajotas até começar a tremer, quando o dia já

havia raiado. Quando Sara me encontrou caída, ela me desgrudou do chão e me conduziu à cama.

Só acordei quando alguém se sentou ao meu lado na cama e colocou uma

mão familiar em meu ombro.

– Ei, você – Nils disse.

Entreabri as pálpebras e tentei enxergá-lo com olhos embaçados,

buscando palavras em minha mente confusa.

– Nils! – eu disse engasgando e me sentei.

Ele me envolveu em seus braços como sempre fazia, e me embalou

enquanto eu lutava contra as lágrimas. Eu me agarrei ao sentimento familiar que eu tinha por ele, sua forma sólida e seu uniforme limpo, as únicas coisas com que eu podia contar.

– Como entrou aqui? – perguntei.

Nils deu de ombros.

– Eles disseram que você não podia sair. Não disseram nada sobre eu

entrar.

– Claro. Thandi sempre fora meio obtuso nesse sentido. Você precisa me

tirar daqui. – Eu me agarrei à manga de sua camisa.

– Não posso – ele disse, balançando a cabeça. –Você sabe o motivo.

Agora estou sob ordens dele. Mas o que diabos você fez para ser trancafiada em seus aposentos?

– Thandi me pegou no quarto de Denna hoje cedo. – As palavras saíram num atropelo. Nils já havia me contado centenas de casos em que acordara na cama errada; eu esperava que ele me entendesse sem que eu tivesse que dar mais detalhes.

Um ar de compreensão surgiu em seus olhos.

– Entendo.

– Eu disse a ela que a amava – admiti, minha voz pouco mais alta que um sussurro. Fiquei encarando o desenho da minha colcha, percorrendo uma espiral bordada com o dedo, com medo de olhá-lo nos olhos.

– Bem, é um avanço – ele disse.

Aquelas palavras simples me encheram de gratidão. Agarrei a mão dele depressa. Seja lá qual fosse o motivo pelo qual os Seis Deuses haviam me abençoado com a amizade de Nils, eu jamais poderia agradecê-los o bastante.

– Não sei o que fiz para merecer você – falei baixinho.

– Já passamos por muita coisa juntos. Você sempre me apoiou nos escândalos e nos momentos de coração partido, e agora é a minha vez de retribuir.

Levei a mão quente dele à minha bochecha e beijei delicadamente suas curvas bem conhecidas.

– Então ele sabe? – Nils perguntou.

– Deve saber.

– Ele a pegou em uma posição comprometedora? – Ele deu um sorriso malicioso.

Minhas bochechas arderam.

– Não importa. Ela se casará com ele de qualquer modo. O dever obviamente importa para ela mais do que qualquer coisa que haja entre nós. A Coroa vem em primeiro lugar.

– Denna não disse nada quando você falou que a amava?

– Bem… – falei hesitante. – Ela me beijou. E então também disse que me amava. – Eu quase não queria contar aquilo a ele, porque era a única coisa que eu queria guardar comigo: a forma como ela me surpreendera e me fizera acreditar por um instante que as coisas poderiam dar certo.

Nils ergueu as sobrancelhas.

– E o que aconteceu na noite passada?

– Eu não aguentei me separar dela depois da Cavalgada. – Belisquei meu

braço para impedir que minha voz vacilasse. – Contei a ela que estou pensando em me casar com Lorde Kriantz. Mas ela não quis me ouvir.

– Eu também não quero – ele resfolegou.

– Mas as terras dele ficam próximas de Zumorda. Talvez se eu fosse

embora com ele, poderia descobrir o que está acontecendo de fato. Ou, assim que estivermos perto da fronteira, eu poderia cruzá-la. Cavalgar sozinha até Zumorda para avisar a rainha que o reino dela está sendo incriminado.

– Você está desviando do assunto. Isso não tem nada a ver e você sabe

disso. Não fuja de seus sentimentos. E não sei se gosto mais da ideia de você cavalgar sozinha até Zumorda do que dessa história de você ir embora com Lorde Kriantz.

– Que outras opções eu tenho? Mesmo se eu não for com Lorde Kriantz,

não posso continuar entrando de fininho pela janela de Denna quando ela estiver dividindo o quarto com meu irmão. Tudo isso foi um erro terrível.

– Mas talvez, se não tivesse sido pega, poderia ter tido tempo de montar

um caso melhor.

– Que caso? – choraminguei. – Não tenho um caso. Não tenho nada a

oferecer a ela. Mal sei o que farei da minha vida, o que significa que não tenho nada que possa dar a ela, principalmente nada que possa competir com ser rainha.

– Ser rainha é o que ela quer?

– É o dever dela. E o dever é a coisa mais importante para ela. – Voltei a

me deitar no travesseiro. – Deuses, como sou idiota! Inacreditavelmente idiota. Como fiquei assim idiota? Você devia ter arrancado a idiotice de mim na pancada quando teve a chance.

– Você não é idiota – ele disse, tocando minha cabeça com delicadeza. –

Você está apaixonada.

Eu o odiava e amava por estar tão certo.

– E agora… agora que meu pai… nosso tempo acabou – falei, mal

conseguindo pronunciar as palavras enquanto segurava as lágrimas. – Não posso mais falar disso. Pode ficar aqui e me fazer um pouco de companhia?

– Por quê? Quer que uma nova fofoca comece a circular por aí? – ele

provocou.

– Não quero ficar sozinha. – Eu podia sentir o pesar esperando para me

engolir novamente.

– Tudo bem. – Ele se esticou na cama, apoiado no cotovelo, segurando a cabeça com a mão.

Eu me aninhei junto a ele, embora aquilo não fechasse a ferida no local em que um dia ficara meu coração.

– Conte-me histórias bobas dos vassalos – falei. – Melhor ainda, conte-me piadas idiotas dos vassalos. Eles conhecem as melhores piadas sujas.

Ele riu e acatou meu pedido, e, em algum momento, caí num sono agitado.

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TRINTA E SETE

 

Eu me sentei com o Conselho pela segunda vez dois dias depois da morte do rei. A sala sem janelas no coração do castelo na qual os Conselheiros se reuniam era asfixiante mesmo com um vento gelado soprando do lado de fora. Em qualquer outra circunstância, eu teria mantido a cabeça erguida ao me sentar à mesa com os Conselheiros, mas eu não estava na reunião por mérito próprio. Thandi não me perdia de vista um segundo desde que os Cavaleiros Brancos haviam anunciado a morte de seu pai. Embora eu andasse pelo palácio com ele, e tivesse permanecido por vontade própria ao seu lado quando ele se ajoelhou diante de seu cavalo para aceitar a coroa dos clérigos dos Seis, ele me mantinha tão aprisionada quanto a Mare. Ainda era cedo, mas eu ansiava por notícias da minha família – alguma observação reconfortante ou conselho sobre como desfazer a bagunça que minha vida se tornara.

Desde o momento em que o rei morrera, nossos rostos – meu e de Thandi – tomaram, juntos, o lugar do dele. Todos os dias, Auna me vestia e me enfeitava com as joias mais extravagantes que eu tinha. Mas embora meu exterior refletisse perfeição, por dentro eu me sentia despedaçada e perdida. Tudo dependia da minha capacidade de manter o controle, de manter a pose até que eu encontrasse um jeito de chegar até Mare. Eu tinha menos de um mês até o casamento para achar um jeito de ficarmos juntas, para impedir que Lorde Kriantz a levasse embora e para, de algum modo, encontrar e me livrar do artefato dos Dissidentes antes que minha Afinidade fosse descoberta. O artefato já havia revelado um usuário de magia na corte, e, apesar de ele nunca ter feito outra coisa na vida a não ser servir à Coroa, foi mandado para a masmorra aos berros.

Os semblantes em volta da mesa eram de exaustão após dois dias de cerimônias e tarefas administrativas correlatas. Ninguém tivera tempo de ficar de luto – o que sequer existia quando um ataque a Zumorda se tornara prioridade máxima. A coroação de Thandi no dia anterior havia sido mais um adendo ao funeral do rei do que uma ocasião separada. Foi pura obrigação e quase nada de celebração. Até o vinho que tomamos após a coroação teve um gosto amargo em nossas línguas.

Agora, nos preparávamos para a guerra.

– A fronteira de Zumorda será mais vulnerável perto de Sonnenborne –

Lorde Kriantz explicou, apontando no mapa esticado sobre a mesa. – A capital deles fica nas montanhas do norte, e o meu povo pode atacá-los pela nossa fronteira ao sul.

Thandi assentiu com um vinco entre as sobrancelhas, posicionando

vários marcadores de vidro sobre o mapa.

– Acho que podemos enviar reforços, mas teremos que manter o grosso

de nossa cavalaria em nossa própria fronteira ao leste. Talvez aumentar a cavalaria existente que mandamos após os ataques dos bandoleiros – Thandi disse.

– Dará certo, contanto que planejemos as coisas direito. Kartasha é a

maior cidade fortificada de Zumorda ao sul. Se vocês conseguirem atacá-la assim que protegermos essa área aqui, poderemos nos posicionar bem – Lorde Kriantz disse. – A rainha será pressionada a recuar.

Thandi assentiu novamente.

Será que ele ao menos sabia com o que estava concordando? Nem todos

os seus cavaleiros retornariam da batalha. Eles dariam suas vidas por vingança – uma vingança que nem era a deles. Mas eu via o que estava por trás daquilo. A tristeza não conseguia esconder a ira que ardia em fogo lento nos olhos de Thandi quando ele falava de seu pai. Por debaixo da mesa, eu torcia a saia de ansiedade ao pensar naquilo. Se ele ficasse sabendo da minha Afinidade e pensasse em me culpar, sua raiva arderia com mais força do que qualquer chama que eu pudesse produzir.

– E como discutimos, as terras do sul de Kartasha, entre a cidade e as

minhas fronteiras, serão anexadas a Sonnenborne – Lorde Kriantz disse, prendendo um fio vermelho no mapa para sinalizar a nova fronteira.

– Espere. – A Capitã Ryka falou, cruzando os braços. – Não me sinto

confortável em atacar a parte sul de um país quando o seu centro de poder fica no norte. Isso não faz sentido para mim.

– Não precisamos atacar o reino todo. Seria idiotice tentar tal coisa, pelo

menos durante a fase inicial. Precisamos mandar a eles a mensagem de que não devem mexer nem com Mynaria nem com Sonnenborne – Thandi explicou.

– Com a chegada do inverno, os zumordanos do norte logo ficarão confinados em suas cidades. A neve deixa as estradas do norte praticamente intransitáveis durante vários meses – Lorde Kriantz acrescentou. – Com certeza, a Princesa Dennaleia pode confirmar o que digo, já que a cidade dela sofre de restrições sazonais parecidas.

Assenti relutante, confirmando o que ele dissera.

– Tudo isso está de acordo com o que vínhamos discutindo desde antes da morte do meu pai –Thandi disse. –Também proibirei Trindor de fazer qualquer acordo com os zumordanos por baixo dos panos. Eles terão que cruzar as terras de Lorde Kriantz para chegar aos seus contatos em Kartasha.

– Ainda gostaria de ter provas sólidas de que Zumorda está por trás dos ataques – Hilara disse.

– De que outra prova você precisa? – Thandi falou. – O ataque que matou meu pai foi inegavelmente mágico. Já capturamos quase todos os líderes Dissidentes e estamos alimentando os prisioneiros com raiz da paz para apaziguar seus dons. Quem mais poderia ter feito isso além dos zumordanos?

Zumorda não era o único lugar de onde um usuário de magia poderia vir. Minha Afinidade era a prova, ainda que eu não fosse a culpada.

Não falei nada.

A capitã se reclinou na cadeira, girando um de seus cravos de votação entre os dedos. Ela tinha vários braceletes grossos trançados e coloridos, assim como Mare. Meu coração acelerou ao me lembrar dos pulsos delicados de Mare, das sardas em seus braços…

– Vocês têm seus votos, se quiserem discordar – outro conselheiro lembrou à Capitã Ryka e à Conselheira Hilara com um sorriso bajulador.

– Mandarei meus cavalos de volta antes da seleção e partirei depois do baile da colheita – Lorde Kriantz disse. – Pegala e os outros animais de raça do deserto são chamativos demais para formar uma caravana, e eu não gostaria de arriscar a vida da Princesa Amaranthine desse jeito. Ela e eu podemos viajar separadamente da caravana por motivos de segurança, caso haja espiões zumordanos.

Ele falou como se o casamento deles já estivesse selado. Com o assassinato do rei fresco na minha mente, tudo que eu conseguia imaginar era Mare deitada na beira da estrada com uma flecha branca enfiada no peito. Não havia nada de que eu gostasse naquele plano do Lorde Kriantz.

– E o ataque inicial? – Capitã Ryka perguntou. – Já enviei um mensageiro. Meu povo aguarda meu comando. Eles não

agirão sem a minha presença – Lorde Kriantz disse. – Assim que eu chegar, eu os comandarei no ataque e mandarei a vocês um aviso por mensageiro solicitando apoio da cavalaria. O prazo não pode ser superior a um mês, já que o inverno chegará ao norte.

O plano era bem elaborado. Os invernos eram incapacitantes no norte. Já

seria primavera quando a rainha enfim pudesse enviar reforços para lidar com o banho de sangue que teríamos iniciado nas fronteiras deles.

– Excelente plano – Thandi falou. – Podemos nos reunir aqui enquanto

isso para começar a treinar nossas tropas. Capitã, podemos pôr em prática esses planos antes do dia de louvor.

A Capitã Ryka assentiu, ainda desconfiada.

– E com relação à investigação, Sua Majestade? Não deveríamos chegar

a uma conclusão para garantir que não haja espiões aqui em Lyrra?

– Não temos tempo para isso agora – Thandi falou. – Meu pai já morreu.

Devemos atacar Zumorda enquanto ainda podemos contar com o elemento surpresa. Podemos desentocar os traidores assim que as tropas partirem.

– Eu preferiria não enviar minha cavalaria contra um inimigo que pode

não ser o culpado – Capitã Ryka disse. – Nunca encontramos Morland depois que ele deixou o mercado, o que me leva a crer que ele sabia algo a respeito da adaga da primeira tentativa de assassinato. Ele é um forjador experiente, e é possível que a arma seja uma imitação. Ainda tenho dois membros da Elite procurando-o.

A capitã se importava com os homens e mulheres de sua cavalaria e,

aparentemente, ela havia de fato escutado o que Mare lhe dissera sobre o sumiço de Morland e de seu possível envolvimento. Se ao menos Mare e eu soubéssemos disso antes, poderíamos ter contado com uma aliada no Conselho. Talvez duas, já que Hilara também se opunha a atacar Zumorda.

– Quem é a favor? – Thandi perguntou.

Um clique metálico de cravos de ferradura soou quando os Conselheiros

jogaram seus votos a favor no centro da mesa. Apenas a Capitã Ryka e a Conselheira Hilara não concordaram com a proposta em votação. Eu queria pegar os cravos e atirá-los de volta na cara dos conselheiros. Em vez disso, permaneci sentada completamente imóvel, exibindo uma expressão tão neutra quanto as lajotas sob os nossos pés.

– Aprovada – Thandi disse, fazendo um gesto de cabeça para o escriba, que registrou devidamente a votação.

– Agora, sobre o casamento – Thandi falou. – Devido à guerra, eu gostaria de propor que adiantássemos a cerimônia. Faz sentido que cavalguemos como rei e rainha quando começarmos a reunir as tropas. Todos os recursos para o banquete e para a cerimônia já estão prontos.

Minha fachada desmoronou e senti um nó na garganta de pânico. Eu contava em ter até o festival da colheita para arranjar um jeito de ver Mare e para que ela me ajudasse a resolver nosso dilema.

– Quando propõe que seja a cerimônia, Sua Majestade? – alguém perguntou.

– O banquete pode ser realizado no dia de louvor após a seleção dos cavalos, e o casamento pode acontecer na manhã seguinte – Thandi disse. – Como todos os convidados de honra do casamento já estarão na cidade para a seleção, isso não será um problema.

Meu coração martelou no meu peito e a magia correu pelas minhas veias. Aquilo significava que o casamento seria em menos de duas semanas. As coisas estavam acontecendo rápido demais. Eu não teria tempo de falar com Mare, de tentar descobrir algum modo de salvar pelo menos parte do que sentíamos uma pela outra.

– Todos a favor?

Os cravos lançados sobre a mesa ressoaram em uma votação unânime. Como estrangeira, eu nem podia me manifestar sobre meu próprio casamento.

– Aprovada – Thandi disse ao escriba. – E isso encerra nossos assuntos por hoje.

Cadeiras foram arrastadas sobre o piso enquanto os conselheiros se levantavam para deixar a sala.

Eu me levantei e me apoiei por um tempo no encosto da cadeira, procurando fundo dentro de mim por uma força que me fizesse prosseguir, abalada pela mudança súbita nos meus planos. Minha magia ameaçava explodir e imolar tudo. Depois de todos aqueles anos de preparação, eu jamais me sentira tão despreparada para me casar ou tão receosa com relação ao que seria capaz de fazer com minha Afinidade. Eu precisava de respostas.

Eu só conseguia pensar em uma pessoa que poderia me dá-las.

Assim que consegui escapar para os meus aposentos e me certifiquei de que estava sozinha, abri as venezianas e deixei o vento me açoitar, afiado feito uma espada. Tremendo em meu vestido grosso, eu estava feliz por sentir algo além de pânico diante da possibilidade de perder Mare. Auna ainda não havia acendido a lareira na antecâmara, mas o fogo surgiu na lenha e crepitou atrás de mim quando meu poder, que eu mal conseguia conter, encontrou uma válvula de escape fácil nas brasas recentes.

Estimulada pelas chamas erráticas que surgiam na lareira, comecei a

vasculhar minhas roupas no armário, até que encontrei o que procurava em uma das minhas capas: a pluma azul que Karov me dera no Blitz.

– Karov – sussurrei, deixando a pluma de um azul vívido cair antes que

eu pudesse questionar se fazer aquilo era prudente.

O vento arrastou a pluma até o chão e ela se quebrou, produzindo

fagulhas com o impacto, e se transformou em cinzas que foram levadas embora pela brisa. Eu me deixei cair sobre a espreguiçadeira, sem saber ao certo o que fazer. A inevitabilidade da guerra pairava, fazendo com que cada sombra em meus aposentos parecesse sinistra. Para me controlar, orei baixinho para cada um dos Seis separadamente, esperando que um deles se apiedasse de mim. Mas antes que eu conseguisse chegar ao fim da última oração, um pássaro entrou pela minha janela, o que fez com que eu me levantasse num salto. A ave pousou no braço da cadeira da minha penteadeira, suas asas do mesmo azul intenso da pluma de Karov.

Então o pássaro brilhou diante dos meus olhos e se transformou em uma

silhueta grotesca e em constante expansão, até que Karov em pessoa surgiu na minha frente.

Olhei para ele, boquiaberta.

– Que interessante vê-la novamente, Sua Alteza – ele disse com um ar

presunçoso.

– Foi você na biblioteca – falei, relembrando as circunstâncias estranhas

em que eu encontrara o livro verde.

Karov me deu um sorriso prateado. Ele se acomodou em uma poltrona

sem esperar por convite, e com um movimento de suas mãos as venezianas se fecharam. O fogo ainda ardia e crescia com a minha incerteza, mas Karov não parecia se incomodar com aquilo.

– O que posso fazer por você, Sua Alteza? – ele perguntou. – Me ajude – implorei com a voz trêmula. – Diga o que há de errado

comigo e por que não tenho controle sobre isso.

– É simples – ele disse. –Você tem um dom. Toda vez que usa esse dom, ele a deixa esgotada, porque você não sabe como usá-lo. Você não consegue controlar quem fere, e há boas chances de machucar seus familiares e amigos mais próximos simplesmente porque são eles que estão sempre perto de você.

Meu estômago se revirou.

– A menos, é claro, que tenha treinamento adequado. Isso lhe daria a chance de usar seu dom sem machucar a si mesma e sem colocar outras pessoas em risco. – Ele se reclinou e esperou que eu respondesse.

– Então você pode me treinar – falei. – Pode me ensinar como não machucar as pessoas. Como esconder esse dom.

– Quem me dera, Sua Alteza! – Um lampejo lamentoso surgiu em seu rosto. – Talvez eu possa lhe ensinar o básico, mas seu dom não é tão simples. Eu sou uma criatura do vento. E zumordano, como deve ter adivinhado. Você brilha forte demais na minha Visão para ter apenas o fogo como dom. Imagino que já deva ter percebido que as manifestações de sua Afinidade não se limitam às chamas, não?

Lembrei do vestido de Ellaeni, da parede do castelo, da lufada de vento na biblioteca e da porta batendo. De algum modo, mesmo que não tivesse visto essas coisas acontecerem, ele sabia.

– Como sabia? – perguntei.

– Com a prática, a maioria dos usuários de magia com dons moderados consegue desenvolver sua Visão. Consigo ver a magia em tudo. Até em você.

– Mas não sou zumordana – falei. – Eu não devia ter uma Afinidade. – Devia haver algum engano, alguma explicação.

– Feiticeiros nem sempre são zumordanos – ele disse. – Conforme fomos aumentando em número, a suspeita de magia cresceu até a insurreição religiosa. Ninguém sabe por que começamos a morrer e por que um número menor nasceu para nos substituir. Muitos que tinham Afinidades fugiram para Zumorda atrás do santuário. Enquanto isso, as pessoas dos outros Reinos do Norte decidiram que a magia não era para os mortais, e atribuíram cada Afinidade a um dos deuses que o seu povo adora tanto – ele disse. – Tudo isso faz parte do mesmo sistema, que foi sendo distorcido com o tempo.

Fazia sentido. Os símbolos parecidos com os dos deuses no livro verde da biblioteca. O fato de o meu dom ser mais controlável quando usado no Santuário. Sempre houvera uma ligação entre os Seis e as Afinidades.

– Então o Grande Ádito… é por isso que é tão importante para os

usuários de magia? É por isso que eles têm tentado impedir a aliança? – perguntei.

– O Grande Ádito foi construído em conjunto por usuários de magia e

adoradores dos Seis, quando as crenças em religião e em magia tanto em Havemont quanto em Zumorda eram menos divergentes – Karov disse. – É o melhor lugar para se trabalhar a magia em todos os Reinos do Norte. Feitiços lendários foram feitos lá. Talvez você perceba que consegue controlar seu poder mais facilmente em outros templos e santuários também. Até hoje, eles são construídos de acordo com especificações que ajudam a controlar e amplificar as Afinidades.

Meneei a cabeça meio atordoada. O que ele dissera coincidia com a

minha experiência.

Karov se reclinou e me examinou atentamente. –Você é mesmo uma criatura rara, Princesa. E perigosa – ele disse por

fim. – O único conselho que lhe dou é que confie em seus instintos, mas tome cuidado com o alcance de seu dom. Tenho certeza de que o livro que encontrou na biblioteca lhe mostrou como é perigoso usar mais de um poder ao mesmo tempo. E não ajuda nada que a Coroa tenha cercado os Dissidentes.

– O que eles têm a ver com isso?

– Eles chamavam a si mesmos de Círculo Sincrético antes de serem

rebatizados pelos fundamentalistas. A maioria deles possui apenas dons menores, mas eles ajudam a manter o equilíbrio no reino. Com tão poucos usuários de magia aqui, a magia ambiente que existe no reino não está mais sendo usada. Os pequenos feitiços que os Dissidentes fazem ajudam a remover um pouco da força da magia, e isso impede que eventos catastróficos aconteçam. Agora que eles estão encarcerados, aqueles de nós que têm dons mais poderosos correm o risco de gerar situações calamitosas ao usar os próprios poderes. É necessário muito treinamento e controle para não causar reações desastrosas.

Não me admirava que eu me sentisse prestes a explodir. Não me

admirava que a sensação piorasse a cada dia.

– Mas de onde veio minha Afinidade?

– Isso não sei responder – ele disse. – Mas Afinidades geralmente vêm de

família, não são aleatórias.

Meu sangue não conseguia explicar a minha Afinidade. Um arrepio percorreu meu corpo enquanto eu questionava minha vida toda. Embora fosse verdade que eu não me parecesse muito com meu pai, eu era bem parecida com a minha mãe. Parecíamos feitas no mesmo molde: cabelos escuros, pele alva e olhos claros, embora os dela fossem azuis, não verdes. Meus pais se amavam demais para que eu pensasse que poderia ser filha de algum outro homem.

– Por que me deu a pluma? – perguntei.

– Zumorda sempre abrigará aqueles com Afinidades – ele disse. – A rainha encarregou alguns de nós de garantir que aqueles que estejam em necessidade encontrem o caminho para Zumorda, onde poderão aprender a domar suas habilidades. E, talvez, aqueles que ajudarmos possam defender nossos interesses vez ou outra quando for necessário.

A explicação dele era simples demais, e a Zumorda que ele descrevia não tinha nada a ver com o inimigo que me fora pintado. Mas talvez aquele fosse o jogo dele: encontrar novas formas de Zumorda enfiar ainda mais suas garras em Mynaria por meio de mim.

– Não pretendo aderir a nenhuma causa nem farei promessas – eu disse. – Não posso falar por Mynaria nem por Havemont. Eu seria reduzida a nada antes que tudo isso chegasse ao fim. Eles começaram a usar um artefato dos Dissidentes, quero dizer, do Círculo Sincrético, para testar todo mundo. Se alguém aqui descobrir minha Afinidade…

– Por isso você é especialmente desafiadora – Karov disse. – Não podemos lhe oferecer nada, porque se você desaparecesse ou simplesmente demonstrasse inclinação por Zumorda, isso poderia deflagrar uma guerra, principalmente diante da atual situação política. Mas Zumorda é um lugar em que pouca coisa importa, exceto poder. Então quem sabe um dia você consiga se livrar dessa confusão e venha até nós por vontade própria. Quando fizer isso, estaremos lá para recebê-la.

– Não quero treinamento. Quero saber como faço para esse dom desaparecer – falei. – E raiz da paz, a erva que estão dando para os prisioneiros?

Karov riu.

– Duvido que você queira encarar os efeitos colaterais. As dores de cabeça são monstruosas, e seus dedos dos pés e das mãos podem ficar roxos e necrosar. Com o tempo, seu corpo acostuma com a erva e é necessário aumentar a dose. Quanto mais você toma, mais os danos se alastram.

Cerrei os punhos. Não era uma opção viável.

– Sua Alteza, sugiro que aceite o inevitável – ele disse. – Uma Afinidade,

assim como um coração, não pode ser modificada.

E com aquelas palavras, ele se dobrou e dobrou até se transformar

novamente em um pássaro azul das montanhas – aparentemente um de seus dons era ser feiticeiro do ar. Uma rajada de magia abriu as venezianas para que ele saísse voando para o dia tempestuoso.

– Espere! – chamei, correndo atrás dele até a janela, mas já era tarde. Ele

flutuou no céu nublado e desapareceu.

Apesar do que eu havia descoberto, não me sentia nem um pouco melhor

do que quando ele chegara. Eu o odiava por suas palavras, mas não podia negar a verdade delas. Sem controlar meu dom, eu destruiria tudo ao meu redor. Até mesmo o reino que eu deveria governar. Até a garota que eu amava.

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TRINTA E OITO

 

Alguns dias antes da seleção, o vento diminuiu, deixando o terreno do

castelo iluminado pelo sol de outono. Os jardineiros juntaram as folhas vermelhas e douradas que o vento arrancara das árvores, e ao longe os cavalos pateavam o chão de seus cercados. Eu me sentei à janela, uma perna pendurada para fora e outra para dentro, na mesma posição em que eu me encontrava quando Denna me impedira de deixar seu quarto. Torcer a faca da memória preenchia o meu vazio. Sentir dor era melhor do que não sentir nada.

Meu quase intocado desjejum, composto de biscoitos amanteigados e

maçãs fatiadas com queijo de sabor forte, era uma excelente munição para atirar nos vassalos lá embaixo, o que me dava certa satisfação. Eles não podiam se aproximar demais para ficar de olho em mim sem que levassem comida na cara. Os pássaros se aglomeravam aos seus pés, lembrando os palacianos de Thandi, que se lançavam uns contra os outros e se bicavam por migalhas.

– Milady? – Sara se aproximou de mim. – Mandaram alguém para

escoltá-la até os estábulos.

Larguei a última fatia de maçã no meu prato, surpresa. Até agora, eu não

estava sabendo de nenhum plano que me tirasse do quarto por mais de uma hora. As mensagens que eu enviara a Thandi nunca foram respondidas, e eu não ousava tentar contato com Denna. Aqueles dias haviam chegado ao fim, e o silêncio dela deixava bem claro qual era sua decisão.

– Ele a aguarda na antecâmara, milady – Sara disse. Espanei as migalhas da calça de montaria, desci da janela e fui

cumprimentar o homem que esperava por mim.

Ele usava um gibão de couro ajustado que trazia estampada a silhueta de

um falcão em pleno voo, seu perfil afiado atravessando um lado a outro da barriga e a asa direita erguida na direção do ombro. Um dos homens de Lorde Kriantz. Ele se curvou ao me ver chegar.

– Com a permissão do rei, Lorde Kriantz pediu que eu a levasse aos estábulos, Sua Alteza – disse o homem. Seu sotaque era mais carregado do que o de seu mestre, com vogais suaves e redondas em sua pronúncia.

Continuar: parte 4 de 5