Fogo & Estrelas
Capítulo 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Senti um frio na barriga. Em hipótese alguma eu recusaria uma hora de liberdade, e Lorde Kriantz provavelmente sabia daquilo, assim como eu sabia por que ele queria me ver.
– Claro – falei, e fiz um sinal para que Sara me entregasse uma capa.
O homem de Lorde Kriantz saiu comigo do quarto, se movendo feito um gato pronto para saltar se eu tentasse correr dele. Eu não era tão idiota assim. Não havia onde me esconder e não fazia sentido ser arrastada de volta para os meus aposentos, na melhor das hipóteses, quando eu mal podia esperar para ficar ao ar livre.
A agitação aumentou quando deixamos a ala real. Quando descemos o lance final de escadas que dava para o corredor externo, parei de repente. Passos calculados mantinham um ritmo constante ao seguirem em grupo para o coração do castelo. Quatro vassalos escoltavam duas mulheres da nobreza e suas aias, as damas usando uma explosão de cores que brilhavam em tons de azul e verde ao passarem por áreas iluminadas pelo sol diante das janelas.
Uma das mulheres era Denna.
Eu a vi surgir por trás dos dois primeiros vassalos, mais de uma cabeça mais baixa que eles. Uma tiara cintilava em seus cabelos escuros, adornada com pedras preciosas azul-claras que combinavam com aquelas bordadas no corpete de seu vestido. Seu passo vacilou quando ela me viu, e sua boca se abriu de surpresa.
Com Denna na minha frente pela primeira vez em dias, tudo que eu conseguia lembrar era da sensação de tocar sua pele nua, da pressão de seu corpo contra o meu, e de como seus beijos arderam no meu pescoço e na minha clavícula. Fiquei afogueada ao lembrar de nós duas juntas e gelei por saber que ela jamais seria minha. A única coisa que mitigava a dor era a raiva por ela ter escolhido Thandi em vez de mim, e por eu ter sido tola a ponto de me deixar levar pelo meu coração.
Denna virou a cabeça e continuou andando, deixando-me a encará-la e a agarrar a balaustrada até os nós dos meus dedos ficarem brancos. Sua amiga me lançou um olhar intrigado, como se pudesse ver a vergonha e o desejo que me torturavam enquanto eu ficava ali parada feito uma idiota.
O homem de Lorde Kriantz me fez prosseguir, e arrastei os pés, vacilante
e entorpecida, pelo resto do caminho. A luz do sol pela qual eu ansiara agora me parecia dura e inamistosa. Mal notei os jardins ou as pessoas com as quais cruzamos, minha cabeça tão cheia da imagem de Denna paramentada como uma rainha. Deixar Mynaria começava a parecer a única forma de sobreviver. Certamente era minha única esperança de esquecê-la.
Nos estábulos, Lorde Kriantz estava parado próximo à arena externa,
segurando as rédeas de seu cavalo dourado e do meu cavalo alazão, ambos já selados. Outro de seus homens aguardava por perto, em um cavalo baio do deserto que tinha a mesma estrutura física e o esplendor metálico que distinguia a égua de Lorde Kriantz.
– Boa tarde, Sua Alteza – ele disse, me entregando as rédeas de Flicker. – Obrigada, milorde – agradeci depressa e então abracei o pescoço de
Flicker, sem me importar se parecia infantil. Flicker esticou o pescoço e lambeu minha camisa, um gesto familiar que fez meus olhos encherem de lágrimas. Eu as engoli e acariciei seu pescoço um pouco mais. Meu cavalo, pelo menos, jamais me abandonaria ou me trairia. Nossa relação era simples, afetuosa e mais sólida que qualquer outra coisa que restara em minha vida.
– Achei que você estaria disposta a cavalgar depois de tantos dias sem
sair do castelo – Lorde Kriantz disse.
– Estou – respondi. Eu não sabia ao certo quanto Thandi havia contado a
Lorde Kriantz sobre a natureza do meu confinamento, e eu não queria lhe dizer nada que ele não soubesse.
–Vamos cavalgar nas montanhas, onde podemos conversar – Lorde
Kriantz falou.
Meu estômago se revirou de nervoso, mas concordei com um gesto de
cabeça, chequei a sela de Flicker e usei a cerca para montar no cavalo. Conduzimos nossos cavalos pela trilha até as montanhas, com o guarda de Lorde Kriantz mantendo uma distância respeitosa atrás de nós.
– O Conselho se reuniu há alguns dias para discutir a guerra – Lorde
Kriantz disse assim que no afastamos dos estábulos o suficiente para que ninguém nos ouvisse.
– Foi? – Meus maus pressentimentos aumentaram. – O ataque mágico na Cavalgada deixou claro que Zumorda é
responsável. Os planos exigem que eu volte a Sonnenborne logo após o casamento do rei, que foi antecipado.
Mais uma flecha atingiu meu coração.
– Para quando? – consegui perguntar.
– O banquete será no dia de louvor, e o casamento na manhã seguinte – ele disse. – Com relação a nós, espero que você tenha tido tempo de pensar na minha proposta.
Ele me dera tempo mais que suficiente.
Inspirei profundamente o ar frio e examinei o rosto de Lorde Kriantz, seu cavalo e sua postura, em busca de algum sinal que me indicasse qual seria a decisão certa. Ele parecia mais seguro que nunca, seu olhar ávido, seu comportamento tranquilo. Se o que já era ruim piorasse, eu sempre poderia seguir por conta própria assim que estivéssemos longe de Lyrra.
Eu tinha emoções conflitantes. Nenhum caminho me parecia alegre ou promissor.
– Sim – falei por fim. – Irei com você. – Como se realmente houvesse outra opção.
Seu rosto se iluminou com um sorriso largo.
– Fico feliz em saber. – Ele esticou o braço, cobrindo a distância que havia entre nossas montarias.
Estiquei também o meu braço e trocamos um aperto de antebraço, mais como camaradas do que como futuros marido e esposa.
Estava feito.
Pelo menos, eu poderia escapar. E se o tempo fosse gentil comigo, eu encontraria alguma razão para viver além das lembranças dela.
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TRINTA E NOVE
No dia da seleção, acompanhei Thandi aos estábulos feito um cadáver ambulante, sentindo tudo e nada ao mesmo tempo. A imagem de Mare parada na escadaria me assombrava, e desde então eu passara os dias desesperada para diminuir o abismo entre nós. Um criado colocou uma caneca fumegante de cidra de maçã nas minhas mãos assim que chegamos à grande tenda montada ao lado da arena. Agarrei a caneca e a levei ao nariz, mas o cheiro de canela foi uma punhalada em meu coração. Embora a sensação de calor fosse boa em minhas mãos, abandonei a caneca sobre a mesa mais próxima, intocada, assim que Thandi desviou o olhar.
Do lado de fora da tenda, os palacianos riam e conversavam, a maioria deles usando seus melhores trajes de montaria em vez de suas roupas finas habituais. Vários nobres estavam parados em volta do cercado de contenção onde os potros desmamados andavam ansiosos de um lado para o outro, apostando em quais cavalos a Coroa manteria e quais seriam vendidos. Eu me mantinha perto de Thandi, sabendo que se eu fizesse qualquer tentativa de me afastar seria bloqueada pelos vassalos. Ainda assim, eu analisava cada abertura, pronta para sair em disparada caso surgisse uma oportunidade.
Até que o inimaginável aconteceu.
A fileira de arautos do lado de fora da arena chamou a atenção tocando seus clarins estridentes. As conversas se transformaram em murmúrios confusos enquanto todos se voltavam para o castelo. Todos que participariam da seleção já deviam estar na arena, e qualquer um que merecesse ser anunciado pelos arautos já estaria conosco. Thandi me ofereceu seu braço, e eu o aceitei por reflexo assim que a origem do alvoroço entrou em meu campo de visão. Guardas de farda roxa carregando espadas compridas escoltavam alguém que eu não poderia estar mais chocada de ver.
Minha mãe.
Um formigamento percorreu meus braços.
Ela usava um vestido carmim bordado com centenas de flores brilhantes,
e a coroa em sua cabeça cintilava com pontas cobertas de joias que se projetavam para o céu feito as torres de nosso castelo em minha terra natal. Diante de uma verdadeira rainha, eu me sentia ainda menos preparada para me tornar uma. Respirei devagar, tentando acalmar minha Afinidade.
Minha mãe sorriu para nós assim que parou e fez uma mesura para nos
cumprimentar. Thandi se curvou e beijou a mão dela. Eu também fiz uma mesura para recebê-la, odiando a formalidade que me impedia tanto de fugir quanto de me atirar nos braços da minha mãe.
– Bem-vinda a Lyrra, Sua Majestade – Thandi disse. – Por favor, junte-se
a nós para a refeição vespertina.
– Obrigada, Sua Majestade – minha mãe respondeu. Olhei para ela, tentando transmitir minhas perguntas por meio dos meus
olhos arregalados, mas tudo que ela me deu em troca foi um sorriso terno e cheio de dignidade. Não havia como eu descobrir o que estava acontecendo na frente de todas aquelas pessoas. Minha mãe jamais quebraria o protocolo. Thandi nos conduziu à área do banquete e acomodou minha mãe à mesa que os criados haviam preparado depressa de modo a imitar a mesa real, mas antes que eu pudesse falar com ela, ele me levou para os nossos assentos a várias mesas de distância.
Os palacianos fofocavam sobre a disposição aleatória de seus assentos no
almoço, que era composto por alimentos de fim de colheita: coelho refogado no vinho com ervas e cebolinhas-brancas caramelizadas, torradas com queijo e mel temperadas com o derradeiro leite das éguas, bem como tortas de maçã com cobertura crocante de açúcar mascavo e aveia tostada. Comi apenas o suficiente para ser educada, um pouco de cada prato como mandava a tradição, lançando um olhar para minha mãe sempre que possível. Eu não compreendia como ela chegara tão depressa ou por que não me enviara uma mensagem avisando sobre sua chegada.
Depois que a comida foi recolhida, chegou a hora da seleção. –Você sabia que ela estava vindo? – sussurrei para Thandi enquanto nos
dirigíamos à arena.
– Estou tão surpreso quanto você – ele disse. – Mas foi bom. Um de nós
devia ter um dos pais aqui no casamento. – A tristeza surgiu em seu rosto.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Lorde Kriantz surgiu ao
lado de Thandi, e o formigamento nas palmas das minhas mãos voltou. Embora eles só estivessem conversando amigavelmente sobre cavalos, tudo que eu via ao olhar para Lorde Kriantz era o homem que estava roubando Mare de mim. Só de pensar nele tocando-a me dava vontade de imolá-lo ali mesmo.
Na arena, Thandi apertou o antebraço de Theeds para cumprimentá-lo.
– Tudo em ordem?
– Sim, Sua Majestade – Theeds disse. – Os potros desmamados estão prontos para serem avaliados primeiro, e os cavalariços estarão prontos para apresentar os lotes dos animais mais velhos em ordem.
– Ótimo – Thandi disse.
– Poderíamos contar com a experiência de Mare hoje – Theeds disse casualmente, esfregando as solas de suas botas na terra.
Lorde Kriantz e Thandi se entreolharam.
– Ela não está se sentindo bem – Thandi falou.
Meu sangue ferveu com a mentira.
Theeds olhou para ele desconfiado, mas assentiu e voltou para a arena para terminar os preparativos.
– Não precisa ficar aqui de pé – Thandi disse para mim. – Endalan, poderia acompanhar a Princesa Dennaleia ao assento dela, por favor?
Eu preferia me deitar no meio da arena e deixar os cavalos me pisotearem a passar um tempo na companhia dele, mas eu não tinha escolha.
– Claro, Sua Majestade. – Lorde Kriantz segurou no meu braço, com o desgosto discretamente estampado em seu rosto por não poder participar do evento dos cavalos. Embora sua relação de proximidade com Thandi tivesse lhe conferido um novo nível de confiança, somente a família real e seus mestres cavaleiros poderiam opinar na seleção dos animais. Lorde Kriantz me sentou ao lado da minha mãe, em uma fileira de cadeiras de madeira sobre uma plataforma de pedra junto à arena, com um toldo estendido acima de nossas cabeças para nos proteger do sol. Ele me acomodou na cadeira mais decorada, me envolveu com o cobertor de lã bordado e se sentou do meu outro lado.
Imediatamente me virei para a minha mãe, movida por mil perguntas.
– Estou feliz em vê-la, mãe, mas por que está aqui? – perguntei, falando do modo mais gentil que consegui.
– Quando Alisendi retornou da visita, ela me contou sobre a tentativa de assassinato do rei – ela respondeu. – Fiquei preocupada, e seu pai e eu achamos melhor não anunciarmos minha visita, para evitar que eu mesma virasse um alvo.
As entrelinhas eram claras como o dia. Ali lhe dissera que meu dom
estava fora de controle.
– E a carta? – Aquela fora a missiva mais positiva que eu mandara, e a
primeira vez em que expressara confiança no meu futuro em Mynaria, tudo graças a Mare e Ellaeni. As coisas haviam me parecido mais sólidas que nunca àquela altura, diferentemente do que acontecia agora, quando quase tudo havia desmoronado.
Minha mãe baixou ainda mais a voz.
– A morte de Casmiel foi preocupante. Sua dificuldade em se adaptar
talvez já fosse esperada. Mas desenvolver uma relação com a Princesa Amaranthine, que não faz parte do Conselho, e com uma garota do litoral com pouco poder político, e o tanto que você se importa com a opinião de Amaranthine a seu respeito…
Fiquei furiosa. Ela as julgava sem ao menos conhecê-las. Mas a culpa
cresceu em mim ao pensar em Mare.
– Tenho problemas maiores que esses, mãe – falei, mal conseguindo
manter minha voz estável. – Os deuses se tornaram mais familiares.
Os olhos azuis dela me fuzilaram numa advertência. – Agora não é hora, Dennaleia – ela disse. –Voltaremos a falar dessas
coisas após o casamento, depois que a aliança tiver sido garantida.
– Mas preciso saber…
Ela me cortou colocando sua mão no meu braço e olhando para a arena,
esperando que eu fizesse o mesmo. As mechas prateadas em seus cabelos davam a ela um aspecto mais majestoso, um contraste impressionante com o vermelho do vestido que usava. Confiança e imponência emanavam dela como se ambas as coisas fizessem parte de sua natureza desde o nascimento. Eu não fazia ideia de como ela conseguia ficar tão calma naquelas circunstâncias.
Abaixo de nós, os criados terminavam os preparativos, mexendo uma
grande bacia de tinta que brilhava com partículas prateadas. Eles a levaram para uma mesa nos fundos da arena, e a envolveram cuidadosamente em folhagem para decorar. Dentro da arena, estacas caiadas posicionadas sobre o solo demarcavam o percurso que cada cavalo completaria ao ser conduzido para inspeção, um grande círculo ao redor do centro da arena com uma entrada e uma saída de cada lado. Perto de onde eu estava, ramos delicados carregados de flores de um magenta vívido tinham sido trançados na cerca da arena, presos por uma corda.
Um potro alto e negro foi o primeiro cavalo a dançar dentro do círculo. O cavalariço se esquivava dos cascos enquanto se empenhava ao máximo para fazer com que o cavalinho que mal se acostumara com o cabresto caminhasse e trotasse no círculo ao longo do qual estavam Thandi, Theeds e dois outros membros do comitê de seleção. Os olhos um tanto assustados do potro partiram meu coração. Sua vida mudara de repente no instante em que o cabresto fora enfiado em sua cabeça. Ergui os olhos para o castelo, inspecionando as janelas distantes como se pudesse ver Mare de relance. Eu desejava que ela viesse me libertar, que entrasse galopando em Flicker e me arrancasse da minha cadeira, me levando pelas montanhas até o oceano, onde poderíamos embarcar em um dos navios de Ellaeni e jamais seríamos vistas novamente.
Lá embaixo, o potro negro agitado ladeava no centro da arena. O comitê acenou com a cabeça em aprovação, e Thandi enfiou sua mão na tinta prateada.
– Pelo vento, força, velocidade e coração, os Seis cavalgarão este potro marcado pela mão do rei. –Thandi carimbou a espádua do cavalo, a impressão de sua mão em tinta prateada se destacando brilhante na pelagem escura do potro. O tratador fez o cavalo trotar para fora da arena para receber os aplausos do público.
Depois de cinco horas de seleção, eu mal prestava atenção, com meu olhar perdido além da arena, deixando que minha mente divagasse. Eu não precisava ter ficado sentada ali o dia inteiro, mas Thandi com certeza sabia que eu correria direto para Mare, que eu daria um jeito de chegar aos aposentos dela, nem que tivesse que lutar com os vassalos que guardavam sua porta. Em vez disso, eu observava cavalo após cavalo ser conduzido diante dos avaliadores até que as únicas coisas que me mantinham acordada fossem as barbatanas do meu espartilho cutucando meus quadris e o medo de desapontar minha mãe.
Então os tratadores fizeram entrar um cavalo que eu reconheci.
– Não – falei, lançando um olhar de pânico para Lorde Kriantz.
Ele deu de ombros.
Ele não podia fazer aquilo. Ninguém que tivesse alma permitiria que aquele cavalo fosse vendido. Na arena, os lábios do mestre do estábulo se contraíram, e ele cruzou os braços. Ele devia saber que aquilo ia acontecer, mas não parecia nada feliz. Um burburinho surgiu na plateia, e eu me inclinei para a frente na beirada do meu assento.
O cavalariço conduziu o cavalo em seu ritmo, correndo o máximo que
podia para acompanhar as passadas largas e impetuosas. Quando pararam no centro do círculo, o grande macho castrado alazão encostou os lábios, brincalhão, no tratador, calmo e tranquilo após os potros e cavalos jovens assustados que haviam passado pela arena mais cedo naquela tarde.
Thandi apontou para a direita, enviando Flicker para o cercado dos
animais descartados. Ele seria enviado com o restante do lote vendido após o nosso casamento.
Lorde Kriantz balançou a cabeça.
– Desperdício de um cavalo tão bom! – ele disse. Flicker era a única coisa que importava para Mare. Se Lorde Kriantz
ligasse para ela, como poderia deixar Thandi usar o cavalo numa vingança tão mesquinha?
– Como pode deixá-lo fazer isso? – sibilei. – Flicker é tudo para ela. Ele deu de ombros.
– Ela não precisará desse cavalo no deserto. Poderá escolher qualquer um
dos meus. Aquele ali não é adequado para a vida no deserto.
A lógica dele não serviu para acalmar meu ânimo. Nada em sua
explicação demonstrava que ele se importasse com ela, ou que pensasse nela, ou que tivesse consideração pelo que ela amava. Ideias insanas nasciam em mim, pensamentos incendiários. Mordi o lado de dentro da minha bochecha dormente, esperando que isso me impedisse de arrancar a cabeça de Lorde Kriantz de cima de seus ombros numa explosão. Redirecionei meu olhar para o chão sob as cadeiras altas em que estávamos sentados, focando em algumas folhas úmidas que estavam sobre a terra. A fumaça subiu em colunas quando as folhas viraram cinzas.
Minha mãe agarrou minha mão numa advertência. – Seu mau humor está evidente, Sua Alteza – Lorde Kriantz disse
baixinho com um sorriso.
Meu corpo gelou, mas isso de nada serviu para apaziguar as chamas
raivosas no meu coração.
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QUARENTA
No dia de louvor, três dias depois da seleção, eu me sentei ao lado de
Lorde Kriantz no banquete pré-casamento de Denna e Thandi no salão principal – a primeira refeição que eu fazia fora dos meus aposentos desde que Thandi me trancara. Bem que poderia ser a minha última. As dobras de veludo do meu vestido pendiam de mim feito uma mortalha, mais escuras que o céu noturno do lado de fora. A decoração brilhava pelas paredes, fitas penduradas em cada lustre, e a mesa explodia no maior número de arranjos de folhas de outono e flores que podiam ser enfiados entre copos, pratos e travessas.
Eu desejava ter a Afinidade de Denna para poder tacar fogo em tudo. Assim que todos tomaram seus assentos, as portas duplas do salão
principal se abriram e revelaram Denna com toda a sua elegância. Seu vestido cintilava com as cores do outono, camadas de tecido cor de cobre tremeluzindo sobre o cetim de um bordô intenso. A bainha inferior do vestido era coberta de contas e arabescos suficientes para decorar cada sela de guerra nos estábulos, e seus cabelos escuros estavam presos para cima e enfeitados com mechas brancas e avermelhadas de crina de cavalo trançadas em fios brilhantes.
Embora parte de mim não desejasse outra coisa além de me levantar e
pegar sua mão, o momento de fazer tal coisa já tinha ficado para trás. Torci meus braceletes até eles cortarem a circulação no meu pulso, desviando meus olhos dela e encarando meu prato vazio.
Quando Denna passou por mim para se sentar, roçou as pontas de seus
dedos na minha omoplata nua com a leveza de uma pluma. O toque dela gerou um arrepio, e eu a odiei por isso. Meu estômago se revirou quando ela se sentou à cabeceira da mesa com Thandi, tendo sua mãe, que era como seu reflexo no espelho, ao seu lado. Lorde Kriantz pôs a mão no meu braço e me trouxe de volta à Terra. Examinei seu rosto, seu sorriso fácil, seus olhos escuros e seu queixo anguloso, desejando que algo nele pudesse despertar em mim pelo menos metade do que Denna me fazia sentir. Pelo menos, ele me levaria para longe dela e do caos que ela causava no meu coração.
Foi só quando os pratos haviam sido recolhidos, e várias músicas sido dançadas, enquanto Thandi conversava distraído com Lorde Kriantz, que Denna deslizou para a cadeira ao meu lado. Outros nobres circulavam à nossa volta, bebendo seus vinhos e conversando, mas bem que ela poderia ser a única outra pessoa na sala além de mim.
– Você veio – Denna disse.
– Como se eu tivesse escolha – respondi. – Thandi não pode me deixar trancada para sempre. – Mantive a voz firme. Eu precisava erguer um muro que ela não conseguisse derrubar.
– Senti tanto a sua falta. – As mãos de Denna tremiam, e ela agarrou suas saias para se controlar. – Esses últimos dias têm sido terríveis. Eu queria ter ido até você, mas Thandi não me deixou sair do lado dele.
– É tudo culpa minha – falei. – Eu não devia ter dito nada sobre o que sentia. Eu não devia ter ficado com você naquela noite. – Era doloroso dizer aquilo, mas eu não tinha escolha.
– Mas fico feliz que tenha dito. E ficado comigo. Eu não trocaria os últimos meses por nada. – Ela tocou meu antebraço.
Eu me afastei.
– Trocaria, sim. Pelo seu dever. – Apontei para a tiara adornada no alto de sua cabeça.
Decepção surgiu no rosto dela.
– Servir ao reino como monarca é a única coisa que sei fazer. É a única forma de ter poder para impedir a guerra – ela disse. – Mas quero encontrar um jeito de fazer as coisas darem certo para nós. Quero fazer você feliz. E não suporto a ideia de não tê-la ao meu lado. Diga o que preciso fazer para que você mude de ideia.
– Não há nada que você possa fazer – falei. – Não posso ficar. Thandi e o Conselho me forçaram a essa escolha e aceitei a proposta de Endalan. Não é isso que você faria? Cumpriria seu dever e seguiria o plano de outras pessoas?
– Isso é diferente – ela disse. –Você sabe tão bem quanto eu que os Dissidentes são apenas parcialmente responsáveis pelo que aconteceu. Entrar em guerra com outro reino sem termos provas é tolice. Não há força em uma aliança entre Sonnenborne e Mynaria baseada nisso. Nem sabemos se Kriantz conseguirá unir tribos suficientes para ser declarado rei, que é o que ele parece estar planejando.
Ela tinha razão, mas eu não queria dar o braço a torcer. Eu não podia
concordar com ela porque eu não podia ficar.
– Bem, meu irmão está sendo um idiota, mas talvez eu consiga fazer
Endalan mudar de ideia. Ele não é imbecil. Quem sabe ele ouça a pessoa com quem está formando uma parceria – falei.
– Não há garantias disso – ela insistiu. – Esta guerra o beneficiará. Ele
ganhará terras. Não sei se podemos confiar nele.
– Se ele não me ouvir, talvez eu pegue Flicker e vá para Zumorda por
conta própria. Tente avisá-los. De qualquer modo, é melhor que ficar aqui e ver você se casar com meu irmão – falei.
– Mas Thandi descartou Flicker – ela desabafou. – Ele será vendido
amanhã.Venho tentando achar um jeito de impedir…
– O quê? – falei. Minhas emoções conflitantes se fundiram em uma bem
mais simples: fúria.
– Lorde Kriantz estava lá, do meu lado. Ele disse que Flicker não é
adequado para a vida no deserto. Se ele se importasse com você, teria impedido que Thandi fizesse isso – ela disse.
– Eles não vão se safar dessa. – Ergui o queixo e olhei feio para o meu
irmão. Alguém pagaria por aquilo. Minha punição tinha ido longe demais. Ninguém tomaria meu cavalo.
– Mas Mare…
Balancei a cabeça e me levantei. Pelo menos, a seleção de Flicker para a
venda era um problema que eu podia resolver, à diferença do desastre com Denna. Atravessei o salão, furiosa, até onde estava Lorde Kriantz e o puxei de lado.
– Você vendeu meu cavalo – falei de chofre.
– Como?
– Dennaleia me contou que Flicker foi selecionado para a venda ontem. – Eu não pude opinar na seleção, milady. Não sei o que você ouviu, mas
garanto que não encorajei Sua Majestade a vender seu cavalo. É um ótimo macho castrado. Eu me ofereci para ficar com ele, mas Sua Majestade observou que eu deveria limitar meu lote ao que poderei usar no meu programa de criação de raça.
Mentiras. Denna havia me frustrado, me decepcionado, mas jamais
mentira.
– Então as coisas são inúteis se você não puder usá-las para reprodução? É assim agora? – ergui minha voz.
– Milady, por favor, não dê escândalo. Sei que está chateada por causa do cavalo, mas podemos resolver isso amanhã. E você poderá escolher seus cavalos em Sonnenborne depois que nos casarmos – Lorde Kriantz disse.
– Não quero um cavalo do deserto. Quero o meu cavalo – falei.
– Isso vai acalmar seus nervos, milady – ele disse e enfiou uma taça de vinho na minha mão e se adiantou para segurar em meu outro braço. – Falaremos disso depois.
– Não haverá um depois – falei. – Mudei de ideia. Não vou me casar com você. O trato está desfeito. – Eu me livrei dele e fui direto até o meu irmão, que estava entretido em uma conversa com o Conde de Nax.
Thandi me viu chegando e virou de costas para mim. Se ele queria fazer aquele jogo, eu também sabia jogar. Atirei a taça cheia de vinho nele. Vinho e cacos de vidro explodiram em seus pés, interrompendo a conversa abruptamente.
– Mas que diabos! – Thandi deu um salto para trás, os cacos de vidro rangendo sob as solas de suas botas.
Os convidados correram até nós, perplexos.
Sorri.
– Majestade – comecei a dizer –, caso tenha se esquecido, sou sua irmã, não uma égua de reprodução que você pode mandar embora com um lote de animais descartados. Se vender o meu cavalo é sua ideia de punição, pode enfiar seus planos no seu rabo real. Acabou. Cansei da guerra, cansei de Lorde Kriantz e, principalmente, cansei de você. – Eu o encarei, cada músculo do meu corpo tenso.
– Se você tivesse feito o que lhe foi pedido desde o início, não estaríamos aqui agora, Amaranthine – ele disse, seu tom de voz inabalado.
– É mesmo? Por acaso, acredito que cada um tenha um papel neste jogo. Não assumirei a responsabilidade pelas suas falhas. Então, se quiser declarar guerra a um reino sem ter provas de que esse reino de fato fez alguma coisa, fique à vontade. Estou fora. Cave sua própria sepultura. – Girei nos calcanhares e abri caminho pela multidão. Todos se afastaram depressa para me dar passagem, exceto uma pessoa.
Denna se postou diante da saída do salão principal, bloqueando meu caminho.
– Isso não é nada sábio, milady – falei. Eu precisava descontar minha
raiva fora do salão, e ela era a única pessoa que eu não queria machucar. Ainda assim, fraquejei ao encará-la, sentindo uma força inexplicável que sempre me fazia diminuir a distância entre nós.
– Não se vá – ela implorou.
– Estou indo – falei. – Mas aqui está algo para se lembrar de mim. Eu a envolvi em meus braços e a beijei com a sofreguidão com que ela
me beijara daquela primeira vez, esperando que, se eu a beijasse com intensidade suficiente, pudesse deixar para trás tudo que sentia por ela assim que eu saísse do salão. Ela tinha um gosto doce, um toque de maçã com especiarias da sobremesa ainda nos lábios. E apesar de sentir raiva por ela tê-lo escolhido em vez de mim, e apesar de estar prestes a abandoná-la para sempre, sentir seu corpo contra o meu me fez lembrar que o que acontecera entre nós era inevitável. Eu a amava. Ela fazia meu coração acelerar e minhas pernas vacilarem. Cada segundo que ela passava em meus braços era mais adorável que uma canção, mais leve que o ar.
Não parei para avaliar sua reação, apenas marchei de cabeça erguida para
fora do salão. Quando a porta sólida do salão principal se fechou às minhas costas, eu ri, um som estranho e oscilante que ecoou por todo o corredor. Finalmente, eu estava livre – se conseguisse escapar antes que Thandi mandasse os guardas atrás de mim. Eu pegaria meu cavalo descartado e cavalgaria para longe da cidade e jamais olharia para trás. Se eu fosse longe o suficiente, talvez para Zumorda, poderia recomeçar minha vida como uma pessoa comum, em vez da princesa que esperavam que eu fosse.
– Mare? – Nils se aproximou com cara de confuso. – Você sabe a hora de aparecer com a perfeição dos Seis – falei. – Venha
comigo e mantenha os outros vassalos afastados. Preciso sair daqui antes que eles venham atrás de mim.
Ele suspirou.
– O que você aprontou agora?
– Não posso explicar. Tenho que ir. Venha. – Eu o arrastei pelo corredor,
olhando nervosa por cima do ombro. Mesmo com as portas fechadas, dava para ouvir a tagarelice recomeçando, uma maré que subiria e certamente viria atrás de mim de algum modo. Os vassalos que guardavam a porta trocavam o peso de pernas, inquietos, como se soubessem que Thandi mandaria alguém no meu encalço. Mas eles não agiriam por conta própria com Nils ao meu lado. Avançamos depressa pelo corredor em direção aos meus aposentos. Eu levaria apenas o que conseguisse carregar e sairia em menos de uma hora.
– Mare, que diabos está havendo? – Nils perguntou. – Estou fazendo a ronda.
– Eu sei. Faça a ronda nesta direção por um minuto – falei.
– O que aconteceu?
– Estou indo embora, Nils. Não vou mais me casar. Vou fugir sozinha. Para Zumorda, acho.
Ele franziu a testa, mas assentiu.
– Se acha que essa é a melhor opção, apoio você. Os Seis sabem que você teve que aturar coisas demais ultimamente. Vá embora enquanto pode. Sempre lhe darei cobertura. – Ele apertou meu braço com ternura, e eu sorri para ele. Pelo menos, havia uma pessoa com quem eu podia contar. Entramos no que deveria ser um corredor vazio.
– Não tão depressa, Mare. – Lorde Kriantz estava parado, bloqueando nossa passagem, com dois de seus homens atrás dele, espadas reluzindo em suas mãos.
Nils e eu paramos abruptamente.
– Falei sério, Endalan. Cansei. Não vou a lugar algum com você. Não dificulte as coisas. – Eu me mantive firme, lançando olhares à minha volta para encontrar a rota de fuga mais rápida.
– Se ela diz que não quer ir, você não vai levá-la a lugar nenhum – Nils disse, avançando atrás de mim.
– Creio que você esteja enganado – Lorde Kriantz disse. Ele sorriu, mas o sorriso não se refletiu em seu olhar. Seus olhos observavam a cena com o ar arrogante de quem sabe que já venceu. Minha raiva deu lugar ao medo.
Ele ergueu a mão e seus homens se lançaram contra nós.
O soldado que veio na minha direção era forte, mas lento, e eu me esquivei e escapei de suas mãos. Acertei alguns golpes, já que logo ficou claro que Lorde Kriantz dissera a seus homens para não me machucar. Nils desembainhou sua espada e lutou com o outro guarda, barulho de metal contra metal e de botas se arrastando pelo chão enchendo o corredor enquanto eles duelavam.
– Já chega. – Lorde Kriantz investiu contra mim. Em um movimento rápido ele me segurou por trás e encostou uma lâmina estreita no meu pescoço. O metal frio estava pressionado o suficiente na minha pele para machucar.
Gelei.
– Desista – Lorde Kriantz disse a Nils. – Sabe que eu não a mataria, mas
ficaria feliz em cortar um ou dois membros desnecessários.
Nils largou a espada e se afastou, erguendo as mãos em rendição, seu
peito subindo e descendo devido ao esforço da luta.
– Assim é melhor – Lorde Kriantz disse.
Eu me debati, acertando um chute bem dado em sua canela, mas ele nem
se mexeu.
– Acabem com ele – Lorde Kriantz disse aos seus homens. – Não! – gritei, golpeando com toda a força.
O soldado de Lorde Kriantz deu um passo à frente e enfiou uma lâmina
curta no pescoço de Nils.
Meu coração partido se despedaçou.
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QUARENTA E UM
Quando os lábios de Mare abandonaram os meus, ela levou consigo tudo
que era importante, me deixando nua diante da multidão. Nada do meu verdadeiro eu era expresso no meu vestido enfeitado, no delineador negro que destacava meus olhos ou no batom cor de vinho em meus lábios. As olheiras escuras sob meus olhos haviam sido suavizadas com um produto mineral, como se a perda da única pessoa que importava para mim pudesse ser apagada com um pouco de maquiagem – como se minha Afinidade pudesse ser aprisionada debaixo da roupa certa. As pontas da minha tiara entravam no meu crânio feito a mandíbula de uma fera se fechando em volta da minha cabeça, selando meu destino. O beijo de Mare fora a única coisa verdadeira que todos viram naquela noite.
Minha mãe olhou para mim do outro lado do salão como se me visse pela
primeira vez, seu rosto lívido de choque. Thandi simplesmente se virou e se afastou, com os criados correndo atrás dele para limpar o vinho de sua calça.
A dor em meu coração era grande demais para caber naquele salão. Alguém segurou minha mão. Ellaeni. A dor emanava de seus olhos, e
reconheci a mim mesma nela. Mas ela fora sábia o bastante para escolher Claera a qualquer custo, apesar das objeções de sua família. Um dia, elas se reencontrariam.
Meus ossos tremiam com a magia, e a flor de um arranjo numa mesa
próxima começou a arder em fogo lento. Soltei a mão de Ellaeni e deixei o salão principal, com medo de incendiar a sala toda à minha volta. Segui o movimento dos meus pés, que me levavam para a ala real, sem saber direito o que diria, mas certa de que não poderia deixar Mare partir daquele jeito. A festa – e Thandi – podia esperar alguns minutos. Não seria difícil inventar desculpas. Ninguém se surpreenderia por eu precisar de um minuto para me recompor depois da cena que Mare fizera.
Meus passos ecoavam no corredor vazio, a ausência de vassalos me enchendo de uma inquietação assustadora e crescente. Em uma noite de banquete, deveria haver dois guardas em cada corredor. Um baque surdo veio de um corredor próximo.
Espiei na quina e congelei. Nils jazia no chão, sobre uma poça de sangue. Mare soluçava angustiada. Senti um nó na garganta, mas me controlei, com medo de revelar minha presença. Com um sinal de Lorde Kriantz, um de seus homens silenciou Mare com uma pancada na cabeça, e ela desabou nos braços do soldado, inconsciente. Meus nervos gritavam, mas meus pés não se moviam.
– Queime-o. Mais um corpo ajudará a nossa causa – Lorde Kriantz disse.
Seus soldados assentiram. Um deles tirou um fio dourado do bolso e o colocou em volta do pescoço de Nils, deixando as pontas sobre o seu peito. Lorde Kriantz deixou Mare aos cuidados de seus homens e se debruçou sobre Nils, girando o anel em sua mão esquerda até uma posição calculada. Chamas brilhantes de cor violeta saíram do fio dourado e engoliram Nils.
Não fora um feiticeiro que matara o Rei Aturnicus. Fora Lorde Kriantz. Ele também devia ser o homem da sombra que havia pagado aos Dissidentes para matarem Casmiel – tudo com o propósito de iniciar uma guerra e ganhar terras zumordanas. Meu estômago se revirou, e o fogo que ardia aumentou e fez as arandelas nas paredes explodirem uma a uma, deixando o corredor na escuridão, iluminado apenas pelo corpo em chamas de Nils.
– Que diabos foi isso? – um dos soldados disse.
– Pegue-a e vamos embora. Agora – Lorde Kriantz ordenou.
Ouvi uma movimentação desordenada quando um dos homens de Kriantz colocou Mare sobre os ombros, mas, quando meus olhos se acostumaram à escuridão, eles já tinham desaparecido, sem dúvida pela saída mais próxima. Xinguei baixinho, com um palavreado que impressionaria até Mare, e fui atrás deles. Lá fora, o som agudo de cascos com ferradura cortava o ar frio da noite. Lorde Kriantz e seus homens jogaram o corpo mole de Mare em uma carruagem puxada por dois cavalos cinzentos banais. Assim que as portas se fecharam, eles saíram trotando pelo portão.
Eu não podia deixar aquilo acontecer, mas de jeito nenhum eu arriscaria usar minha magia para fazê-los parar, principalmente sabendo que eu poderia machucar Mare sem querer.
Corri até o salão principal. Eu precisava fazer Thandi enviar vassalos
para resgatá-la. A festa parecia ter voltado parcialmente ao normal, exceto pelos olhos curiosos que me seguiam e pelos vassalos que vieram na minha direção assim que adentrei o recinto.
–Temos ordens de escoltá-la até Sua Majestade – um vassalo falou. – Claro – falei, grata por não ter que abrir caminho entre os convidados
para encontrá-lo. Era quase fácil demais. Os vassalos me levariam direto até Thandi, e então nós daríamos meia-volta e iríamos atrás de Mare antes que Lorde Kriantz cruzasse os portões da cidade.
Os vassalos me conduziram pelos cantos do salão até a antessala atrás da
mesa real e lá entraram comigo. Thandi estava sentado no centro do pequeno cômodo, com um criado esfregando as manchas de vinho de sua calça.
– Ah, eles acharam você – ele disse. Ele dispensou todo mundo, até que
fiquei parada sozinha diante dele. Seus olhos se esquivavam dos meus, como se ele não conseguisse olhar para mim depois daquela cena com Mare.
– Aconteceu uma coisa terrível. – Eu me esforcei para recuperar o fôlego,
meu coração e meus pulmões brigando entre si sob o corpete apertado do meu vestido. – Lorde Kriantz levou Mare. Eu o vi matar Nils com fogo gerado com o que me pareceu ser magia. Chamas roxas, como aquelas que mataram o Rei Aturnicus. Ele tem um anel dourado que…
Thandi focou seu olhar e finalmente me encarou quando eu mencionei a
magia.
– Não pode ser – ele disse. – Vi Nils fazendo a ronda antes de vir para cá
esta noite, e as pessoas não podem criar magia. Temos que nos concentrar em encontrar e eliminar a origem real dos ataques mágicos e destruí-las. Zumorda.
– Está falando sério? Isto não é sobre magia. É sobre o fato de Mare ter
sido levada à força do castelo pelo homem que matou seu pai! – O pânico me deixava zonza. Tudo que ele precisava fazer era ir até o corredor e ver o corpo de Nils para saber que eu dizia a verdade.
– Com certeza, você deve ter se enganado – ele disse. – Mas se está tão
preocupada assim, mandarei um guarda ver se está tudo bem com Nils, e um pajem aos aposentos de Mare para confirmar sua presença.
Eu não entendia como ele podia estar tão calmo.
– Mas então será tarde demais! – Fagulhas surgiram nos cantos do meu campo de visão. – Isto não é sobre mim e Mare. É sobre nosso reino entrar em guerra sem motivo. É sobre sacrificar a vida de nosso povo para que Lorde Kriantz possa expandir seu território e se autoproclamar rei. Acha que não sei o que vi? Que não mereço ser levada a sério?
– Confio em Lorde Kriantz – Thandi disse, sua voz mais fria que o ar da noite. – E certamente consegue entender minha hesitação em confiar em você.
– Meus olhos funcionam tão bem quanto os de qualquer outra pessoa. – Minhas mãos esquentaram a ponto de minhas palmas formigarem.
– Está sentindo cheiro de queimado? – Thandi olhou ao redor, alarmado.
Soltei as mãos da cadeira à qual eu estivera me agarrando. Fumaça subia dos pontos em que meus dedos haviam estado, e o medo me consumiu. Eu não queria ter feito aquilo.
– Pelos Seis! – Thandi parou atônito. – Foi você.
– Não – falei apavorada. Se ele me responsabilizasse pela morte de seu pai, eu seria morta. Pior, me perseguir o faria se esquecer de ir atrás de Mare.
– Você… você está inventando todas essas coisas para esconder que é a culpada. Não me admira que tudo tenha começado quando você chegou. E você sabia tanto sobre a flecha… você deve estar trabalhando com os Dissidentes. Não acredito que fui tão burro. – Ele se afastou de mim.
– Não sou culpada de nada disso – falei. – Tudo o que sempre quis foi fazer o melhor para Mynaria. Eu não sabia nada sobre os Dissidentes antes de vir para cá. Por favor, me escute! Precisamos fazer alguma coisa com relação a Mare e a Lorde Kriantz! Não percebe? Ele o está arrastando para uma guerra que beneficiará apenas a ele!
– Temos que nos casar para que a aliança prossiga com os planos de guerra, mas, acredite em mim, você será julgada e responsabilizada por qualquer morte que tenha causado – Thandi disse. Ele se dirigiu para a porta.
Durante toda a minha vida, o dever sempre viera em primeiro lugar. Naquela noite, era hora de dar prioridade ao meu coração e ao meu reino. Eu me levantei e o encarei.
– Não! – falei. – Não posso me casar com alguém que não salvaria a própria irmã. E prefiro morrer a me casar com uma pessoa que pretende sacrificar sua cavalaria em nome de uma guerra claramente planejada por Kriantz para benefício próprio. Se quer uma aliança com Havemont, traga Mare de volta. Eu me casarei com ela. Com prazer. – Minha convicção superou, e muito, meu medo. Meus dias de pavor tinham chegado ao fim.
– Nunca – ele disse.
– Então me deixe ir – falei e movi a mão na direção da cadeira
chamuscada. Ela pegou fogo, e a sensação de liberar aquela energia foi ótima. Como cavalgar Shadow. Como beijar Mare. Como a liberdade. Mais poder se acumulou em mim para substituir aquele que eu perdera. Eu mal conseguia me controlar, como se dizer o que eu queria de verdade tivesse finalmente libertado minha magia e meu coração.
– Guardas! – ele chamou.
A porta se abriu e vários guardas entraram. A saudação deles ficou pela
metade enquanto seu olhar ia de Thandi para a cadeira em chamas.
– Por favor, escoltem a Princesa Dennaleia até os aposentos dela –
Thandi instruiu. – E deixem quatro guardas em sua porta esta noite. Eu gostaria de segurança extra até o casamento, caso o inimigo… – ele olhou para mim – decida atacar novamente.
Eles me arrastaram para fora da sala feito lixo. A tentação de queimar
todos eles estava à flor da pele, mas eu precisava guardar meu poder para usá-lo contra quem merecia morrer: Lorde Kriantz. Se eu pudesse pará-lo, todos os seus planos cairiam por terra. Eu não me importava mais com o quão perigoso era usar meu dom.
Depois que a porta se fechou atrás dos vassalos, fui para o meu quarto de
dormir para que Auna pudesse me ajudar a tirar aquela roupa. Assim que eu me livrasse daquele vestido pesado, poderia, de fato, fazer alguma coisa. Mas Auna havia apenas começado a soltar meus cabelos quando a porta da antecâmara se abriu e minha mãe entrou.
– Dennaleia – ela começou a falar.
– Não. Hoje não – falei. A última coisa de que eu precisava era levar
sermão da minha mãe. As chamas cresceram na lareira, deixando o quarto desconfortavelmente quente. Se minha mãe me deixasse ainda mais irritada, todo o castelo provavelmente queimaria.
– Não estou aqui para dizer isso que você está pensando – ela disse,
sentando-se na minha cama.
Só acreditei nela quando a vi cobrir o rosto com a mão, seus olhos
fechados como se não tivesse forças para continuar. Envolta nas camadas de seu vestido com o rosto enterrado nas mãos, ela parecia muito pequena.
– Auna, você está dispensada esta noite – ela disse por fim.
Auna fez uma mesura e saiu depressa do aposento.
Mamãe se levantou e assumiu a tarefa que Auna deixara pela metade, removendo as quase infinitas camadas das minhas saias e soltando meu espartilho com mãos gentis. Eu não me lembrava qual havia sido a última vez em que ela me tocara.
– Thandilimon me mostrou a cadeira – ela disse enquanto me ajudava a vestir uma camisola.
– Tentei lhe contar – falei. – Tentei lhe perguntar por que isso estava acontecendo. Você nunca tinha tempo para conversar comigo. Sempre preocupada com as boas maneiras. Com o protocolo. Em causar uma boa impressão. Em acalmar as coisas e jamais falar sobre o que realmente está acontecendo. – Enquanto eu falava, fagulhas escaparam da lareira.
– Pensei que pudesse proteger você – ela disse. – Quando era criança, seu dom era tão pequeno. Com o sangue diluído, achei que seu dom não seria forte. Sinto muito, Dennaleia. Eu estava errada.
Ela me sentou diante da penteadeira, e no espelho seus olhos estavam sombrios e úmidos.
– Que sangue diluído? – sussurrei.
Minha mãe respirou fundo.
– Você sabe que sou de uma das províncias mais afastadas de Havemont. Do sul, nas Montanhas Kavai, perto da fronteira com Zumorda.
Eu já ouvira aquela história mil vezes. Como meu pai a conhecera em sua turnê de coroação. Como ele se apaixonara instantaneamente por ela, apesar de ela ser da baixa nobreza. Como ele surpreendera o povo de seu reino ao escolher uma mulher improvável para ser sua esposa, e como aquela escolha unira o reino mais que o esperado.
– Minha mãe não é minha mãe de verdade. Minha mãe biológica era zumordana. Era a aia da minha mãe. – A confissão custava a ela um enorme esforço a cada palavra, suas mãos tremiam.
Minha mãe, a pessoa mais régia que eu conhecia, tinha sangue impuro.
– Meus pais tentaram conceber uma criança durante anos, mas nunca deu certo. Minha mãe e sua aia fizeram um acordo com meu pai, e então eu nasci. De certa forma, tive um pai e duas mães. – Ela se recompôs, falando num tom monótono de quem lê as informações contidas em um livro de história. – Ninguém conhecia a verdade. Eles me contaram quando atingi a maioridade, assim que ficou claro que eu seria rainha.
– Como pôde guardar esse segredo de mim? – Eu me esforcei para falar
mesmo com o aperto que sentia no peito conforme meus olhos se enchiam de lágrimas. O tempo todo, a explicação para o meu dom estivera bem ali, e ela a escondera deliberadamente de mim. Meus braços formigavam com o poder crescente. O lampião que estava sobre a mesinha de cabeceira explodiu em chamas, enchendo o quarto de cacos de vidro. Uma rajada de vento abriu uma das venezianas com tanta força que a dobradiça superior se soltou.
Minha mãe deu um salto, e suas mãos tremeram ainda mais enquanto ela
terminava de soltar meus cabelos.
– Ninguém podia saber – ela disse. – Seu pai e eu decidimos isso quando
nos casamos. Se a verdade sobre meu sangue viesse à tona, poderia colocar em risco a Coroa de Havemont. O reino vem sempre em primeiro lugar.
– Não consigo esconder a minha verdade, mãe – falei. – É mais forte que
eu. – Aquela era a única coisa de que eu tinha certeza.
– Eu sei – ela falou gentil. – Sinto muito, Dennaleia. Achei que eu tivesse
feito a coisa certa. Eu nunca apresentei o menor traço de magia, nem minha mãe biológica. Não sabíamos que isso poderia acontecer.
Então eu contei a ela sobre a adaga, a Cavalgada e as palavras de
advertência de Karov. Contei a ela o que Kriantz havia feito e que Thandi se recusara a me ouvir. Eu não tinha mais nada a perder. O ataque a Zumorda já era inevitável. E com Nils morto, os Dissidentes presos e eu como a única suspeita de ser usuária de magia, nada que viria em seguida seria bom.
– Thandi ainda pode se casar comigo pela aliança, para perpetuar essa
guerra idiota – concluí. – Mas depois disso, estou em maus lençóis.
Minha mãe pousou suas mãos em meus ombros e cruzou olhares comigo
no espelho.
– Você é minha filha e eu sempre a amarei. E com relação a esse assunto,
devo admitir que sei tanto quanto você. Mas se você puder me perdoar por não ter lhe contado sobre sua avó… eu a perdoarei por decidir o que achar melhor neste caso e por fazer o que deve fazer.
Eu levei minha mão em direção ao meu ombro e cobri a mão dela com a
minha, me perguntando se eu já havia visto minha mãe como ela era de fato. Sim, ela era uma rainha, mas também era apenas uma pessoa fazendo o melhor que podia com o que tinha. Não muito diferente de mim. Nós duas havíamos errado, e nós duas pagaríamos o preço.
Ela beijou minha bochecha e saiu sem dizer mais nada, me deixando com meus pensamentos caóticos e com o surgimento insistente da minha magia. Fui até minha mesinha de cabeceira e tirei o livro verde de debaixo dos cacos de vidro do lampião, acariciando sua capa distraidamente. Se ao menos eu conseguisse controlar minha magia como o feiticeiro do livro, poderia deixar o castelo abrindo meu caminho a fogo, ou poderia mandar uma bola de fogo atrás de Lorde Kriantz para destruí-lo.
Sob meus pés, a borda gasta de um cabresto escapava de debaixo da cama.
Ao ver aquilo, lembranças de Mare me inundaram.
Meu coração se partiu em tantos pedaços quanto havia estrelas no céu. Nossos momentos juntas ardiam dentro de mim com mais intensidade que qualquer chama: suas palavras sábias, sua mão na minha, seus braços em volta do meu corpo, seus beijos ardentes.
Seu amor.
Naquele instante, tudo se encaixou. Eu sabia o que tinha que fazer. Se me sacrificar pelo reino era necessário, eu me arriscaria para impedir a guerra e salvar Mare, não morreria lentamente perseguida por Thandi por crimes que eu não havia cometido.
Despi minha camisola e vesti minha calça de montaria, calcei as botas e me agasalhei o melhor que podia. Finalizei meu visual caótico com minha capa mais simples e abri a outra veneziana. Apenas o vento frio me cumprimentou – o jardim estava vazio e escuro lá embaixo. Thandi não teria contado que as lembranças de Mare me ajudando a escapar da sala de comando de Ryka me dessem coragem.
Olhar para baixo fazia meu estômago revirar, mas eu não tinha tempo para me entregar à náusea. Pendurei a corda junto à parede e passei uma perna por cima do peitoril, as luzes distantes dos estábulos acenando para mim do outro lado dos jardins. Desci até o chão com nossa escada improvisada e entrei por uma porta, a mesma que Thandi me mostrara naquele passeio pelos subterrâneos do castelo.