Fogo & Estrelas
Capítulo 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
criativas. Foi muito difícil para você escalar aquela parede quando invadiu meus aposentos daquela vez?
– Ah, céus – falei. – Fiquei dolorida por dois dias depois daquilo. – Tenho uma ideia – ela disse animada. – Cordas! Cordas do celeiro.
Podemos pegar algumas cordas ou alguns cabrestos extras? Faremos algo que ajude você a escalar com mais facilidade.
– Sempre temos um monte de cabrestos velhos e encostados. Verei isso
amanhã – falei. A inteligência dela me encantava.
– Ótimo. Então nos encontramos amanhã à noite nos meus aposentos,
depois da idiotice do dia que tenham planejado para mim. Quatro horas após o jantar é tarde o suficiente. Tem acontecido muita coisa na corte.
– Não tenho tido muita sorte na cidade, mas ainda podemos comparar
nossas descobertas. Eu topo.
– Mesmo? Sei que é loucura. Não precisa fazer isso se não quiser. – Eu a visitaria mesmo que você estivesse no quinto andar e que eu
tivesse que dar um jeito de voar – falei.
– Mare! – ela exclamou e me abraçou novamente. – Fico tão feliz. – Ela
se afastou devagar, seu hálito formando vapor no escuro. Ela me olhou nos olhos, tentando encontrar algo. Eu não fazia ideia do que ela procurava, embora seus olhos estivessem cheios de esperança e medo, e mais alguma coisa que eu não conseguia identificar. Eu sabia o que queria que ela visse: que eu sempre estaria lá para ela, do jeito que eu pudesse.
–Vejo você amanhã – ela disse por fim, tocando minha bochecha com sua
mão fria antes de desaparecer depressa do jardim.
Eu me sentei no banco, tremendo por causa do frio causado pela ausência
dela, e ainda sem saber ao certo o que pensar de nosso encontro, só que ela queria me ver. Ela queria que eu entrasse por sua janela amanhã. E isso bastava.
OceanofPDF.com
OceanofPDF.com
VINTE E NOVE
O ar frio da noite soprava em meu quarto, fazendo as chamas da minha lareira tremeluzirem e gerando fagulhas por trás da grade de proteção. Tremendo, fui mais para perto do fogo e apoiei as mãos nos cavalos empinados que decoravam o metal. Os cavalos tinham crinas ao vento, como aqueles das cercas e dos portões que Mare e eu vimos ao caminharmos por Lyrra. Mesmo agora, eu podia sentir o gosto agridoce da cerveja e o conforto e a liberdade de estar ao lado de Mare. Se tudo saísse de acordo com o plano, ela logo chegaria.
Atrás de mim, uma série de cabrestos e cordas amarrados ia do grosso pé da minha cama até o lado de fora da janela aberta. Obtê-los tinha sido tão fácil quanto Mare prometera: ela os havia contrabandeado pelo túnel do celeiro, enfiado dentro de uma caixa de presente coberta de fitas brilhantes, e feito sua aia entregar o mimo nos meus aposentos.
Ficar sentada escutando a leitura de poesias terrivelmente maçantes com uma expressão agradável no rosto horas antes tinha sido fácil. Saber que em pouco tempo eu veria Mare tornara tudo suportável. Thandi havia comentado o quão feliz eu parecia estar, e eu respondera que aquela poesia era especialmente adorável. Não era verdade, mas não importava. A luz tênue da sala de estar fazia seus olhos azuis terem o exato tom de cinza dos olhos de Mare. Ver traços de Mare nele colocava um sorriso plácido em meu rosto. Se a possibilidade de ver Mare tornava meu tempo com Thandi mais aprazível, era mais uma maneira que ela tinha de tornar minha vida melhor, mais um motivo pelo qual eu não poderia perdê-la jamais.
Vesti minha capa e arrastei uma cadeira até a janela onde a corda estava pendurada. O frio não me impedia de espiar pela janela de tempos em tempos até ver Mare parada no jardim lá embaixo, mal conseguindo enxergar seu rosto entre as sempre-vivas plantadas ao longo da parede do castelo. Acenei, resistindo ao impulso de gritar “olá” quando ela deu vários puxões na corda para testá-la. Escalar não parecia fácil, mas ela conseguiu subir, os velhos cabrestos e as cordas aguentando firme.
Quando ela passou pela janela, minhas mãos e meus pés perderam
completamente a noção do que deveriam fazer. Ela recolheu a corda e fechou as venezianas, e então ficamos nos olhando por um instante que se prolongou até eu tomar consciência das minhas bochechas tão vermelhas quanto a coberta de seda sobre minha cama.
– E então… er… como foi seu dia? – perguntei enfim. – Ah, você sabe. O de sempre. Enchi a cara de cerveja barata em Lyrra.
Rosnei para algumas crianças. Chutei uns cãezinhos. – Ela tirou o chapéu, deixando sua trança descer por suas costas.
– Você não fez isso! – Dei uma risadinha.
– Bem, mais ou menos um quarto disso é verdade – ela disse, seus olhos
brilhando de alegria. – Passei mesmo o dia na cidade, e Nils e eu fomos a uma das tavernas mais nojentas que frequentamos, já que não tivemos muita sorte no Cão Surdo. Mas não sei por quanto tempo mais poderemos continuar frequentando a Barbela. As ruas parecem perigosas agora.
– Conte para mim como é a Barbela – falei. Sinceramente, eu não me
importava, mas a melodia de sua voz em meus ouvidos era tão agradável que eu a ficaria escutando ler o inventário da tesouraria dos quatro Reinos do Norte. Com prazer.
Sentamos lado a lado na minha espreguiçadeira. – É escura – ela disse. – O tipo de lugar onde você não quer comer nada
que derrube na mesa. E praticamente todos os fregueses parecem querer roubar comida do seu prato se você vacilar. A cerveja é barata, mas desce fácil. A maioria das atendentes têm uns dentes faltando e parece que jamais descobriram para que serve uma escova de cabelo.
– Mmm – falei. Tirei um broto de sempre-viva da manga de sua camisa
preta e o girei entre os dedos. Assim que o joguei no fogo, minha mágica surgiu involuntariamente e o incinerou antes que ele atingisse as chamas. Sentei-me depressa, mas Mare não pareceu ter notado.
– O problema é que agora é mais difícil conseguir informações. Apesar
de tantos Dissidentes terem sido cercados, parece que continuam surgindo, e a violência contra eles persiste em aumentar. Não usam mais seu antigo lugar de encontro, e ninguém tem uma pista. São espertos demais para revelar sua localização – ela disse.
– Uma amiga comentou que eles estão se espalhando por todo o reino – eu informei a ela, pensando em Ellaeni e Claera. – E também estão sendo perseguidos em todo lugar. Temo por alguns dos meus amigos.
– Sim, Kriantz também disse isso. Mas você tem amigos entre os Dissidentes? – Mare perguntou. – Se tivesse, seria bem útil! Poderíamos perguntar a eles…
– Não, não. – Balancei a cabeça. – Uma das minhas amigas está cortejando uma pessoa que tem um dom. Foi por isso que fiquei sabendo. Mas ela não tem recebido nenhuma mensagem faz tempo e teme que algo tenha acontecido. Tenho tentado descobrir o que está havendo para ajudá-la.
– A pessoa tem o dom do fogo, por acaso? – Mare perguntou.
O medo se agitou em mim, um reflexo das chamas na minha lareira.
– Não – falei. – Água.
– Que pena. Os Dissidentes mencionaram alguém com o dom do fogo, alguém poderoso. Mas não sabiam quem era, apenas sentiram uma explosão de magia na noite da tentativa de assassinato do meu pai. Eu esperava que essa pessoa que sua amiga corteja talvez fosse a explicação para isso.
– Não, não acho que fosse ela. – Minha boca ficava mais seca a cada instante.
– Talvez assim que começarem a testar as pessoas de modo mais abrangente, consigam encontrá-la. Ela poderia nos dar algumas respostas que procuramos.
Engoli em seco. Não demoraria muito para que a paranoia do Conselho os fizesse testar os palacianos.
– Mare? Preciso lhe contar uma coisa. – Eu tremia de medo, mas as palavras estavam saindo e eu não podia voltar atrás. – Naquela noite que o assassino tentou matar o rei… fiquei com tanto medo. E quando ele atacou Thandi, e depois você… Temi que você se ferisse. Que você fosse morta.
– Também me senti assim – ela disse. – Mas isso não importa. Ele está morto. – Ela tocou meu braço para me tranquilizar.
– Eu sei. Mas tem mais uma coisa que eu preciso lhe contar sobre aquela noite – falei.
– Do que está falando? – ela perguntou.
Minha garganta fechou. Eu não conseguia falar.
Em vez disso, olhei para as chamas na minha lareira e liberei um pouquinho da magia no mundo. Fagulhas subiram do fogo e se espalharam pelo quarto, ardendo ainda mais do que quando se soltaram. Meu controle vacilou quando elas quase chegaram ao teto, e eu voltei a reprimir a magia. As fagulhas explodiram todas ao mesmo tempo, gerando uma chuva de cinzas.
Mare olhou para mim perplexa.
Minhas bochechas queimavam de vergonha e de medo. Quando ela
dissera que sempre seria minha amiga, ainda não conhecia meu segredo. Mas eu queria que suas palavras fossem verdadeiras – e isso significava que eu precisava contar a ela.
– Por favor, me perdoe – falei. – Minha mãe disse que eu deveria
esconder esse dom, levar o segredo para o túmulo comigo. E sempre tinha sido um dom pequeno, um truque para entreter as visitas. Não magia de verdade. Mas desde que cheguei aqui, saiu de controle. É mais forte que eu, Mare, e fica mais forte a cada dia. Estou com medo. E não sei o que fazer.
– Foi você – ela sussurrou. – Não foi Lorde Kriantz, nem a faca. Você
queimou o assassino.
Confirmei com lágrimas brotando nos cantos dos olhos. – Jamais quis fazer aquilo. Foi tão assustador. Quando ele atacou você e
Thandi, não consegui mais me controlar.
A expressão de Mare era indecifrável.
– Por favor, não me odeie – falei com um fiapo de voz. Meu queixo
tremia e eu tentava manter a cabeça erguida, embora não conseguisse encarar Mare. O chão virou um borrão quando as lágrimas encheram meus olhos.
Ela colocou uma mão hesitante em meu braço. – Nada me faria odiá-la – ela disse.
– Mas é proibido. É perigoso – falei, desafiando-a a me contradizer. – Sim – ela concordou. Fez-se um silêncio pesado entre nós. – Mas
significa muito que você tenha confiado em mim e me contado a verdade.
Enxuguei as lágrimas e dei um sorriso vacilante. O peso de guardar
sozinha meu segredo em Mynaria finalmente diminuíra.
– O que pretende fazer? – ela perguntou gentil. – Não sei – falei. Meus problemas estavam longe de serem resolvidos. –
Se começarem a testar todo mundo, é só uma questão de tempo até descobrirem. A aliança estará arruinada. Fico pensando que, talvez depois que eu estiver casada, consiga fazer algo com relação aos Dissidentes. Eles precisam ser responsabilizados pelo que aconteceu com Cas, mas talvez eles possam fazer algo mais por nós. Quem sabe não possam agir em favor do reino em vez de contra ele? Se houver uma maneira de remover ou esconder minha Afinidade, quem sabe eles não saibam um jeito de…
Tremi. Liberar a magia de algum modo me fazia sentir mais frio do que antes, e o ar do meu quarto ainda estava gelado por causa das janelas que tinham ficado abertas enquanto eu esperava por Mare. Esfreguei as mãos e as enfiei debaixo dos braços, mas nenhuma das duas coisas adiantou muito para fazer com que me sentisse melhor.
– Me dê – Mare disse. Ela chegou mais perto e esticou as mãos, mexendo os dedos para sinalizar algo que não compreendi imediatamente.
– Minhas mãos? – guinchei.
– Sim, sua boba. – Ela segurou minhas mãos, o calor de seu toque enviando um choque pelo meu corpo. – Denna… não sei muito a respeito de magia. Mas não acho que os Dissidentes sejam totalmente responsáveis pelo que aconteceu com Cas. Precisamos descobrir quem forjou aquela faca e por que queriam incriminar Zumorda. Talvez essa pessoa ou poder esteja por trás do que aconteceu com Cas. Mas o mais importante é: não vou deixar ninguém machucar você.
– Obrigada – falei. Eu queria chorar mais uma vez com o alívio que suas palavras me davam. Ela conhecia meu segredo, e ainda assim não tinha saído correndo. Mare conhecia meu segredo, e ainda segurava minhas mãos como se fossem as coisas mais preciosas do mundo. Ela as segurava com ternura, massageando meus dedos e fazendo com que o calor voltasse para eles. A magia fazia meu corpo inteiro formigar. Eu não ousava me mexer ou falar, com medo de que isso a fizesse parar ou me fizesse incendiar alguma coisa por acidente. Mesmo com os calos formados pelas cavalgadas constantes, suas mãos eram sedosas em comparação com as de Thandi. O cuidado que ela tinha comigo, com cada toque, era delicado, como se ela conhecesse meu corpo sem que eu tivesse que lhe dizer nada.
– Posso fazer uma pergunta? – ela disse.
Assenti.
– Qual é a sensação? De usar magia?
De todas as perguntas que ela podia ter feito, aquela eu não esperava.
– Minhas mãos formigam quando a magia surge – falei. – Usá-la me dá a sensação de que estou doando partes de mim, mas também me deixa animada.Às vezes, parece perigosa e fora de controle, e sinto como se não tivesse ideia do que estou fazendo.
– Soa como aqueles segundos que vêm antes de você beijar alguém – ela
disse, sorriu e baixou os olhos.
Seu comentário ficou na minha cabeça o resto da noite, assim como a
forma como ela aceitara minha Afinidade com inesperada gentileza e graça. Toda vez que ela olhava para mim, eu me sentia a única pessoa em todos os reinos. Ela me deixava radiante.
Muito tempo depois que ela se fora, o fogo na lareira ainda ardia
brilhante, uma companhia apropriada para minhas emoções. A primeira noite em que eu me sentira daquele jeito tinha sido quando Mare e eu estávamos no jardim entre os pirilampos. Algo na forma como eles vagavam pelo jardim fizera com que eu me sentisse tão viva, e, ao mesmo tempo, ficar ao lado dela me dera chão. Fitando o fogo, imaginei que pedacinhos das chamas se separavam, subiam e pairavam pelo quarto como os pirilampos daquela noite.
Uma fagulha caiu na minha xícara de chá pela metade e chiou no líquido
morno.
E pela primeira vez não me assustava o fato de minha magia surgir tão
fácil e tão explosiva em Mynaria – eu simplesmente observei os pontinhos de luz flutuarem preguiçosamente pelo meu quarto, fantasiando sobre aquela noite em que eu ficara no jardim com Mare. E assim como eu tirara as fagulhas do fogo, as devolvi uma a uma, as faíscas girando em espirais de volta às chamas até se reduzirem a cinzas.
Saí do transe como se acordasse de um sonho – um sonho que mal me
deixava continuar em pé ou de olhos abertos. Mas naquele momento eu tinha certeza de uma coisa pela primeira vez na vida: minha magia não era um truque para entreter as visitas nem resultado de orações em excesso para o deus do fogo.
Eu tinha uma Afinidade. Uma poderosa.
Eu jamais conseguiria escondê-la.
E não tinha sido Thandi que me mostrara o tamanho do meu dom, que
me aceitara e transformara a fagulha em fogo.
Fora Mare.
Ao tomar consciência disso, percebi que eu estava completamente, sem
sombra de dúvida, profundamente apaixonada por ela.
Se eu fosse qualquer outra pessoa no mundo, talvez tivesse lhe contado.
Mas meu futuro estava traçado.
OceanofPDF.com
OceanofPDF.com
TRINTA
Entrar de fininho nos aposentos de Denna virou um hábito diário. Sua Afinidade deveria ter me assustado, mas em vez disso fez com que eu me sentisse mais próxima dela e honrada por ela ter confiado em mim e me mostrado aquela parte tão aterrorizante de si. Tentei convencer a mim mesma de que as horas roubadas que passávamos juntas bastavam, até uma noite em que fiquei em seu quarto até tão tarde que adormeci ao seu lado e acordei na manhã seguinte com seu corpo pequeno encolhido perto do meu, o calor de suas costas pressionadas contra o meu peito. Eu adorava a pele macia de seu ombro e a curva graciosa de sua cintura e o som de sua respiração adormecida. E embora naquele momento fôssemos tão próximas quanto duas pessoas podiam ser, ainda não me parecia proximidade suficiente.
Quando chegou a hora de encontrá-la na noite seguinte àquela em que eu dormira em seu quarto, eu não conseguia mais disfarçar minha agitação com relação ao que o futuro nos reservava. Assim que nos sentamos, ela começou a falar exasperada sobre os planos para o seu casamento. Eu não conseguia escutar. Eu queria que ela fosse minha, não do meu irmão.
– Denna – interrompi quando ela finalmente fez uma pausa em seu discurso inflamado. – Eu estava me perguntando se não existe mais alguma coisa em que ainda não pensou. – Era agora ou nunca.
– O quê? Ah, não… será que esqueci de alguma coisa para o casamento? – Ela se sentou ereta com uma expressão de pânico.
– Possivelmente – respondi seca. – Você se esqueceu de que em menos de um mês se casará com meu irmão?
Denna me encarou.
– É claro que não. Não é essa a ideia?
– Mas percebe o que isso significa? – falei. Eu esperava que ela percebesse a insinuação, porque dizer o que eu tinha em mente com todas as palavras seria difícil.
– Não estou entendendo.
– Você.Thandi. Casados. Príncipe. Princesa. Rei. Rainha. – Sei, sei, sei. O que isso tem a ver com algo que eu ainda não saiba? – Denna, não vou usar cordas para escalar paredes e entrar em um quarto
que você estará dividindo com meu irmão. – Todos os nossos momentos juntas tinham sido roubados de nós, e, assim que ela dividisse um quarto com meu irmão, não teríamos mais nenhum.
– Eu sei. – Sua voz falhou.
– E você não poderá sair de fininho. Quando estiver casada, passar um
tempo comigo não começará a ser bem visto de repente. Pelo contrário. Eles arranjarão coisas em dobro para mantê-la ocupada. Você terá que ser a anfitriã em todo evento que se planeje realizar entre estes muros. Você terá que fazer turnês pela cidade. Com sorte, eles serão sensatos e a colocarão no Conselho imediatamente. De jeito nenhum você conseguirá me encontrar, às escondidas ou não.
Uma série de emoções que não consegui decifrar passou pelo semblante
de Denna.
– E por que você se importa tanto com isso? – ela perguntou. Levantou-
se e me encarou.
– O quê? – O tom desafiador me pegou de surpresa. – Não, Mare, de verdade. Por que se importa? – ela pressionou. – Porque… porque me preocupo com você – dei uma desculpa
esfarrapada.
– Você pode continuar se preocupando comigo da mesma forma quando
eu estiver casada. Você pode mostrar que é minha amiga me ajudando a passar por isto, tornando este momento mais suportável. Ficando aqui e me oferecendo conselhos e sua amizade. – Ela chegou mais perto.
– Sim, mas…
– Mas o quê, Mare? O que você quer de mim? Senti um aperto no peito e minha garganta fechou, impedindo que eu
dissesse o que precisava dizer. Ela não entendia que aquela amizade não bastava mais, e eu não sabia como dizer a ela tal coisa. Poderia acabar com tudo.
– Mare, você precisa me dizer por que isso importa para você – ela disse. – Porque… porque não quero ficar sem você – falei. – Mas você não ficará sem mim! Só se você se casar com alguém e for
embora. – Ela deu um passo para trás e jogou as mãos para cima.
– Ficarei, sim – falei, finalmente explodindo. E me levantei. – Denna, você não entende como serão as coisas. Você não terá vida própria. Posso ter um pequeno papel nela se eu ficar aqui, mas as coisas não serão como são agora. E não quero que as coisas mudem, a menos que a mudança signifique passar mais tempo com você, não menos.
Além disso, ela estaria casada com meu irmão e dividiria a cama com ele. Meu futuro seria o de uma solteirona, envelheceria sozinha, murchando enquanto os via construir uma vida juntos. Eu tinha que falar agora, antes que fosse tarde demais.
– Denna, a verdade é que eu gostaria que fosse comigo, não com Thandi, que você tivesse que casar. Eu suportaria a Coroa se isso significasse ter uma vida com você. – Cada palavra doeu. Eu havia arrancado meu coração pulsante e o jogado no chão aos pés dela. Só havia mais uma coisa a ser dita. – Amo você. – As lágrimas vieram e me fizeram engasgar.
Ela olhou para mim como se eu a tivesse golpeado, tão imóvel que eu nem conseguia imaginar o que se passava por sua cabeça. Ter revelado a ela meus sentimentos tinha sido um erro terrível.
Eu me virei, meu peito desmoronando. Pelo menos agora eu poderia casar com outra pessoa ou viver minha própria vida, sem ter que imaginar se as coisas teriam sido diferentes.
– Preciso ir. – Funguei, lágrimas idiotas escorrendo pelas minhas bochechas. Eu odiava que Denna me visse tão fraca e arrasada. Fui até a janela, agarrei a corda com as mãos trêmulas e passei uma perna pelo peitoril. E então, de repente, ela estava do meu lado, agarrando meu braço, seus olhos brilhando de lágrimas.
Ela me empurrou contra a esquadria da janela e senti um nó na garganta. Apesar de saber que eu tinha que fugir dali, meu corpo congelou, sem querer encerrar aquele meu último momento com ela. Uma pergunta sem resposta encheu o ar entre nós. Ela enxugou uma lágrima da minha bochecha com seus dedos suaves, e cada fibra do meu corpo traidor respondeu com um desejo tão intenso que queimava.
– Não posso perder você – ela sussurrou.
Algo parecido com esperança tremulou no meu peito.
Ela se inclinou para a frente e me beijou.
OceanofPDF.com
OceanofPDF.com
TRINTA E UM
O corpo de Mare ficou rígido quando a toquei. Eu a beijei devagar, intensamente, cada sentimento que eu tinha por ela colocado em meus lábios enquanto sentia a doçura dos seus. Um vento gelado entrava pela janela aberta e não alterava o calor entre nós. Ela abrira meus olhos para o mundo, e agora era minha vez de dar vida a ela lhe mostrando o quanto ela era importante para mim. A corda bateu contra o peitoril ao escorregar de seus dedos frouxos e então eu soube que a ganhara.
– Também amo você – sussurrei.
De repente, as mãos dela estavam em todo lugar, meio desajeitadas tentando encontrar onde agarrar. Ela me puxou tão para perto que eu estava quase sentada em seu colo, a parte de dentro de sua coxa pressionada contra meu quadril enquanto ela me beijava mais uma vez. Uma onda de calor explodiu na boca do meu estômago quando ela mordeu meu lábio delicadamente, me estreitando ainda mais em seus braços. Quando finalmente nos separamos, ofegantes, eu nem sentia mais frio.
– Mare – falei baixinho, segurando seu rosto entre minhas mãos trêmulas. Ainda havia lágrimas em sua face, e usei meus polegares para secá-las.
– Eu deveria ir…
– Não, fique. – Beijei sua bochecha. – Por favor. – Eu a puxei de volta do peitoril e na direção do sofá. Ela me seguiu com as pernas bambas. Segurei sua mão enquanto ela se sentava, temendo que, se eu a soltasse, ela tentaria fugir.
– Eu não esperava por isso – ela disse por fim, apertando minha mão com ternura.
– Nem eu. Nunca me senti assim com ninguém. – Eu a olhei nos olhos, esperando que ela compreendesse.
– Eu também não. – Ela soltou um suspiro entrecortado.
– Eu não sabia. Se eu achasse que você sentia por mim o mesmo que sinto por você…
Seus olhos buscaram os meus subitamente.
– Quer dizer que já tinha esses sentimentos faz tempo? – Sim. – Corei. – Mas não sabia se você os tinha. – Bem, agora você sabe a resposta.
Ela me puxou mais para perto. Senti seu cheiro perfeito, de algo picante e
doce, estimulante e inebriante. Ela segurou meu queixo e roçou seus lábios nos meus novamente, fazendo o desejo se agitar dentro de mim. Passei meus braços em volta de seu pescoço para me aproximar mais ainda. Eu precisava que Mare me ensinasse como fazer aquilo. Minha cabeça girava com o som de sua voz e o toque de seus lábios.
Ela me beijou até me deixar sem ar, até eu mal conseguir ficar em pé ou
manter as costas retas. E apesar de eu estar exausta e de ela insistir que precisava ir embora, eu não suportava a ideia de ter que parar de tocá-la. Seu rosto parecia diferente daquele que eu conhecia, tomado por um entusiasmo que eu causara. As lágrimas haviam desaparecido de suas bochechas e foram substituídas por um brilho rosado que tinha como origem algo além do fogo.
Caminhamos de mãos dadas até a janela, com os passos mais lentos que
conseguíamos dar. Quando tremi devido ao ar frio que soprava, ela me envolveu em seus braços novamente. Um suspiro escapou dos meus lábios quando encostei minha cabeça em seu ombro. Ela apoiou seu queixo no topo da minha cabeça, deixando seu pescoço em uma posição conveniente para ser beijado.
– Se você não parar com isso, não vou conseguir ir embora – ela disse. – É exatamente isso que tenho em mente – murmurei entre beijos,
gostando de como eu sentia sua pulsação em meus lábios. Eu não queria parar.
– Você não está facilitando as coisas.
– Não pode voltar mais tarde? – Olhei para ela esperançosa. – Não posso – ela gemeu. – Já estou atrasada, e prometi a Nils e aos
amigos dele uma rodada de carteado. Ele já está reclamando que faz dias que não me vê.
– Bem, deixo você ir com uma condição… terá que voltar amanhã. Para
passar a noite. – Minha ousadia chocou até a mim mesma, mas eu a desejava tanto que não me importei.
– Acho que posso dar um jeito. – Senti seu sorriso contra minha
bochecha.
Quando ela saiu pela janela, fiquei observando-a se afastar até meus dentes baterem de frio, e finalmente fechei as venezianas quando tive certeza de que ela não voltaria. Eu não sabia o que dera em mim. Eu não aguentava ver Mare sofrendo tanto. Eu havia tentado sufocar meu amor por ela, sabendo que meu casamento nos impediria de ter um futuro juntas. Mas para isto – reciprocidade de sentimentos – eu não estava preparada. A culpa me consumia ao pensar em Thandi, mas tudo que eu queria era me regozijar sabendo que ela me amava.
OceanofPDF.com
OceanofPDF.com
TRINTA E DOIS
Dei a volta no castelo correndo até a entrada dos fundos que eu usava às vezes ao retornar do celeiro. Os vassalos que guardavam a porta se limitaram a olhar para mim de relance. Talvez o ar frio fosse uma boa justificativa para minhas bochechas vermelhas. O burburinho baixo me recepcionou assim que atravessei a ampla sala e passei por entre as mesas muito gastas que ficavam vazias a maior parte do tempo. Alguns grupos se dedicavam às cartas, bebericando de grandes canecas de chá-preto forte para se manterem acordados para o turno da noite. Passei as mãos pelos cabelos em uma débil tentativa de me recompor enquanto me aproximava da mesa em que Nils estava sentado. Eles nunca deixariam de pegar no meu pé se achassem que eu estivera com alguém, e com toda certeza eu não contaria a eles a verdade.
– Ei, Mare! – Rowlan, um dos amigos de Nils, acenou para mim. Nils se virou para olhar para mim com um sorriso de boas-vindas no rosto. O calor familiar de seus olhos castanhos me trouxe um pouco de volta à realidade. Caminhei a passos largos até sua mesa e me sentei ao seu lado. Infelizmente, havia uma pessoa naquela mesa que eu não esperava encontrar.
– Atrasada, como sempre. Que surpresa – Thandi disse para me cumprimentar.
– Eu não esperava encontrá-lo aqui com os vassalos – falei. Vê-lo me trouxe de volta à realidade com a força de uma tempestade de inverno. Denna ainda pertencia a ele. Ainda que me amasse, ela não havia me prometido nada.
– São meus amigos também. Além disso, gosto tanto quanto você de um jogo de cartas. Ele estava todo zombeteiro, como sempre. O único que ele podia chamar de amigo era Rowlan, e só porque geralmente eram parceiros de treino de luta. Eu duvidava que algum dos vassalos saísse dizendo por aí que era amigo do futuro rei.
– Engraçado você gostar de jogo, mas eu acabar sempre ganhando de
você – respondi.
Os outros caras da mesa deram risada do meu desafio, empurrando uns
aos outros como costumavam fazer.
– Pode ficar no meu lugar, Mare. Meu turno começa em menos de uma
hora e temos muito a fazer antes da Cavalgada amanhã. – Brin, outro amigo de Nils, deixou suas cartas viradas para baixo sobre a mesa e se levantou.
– Obrigada. – Fui para o outro lado de Nils e sentei no lugar de Brin. Isso
me deixava numa diagonal em relação a Thandi, o que era melhor que ficar cara a cara com ele. Ao olhá-lo por cima da mesa, eu me sentia dividida entre culpa e orgulho. Ela me amava. Ela tinha me beijado.
– E então, onde você estava? – Nils perguntou entre as jogadas. – Perdi a noção do tempo. Desculpe. – Fitei a mesa, meus dedos
inquietos sobre as minhas cartas.
Ele se reclinou na cadeira com um sorriso divertido no rosto. – É mesmo?
– Provavelmente deixando Lorde Kriantz entusiasmado com assuntos de
montaria. – Thandi revirou os olhos.
Se ele ao menos soubesse o quanto estava equivocado. Mesmo assim,
minhas bochechas ficaram vermelhas. Os homens riram e todos ficaram me olhando.
– Eu não estava com ele, não que isso seja da sua conta – consegui
gaguejar por fim.
Um ar de compreensão surgiu no rosto de Nils subitamente, e ele se
sentou com as costas retas.
– Ouvi dizer que você está tendo problemas com Lessi, Rowlan. Ela
ainda o mantém sob rédeas curtas?
Rowlan gemeu e apoiou a cabeça nas mãos, o que gerou uma nova
rodada de risos na mesa, e felizmente levou o foco da conversa para outra pessoa.
– Ela quer que eu me vista de gato no baile de fantasias da colheita na
cidade. Dá para acreditar? Um maldito gato!
– Ela provavelmente vai pendurar uma coleira com guizo no seu pescoço
– eu disse com um riso sarcástico.
A expressão de Rowlan mudou de desânimo para pavor puro. – Jamais farei isso. Jamais.
– Está certo – Nils disse, enxugando lágrimas de riso dos olhos.
– E você,Thandi? Como é a bela princesa de Havemont? – Rowlan perguntou, claramente desesperado para mudar de assunto.
Thandi deu de ombros.
– Ela é inteligente e nos damos bem. É o máximo que se pode esperar de um casamento arranjado. Será uma boa rainha.
Fingi estar interessada na minha mão, trocando as cartas de lugar sem uma ordem em particular. Se algum deles adivinhasse minha opinião sobre o assunto, eu estaria perdida. Parte de mim estava aliviada por ele não parecer muito interessado em Denna, mas sua falta de apreço por ela também me dava vontade de chutá-lo. Ela merecia mais.
– E então, já conseguiu alguma coisa com ela? – Rowlan ergueu as sobrancelhas.
Thandi fez sua jogada e deu um sorriso malicioso.
– O que você acha?
Se eu pudesse me safar ao arrancar a tapas aquele sorriso da cara dele, teria feito isso. E o pior era que eu não sabia se ele estava blefando. Meu sangue gelou ao pensar nele tocando-a. Ela não podia tê-lo beijado, ou podia?
– Definitivamente, sim – Rowlan disse. – Droga, não tenho cartas de trunfo. Você sempre me atrapalha, Thandi.
– Ser um pouco romântico com ela não faz mal. Passaremos o resto da vida juntos, afinal – Thandi disse.
Sem dúvida, ele a havia beijado. Enfiei as unhas nas minhas coxas enquanto todo mundo ria. Era verdade: eles passariam a vida inteira juntos, em busca do mesmo objetivo imutável. Aquilo me deixava em desvantagem. Joguei um trunfo e tomei todas as fichas, exceto duas, do lado da mesa de Thandi. Ganhar dele não teve o mesmo gostinho doce que teria se eu não soubesse que ele a havia beijado.
– Droga. Você sempre tem a carta de que precisa no final. – Nils balançou a cabeça.
– Quem espera sempre alcança – eu disse.
– Que inferno, Mare! – Thandi praguejou, juntando as fichas que ele conseguira manter sobre a mesa.
– Nada que você não mereça – falei.
Quanto mais tempo eu passava à mesa, mais pesados meus membros pareciam. A sensação de leveza de estar com Denna havia desaparecido, sendo substituída pela realidade de que ela fora prometida ao meu irmão. Eu precisava decidir meu futuro. E embora deixá-la fosse partir meu coração, ficar destruiria minha alma.
– Está tudo bem? – Nils virou-se para mim com cara de preocupado. – Estou um pouco cansada. É melhor eu ir embora – falei. – Acompanho você parte do caminho.
Não tive forças para recusar, então me despedi dos outros jogadores e do
meu irmão, embora não tivesse olhado nos olhos dele. Eu sei o que veria neles. Autoconfiança. Arrogância. Um futuro cheio de certezas pela frente, casado com a garota que eu amava.
– Qual o problema? – Nils perguntou, passando um braço em volta de
mim. – Você chegou toda animada e agora parece que quer vomitar ou socar algo. Talvez as duas coisas.
– E quero – grunhi e me livrei do braço dele.
– Então… quer falar sobre isso?
– Meu irmão é um babaca arrogante. Não sabe apreciar nada que tem. – Suponho que você não esteja falando de tudo isso. – Nils gesticulou
indicando os arredores.
– Estou falando de Denna. É como se ela fosse um objeto, algo que ele
vai ter porque será rei um dia.
Nils inclinou a cabeça para o lado, mas não disse nada. – Ela é tão mais valiosa, mas ele não percebe. Há tantas coisas que ela
poderia fazer por este reino, e ninguém lhe dá uma oportunidade. – Minha veemência aumentava conforme eu prosseguia.
– Acho que não foi exatamente isso que ele disse – Nils falou. – Quero
dizer, este é um casamento arranjado. Uma aliança política. Você tem sorte se conseguir se dar bem com a pessoa com quem é obrigado a se casar, é o que penso. E ele parece apreciar a inteligência dela e achar que ela será uma boa rainha.
– Preciso ir embora daqui – falei. – Talvez eu devesse pedir a meu pai um
território esquecido lá no norte. Começar um negócio de treinamento de cavalos.
– No meio do nada? Vai dar muito certo.
– Não quero ficar para ver a vida de uma das minhas amigas mais
próximas sendo lentamente arruinada. – A explicação era mais que medíocre. Os beijos dela ainda ardiam na minha pele.
– Por que está tão chateada com isso? Sei que você tem passado muito
tempo com ela ultimamente, mas…
– Não sei o que fazer. – Eu não sabia como admitir o que tinha acontecido entre mim e Denna. Como aquilo havia mudado tudo.
– Está tudo bem, pequena Mare. Tomar um rumo com relação ao seu futuro é uma decisão importante. Pense nas pessoas daqui que amam você… e nas pessoas que você ama. – Sua voz era gentil ao apertar meu ombro com carinho.
Suas palavras mergulharam fundo. Minhas decisões eram maiores que eu, e Denna não era a única que eu amava. Ele também importava. Caminhamos de braços dados até chegarmos ao fim da escada e então eu o puxei para um abraço.
– Obrigada por ser meu porto seguro. E meu melhor amigo – falei.
– É claro – ele respondeu. – Serei sempre.
Eu me despedi dele com um beijo na bochecha e subi os quatro lances de escadas até a ala real que eu ocupava, mas, ao chegar ao corredor que levava aos meus aposentos, encontrei um convidado inesperado. Lorde Kriantz estava parado diante da porta do meu quarto.
– O que o traz a esta parte gelada do castelo? – perguntei, tentando disfarçar as emoções conflitantes dentro de mim.
– Tem um assunto que eu queria discutir com você – ele disse.
Pedi aos Seis que ele finalmente tivesse alguma informação útil com relação à lâmina zumordana ou sobre os Dissidentes. Que tivesse qualquer coisa, na verdade. Gesticulei indicando que entrasse na minha antecâmara e fechei a porta.
– O que queria discutir? – Desabei sem muita dignidade em uma das poltronas, já cansada daquela noite.
– Casamento – ele disse.
Meu corpo foi de quente a gelado num piscar de olhos. Eu me sentei direito na poltrona, totalmente desperta.
–Você parece um potro assustado – ele disse, um sorriso surgindo em meio à sua barba escura.
– Desculpe, milorde. Não era isso que eu esperava que você dissesse. – Eu não podia imaginar o que diabos ele estava pensando. Eu preferia ter ferraduras marteladas no meu crânio a me casar. Além disso, eu mal o conhecia.
– Você não precisa me dar a resposta agora – ele prosseguiu. – Eu queria que você soubesse que discuti o assunto com o Rei Aturnicus, e ele parece satisfeito com a ideia de nossa união. No entanto, ter o seu consentimento é igualmente importante. Acho que seria bom para nossos reinos, e bom para nós dois também.
– Mas por quê? – perguntei. Que lógica distorcida o levara a achar que se
casar comigo era uma boa ideia?
– Sua experiência com cavalos seria útil no programa de reprodução que
estou desenvolvendo. – Ele se inclinou para a frente. – Espero criar uma raça nova que tenha a resistência dos cavalos do deserto e a força dos cavalos de guerra de Mynaria. Quero uma parceira, não uma propriedade, que possa me ajudar a transformar Sonnenborne em um reino poderoso, e sei que você jamais aceitaria menos que isso. Como sou o governante eleito das tribos sob meu brasão, que inclui o maior assentamento de Sonnenborne, nosso casamento também criaria uma aliança entre nossos dois reinos. Se Zumorda realmente estiver por trás dos ataques a Mynaria, devemos ter uma linha de frente unida. Havemont, Mynaria e Sonnenborne devem agir em conjunto. Não sei de que outro modo poderíamos vencê-los. – Ele falou com a paixão de uma pessoa que acreditava em sua missão.
– Não sei o que dizer – falei. Pelo menos era fácil ser sincera com relação
a isso. Eu gostava dele, mas deixar Mynaria nunca fizera parte do meu plano, se é que os pensamentos aleatórios que eu tinha sobre o meu futuro pudessem ser chamados de plano. Mas a proposta de parceria de Lorde Kriantz era mais do que eu conseguiria da maioria dos outros pretendentes. E eu estava curiosa com relação aos seus planos para o programa de criação de uma raça de cavalos de Sonnenborne.
– É por isso que não espero que tome uma decisão agora. Por favor, leve
o tempo que precisar para pensar em minha proposta. De todo modo, a Cavalgada, o baile da colheita e o casamento de Thandilimon são as prioridades no momento. O tumulto na fronteira antecipou meu retorno para casa, mas ainda quero que você tenha tempo para se decidir.
– Claro. – Eu ainda estava atordoada demais para dizer qualquer outra
coisa.
–Vou deixá-la a sós para pensar, milady. Com certeza, seu dia deve ter
sido bem longo. – Ele se levantou e passou por mim ao se dirigir para a porta.
– Pensarei na sua proposta – falei com a boca seca. Como se eu já não
estivesse confusa o bastante.
– Fico feliz em saber disso. Boa noite, Mare. – Ele se curvou levemente
diante da porta e sorriu de novo para mim. – Se houver mais alguma coisa que eu possa fazer por você enquanto isso, é só me dizer.
– Boa noite, Endalan.
Quando a porta se fechou atrás dele, imagens do meu futuro passaram diante dos meus olhos, e não reconheci a mim mesma em nenhuma delas. Será que eu estava preparada para ser esposa? Uma Lady de Sonnenborne? Que os deuses me livrassem, ser mãe? Ele até que era bonito, embora eu nunca tivesse pensado muito a respeito. Fiquei olhando fixamente para o fogo por muito tempo depois que ele saíra, tentando descobrir o que fazer. Eu não conseguia decidir se deveria ficar ou ir embora, ou se valia a pena lutar por Denna ou se era melhor me afastar enquanto ainda poderíamos lembrar uma da outra com carinho. Eu não sabia se deveria tentar seguir meu caminho sozinha ou aceitar a saída mais fácil que Lorde Kriantz me oferecia. Pelo menos uma coisa em sua proposta me interessava: meu futuro seria sobre o lombo de um cavalo, e aquele era o único lugar em que eu certamente gostaria de estar.
OceanofPDF.com
OceanofPDF.com
TRINTA E TRÊS
A luz de início da manhã de um céu nublado dava a todas as coisas uma cara desbotada, os cascos inquietos dos cavalos gravando meias-luas na grama enquanto esperávamos para dar início à Cavalgada. Em algum lugar nas montanhas, as éguas de reprodução e os potros do rei aguardavam por nós. Meus ossos tremiam com a agitação da magia, e toda vez que eu me lembrava que havia beijado Mare, meu dom vinha perigosamente à superfície. Minhas reservas com relação à Cavalgada aumentaram quando Shadow e eu nos unimos aos outros participantes ao pé das montanhas. Se eu incendiasse alguma coisa, os membros mais importantes da corte de Mynaria seriam os primeiros a ver.
– Pronta para cavalgar? – Ellaeni perguntou quando me aproximei do grupo, acariciando o pescoço de seu cavalo cinzento sarapintado.
– Tão pronta quanto possível – falei, fazendo Shadow parar ao lado dela. – Alguma notícia de Claera?
Ellaeni balançou a cabeça com o rosto sombrio.
– Minha mãe mandou mensagem dizendo que os tumultos no canal cessaram, e que a maior parte das facções locais dos Dissidentes foi desmantelada. Mas muita gente desapareceu no mês passado. De qualquer modo, Claera jamais entraria em contato com meus pais, nem se estivesse desesperada. Não depois de como eles a trataram.
– Sinto muito – falei.
Fez-se um silêncio melancólico.
Um vento gelado alvoroçou os cavalos, fazendo com que ficassem inquietos e mordessem seus freios. Mais de vinte nobres e vassalos esperavam perto de nós montados em seus cavalos, enquanto mais uns doze circulavam pela arena externa para se aquecerem. Esquadrinhei o grupo à procura de Mare e de Flicker, esticando o pescoço na esperança de ver de relance o cabelo brilhante dela ou a malha branca denunciadora de sua montaria. Talvez tê-la por perto me deixasse mais calma. Eu precisava ver seu rosto para saber que a noite anterior não tinha sido um sonho. Shadow ladeou, agitada pela minha tensão, e o cavalo de Ellaeni baixou suas orelhas. Acariciei Shadow distraidamente, tentando controlar minha respiração.
Sem esperança de dormir depois que Mare deixara meu quarto na noite
anterior, eu devorara freneticamente as páginas do livro verde da biblioteca. Pensei em usar a pluma de Karov, mas eu sentia um calafrio toda vez que me lembrava de sua arma e de quão grande era seu interesse por mim. Eu não podia confiar nele. Mesmo que minha magia não pudesse ser totalmente escondida, devia haver formas de impedir que ela surgisse do nada. Mas de acordo com o livro, o controle era muito mais impreciso para pessoas com múltiplos dons, já que as regras aplicáveis a uma Afinidade podiam não ser aplicáveis às outras.
Quando eu não estava mais conseguindo entender aquelas palavras, me
voltei para a imagem que chamara minha atenção na biblioteca. Mesmo em meio a uma tempestade de fogo e estrelas, o feiticeiro parecia calmo e controlado.
Aquela pessoa não era eu.
– Já está quase na hora – Thandi disse ao passar, sua égua se
movimentando com a impaciência de sempre.
– Estou pronta – falei, forçando um sorriso. Eu mal conseguia olhar para
ele com minha mente tão ocupada por sua irmã.
Olhei de relance para Ellaeni, mas ela parecia preocupada. Thandi fez Zin avançar, e eu fiz Shadow ir atrás deles. – Esta é sempre minha parte favorita do outono – ele disse. – Nada
aquece mais o sangue que um galope pelas montanhas. Você treinou saltos nas suas aulas?
Balancei a cabeça.
– Não, receio que não.
– Bem, cuidado com as valas. E com os troncos caídos. Siga os porta-
estandartes se o terreno ficar perigoso demais. Eles geralmente vão pelos caminhos mais seguros, já que é difícil saltar carregando uma bandeira. – Ele indicou vários cavaleiros de uniforme azul com arremate branco brilhante, cada um deles carregando uma bandeira presa em um suporte afixado aos estribos de seu cavalo. As flâmulas tremulavam ao vento, compridos triângulos laranja de tecido serpenteando atrás dos quartos traseiros de suas montarias.
A afabilidade dele só aumentava minha culpa, e minha magia continuava em ebulição, sem ter para onde ir. Trotamos para as montanhas, fragmentos de risadas e conversas vindo do grupo. O vento trouxe até mim vozes falando de guerra. Dos Dissidentes que tinham sido capturados. Do ataque a Zumorda. A Cavalgada não era a única coisa que agitava o sangue das pessoas.
– Está nervosa, milady? – Thandi perguntou.
– Um pouco – admiti.
– Não se preocupe – ele disse. – Não é a primeira Cavalgada de Shadow. Ela cuidará de você, e eu também.
Eu me encolhi na sela, envergonhada. Depois de tanto tempo em Mynaria, eu não deveria precisar que alguém cuidasse de mim.
– Onde está Amaranthine? – perguntei. O nome dela em meus lábios bastava para fazer minhas bochechas arderem.
– Vai saber! – Thandi deu de ombros. – Provavelmente voltou aos estábulos. Ela disse algo sobre ajudar com as éguas e os potros quando eles chegassem.
Começamos a trotar, o que pôs fim à conversa. Assim que entrei no ritmo das passadas de Shadow, o som agudo e claro de uma trompa ecoou em meio às árvores, nos dizendo para avançar.Árvores ladeavam a larga trilha, que margeava a base das montanhas em vez de subir serpenteante como aquelas que eu percorrera com Mare. Thandi e eu mantínhamos um ritmo acelerado, ultrapassando os demais ao abrirmos caminho até a frente do grupo. Ellaeni também ficou por perto, sua presença me reconfortando um pouco. A silhueta vestida de azul do rei surgiu à nossa frente, as costas de sua jaqueta de montaria adornada com feixes de trigo cruzados e flechas do brasão de Mynaria bordadas com fios dourados.
– Vamos cavalgar com Endalan – Thandi disse, apontando para a frente.
Ao lado do rei, Lorde Kriantz montava um cavalo diferente de todos os outros. A égua era só um pouco mais alta que Shadow, parecendo uma anã em comparação com todos os cavalos de guerra à nossa volta, e tinha uma pelagem peculiar que brilhava feito ouro polido. Lorde Kriantz cavalgava com confiança sobre a sela e com as rédeas firmes de um cavaleiro experiente, com o pescoço delgado de sua égua arqueado com orgulho diante dele. Se sua postura não fosse tão boa, e se ele mesmo não fosse tão magro, ele teria parecido engraçado escarranchado sobre o animal de pernas esguias, corpo estreito e uma estranha cara convexa. Até a cauda da égua era fina, os parcos fios brancos terminando pouco abaixo dos jarretes.
– Ei, você! – Thandi chamou Lorde Kriantz. – Eu estava me perguntando
se um dia você nos mostraria seu cavalo.
Lorde Kriantz sorriu.
– Gostei de seus cavalos de guerra, mas cavalgar Pegala sempre será
como estar em casa. Ela ainda estará descansada quando suas montarias estiverem ofegantes e prontas para voltar ao celeiro. – Ele acariciou o pescoço dourado da égua, ganhando em troca uma balançada das grandes orelhas de sua montaria.
– Talvez, mas com certeza vai querer um de nossos cavalos se formos
atacar Zumorda – Thandi respondeu.
– Pode contar com minha espada ao lado da sua – Lorde Kriantz disse. Thandi assentiu, com um olhar duro.
A conversa deles prosseguiu em torno de cavalos e guerra, o que me
deixava sem vontade de participar. Em vez disso, minha mente estava tomada por pensamentos que eu mal conseguia administrar: minha Afinidade, as lágrimas e os beijos de Mare, e como cada vez mais parecia que tudo terminaria em fogo e caos.
Encontramos o bando de éguas de reprodução quando a trilha se abriu em
um campo no coração das montanhas. Uma égua bufou cautelosa quando nos aproximamos, embora não fôssemos os únicos humanos presentes. Diversos guardiões do rebanho já estavam em meio aos cavalos, seus uniformes marrons sujos de terra e com manchas que denunciavam vários dias de viagem. Os guardiões montaram em seus cavalos quando chegamos mais perto, usando seus cavalos para conduzir gentilmente as éguas desgarradas para o centro do rebanho. Potros e potrancas saltitavam junto de suas mães, os mais curiosos deles vindo na nossa direção, com as orelhas em pé e suas caudas curtas balançando de um lado para o outro.
Nosso grupo se dividiu ao meio e seguiu pelas margens do campo,
Thandi sinalizando que eu o seguisse, embora sua égua baixasse as orelhas para Shadow. Paramos do outro lado do campo, enquanto os outros cavaleiros faziam uma série de gestos que eu desconhecia. Apesar de não saber o que viria em seguida, meu coração batia forte de ansiedade.
– Prepare-se – Thandi disse, seu rosto radiante de empolgação. Seguimos cavalgando até que o rebanho de cavalos iniciou um trote.
Então a trompa soou. O rebanho disparou, e seguimos com eles. Não foi necessário tocar Shadow com meus calcanhares para fazê-la avançar. Fiquei em pé em meus estribos como Mare havia me ensinado, usando minhas panturrilhas para absorver o impacto do galope de Shadow. Em segundos nos enfiamos entre as árvores, que passavam rápido demais por nós para que as contássemos. Os cascos de Shadow batiam na terra junto com os dos outros, quase descontroladamente.
Eu me esforcei para ficar perto de Thandi, mas fora do alcance dos coices e mordidas de Zin. Ellaeni cavalgava ao meu lado, sua égua cinzenta com olhar agitado devido à excitação do galope. Lorde Kriantz havia se separado de nós, as pernas compridas de sua égua colocando-a bem à frente na trilha, um fantasma dourado entre as árvores. Tudo que podíamos fazer era segui-la. Minhas coxas queimavam, já cansadas de meio dia de cavalgada, e, quando chegamos ao topo da montanha e começamos a descida perigosa, agarrei a crina de Shadow e fiz uma oração aos Seis.
O rebanho se afunilou na trilha do vale, e soltei um suspiro de gratidão quando o ritmo diminuiu para um galope leve. Shadow ainda ofegava, com o pescoço úmido e as passadas pesadas, tentando acompanhar os cavalos de guerra. Como Lorde Kriantz prometera, seu cavalo mal havia suado, sua pelagem dourada brilhando sob a luz da tarde. As árvores baixas e retorcidas e os arbustos compactos mantinham o rebanho na trilha aberta, guiando-os em segurança na direção do castelo. A parte difícil ficara para trás.
Thandi cavalgava ao lado do cavalo negro do rei, compartilhando um sorriso com o pai. Naquele instante, finalmente me senti mynariana. Havia um futuro para mim ao lado deles, e aquilo me confortava. Fiz Shadow aumentar seu ritmo para que eu os alcançasse, para que pudesse cavalgar onde eu pertencia. Eu precisava reivindicar meu lugar, cavalgar onde eu deveria estar, ainda que cada centímetro do meu corpo doesse ao pensar em Mare.
Quando eu estava poucos cavalos atrás do rei, uma sensação de que havia algo errado me atingiu subitamente, segundos antes de uma explosão de chamas cor de violeta o engolir.
Gritei.
O cavalo do rei empinou e Shadow parou bruscamente, quase me catapultando para fora da sela. Eu me agarrei à sua crina e me esforcei para me endireitar enquanto ela saía do centro da trilha. Consegui recuperar o controle das rédeas a tempo de ver o rei tombar de seu cavalo, chamas arroxeadas lambendo sua farda, o brasão dourado de Mynaria queimando em suas costas como se tivesse sido bordado ali especificamente para isso. Os vassalos correram na direção dele, arrancando suas próprias jaquetas para abafar as chamas. Mas quando eles se afastaram, o rei permanecia imóvel.