Fogo & Estrelas

Audrey Coulthurst · Capítulo 3 de 3 · parte 5/5

Páginas do PDF

Fogo & Estrelas

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

No subsolo, corri pelos túneis e entrei no arsenal. Havia espadas, machados e clavas pendurados nas paredes, mas as armaduras e outros objetos aleatórios estavam no chão, em diversos estágios de imundície e descuido. Eu não sabia onde procurar o artefato dos Dissidentes que o Conselho vinha usando para testar as pessoas quanto a Afinidades. Mas eu era usuária de magia. Alguma coisa no meu dom precisava me ajudar.

Respirei fundo e fechei os olhos, ativando meu dom com a maior cautela

possível. Além de uma pilha de escudos surrados, algo brilhou: a borda de uma tigela prateada quase totalmente coberta por um trapo manchado. O brilho aumentava se eu não olhasse diretamente para o objeto. Tinha que ser aquilo. Eu peguei a tigela e corri. Ela parecia viva na minha mão, como a adaga de Karov.

Parei na entrada do túnel para o celeiro. Embora eu não tivesse muito

tempo, ainda poderia fazer algo mais pelo meu reino, e por aqueles que eram como eu. Hesitei apenas um segundo antes de seguir pelo túnel que levava à masmorra. O túnel terminava em um portão de metal no centro do castelo, e dava para ver as celas dos prisioneiros do outro lado do portão. Mas havia um guarda parado bloqueando o caminho, e mais dois caminhavam perto da entrada principal da masmorra, do outro lado da sala.

Fechei os olhos e direcionei meu dom para os lampiões do corredor

externo, longe o suficiente para estarem fora de vista. Assim que os controlei, tudo que precisei fazer foi um leve gesto e todos eles explodiram. Os vassalos correram para fora da masmorra, deixando meu caminho livre. Os prisioneiros se apertaram contra as grades de suas celas, tentando ver o que estava acontecendo, e esticaram as mãos na minha direção quando surgi na área iluminada. As celas da masmorra nem estavam fechadas a chave, apenas bloqueadas por uma trava pesada que só abria pelo lado de fora.

Eles gritavam numa massa de vozes que eu não conseguia distinguir. Ergui a tigela de prata, que brilhou intensamente nas minhas mãos

enquanto eu deixava meu dom fluir para as pontas dos meus dedos. A maioria dos prisioneiros se encolheu e se afastou com a mesma rapidez com que haviam se lançado contra as grades, as vozes se transformando em gritos de medo enquanto eles se espremiam contra as paredes do fundo de suas celas. Mas alguns deles permaneceram na parte da frente das celas, com os rostos ainda pressionados nas barras.

– Foi você – disse o homem de barba grisalha, mas suas palavras não

tinham o tom de julgamento nem de medo de Thandi quando ele as dissera. Havia apenas fascinação na voz dele.

Abri a porta de sua cela e lhe entreguei a tigela. Ela brilhou menos

intensamente nas mãos dele.

– Liberte seu povo – eu disse a ele, apontando para a saída. O Círculo

Sincrético poderia voltar a fazer sua parte ajudando os outros usuários de magia de Mynaria, tornando o reino seguro.

Quanto a mim, era hora de cair na estrada.

OceanofPDF.com

OceanofPDF.com

QUARENTA E DOIS

 

Recuperei a consciência com o ritmo dos cascos soando na minha cabeça. Minha bochecha pressionada contra tábuas ásperas de um assoalho, botas que eu mal conseguia enxergar diante de mim no escuro. Tentei alcançar o banco acima da minha cabeça com as mãos dormentes, só para descobrir que meus pulsos estavam amarrados firmemente. Tudo que pude fazer foi rolar e deitar de costas. Acima de mim, Lorde Kriantz me observava com uma expressão implacável.

– Ah, você acordou – ele disse. – A viagem até Sonnenborne será mais confortável assim.

– Desgraçado – sussurrei. Ele havia matado Nils. Tentei canalizar minha dor e transformá-la em raiva, em algo que eu pudesse usar. Chutei com meus pés amarrados, tentando abrir a porta da carruagem, mas um de seus homens encostou sua espada nas minhas canelas. Meu corpo tremia de raiva e tristeza, minha cabeça latejava. Denna enxergara tudo com muito mais clareza que eu. Eu devia ter confiado nela. Eu devia ter permanecido ao seu lado, mesmo que isso partisse meu coração.

– Eu gostaria que as coisas não tivessem chegado a esse ponto – ele disse. Ele falou sem malícia, apenas a calma assustadora de alguém que tem um objetivo e que não se importa com nada que fique em seu caminho.

– O que você quer de mim? – Lutei com minhas amarras, frustrada, desejando poder sentar e conversar com ele cara a cara. Devíamos agir de igual para igual. E vínhamos agindo, até eu colocar seu plano em risco.

O soldado sentado ao lado dele ergueu a sobrancelha e uma espada, mas Lorde Kriantz sinalizou que ele se acalmasse. Eu não era uma ameaça naquele estado.

– Bem, não é exatamente você que eu quero, embora eu teria ficado feliz se tivéssemos formado uma parceria. Thandi subestima você, acho. Talvez com o tempo você concorde comigo que uma aliança entre nossos reinos é o melhor a ser feito, apesar dos meus meios.

– Duvido – falei. Ele podia me arrastar para o outro lado do mundo, se

quisesse. Eu acabaria encontrando um jeito de escapar, e ele não me veria novamente antes que eu encontrasse uma forma de destruí-lo pelo que ele fizera com meu amigo e pelo que estava prestes a fazer com meu reino.

– Pense nisso do meu ponto de vista – ele disse. – As tribos de

Sonnenborne não têm nada além do deserto. O que acha que queremos?

– Outra coisa com que possam trepar além de bodes. Não vou nem tentar

adivinhar – respondi, lutando para me livrar das cordas de novo. Um dos soldados me acertou nas costelas com a biqueira de sua bota para me fazer parar.

– Zumorda – ele disse, ignorando meu insulto. – Os recursos de

Sonnenborne são limitados. Por séculos temos avançado continuamente para o norte conforme os recursos escasseiam e a terra se torna mais árida. Sem novas terras, meu povo morrerá. Não sobreviveremos mais que alguns invernos onde estamos agora. Você não sabe como é ver o seu próprio povo morrer de fome nas ruas, definhando sob o sol. Sou o mais próximo de um governante que Sonnenborne tem, e não trabalhei para reunir tantas tribos sob meu brasão para simplesmente observar meu povo sofrer e desaparecer.

– Isso não tem nada a ver com Mynaria.

– Tem tudo a ver com Mynaria. Sonnenborne precisa de aliados para

tomar terras de um reino tão poderoso como Zumorda. O seu reino é o único com poderio suficiente para nos apoiar.

– E para isso você me rapta? Eu não valho nada. Não percebe que sou

uma piada mesmo entre meu próprio povo? Tudo que você fez foi nos sabotar. As mortes de Cas e do meu pai nos enfraqueceram, e ficaremos ainda mais fracos quando você enviar nossa cavalaria para lutar uma guerra sem sentido. O que pretende fazer quando Thandi perceber que os zumordanos não são os culpados? – Palavras eram as únicas armas que eu ainda tinha.

– Depois que a guerra tiver começado, sua causa não importará mais.

Thandi não dará ouvidos a nada que difame seu amigo leal, que ficou ao seu lado durante os piores dias de sua vida, embora tenha sido uma pena eu ter tido que matar o Rei Aturnicus para garantir meu lugar. Mas um rei inexperiente é bem mais fácil de manipular que um bem vivido, principalmente quando ele acredita que eu arrisquei minha vida para salvar a de seu pai. Pelo menos, uma generosa doação aos Dissidentes mais esquentadinhos tornou mais fácil me livrar de Casmiel, que era o único que poderia perceber minhas intenções. – Sua voz não tinha emoção. Ele nunca se importara com nenhum de nós.

–Vou matar você com minhas próprias mãos. – Eu me lancei contra ele, mas tudo que consegui foi bater minha cabeça em seu joelho e voltar ao assoalho da carruagem.

– Isso não será necessário. – Ele riu. –Você passará a gostar de mim com o tempo. Este casamento é um acordo comercial. Não exigirei mais nada de você.

Cuspi em seus pés. Eu preferia morrer a lhe dar o que ele quisesse. Sem minha liberdade, Denna, Nils ou meu cavalo, não havia nada no mundo com que eu me importasse.

Ele riu novamente.

–Você será um projeto divertido, Princesa. Sem dúvida, você tem o espírito batalhador de que meu povo precisa.

Rolei para o lado e para longe dele e continuei tentando soltar as cordas que me prendiam até meus pulsos ficarem escorregadios de tanto sangue. Quando não tinha mais forças para lutar, permaneci deitada e imóvel, até o ruído das rodas da carruagem me deixarem entorpecida. Ninguém me vira ser levada, e, em meio às festividades, minha ausência só seria notada quando fosse tarde demais.

OceanofPDF.com

OceanofPDF.com

QUARENTA E TRÊS

 

Eu orava para os Seis baixinho e sem parar enquanto corria pelos estábulos escuros. Os membros do Círculo Sincrético perambulavam nas sombras do lado de fora, esperando. Eu não sabia como todos nós sairíamos, mas se eu disparasse pelos portões, talvez eles conseguissem vir atrás. Trabalhei na escuridão; acender uma lamparina chamaria a atenção, eu não podia arriscar. Atrapalhada com a sela de Flicker, eu me esforçava para entender os arreios com os quais não estava acostumada. Pensei em pegar Shadow, mas Flicker era maior – grande o bastante para carregar Mare e eu. Eu a traria de volta ou morreria tentando.

Flicker se movia de um lado para o outro enquanto eu lutava com o couro e com as fivelas, esticando a cabeça, curioso. Ele era tão alto que tive dificuldade para prender a sela em volta de seu corpo e ajustá-la. Colocar a cabeçada foi um pesadelo à parte, minhas mãos tremiam enquanto eu me equilibrava em um banquinho bambo tentando deslizar o bridão para dentro de sua boca e posicionar a cachaceira atrás de suas orelhas.

– Que os Seis nos protejam – falei, conduzindo Flicker para a escura área de treino.

No instante em que passei minha perna por cima da sela, soube que ele era totalmente diferente de Louie e Shadow. Cada passada dele era larga o suficiente para me derrubar, e a energia em seu corpo ardia como as chamas sob minha pele. E embora permanecer sobre o cavalo fosse o mais importante, e eu devesse ter me preocupado mais com os Dissidentes que vinham atrás de mim, tudo em que eu conseguia pensar era Mare. Agarrando as rédeas até os nós dos meus dedos ficarem brancos, vesti o capuz da minha capa e guiei Flicker noite afora.

– Pare! – os guardas do portão gritaram quando me aproximei do muro do castelo.

– É você, Princesa…? – Um deles apertou os olhos, e eu puxei o capuz ainda mais em volta do meu rosto.

– Sim – falei. – Uma carruagem sem identificação puxada por dois

cavalos cinzentos passou por aqui há uma hora. Em que direção ela foi?

– Sua Alteza, não deveria sair.

– Diga em que direção a carruagem foi. – Eu torcia para que eles não

notassem que minha voz estava trêmula.

– Acho que foi para o sul, onde fica o único portão da cidade que está

aberto a esta hora da noite. Mas você não pode sair. Ordens do rei.

– As ordens do rei podem ir direto para o inferno – resmunguei. – Como?

– Eu disse: que cheiro de queimado é esse? – Apontei para uma árvore

próxima ao portão e a encarei com a máxima concentração, estimulando minha magia a despertar. Uma oração para o deus do fogo surgiu em meus lábios, e eu rezei baixinho para a noite. Uma brisa soprou, mas nada mais aconteceu.

– Não estou sentindo cheiro de nada – um deles disse. – Está tudo bem, Sua Alteza? – O outro se aproximou para segurar as

rédeas de Flicker.

– Dane-se! – gritei para a árvore e forcei a magia, alimentando-a com

minha raiva.

Metade das folhas pegaram fogo.

Flicker assustou-se com a explosão das chamas, e eu enterrei meus

calcanhares nas laterais do seu corpo. Atrás de mim, os membros do Círculo Sincrético correram para o pátio, pegando os guardas de surpresa. Flicker disparou pelo portão, seus cascos tirando faíscas das pedras do calçamento enquanto deixávamos o caos para trás.

As bufadas de Flicker ecoavam no ar gelado da noite enquanto ele se

regozijava com a liberdade da escuridão e da estrada à sua frente. Ele trotava pela cidade como se conhecesse nosso destino, mal se contendo entre minhas pernas e mãos. Agarrei um punhado de sua crina, determinada a não cair. Minhas pernas tremiam de medo e fadiga quando chegamos aos portões da cidade, e eu o fiz diminuir o ritmo para um andar o mais calmo que consegui. Eu não queria que os guardas pensassem que eu estava deixando a cidade a galope num cavalo roubado – principalmente porque aquela era exatamente minha intenção.

– Ei, você! – Um guarda entrou na minha frente. Minhas mãos tremiam

nas rédeas enquanto eu procurava algo para dizer que pudesse garantir minha liberdade.

– É a minha irmã – falei de supetão. – Preciso encontrá-la. Ela passou por aqui numa carruagem sem identificação. – Rezei em silêncio mais uma vez para os Seis, torcendo para que os guardas não me reconhecessem.

O guarda olhou ceticamente para mim enquanto Flicker ladeava.

– Por favor, senhor, precisa me deixar ir atrás dela.

– É um magnífico cavalo esse seu, senhorita – ele disse.

– Sim, senhor, meu pai cria cavalos. Este é meu por causa dessa malha branca feia, vê? Ninguém queria comprá-lo. – Agradeci aos Seis por todas as pequenas coisas relacionadas a cavalos que Mare havia me ensinado nos dias que passamos juntas.

– Tudo bem – ele disse, dando um passo para o lado. Ele não parecia totalmente convencido, mas eu não ia esperar para ver se ele mudava de ideia.

– Eles foram para o sudeste – um segundo guarda disse timidamente.

– Mack! – o primeiro guarda ladrou.

– Ah, cale a boca, Brail. Ela parece jovem demais para estar aqui fora, e é o mínimo que posso fazer – ele gritou de volta para o outro guarda.

Lancei um olhar de agradecimento para ele antes de sair galopando na escuridão. Atrás de mim, a árvore que eu incendiara no topo da colina ardia feito um farol. Outro olhar de relance revelou uma linha de tochas descendo a colina do castelo – os cavaleiros estavam vindo atrás de nós. Galopamos mais rápido.

Passadas as luzes da cidade, a noite era toda de sombras. Confiei que Flicker soubesse onde pisava enquanto seguíamos pela estrada, meus olhos se acostumando à escuridão devagar. A lua estava perto do horizonte, uma bola laranja luminosa e brilhante no céu. Galopamos até o pescoço de Flicker começar a suar, e então diminuímos o ritmo para um trote. Não havia mais tochas tremeluzentes no escuro atrás de nós, mas eles viriam inevitavelmente.

Em determinado momento, uma luz brilhou ao longe à nossa frente. Quando vislumbrei os cavalos cinzentos que puxavam a carruagem, a magia ardeu em mim, e eu me esforcei para manter minhas mãos suaves nas rédeas. Fiz Flicker sair da estrada e se enfiar entre arbustos e seguir a carruagem até que o ruído de rodas cessou. Como se entendesse, Flicker permaneceu totalmente imóvel quando paramos, suas orelhas voltadas na direção do veículo. Meu estômago revirou, com medo de que a qualquer momento Flicker relinchasse para os outros cavalos e nos entregasse.

Desmontei e andei na ponta dos pés, Flicker soltando baforadas quentes

atrás de mim.

– Não demore – disse a voz familiar de Lorde Kriantz. Um de seus

homens saltou da carruagem e foi para a margem da rodovia, e o outro ficou para trás para ajudar a puxar Mare para fora do veículo.

Eu a vi então, e fúria e magia se agitaram dentro de mim em uma

tempestade implorando para ser liberada. Lorde Kriantz a tinha com as mãos e pés amarrados, e ela se debatia tentando se soltar enquanto eles a carregavam para fora.

– Seu esforço é inútil – Lorde Kriantz disse sem emoção. – É nossa única

parada antes do amanhecer. É melhor aproveitá-la.

Desejei que ele caísse morto, meu estômago doendo de raiva. Mare

parecia ainda pior mais de perto, seus pulsos ensanguentados por causa das cordas que os prendiam. Sua cabeça pendeu para a frente, fazendo com que uma cortina de cabelos me impedisse de ver seu rosto.

– Ande logo! – o segundo guarda gritou, e chutou Mare quando ela caiu

de joelhos.

– Não temos tempo a perder. – Lorde Kriantz gesticulou impaciente. – Ela não se mexe – o guarda disse, chutando-a e fazendo-a cair de cara.

Ela caiu com facilidade, tão inerte quanto uma boneca de pano.

– Faça com que se mexa – a voz de Lorde Kriantz me atingiu feito um

punhal.

O guarda a cutucou com a biqueira da bota e depois chutou a lateral de

seu corpo. A magia corria em minhas veias, queimando minhas entranhas.

Amarrei as rédeas de Flicker em um galho de árvore e torci para que

Mare me perdoasse por ter desobedecido à sua lição de nunca prender um cavalo com algo que estivesse ligado ao seu freio. Segundos depois, o fluxo de urina do primeiro guarda atingiu as agulhas de pinheiro no chão da floresta, apenas a alguns passos de onde eu estava.

– Mas o que… – O guarda deu um pulo para trás assim que surgi sob a

fraca luz lançada pela lanterna da carruagem.

– Vim buscá-la. – Eu os encarei, deixando a magia se concentrar nas

palmas das minhas mãos.

Não havia restado medo em mim. Se eu pudesse ter tomado o poder dos

Seis Deuses, eu o teria feito sem pensar nas consequências, embora parecesse que o ar à minha volta pudesse pegar fogo com a mínima provocação.

Ao ouvir minha voz, Mare rolou para o lado e se esforçou para ficar de joelhos. Seus lábios formaram meu nome sem produzir nenhum som.

O outro guarda desembainhou sua espada e olhou para Lorde Kriantz em busca de instrução.

– Ora, ora, Princesa. Que interessante. – Lorde Kriantz cruzou os braços. – É melhor você voltar para a cidade antes que notem sua falta. Do contrário, talvez Mynaria e Sonnenborne ataquem Havemont além de Zumorda.

– E é melhor você voltar direto para o inferno de onde saiu – falei.

Meu corpo ardia em chama branca, tudo dentro de mim emergindo com a minha raiva. Eles não a machucariam mais.

– Ela está brilhando! – O outro guarda apontou para mim, de olhos arregalados.

– Soltem-na! – Minha voz saiu vazia e estranhamente neutra. A magia havia assumido o controle do meu corpo. O poder surgiu em ondas irrefreáveis, esperando para ser liberado. Senti que era engolida por ele, e, pela primeira vez, não tentei sufocá-lo. Abri os braços o máximo que conseguia, recebendo energia da terra e do céu à minha volta. Não restaria nada além de destruição.

– Não deem ouvidos a ela… é apenas uma garota – Lorde Kriantz vociferou.

– Mas, milorde…

– Pago vocês para seguirem minhas ordens! – ele explodiu.

– Tragam-na para mim – falei, dando um passo à frente.

– Nunca – Lorde Kriantz respondeu. – Ela é minha. – Ele foi até onde Mare estava ajoelhada, levantou-a e colocou sua mão em volta da garganta dela. – Posso acabar com a vida dela, se quiser. Suba em seu cavalo e volte para Lyrra e quem sabe eu a deixe viver.

Quando a mão dele apertou o pescoço dela, a tempestade dentro de mim explodiu.

– Solte-a! – gritei, minhas palavras ecoando em meio às árvores.

Em vez de tentar me controlar, invoquei cada um dos deuses que já haviam me atendido um dia, e me entreguei completamente ao poder sem pensar nas consequências. Uma onda de excitação me dominou enquanto a magia me inundava. As chamas vieram sem dificuldade, faiscando entre meus dedos até minhas mãos arderem tão luminosas quanto o sol. A terra relutou, mas me ancorou. Ergui as mãos para as estrelas até que rastros de luz cobriram o céu noturno. E por fim invoquei o ar para guiar a destruição ao seu destino. Um vento furioso arrancou meu capuz e açoitou meus cabelos enquanto eu formava uma tempestade de estrelas cadentes.

A primeira estrela cadente atingiu a carruagem, a explosão derrubando

Lorde Kriantz. Mare se afastou dele e caiu, desaparecendo na fumaça que subia do solo, que ardia em fogo lento. O tempo pareceu correr devagar enquanto o caos tomava conta. Tudo queimava, incendiado pelas estrelas que eu trouxera do céu.

Os gritos foram sufocados pela chuva de rochas que atingiam o chão,

rastros brilhantes de faíscas chiando em sua esteira. Crateras se formaram à nossa volta com o impacto das rochas incandescentes. Os dois cavalos da carruagem empinaram apavorados, virando e fazendo a coisa toda tombar para o lado. Suas patas se debatiam inutilmente enquanto seus corpos suados ofegavam em uma confusão de membros emaranhados. Com o enfurecer da tempestade, eles ficaram imóveis, o cheiro de carne e pelos chamuscados fazendo meus pulmões arderem. As árvores queimavam e a própria estrada ardia em chamas, ao passo que a grama e os arbustos tinham virado cinzas. De um lugar distante, eu lamentava pelos cavalos e me assustava com o que eu tinha me transformado, mas não podia parar a tempestade. Ela se desprendeu de dentro de mim em uma torrente que eu jamais poderia controlar, arrancando minha própria energia vital.

Ainda assim, meu foco continuava sendo Mare, sua silhueta inerte quase

invisível no meio da estrada. O amor que eu sentia por ela transbordou para protegê-la, deixando a destruição de lado. A tempestade era mais intensa à minha volta, mesmo quando minha visão foi escurecendo devagar e meus braços perderam toda a sensibilidade. Tropecei e caí de joelhos, um buraco se abrindo em meu peito. Eu tentava lutar contra a escuridão, mas, enquanto eu esticava a mão na direção de Mare, ela me venceu.

OceanofPDF.com

OceanofPDF.com

QUARENTA E QUATRO

 

Quando a tempestade terminou, deitei de costas, com meus pulsos ainda

amarrados e sangrando. A terra queimada arranhava meus antebraços nus, e meu braço direito latejava do ombro ao cotovelo. Algum estilhaço havia me atingido, e o ferimento doía absurdamente. Quando finalmente ousei abrir um olho e me sentar, o luar luminoso enviou uma pontada de dor para as minhas têmporas. Aos poucos, as árvores foram ficando mais nítidas nas bordas do meu campo de visão, retorcidas no escuro, e o cheiro pungente de cinzas impregnava o ar frio.

Prendi a respiração quando enxerguei o restante da paisagem que me

cercava. Eu estava sentada no centro de uma cratera sem vida. Os destroços da carruagem de Lorde Kriantz estavam espalhados por toda parte, seus escombros ardendo em brasas. Os sulcos recentes que as rodas do veículo haviam deixado na estrada terminavam abruptamente bem perto de onde eu estava sentada, e o rastro de destruição se estendia até as profundezas da floresta, na extremidade mais distante da rodovia, onde os galhos haviam entortado das formas mais bizarras.

Mas eu estava viva.

– Denna? – crocitei.

Não houve resposta de nenhum tipo. Até os animais e insetos tinham

voado para longe, deixando a noite tão silenciosa quanto a morte – até que um som familiar de algo raspando veio das árvores à minha esquerda.

– Flicker? – falei. Minha voz soou desafinada e artificial enquanto eu

tossia por causa das cinzas. Pisquei algumas vezes, chocada. Meu cavalo estava amarrado a uma árvore a uns doze passos de distância, na floresta. Ele relinchou baixinho ao ouvir minha voz e voltou a pisotear a terra com seu casco.

Eu rastejei até os destroços afiados de uma roda da carruagem e esfreguei

neles as cordas nos meus pulsos e tornozelos até finalmente conseguir soltá-las. Levantei, trêmula, cerrando os dentes ao sentir a dor no meu braço. Terra e pedriscos se enfiavam nas solas dos meus pés descalços. O que restava do meu vestido pendia do meu corpo aos farrapos, a bainha desfiada e com marcas de queimado.

Segui meu caminho em meio aos escombros que cobriam a estrada. Algumas partes da carruagem estavam apenas chamuscadas, outras carbonizadas e impossíveis de reconhecer. O que eu, a princípio, julguei que fosse uma pilha de madeira, eram na verdade os restos de uma pessoa. Olhei para trás, percebendo que eu já havia passado por outro corpo. Havia mais dois caídos perto das carcaças dos cavalos que puxavam a carruagem. Meu estômago revirou. Um braço queimado estendia-se do corpo mais próximo e terminava em uma mão, que havia definhado e se enroscado em formato de garra. No coto de um dedo retorcido, um anel de ouro intacto reluzia à luz da lua. Lorde Kriantz.

Meu estômago ameaçou se rebelar, mas, do fundo do coração, sua morte só me trazia satisfação. A morte de Lorde Kriantz significava que as tribos reunidas sob seu brasão provavelmente entrariam em crise. Mesmo se Thandi enviasse um mensageiro assim que seu povo encontrasse seus restos mortais, levaria tempo para a notícia da morte de Lorde Kriantz chegar a Sonnenborne.

Mais além de Lorde Kriantz, havia uma silhueta contorcida no chão perto da beira da estrada, uma mecha de cabelos quase pretos escapando do capuz de sua capa inconfundível. Meu coração se encheu de amor e pavor. Ela jazia tão pequena e imóvel. Eu me ajoelhei ao seu lado, minha cabeça girando de dor e de pânico.

– Denna? – falei, tossindo. – Denna? – Toquei seu ombro delicadamente e afastei seus cabelos do rosto.

Seus olhos incertos se abriram, e ela piscou olhando para mim por baixo de suas pálpebras pesadas.

– Cabeça… dói – ela balbuciou.

– Denna! Oh, graças aos Seis! – exclamei. Lágrimas de alívio escorriam pelo meu rosto enquanto eu pousava sua cabeça no meu colo.

–Você está ferida – ela disse, notando o ferimento no meu braço.

– É só um arranhão. – Doía bem mais que isso, mas ela não precisava saber.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

– Tentei proteger você, mas falhei – ela disse.

– Não falhou – falei. –Você me salvou. – Eu a ergui com cuidado e beijei

suas bochechas como se ela fosse o tesouro mais precioso dos Reinos do Norte. Para mim, ela era. E no fim das contas, depois de tudo, ela viera atrás de mim. Ela escolhera a mim.

Ergui os olhos e vi uma fileira de pontinhos luminosos tremeluzindo ao

longe.

– Estão vindo nos buscar – falei, acariciando seus cabelos. – Agora

podemos voltar para casa.

Denna se sentou com uma expressão preocupada. – Não posso voltar – ela disse. – Não depois disso. – Mas não haverá guerra. Lorde Kriantz está morto – falei. – Até decidi

ficar em Lyrra, se isso a fizer feliz, pelo menos por um tempo, até as coisas se ajeitarem após o casamento. – Vê-la ser coroada rainha seria a coisa mais difícil da minha vida, mas se ela podia quase morrer por minha causa, era o mínimo que eu podia fazer para agradecer.

– O problema não é esse. Thandi disse que me fará pagar pelos meus

crimes mesmo se nós nos casarmos. E, além de ter vindo atrás de você e ter arruinado os planos de guerra dele, libertei os Dissidentes – ela disse.

– Você o quê?

– Sem eles realizando seus pequenos feitiços, a magia ambiente em

Mynaria foi ficando cada vez mais fora de controle. Eles ajudam a manter as coisas equilibradas. Mas talvez Thandi também esteja bravo porque, em algum momento, sugeri que me casaria com você em vez dele…

– Sua garota maluca. – Eu a beijei novamente, desta vez nos lábios. A

suavidade dela me dava a sensação de flutuar e aliviava a dor no meu braço. Ela se endireitou e retribuiu o beijo com uma avidez tão grande que eu podia senti-la. A ideia de uma vida sem ela era impossível, e eu já não sabia mais como eu pudera pensar em abandoná-la.

– Acho que preciso ir para Zumorda – ela falou quando finalmente se

afastou. – Karov me disse que é a única forma de treinar minha Afinidade. Se bem me lembro das aulas de geografia, esta é uma das principais rotas comerciais. Deve haver uma estalagem não muito longe daqui. Irei para lá e depois seguirei para Zumorda. Há tráfego suficiente nesta estrada para que eu consiga me aproximar da fronteira com um dos comerciantes que vão para o sul por causa do inverno.

Sorri um pouco apesar da dor. Denna devia ser a única pessoa dos Reinos

do Norte capaz de lembrar de detalhes de mapas comerciais depois de ter sido torrada quase até a morte pela magia.

–Você não pode ir para Zumorda sozinha – falei. – Se achou Lyrra ruim, todas as histórias que ouvi sobre Kartasha são ainda piores. E não sabemos nada sobre a cidade real zumordana. As ruas podem ser pavimentadas com ossos, pelo que sabemos.

Denna segurou minha mão entre as suas.

– Quando montei em Flicker e cavalguei para fora da cidade, achei que isso seria tão simples quanto salvá-la, mesmo que eu ainda não soubesse exatamente como faria tal coisa. Mas agora estou com medo. Porque esta magia é muito maior que eu. Achei que fosse me matar, e foi só graças aos Seis que não matei você. Ela precisa ser dominada. Se eu ficar em Mynaria, provavelmente serei punida por isso. E mesmo se eu me safar dessa, ninguém mais se sentirá seguro perto de mim. – Ela gesticulou indicando a destruição à nossa volta.

Então entendi que ela precisava ir embora. E se eu a amava o tanto que dizia amar, teria que deixá-la partir.

– Tudo bem – falei, e me levantei meio encolhida. – Flicker e eu podemos carregá-la até a hospedaria. Depois vou voltar e lidar com eles. – Sinalizei com a cabeça as tochas ao longe. – Alguém precisa dizer a eles que você morreu, para que não a sigam.

Embora eu mantivesse minha voz firme e forte por ela, por dentro eu já começava a desmoronar. Os vassalos chegariam. Quando eu contasse a eles da morte de Denna, não teria que fingir que chorava. Um olhar para os uniformes dos vassalos me deixaria arrasada ao lembrar de Nils – e de tudo que eu havia perdido naquela noite.

Denna apertou minha mão com gratidão no olhar. Recolhemos todas as moedas de prata dos restos carbonizados dos homens de Lorde Kriantz e subimos na sela de Flicker. Fiz Flicker avançar num galope suave, com Denna aconchegada em meus braços. Corujas voavam de uma árvore à outra ao longo da estrada, lançando seus pios pesarosos nas sombras. Parte de mim queria esquecer da estalagem, sair da estrada principal e encontrar uma cidadezinha tranquila onde pudéssemos desaparecer. Eu queria construir uma casa com minhas próprias mãos, longe da Coroa. Mas mesmo que a garota em meus braços não fosse mais ser rainha, era algo maior do que eu sequer conseguia imaginar. Ela não nascera para ser anônima.

A estalagem ficava perto, como Denna prometera. Quando ela desceu da sela de Flicker, meus braços me pareceram insuportavelmente vazios.

– Então este é um adeus – falei.

– Faça com que peguem o anel de Lorde Kriantz – ela disse. – Acho que

ele o estava usando, junto com fios de ouro, para criar fogo. Vi quando ele fez isso com Nils, e a jaqueta do Rei Aturnicus era costurada com fios dourados que podem ter se incendiado do mesmo modo.

Nils. O nome dele trouxe uma punhalada de sofrimento que me fazia

sentir como se uma espada tivesse me atravessado. Meu melhor amigo morrera tentando me proteger, só para ter seu corpo profanado em mais uma das tentativas de Kriantz de incriminar Zumorda.

– Nils merecia coisa melhor – falei com a voz embargada. – Sim – ela concordou. – Hilara talvez conheça alguém que decifre como

a coisa funciona.

–Vou garantir que peguem o anel. – O objeto poderia responder a várias

perguntas sobre os métodos de Lorde Kriantz. Talvez, depois que seus mistérios fossem desvendados, o anel pudesse ser enterrado junto com meu pai, para que ele e Nils descansassem em paz.

– Mais uma coisa. Se você vir minha mãe… diga que eu a perdoo. – Direi – eu falei, segurando as rédeas para voltar para casa, sabendo que

meu coração seria deixado para trás.

– Mare, espere. – Denna esticou sua mão e segurou a minha. – Já exigi

demais de você. Mas você acha que existe alguma chance de vir comigo?

Uma centelha surgiu no meu peito, me enchendo de esperança. Era a

pergunta que eu queria que ela fizesse desde que eu a encontrara na beira da estrada.

– Espere por mim dois dias – falei. – Eu a encontrarei na aurora do

terceiro. – Um plano já começava a se formar na minha cabeça.

– E se você não vier?

– Virei – respondi. – Mas caso um cavalo fugitivo me arraste direto para

o mar e eu não chegue aqui a tempo, vá sem mim, e saiba que irei ao seu encontro assim que eu puder. – Eu me inclinei para baixo na sela.

Ela me beijou uma última vez.

– Vejo você em três dias – ela disse e se afastou.

 

Os vassalos ficaram compreensivelmente surpresos em me ver.

– Sua Alteza! – o primeiro cavaleiro exclamou enquanto fazia sua

montaria ofegante parar. Em segundos, ele desmontou e começou a fazer um curativo na ferida encrostada no meu braço, sem me dar a chance de recusar. Na verdade, eu não precisei fingir dor nem exaustão. Ter ficado sentada no frio à espera deles, me preocupando com Denna, fizera com que cada ferimento meu parecesse chegar até os ossos.

– Pode nos dizer o que aconteceu aqui? – o vassalo perguntou. – Vimos um clarão quando havíamos acabado de cruzar os portões da cidade. Parecia que as estrelas estavam caindo.

– E estavam – falei, resumindo os acontecimentos para ele enquanto o resto do grupo apeava e revirava os destroços. Havia uma hesitação incomum em seus movimentos, como se eles temessem que a magia tivesse deixado uma camada de veneno sobre o solo. Contei a ele como Denna me salvara e como tudo havia queimado, explicando que ela se sacrificara por Mynaria e por mim.

– Você foi a única a sobreviver? – o vassalo perguntou quando terminei de falar.

– Sim – respondi, e deixei minha mente se encher de lembranças de Nils. As lágrimas vieram, e eu as derramei por todos e tudo que eu perdera. Flicker cutucou meu ombro e eu me encostei em seu pescoço, grata por ter um lugar seguro onde repousar.

As estrelas brilhavam firmes e tranquilas acima de nossas cabeças, inalteradas apesar da estrada se encontrar em um estado que mais parecia que o céu havia caído e destroçado o mundo inteiro. Um dos vassalos me ajudou a montar quando chegou a hora de partirmos, e eu fiz Flicker avançar, deixando a destruição para trás pela segunda vez.

Quando chegamos à cidade, os guardas do portão nos deixaram entrar sem perguntas. Os primeiros tons do alvorecer surgiam às nossas costas enquanto percorríamos as ruas. Não havia ninguém ali para nos observar, mas, pela primeira vez, ostentei minha posição social com orgulho, cavalgando pelas ruas escuras de Lyrra sem sapatos e com meu vestido esfarrapado. Trazíamos a prova de que a guerra havia acabado antes mesmo de começar, e Mynaria poderia encontrar uma nova espécie de paz. Os cascos de Flicker soavam sobre as pedras do calçamento. Só os padeiros estavam acordados, e o cheiro delicioso de pães e tortas pairava entre os edifícios. O sol surgiu no horizonte atrás de nós enquanto cruzávamos os portões do castelo, lançando um brilho incandescente sobre tudo. Uma árvore do pátio queimara completamente, restando apenas galhos negros desfolhados que se erguiam para o céu feito a mão carbonizada de Lorde Kriantz.

Assim que paramos na entrada do castelo os vassalos nos cercaram, com

a Capitã Ryka não muito atrás deles. Um cavalariço pegou as rédeas de Flicker e a capitã me ajudou a descer da sela. Mal houve tempo para que eu trocasse minhas roupas e um curandeiro examinasse meu braço antes que me levassem até o centro do castelo para uma reunião de emergência do Conselho. Mas antes do Conselho, eu tive que encarar meu irmão.

Quando entrei na sala dos conselheiros, ele esperava por mim, de pé, com

a coroa sobre a mesa à sua frente.

Ficamos nos observando em extremidades opostas da mesa comprida,

cada um de nós esperando o outro falar primeiro. Meu peito estava soterrado sob o peso da fadiga e da dor, e eu desejava ter lembrado de pedir aos curandeiros uma xícara de chá estimulante que me fizesse suportar as próximas horas antes de poder descansar.

Thandi finalmente quebrou o silêncio com uma voz exausta. – Sinto muito por ter duvidado de você – ele disse. Seus ombros estavam

caídos.

– Sinta mais ainda por ter duvidado dela – falei. – Ela tinha uma Afinidade – ele disse. – Ela escondeu isso de mim. Ela

libertou os Dissidentes. Ela podia ter sido a responsável por tudo isso, desde o início.

– Tudo o que ela fez foi se importar com o reino. Ela libertou os

Dissidentes porque eles fazem parte do que torna nosso reino seguro. Ela destruiu Lorde Kriantz não apenas para me salvar, mas para impedir a guerra. Para salvar nosso povo – eu disse a ele.

Ele assentiu.

– Não entendo de magia, mas agora enxergo a verdade nela. – Então talvez seja hora de aprender. Tentar entender os usuários de

magia em vez de tratá-los feito criminosos.

Mais uma pausa recaiu entre nós.

– Isso é culpa minha – ele disse, apoiando-se pesadamente na mesa. –Você não tinha como saber da força do dom de Denna nem do tamanho

da mentira de Lorde Kriantz – falei. – Você teria que ser um deus, não um rei, para saber de tudo isso.

– Mas falhei no que se refere a você e a mim – ele disse. – Diga o que

posso fazer para ajudar a consertar as coisas. Você é a única família que me restou.

Era hora da minha jogada.

– Precisamos enviar alguém a Zumorda, caso o povo de Lorde Kriantz decida agir sem ele – falei. – A rainha merece ser avisada, e seria uma oportunidade de iniciarmos um diálogo sobre uma aliança. Eu gostaria de ir.

– Mas Mare…

– Faz todo sentido – eu disse. – Enviar um membro da família real demonstra confiança. Enviar-me sozinha mostra respeito pela aversão deles às propostas políticas. A Conselheira Hilara deixou claro para nós, milhares de vezes, quais são os costumes deles. Não estou pedindo que me envie como embaixadora. Nós dois sabemos que não sirvo para isso. Irei apenas iniciar uma conversa, e depois partiremos daí. Juntos.

Diante de mim, ele parecia cansado, indeciso e tão jovem.

– Por favor. Não restou mais nada para mim aqui – falei.

– Tudo bem – ele concordou.

Nós contornamos a mesa e nos encontramos na metade, cara a cara.

– Obrigada – falei. – E sinto muito por todas essas perdas.

– Também sinto muito.

Meu coração se encheu de tristeza.

Nós apertamos o braço um do outro e ficamos parados por um instante, cabisbaixos.

Contamos nossas novidades para o resto dos participantes da assembleia – o Conselho e alguns embaixadores do alto escalão. A mãe de Denna estava entre eles, seu rosto pálido enquanto a capitã retransmitia o relato da perda de Lorde Kriantz e de seus homens. A notícia de que eu iria para Zumorda foi recebida com choque e descrença, mas ninguém tinha argumentos para contrariar a proposta após a revelação da traição de Lorde Kriantz e de suas implicações para Mynaria. Apenas Hilara fez um gesto de aprovação, e garantiu que ela sabia a quem perguntar sobre o misterioso poder do anel de Kriantz.

Quando o Conselho se dispersou, finalmente cambaleei para fora da sala, e rumava para os meus aposentos quando a mãe de Denna me parou no corredor, a poucos passos da porta.

– Você a viu morrer? – ela perguntou.

Balancei a cabeça em negativa, desejando que pudesse contar a ela toda a verdade, não querendo ver o sofrimento e a esperança duelarem nos olhos dela. Mas pelo menos eu podia lhe dizer uma coisa.

– Ela queria que eu dissesse a você que ela a perdoa – falei. A rainha respirou de forma entrecortada e piscou para impedir que as

lágrimas escorressem. Mas antes que eu pudesse lhe oferecer minhas falsas condolências, ela falou.

– Cuide dela – ela disse.

Levei a mão ao coração. Era a única coisa que eu sabia que podia fazer.

OceanofPDF.com

OceanofPDF.com

QUARENTA E CINCO

 

Na terceira manhã após a partida de Mare, eu me levantei sem muita

dificuldade antes do alvorecer, depois de ter passado a maior parte dos dois dias anteriores dormindo. Os efeitos colaterais do uso da minha magia me custaram caro. Meus antebraços e minhas mãos tinham pontos dormentes que não se aqueciam nem recuperavam a sensibilidade, independentemente de quanto tempo eu passasse diante da lareira.

Dormir a maior parte do dia também fora útil para evitar os curiosos que

apareceram na estalagem. O local da explosão se transformara em uma atração da noite para o dia, e muitas pessoas diziam ter visto o ocorrido mesmo de distâncias improváveis. Alguns diziam que as estrelas cadentes tinham sido obra dos Seis. Outros diziam que era um sinal do fim dos tempos. Apenas eu sabia a verdade – que toda aquela destruição fora um ato de amor. Talvez quando eu aprendesse a controlar meu dom, eu fizesse as pazes com ele.

As estrelas mal haviam começado a sumir quando deixei a estalagem, a

pequena bolsa que eu comprara lotada até a boca com meus poucos pertences e com toda comida que eu conseguia carregar para passar alguns dias na estrada. Uma torta de linguiça quentinha saída do forno foi meu desjejum, deliciosa com seus temperos e com o queijo derretido, fumegando em volutas no ar da manhã. Do varão de amarrar cavalos eu tinha uma visão clara da estrada para Lyrra, que eu observava como se a intensidade do meu desejo pudesse trazer Mare até mim. Eu esperava que ela não tivesse mudado de ideia. Embora eu tivesse passado minhas horas despertas nos últimos dois dias convencendo a mim mesma de que poderia fazer aquilo sozinha, não era o que eu queria.

Quando o sol surgiu laranja no horizonte e o gelo nas folhas caídas

começou a derreter, o barulho de cascos soou ao longe. Meu coração acelerou de ansiedade. Até os pontos insensíveis dos meus braços pareceram voltar à vida quando Flicker apareceu galopando na curva da estrada, sua malha branca inconfundível mesmo à distância. Mare sorriu ao me ver, e achei que meu coração fosse explodir de alegria. Até minha Afinidade respondeu à chegada dela, um discreto formigamento de magia passando pelas palmas das minhas mãos pela primeira vez desde a noite em que eu derrubara as estrelas sobre a terra.

Ela saltou da sela e nos abraçamos. Foi só quando ela se afastou que pude ver a carne viva em volta de seus pulsos e a nítida exaustão nas sombras sob seus olhos. Toquei sua bochecha, transbordando de remorso por não ter conseguido chegar a ela antes nem salvar seu melhor amigo. Tantos erros tinham sido cometidos, e tantas vidas tinham sido perdidas.

Da próxima vez, eu faria melhor.

Da próxima vez, eu seguiria meu coração desde o início.

– Você veio – falei, na falta de palavras melhores.

– Claro que vim – ela respondeu. –Você veio por mim primeiro. – Ela disse aquilo com tanta simplicidade, como se não houvesse escolha.

Ela se aproximou e me beijou com uma timidez que eu raramente vira nela. Uma sensação estranha e intensa surgiu em mim quando os seus lábios se abriram, cálidos como o sol da manhã. Com ela perto de mim, eu estaria bem.

– É hora de fazermos nosso próprio destino – falei.

– Sim, acho que sim. – Mare montou em Flicker e usou seu braço bom para me ajudar a subir.

Subir na sela foi um pouco doloroso, mas não me importei. Ela estava lá, com seu corpo apertado de encontro ao meu, e ela era tudo. O futuro se estendia diante de nós, tão incerto e perigoso quanto uma estrada aberta, mas cheio de possibilidades.

Mare deu o comando para Flicker galopar, e ele respondeu avidamente, suas largas passadas comendo chão enquanto rumávamos para o leste.

Pela primeira vez na vida, eu realmente me sentia livre – porque algumas coisas são mais importantes que uma coroa.

Salvar um reino

Ouvir seu coração.

Ou cavalgar ao alvorecer com uma garota em um alazão.

OceanofPDF.com

OceanofPDF.com

 

AGRADECIMENTOS

 

Mais um livro de centenas de páginas seria facilmente escrito com as palavras de agradecimento a todos que me encorajaram, ajudaram e orientaram durante a jornada até a publicação. Há muitos de vocês para serem mencionados um a um, e sou grata a cada pessoa que me viu como escritora bem antes de eu aceitar que isso também era parte de mim.

Em primeiro lugar, agradeço enormemente à minha fabulosa agente, Alexandra Machinist, que enxergou potencial nesta história e me ajudou a moldá-la de um jeito muito melhor do que eu teria feito sozinha – e então a vendeu no que me pareceu ser um piscar de olhos. Você é o tipo de defensora dedicada e apaixonada que todo escritor deveria ter a sorte de ter ao seu lado. Agradeço também às extraordinárias assistentes, Laura Regan e Hillary Jacobsen, que coordenaram todo tipo de ligação e papelada com rapidez e elegância.

Kristin Rens, tê-la como editora de meu livro de estreia foi uma bênção incomparável. Sua gentileza, consideração e cuidado com cada detalhe se fizeram presentes em cada etapa do processo de publicação. Obrigada por amar Denna e Mare, por sempre pedir a minha opinião e por sempre arranjar tempo para responder às minhas dúvidas, grandes e pequenas. Muito obrigada a Kelsey Murphy, Michelle Taormina e Alison Donalty, Renée Cafiero, e Caroline Sun e Nellie Kurtzman e suas equipes, que também ajudaram a dar vida a este livro. A partir do momento em que assinei com a Balzer + Bray, recebi o apoio e o encorajamento de uma equipe incrível. Obrigada também às mentes brilhantes e criativas da Epic Reads – vocês são parte do motivo que me deixava animada para assinar com um selo da Harper Collins, e fico muito feliz por tê-lo feito.

Muito antes de eu ter qualquer ambição ou fé de que poderia me tornar uma escritora publicada, meus amigos da Austin Java Writing Company acreditaram em mim. Ivy Crawford, obrigada por me lembrar que eu não sou péssima, mesmo quando acho que sou. Você é uma das pessoas mais poderosas que eu conheço, e será sempre a primeira e única sapata faz-tudo da minha vida. Enrique Gomez, você é o melhor irmão mais velho. Obrigada por sempre ter tempo para uma palavra de apoio ou encorajamento. Sua generosidade me mantém sempre humilde. Rebecca Leach, obrigada pela ótima companhia em diversas feiras de livros young adult, sem mencionar sua ajuda com dúvidas de todo tipo sobre redação e revisão e por me presentear com suas assombrosas habilidades de desenho. Deanna Roy, sua impiedosa caneta vermelha (e azul e verde) garantiram que apenas as palavras essenciais estivessem neste livro, e jamais escreverei passagens longas de diálogos sem me lembrar de “cortar como se as palavras fossem pronunciadas por Sarah Palin”.Você é uma das pessoas mais fortes e uma das amigas mais determinadas que uma pessoa pode ter, e espero ainda destruir muitos guardanapos com você. Lane Boyd, Emily Bristow, Matteson Claus, Delia Davila, Kurt Korfmacher, Chris Mc Craw, Lori Thomas e Zabe Truesdell – obrigada pela amizade e por nossas várias noites de risada e vinho barato. Todos vocês influenciaram minha jornada de escrita de alguma maneira.

Meus colegas críticos salvaram minha sanidade diversas vezes e estão

entre os escritores mais excepcionais que eu conheço. Ben Chiles, obrigada pelo nome Casmiel. Obrigada ainda por ler, por me animar em toda e qualquer circunstância, por me fazer rir convulsamente e, em particular, por me ensinar o conceito de amor de amigo (e de robô).

Helen Wiley, se não fosse você, eu ainda estaria surtando e me debatendo

com algum problema do enredo e esperando encontrar as respostas para eles em algum momento entre as lágrimas e o uísque. Sua infinita paciência, generosa ajuda e incrível capacidade de enxergar todas as partes de uma história jamais deixarão de me espantar.

Paula Garner, palavras nunca serão suficientes para descrever tudo que

você é para mim. Ninguém teria sido melhor companhia em minha jornada até a publicação, e sou grata todos os dias por sua gentileza, admiração e devoção ao seguirmos juntas pela estrada, HHH em THH. Nosso elaborado sistema de suborno, sua punição quando estou sendo CSWK, sua TVN charmosa e sua chaleira inimitável são coisas que eu nunca soube que sempre precisara. Sua honestidade, confiança e amor são os presentes mais incomparáveis e valiosos. Desde que nos conhecemos, você tem sido meu apoio, minha voz da razão, meu conforto, minha puxadora de orelha, minha coautora e minha bússola. Eu jamais teria conseguido atravessar os últimos anos sem a sua amizade. Você é daquelas que valem a pena ter por perto, Shy.

Eu seria relapsa se não mencionasse Malinda Lo, que passou de autora

admirada a mentora e amiga. Seu entusiasmo por este livro desde o início significou muito para mim, e seu parecer o tornou melhor. Agradeço ainda ao meu grupo do Retiro de Escritores 2013 da Lambda Literary Foundation para o Surgimento de Vozes LGBTQ (2013 Lambda Literary Foundation Writers Retreat for Emerging LGBTQ Voices).Aquela semana me mostrou o privilégio que é ter um grupo de leitores compreensivos discutindo o seu trabalho (e o impacto sensacional e duradouro de uma máscara de borracha de unicórnio).

Os leitores beta, editores e entusiastas que leram por mim ou promoveram meu livro durante o início desta aventura fizeram toda a diferença. Obrigada, Dahlia Adler, Kat Bishop, Elizabeth Briggs, Jaye Robin Brown, Ginny Campen, Sylvia Cottrell, Emily Gottesfeld, Kelly Marshall, Tia Duffy, Marieke Nijkamp, Emma Osborne, Lindsay Smith, Rachel Tobie e Elisha Walker pelas inúmeras contribuições de vocês ao longo da jornada.

Obrigada à Turma 2k16 e à Sweet Sixteens por serem o tipo de comunidade maravilhosa e apoiadora que todo autor estreante deveria ter a sorte de ter.

Obrigada, Mãe e Pai, por terem estimulado minha independência, apoiado minha escrita e outros esforços criativos e me deixado crescer montada em um cavalo. Os cavalos me ajudaram a ser uma pessoa melhor, assim como vocês.

E por fim, tenho uma enorme dívida de gratidão para com minha esposa, Casi Clarkson, que esteve ao meu lado desde o primeiro rascunho até a última versão deste livro. Você tornou este livro possível. Obrigada pelo meu canto de escrita, por me alimentar, pelas noites de namoro, por me dar tempo e espaço quando eu precisei, pelos passeios com os cachorros que serviram para resolver problemas de enredo e, sobretudo, por seu amor.

OceanofPDF.com

Você terminou Fogo & Estrelas

Audrey Coulthurst

Livros como este