Fogo & Estrelas
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Eu me livrei da multidão e me enfiei num espaço estreito entre duas casas. Cada sombra parecia tentar me agarrar com seus dedos escuros, e tremi ao passar pelo desenho de um círculo branco, que mal dava para ver sob a luz fraca dos lampiões, na lateral de um edifício. Rastejei por quintais até encontrar o que eu procurava: uma treliça decorativa de metal que ia até o topo de uma casa. Agarrei-me a ela antes que perdesse a coragem.
O cheiro pungente de ferro e o aroma verde de folhas de cipreste esmagadas faziam meu nariz coçar enquanto eu subia pela treliça, o metal machucando minhas mãos. Meus braços doíam quando cheguei ao telhado. Deitei bem esticada sobre as telhas de ardósia e então en-gatinhei com cuidado até a parte mais alta para ter uma visão melhor.
Um grupo de pelo menos cem vassalos estava em posição de sentido em frente aos portões principais do castelo. Curiosos estavam parados mais perto das ruas da cidade, desconfiados do aço que brilhava nas mãos dos vassalos. Bem abaixo de mim, pontinhos de luz brilhavam na escuridão conforme velas de vigília eram acesas. Cada grupo de seis velas indicava um bloco de pessoas. Idiotas. As vigílias não resultavam em nada além de joelhos ralados. Rezar para os Seis não traria o morto de volta. Eu havia perdido minha mãe e sabia disso melhor que ninguém.
Uma grande área de campo aberto entre as pessoas na cidade e os vassalos me deixava apavorada. A morte de alguém da realeza não era o único motivo para manter a população tão afastada do castelo. Devia haver algo sórdido envolvido no que quer que houvesse acontecido à minha família. Sozinha e desarmada do lado de fora dos muros do castelo, eu seria um segundo alvo bem atraente. Mas, de novo, tentar passar discretamente por aquele monte de vassalos provavelmente também terminaria em morte. Todas as minhas opções estavam em algum lugar entre os excrementos e o esterco.
Desci pelas treliças, aliviada quando minhas botas finalmente tocaram o solo firme. Um hino um pouco dissonante enchia as ruas enquanto eu me dirigia apressada a uma entrada lateral do castelo. Como era de se esperar, o caminho estava bloqueado. Quatro vassalos montavam guarda diante da porta solitária; a luz de tochas atravessava as barras de ferro atrás deles. Deixei que as sombras dos edifícios me engolissem enquanto eu me esgueirava mais para perto da entrada. O tráfego na rua era tão leve e intermitente que não dava para usá-lo como cobertura.
Talvez eu pudesse entrar discretamente com uma entrega. Ou quem sabe
eu poderia me aproximar o suficiente para…
– Ei, você! – Um par de mãos me agarrou por trás e me arrastou para a
luz.
Girei e tentei golpear meu captor, mas meu soco acertou apenas o ar. – Nem pense nisso, rapaz – ele disse.
Antes que eu pudesse retaliar, minhas costas acertaram as pedras do
calçamento da rua. Um vassalo forte se inclinou sobre mim com a ponta de sua espada encostada na minha garganta. Inferno. Eu havia me esquecido do guarda do perímetro.
– Se acha que vai entrar, está enganado. – Um sorriso sádico era evidente
em sua voz, embora eu mal conseguisse enxergar o rosto dele com o lampião a gás brilhando atrás de sua cabeça. – Ninguém pode entrar ou sair, ordens do rei.
– Eu não estava tentando entrar – falei, forçando o cérebro a encontrar
uma desculpa.
– Claro que não. Por que estava se esgueirando pelas sombras, garoto? –
Ele pressionou a espada contra o meu pescoço. A lâmina machucava a minha pele.
– Eu estava só procurando um amigo, senhor. – Minha voz estava
trêmula.
– Você é pequeno e esquelético demais para ser um assassino. Ou talvez
seja um daqueles adoradores de magia nojentos. – Ele cuspiu perto da minha cabeça. – Talvez eu mate primeiro e faça perguntas depois.
Meu coração martelava no peito. Que jeito idiota de morrer. Eu teria que
revelar minha identidade, e meu pai jamais me perderia de vista novamente.
– Gammon, o que achou aí? – Uma voz familiar veio do outro lado da
rua.
– Nils! – guinchei.
–Você conhece essa ratazana de esgoto? – Gammon não tirava os olhos
de mim enquanto falava com Nils.
– Não posso dizer que conheço muitas ratazanas… – Nils se aproximou e
olhou para mim, e o reconhecimento surgiu em seu rosto – … de esgoto.
Engoli em seco e olhei para ele. Inclinado sobre mim em sua farda, ele
parecia realmente um guarda autoritário, com sua espada embainhada presa à cintura. Ele segurava a lança pronto para atacar, os músculos fortes de seus braços visíveis sob as mangas curtas da camisa. Sem dizer uma palavra, implorei a ele que pensasse num jeito de me tirar daquela situação – qualquer coisa que não me obrigasse a revelar minha identidade.
– Pode deixar, Gammon. Conheço este aqui. – Nils suspirou e recuou sua lança para a posição em guarda.
A lâmina sumiu da minha garganta. Toquei meu pescoço e meus dedos ficaram sujos de sangue.
– Às vezes, nem sei por que me importo – Gammon resmungou, embainhando sua espada.
– Você fez um bom trabalho – Nils lhe garantiu. – Não conte a ninguém o que aconteceu aqui esta noite.
Nils me levantou com um puxão e franziu a testa ao ver o corte no meu pescoço.
– O que eu disse sobre sair do castelo sem permissão? – Ele retomou sua postura e olhou feio para mim.
– Que é imperdoável, senhor. – Baixei a cabeça, entrando no jogo.
– Isso mesmo. Não quero saber se é sua noite de folga. Cavalariços só deixam a propriedade em dias de louvor. Você poderia ter sido morto esta noite. – Seus olhos castanhos estavam fixos em mim. Se eu fosse um cavalariço de verdade, teria tremido nas bases.
– Sinto muito, senhor – falei.
Ele me agarrou pelas costas da camisa e me arrastou na direção do portão.
– De volta ao trabalho, soldado. – Ele acenou com a cabeça para Gammon, que fez um cumprimento e desapareceu nas sombras com toda a falta de discrição de um homem de seu tamanho.
Nils me fez marchar até o muro do castelo. Mantive a cabeça baixa, abatida, então ele teve que me arrastar feito um gato agarrado pelo cangote. O portador da chave abriu o portão, olhando para mim com desconfiança enquanto passávamos. Assim que saímos de sua linha de visão, Nils parou com a encenação e me envolveu em um abraço. Eu o apertei, sentindo o cheiro familiar de seu uniforme limpo.
– Escolheu uma noite ótima para ir à cidade, pequena Mare – ele disse quando me afastei de seus braços. – Os Cavaleiros Brancos… fiquei preocupado achando que era você.
– Estou bem – falei, tentando tranquilizar a nós dois.
– Teve sorte de eu estar no portão e de ter acabado de ser promovido. –
Ele lançou um olhar na direção do muro.
Assenti.
– O que diabos aconteceu? Quem morreu?
– Não sei. Só os guardas pessoais foram chamados ao salão principal
para o anúncio. O resto de nós entrou em serviço imediatamente e nos disseram para não deixar ninguém entrar ou sair até amanhã cedo.
Praguejei baixinho enquanto lágrimas brotavam em meus olhos. – Não acredito que isto esteja acontecendo. Preciso descobrir o que se
passa.
Nils colocou uma mão reconfortante nas minhas costas. – Talvez você devesse se entregar a um vassalo em uma das portas. Pelo
menos, você já está do lado de dentro dos muros. Quão ruim isso seria?
– Não posso. Se alguém descobre que saí esta noite… – Não precisei
terminar a frase. Nós dois sabíamos que o pouco que me restava de liberdade acabaria num piscar de olhos.
– O que vai fazer? Quem me dera poder acompanhá-la, mas tenho que
voltar ao meu posto antes que os outros fiquem desconfiados.
–Vou pensar em alguma coisa – falei e dei um passo à frente para um
abraço de despedida. Desta vez os braços dele me enlaçaram com mais delicadeza. Atrás dele, luzes de vigília brilhavam dispersas nas janelas do castelo. Uma chama ardia afastada das demais, como uma estrela brilhante e solitária no céu noturno. Era nos aposentos da Princesa Dennaleia. E imediatamente eu soube como entraria no castelo.
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SETE
Ainda abalada pelos eventos da tarde, mal consegui me controlar o
suficiente para escrever uma carta para minha mãe. A pena deslizava pela página, deixando a legibilidade apenas na intenção. Escrevi para lhe garantir que eu estava em segurança, embora quisesse lhe contar a verdade: a morte de Casmiel me deixara apavorada. Se eu ainda estivesse no escritório com ele, talvez também tivesse sido morta. Como aquilo podia ter acontecido? Onde estavam os guardas? E o mais importante: por que ele fora morto?
Eu teria dado tudo para falar com Alisendi, mas ela ainda estava em
algum lugar entre Havemont e Mynaria, a caminho do meu bazar de casamento. Eu queria que ela e minha mãe estivessem aqui para que pudéssemos orar juntas no Santuário, como costumávamos fazer em casa. Talvez isso me tranquilizasse um pouco. Mas meus pais haviam decidido que seria melhor que eu viesse para Mynaria sozinha para me adaptar, e Alisendi estava vindo para o bazar só porque fazia sentido que ela me visitasse antes de assumir obrigações que tornariam as viagens mais difíceis para ela. Meu pai quase nunca saía de Havemont, graças aos seus deveres. E, depois do meu casamento, o inverno chegaria mais depressa no norte, o que significava que minha mãe provavelmente não viria me visitar antes do verão seguinte.
Assim que peguei a cera roxa para selar minha carta, as velas de vigília
tremeluziram na minha janela – aquele foi o único aviso antes que uma pessoa em trajes imundos subisse no peitoril e pulasse para o chão.
Gritei, e a magia explodiu em mim antes que pudesse refreá-la. As
chamas das velas de vigília aumentaram, lançando uma chuva de centelhas pelo quarto.
– Sou só eu! – disse o invasor, cambaleando para a frente e quase
colidindo com a minha harpa.
Recuei rapidamente, agarrando um atiçador que estava ao lado da lareira, e o brandi de um jeito que eu esperava que fosse ameaçador. Quando abri a boca para gritar mais uma vez, reconheci o rosto sujo.
– Amaranthine? – falei.
Suas roupas não passavam de trapos rústicos que disfarçavam seu sexo melhor do que eu poderia imaginar.
Uma batida forte soou na porta.
– Alteza? – a voz abafada de um vassalo atravessou a madeira pesada.
Amaranthine avançou pelo quarto e mergulhou debaixo da cama enquanto o guarda abria uma fresta da porta. Escondi o atiçador de brasas atrás das costas, torcendo para que minhas saias o ocultassem.
– Algum problema? – o vassalo perguntou.
– Não. Desculpe. Estou muito assustada desde esta tarde, e achei que tivesse ouvido um barulho lá fora.
– Certo – ele disse. – Diga-nos se ouvir qualquer outro barulho. – Ele correu os olhos pelo cômodo enquanto eu permanecia parada e tentava olhar para qualquer outro lugar que não fosse o quarto. Quando ele finalmente fechou a porta, soltei o ar, grata por ele não ter se dado ao trabalho de fazer um exame mais minucioso.
– O que faz aqui? – perguntei, largando o atiçador e me agachando para espiar debaixo da cama.
Amaranthine arrastou-se para fora e se pôs de pé.
– Por favor… pode me dizer quem morreu?
Meu estômago se revirou. Achei que ela estivesse de luto com Thandilimon e com o rei naquela noite. Como ela podia não saber o que havia acontecido?
– Foi Lorde Casmiel – respondi baixinho.
Seus olhos cinzentos se voltaram depressa para os meus.
– Não!
– Foi no escritório dele, esta tarde. – Minha voz vacilou. – Eu tinha acabado de sair de lá.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela as enxugou com os punhos cerrados. Era duro vê-la sofrer. Com alguns passos, diminuí a distância entre nós e a abracei como se ela fosse minha irmã. Ela continuou tensa, então recuei quando ficou claro que ela não me abraçaria também. Seu rosto estava inexpressivo.
– O que aconteceu? – ela perguntou com uma voz sem emoção.
Contei o que eu tinha visto. Minhas mãos tremeram ao reviver aquele
momento mais uma vez.
– Uma flecha branca cintilante? Que estranho – ela disse com o cenho
franzido.
Concordei.
– É incomum usar flechas pintadas. Se a flecha tivesse sido feita para um
atirador específico, ou para um torneio, faria sentido pintá-la. Mas um assassino jamais seria tolo o bastante para deixar para trás qualquer coisa que pudesse identificá-lo. Por outro lado, também não faz sentido que a flecha tenha sido feita para o exército. Se estiver equipando um exército, pintar flechas é demorado e caro demais. Além disso, se alguém se desse ao trabalho de pintar as flechas, provavelmente usaria uma cor escura para que elas passassem despercebidas. A menos que a batalha seja na neve. – Eu passara a noite toda remoendo aquele problema, mas ainda não havia chegado a qualquer conclusão.
– Como sabe disso tudo? – ela perguntou surpresa. – Leio muito – respondi encabulada.
– E sobre a cintilância?
– Não sei – falei e voltei o olhar para o peitoril, onde as velas de vigília
ainda queimavam, meio derretidas e inclinadas em ângulos estranhos devido à explosão de chamas que meu poder causara.
– Preciso ir – ela disse. – Posso usar seu banheiro? – Por que está vestida desse jeito? – perguntei. – Não é da sua conta – ela respondeu.
– Acho que agora é, já que você decidiu entrar de fininho pela minha
janela. – Era bom poder responder no mesmo tom que ela, estar no meu ambiente e não no dela, onde eu me sentia livre para dizer o que tivesse vontade.
– Tudo bem. Nem sempre fico do lado de dentro dos muros do castelo. É
um jeito de garantir que não prestem atenção em mim – ela disse.
Sair de modo discreto do castelo provavelmente era o que Casmiel
quisera dizer com fontes de informação “não convencionais”.
Suspirei.
–Você vai precisar de algo para vestir. – Devolvi o atiçador de brasas ao
seu lugar e comecei a revirar minhas roupas. Com aquela altura e silhueta, seria difícil encontrar algo que não fosse tão pequeno a ponto de parecer vulgar. Peguei um vestido simples verde-sálvia que eu ainda não tinha usado em Mynaria. Teria que servir.
– Obrigada – ela disse em uma voz já desprovida do tom de briga. Seus dedos tremeram ao tocar uma mancha vermelho-amarronzada em seu pescoço antes de desaparecer no banheiro.
Aquilo era sangue? O que ela andara fazendo na cidade?
Amaranthine enfim retornou, com o rosto limpo e o semblante suave.
– Pode me ajudar com as amarrações? – ela perguntou, virando de costas para mim.
– Claro – respondi.
Auna sempre fazia aquilo parecer muito fácil, mas meus dedos se atrapalharam ao apertar o corpete. O tecido se ajustou à cintura de Amaranthine, acentuando a curva graciosa de seus quadris. De repente, o quarto ficou mais quente, e a magia pinicava sob minha pele, o que me deixava mais desajeitada ainda. O cheiro de vida ao ar livre ainda era perceptível nela, misturado ao perfume de rosa e lavanda do sabonete que ela usara para se lavar. Embora ela tivesse me tocado durante minha aula, ter minhas mãos nela parecia diferente. Quando terminei as amarrações, minhas bochechas queimavam.
– Obrigada – ela disse, voltando-se para mim. A mancha em seu pescoço fora removida, mas dava para ver sua origem. Um corte fino debaixo do seu queixo. Abri a boca para perguntar como ela se machucara, mas achei melhor não dizer nada. Seria mais gentil deixá-la pôr para fora um pouco de sua dor.
– Sinto muito por sua perda – falei. – Casmiel me falou muito bem de você. Ele disse que você tem um coração bom.
Ela suspirou.
– Se eu tivesse um coração bom, estaria cumprindo “minhas obrigações para com o reino”, como meu pai costuma dizer. Servindo à Coroa, como Thandi.
– As coisas eram diferentes antes do nascimento de Thandilimon? Não era você a herdeira do trono? – perguntei.
– Eu não me lembro. Eu tinha pouco mais de um ano quando ele nasceu. Meu pai acredita que o trono deve passar de pai para filho, então as coisas sempre giraram em torno de Thandi.
– Entendo – falei, embora eu não entendesse a lógica de achar um sexo melhor que o outro. Como era a mais velha, o destino de minha irmã sempre fora ser rainha de Havemont, mesmo se eu tivesse nascido homem ou se ela arranjasse um consorte.
– De todo modo, eu não ia querer ser herdeira do trono – ela acrescentou. – Por que não? – perguntei. O poder da coroa nos permitia ajudar as
pessoas e mudar nossos reinos para melhor.
– Haha! – Sua risada foi curta e cortante. – Uma vida inteira fingindo
saber o que é melhor para todo o reino e seu povo? Ter todos os dias da minha vida minuciosamente programados? Decidir quem deve viver e quem deve morrer por seus crimes? Casar com alguém por quem eu não daria dois baldes de esterco só porque isso é o melhor para o meu reino?
– É claro. Quem iria querer uma coisa dessas? – eu disse com sarcasmo.
Ela havia descrito o futuro para o qual eu passara a vida toda me preparando.
Ela deu de ombros.
– Eu não.
– Espero que Thandilimon me ame – falei. Além de ser inútil, ficar presa
a um casamento sem amor com alguém que não me respeitasse era meu maior medo. Embora um romance épico fosse improvável na minha situação, mesmo assim eu ainda desejava isso. O amor tornaria meus anos mais fáceis. A solidão os tornaria mais difíceis.
– Boa sorte – ela disse. – É possível construir parcerias, mas não se pode
forçar o amor. O amor deve fazer com que você se sinta galopando em um cavalo a toda velocidade pela primeira vez. Deve fazer seu sangue ferver. Deve deixá-la apavorada. E alguma parte de você deve identificá-lo na primeira vez que encontrar o olhar da outra pessoa.
Havia uma provocação em cada palavra dela, e conhecimento de coisas
que eu jamais experimentara. Fiquei olhando para ela abismada, sem conseguir discutir, e sem saber ao certo se queria fazê-lo. Sua visão do amor não era do tipo que as circunstâncias me ofereciam.
– Tenho que voltar aos meus aposentos agora. – Amaranthine fez uma
trouxa com suas roupas rústicas e atravessou o quarto até a porta.
– Claro – falei. Conversar com ela havia me deixado exausta assim como
me deixavam os infames testes de três horas do meu professor de história. Era cansativo demais fazer amigos.
Ela abriu a porta e desapareceu no corredor, dispensando um vassalo que
se oferecera para acompanhá-la. Ela teve sorte que o guarda que protegia minha porta havia terminado seu turno e sido substituído por outro em algum momento após a chegada dela, de modo que ele não estranhou a sua presença nos meus aposentos – um fato que me deixou ainda mais preocupada. Os vassalos deveriam estar em vigilância máxima depois do que acontecera com Casmiel. Levando em conta aquilo e o quanto a conversa que eu tivera com Amaranthine me abalara, parecia que meus nervos estavam em chamas. Eu precisava rezar mais que nunca.
Embora minha mãe e minha irmã não estivessem comigo, eu ainda podia rezar sozinha. Quem sabe assim eu conseguisse acalmar minha magia e dormir. E também não seria nada mal que, quanto mais devota eu parecesse, menos provável seria que alguém suspeitasse dos meus poderes mágicos.
– Com licença – falei a um dos vassalos. – Você poderia me levar ao Santuário, por favor? – Achei que ninguém se ofenderia se eu fosse até lá para rezar durante alguns minutos pela memória de Casmiel.
– Claro, milady – ele disse.
Avançamos pela ala real até uma porta pesada de madeira, o batente adornado com seis esferas de vidro polido em um círculo – o símbolo dos Seis Deuses. As dobradiças não fizeram ruído quando entrei.À minha frente, havia uma área circular com iluminação tênue e seis altares bem cuidados dispostos em nichos distribuídos de forma equilibrada. Uma calma profunda tomou conta de mim enquanto eu andava pelo local vazio.
Comecei pela terra, pois minha alma estava pesada. A pedra parecia quase viva debaixo do meu dedão, e o formigamento da magia nas palmas das minhas mãos cessou. A rocha demorava a mudar, mas isso acontecia com o tempo. Até as coisas mais difíceis ficavam mais fáceis de suportar. Depois veio a água, que nunca me agradou muito, talvez porque suas principais formas de manifestação nas montanhas fossem neve, gelo e chuva congelante. Enfiei meu dedo na bacia rasa de água e deixei uma gota pingar no recipiente de oferenda. No altar do ar, soprei os sinos em miniatura, e suas notas dissonantes fizeram um calafrio descer pela minha coluna.
No altar do deus da sombra, deslizei minha mão pela escuridão sob uma caixa ricamente decorada para reconhecer o poder do desconhecido e do além. Para o deus do espírito, fechei os olhos e dediquei um tempo a me lembrar de Casmiel: sua gentileza, sua tranquilidade e a segurança com que me conduzira pelo salão de dança. Se eu pudesse ajudar a Coroa a descobrir o que acontecera com ele, seria no mínimo uma forma de retribuir sua amabilidade e seus ensinamentos durante o curto tempo que desfrutei de sua companhia. Eu faria da aliança um sucesso para honrar sua memória.
Deixei o deus do fogo por último porque era ali que eu me sentia mais à
vontade. A lasca de madeira da oferenda era pequena e lisa entre meus dedos.
Prometo fazer tudo que eu puder.
Desenhei o símbolo do deus e joguei a lasca, mas antes que a madeira
caísse nas chamas, a magia surgiu nas pontas dos meus dedos para engoli-la. O poder veio fácil, saindo em uma onda que eu mal conseguia controlar. A lasca de madeira explodiu em uma chuva de fagulhas, e a força da magia finalmente diminuiu. De repente, me senti exausta, embora meus batimentos estivessem acelerados de medo – e de espanto com a força que eu não sabia que tinha. Alguma coisa na minha magia era muito diferente em Mynaria. Eu também precisava descobrir o motivo daquilo.
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OITO
Meu pai e Thandi exigiram minha presença na reunião do Conselho na
manhã seguinte ao funeral de Cas, sem dúvida para me punirem pela minha ausência misteriosa no dia em que ele morrera.
Meu pai embaralhou várias vezes os papéis que estavam à sua frente
antes de falar, tentando manter a compostura.
– Precisamos discutir as circunstâncias da morte de Lorde Casmiel – ele
falou.
A Conselheira Hilara deu um sorriso quase imperceptível. Ela teve sorte
por eu não pegar minha cadeira e arremessá-la contra ela. Uma coisa era não gostar de Cas, como ela sempre demonstrara, outra totalmente diferente era parecer tão arrogante quando fazia menos de um dia que o corpo dele havia sido enterrado.
– Quem quer que tenha feito tal coisa está afastado do caminho dos Seis
– o Conselheiro Eadric falou. – Que se arrependa e encontre a luz. Que retome o caminho das estrelas, do vento, do fogo… – Seu olhar vagou pela parede e subiu até o teto.
Mal consegui me controlar para não bufar de irritação. A personalidade
avoada do sujeito era suficiente para me fazer querer “me afastar do caminho dos Seis” e socar sua cara.
Papai ignorou Eadric.
– Vingar sua morte é a prioridade. Bem como eliminar qualquer ameaça
ao nosso reino.
Suspirei. Meu pai andava sempre com a espada à sua frente. Um dia ele
acabaria caindo sobre ela.
– Concordo. Devemos vingá-lo o quanto antes para mostrar que não se
deve brincar com o povo de Mynaria – Thandi disse. – A flecha que matou Cas era branca. Isso teria alguma relevância? Não faz sentido pintar uma flecha dessa cor, a menos que a intenção seja usá-la na neve… ou mandar um recado.
Eu sabia exatamente de onde ele tirara aquela ideia, e não me surpreendi nem um pouco por ele não ter dado crédito a quem a tivera. Dennaleia era muito mais inteligente do que parecia, eu tinha que reconhecer.
– Não há neve aqui – Eadric disse, com a testa franzida de perplexidade. – Se enviarmos alguns clérigos ao Grande Ádito para meditar sobre isso, talvez os Seis possam nos guiar…
– O único lugar aqui perto que tem neve é Havemont. Ou Zumorda – disse a Capitã Ryka, batendo seu cravo de votação na mesa enquanto falava. Os cravos de ferradura produziam um som monótono sobre o tampo de pedra. Ela usava roupas brancas de luto em vez de seu traje de montaria usual, seus olhos vermelhos entregavam a dor de sua perda recente, apesar de seu comportamento tranquilo.
– Havemont não ousaria prejudicar a aliança, ainda mais com sua princesa aqui – o rei falou.
– O brasão de Zumorda é um dragão branco – Ryka disse. – Flecha branca, dragão branco. A ligação é óbvia.
– Uma possível ameaça por parte de Zumorda não deve ser descartada, mas e o grupo rebelde local? O símbolo deles também é branco – Lorde Kriantz observou, embora, como embaixador, não pudesse participar da votação. O homem parecia ter uma cabeça melhor do que os demais, pelo menos.
– Se tivéssemos formado uma aliança com Zumorda quando tivemos essa oportunidade, talvez tudo isso pudesse ter sido evitado – Hilara comentou.
A mulher era persistente, para dizer o mínimo. Considerando seu aparente deleite com a morte de Cas, não era nenhuma surpresa que ela preferisse falar de oportunidades de aliança perdidas a descobrir quem era o assassino. Eu a encarei, desejando que meu olhar pudesse abrir buracos em seu rosto. Sua pele com aparência jovem brilhava com um pó cintilante que fazia com que as manchinhas douradas de seus olhos se destacassem, e sem dúvida até meados do inverno aquela seria a última moda.
– Zumorda não deixaria nem uma caravana de comerciantes entrar em seu reino, quanto mais um embaixador – disse Lorde Tommin, o conselheiro de comércio. – Não podemos formar alianças com pessoas que não permitem que exportemos nossos produtos e que não entendem que associações comerciais não têm fronteiras. Os comerciantes de cavalos podem entrar para a feira de Kartasha, mas há um volume significativo de documentos…
– Após o ataque, a Guarda de Elite examinou o escritório de Lorde
Casmiel – a Capitã Ryka disse, cortando-o. – Ainda não conseguimos descobrir de onde a flecha foi atirada. Além disso, algumas das primeiras pessoas a chegarem ao local notaram que a flecha parecia cintilar.
– Talvez devêssemos examinar a flecha. Pode trazê-la, Capitã? – Thandi
perguntou. De certa forma, era um alívio saber que ele tinha pelo menos meio cérebro dentro daquele seu crânio.
– Claro. Eu a carrego comigo desde que foi retirada. – Ryka empurrou
uma caixa estreita para o centro da mesa. Sua mão geralmente firme tremia, revelando como ela de fato se sentia por trás daquela máscara estoica que usava.
A tristeza me invadiu e senti um nó na garganta. Aquela era a última
coisa que tocara Cas, a única evidência que tínhamos. Não me surpreendia que ela andasse com aquilo para cima e para baixo.
Todos se inclinaram para a frente e eu me levantei, esticando o pescoço
para ver enquanto ela abria a caixa.
Não havia nada lá dentro, exceto cinzas.
Ryka olhou pasma para aquilo.
A mesa se transformou num alvoroço, descrença e medo se espalhando
feito fogo pelo grupo.
– Isto é heresia!
– Vou caçá-los com minhas próprias mãos!
– Zumorda deve estar por trás disso!
O rei ergueu a mão pedindo silêncio.
– A maior prioridade deve ser aumentar a segurança do castelo – Lorde
Tommin insistiu. Ele tinha uma voz fina e aguda e uma barriga saliente que estava pressionada contra a mesa de pedra. – Não podemos colocar nossas famílias em perigo.
O sujeito nem tinha filhos, mas era de se esperar que um comerciante
glutão preferisse ficar sentado comendo doces exóticos a pegar numa espada.
– Capitã? – o rei falou. – Quantos vassalos mais podemos colocar em
serviço?
Ryka esfregou as têmporas.
– Tenho uns cinquenta prestes a fazer o juramento. Mais do que isso, só
se usássemos os jovens em treinamento.
– Precisaremos de um exército bem maior para enfrentar Zumorda – Tommin disse.
– Sei disso – Ryka respondeu rispidamente.
– Ainda não decidimos se a culpa é de Zumorda – Hilara interveio.
– Mas por que alguém mataria Casmiel? Ele tinha um coração puro. Era um servo do reino – Eadric disse em tom sonhador.
Era uma pena que uma pergunta sensata tivesse sido feita por alguém tão insensato, pois ninguém se deu ao trabalho de respondê-la.
– Precisamos planejar um contra-ataque a Zumorda imediatamente – Tommin sugeriu.
– Proteger nossas fronteiras deve ser nossa prioridade – Hilara afirmou. – Não podemos retaliar sem antes avaliarmos nossos atuais aliados e nossa força.
A conversa se transformou em uma discussão acalorada.
Por mais que eu detestasse ficar do lado de Hilara, uma vozinha irritante no fundo da minha mente ficava perguntando se Zumorda estaria mesmo por trás da morte de Cas, ou se talvez os Dissidentes é que eram os culpados. Talvez os dois tivessem trabalhado juntos.
Se pelo menos eu tivesse conseguido arrancar mais informações do maldito espião no Cão Surdo.
Se pelo menos Nils e eu tivéssemos obrigado Alen a responder mais perguntas.
– E se conduzíssemos uma investigação? Para obter provas irrefutáveis de que Zumorda está por trás disso? – perguntei enfim, mas minha voz se perdeu no caos da sala.
Cruzei os braços e sentei de novo na minha cadeira, voltando os olhos para o céu e implorando aos Seis que me dessem forças para sobreviver ao restante daquela reunião. Um grande pesar tomou conta de mim. Se os idiotas dos conselheiros estavam ocupados demais tentando salvar os próprios pescoços em vez de conduzir uma investigação apropriada, era minha obrigação descobrir o que havia acontecido a Cas. Eu devia isso a ele. Era o mínimo que eu podia fazer pelo único membro da família que havia me amado pelo que eu era, não pelo que eu deveria ser.
Depois da reunião do Conselho, rumei para os estábulos para o treinamento diário de Dennaleia. Fiz com que ela começasse imediatamente, minha mente estava em outro lugar. Eu deveria estar lá fora, na cidade, em busca de respostas sobre Cas, sobre a flecha, sobre Zumorda. Mas meu pai me mantinha mais presa desde a morte de Cas, e eu não queria dar a ele motivo para aumentar ainda mais minhas restrições. Peguei bem mais leve com Dennaleia porque eu estava preocupada, mesmo assim ela saiu meio torta quando apeou do cavalo no fim da aula.
– A dor melhora com o tempo – falei. Entramos no celeiro com Louie a
reboque.
– Espero que sim – ela disse, e o amarrou com as cordas para remover os
arreios dele.
Eu tinha que admitir que, apesar de seu desconforto evidente, ela não era
de reclamar, e eu nunca precisava dizer a ela mais de uma vez o que fazer. Dennaleia arrumou tudo e guardou os arreios de Louie sem deixar nada fora de lugar.
– Pode me mostrar seu cavalo? – pediu enquanto cobria sua sela. – Claro – falei, surpresa pelo pedido. – A baia dele fica do outro lado do
celeiro. Caminhar pode ajudar a diminuir as dores.
Dennaleia parou a vários passos de distância ao nos aproximarmos da
baia do meu cavalo. Estalei a língua baixinho e Flicker enfiou a cabeça por cima da meia-porta.
– Este é Flicker. – Passei meu braço em volta de seu pescoço quando ele
encostou sua cabeça no meu ombro.
– Isso não é perigoso? – Dennaleia perguntou. – Talvez – falei. – Mas confio nele. Jamais faria isso com nenhum outro
cavalo. Todos eles têm suas manias. Flicker gosta de abraçar. – Cocei um ponto específico de sua crina e ele inclinou a cabeça, feliz.
– Acho que dispenso abraços de qualquer coisa que poderia me esmagar. – Ele só esmagaria você se eu mandasse – falei, dando um sorrisinho
malicioso ao ver a expressão de medo em seu rosto.
– Isso não ajuda nem um pouco!
– Não se preocupe. Ele ainda não aprendeu essas manobras. Ainda está
na fase inicial de seu treinamento de cavalo de guerra. Só vai terminar o treinamento daqui a um ano ou dois. – Dei tapinhas carinhosos nele.
– Se ele ainda está em treinamento como os outros, por que Thandi diz
que ele será descartado? – ela perguntou.
– Por causa daquela malha branca comprida que vai até acima do joelho
em sua pata da frente. Todo outono, depois que arrebanhamos as éguas de reprodução durante a Cavalgada, desmamamos os novos potros e separamos os cavalos jovens do rebanho, para vender aqueles que não valem a pena ser criados.Às vezes, despachamos alguns cavalos mais velhos também, se eles não tiverem um bom desempenho no programa de treinamento.
– Mas qual o problema de uma malha branca? – Ela aproximou-se e esticou a mão com cautela para que Flicker a cheirasse.
– A última coisa que você quer em um campo de batalha é uma grande mancha branca que pode atrair os olhos do inimigo, e a malha dele é grande demais para ser coberta por uma faixa ou pela armadura. Por isso ele é castrado. Mas não estamos em guerra… então, embora a pureza da linhagem seja importante, ele provavelmente não irá para um campo de batalha de verdade, onde sua cor importaria. – Fiz uma pausa. –Você não devia me perguntar sobre Flicker. Meu amigo Nils diz que eu quase posso matar uma pessoa de tédio quando começo a falar dele.
– É bom conversar com alguém. Então, se essa for a única maneira de fazer você falar, vou perguntar sobre Flicker com mais frequência. – Ela pareceu ficar estranhamente feliz.
– Se é isso que quer… – falei. Não acreditei por um segundo que ela gostaria de me ouvir tagarelar sobre meu cavalo.
– Do que mais você gosta, além de montar? – ela perguntou.
– Eu costumava cantar às vezes – respondi, sem saber ao certo por que ela fingia se interessar.
– Você tem mesmo uma voz melodiosa – observou.
Seu elogio me pegou desprevenida, e procurei em seu rosto algum sinal de que ela estivesse zombando de mim. Não encontrei nenhum, e então minhas bochechas coraram e me virei para Flicker para esconder o rubor.
– Mas não canta mais…? – ela perguntou.
– Minha mãe era uma musicista talentosa. Quando eu era pequena, costumava me fazer cantar com ela. Mas então ela morreu, e todos pararam de esperar qualquer coisa de mim. – Não consegui disfarçar a amargura em minha voz.
– Deve ter sido difícil – Dennaleia disse. A empatia dela me deixava desconfortável.
– Preciso ir. – Fui embora sem dizer mais nada. Eu tinha baias para limpar, e o dia já estava sendo difícil o bastante sem desenterrar lembranças de coisas que eu preferia esquecer.
Horas depois, quando voltei aos meus aposentos, Nils me esperava diante
da minha porta. Vê-lo me animou um pouco.
– Recebi seu recado há alguns dias – ele disse. – Desculpe, mas não pude
vir antes.
– Imaginei. Entre. – Fiz sinal para que ele entrasse na minha antecâmara,
satisfeita em saber que meu pai cairia morto se soubesse disso. Ter homens entrando e saindo dos meus aposentos em horários estranhos à noite era uma infração que nem mesmo Cas poderia ter fingido não saber, e havia anos que Nils e eu vínhamos fazendo daquilo um hábito. Os vassalos que guardavam a porta cumprimentavam Nils com um aceno de cabeça, em reconhecimento de todo material de chantagem que tinham uns contra os outros. Nosso segredo estava seguro com eles.
Assim que entramos, Nils se aproximou e me enlaçou em um abraço
apertado. Eu me permiti ficar à deriva um instante, seu abraço familiar diminuindo a dor infinita do pesar.
– Estou tão feliz em ver você – falei. Sombras compridas dançavam na
minha antecâmara, projetadas pelas velas de vigília que minha aia havia acendido na janela para Cas.
– Como foi a reunião com o Conselho? – ele perguntou com delicadeza. – Um desastre. Não conseguiram nem elaborar um plano para conduzir
uma investigação. – Idiotas. Resumi a reunião para ele, acrescentando alguns comentários que beiravam o profano.
Nils suspirou.
– Por que isso não me surpreende?
– Ainda não consigo acreditar que ele está morto – falei. Por mais
zangada que eu estivesse com o Conselho, o peso da perda de Cas era maior.
– Sinto muito, Mare. Ele era um homem bom – Nils disse. – Alguma
ideia de quem pode tê-lo matado?
– Não. E o que mais me incomoda é que não consigo descobrir o motivo.
– Examinei seus cálidos olhos castanhos como se eles pudessem me dar uma resposta.
– Nem umazinha? Geralmente, você é a rainha das teorias de
conspiração.
– A única pessoa que me cheira a problema é a rainha de Zumorda, e ela
tem reinado tranquilamente há anos sem demonstrar o menor interesse em nós. O embaixador de Sonnenborne parece ansioso para colaborar, e ele tem tantas tribos sob seu brasão que bem poderia ser o rei daquele deserto miserável. Com Sonnenborne e Havemont como aliados, temos Zumorda cercada em suas fronteiras do norte, do oeste e do sul. A rainha teria pouco a ganhar e possivelmente tudo a perder se entrasse em guerra conosco. Isso não faz sentido.
–Verdade, mas ela está quieta demais. Como ela mantém a paz em um reino tão grande e peculiar? Jamais ouvimos dizer que eles têm algum tipo de exército. E por que o povo de Zumorda insiste em entrar em Mynaria passando por Havemont em vez de assinar um tratado direto conosco? Não faz sentido que eles façam uma viagem tão longa pelo norte. Não é eficiente.
– Quem me dera eu soubesse a resposta. – Acendi o lampião sobre a mesa na antecâmara para afastar a escuridão.
– Alguém do nosso reino poderia ser o responsável pela morte de Cas? Alguém do Conselho, quem sabe? – Nils perguntou, sentando-se em um dos sofás de couro. Sentei ao seu lado sobre minhas pernas cruzadas.
– Será que algum deles seria tolo o bastante para correr o risco de ser punido por alta traição? – perguntei. – Hilara sempre o odiou, mas ela é cautelosa demais para abrir seu caminho mediante um assassinato. Os únicos outros que poderiam ter feito isso são os Dissidentes, mas eles não parecem ser muito organizados. E ainda assim… por quê? Cas não era fundamentalista.
– Mare – ele disse baixinho. – Talvez seja o momento de você falar com seu irmão e com seu pai. Você já viu muita coisa fora dos muros do castelo; até mesmo o que conseguimos arrancar daquele Dissidente no outro dia. Essas informações poderiam levá-los na direção certa e ajudar na investigação.
– Nem pensar – falei. – E que investigação? Aqueles idiotas não conseguem nem elaborar um plano para proteger o castelo, quanto mais para encontrar o assassino. Além disso, eles têm seus próprios espiões. – Cruzei os braços.
Nils suspirou.
– Eles dão ouvidos a esses espiões?
– Não tanto quanto deveriam.
– Exatamente. Talvez eles precisem ouvir de alguém que levem a sério e que tenha uma visão mais ampla.
– Certo. Como se eles fossem me levar a sério, em especial quando
descobrirem que tenho andado fora do castelo praticamente todos os dias nos últimos três anos – eu disse com escárnio. – A única pessoa que me escutaria seria Cas, e ele está morto. – Uma nova onda de tristeza surgiu com minhas palavras. Respirei fundo para empurrar as emoções para longe. O ar da noite que entrava pela janela aberta cheirava a lençóis limpos com um toque de alfafa.
– Talvez eles escutem.
– Não. Eles vão gritar comigo e botar mais guardas atrás de mim, e vou
ser repreendida por ter me colocado em perigo, principalmente se considerarmos o que aconteceu com Cas. Posso não ser uma peça importante do ponto de vista político, mas sem dúvida matar membros da família real de Mynaria ainda passa uma mensagem forte. Meu pai e o Conselho teriam plena consciência desse perigo. Se eu for obter informações, o que farei, é claro, eles serão os últimos a saber disso.
– Você é tudo menos alguém sem importância, Mare. – Ele afastou uma
mecha solta de cabelo do meu rosto. Não pude resistir ao toque dele.
– Estou vendo como você seduz todas as mulheres, Nils. Muito sagaz. –
Embora eu o provocasse, às vezes eu sentia saudade de antes, de quando éramos mais que amigos.
– Meu coração só bate por você – ele disse, passando o braço à minha
volta. – Embora metade dos vassalos ache que talvez eu goste de garotos, depois daquela cena que fizemos para botá-la para dentro do castelo naquela noite…
– Até parece – falei, revirando os olhos e afastando-o. – Tenho certeza
que metade do reino pode comprovar que você gosta de mulheres.
– Não sei do que você está falando! – Ele olhou para mim com olhos
arregalados. – Não posso evitar que as mulheres se ofereçam para mim. A maioria delas nem me interessa.
– Acho que você se interessa o suficiente – respondi. – Alguém
comentou no jantar que você e Lady Elinara foram pegos atrás dos campos de treino.
– Bem, a dama em questão gosta de um pouco de… ação. – Ele ergueu as
sobrancelhas.
– Ah, pelo amor dos Seis! – Cobri o rosto fingindo estar enojada, rindo
por trás da palma na minha mão.
– Falando sério, Mare, tome cuidado se decidir cruzar esses muros de novo. A cidade já não é tão segura quanto antes. Nem sempre estarei por perto se você se meter em confusão, e Gammon não é o único que poderia enfiar uma espada no seu pescoço.
– Eu sei. – Passei a mão pelo braço do sofá. O perigo era irrelevante. Cas merecia justiça.
– E eu sei que você vai fazer isso independentemente do que eu lhe disser. – Ele sorriu. – É isso que amo em você.
– Preciso descobrir o que aconteceu com Cas. Não confio no Conselho para fazer esse trabalho.
– Vai precisar de ajuda – Nils disse.
– É por isso que tenho você.
– Sabe que farei tudo que puder – ele disse. – Mas no momento estamos fazendo dois turnos. Vai ser mais difícil escapar. E há uma quantidade limitada de fontes de informação que posso usar. – Ele não podia correr o risco de se encrencar; podia custar seu emprego.
– Preciso de alguém que tenha força política e seja suportável, o que é quase tão provável quanto encontrar um unicórnio na baia de Flicker amanhã – falei.
– Fazer uma pesquisa na biblioteca também não seria ruim – Nils disse. – Sem dúvida deve haver informações sobre o que a flecha branca significa, ou que tipo de magia poderia tê-la queimado, não?
Torci o nariz.
– Prefiro limpar os estábulos. Com as mãos.
Ele riu.
– Essa é minha pequena Mare. Posso ir ou você quer que eu fique um pouco para lhe fazer companhia? – Ele me puxou para perto, roçando os lábios na minha testa.
Hesitei. Pedir a ele que ficasse não era justo. Nils tinha outros lugares para ir, e outras mulheres dispostas a lhe oferecer mais que amizade. Mas eu não tinha mais ninguém.
– Eu gostaria que você ficasse – falei, odiando a mim mesma pelo tremor em minha voz.
E ele ficou – seu corpo sólido era a única coisa que me separava da minha tristeza.
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NOVE
Meu bazar de casamento correu como programado por volta de duas semanas após o funeral de Casmiel, na manhã seguinte à chegada de Alisendi. Faixas de tecido vaporoso pendiam do teto elevado da pérgula e solário da rainha, balançando suavemente na brisa matinal. A sala se estendia até a área externa sem que se notasse uma mudança de ambiente, com as paredes internas de pedras dando lugar a treliças cobertas de vinhas trepadeiras e flores vibrantes. Os comerciantes estavam espalhados pela área, mesas com pilhas altas das mais finas mercadorias de casamento: sedas tingidas, ricas tapeçarias e doces exóticos. Os palacianos, vestidos com as cores vívidas do verão, bebericavam refrescos enquanto perambulavam pela sala e pelo jardim.
A presença de Alisendi deveria ter me animado, mas eu não estava a fim de exibir minha boa educação aos convidados e me submeter às minhas futuras damas de companhia, mesmo com minha irmã ao meu lado. Eu queria fazer algo útil.
– Já escolheu os convidados de honra do seu casamento, Alteza? – uma voz aveludada perguntou.
Hilara parou ao meu lado, alta e esplendorosa em um vestido violeta. Cachos estreitos emolduravam seu rosto e o restante de seu cabelo preto estava puxado para cima em um penteado elaborado com fitas cor de lavanda. Talvez eu devesse me sentir lisonjeada por ela ter decidido comparecer à minha festa, mas eu precisava conter minha irritação. Ela era poderosa. Ela poderia estar com o Conselho, ajudando a encontrar o assassino de Casmiel ou lidando com os Dissidentes. Em vez disso, estava desfilando num ambiente da alta sociedade.
Dei meu melhor sorriso diplomático.
– Ainda não, milady – respondi. – Será uma decisão difícil, com tantas opções maravilhosas. – Não importava que eu não conhecesse quase ninguém exceto Amaranthine, que se destacava à sombra de uma árvore próxima. Ela conseguira dar um jeito de usar traje formal de equitação em vez de vestido, parecendo ao mesmo tempo ousada e deslocada entre as outras mulheres da nobreza.
– Alguma sugestão? – perguntei.
– Certamente, Sua Alteza – ela disse. – O lugar de Nairinn de Almendorn
na corte é garantido e sólido. Ela não se casará até encontrar uma pessoa de nível adequado, então você poderá contar com ela ao seu lado por pelo menos alguns anos. Annietta de Ciralis tem ligações com o extremo norte, o que seria vantajoso se um dia decidíssemos explorar melhor aquela região. Ellaeni de Trindor seria uma opção ímpar, definitivamente mais valiosa que uma das garotas provincianas, já que é a única representante atual da frota de Mynaria. Mas não está aqui há muito tempo e provavelmente não ficará. – Hilara apontou cada garota: uma morena bem-vestida que conversava com várias outras moças perto de uma fonte, uma ruiva bonita que examinava pedras preciosas com minha irmã, e uma jovem com os cabelos mais pretos e mais lisos que eu já vira, parada sozinha com cara de indecisa.
Mais além de Ellaeni, Amaranthine chamou minha atenção outra vez. Ela
tentava escapar discretamente do jardim, mas alguns passos depois foi interceptada por uma loira disposta a exibir suas joias a qualquer um que lhe desse meio segundo de atenção.
– E há aquelas com as quais você não deve se preocupar – Hilara
concluiu, seguindo meu olhar.
– Obrigada pelas sugestões, milady. – O comentário dela me aborreceu,
embora eu não devesse lealdade alguma a Amaranthine, principalmente quando a dor causada por minhas aulas de equitação me incomodava a cada movimento que eu fazia. Além disso, eu ainda estava chateada com nossa conversa diante da baia de Flicker. Achei que eu finalmente conseguira fazê-la se abrir, e então ela se fechou mais ainda e arranjara um jeito de desaparecer imediatamente depois de cada aula desde então.
– Escolha seus aliados com sabedoria, Alteza – Hilara disse. – Talvez um
dia você consiga superar a perda do melhor aliado que possuía. – Ela se virou e foi em direção aos comerciantes, suas palavras me dando calafrios apesar do sol naquela manhã quente.
– Ela é tão amigável quanto um urso da montanha faminto, não? – minha
irmã disse, aproximando-se enquanto Hilara desaparecia em meio a admiradores ansiosos.
– Todos eles são, a menos que queiram algo – resmunguei.
Alisendi me lançou um olhar saído diretamente do repertório da minha mãe de Olhares de Censura para Jovens Damas Malcomportadas. – Você também vai querer algo deles um dia. Faz parte do jogo.
Dei de ombros.
–Vamos lá – Alisendi disse. –Você devia estar se divertindo! Temos que escolher todas as coisas para o seu casamento. Mal posso acreditar que minha irmãzinha será uma mulher casada. – Seus olhos verdes brilhavam com a empolgação que os meus deveriam exibir.
– Também não acredito – falei. O casamento sempre me parecera algo muito distante, e a aliança sempre fora uma certeza. Agora, meu futuro vinha ao meu encontro mais rápido que nunca, e a morte de Cas e o problema que isso representava haviam abalado minha fé na aliança.
– Você tem sorte. O Príncipe Thandilimon é muito bonito. E esses guardas de Mynaria… – Ela lançou um olhar nada sutil ao traseiro de um vassalo quando ele passou pela festa.
– Não creio que você disse isso. – Às vezes, eu achava impossível que minha irmã e eu fôssemos da mesma família. Se não fosse pelo fato de que olhar para ela era como olhar para um espelho distorcido que mostrava uma versão mais alta e mais bonita de mim, nós duas com os cabelos de nossa mãe e os olhos de nosso pai, eu teria sérias dúvidas sobre nosso parentesco.
– Ainda está à espera de Olin? – ela provocou. Ali sempre zombara de mim porque eu não me interessava por nenhum garoto em nossa terra natal. Seus interesses românticos mudavam mais rápido que o vento em uma nevasca, mas eu não via sentido em sonhar com qualquer outro rapaz se sempre estivera prometida a Thandilimon. Em dado momento, eu estava tão cansada de suas provocações que escolhi um ao acaso: Olin, o filho do padeiro. Mas depois de um tempo ficou claro que meu suposto romance estava condenado quando Olin começou a cortejar Ryan, um dos escudeiros mais bonitos por quem Ali tinha uma quedinha.
Felizmente, fui poupada de mais zombarias quando outras jovens da nobreza se aproximaram de nós para disputar minha atenção. Mas as garotas sempre ficavam de ouvido em Hilara, deixando claro que queriam agradá-la tanto quanto a mim. Com o poder político de Hilara, ela bem que poderia ter sido rainha, e cair nas minhas graças provavelmente era apenas uma estratégia que as garotas usavam para impressioná-la. Minha irritação aumentou e minhas mãos formigaram em um aviso enquanto a magia se agitava dentro de mim.
– Está uma manhã quente, não é, Sua Alteza? – alguém disse. Atrás de
uma mesa lotada de tapeçarias intrincadas estava um homem baixinho e gordinho com uma barba de formato elaborado que terminava pontuda sob seu queixo. Ele sorriu e revelou dentes com pontas prateadas. – Seu gelo derreteu – ele disse, indicando meu copo. Suas palavras tinham um sotaque vagamente familiar.
– É mesmo – falei. Aquela observação não seria nada de mais, só que um
servo havia acabado de me entregar a bebida. A energia que corria pelos meus dedos me dizia exatamente por que o gelo tinha derretido tão depressa.
– Achei que você tivesse isso sob controle – Alisendi sussurrou. Todo o
bom humor desapareceu de seu rosto e foi substituído por preocupação.
– E tenho – falei. – Está tudo bem. – Era como se meus nervos
estivessem em chamas. Eu precisava me acalmar. Alisendi e eu voltamos à mesa do comerciante, deixando que as outras garotas fossem para o estande seguinte.
Ali perto, Amaranthine havia escapado da loira e conversava com um dos
guardas sob uma arcada. Ela gesticulava desenfreadamente, e dizia alguma coisa que fazia o pobre vassalo corar. Como ela podia ser tão amigável com um vassalo aleatório e tão fria comigo fora das aulas era algo totalmente desconcertante – e enervante. Quando eles terminaram de rir, ela apertou o braço dele com carinho ao se despedir e saiu de fininho da festa.
Ela nem veio me dar um oi.
A magia surgiu nas pontas dos meus dedos e o canto de um dos
mostruários de madeira do vendedor de tecidos começou a pegar fogo.
Alisendi deu um suspiro de espanto e agarrei sua mão, sinalizando que
engolisse qualquer palavra que estivesse prestes a sair de sua boca. Mas antes que uma de nós pudesse dizer algo, o homem de barba do outro lado da mesa mexeu os dedos quase imperceptivelmente e uma lufada de ar apagou a chama, levando a fumaça para longe com a brisa.
Olhei para ele surpresa.
– Mestre Karov, da Sigil Importações – ele se apresentou. – Importamos
os mais finos tecidos de todos os Reinos do Norte. – Ele me examinou com olhos aguçados e com um sorriso astuto, ajustando a tapeçaria de modo a cobrir o canto danificado do mostruário.
Engoli em seco.
– Princesa Dennaleia de Havemont, a serviço da Coroa e dos Seis. – Apelar para os bons modos e para a formalidade pouco serviu para acalmar meus nervos à flor da pele, mas eu não sabia mais o que fazer. Minha irmã também se apresentou, com o rosto ainda lívido de assombro.
– É uma honra conhecer duas damas tão adoráveis. Teriam interesse em uma tapeçaria? – Karov disse.
Meu olhar deslizava por suas mercadorias enquanto eu tentava controlar meu pânico. Se ele dissesse a alguém que eu havia gerado aquelas chamas, nem Amaranthine nem Hilara seriam meus maiores problemas. Mas ele também usara magia para apagar o fogo, então obviamente não poderia me entregar sem incriminar a si mesmo. Ainda assim, tal raciocínio não serviu para acalmar meus nervos.
Para recuperar a calma, busquei na memória o que eu sabia sobre tapeçaria e tentei examinar as mercadorias com um olhar mais crítico. Tapeçaria era uma arte principalmente do extremo norte, e minha mãe possuía uma vasta coleção delas, que isolavam o castelo dos ventos brutais do inverno em Alcantilada. Como esperado, muitas das tapeçarias de Karov tinham cavalos como tema, retratando cenas de caçada e batalha. Embora ele tivesse em sua mesa diversos estilos, que evidentemente vinham de partes diferentes dos Reinos do Norte, cada tapeçaria era produzida com esmero e com a mais alta qualidade.
– Esta foi feita em um tear horizontal? – perguntei, correndo os dedos pela borda de uma tapeçaria pequena mas complexa que retratava as montanhas de minha terra natal. Um azulão da montanha voava solitário no topo da imagem, vibrante contra a paisagem gélida.
– Você tem um olho bom, milady – disse Karov. – Todos os nossos produtos vindos do norte são produzidos em teares horizontais, visando à obtenção do maior nível possível de detalhes.
Examinando a imagem com mais atenção, franzi a testa. Havia algo errado com a montanha, pelo menos da perspectiva de Havemont. Do ponto de vista de Alcantilada, havia picos agudos cercando o Monte Verídico, não montanhas ondulantes como aquelas ao fundo da tapeçaria. Mas o perfil assimétrico da montanha era inconfundível, ainda que um pouco deformado.
– De onde veio esta? – Alisendi perguntou, apontando a tapeçaria.
– Do nordeste – ele disse com um sorriso.
Minha irmã e eu trocamos olhares. Só um lado da montanha era ondulado