Fogo & Estrelas
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
daquele jeito, e não era o lado de Havemont.
Era Zumorda.
E agora que eu sabia disso, o sotaque dele também era inconfundível.
Vendo o reconhecimento surgir em meu rosto, ele apenas deu um tapinha na tapeçaria, escondendo o queimado em seu mostruário, e sorriu.
Mais uma ameaça.
– Quanto quer por ela? – perguntei. Talvez se eu gastasse o suficiente
naquela barraca pudesse comprar o seu silêncio.
– Para você, Sua Alteza? É um presente. – Ele tirou a tapeçaria do
mostruário, enrolou-a e a amarrou com uma fita grossa de seda. – Venha nos visitar novamente. Temos muitos outros produtos que podem lhe interessar.
Enfiei a tapeçaria debaixo do braço, agarrei Alisendi e me afastei
depressa. Quando havíamos quase alcançado as outras damas da nobreza, lancei um olhar nervoso para Karov, bem a tempo de ver Hilara se aproximar de sua mesa. Moedas trocaram de mãos quando ela comprou alguma coisa, mas com um gesto tão discreto que mal dava para perceber, Karov enfiou uma pequena bolsa dentro da tapeçaria enrolada que entregou a ela por cima de sua banca. Uma nova onda de assombro me dominou. Se eles estivessem mancomunados de alguma forma, aquilo só poderia acabar mal, mas eu não sabia o que fazer com aquela informação. A possibilidade de ter minha própria magia descoberta tornava tudo arriscado demais.
– Que os Seis me ajudem – falei.
Alisendi começou a desenhar o símbolo do deus do fogo na minha frente,
mas segurei sua mão.
– Deus do vento – sussurrei. – O deus do vento é considerado mais
poderoso aqui.
Ela me olhou preocupada, mas obedeceu, e nos unimos novamente ao
grupo de mulheres da nobreza.
Com o sol batendo em minha cabeça enquanto eu me preparava para ir
até o grupo seguinte de convidados, senti uma pontada de inveja de Amaranthine. Ela não tinha que lidar com ameaças veladas de palacianos e de mercadores de Zumorda.Àquela altura, ela poderia estar em qualquer lugar: de volta aos seus aposentos, cavalgando pelas montanhas ou até mesmo na cidade. Ela era livre para fazer o que quisesse, pelo menos até o rei e Thandilimon mudarem de ideia. Embora Thandilimon fosse simpático e Amaranthine sem dúvida fosse difícil de lidar, me incomodava que ele agisse como se soubesse o que era melhor para ela. Uma pessoa orgulhosa como Amaranthine nunca se curvaria a ninguém, fosse seu irmão, seu pai ou um marido. Não era de sua natureza.
E com tudo que dera errado desde a minha chegada, eu começava a me perguntar se seria da minha.
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DEZ
Minha agenda finalmente coincidiu com a de Nils algumas semanas após o funeral de Cas, então escapamos do castelo e fomos até a taverna Barbela. Eu não tinha muito tempo entre a aula de Dennaleia à tarde e uma apresentação idiota de música naquela noite, mas era melhor que nada.
A cidade mudara desde a última vez que eu havia saído do castelo. Os comerciantes mantinham as janelas fechadas, e os desconhecidos na rua evitavam contato visual. Quase todos os edifícios pareciam marcados com o círculo branco dos Dissidentes. Alguns círculos tinham barras pretas atravessadas – a marca dos fundamentalistas que se opunham aos Dissidentes.
Ao entrarmos na taverna, abrimos caminho até uma cabine isolada e distante das mesas apinhadas próximas ao balcão, esperando evitar as brigas. Coloquei uma moeda ruidosamente sobre a mesa, e logo uma atendente quase sem dentes a substituiu por duas canecas gastas de cerveja.
Nils fez uma careta depois do primeiro gole.
– Esta coisa tem gosto de xixi de cavalo, como sempre.
– Não quero nem saber com base no que você conseguiu fazer essa comparação – falei. A cerveja não era tão ruim assim: tinha um gosto simples perfeito para um dia de calor infernal, e a Barbela tinha uma adega funda o bastante para manter a bebida bastante fria.
– E então, qual é o plano? – Nils perguntou.
– Observar. Esperar. Beber a maldita cerveja – respondi. Com sorte, algumas respostas chegariam a nós se ficássemos de orelha em pé, mas acima de tudo eu estava feliz por ter saído do castelo. Entre palacianos paranoicos e guardas extras por todo lado, eu já estava cansada de ser observada o tempo todo.
– E o que pretende fazer com as informações que obtivermos? Considerou falar com seu pai ou irmão?
Balancei a cabeça.
– Só se eu descobrir algo persuasivo o bastante. – Isso não é só sobre Cas, Mare. É uma chance de obter uma vantagem
junto a eles que poderá ajudá-la no futuro. – Ele chutou meu pé sob a mesa.
– O que quer dizer? – perguntei.
– Estou perguntando o que você pretende fazer da sua vida. Já pensou
nisso? Tenho certeza de que o rei e seu irmão já pensaram. Por que você acha que seu pai a exibe diante de fileiras de nobres toda vez que você participa de fato de um jantar sentada à mesa real?
– Para que eu fique longe de seu caminho. – Eu me encostei no espaldar
da cadeira, incomodada com aquele tipo de interrogatório. – Ele não se importa com o que eu faça, contanto que não interfira em nada realmente relevante.
– Não. É para fazer você se casar com a primeira pessoa que demonstrar
interesse.
– Eu tenho escolha com relação a isso. – O que Nils dissera era verdade,
mas eu não queria admitir.
– Isso é o que você diz, mas ele poderia tornar sua vida um inferno tão
grande que casar iria parecer a melhor opção em comparação com qualquer coisa que ele obrigasse você a fazer. É como treinar um cavalo: faça com que a coisa certa pareça fácil, e a errada, difícil.
– Quem disse que casamento é a coisa certa para mim? Só porque todos
estão fazendo seus cavalos saltarem da ponte não significa que eu tenha que fazer o mesmo. – Embora eu confesse que treinaria com prazer Flicker para fazer tal coisa se isso significasse evitar o casamento com algum idiota escolhido por meu pai.
– É uma analogia. Seu pai deve ter algo planejado para você,
principalmente agora que a Princesa Dennaleia está aqui e que o papel de Thandilimon mudará. Isso afetará você também.
Respirei fundo e soltei o ar devagar.
– Tudo bem. Você tem razão. Mas não tenho a menor ideia do que fazer.
Não vejo saída.
– Você é mais esperta que todo o Conselho junto. Vai pensar em alguma
alternativa. – Ele esticou a mão e apertou meu antebraço com firmeza.
– Tudo que posso fazer por enquanto é manter os olhos abertos para ver
se descubro o que eles planejam – falei. – Lorde Kriantz me convidou para uma apresentação musical hoje à noite. Eu estava pensando em encontrar uma desculpa para não ir, mas talvez seja uma oportunidade para descobrir o que meu irmão e meu pai andam tramando.
– Já é um começo. – Ele assentiu.
– Mas não me ajuda a decidir meu futuro. – Eu precisava escapar da minha família. Devia haver um jeito de fazer isso sem ter que me amarrar a alguém de quem eu não gostava nem no qual via utilidade.
– A princesa precisa ser treinada, e isso fará você ganhar tempo. Ou você pode simplesmente facilitar as coisas e se casar logo. – Ele piscou para mim de forma insinuante.
– Nils!
– Brincadeira, brincadeira – ele disse. – Embora fingir que se casou comigo talvez funcionasse, se eu não trabalhasse no palácio. Arranjar um casamento falso sob tantos olhares atentos seria complicado.
– Se é para arranjar um casamento falso, prefiro que seja com uma mulher – falei. – Pelo menos ninguém poderia questionar a legitimidade da união com base na falta de filhos. – Independentemente do quão vago fosse meu projeto de vida, passar meio ano longe da sela para ter um bebê definitivamente não fazia parte do plano.
Nils virou sua caneca de boca para baixo para indicar que queria outra bebida e buscou com os olhos nossa atendente pelo salão. Ela estava esparramada no colo de dois homens que pareciam nunca ter tido motivos para tomar banho, rindo enquanto um deles jogava moedas em seu decote.
– Parece que vai levar a noite toda até eu conseguir mais uma bebida – Nils resmungou.
– Há outro jeito de conseguir uma – falei, e fui em direção ao balcão antes que Nils me convencesse a não ir. De todo modo, o canto em que estávamos sentados era tranquilo demais.
– Que os Seis nos ajudem – ele disse e veio correndo atrás de mim. Os fregueses do fim de tarde próximos ao balcão ainda não estavam descontrolados, mas estavam quase terminando seus jarros de bebida.
– … essa escória adoradora de magia vai acabar com nosso reino – vociferou um homem de barba. – Ouvi dizer que a flecha que matou Lorde Casmiel estava enfeitiçada. Se aqueles desgraçados nojentos dos Dissidentes conseguem enfeitiçar flechas para que cheguem mais longe e acertem o alvo, devem estar tramando uma guerra aqui mesmo em nossas ruas!
O público à volta dele murmurou concordando. Havíamos cruzado com
um grupo de fundamentalistas. Pedi mais duas canecas de cerveja e fingi ignorar a conversa, na esperança de ouvir algo útil, mantendo minha cabeça baixa como a mulher de capuz que se debruçava sobre sua bebida ao meu lado.
– Deve ter sido magia. Do contrário, os espadas os teriam pegado – disse
um homem mais velho sentado à mesa.
Nils ficou tenso ao ouvir a gíria referente aos vassalos, e pus a mão em
seu braço para acalmá-lo.
– Não é tão difícil assim pegar aqueles amantes de magia – uma mulher
disse. –Todos eles têm aquele ar evasivo. E tinta branca nas mãos.
– Isso, isso! – alguém disse e ergueu sua caneca de cerveja, molhando
metade dos fregueses que estavam à mesa.
– Peguei um deles andando na minha rua ontem mesmo – disse o homem
de barba. – Ele tentou me assustar soltando umas faíscas. Garanti que ele pense duas vezes antes de fazer isso de novo.
O grupo todo riu de um jeito hostil que fez com que eu chegasse mais
perto de Nils.
A mulher ao meu lado girou na direção do homem de barba e puxou uma
faca de serra do cinto.
– Eu estava procurando por você – ela rosnou e enfiou a faca na mão
dele.
O homem guinchou feito um animal. Não só sua mão estava presa ao
balcão encardido, mas também da carne ao redor da lâmina começou a sair fumaça, como se a faca estivesse muito quente. Olhei para aquilo e congelei, apavorada. É claro que eu tinha ouvido falar em magia, mas jamais a vira ser usada daquele jeito.
– Vadia adoradora de magia! – alguém gritou. Os fundamentalistas
viraram sua mesa, mas aparentemente havia aliados da mulher espalhados pelo salão, os quais se juntaram para atacar os oponentes. Era soco para todo lado. Cambaleei e caí sobre Nils, sentindo meu estômago revirar.
– Você matou meu marido, e espero que queime no Sexto dos Infernos –
a mulher vociferou para o homem que esfaqueara.
Ela virou-se para mim e pude ver de relance seus olhos injetados e seus
cabelos curtos e claros antes de Nils me arrastar para longe da briga e por uma porta lateral que dava para um beco sujo. Corri para a rua, consternada porque tínhamos decidido não vir cavalgando. Cavalos como os nossos provavelmente teriam sido roubados do varão de amarração da Barbela antes mesmo que nossas bebidas fossem servidas, mas tê-los ali nos permitiria fugir mais rápido.
–Vamos por ali! – Apontei para outro beco no meio do quarteirão seguinte quando a briga da taverna começou a se estender para a rua atrás de nós. Saltamos por cima de um homem enrolado em trapos, cheirando a urina e cerveja choca e caído inconsciente em frente à entrada. Nils me seguiu a passos largos e então me conduziu pelo resto do caminho através da parte ruim da cidade num ritmo que eu mal conseguia acompanhar; meus pulmões doíam e minha boca estava seca.
– Nós não vamos voltar lá – Nils disse assim que entramos por um dos portões laterais do muro do castelo.
– Hoje não – falei ofegante enquanto marchávamos colina acima até o castelo, ainda abalada por nossa escapada recente. – Mas descobrimos algo importante. E se os Guardas de Elite não conseguiram determinar de onde partiu a flecha que matou Cas porque havia magia envolvida? Podemos ir até os jardins e procurar evidências.
– Eu devia ser recompensado por fazer companhia a você – ele resmungou.
–Você devia era me agradecer por eu não permitir que você fique entediado – respondi, e atravessei o gramado aparado em frente aos estábulos rumo aos jardins.
Passamos por infinitos arcos adornados com vinhas trepadeiras e topiarias elegantes por todo o caminho até os fundos do castelo. Olhando para cima, na direção da janela do escritório de Cas assim que entramos no átrio mais próximo do jardim, trombei com alguém parado no caminho.
A Princesa Dennaleia recuou e ajeitou as saias, claramente embaraçada.
– Desculpe – ela disse, examinando minhas roupas imundas de camponês com ar desconfiado.
– O que faz aqui? – perguntei. Até onde eu sabia, ela deveria estar longe dali, fazendo alguma coisa sem graça na corte naquele momento.
– Procurando respostas – ela disse com um semblante sério. – No entanto, não posso dizer que esperava encontrar alguém aqui.
Dei um sorriso malicioso ao pensar em seu golpe sutil no Conselho, impressionada que ela fosse corajosa o bastante para investigar a morte de Cas por conta própria. E apesar dos meus enormes esforços para evitar ser amistosa demais com ela, me emocionava saber que ela se importava com ele.
– Este é Nils – apresentei-o. – Ele me mantém longe de encrenca. Ou se
mete em encrenca comigo.
Nils inclinou-se e deu a Dennaleia seu sorriso mais charmoso – aquele
que derretia o cérebro da maioria das mulheres.
– Prazer em conhecê-lo – ela replicou, e então voltou a examinar a janela
de Cas, seu olhar indo da janela para um pedaço de papel em sua mão.
Quase ri diante do semblante confuso de Nils. Ele não estava acostumado
a ter mulheres achando outras coisas mais interessantes que ele.
– Então, como diabos alguém acerta uma flecha em uma janela do
segundo andar daqui de baixo? – perguntei.
– Os únicos locais de que se pode atirar são de cima do muro do jardim
ou do telhado daquele galpão – Nils disse.
Dennaleia balançou a cabeça.
– O ângulo não está certo. Lorde Casmiel teria que estar de pé bem em
frente à janela. E ele não estava.
Então me lembrei que Dennaleia fora a primeira pessoa a vê-lo morto. – Então qual deve ter sido o ângulo?
– Calculei a trajetória em algum ponto entre dez e quinze graus – ela
disse. – Mas se esse for o caso, o disparo não pode ter sido feito deste jardim. Nenhuma das estruturas é alta o bastante. – Ela nos mostrou seu papel, que continha um diagrama detalhado do jardim e da janela… e cálculos suficientes para fazer minha cabeça doer.
– Bem, sabemos que os Dissidentes são capazes de enfeitiçar armas –
falei, tremendo ao lembrar da faca que queimava. – Supondo que a flecha estivesse enfeitiçada, o que mais haveria no caminho que você projetou?
Nós três examinamos a área e paramos ao mesmo tempo em uma árvore
alta dois jardins adiante.
– É longe demais para que o assassino pudesse alvejar – Nils disse. – O
arqueiro não conseguiria vê-lo pela janela.
– Talvez ele não precisasse ver se houvesse magia envolvida – falei. Atravessamos depressa os jardins até a base da árvore. – Ali – Dennaleia determinou, apontando para os galhos. Havia um pequeno círculo branco pintado no tronco, tão alto que mal
dava para vê-lo.
–Vou informar a capitã – Nils disse. – De todo modo, preciso me preparar para assumir meu turno.
– Não diga a ela que eu estava aqui – Dennaleia e eu falamos ao mesmo tempo.
Nils riu.
– O segredo de vocês está a salvo comigo.
– Não quero Ryka me interrogando – falei. Ela certamente ia querer saber como fizemos aquela descoberta, e eu não queria que ela soubesse que escapamos por pouco da briga na taverna Barbela.
– Algumas damas da nobreza me convidaram para uma sessão de chá e bordado, mas eu disse a elas que não estava me sentindo bem, então vim aqui para baixo – Dennaleia admitiu encabulada. – E Thandilimon disse para eu não me preocupar com coisas que dizem respeito ao Conselho…
Talvez eu a tivesse subestimado.
– No que depender de mim, você não vai se meter em apuros por quebrar as regras. – Dei de ombros. – Mas tem mais uma coisa que não entendo. Se os Dissidentes estão apanhando na cidade, sendo mortos até, por que deixariam indícios que poderiam implicá-los na morte de Casmiel? – Aquilo não fazia sentido. Nenhum assassino era idiota o bastante para deixar sua marca. Por que um grupo rebelde pequeno como os Dissidentes se arriscaria a ser perseguido pela Coroa?
– Isso me faz pensar que talvez haja mais alguém envolvido – Dennaleia disse.
– Ou outro reino – falei num tom grave. Talvez Zumorda estivesse se rebelando, no fim das contas.
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ONZE
Amaranthine irrompeu na sala de estar meia hora depois que a sobremesa havia sido servida. O quarteto de cordas já havia começado a tocar, e os músicos pararam confusos entre as peças que executavam, esperando um sinal para continuarem. Só os Seis sabiam onde ela se metera desde que eu a vira no jardim mais cedo.
– Ah, Sua Alteza. Que gentileza a sua se juntar a nós – Lorde Kriantz disse a Amaranthine. Ele se levantou e a acompanhou até uma espreguiçadeira. Os cabelos dela estavam presos, mas meio desalinhados, e seu vestido estava amarrado tão frouxamente que Auna teria tido um treco só de pensar naquilo. Ainda assim, ela estava adorável, como se tivesse trazido consigo, para dentro da sala, um pouco da noite selvagem de verão. Eu me mexi um pouco na cadeira, ciente demais das barbatanas do espartilho que se enfiavam nas minhas costelas.
– Pelo menos em seus atrasos ela é constante – Thandilimon resmungou, revirando os olhos.
Ao lado dele, o rei lançou a Amaranthine um olhar que teria feito uma armadura derreter.
Olhei para Alisendi, que apenas ergueu as sobrancelhas.
Quando a música recomeçou, Thandilimon segurou minha mão contra a sua. Embora o gesto fosse atencioso e reconfortante, seus dedos não encaixavam bem nos meus, e minha mão começou a doer antes que o minueto chegasse à metade. Quando a peça terminou de ser executada, fiquei grata aos aplausos, que permitiram que eu tirasse minha mão da dele para demonstrar meu apreço pela música.
Amaranthine também aplaudiu, o barão se inclinando para sussurrar algo em seu ouvido. Lorde Kriantz tocava o lado interno de seu anel com o dedão enquanto eles conversavam. Ela ria. De algum modo, uma frase dele fora mais envolvente que tudo que eu havia dito a ela. Eu queria que ela gostasse de mim, mas nada que eu fazia parecia adiantar, nem mesmo ter encontrado o símbolo dos Dissidentes no jardim. A frustração ardia em meu estômago, e um formigamento perigoso subiu pelas pontas dos meus dedos.
– Está tudo bem? – Alisendi perguntou.
– Oh, sim, claro – respondi, amaldiçoando mentalmente sua capacidade
de perceber minhas mudanças de humor.
–Você está de cara feia desde que minha irmã chegou – o príncipe
observou.
– Desculpe, Thandilimon – falei. – Acho que ver a Princesa Amaranthine
me fez lembrar do quanto estou dolorida por causa das minhas aulas de equitação.
– Não precisa se desculpar. E, por favor, me chame de Thandi, como o
resto da minha família me chama. Em breve seremos uma família. – Ele sorriu.
Consegui retribuir o sorriso, grata pela familiaridade que seu apelido
oferecia.
– Pelo menos Mare está fazendo companhia a Lorde Kriantz. – Thandi
fez um gesto respeitoso com a cabeça na direção do barão. – Sinto muito pelo sofrimento dele, mas quem sabe ele a encoraje a fazer algo útil pela Coroa. Ele tem sido de excelente ajuda ao Conselho.
Afastei Amaranthine de meus pensamentos e aproveitei a oportunidade
para perguntar algo que eu realmente queria saber.
– O Conselho ainda está investigando o que aconteceu com Casmiel? Um lampejo de tristeza passou por seu rosto.
– Sim. Capitã Ryka estava procurando evidências no jardim hoje. Não
quero aborrecê-la com detalhes desses assuntos chatos.
Eu provavelmente sabia mais sobre aquele assunto que ele. – Mas acho os assuntos do Conselho muito interessantes, e bem
importantes para o reino. Se eu puder ajudar de alguma forma, ficarei feliz em fazê-lo – falei. Quem sabe ele me desse uma chance de fazer algo útil, e mostrar que meus anos de estudo tinham valido a pena. Desde a morte de Casmiel, ninguém havia me pedido para fazer nada relevante.
– Com certeza isso só lhe deixaria estressada. Mas agora que Cas se foi,
seria bom termos uma pessoa ajudando a cuidar da correspondência real. Falarei com alguém a respeito disso assim que tiver uma chance, se você estiver procurando algo para fazer. – Ele deu um tapinha na minha mão e sorriu, parecendo satisfeito consigo mesmo.
– Talvez – falei desapontada. Pelo menos Amaranthine usara meus cálculos.
Minha irmã acenou com a cabeça de forma encorajadora, e percebi que ela concordava com ele. Qualquer forma de servir ao reino valia a pena. Embora ele tivesse pedido minha opinião às vezes, até o momento Thandi não demonstrara nenhum indício de que pretendia me preparar para ocupar uma cadeira no Conselho ou contribuir com a discussão política de forma significativa. Se usar a coroa me desse poder, eu queria usar esse poder para fazer do mundo um lugar melhor, não para planejar festas no jardim e leituras de poesia e para escrever cartas. A ideia de me ver enfiada em um escritório em algum lugar do castelo para cuidar da correspondência em nome da Coroa não era particularmente atraente, mas, se fosse necessário, era isso que eu faria.
Suspirei e virei a cabeça na direção do quarteto de cordas, me preparando para mais uma música chata da corte. Antes que eu terminasse de expirar, vi algo estranho no meu campo de visão periférico. Um criado desconhecido passou por trás de nós, andando mais depressa do que sua tarefa exigia. Algo naquilo me fez esticar a mão, nervosa, em direção ao braço de Thandi, mas antes que eu o tocasse o criado puxou uma adaga de sua bota e lançou-se contra o rei.
– Cuidado! – gritei, mas já era tarde.
O guarda pessoal do rei desembainhou sua espada e o protegeu, evitando rapidamente a lâmina do assassino, que cortou o ar. Thandi me empurrou da cadeira e me fez ir na direção da porta. Tropecei e cambaleei para longe dele, meus joelhos doendo quando atingi o piso de pedra. Contas saltaram do meu vestido e se espalharam feito granizo enquanto eu engatinhava para longe, seguindo minha irmã até a parede.
Eu me virei quando chegamos ao canto da sala e me agarrei a Ali. O assassino errara seu alvo e estava encurralado perto da lareira vazia. Ele rosnava frustrado ao encarar o guarda do rei – o único vassalo que estava na sala conosco. Desta vez, um golpe rápido do assassino atingiu o guarda, e o vassalo foi ao chão com sangue espirrando de um talho em seu pescoço. Meu corpo todo tremia. Não havia nada que eu pudesse fazer, nenhum jeito de escapar. Alguns homens da nobreza começaram a esmurrar as pesadas portas de madeira ao nosso lado, mais interessados em salvar suas próprias vidas que a do rei. As portas estavam trancadas e bloqueadas pelo lado de fora. Alguém havia se voltado contra nós. Eu não imaginava quem.
Lorde Kriantz era a exceção em meio ao pânico que dominou a todos.
Ele deslizou na frente do rei feito uma sombra, e Thandi e Amaranthine foram se posicionar ao seu lado. Um gosto ácido encheu minha boca quando o assassino investiu contra Lorde Kriantz, que se esquivou por pouco do golpe. Mudei de posição para proteger Alisendi. Se apenas uma de nós saísse viva dali, teria que ser ela. A magia ardia em meu peito. Eu a reprimi e pedi ao deus do fogo que tivesse piedade e me desse forças para controlar aquela energia.
O assassino atacou mais uma vez, e sua lâmina acertou o braço de
Thandi. Um grito escapou dos meus lábios quando Thandi cerrou os dentes e puxou o braço para a lateral de seu corpo. Amaranthine retaliou, chutando as pernas do assassino, mas ele se esquivou e se lançou contra o rei novamente. Lorde Kriantz usou seu antebraço para impedir o golpe do assassino com a graça e a agilidade de uma cobra. Atrás do rei, um lampião a querosene explodiu, lançando vidro e fagulhas sobre todo mundo. Eu estava perdendo o controle.
– Faça alguma coisa! – Alisendi sussurrou.
O assassino atacou Amaranthine, atingindo o ombro dela com sua
lâmina. O grito de dor desencadeou mais uma descarga irrefreável de magia. Por mais que ela parecesse não gostar de mim, imaginar uma pessoa tão corajosa quanto ela abatida em uma sala fechada sem ter direito a uma luta justa me fez ferver de raiva. A magia explodiu sem que eu pudesse controlá-la.
O assassino pegou fogo de dentro para fora no exato momento em que
uma lâmina curta saiu de dentro da manga de Lorde Kriantz e entrou na garganta do sujeito. Seu corpo inchou e cresceu até o sangue irromper de debaixo de sua pele escurecida e rachada, suas vísceras se incendiando assim que atingiram o ar. Enquanto as chamas o consumiam, a magia saiu de meu corpo num segundo, deixando-me fraca. Eu me aconcheguei a Ali. Pálida e trêmula, ela me abraçou.
– Mas o que… – Amaranthine se afastou aos tropeços do corpo
carbonizado enquanto Lorde Kriantz se adiantava para abafar as chamas restantes com uma tapeçaria que tirou da parede.
Engasguei quando o cheiro de carne queimada e tapeçaria chamuscada
fizeram meus olhos e minha garganta arderem. Passos ecoavam no corredor enquanto as portas eram finalmente abertas. Os vassalos irromperam na sala com espadas nas mãos.
– Traga a capitã da guarda imediatamente – o rei rugiu. – Ele agarrou a espada de um dos guardas próximos e a brandiu ao sair pisando duro pela sala. – Alguém vai pagar por isso!
– Sim, Sua Majestade. – O vassalo-chefe sinalizou aos demais que baixassem suas espadas e que começassem a escoltar as pessoas até um lugar seguro. A sala se esvaziou lentamente, com alguns dos presentes indo embora o mais rápido que os vassalos lhes permitiam, outros se demorando e esticando o pescoço para o corpo fumegante que jazia no chão.
– Sua Alteza, você está bem? – Um vassalo estendeu a mão para me ajudar a me levantar e então ajudou Alisendi. Mesmo com o auxílio dele, eu mal podia confiar em minhas pernas trêmulas. O vassalo nos levou até onde estava Thandi, que apertava o corte em seu braço, cerrando os dentes de dor. Amaranthine estava do outro lado dele, e não parecia incomodada com o sangue que escorria do corte em seu ombro através do rasgo no vestido.
– O que diabos aconteceu? – Thandi perguntou.
– Você foi atingido – Amaranthine respondeu. – Deixe-me ver o corte. – Ela esticou a mão na direção do braço de Thandi.
– Não. Os curandeiros podem cuidar disso. – Ele puxou o braço para longe dela.
– Ou você pode me deixar cuidar disso para que não sangre até morrer antes que eles cheguem aqui – ela disse rispidamente. Ela afastou os dedos de Thandi da ferida e ele se encolheu quando a irmã arrancou o tecido do corte com um puxão.
– Ai!
– Não está tão ruim. – Ela rasgou um pedaço da manga de seu vestido e amarrou o tecido apertado em volta do braço dele acima da ferida. Assim que ela terminou, Thandi puxou o braço de volta e o segurou de forma protetora. Amaranthine lançou a ele um olhar de desgosto.
Eu estava simplesmente aliviada por os dois estarem inteiros. Graças aos Seis eu não havia incendiado nenhum deles. Se eles ou Alisendi tivessem se machucado por minha culpa, eu iria ao Grande Templo e me entregaria aos sacerdotes dizendo que era uma herege, para que eles fizessem comigo o que julgassem mais adequado.
– Lorde Kriantz! – Amaranthine gritou no corredor.
– Sim, Sua Alteza? – O barão veio a passos largos em nossa direção, afastando-se dos dois vassalos com quem estivera conversando.
– Sua faca – Amaranthine disse. – É uma lâmina encantada?
– Não que eu saiba, milady.
Abraçando a mim mesma com firmeza, espiei a sala às minhas costas. Ao
ver o cadáver carbonizado caído perto da cadeira, eu me dobrei sentindo meu estômago se revirar. Se alguém descobrisse que fora eu quem incendiara o assassino, seria o meu fim. Não importava que eu não soubesse explicar como aquilo havia acontecido, para início de conversa. Desde a minha chegada, minha magia estava ficando cada vez mais incontrolável. Segundo minha mãe, aquilo deveria diminuir com o passar do tempo, não aumentar. Ainda assim, de algum modo eu acabara de matar um homem.
– Não que você saiba? Então de onde diabos veio aquele fogo? –
Amaranthine perguntou.
Alisendi apertou meu braço, mas eu ignorei.
– Suas suposições são tão boas quanto as minhas. Minha lâmina foi
forjada em Sonnenborne. Preferimos usar aço simples a magia – Lorde Kriantz disse.
Amaranthine franziu o cenho. Ela ia começar a dizer algo, mas em vez
disso fechou a boca, contraindo os lábios numa pose pensativa. Seu olhar se voltou para mim.
Tremi sob seu olhar inquiridor, temerosa de que, de algum modo, ela
percebesse a verdade.
– Você está bem? – Amaranthine me perguntou. – Não me sinto bem – falei. Minha cabeça girava e meu corpo ameaçava
ir pelo mesmo caminho.
– Leve-a para os seus aposentos – ela ordenou a um vassalo que estava
por perto.
Eu me apoiei na parede, grata pela atitude de comando de Amaranthine. – Vou junto para garantir que ela fique bem – Alisendi disse com a voz
trêmula.
O vassalo meneou a cabeça para Amaranthine e nos conduziu para longe
daquela cena. Manchas escuras flutuavam nas bordas do meu campo de visão enquanto caminhávamos.
Quando as portas dos meus aposentos se fecharam às nossas costas de
modo seguro, Alisendi se jogou em uma das poltronas e apoiou a cabeça nas mãos.
– Isso é muito pior do que eu pensava – falou. – Se alguém descobrir que
foi você que…
– Eu sei – cortei-a. – Eu não tinha a intenção de fazer nada daquilo. Tem sido diferente desde que cheguei aqui.
Ali mordeu o lábio, como sempre fazia quando havia algo que ela não queria me contar.
– O que foi? – perguntei.
– Nada. Mas a situação em Havemont não anda nada boa desde que você partiu.
– O que quer dizer? O que isso tem a ver com o que aconteceu aqui esta noite? – Eu não podia acreditar que ela vinha escondendo coisas de mim. Costumávamos contar tudo uma para a outra.
– Os zumordanos têm brotado feito erva daninha nessas últimas semanas. Eles estão por todo lado, se reunindo para protestar por terem sido banidos do Grande Ádito.
– Mas por quê? Bani-los nem fazia parte dos termos originais da aliança – falei. – Todos aqui parecem achar que fazia, mas por que não sabíamos disso?
– Examinei os decretos originais. O texto é vago – Ali disse. – Dez anos foi tempo suficiente para eles acharem brechas. Agora estão surgindo grupos que acreditam apenas nos Seis, que têm certeza de que os usuários de magia nos atacarão.
– A mesma coisa está acontecendo por aqui – falei baixinho. Eu não conseguia conciliar meus temores, tanto por meu reino quanto por mim mesma.
– Se alguma coisa acontecer com a aliança agora, não teremos os vassalos de Mynaria para conter o povo de Zumorda. Se a união der totalmente errado, Zumorda pode tentar anexar nosso território para impedir uma nova aliança. E, enquanto isso, seus opositores estão ficando mais agitados e violentos a cada segundo que passa. E se alguém descobrir que você tem certo tipo de dom, algo poderoso o suficiente para matar um homem, o que vai acontecer?
– Os dois lados me verão como traidora – sussurrei. – Todos vão querer minha cabeça.
–Você tem que dar um jeito de controlar isso. De se livrar disso – Alisendi disse. – É o único jeito de você estar segura.
Eu me levantei e fui até onde ela estava sentada. Ela mudou de posição sem dizer nada, e eu me encolhi ao seu lado, como costumava fazer quando éramos pequenas, enroscadas uma à outra na mesma poltrona. Ela passou seus braços em volta do meu corpo e deixou que eu chorasse em seu ombro, esfregando gentilmente minhas costas até as lágrimas cessarem.
Mas mesmo depois que minhas bochechas secaram, eu ainda não sabia
como fazer o que ela me pedira. Ela bem que poderia ter me pedido para arrancar meu coração ou parar de respirar.
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DOZE
Em meio ao caos, voltei à sala de estar e peguei a lâmina do assassino
onde ela havia caído. A pesada adaga era adornada apenas por um pomo branco simples e tinha a empunhadura e o gume de algo bem-feito.
– Parece coisa do povo de Zumorda – Lorde Kriantz disse por cima do
meu ombro.
– É mesmo? – Eu me virei para ele. – Como sabe disso? – O estilo é parecido com o que vi em Kartasha anos atrás – ele
respondeu, limpando o sangue e a fuligem de sua própria faca.
– Posso ficar com isso, Sua Alteza. – Um vassalo que mal parecia ter
idade para usar farda se aproximou e estendeu a mão para pegar a lâmina de mim.
– Acho que não. – Puxei a mão para longe dele e dei um passo para trás,
quase trombando com Lorde Kriantz.
O vassalo continuou estendendo a mão.
– É muito afiada, Sua Alteza. Não deveria…
– Ah, dê o fora! – falei, perdendo a paciência.
O jovem vassalo arregalou os olhos e depois me olhou com cara feia. – A capitã estará aqui em instantes – ele disse. – Eu lhe entregarei quando ela chegar – menti. Eu não tinha a intenção de
entregar a faca. Não até que me obrigassem. A lâmina poderia me levar ao assassino de Cas, fosse ele de Zumorda ou de outro lugar. Conhecendo o Conselho, eu sabia que eles apenas discutiriam por um tempo e depois deixariam a faca em alguma gaveta, pegando poeira.
– Ajudarei a fazer com que a lâmina chegue às mãos apropriadas – Lorde
Kriantz se intrometeu.
Olhei para ele zangada, mas a combinação de nossas palavras teve o
efeito desejado.
– Tudo bem – disse o vassalo. – Faça isso. – Ele deu meia-volta e se
afastou.
Fiz uma careta para as costas do vassalo enquanto ele se distanciava. Assim que sumiu de vista, troquei a posição da lâmina na minha mão, encostando-a na parte de dentro do meu punho e pressionando o braço contra as dobras da minha saia. Com a faca suficientemente escondida, voltei ao corredor. Lorde Kriantz me seguia de perto.
Passei por vassalos e nobres que se demoravam no caminho, movendo-me do modo mais natural possível para não chamar a atenção. Pouco antes de me livrar daquelas pessoas, Lorde Kriantz falou.
– Posso acompanhá-la aos seus aposentos? – ele perguntou.
Hesitei um instante, mas companhia parecia uma boa ideia naquela situação, e quanto antes eu sumisse dali, menores as chances de ser pega pela Capitã Ryka. Talvez ter Lorde Kriantz como acompanhante diminuísse a probabilidade de ser seguida.
– Tudo bem – falei. Nós nos afastamos a passos largos da multidão até que suas vozes ficassem para trás.
– Importa-se que eu dê uma olhada em sua faca? – perguntei assim que alcançamos distância suficiente das pessoas para não sermos ouvidos.
– Claro que não, milady. – Ele puxou a pequena faca da bainha da manga e a entregou a mim enquanto continuávamos andando na direção dos meus aposentos.
– Fabricada em Sonnenborne – resmunguei. Facas não eram nem de longe minha especialidade, mas não havia nada de incomum naquela faca à primeira vista. Era uma lâmina simples, sem adornos, feita claramente com o propósito para o qual fora usada. – Meu pai sabe que você tem andado por aí com essa coisa escondida na manga?
– Não, mas duvido que reclame disso, já que salvei a vida dele esta noite. Nós de Sonnenborne não temos o hábito de sair por aí despreparados. O deserto é inclemente, assim como seu povo. – Ele deslizou a faca de volta para sua bainha oculta, e o mecanismo que a liberava travou a lâmina no lugar.
– Então o que você foi fazer em Zumorda anos atrás? – perguntei. Poucos tinham coragem suficiente para cruzar a fronteira, principalmente para visitar as cidades que ficavam próximas das propriedades dele. Nenhuma delas tinha boa reputação.
– Negociar cavalos. É um dos melhores mercados para os descartes de Mynaria, como você deve saber.
– Certo. – O que ele disse era verdade, mas não esclarecia nada. A
exaustão tomou conta de mim assim que a adrenalina gerada pela briga diminuiu. – Pelo amor dos Seis, estou farta de mistérios e mortes.
– Creio que todos nós estamos – ele disse.
Antes da morte de Cas eu raramente me preocupava com minha
habilidade de tomar conta de mim mesma fora dos muros do castelo, mas foi bom ter outra pessoa comigo nessa noite. Caminhamos em silêncio até chegarmos à porta dos meus aposentos. Os dois vassalos se afastaram para que eu entrasse, e Lorde Kriantz me seguiu.
– Obrigada por ajudar a me livrar daquele vassalo – falei. – E por ter
defendido meu pai. Se você não tivesse… – Por mais conflituosa que fosse minha relação com meu pai, eu não queria que nada de ruim lhe acontecesse. Lorde Kriantz fizera toda a diferença. Todos os outros tentaram salvar apenas a si mesmos, exceto Dennaleia, que estivera ocupada demais se encolhendo em um canto. Quase desmaiar provavelmente era uma lição que constava em seus manuais de como ser uma perfeita dama.
– Sem problema. Fico feliz em ajudar a qualquer momento. Por falar
nisso, é melhor você me deixar dar uma olhada por aqui, para ver se não há outros perigos escondidos nas sombras. – Ele andou graciosamente ao meu redor.
– Acho que ficarei bem – falei. – Os vassalos nunca deixam seus postos. – Como aqueles parados do lado de fora da sala de estar esta noite? – ele
perguntou, afastando as cortinas.
– Tem razão. – Esfreguei as têmporas. – Nada é impossível. Acho que é
melhor verificar do que acabar morta.
Ele andou pelo cômodo mais um pouco, seus olhos escuros vasculhando
cada superfície.
– Acho que está tudo limpo, milady. – Ele se aproximou e pegou minha
mão, passando o polegar pela minha palma. – Você foi muito corajosa esta noite.
– Qualquer imbecil teria feito o mesmo – falei um pouco ríspida, embora
ficasse feliz com seu elogio.
– Discordo. Algumas pessoas aqui parecem sofrer de… inércia. – Falou feito um diplomata – eu disse.
– Falei feito um embaixador – ele respondeu com um sorriso gentil. –
Este não é o meu reino. Não me atrevo a dizer como deve ser governado. No máximo, espero aprender aqui algo que possa ser aplicado em Sonnenborne enquanto desenvolvemos nosso sistema de governo.
– Não precisa ser polido comigo. O Conselho obviamente está mais interessado em jogar esterco uns nos outros do que em fazer algo a respeito da investigação da morte de Cas.
Lorde Kriantz assentiu, mas não disse nada.
– Em todo caso, por que está me ajudando? – perguntei.
– As alianças não se formam apenas de cima para baixo, milady – ele disse. – E estou tão interessado quanto você em descobrir o culpado por esses ataques. Uma ameaça a Mynaria poderia ser uma ameaça a Sonnenborne. Quero garantir que nossos reinos permaneçam seguros.
– Bem, se o Conselho não é capaz de descobrir de onde vem a ameaça, então descubro eu – falei, olhando feio para a lâmina na minha mão. Removendo o sangue das ranhuras com dedos nervosos, virei a lâmina para baixo. Brilhava com força mesmo sob a luz tênue.
– Disso não tenho dúvida – Lorde Kriantz disse. – Preciso ir. Diga se houver mais alguma coisa que possa fazer por você.
– Obrigada, Lorde Kriantz – falei.
– Boa noite, Mare. Cuide-se. – Ele se curvou e saiu do cômodo.
Eu apreciava o fato de ele saber a hora de ir embora. Coloquei a faca sobre minha penteadeira e fui até o sofá. O corte em meu ombro ardeu quando toquei nele com os dedos. O tecido rasgado do meu vestido havia grudado no ferimento. Fiz uma careta ao puxar o tecido, mas a ferida era superficial.
Toquei a sineta para chamar minha aia, Sara. Não era a primeira vez que eu chegava em casa com um corte ou outro tipo de ferimento, e era melhor não fazer os curandeiros perderem tempo com algo que ela poderia tratar. Chamar Nils me parecia mais interessante, mas ele estava trabalhando.
Ouvi batidas na porta.
– Entre, Sara – falei do quarto.
Mas em vez da minha aia, a Capitã Ryka apareceu no vão da porta com quatro guardas da Elite.
– Creio que você saiba o que aconteceu com a arma do assassino – ela disse, olhando duro para mim.
– Eu ia entregá-la a você amanhã – menti, amaldiçoando o vassalo que me dedurara.
Ela balançou a cabeça.
– Conheço você bem demais para acreditar nisso, mas não é hora de
brincadeiras. Cas era meu marido. Não atrapalhe minha investigação… nem minha vingança. – Ela já não me assustava do jeito que fazia quando eu era pequena, mas suas palavras ainda me faziam tremer um pouco.
– Não há evidências de que este ataque tenha relação com o outro – falei. – Isso é problema meu, não seu. Levaremos a faca agora – ela disse. – Não! – Levantei num salto, mas ela pegou a adaga de cima da minha
penteadeira antes que eu chegasse à metade do quarto.
– Se você não se dá ao trabalho de comparecer às reuniões do Conselho,
não se meta com nossos assuntos – ela disse, e saiu marchando, batendo a porta atrás de si.
– Talvez se vocês fizessem alguma coisa, eu não precisasse me meter –
falei, e arremessei um sapato na porta fechada. Talvez eu devesse ter ido atrás dela, mas eu não tinha mais forças para brigar, não nessa noite.
Sem faca para levar à cidade e investigar, meu único recurso restante era
a biblioteca. A ideia de me trancar lá para ficar debruçada sobre livros me fazia chorar de tédio. Eu precisava de outro aliado, de preferência alguém erudito. Alguém que pudesse descobrir detalhes sobre a lâmina e a flecha que pudessem levar à identificação do inimigo verdadeiro. Então percebi de repente que eu já conhecia a pessoa mais estudiosa do palácio: a Princesa Dennaleia. E independentemente de seus desmaios, ela obviamente era sagaz, considerando suas suposições sobre a flecha branca e os cálculos que havia feito para determinar de onde o arqueiro atirara.
Eu não tinha escolha: precisava tê-la ao meu lado o quanto antes.
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TREZE
Comecei a manhã seguinte à tentativa de assassinato na biblioteca real.
As mulheres da nobreza se amontoavam à minha volta, seus vestidos de cores vibrantes farfalhando sobre tapetes felpudos. Thandi sugerira que eu socializasse com outras garotas da alta sociedade antes da partida da minha irmã. Devido aos acontecimentos recentes, ela decidira retornar a Havemont assim que um número suficiente de vassalos estivesse disponível para escoltá-la. Enquanto isso, eu tinha que aguentar o tédio e a frustração de ouvir as outras garotas falando besteiras quando havia tantos assuntos mais importantes a serem tratados.
Naquela mesma manhã eu havia recebido uma carta de minha mãe
enfatizando a importância de estabelecer ligações mais próximas na corte. Depois de algumas palavras de solidariedade referentes à morte de Casmiel, o restante da mensagem tratava da importância da aliança e da minha obrigação em garantir que nossos dois reinos se mobilizassem para enfrentar juntos esse novo e incerto inimigo em comum. A missiva terminava com um lembrete de que eu usasse meus dias de louvor com sabedoria e distribuísse igualmente entre os Seis o tempo que eu dedicava a eles. Eu sabia o que aquilo queria dizer no fundo: que eu precisava manter minhas mãos longe do fogo, por assim dizer.
Pensei que havia escondido meu dom dela durante todos aqueles anos
depois que ela me pegara dentro da lareira. Se ela sabia de algo que eu desconhecia, devia ter me contado antes que cartas formais tivessem se tornado nosso único meio de comunicação. Ela devia ter me dito como controlar a magia antes que eu matasse um homem. Mas por enquanto eu ainda precisava fazer o que ela queria e ser a líder e a embaixadora que meu povo precisava que eu fosse.
Presa entre as outras garotas que disputavam um lugar ao meu lado, eu
me esforçava para dar uma olhada nos livros pelos quais passávamos e ao mesmo tempo manter um ouvido na conversa.
– Estão sabendo que o Conde de Nax vai se casar com aquela provinciana do leste? – a loira à minha esquerda perguntou.
– Não! – Annietta de Ciralis cobriu a boca com a mão, chocada. – Mas ela é tão estranha. Praticamente uma zumordana. E se morar tão perto da fronteira a tiver contaminado com a magia?
– Meu pai diz que ela está fazendo isso para afastar as suspeitas da família dela. Ele acha que são apoiadores dos Dissidentes – disse uma voz vinda do fundo do grupo.
Eu não entendia como elas podiam tagarelar sobre casamento diante da morte de Casmiel e da tentativa de assassinato. Eu preferia não comentar, e em vez disso virava a cabeça para admirar a coleção de livros do rei. Uma luz tênue entrava através de janelinhas perto do topo do teto abobadado, lançando um brilho frio sobre as altas estantes. A largura e a profundidade da biblioteca de Mynaria faziam jus ao seu lugar no centro dos Reinos do Norte. As estantes se erguiam acima de nós à direita e à esquerda, as seções indicadas com placas de madeira meticulosamente entalhadas pelos principais artesãos. Inspirando profundamente, eu me deleitava com o cheiro familiar de tinta e pergaminho.
O grupo de garotas parou na seção de poesia, ansioso para escolher poemas que seriam lidos dali a algumas noites. Elas davam risadinhas ao puxarem livros das estantes, correndo os olhos pelas páginas atrás de frases sugestivas que elas esperavam que chamassem a atenção dos homens ou mulheres que as cortejavam. Pelo menos minha irmã conseguiu se controlar. Eu tinha plena certeza de que ela conhecia de cor todos os poemas mais indecentes, mas sabiamente se comportou com dignidade.
– O que acha deste aqui, Sua Alteza? – A loira arrogante enfiou um livro na minha cara.
Sorri polidamente e peguei o livro de suas mãos.
– Callue é sempre um clássico – falei, devolvendo o livro a ela. Em seguida, as garotas começaram a empurrar umas às outras, tentando pôr as mãos em outro volume de Callue.
Minha irmã revirou os olhos e articulou “Horomir” sem produzir nenhum som, e cobri a boca com a mão para disfarçar um sorriso. Vili Horomir escrevera os poemas mais pornográficos dos Reinos do Norte, cheios de eufemismos pavorosos para as partes da anatomia masculina. Se as garotas queriam poemas sugestivos, deviam ter consultado minha irmã em vez de mim.
Eu me afastei discretamente, me perguntando se algum dia eu me
acostumaria com as pessoas tentando imitar tudo que eu fazia – desde meus vestidos até minhas escolhas de poesia. Só uma garota também se afastou do grupo, sorrindo timidamente para mim. Eu me lembrei dela do bazar de casamento. Ela fora a terceira sugestão de Hilara, a moça acanhada do litoral.
– Olá – falei. – Não acredito que ainda não fomos formalmente
apresentadas.
A garota corou.
– Ellaeni de Trindor, Sua Alteza. – Ela fez uma mesura. – Não está interessada em Callue? – perguntei, mantendo o tom
despreocupado.
– Ah, Callue é legal. Eu… não sei bem o que escolher. Ficar em pé diante
de um monte de gente me deixa nervosa. E a única pessoa a quem eu gostaria de ler está em casa. – Ela abaixou a cabeça e uma cortina de cabelos negros brilhantes cobriu suas bochechas.
– Bem, descobri que fazer as pessoas rirem costuma funcionar bem
nesses casos. Se quiser, posso lhe mostrar alguns dos meus poemas favoritos, de um escritor diferente – falei, empolgada por poder sugerir algo que eu realmente adorava.
– Isso seria ótimo, milady. – Ela se animou.
Passei com Ellaeni pelas outras garotas e fomos até a parte final do
alfabeto, de onde puxei um volume fino e simples da estante e abri o livro.
– Este é um dos meus preferidos. Razkiva escreve principalmente rimas
divertidas sobre animais.
Ela sorriu ao ler o poema.
– É perfeito, Sua Alteza – ela disse.
Infelizmente, não pude ficar muito tempo com Ellaeni por medo de
mostrar favoritismo, mas anotei mentalmente que deveria me relacionar com ela mais tarde, longe das outras. Com sua timidez, parecia que ela precisava de uma amiga. Eu me virei para encarar o grupo e começar minhas rondas quando uma voz alta demais para o ambiente surgiu atrás de mim.
– Aí está você! – Amaranthine disse.
Todas pararam o que estavam fazendo e olharam na nossa direção.
Amaranthine usava seu já conhecido traje de montaria, e sua trança estava apenas um pouco mais bem-feita do que parecia sempre estar às tardes.
– Olá, Lady Amaranthine. – Fiz uma mesura, para lembrá-la de seus modos e também porque todas as outras garotas haviam abandonado seus livros para observar a cena. Minha irmã olhava para mim e para Amaranthine com uma expressão inquiridora.
– Preciso falar com você – Amaranthine anunciou.
Sorri em uma tentativa de diminuir minha irritação enquanto a magia pinicava as palmas das minhas mãos.
– Talvez possamos conversar depois da minha aula de equitação esta tarde?
– Não, preciso falar com você imediatamente – ela insistiu, sem ao menos olhar para as outras damas da nobreza.
Cerrei os dentes, torcendo para que ninguém visse.
– Como preferir – falei. – Por que não vamos lá fora?
– Não – ela disse. – Aqui está bom. Vai ser rápido.
Ela se enfiou atrás de uma estante, o que me obrigou a pedir licença educadamente a todas as demais para segui-la. Minha irmã, graças aos Seis, assumiu o controle da situação e fez com que as damas começassem a praticar a leitura umas com as outras. Os olhos do bibliotecário me seguiram quando fui atrás de Amaranthine, e ele ainda fez uma cara de censura.
– Amaranthine, desculpe, mas este não é o melhor momento… – comecei a dizer.
– O que sabe sobre Zumorda? – ela me interrompeu.
Ondas de formigamento corriam pelas minhas palmas e agarrei a prateleira atrás de mim em uma tentativa de conter a magia. Uma frustração veio depois do fluxo de energia. Meu dom se acalmara desde que eu matara o assassino. Eu ingenuamente acreditara que estava livre daquilo para sempre. Se eu podia matar sem intenção, não tinha como saber o que poderia acontecer agora que a força crescia novamente. Pensar naquilo fazia meu estômago revirar.
– Ouça… Lorde Kriantz disse que a adaga usada na tentativa de assassinato da outra noite provavelmente veio de Zumorda. Não sei como confirmar essa informação, e eu imaginei que você poderia fazer isso.
– Por que não pergunta ao ferreiro? Ou ao forjador de armas? Ou à capitã da guarda? – perguntei. O comerciante de Zumorda do meu bazar de casamento também passou pela minha cabeça, mas Amaranthine não sabia dele. Eu não conseguia imaginar que tipo de raciocínio distorcido a teria levado a perguntar a mim sobre armas.
– Eles não sabem. – Ela balançou a cabeça. – Havemont é o único reino
com capital perto de Zumorda, e sei que você se dedicou aos estudos por muito mais tempo que eu. Preciso saber como uma lâmina forjada por eles veio parar aqui. Isso os apontaria como responsáveis pelo ataque, e talvez como assassinos de Cas também. Pode haver espiões entre nós. Ou talvez eles estejam agindo por meio dos Dissidentes.
– Isso não é da minha conta – falei. Embora parte de mim estivesse
empolgada com a ideia de finalmente poder ajudar, eu precisava me afastar dela antes que algo acabasse em chamas. Além disso, me envolver em algo relacionado a Zumorda era uma proposta arriscada. – Thandi e o Conselho não me pediram para…
– Isso não é assunto do Conselho. É assunto meu. – Amaranthine se
aproximou furiosa de mim. Ficou tão perto que eu sentia o cheiro de canela de seu sabonete.
– Não sei de nada! – Eu me encolhi contra a estante. – Sei disso – Amaranthine falou. – O que quero que você faça é
descobrir. Veja se há um modo de confirmarmos que a lâmina veio de Zumorda. E talvez se há alguma informação sobre o tipo de magia que matou o assassino. Ou Cas. Se há uma relação entre os dois casos.
– Eu não saberia por onde começar. – Mentira. Descobrir onde obter
informações obscuras na biblioteca era um jogo que eu costumava jogar com meus professores, um jogo em que eu me saía muito bem. Provavelmente, a seção de manufatura de armas seria minha melhor opção para obter informações sobre a lâmina, mas faria sentido começar por geografia e história política para ir delimitando cada vez mais a região até a área específica de onde vinha a arma. Também não faria mal dar uma olhada em alguns livros de arquitetura, e quem sabe nos registros do censo, se houvesse algum disponível. O formigamento em minhas mãos e em meu rosto desapareceu, graças ao exercício mental familiar de planejamento de pesquisa. Pelo menos, a magia cessara mais depressa do que na ocasião que culminara na morte do assassino. De algum modo, sua força parecia menor.
– Quem sabe você não possa dar uma pesquisada aqui na biblioteca? –
Amaranthine me fitou com seus olhos cinzentos e brilhantes.
– Você já está aqui – falei. – Pesquise você mesma. – Não sou estudiosa – ela falou. – Você é.
– Bem, você é a primeira pessoa aqui a reconhecer isso – resmunguei. A gratidão cresceu em mim: uma gratidão boba e idiota por ela ter reconhecido algo tão importante. Era bom não ser invisível.
– Pode fazer isso? Por favor? Sei que você não me deve nada, mas isso pode nos ajudar a capturar os desgraçados que mataram Cas e tentaram matar meu pai.
Eu não sabia o que fazer. Queria ajudar porque era meu dever para com Mynaria, e porque ela estava me pedindo para usar as habilidades que Thandi e o Conselho não sabiam aproveitar – o que me deixava muito frustrada. Ela também estava me dando a desculpa perfeita para pesquisar sobre minha própria magia. Mas aquilo que ela me pedia era arriscado. Arriscado demais.