Fogo & Estrelas

Audrey Coulthurst · Capítulo 2 de 3 · parte 4/6

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Fogo & Estrelas

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

– Eu me importo com minha família – ela prosseguiu. – Eles podem ser imbecis às vezes, mas continuam sendo minha família. E este é meu reino. E não permitirei que alguma rainha má nos atormente lá de longe e nos manipule feito fantoches.

– Bem, o que sabe sobre a lâmina? – perguntei, curiosa apesar dos meus temores.

– Antes que a Capitã Ryka a tomasse de mim, notei que não havia um brasão nela. O metal era bem brilhante, talvez prata. Tinha um pomo branco… parece com coisa de Zumorda para você?

– Não sei. As flâmulas deles são brancas, mas isso não basta para acusá-los de tentativa de assassinato – falei.

– A Capitã Ryka mencionou o brasão deles, mas não disse nada sobre as flâmulas. Viu, você sabe de informações que podem ajudar – Amaranthine observou.

– Não acha que pesquisar sobre magia pode ser um problema? – perguntei. – Provavelmente não deve ter muita informação sobre isso aqui, e levando em conta que o uso de magia é considerado traição…

– É um pouco arriscado, sim – ela admitiu. – Mas se isso nos ajudar a descobrir quem está por trás desses ataques, não me importo. Vi certas coisas na cidade que me fazem duvidar que a magia em si seja o problema. A questão é quem está usando a magia contra minha família.

Eu ainda hesitava, mas uma chama de esperança brotou em meu peito. Ela não odiava usuários de magia indiscriminadamente. Talvez ela não me desprezasse se soubesse a verdade. E ajudá-la me daria a chance de aprender sobre minhas próprias habilidades.

Eu não podia recusar.

– Tudo bem, eu ajudo. Verei o que consigo descobrir – cedi. – Dennaleia – Amaranthine disse. – Olhe para mim. A intensidade do seu olhar fez meu coração quase sair pela boca. – Obrigada – ela agradeceu, desaparecendo tão depressa quanto havia

surgido.

Eu me apoiei na parede um instante, me perguntando onde diabos tinha

me metido. Tudo em Amaranthine era intenso demais: a forma como ela falava, o jeito que ela se mexia, o modo como me fitava.

Pressionei uma mão contra a parede, torcendo para que a pedra fria

diminuísse o formigamento nas minhas palmas. Em vez disso, a pedra cedeu ao meu toque. Afastei os dedos dela como se tivesse me queimado. Uma indentação no formato de um dedo permaneceu na parede.

– Sua Alteza? – uma voz hesitante disse às minhas costas. O medo percorreu meu corpo quando me virei. Ellaeni espiava no fim de

uma fileira de estantes.

– As outras queriam saber se você poderia ajudá-las a escolher alguns

poemas também, milady – Ellaeni avisou. Seu semblante era neutro. Amigável, até. Ela não tinha visto nada. Expirei, trêmula.

– Claro! – respondi. Agarrei minhas saias para controlar meus dedos

trêmulos e a segui de volta ao grupo.

As risadinhas e sussurros pararam assim que as garotas me viram. Só

minha irmã olhou para mim com cara de “onde diabos você se meteu?”, o que significava que eu teria que lhe fornecer uma explicação depois.

– Desculpem pela interrupção – falei ao grupo. – Adoraria ver os poemas

que vocês já selecionaram.

Elas deram um sorriso falso, felizes por estarem a par da fofoca mais

fresquinha. Até a noite, todos na corte saberiam que Amaranthine e eu tínhamos feito uma cena na biblioteca. Eu não devia ter me oferecido para ajudá-la. Ela tinha me humilhado na frente de pessoas com quem eu deveria ganhar influência. Minha decisão de atender aos pedidos de minha mãe não estava saindo como planejado.

Comentei e assenti diante da escolha de poema de cada garota, tentando

dedicar a mesma atenção a todas elas, mas o pedido de Amaranthine não saía da minha cabeça. Quando chegou a hora do almoço, acompanhei as garotas até a metade do caminho para o salão principal antes de pedir licença, dizendo que esquecera algo na biblioteca. Minha irmã olhou para mim desconfiada, mas a dispensei com um sorriso inocente.

Voltei a andar furtivamente pelos corredores da biblioteca feito um ladrão. Nenhum dos volumes era sobre Zumorda; os mynarianos tinham feito um bom trabalho eliminando os livros sobre magia. As seções de história e arquitetura não renderam bons resultados e, como eu temia, não havia informação de censo disponível. Até a seção de geografia não tinha nada além dos mapas mais simplistas. Os detalhes terminavam na fronteira de Mynaria com o oeste de Zumorda, e na fronteira com Havemont ao norte. Depois do que me pareceram horas perambulando pela biblioteca, a única coisa remotamente promissora que consegui arranjar foi um tomo enorme sobre técnicas de forja de espadas que me dava dor de cabeça só de olhar.

Ao passar pela seção de religião em meu caminho de volta, um trinado estranho veio de uma das estantes. Parei subitamente. Um azulão brilhante de barriga branca estava pousado no topo de um livrinho fino que estava um pouco mais para fora que os outros volumes na estante. Impossível. Azulões da montanha não viviam nas planícies, apenas no norte, nas montanhas em que eu crescera. Quando me aproximei, o pássaro voou para longe através de uma das janelas altas.

Tirei o livro da prateleira. Páginas frágeis, amareladas pelo tempo, se abriram para revelar a ilustração de um homem com as mãos erguidas no ar. Uma tempestade o envolvia, não de chuva e trovões, mas de estrelas que deixavam rastros de luz incandescente. Parecia um daqueles eventos celestiais de quando os deuses enviaram estrelas cadentes pelo céu, mas o homem de alguma maneira as havia trazido para a terra.

Não era um livro sobre religião. Era um livro sobre magia. Curiosidade e medo se misturavam dentro de mim.

De algum modo, o livro fora colocado na estante errada ou preservado – talvez por causa do desenho em sua capa. À primeira vista, os seis pontos coloridos pareciam ser os mesmos usados para representar os deuses, mas estavam na ordem errada. Folheei o livro, ficando cada vez mais apreensiva. Parecia ser um registro dos feiticeiros mais poderosos e seus trabalhos. A introdução apresentava as seis Afinidades: vento, água, terra, fogo, sombra e espírito. Cada Afinidade correspondia a um dos Seis Deuses.

Ao lado dos perfis dos grandes feiticeiros, diagramas complicados

mostravam as relações entre as Afinidades, observando que o poder em diversas Afinidades era algo raro – e perigoso. Eu sempre achara que minha Afinidade era o fogo. Mas houve aquela vez em que a porta bateu, e pouco mais cedo a pedra havia amolecido ao meu toque. Um calafrio percorreu minha espinha.

Certamente meu dom não devia ser outro além do fogo. Mas, de novo, eu

sempre o considerara fraco – até matar o assassino. Só havia um jeito de descobrir. Em um canto vazio da biblioteca, eu me sentei em uma poltrona e fechei os olhos. Com cautela, deixei a magia vir para as pontas dos meus dedos, o formigamento familiar se espalhando pelos meus braços. Em vez do fogo, devaneei com uma brisa suave, invocando-a através da janela alta acima de mim.

Uma rajada de vento passou pela biblioteca, virando as páginas dos livros

abertos sobre uma mesa próxima. Meu coração batia forte enquanto eu fazia a magia cessar. Quando abri os olhos, minha cabeça girava e agarrei os braços da poltrona para me equilibrar.

– Aí está você! – Alisendi apareceu no fim do corredor e veio depressa

na minha direção, aflita. – De onde veio aquele vento? O que está fazendo aqui?

– Nada – respondi. Enfiei o livro verde debaixo do tomo de forja de

espadas.

– Perdeu o almoço – Ali disse. – Thandilimon queria saber onde você

estava.

– O que disse a ele? – Fiz uma débil tentativa de organizar os livros que

minha magia havia bagunçado, incapaz de olhar Ali nos olhos.

– Que você havia esquecido um livro na biblioteca e que costuma perder

a noção do tempo quando lê – ela disse exasperada. – Mas você não está mais em casa. Não pode simplesmente sumir desse jeito. As pessoas acham isso estranho.

Comecei a inventar uma desculpa, mas Ali merecia saber pelo menos

parte da verdade. Quando partisse, ela levaria consigo o segredo sobre minha Afinidade e eu teria que lidar sozinha com isso novamente.

– Eu estava tentando seguir sua sugestão – sussurrei. – Talvez haja uma

maneira de fazer o dom do deus do fogo desaparecer. – Tracei um círculo sobre o livro de forja de espadas, pensando nos pontos coloridos na capa daquele que estava embaixo.

– Rezemos aos Seis para que haja – ela disse. – Mas partirei em menos de uma semana.

A mensagem era clara: sem ela, não haveria ninguém que inventasse desculpas para livrar a minha cara.

– Ficarei bem – falei, ignorando o quanto aquelas palavras soavam falsas e o quão desesperadamente eu sentiria sua falta.

– Ficará mesmo? – ela perguntou, pegando minha mão, com o semblante sério.

– Preciso ficar – repliquei, pegando os livros e os apertando contra o peito. – Vamos. Vou me atrasar para minha aula de equitação.

Graças aos Seis, ela não sabia que aparentemente o fogo não era o único dom que eu precisava reprimir.

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CATORZE

 

A partida da Princesa Alisendi levou metade da manhã, fazendo com que ainda mais tempo precioso fosse perdido. A Capitã Ryka não permitiu que nenhum membro da família real acompanhasse o cortejo, pois temia por nossa segurança, então acenamos em despedida do pátio da frente enquanto a carruagem da princesa e sua escolta armada desapareciam na cidade.

Dennaleia manteve a pose, mas dava para ver as marcas da tristeza em seu rosto enquanto ela observava a irmã ir embora. Sua expressão não mudou ao irmos para os estábulos para sua aula de equitação.

– Descobriu alguma coisa na biblioteca? – perguntei.

– Ainda não – ela disse com um suspiro, obviamente cansada de ouvir a mesma pergunta dia após dia.

– Não aguento mais ficar presa aqui – falei. –Vamos cavalgar pela trilha.

– Isso é permitido? – ela perguntou.

– É seguro, contanto que fiquemos nas terras dentro dos muros do castelo. Além disso, quem vai nos impedir? – falei, lançando um olhar hostil na direção da Capitã Ryka, que nos acompanhara até o celeiro para treinar os últimos recrutas. Mesmo depois que ela tomara de mim a faca, o Conselho não se dera ao trabalho de me interrogar como testemunha da tentativa de assassinato, o que era mais uma prova de que Cas fora o único entre eles que sabia usar o cérebro.

Coloquei a sela de batalha em Flicker e prendi no arreio minha trompa, meu arco e minha aljava para praticarmos o carregamento dos trambolhos usados nas caçadas. Montamos em nossos cavalos usando o bloco de montagem, o que Dennaleia agora fazia com facilidade. Ela havia superado a dor causada por andar a cavalo quase todos os dias, e não terminava mais as aulas andando esquisito.

Enquanto eu a conduzia para longe do pasto cercado, dois vassalos chegaram cavalgando.

– Vocês devem estar brincando – falei.

– É para a segurança de vocês – um deles explicou. – Ordens da Capitã

Ryka.

Revirei os olhos. Se a capitã queria que eu não me metesse em seus

assuntos, o mínimo que poderia fazer era não se meter nos meus.

– Tudo bem, mas fiquem fora do alcance da minha voz, ou passarei toda

a cavalgada encontrando novas formas de insultar a mãe de vocês. – Fiz sinal para Dennaleia prosseguir.

A cidade surgiu à nossa frente assim que os cavalos começaram a subir a

trilha. Acima do nível dos telhados, o vento fazia os campos amarelados pelo verão ondularem como o mar. As árvores formavam arcos sobre nossas cabeças, fornecendo uma sombra bem-vinda que nos protegia do sol enquanto seguíamos na direção dos sopés dos montes baixos que delimitavam os jardins nos fundos do palácio.

– Cuidado com os galhos – falei, me abaixando para desviar de um galho

e esticando o braço para afastar outro.

Dennaleia não respondeu, mas também não caiu do cavalo, então devia

ter me escutado.

A folhagem ficava mais espessa conforme nos embrenhávamos na mata,

descendo uma ladeira e atravessando um córrego. Quando a trilha finalmente se abriu depois do riacho, fiz Flicker diminuir o ritmo até que Dennaleia e eu ficássemos lado a lado. Dei tapinhas no pescoço de Flicker tentando descobrir como fazer a princesa falar, torcendo para conseguir fazê-la sorrir mais uma vez.

– E então, como vão as coisas? – perguntei.

– Está falando da pesquisa…?

– Disso e de todo o resto.

– Ainda não encontrei respostas, o que é frustrante. O resto… bem, às

vezes é difícil.

– O que quer dizer? – Além das aulas de equitação, eu não conseguia

imaginar do que mais ela poderia estar falando. Eu odiava a vida da corte, mas com sua graça e diplomacia, Dennaleia parecia ter nascido para aquilo.

– Sinto saudade de Ali. E de Havemont também. Não tenho com quem

conversar. Thandi está ocupado a maior parte do tempo. E você só está me treinando porque Casmiel lhe mandou fazer isso.

– Quem lhe disse tal coisa?

– Thandi – ela respondeu.

– Mas é claro. Aquele estrume inútil – falei. – Não é tão simples assim. É verdade, ele mandou que eu lhe ensinasse. Mas você se mostrou mais inteligente que qualquer um daqueles idiotas de miolo mole do Conselho. – Eu precisava dela do meu lado. E, sinceramente, ela não era má companhia, principalmente quando permitia que o seu cérebro funcionasse.

– O que você quer também importa – ela disse.

– O que eu quero é ver a determinação que você demonstrou ao chegar aqui. A garota que sabe, sem motivo aparente, meia dúzia de fatos aleatórios sobre flechas e que consegue calcular a trajetória de um lançamento. A garota que monta em um cavalo mesmo quando é a última coisa que quer fazer. – Eram as coisas que eu mais admirava nela, que me faziam gostar dela, apesar da minha intenção contrária.

– Passei a gostar de cavalgar… mas não me sinto mais como aquela garota – Dennaleia disse, tão baixinho que eu mal a escutei.

– Mas ainda é aquela garota – falei. Eu queria que ela desse o melhor de si, não apenas porque isso me ajudaria, mas também porque eu sabia que ela tinha aquela força dentro de si. Os acontecimentos desde a sua chegada eram suficientes para acabar com a determinação de qualquer um. Talvez ela só precisasse encontrar um modo de ter de volta o que amava, algo que a fizesse se sentir tão animada quanto parecia estar naquela noite em que dançara.

– O que você faz bem? – perguntei.

– Toco harpa. Útil, eu sei – ela disse.

– Então me convide para ouvi-la algum dia. Eu gostaria de ouvi-la tocar. – Uma onda inesperada de nervoso me inundou após meu pedido. A música já ocupara um lugar importante no meu coração, e cutucar feridas antigas não era nada agradável.

– Tudo bem. – Seu tom era hesitante, mas suas bochechas coraram.

– Ótimo – falei. – Vamos trotar.

Aceleramos. Eu esperava que, ao trotarmos por entre as árvores, ela experimentasse aquela sensação indescritível que eu sentia ao montar Flicker – a forma como as preocupações ficavam para trás e restava apenas o vento em meus cabelos e o sol em meu rosto.

Os guardas se aproximaram demais e eu os enxotei quando a trilha se abriu para um campo com uma vista espetacular da cidade. A movimentação nas ruas era tão pouco discernível quanto qualquer outra coisa, exceto o próprio movimento. Mas ao chegarmos ao topo da paisagem, nossos cavalos se assustaram e saltaram para o lado quando uma pessoa saiu da mata que delimitava o campo.

– Pelos Dissidentes! – a figura gritou. Uma flecha passou zunindo por

cima do ombro de Dennaleia.

– Anda! – gritei e fiz Flicker se virar para proteger Dennaleia e Louie. Os

cavalos partiram a meio-galope, mudando de direção para escapar do ataque. Os guardas vieram com seus cavalos na nossa direção, mas não conseguiram chegar antes do ataque seguinte da arqueira. Controlando Flicker com as pernas, soltei meu arco da sela e puxei uma flecha.

– Segure-o com firmeza! – gritei para Dennaleia, torcendo para que ela

conseguisse fazer Louie prosseguir num ritmo regular. Sem as rédeas nas mãos, eu não tinha como controlar a velocidade de Flicker. Sentei com a postura reta e enfiei fundo meus calcanhares nos estribos, sabendo que eu não poderia arriscar. Eu não tinha três chances e alvos desenhados, como no treinamento. Eu tinha apenas uma chance de derrubar alguém que queria nos matar.

Outra flecha partiu da arqueira inimiga e acertou a terra atrás de nós.

Puxei a corda do arco, fiquei em pé nos estribos e me virei para lançar minha própria flecha,tudo isso em uma fração de segundo. Minha flecha foi lançada no pico da passada de Flicker e acertou a arqueira no ombro. A pessoa foi ao chão e sumiu em meio à grama dourada.

– Ôa! – falei, e paramos nossos cavalos. Eles se mexiam sob as selas,

ainda agitados, as orelhas voltadas para o inimigo abatido. Toquei cinco vezes minha trompa para indicar uma emergência, esperando que houvesse uma patrulha por perto para reforçar nossa proteção.

– Abaixe-se – falei. – Não sabemos se há mais deles. Dennaleia deslizou da sela e se agachou ao meu lado. – Se mais alguém atirar uma fecha, solte as rédeas – sussurrei. Ela assentiu e enfiou sua mão livre na minha, gerando em meu corpo um

arrepio de surpresa. Olhei seus olhos assustados e apertei sua mão com delicadeza. Segundos se passaram até que ouvi cascos se aproximando e pude soltar o ar e a mão dela. Os guardas diminuíram o ritmo ao chegar mais perto, para não assustar nossos cavalos, e mais quatro vassalos vieram com eles.

– Qual a emergência? – a chefe dos vassalos perguntou ao se aproximar. – Uma arqueira saiu de trás daquelas árvores e atirou flechas em nós –

falei. – Eu a acertei ali.

– Fiquem aqui – a chefe dos vassalos disse aos nossos dois guardas originais. Ela gesticulou para um terceiro: –Você, verifique o perímetro. – Ela desmontou e sacou sua arma, indicando que os outros dois vassalos deveriam segui-la. Puxei uma faca da minha bota e fui atrás deles, lançando um último olhar nervoso para Dennaleia. Embora ela estivesse segura com os vassalos, eu me sentia incomodada em deixá-la.

Nós quatro entramos com cautela no campo, indo na direção da arqueira caída. Meu estômago revirava. O silêncio em meio à grama talvez significasse que eu a havia matado. Eu jamais havia alvejado uma pessoa antes.

Escutamos a arqueira ofegar de dor antes de vê-la. Ela estava deitada de lado, com minha flecha enfiada no ombro direito. Seus cabelos dourados e curtos combinavam com a grama do campo queimada pelo sol. Ela tinha a expressão de alguém encurralado – e um rosto que eu reconheci.

Era a Dissidente que eu vira esfaquear aquele fundamentalista na taverna Barbela. O pavor enterrou suas garras com lentidão na minha espinha.

Um arco estava caído ao seu lado, um instrumento simples e tosco que parecia um pouco empenado devido à falta de cuidados. Não me admirava sua mira ser tão ruim. Tivéramos sorte. Ela esticou o braço bom para pegar o arco, mas os vassalos a agarraram pelos dois lados e pisaram na ponta da arma antes que ela a alcançasse.

– Por que fez isso? – perguntei.

Ela sibilou de dor e cuspiu nos pés dos vassalos.

– A aliança deve ser evitada a qualquer custo – ela disse meio engasgada. – Mas eu não vim atrás de você.

As palavras dela não me deram nenhum alívio – apenas fizeram uma onda de medo crescer em mim. Obviamente, o alvo da arqueira fora Dennaleia. A morte dela garantiria a desintegração da aliança.

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QUINZE

 

O Conselho interrogou a arqueira no Grande Templo, sem dúvida pelo simbolismo embutido: o governo de Mynaria não tolera hereges. Ao entrar no templo ao lado de Thandi, eu meio que esperava pegar fogo. Meu dom continuava recuperando sua força desde a morte do assassino, e o ar à minha volta mais uma vez me dava a sensação de que poderia entrar em combustão espontânea a qualquer momento.

O domo acima do transepto deixava entrar luz e ar, e os sininhos pendurados em finas cordas tilintavam com a brisa. Mal dava para ouvir do lado de dentro os sons mais graves dos sinos maiores que ficavam no jardim do templo, suaves e dissonantes, sob conversas sussurradas por todo lado enquanto o Conselho se acomodava para sua tarefa.

– Onde está Amaranthine? Ela não deveria estar aqui? – sussurrei para Thandi. Fazia dias que eu não a via. Com o castelo isolado desde a captura da arqueira, as aulas de equitação tinham sido suspensas.

– Ryka queria que ela viesse, mas ela se recusou. Disse que não tinha nada a acrescentar à sua declaração, que você seria testemunha suficiente e que tinha “coisas melhores a fazer”.

Não tê-la presente me magoava. Ela quase não aparecera desde o ataque, e a paranoia do rei com relação à minha segurança significava que todos os meus dias tinham sido cheios de compromissos. Mas apesar dos vassalos me acompanhando para todo lado, eu me sentira mais segura agachada ao lado dela naquele campo, com sua mão na minha. Eu sentia falta dela. Obviamente, ela não sentia a minha.

O Conselho estava voltado para as fileiras de bancos vazios do templo, posicionado no meio do transepto, com suas cadeiras dispostas em um semicírculo. Thandi e eu assumimos nossos lugares no estrado atrás deles. Assim que o rei tomou seu assento entre nós, fez-se silêncio no recinto.

– Tragam a herege – disse o rei.

Ryka fez um sinal para o vassalo, e um grupo de quatro guardas arrastou

a arqueira até o corredor e a forçou a se ajoelhar diante de nós. Ela mantinha a cabeça erguida numa postura desafiadora, com o ombro envolto em faixas e o braço direito preso junto ao peito.

O Conselheiro Eadric tocou sua sineta e se levantou sem esperar o

convite formal para falar. Ele cambaleou para a frente até ficar a poucos passos da arqueira, e então a encarou apertando os olhos, como se sentisse um cheiro forte de cebola.

– Refletiu sobre seguir os infinitos caminhos de purificação e

arrependimento? Sobre voltar para a verdade da vida, para os Seis Deuses que zelam por todos nós, benevolentes, cheios de graça, conduzindo nossas almas aos reinos da virtude…?

Ela respondeu cuspindo nos pés dele.

Eadric inclinou a cabeça para ela e então se voltou para o resto do

Conselho.

– Deveríamos realizar um ritual de purificação – ele disse, e então deu a

volta no transepto balançando seus sininhos em miniatura e entoando algo para o pedaço de céu visível através do domo de vidro no teto.

Eu não compreendia o que fazia alguém achar que um ritual de

purificação era uma boa maneira de empregar o tempo que deveria estar sendo gasto com um interrogatório urgente.

Antes que o Conselheiro Eadric tivesse terminado de colocar seu velho

traseiro de volta no assento, Thandi tocou sua sineta.

– Moção para a Princesa Dennaleia falar – pronunciou-se Thandi. Todos, exceto Hilara, votaram a meu favor. Obviamente, a mulher teria

ficado mais feliz se eu tivesse sido atingida pela flecha. Engoli em seco e me levantei.

– Três dias atrás, a Princesa Amaranthine e eu estávamos cavalgando

pela trilha quando essa mulher saiu de trás das árvores e nos atacou – falei. – Antes de nos alvejar, ela gritou “pelos Dissidentes”.Amaranthine a atingiu no ombro com uma flecha e então chamou mais guardas.

Sentei.

– Você atirou uma flecha contra as Princesas Amaranthine e Dennaleia? –

o rei perguntou. Ele batia impaciente nos braços de sua cadeira.

– Sim, e faria isso novamente. – A arqueira olhou direto para mim, como

se desejasse me matar com seu olhar, se pudesse.

– Por que cometeu a traição de atacar membros da família real? – O rei parecia prestes a executar a arqueira. Sorte dela que armas não eram permitidas no templo.

– Para impedir a aliança. Todos deveriam ter acesso ao Grande Ádito, independentemente de suas crenças – ela vociferou. – Vocês, tolos, não compreendem as forças envolvidas e, se compreendessem, teriam medo da armadilha em que se meteram ao bloquear o acesso daqueles que mantêm o mundo em equilíbrio. E se eu ainda tivesse meu marido ao meu lado, eu a teria acertado de primeira, como fiz com o administrador que negociou essa aliança idiota. – Ela cuspiu mais uma vez, e os vassalos que estavam por perto intervieram.

Vários membros do Conselho arquejaram e o rei se pôs em pé, levando a mão ao lugar onde geralmente se encontrava sua espada presa ao cinto. Continuei no meu lugar, congelada, paralisada com o choque. Ela simplesmente tentara me matar. Se impedir a aliança era o principal objetivo dos Dissidentes, de certo modo a morte de Casmiel também era culpa minha. Minha chegada deve ter sido o sinal para o ataque. Thandi levantou-se num salto, tocando sua sineta para pedir que todos fizessem silêncio.

– Capitã, que evidências foram encontradas na cena? – Thandi perguntou, voltando ao seu assento. Embora sua voz estivesse firme, ele agarrava os braços da cadeira até os nós de seus dedos ficarem brancos.

A Capitã Ryka ficou em pé.

– Um arco comum e uma aljava com flechas brancas. Duas delas tinham sido lançadas, e as recuperamos no campo. Mas voltemos ao início. – Ela encarou a arqueira. – Como matou Casmiel? Foi um arremesso difícil sem um ângulo claro de visão e, supondo que você tenha usado a mesma arma encontrada na cena três dias atrás, teria sido mais fácil acertar moscas em um vendaval.

– A flecha estava encantada para acertá-lo – ela disse, parecendo quase satisfeita.

– E para virar cinzas? – a Capitã Ryka perguntou. – Como?

– A Afinidade com fogo do meu marido.

Eu estava pasma por ela dizer aquilo com tanta tranquilidade.

– E onde está seu marido agora? – o rei perguntou.

– Morto. – A raiva e a tristeza estavam estampadas em seu rosto. – Morto por causa dessa aliança idiota de vocês e dos fanáticos antimagia que assumiram para si a tarefa de “expurgar” a cidade. As pessoas ficaram sabendo da Afinidade dele com o fogo, e ele começou a ser atacado nas ruas todas as noites ao voltar do trabalho. Nossa união aos Dissidentes era a única forma de contra-atacar. Parar a aliança é a única forma de fazer de Mynaria um lugar seguro para as pessoas como ele viverem.

Eu sentia minha pulsação nos ouvidos. Não me admirava que ela nem se

desse ao trabalho de mentir. Ela não tinha mais nada a perder. E o marido dela tinha sido morto por causa de sua Afinidade, que devia ter sido exatamente como a minha. Só que ele soubera mais ou menos como usá-la.

Hilara tocou sua sineta.

– Quem foi o responsável pela tentativa de assassinato do rei, e onde

vocês conseguiram a lâmina de origem zumordana usada em tal ataque? – ela perguntou. – O seu marido enfeitiçou aquela arma?

Ela queria uma explicação para o fato de o assassino ter ardido em

chamas, e o marido da arqueira talvez pudesse servir. Só Alisendi e eu sabíamos que eu causara o fogo. Respirei fundo e me concentrei em manter meu rosto impassível.

– Meu marido fazia qualquer coisa que pudesse servir à nossa causa – ela

respondeu. – Não que isso importe agora.

– Diga quem mais estava envolvido no plano de assassinar o rei – Hilara

pediu.

– Não tenho mais nada a dizer – a arqueira declarou. – Ela está se fazendo de boba. Esses Dissidentes obviamente estão

trabalhando com os zumordanos para arruinar a aliança e a Coroa. Devemos torturá-la até que ela confesse. Moção para torturar a prisioneira! – disse o conselheiro de agricultura.

– Negada – Thandi disse, descartando a possibilidade de votação. Pelo

menos, ele poupou o Conselho daquela vergonha.

– Não se engane… você pagará pela morte do meu irmão – o rei disse. –

Perseguiremos todos que você ama até que decida revelar os nomes dos outros envolvidos no assassinato dele.

– Não tenho família. Meu marido está morto. Não há mais nada para

vocês tomarem de mim. – Os olhos da arqueira eram frios.

O rei se sentou e socou os braços de sua cadeira. Eu me encolhi. – Moção para manter a prisioneira detida para novo interrogatório sobre

os envolvidos – Hilara disse.

Os Conselheiros votaram a favor de forma unânime.

– Moção para começar a deter, interrogar e punir todos que tenham ligação com os Dissidentes ou qualquer pessoa suspeita de ter uma Afinidade – disse a Capitã Ryka.

Os doze Conselheiros votaram novamente.

Um escriba registrou os votos enquanto meu coração falhava.

– Pelo menos agora sabemos quem está por trás desses ataques – Ryka disse. – Pegaremos o desgraçado.

Eu não sentia minhas mãos e mal conseguia ouvir alguma coisa além dos batimentos acelerados do meu coração enquanto a arqueira era arrastada para longe. Eles achavam que sabiam quem era o responsável por todos os ataques, mas a arqueira não revelara nada sobre a lâmina de Zumorda. Ela mesma dissera que não tinha mais nada a perder, então por que não confessar?

– Está tudo bem – Thandi falou, interpretando minha angústia de forma equivocada. Ele pegou minha mão. Apaticamente, deixei que ele a segurasse. – Ela não pode machucá-la agora.

– Claro. – Assenti.

Mas não era a arqueira que eu temia, e sim o Conselho perseguindo os usuários de magia – e eu sendo a primeira a ser capturada.

 

De volta aos meus aposentos, eu virava freneticamente as páginas do livro verde da biblioteca atrás de respostas sobre como disfarçar minha Afinidade, ou, melhor ainda, como me livrar dela. O autor do livro tinha um interesse de estudioso no assunto, mas não era um usuário de magia. Passagens longas e entediantes descreviam como pessoas com Afinidades poderiam usar o poder em si mesmas ou no ambiente, mas não explicavam como isso era feito. Ele recomendava exercícios para condicionar e desenvolver um dom, mas não dizia que exercícios eram esses. Ele advertia que reprimir o poder costumava levar a explosões súbitas de magia, e que fazer uma magia poderosa iria deixar o usuário esgotado por um tempo. A única observação razoavelmente útil fazia referência ao Grande Ádito, e comentava que trabalhar o poder em locais destinados a isso permitia ao usuário de magia ter mais controle e foco.

Eu não tinha como começar a dormir no Santuário do castelo para manter minha Afinidade sob controle, e eu não podia sair por aí lançando fagulhas ao acaso para evitar que o poder da magia se acumulasse lentamente dentro de mim. Em um livro sobre grandes feiticeiros, não havia uma seção sobre princesas que lançavam chamas. Havia muitos homens que conseguiam afundar frotas de navios com um feitiço e mulheres que eram capazes de mudar a história ao escreverem com o próprio sangue. Aquele tipo de magia era lenda, não realidade; aqueles dons pertenciam a deuses, não a mortais.

Fechei o livro e o enfiei debaixo da cama, frustrada. Passei o resto da tarde escrevendo e jogando fora cartas para minha irmã,

tentando distrair minha mente do medo. Eu queria perguntar a Ali como fazer o que ela me aconselhara e como me livrar da minha Afinidade, mas ela não teria respostas, e eu seria idiota ao me incriminar escrevendo. A única resposta era encontrar os responsáveis pelo ataque com a faca, para que o Conselho encerrasse sua investigação, o que significava que eu precisava de Amaranthine – embora eu estivesse irritada com ela por não ter aparecido no interrogatório. Talvez seu pedido de me ouvir tocar harpa não fosse o início de amizade que eu esperava. Talvez o fato de ficarmos de mãos dadas daquele jeito depois de termos sido atacadas não significasse nada. Ela não se importava com a Coroa. Ela não tinha motivo para se importar comigo.

Quando Auna chegou para me aprontar para o jantar, incendiar a cidade

toda e voltar a Havemont cavalgando um cavalo roubado já começava a parecer a única saída viável para os meus problemas. Auna parou atrás de mim à penteadeira e prendeu metade dos meus cabelos para cima em camadas e mais camadas de nozinhos. A ideia de ter mais um grampo enfiado na minha cabeça me dava vontade de gritar.

– É a última moda em Mynaria – Auna disse –, mas acrescentei umas

tranças e enfeites especiais como fazemos em Havemont. Lançaremos tendência!

A empolgação de Auna não era contagiosa.

Tudo em que eu conseguia pensar era na reunião do Conselho, e isso me

dava mais nós no estômago do que aqueles que eu tinha nos cabelos.

– Tem certeza de que precisa disso tudo, Auna? Não quero me atrasar

para o jantar – falei.

– Claro que sim, milady! Não queremos que pareça uma criança. Deve

parecer uma rainha. Lembrar a eles quem você é. Garantir que as pessoas certas se aproximem de você. As coisas aqui são diferentes do que em Alcantilada – Auna falou.

Fiz uma careta para o espelho, desejando que ela pudesse me dizer algo que eu ainda não soubesse.

– Sinto saudade de Havemont – falei. – As pessoas eram menos complicadas lá. A única pessoa que não age feito uma aduladora é Amaranthine, mas isso só porque não tenho nada a lhe oferecer. – Aquilo não era bem verdade, é claro, mas Auna não precisava saber da minha pesquisa.

– Não perca seu tempo com ela, milady. Com certeza não vai demorar muito para ela se casar, e então não terá mais que vê-la.

Meu estômago doeu ao pensar naquilo. Mare, casada? Eu não via como, e a sugestão me irritou. Às vezes, parecia que ela era a única pessoa em Mynaria com algum juízo, embora ela conseguisse se meter e se livrar de confusão com a mesma frequência e com a mesma rapidez que uma cabra das montanhas.

– Tente não deixar Lady Amaranthine a aborrecer. Logo você terá um marido e filhos, e eles a manterão ocupada demais para pensar em sua terra natal ou na princesa – Auna disse.

Seu sorriso de sabedoria me irritava, assim como a ideia de filhos. Embora eu quisesse tê-los, sempre me parecera algo distante. Mas agora era totalmente possível que, a essa altura, no ano seguinte, eu já fosse mãe.

– Claro, Auna. Tem razão. – Tentei suavizar meu semblante taciturno. A capacidade de Auna de falar como minha mãe me assustava às vezes.

– Enquanto isso, você deveria se concentrar em sua relação com os outros nobres, como sua mãe sugeriu – Auna disse com mais delicadeza.

– Todos querem algo de mim. Acho que não tenho tanto assim para dar. – Escolhi minhas palavras com cuidado, sabendo que, por meio de Auna, elas poderiam um dia chegar aos ouvidos da minha mãe. Embora meu rosto continuasse impassível, a ansiedade ainda me consumia. Thandi vinha sendo de grande utilidade ao me ajudar a decifrar as verdadeiras intenções dos membros da baixa nobreza, e minha estima por ele crescia continuamente, já que estava claro que ele conhecia muito bem as complexidades de sua corte. Mas das damas da nobreza que eu conhecera até aquele momento, só Ellaeni havia me impressionado com sua falta de subserviência e sua neutralidade com relação aos acontecimentos do palácio.

Talvez por isso Amaranthine parecesse tão ameaçadora – ela era cheia de segredos, mas também transparente de um jeito que ninguém mais era. Não havia mais nada no mundo que ela poderia querer de mim além de um par de olhos que examinasse os livros da biblioteca. Se ela quisesse ser minha amiga, teria que ser nos termos dela e por escolha dela. Se eu gostava ou não dela não importava, mesmo que eu a convidasse para algo além de um passeio a cavalo.

A pesquisa sobre a lâmina deveria ter sido minha prioridade. Eu queria

dar a ela alguma informação útil, nem que fosse para impedir mais algum dano aos membros da família real. Cumprir aquela tarefa provaria a ela que eu era mais que uma palaciana imbecil. Eu precisava que ela fosse minha aliada. Eu queria que ela fosse minha amiga. Quando ela me disse na trilha que a convidasse para me ouvir tocar, ela me dera uma oportunidade. Nenhuma rainha perderia uma oportunidade, e hesitar com relação a isso não resolveria nenhum problema. Assim que Auna saiu do quarto, ajeitei as saias e pedi a um pajem que entregasse um convite.

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DEZESSEIS

 

Sair do castelo era a parte mais difícil. Descobrir locais e horários de

encontro na taverna Cão Surdo era a parte cara. Mas entrar no local de reuniões dos Dissidentes parece que seria mais fácil que o esperado.

Por volta do horário em que o Conselho provavelmente iniciaria aquele

interrogatório sem sentido da arqueira que tentara matar Dennaleia, Nils e eu estávamos parados do lado de fora do Santuário abandonado onde os Dissidentes supostamente se encontrariam. A vizinhança cheirava a estábulo precisando ser limpo, e as poucas pessoas que vimos se afastaram depressa de nós, correndo para as sombras feito insetos. Dilapidados sininhos de madeira pendurados perto da porta se chocaram uns contra os outros ao sopro de algo suave demais para se chamar de brisa.

Dava para entender por que os Dissidentes haviam escolhido o edifício

como local de encontro. Uma larga faixa de terreno coberto por matagal separava a construção dos demais prédios. Todo aquele espaço entre os edifícios significava que, à luz do dia, não havia onde se esconder e espiar. A entrada principal parecia fechada com tábuas.

– Bem, teremos que entrar à força – falei.

– Sutileza sempre foi seu ponto forte – Nils riu. Dei de ombros e comecei a avançar na direção da construção, mas Nils

agarrou meu braço.

– E se tiver gente lá dentro?

– Diremos que estamos procurando um lugar para nos casarmos e que

ficamos encantados com a grandiosidade antiquada deste belo edifício.

– Você é maluca.

– Vamos tentar pelos fundos – falei.

Pisoteamos as ervas daninhas no que parecia ter sido o jardim do templo

e fomos para os fundos pela lateral do edifício. As janelas altas estavam fechadas com tábuas cobertas por cocô de aves, com ninhos abandonados enfiados em suas frestas. Do outro lado da rua, vinha o barulho de um martelo de ferreiro, o único som que quebrava o silêncio daquele início de tarde.

Nos fundos, achamos uma segunda entrada, também fechada com tábuas. Um círculo branco do tamanho da palma da minha mão estava desenhado na tábua mais perto do batente superior. Mexi na maçaneta, não muito certa de que a coisa toda não desabaria quando eu tentasse entrar, mas a porta se abriu sem rangido de dobradiças. O exterior com tábuas pregadas era um truque.

Os Dissidentes haviam deixado grande parte do interior intacta, restaurado algumas partes do templo até. Embora as absides parecessem nunca terem sido desenhadas com imagens de deuses, o piso exibia uma estrela brilhante pintada, cada ponta correspondente a uma das cores dos deuses. Mas estavam na ordem errada. Franzi o cenho, perplexa.

– Não há onde se esconder aqui dentro – Nils disse, examinando a parte central do Santuário.

– Claro que há – falei, e apontei para as vigas em formato de cruz no teto. O Santuário era de um estilo antigo, e suas vigas tinham ranhuras que permitiam que os clérigos subissem por elas e abrissem as janelas altas no verão. As janelas, obviamente, não existiam mais, mas as vigas ainda estavam lá.

Nils pareceu um pouco enjoado.

– Está sugerindo que a gente se pendure nas vigas feito dois morcegos?

– Se assim cumprirmos a tarefa… – falei.

– Você primeiro – ele disse.

– Por mim, tudo bem – respondi, e apontei para a viga mais próxima. Ele me levantou e eu subi até a capela mais funda, a do deus do vento, e me escondi no amplo vão da janela, entre as tábuas que haviam sido pregadas de forma desordenada por fora e por dentro da esquadria.

– Consegue me ver? – perguntei.

– Nem um pouco – Nils respondeu.

Ciscos e poeira dançavam na luz que entrava pelas frestas das tábuas pregadas na janela. Nils parecia uma miragem, como a representação do homem perfeito de algum artista.

– A luz lhe favorece – falei.

Em vez de responder, ele se afastou alguns passos, na direção da porta. Eu estava me esticando para rastejar para fora quando uma voz desconhecida perguntou:

– Posso ajudá-lo?

Congelei.

– Olá – Nils disse e pigarreou.

Rastejei de volta o mais silenciosa possível e me enfiei no meu

esconderijo.

– Você é novo? – a voz perguntou. – O serviço só começa daqui a meia

hora.

– Serviço? – Nils perguntou.

–Você deve estar perdido. – A voz era feminina e parecia desapontada. – Bem, quem sabe eu não pudesse ficar – Nils disse. Eu quase podia

ouvir a piscadinha e o sorriso que acompanhavam aquela frase. A dona da voz devia ser bonita. Por cima dos ombros de Nils, eu conseguia ver apenas parte de uma cabeça com cabelos cacheados escuros.

– É arriscado – ela disse. – Nem todos gostam do tipo de serviço que

realizamos aqui.

– Bem, não sou nada mais que um homem que gosta de serviço. Fale

mais a respeito – Nils disse.

A garota deu uma risadinha, e eu revirei os olhos. Como ele conseguia se

safar? Na verdade, eu sabia. Era aquele seu queixo forte, aqueles seus olhos castanhos envolventes, e a forma como ele olhava para as pessoas, como se elas realmente importassem, independentemente de sua posição social. E embora a essa altura ele soubesse que sempre conseguiria o que queria em se tratando de mulheres, havia sempre uma hesitação, uma dúvida no modo como ele se aproximava – sempre pedindo permissão antes de tocá-las. A garota também devia ter notado aquilo.

–Você pode se sentar no fundo comigo – ela disse. – E se decidir ir

embora, pode sair discretamente. Nem todo mundo quer aderir à causa.

– Quem resistiria a um convite de uma garota com esses olhos? – Nils

disse. – Me mostre o caminho.

Ela riu, e eles foram na direção da porta principal do templo, onde eu não

conseguia ouvi-los. Suspirei aliviada. No entanto, agora eu estava presa em meu esconderijo. Aos poucos, mais pessoas foram chegando e se acomodando no chão sobre cobertores, até que o Santuário se encheu de um zumbido baixo de conversas. A qualquer um que entrasse, aquele pareceria um culto aos Seis estranhamente combinado. Eles poderiam se passar por um grupo de oração, a única coisa que supostamente eram contra.

As conversas no recinto morreram quando um homem de barba grisalha foi até a frente do templo e subiu em um estrado. Ele vestia as roupas simples de um artesão, talvez de um sapateiro. Abriu uma bolsa de couro e desembrulhou uma tigela de prata, que colocou sobre a mesa.

– Todos que quiserem ser testados venham para a frente – Barba Grisalha disse.

Três rapazes se levantaram e foram hesitantes até o estrado. Cada um deles esticou a mão sobre a tigela de prata do Barba Grisalha, e todas as vezes Barba Grisalha balançou a cabeça. Depois, quando eles se sentaram, ele pôs sua mão sobre a tigela, que se acendeu com uma luz suave e prateada.

– Que os Seis protejam a nós e a nossas Afinidades – ele disse.

Fiquei espantada que ele pedisse proteção aos Seis. Achei que os Dissidentes só acreditassem no poder da magia, não nos Seis, mas aquele não parecia ser o caso.

Barba Grisalha os conduziu em um ritual que parecia o de um dia de louvor, com a diferença de que, em vez de apenas agradecer a cada um dos Seis Deuses, ele também agradeceu às Afinidades ligadas a eles. Quando o culto terminou, eu estava realmente confusa. Não houvera nenhuma informação secreta, nem plano para destruir a família real, nem mesmo qualquer menção à aliança. No fim, todos deixaram o Santuário aos poucos, exceto quatro pessoas, que se reuniram perto do estrado até que todos os demais tivessem ido embora. Eu esperava que Nils tivesse encontrado um lugar para ficar à espreita.

– Perdemos Yashti – Barba Grisalha disse. – Eles a estão interrogando hoje. Sem dúvida, sua traição será descoberta e ela será punida. Em breve, teremos que nos mudar.

Graças aos Seis eu os havia encontrado antes que isso acontecesse. Prendi a respiração e mudei de posição, tentando aliviar as cãibras por ter permanecido agachada tanto tempo.

– Era apenas questão de tempo – disse uma mulher magra de cara comprida de fuinha. – Eles sempre foram extremistas, e ela não estava bem desde a morte de Alen. Não me admira que ela tenha decidido agir por conta própria, doida o bastante para achar que conseguiria assassinar sozinha um membro da família real. É claro que os espadas a capturaram.

Eu me inclinei mais para a frente para tentar ouvir a voz suave da próxima pessoa que falou.

– Ela e Alen ainda estariam aqui se não tivessem aceitado o dinheiro do

homem da sombra – disse um rapaz de ombros caídos. Embora fosse o mais jovem do grupo, tinha um aspecto de cansaço que sugeria que ele passara por coisa demais para sua idade.

– Yashti fez sua escolha, e agora não podemos salvá-la – Barba Grisalha

disse. – Se vamos perder tempo caçando alguém, será a pessoa que causou aquela outra explosão de magia. Consegui descobrir que a assinatura era parecida com a de Alen, só que ele já estava morto havia dois dias. Há outra pessoa por aí que tem Afinidade com o fogo. Uma pessoa excepcionalmente poderosa.

Parecia que eles falavam sobre quem quer que fosse o responsável por ter

feito a pessoa que tentara matar meu pai pegar fogo. Se eles não sabiam quem tinha feito aquilo, não podiam ser os responsáveis. Mas então… quem seria?

– Se encontrarmos aquela pessoa, ela pode nos matar – a mulher com

cara de fuinha falou. – Não sabemos do lado de quem a pessoa está, e não somos em número suficiente para conseguir deter alguém tão poderoso.

– Devemos focar na própria magia – o rapaz disse. – Só porque temos

sido chamados de Dissidentes não significa que devemos perder de vista nosso propósito original. Não temos tempo a perder caçando membros desgarrados do Círculo nem tentando encontrar um feiticeiro que certamente já teria nos encontrado se quisesse. Se trabalharmos juntos, ainda há uma chance de criarmos uma espécie de dispositivo canalizador para diminuir a magia ambiente e tornar o uso e o desenvolvimento de nossos poderes mais seguros para nós. Aquela explosão que sentimos liberou um pouco da magia, mas ela está se acumulando novamente. Se pudéssemos encontrar uma forma de fazer aquela energia ser descarregada continuamente sem que nossa presença fosse necessária, poderíamos…

– É inútil. – O último integrante do grupo finalmente falou, e era uma

mulher pequena com cabelos escuros com fios brancos cujo semblante me lembrava um pouco Dennaleia. Sua voz tinha um sotaque carregado, as consoantes fortes. De Zumorda. – Mesmo depois da explosão, é como brincar com fogo tendo as mãos encharcadas de querosene. A magia aqui é tão sólida que dá para cortar.

Os Dissidentes estavam trabalhando com os zumordanos – pelo menos

aquilo era verdade. Mas o que significava? Apertei meus pés com força para aliviar as pontadas e agulhadas.

– Não deveríamos tentar isso sem Alen – disse a fuinha. – Deveríamos nos concentrar em continuar usando nossos feitiços menores como sempre fizemos.

– Concordo. Não temos mais o Alen. Só sobramos nós – Barba Grisalha disse.

– Não vai demorar muito até virem atrás de nós também – falou o rapaz mais jovem. – Precisamos tentar algo que ajude a diminuir o perigo mesmo se vierem atrás de nós.

– Construir um dispositivo canalizador é besteira – Barba Grisalha disse. – E, de todo modo, aqueles sem qualquer sensibilidade à magia nem notariam a diferença. Para fazer tal coisa, precisamos de pessoas mais fortes que nós. Pessoas com mais conhecimento.

– Mas com aqueles em Zumorda… – A voz do rapaz ficou ainda mais baixa.

Encostei o ouvido na fresta entre as tábuas para tentar escutar suas palavras. Uma delas se soltou imediatamente e caiu no chão do templo. O pânico me dominou. Os quatro feiticeiros olharam ao mesmo tempo para mim, o choque estampado em seus rostos. E depois, raiva.

– Peguem-na! – Barba Grisalha gritou.

Chutei as tábuas para fora da janela e elas cederam com um estrondo, indo ao chão. Era uma grande queda.

Mesmo assim, saltei.

Meus tornozelos doeram com o impacto, ainda que eu tenha tentado rolar depois de cair – exatamente em uma faixa de terreno repleta de mato e pedras, o que me deixou cheia de manchas com cheiro de dente-de-leão dourado e arranhões causados pelos pedregulhos pontudos. Eu me levantei num salto e parei apenas para enviar um chamado do noitibó, um sinal que Nils e eu costumávamos usar. E então corri.

Os quatro Dissidentes saíram correndo do templo e vieram atrás de mim. Eu queria ter dito a eles de algum modo que eu não tinha nenhum problema com o que eles estavam fazendo. Que não me importava que tivessem acesso ou não ao Grande Ádito, que mexessem com magia ou não. Eu só queria saber se minha família estaria segura, mas primeiro eu precisava garantir a minha própria segurança.

Um assobio cortou o ar e eu me virei em sua direção, interceptando Nils no cruzamento seguinte. Corremos por becos até meus pulmões arderem e meus pés doerem de tanto baterem contra as pedras. Retornamos ao castelo sem fôlego.

– Sabe que eles provavelmente nos seguiram – Nils falou. – Não sei bem

em que momento os despistamos. Talvez não tenha sido longe daqui.

Assenti.

– Sem dúvida.

Entramos por uma porta lateral e fomos aos meus aposentos. – Afinal, onde você estava? – perguntei, ainda tentando recuperar o

fôlego.

– Jilli estava quase atendendo à minha necessidade de permanecer mais

um tempo no Santuário depois que o culto terminou.

– Claro que estava.

Ele sorriu, mas não disse mais nada.

Contei a ele o que eu descobrira no templo antes de as coisas darem

errado.

– Então eles estão trabalhando com os zumordanos e usando magia…

mas ainda acreditam nos Seis? – ele perguntou.

Um sino soou no corredor, e Nils praguejou.

– Meu turno começa em menos de uma hora – ele disse. – Tenho que ir. Assenti.

– Pensaremos em outro plano para sair do castelo em breve. Ainda há

tantas coisas que precisamos investigar.

Nós nos abraçamos e, assim que ele saiu, um pajem surgiu diante da

minha porta.

– Mensagem da Princesa Dennaleia, Sua Alteza. – O pajem se curvou. –

Ela a convida para ir aos aposentos dela depois do jantar. Gostaria de enviar uma resposta?

Agora que eu sabia que a arqueira agira por conta própria, não com os

Dissidentes, e que fora paga por terceiros, eu conhecia um lado da história do qual ela provavelmente nunca tinha ouvido falar. Embora nossas aulas recomeçassem na tarde seguinte, não faria mal vê-la antes disso.

– Sim, por favor. Diga a ela que estarei lá. Obrigada – falei. O pajem se afastou.

Mas além de querer comparar informações sobre os Dissidentes, eu

estava feliz por ela não ter se esquecido de mim nos três dias que eu ficara sem vê-la.

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DEZESSETE

 

Quando recebi a resposta de Amaranthine após o jantar, várias coisas me ocorreram ao mesmo tempo: meus móveis estavam todos fora de lugar, meu penteado era formal demais e eu não fazia ideia de como entretê-la. A ansiedade tomou conta de mim ao pensar que ela estaria em meus aposentos. Era minha primeira oportunidade de estabelecer uma relação mais pessoal com ela, e ela era minha única esperança de parar o Conselho antes que eles descobrissem meu segredo. Além disso, eu queria impressioná-la, mostrar a ela que eu era mais que minhas tentativas desajeitadas de melhorar na equitação.

Sentei diante da minha penteadeira e comecei a tirar os grampos dos meus cabelos. Chamar Auna para que fizesse um penteado casual parecia tolo, e eu não queria que ela visse o quão agitada eu estava por causa de uma visita de Amaranthine. Com todos os grampos depositados sobre a mesa, cachos definidos desciam pelas laterais do meu rosto, indo em todas as direções. Grunhi desanimada. Os fios ainda cheiravam muito bem, devido aos perfumes que Auna usara neles naquela tarde, mas o visual era como se esquilos das montanhas nervosos estivessem morando ali havia semanas. Cerrando os dentes, lutei para prender os cabelos para cima novamente, alguns cachos rebeldes escapando. Teria que servir.

Pedi chá, mais para que eu tivesse algo para ocupar minhas mãos em caso de silêncios embaraçosos, e comecei a arrastar os móveis para que ficassem em uma disposição mais apropriada para receber visitas. Parecia errado pedir a alguém que fizesse aquilo para mim, já que, aos olhos das outras pessoas, aquela não era uma visita importante. Um vestido casual pôs fim aos meus preparativos. Ao me olhar no espelho, me perguntei se não estaria parecendo mais uma camponesa do que uma princesa, mas, enquanto considerava trocar de roupa mais uma vez diante do meu guarda-roupa, escutei uma batida na porta da antecâmara.

– Princesa Amaranthine, Sua Alteza – o vassalo a anunciou do lado de

fora dos meus aposentos enquanto ela entrava a passos largos. Embora várias horas já tivessem se passado desde a última vez que ela montara um cavalo, Mare ainda usava calça de montaria, mas elas estavam limpas demais para terem passado algum tempo no celeiro naquele dia.

– Boa noite, Sua Alteza – ela disse, com um toque de seu sarcasmo

habitual.

– Boa noite, Princesa Amaranthine – respondi num tom igualmente

sarcástico.

– Ugh! Eu gostaria que você parasse de me chamar desse jeito – ela

disse.

– Bem, então não me chame de Sua Alteza ou Princesa – retruquei. –

Não ouvi outra coisa de todos à minha volta o dia todo, e já estou farta disso.

– Justo – ela disse, desta vez com um sorriso sincero. Seus olhos

cinzentos se concentraram em mim. Sem o foco da minha aula de equitação, não havia assunto para interagirmos. Eu não sabia o que dizer. Pressionei um dedo na palma da minha mão para aliviar o formigamento que eu sentia ali.

– Gostaria de um pouco de chá? – Enchi a xícara sem esperar pela

resposta, ávida por ocupar minhas mãos com alguma coisa.

– Obrigada. – Ela pegou a xícara que eu enchera. – Que bom que as

noites estejam começando a esfriar. Estamos quase na época em que começamos a apreciar uma xícara de chá. Ou, melhor ainda, de chocolate quente.

– O outono também era uma das minhas estações favoritas na minha terra

Continuar: parte 5 de 6