Fogo & Estrelas
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
natal. Mas lá era diferente; as mudanças eram mais drásticas. Flores na primavera, as melhores comidas no verão. As folhas mudando de cor no outono, e neve no inverno. – Eu me remexia de nervoso. Por que eu estava tagarelando sobre o clima quando havia tantas coisas mais importantes a tratar?
– Neve? – Amaranthine perguntou. Ela foi até uma poltrona e se sentou,
cruzando as pernas na altura dos joelhos. Ela segurava sua xícara entre as mãos, minúsculas ondulações refletindo a luz quando ela soprava a bebida quente.
– Ah, sim. Mais neve do que você pode imaginar se nunca esteve nas
montanhas – falei, lembrando dos montes enormes de neve acumulados junto aos muros do castelo no inverno. Não demoraria muito para a primeira neve cair na minha terra natal, a tempestade se aproximando junto com aquele cheiro metálico estranho que sempre teve. Era o primeiro ano em que eu não estaria lá para correr para fora e deixar que os flocos de neve derretessem na minha língua para ter boa sorte.
– E então, o que você costumava fazer durante todos esses anos que passou trancada em casa por causa do inverno?
Relembrei os anos que vivera na minha casa, atrás de lembranças que pudessem ter algum significado para ela.
– Passava a maioria dos dias aprendendo alguma coisa. Tantas lições de etiqueta e tantas refeições envolvidas. E muitos livros também, mas esses não me incomodavam. – Amaranthine não precisava saber de todas as noites frias de inverno que eu passara tentando descobrir o que eu podia fazer com o fogo.
– Sem querer ofender, mas acho que eu teria achado tudo isso bem chato.
– Às vezes era. Mas meu contrato de casamento foi assinado quando eu tinha seis anos, então minha vida toda girou em torno de preparativos para ser a rainha de Mynaria. Só esqueceram do detalhe de aprender a andar a cavalo.
– Talvez seja a forma que o destino encontrou de nos unir. – Ela deu um sorriso de canto de boca.
– Duvido – falei. – Você certamente não fazia parte dos planos dos meus pais de me transformar na princesa perfeita. – Mas deveria ter sido. Nenhuma outra pessoa em Mynaria percebeu do que eu era capaz e me deu a chance de ajudar a Coroa.
– Bem, o destino e seus pais talvez tivessem ideias totalmente diferentes de como sua vida seria. Então tenha isso em mente também.
– Tanto o destino quanto os meus pais parecem ter as coisas muito bem planejadas para mim – falei. – Não é como se eu pudesse fugir e mudar de ideia sobre o que quero fazer. – E, sinceramente, tal coisa jamais passara pela minha cabeça. A certeza de um plano sempre fora algo confortável para mim. Mas agora, depois de ter atravessado dois reinos para chegar a Mynaria, o mundo me parece maior, e às vezes eu penso em como seria ter outra vida.
– Talvez seja melhor você não saber o que mais há lá fora e o que você poderia ter feito em outra vida. – ela falou sem sarcasmo. –Você acabaria com um monte de arrependimentos. Ou desejando que as coisas fossem diferentes.
– Mas é exatamente assim que me sinto – explodi. – Passei tanto tempo
sendo preparada para isso que não faço ideia do que eu quero. E ninguém, exceto você, me deixa fazer algo útil. Mas aprender a montar, a fazer coisas novas e tão diferentes, faz com que eu me sinta mais viva do que venho me sentindo há tempos. Talvez desde sempre. – E sentar ali com ela também fazia com que eu me sentisse desse jeito, fato que me deixava ainda mais nervosa naquele momento. Perceber o quão importante se tornara conquistá-la me dava medo.
Amaranthine me avaliou com o olhar.
– E você gosta de montar?
– Gosto pelo que a equitação está me ensinando. E estou até achando os
cavalos mais simpáticos, agora que eles já não parecem interessados em comer meus dedos. – Sorri.
Amaranthine riu.
– Acho que é mais porque você aprendeu a não dar seus dedos para eles
comerem.
– Enfim… por que você não apareceu no interrogatório hoje? –
perguntei.
– Ter todos aqueles idiotas no mesmo lugar era a chance perfeita de
escapar, é claro – ela disse.
–Você foi além dos muros do castelo? – Eu não conseguia acreditar na
audácia. Se eu não estava em segurança andando nas trilhas do lado de dentro dos muros, como ela esperava estar segura perambulando pelas ruas da cidade?
– Sim – ela respondeu. – Se você me contar sobre o interrogatório, conto
a você o que eu vi.
Contei a ela que a arqueira assumira a culpa no caso de Casmiel, e falei
sobre o marido dela que havia morrido.
– Mas não acho que ela seja responsável pela tentativa de assassinato do
rei. Ela não sabia de nada sobre a arma nem sobre a magia usada naquele dia.
– Bem, não tenho tanta certeza de que os Dissidentes sejam realmente
como nos contaram – ela falou. – Sim, eles se opõem à aliança, mas os ouvi falando sobre a arqueira. Aparentemente, ela era uma extremista, e agiu por conta própria quando atacou você. Ela e o marido receberam dinheiro de alguém chamado apenas de “o homem da sombra”. Os demais parecem ter outros planos, e falaram um monte de baboseiras sobre magia que não entendi. Algo sobre construir um dispositivo canalizador porque a magia ambiente em Mynaria é muito volátil.
Quase derrubei minha xícara de chá. Não era de admirar que meu dom estivesse constantemente fora de controle. Aquela era a peça que faltava. Algo no reino de Mynaria estava alimentando a volatilidade do meu poder. E o mais importante: havia pessoas lá fora que entendiam de magia, pessoas que poderiam me ajudar a controlá-la. Talvez elas pudessem me dizer como me livrar da minha, ou como proteger a mim mesma. Se elas podiam canalizar a magia de um reino, certamente poderiam removê-la de uma pessoa. Se houvesse como sair do castelo, eu poderia perguntar a elas.
– Continuo procurando respostas com relação à faca – falei. Parecia tão pouco perto do que ela havia feito.
– E então, vai me mostrar como se toca esse instrumento bobo ou não? – Ela apontou para minha harpa, que estava devidamente posicionada no canto, o abeto entalhado cálido e convidativo à luz da noite. Sua presença representava o conforto da minha terra natal, as cordas tão familiares que eu não me lembrava de um dia não ter sabido tocar.
– Creio que eu possa mostrar – falei, sentindo uma descarga nervosa. Todas as músicas que eu sabia de cor pareciam triviais e rebuscadas demais para Amaranthine. Abri o baú aos pés da minha cama e vasculhei minhas partituras, até que encontrei uma peça incomum que fazia anos que eu não tocava.
– Acho que começaremos com esta – eu disse, e lhe entreguei a partitura para que eu pudesse guardar as outras. Nossos dedos roçaram uns nos outros, fazendo com que meus pensamentos se dispersassem feito um bando de pássaros. A magia formigava nas pontas dos meus dedos, e temi que ela sentisse o calor do meu dom quando a toquei.
Sentei junto à minha harpa, respirei fundo e comecei a tocar, logo me esquecendo da presença de Amaranthine. A peça começava com ritmos incomuns, acelerava deliberadamente e então explodia em complexidade crescente. Meus dedos subiam e desciam com as mudanças de tempos, transformando melodia e contraponto em notas que pairavam no ar feito estrelas. A música acabou com meu nervosismo, e me encheu de tranquilidade e propósito. Por fim a melodia partiu do modo como tinha chegado, encontrando seus caminhos intrincados para fora dos ritmos e então voltava e se transformava em uma nota simples e assombrosa que levava a um encerramento sombrio.
Deixei as notas finais preencherem o ar e ergui os olhos para
Amaranthine. Ela olhou para mim com uma expressão suave que eu jamais vira nela. Meu rosto corou. A apreciação da minha música por ela gerou uma onda de prazer em meu corpo – uma onda que eu jamais sentira ao tocar para qualquer outra plateia.
– Acho que você não precisava da partitura – ela disse. – Seus olhos
estavam fechados durante os últimos vinte compassos pelo menos. Foi formidável.
– Ah, não foi nada – falei, embora o elogio tivesse provocado uma
descarga elétrica dentro de mim.
– Eu adoraria ouvir outra música. – Ela se inclinou para a frente. – O que quer ouvir? – perguntei.
– Qualquer coisa – ela respondeu.
Repassei as opções mentalmente antes de escolher uma que ela
certamente conhecia: “O Troféu do Soldado”. Era uma canção mynariana originalmente cantada em bares, mas se tornara tão popular que agora até as crianças mais novas sabiam cantar o refrão. Sorri para Amaranthine e comecei a tocar. Ela riu ao reconhecer a melodia, e, enquanto eu executava a música simples, ela zunia junto. Eu esperava que ela cantasse, mas ela se limitou a cantarolar o refrão.
Passei para a música seguinte sem parar para pedir permissão. Ela nem
cantarolou naquela, então eu pulei a ponte e fui para a próxima. Foi só quando eu toquei uma balada lenta e doce que ela finalmente cantou junto. No início, ela cantou tão baixinho que eu quase não conseguia ouvir, mas, conforme foi ganhando confiança, ela soltou sua voz de contralto que subia e descia com a melodia, suave e lúgubre como veludo de Havemont. Entoei um contraponto acima da voz dela, deixando-a carregar a melodia enquanto eu ampliava a dimensão da música. A canção tinha vários versos, e a cada um deles soávamos melhor. Ela me surpreendeu ao fazer uma harmonia grave quando voltei à melodia, encontrando as notas como uma musicista habilidosa.
– Fazia séculos que eu não cantava – ela disse quando terminamos, suas
bochechas coradas.
– Não devia parar nunca – eu disse sem pensar.
Ela não respondeu, mas ficou encabulada e virou a cabeça para o lado. Aquela Amaranthine não era a garota irascível das minhas aulas de equitação nem a encrenqueira que estava sempre saindo do castelo. Ela era outra coisa, algo mais – uma pessoa capaz de se entregar à música comigo e nos deixar sem fôlego.
Comecei outra canção que combinaria com sua voz, e ela me acompanhou novamente. Tocamos e cantamos por muitas horas além de uma visita de cortesia, e finalmente paramos quando meus dedos começaram a doer e o que restava do chá já esfriara havia muito tempo. Tarde da noite, com os dedos cansados e a voz esgotada, eu me sentia como eu mesma pela primeira vez desde que chegara a Mynaria.
Quando chegou a hora de ela ir embora, eu a acompanhei até a porta, nós duas arrastando os pés como se quiséssemos que o tempo parasse.
– Queria que você não precisasse ir embora. – As palavras escaparam da minha boca e eu corei.
– Bem, não posso dormir no chão diante da sua lareira feito um cachorrinho – ela disse com um sorriso.
– Sei que não pode, mas me diverti tanto esta noite. Foram as melhores horas que passei aqui desde que cheguei.
– Não diga isso ao meu irmão. Ele é do tipo ciumento. – Os olhos dela brilharam sob a luz tênue do cômodo, suas íris cinzentas se transformando em lagos sombrios que ameaçavam me engolir completamente. – Também me diverti muito. Obrigada. – Ela estendeu a mão.
Algo brotou em mim, um desejo de que ela me tocasse. Meu mundo todo se reduziu a nós duas e à sua mão estendida, seguido por uma decepção repentina quando ela deixou a mão cair ao lado de seu corpo.
– Vejo você amanhã – ela disse por fim. – Boa noite, Denna. – O apelido me aqueceu feito um abraço.
– Boa noite, Mare – falei, mas ela já saía pela porta e se afastava pelo corredor. Estiquei o pescoço para enxergar além do vassalo que guardava minha porta, até que ela desapareceu na quina, e tornei a entrar em meus aposentos com um suspiro. A ausência dela deixava o cômodo mais frio.
Levei o livro sobre manufatura de espadas para a cama comigo e li à luz do lampião a querosene, sentindo o formigamento da magia que não me deixava dormir. Bem quando meus olhos pareciam pesados demais para permanecer abertos, encontrei algo interessante no capítulo sobre diferenças regionais quanto às técnicas de forja. O livro dizia que o aço forjado por artesãos do leste tinha um aspecto ondulado incomum, graças às dobras extras do aço. Se eu me lembrava bem, a adaga usada na tentativa de assassinato era brilhante e lustrosa.
Se aquilo fosse verdade, não havia como a lâmina ter sido forjada em
Zumorda.
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DEZOITO
Selei Flicker pouco depois da aurora e acompanhei a Capitã Ryka e os
vassalos novatos em uma sessão de treinamento de tiro com arco a cavalo. Aquilo me parecia mais necessário que nunca depois da emergência com Denna nas trilhas. Uma melodia doce ainda tocava em minha mente depois da noite que passara em sua companhia, o que me enchia de energia. Foi mais difícil que o normal fazer Flicker encontrar nosso ritmo familiar, o movimento de seu galope diminuindo a tensão em nossos corpos até conseguirmos cavalgar de forma equilibrada e firme, com suas bufadas se tornando tão regulares quanto um metrônomo. Quando formamos uma fila para atirar, ousadamente entrei logo atrás da capitã, um lugar que ninguém queria, já que era impossível superá-la. Seu gibão de couro se ajustava ao seu corpo feito uma luva de pelica para montaria, simples e marcado como aqueles usados por seus guardas. Atrás de mim, os novatos faziam apostas aos sussurros, longe dos ouvidos da Capitã Ryka.
– Um jarro de cerveja para o melhor atirador – um homem sugeriu. – Uma rodada para os seus amigos também!
– Esqueça a cerveja. Quero ser o primeiro a atirar quando sairmos para
capturar mais Dissidentes – disse outro. – Hereges nojentos.
– Um prêmio melhor ainda! – outro novato concordou. Os novatos costumavam ser empolgados demais devido à inexperiência,
mas me incomodava ver o quão irrestrito o ódio pelos Dissidentes havia se tornado. Aquilo se infiltrava em toda conversa feito veneno.
Ryka se movia como se fosse uma extensão de sua égua castanho-
avermelhada ao incitar o cavalo a andar a meio-galope a partir da linha. Ela atirou e acertou com precisão e eficiência, suas flechas disparando velozes e firmes no pico exato da passada do cavalo. Não havia ego nem exibicionismo – apenas os movimentos bem treinados de alguém que passara anos fazendo aquilo.
Eu me concentrei e tentei imitar a tranquilidade inflexível de Ryka. Quando chegou minha vez de atirar, Flicker e eu nos movíamos como se fôssemos um só. Meus três tiros partiram com a elegância de uma equação matemática, cada uma das flechas acertando o centro do alvo. Os novatos ficaram boquiabertos com minha segunda rodada de flechadas no alvo junto com as da capitã e me perguntaram o que eu tinha comido no café da manhã e onde eles poderiam conseguir a mesma coisa.
Embora o tiro com arco tivesse mantido meu corpo e minha mente ocupados, eu me animei cuidando de Flicker mais tarde. Saber mais sobre os Dissidentes me dava um propósito, bem como saber que eu tinha Denna ao meu lado.
– Mare!
Ergui os olhos e vi Denna correndo na minha direção.
– Mare, descobri uma coisa – ela disse ofegante, suas bochechas coradas no mesmo tom de rosa do vestido que ela usava.
– O quê?
Ela se aproximou mais e sussurrou com um senso de urgência.
– A faca. Acho que descobri algo que pode nos ajudar com relação à faca. – Seus olhos verdes brilharam enquanto ela cumprimentava Flicker dando um tapinha em sua espádua.
– Verdade? – A esperança cresceu em mim.
Ela assentiu enfaticamente, passando a mão pelo pescoço escovado de Flicker.
– Vamos sair com Flicker. Podemos conversar lá fora – falei. O celeiro estava numa agitação só, e eu não queria que ninguém nos ouvisse. Depois de uma última escovada nos pelos de Flicker, eu o conduzi até o pasto e Denna nos seguiu. Com o vento em nossas costas, o perfume de rosas dela flutuava até mim, fazendo com que eu desejasse tê-la mais perto. Minha preocupação com ela desde a noite anterior estava começando a me assustar um pouco. Ter cantado com ela havia destravado algo entre nós, e agora não havia como voltar atrás.
Flicker entrou em seu cercado com a animação habitual. Eu me posicionei contra o vento para evitar o perfume de Denna e afastei meus pensamentos tolos enquanto pendurava o cabresto de Flicker na cerca.
– O que você descobriu? – perguntei.
– Acho que a faca é uma imitação – ela disse. – É forjada ao estilo de uma lâmina zumordana, mas com o metal errado. Lembro que o metal era muito lustroso, o que pode significar que o aço não foi forjado corretamente.
– Como diabos consegue afirmar isso? – eu a perscrutei. – Achei uma seção desse livro que estou lendo sobre manufatura de
espadas. Se a lâmina fosse zumordana, haveria um padrão granuloso no aço. Eu devia ter descoberto essa informação antes, mas o livro tem no mínimo umas oitocentas páginas e só cheguei até a metade.
– Você é incrível – falei. Ela descobrira o que precisávamos saber. Se a
lâmina era uma imitação, poderia apontar para outro inimigo que não Zumorda. Então poderíamos descobrir onde havia sido forjada.
– Ah, não, nada disso. Você mesma teria descoberto se estivesse lendo
aquele livro. – Ela deu um sorriso tímido, fazendo com que eu sentisse um calor que nada tinha a ver com o sol. Eu gostava quando ela sorria daquele jeito para mim, o que me deixava incomodada. Eu não deveria me sentir tão fascinada por alguém prometida ao meu irmão.
Seus olhos brilhavam de empolgação.
– Talvez alguém na cidade saiba de mais alguma coisa. Naquela vez que
você entrou pela minha janela, disse que tinha ido à cidade. Você tem algum contato que possa usar para descobrir onde se poderia conseguir uma réplica de arma? Tenho uma ideia, mas não é alguém que eu conheça bem o suficiente para considerar como uma fonte confiável.
– Contatos na cidade eu posso arranjar. Nils também. Mas como
podemos checar a lâmina se a Capitã Ryka está com ela?
– Só precisamos roubá-la. – Ela se empertigou, assumindo um ar
obstinado.
–Tirar algo da sala de comando da capitã é pedir para ser esfaqueado até
a morte. Eu jamais faria isso sozinha – falei. Mas enquanto eu dizia aquelas palavras, um plano se formava em minha mente. Os vigias eram trocados regularmente, e eu poderia conseguir a escala com Nils, e não precisaria de muita prática para relembrar aos meus dedos como abrir uma fechadura com um grampo de cabelo dobrado…
– Ajudo você – Denna disse.
Meu processamento mental parou subitamente. – Sem chance. Se você se machucar ou for pega se esgueirando por aí no
meio da noite… Não quero nem pensar na repercussão que isso teria. – Embora eu estivesse acostumada a me meter em confusão, Denna não podia correr o risco de se envolver.
– Foi você que me envolveu nisso – ela disse pertinaz, a determinação brilhando em seus olhos. – Não pode pedir minha ajuda e depois esperar que eu me retire assim que as coisas se complicam. Além disso, eu poderia servir de distração. Não preciso fazer nada que possa resultar em facadas.
Eu não gostava do rumo que a conversa estava tomando.
– Façamos um trato – ela disse. – Vou ajudar você a recuperar a faca. Se nossas suspeitas estiverem certas, você contará ao rei o que descobrirmos e eu não vou me meter nisso. Em contrapartida, você me levará para fora do castelo quando sair em busca de mais informações.
–Você só pode estar brincando. – Se deixá-la me ajudar a recuperar a faca já era uma má ideia, levá-la à cidade, onde ela poderia ser ferida, sequestrada ou morta era mil vezes pior. Encher a cara e nadar pelada no lago do pasto dos cavalos em plena luz do dia tinha muito menos potencial para o desastre.
– De jeito nenhum.
– Por quê? Se um dia eu for rainha, deverei ver a cidade do ponto de vista de seu povo. Devo tentar entender o povo para que possa governar mais sabiamente.
Sua justificativa me parecia questionável. Mas que se danasse! Eu precisava descobrir quem tentara matar meu pai.
– Não é seguro. E se alguém a reconhecer?
– Como poderiam? – ela retrucou. – Não saio do castelo desde a morte de Casmiel. Não fizemos uma turnê pela cidade, nem mesmo tivemos uma apresentação formal por questões de segurança. Em hipótese alguma o rei me deixará sair daqui.
– O que torna ainda mais difícil tirar você do castelo.
– Inventaremos algum disfarce. Por favor? Faço o que você quiser – ela implorou.
– Vou pensar a respeito – falei.
– Não há tempo para pensar – ela disse. – Esta é a primeira pista que temos. Precisa ser seguida sem demora.
Ela tinha razão. Mas levá-la para a cidade disfarçada era uma péssima ideia. Mesmo assim, eu estava um pouco fascinada pelo desafio de tirá-la de dentro do castelo.
– Tudo bem. Podemos discutir os detalhes depois da sua aula de equitação desta tarde. Preciso voltar aos meus aposentos para uma prova de roupas. – Fiz uma careta.
– Oba! – Ela uniu as mãos e deu saltinhos de alegria com um sorriso
radiante.
Nunca a alegria de alguém fora tão contagiante para mim. Como na noite
anterior, eu queria estender a mão e tocá-la, para validar de algum modo a energia que surgira entre nós feito um relâmpago. Mas não ousei fazê-lo. Em vez disso, fiquei lá parada sorrindo para ela, me perguntando onde eu havia me metido.
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DEZENOVE
Depois da minha descoberta no livro sobre manufatura de espadas, achei
que nada pudesse minar minha alegria. Mas enquanto Ellaeni e eu almoçávamos na pérgula da rainha onde o bazar de casamento tinha sido realizado, um trovão retumbou e a chuva começou a cair sobre as alamedas de pedras do jardim externo. O vento ficou mais frio, entrando em rajadas para dentro do cômodo enquanto relâmpagos cortavam o céu. Os criados correram para colocar as venezianas de madeira no lugar para separar a parte coberta da pérgula do jardim, e as gotas de chuva começaram a atingir as lâminas de madeira até entrarem no ritmo, uma sinfonia de gotas batendo e pingando.
– As tempestades de fim de verão são sempre as mais fortes – Ellaeni
observou.
– Pior para minha aula de equitação – falei decepcionada, enfiando meu
garfo em uma fatia grossa de tomate da minha salada. Desde a conversa que eu tivera com Mare sobre a faca naquela manhã, o próximo passo de nossos planos não me saía da cabeça.
– Está gostando de andar a cavalo? – Ellaeni perguntou com um sorriso.
– Amaranthine parece ter uma personalidade forte.
– Pode-se dizer que sim. Mas ela é mais do que as pessoas enxergam. –
Ela sabia cantar, por exemplo.
– Eu gostaria de conhecê-la melhor – Ellaeni disse. – Ela me faz lembrar
de alguém da minha terra natal. Alguém de quem sinto muita saudade. – Ellaeni desviou o olhar para a janela embaçada pela chuva com uma expressão melancólica.
– Também sinto saudade de casa – falei. Embora Ellaeni e eu viéssemos
de lugares diferentes, tínhamos aquilo em comum.
– Em Trindor eu tinha meu próprio navio – ela disse. – Uma tripulação
sob meu comando.
–Verdade? – perguntei intrigada. Aquilo parecia inimaginável para alguém tão tímida quanto Ellaeni, que mal conseguia ler poesia sem gaguejar.
– Sim. Assim como saber cavalgar é importante aqui, dominar o oceano é um rito de passagem em Trindor. Vir para cá e ficar presa em terra firme… Fico feliz em ver a chuva. O deus da água não se esqueceu de mim, no fim das contas – ela disse, desenhando o símbolo do deus à sua frente. – Todos esses dias secos, estas roupas que limitam meus movimentos… Quase me fizeram esquecer quem eu sou. – Uma impetuosidade surgia nela conforme a chuva carregava para longe sua timidez, revelando brevemente a garota que conhecia a si mesma.
– Por que está aqui? – perguntei. – Não serviria melhor ao seu povo sendo capitã?
– Ainda pretendo fazer isso – ela disse. – Mas minha mãe é uma velha amiga de Hilara, e as duas decidiram que eu deveria passar pelo menos uma temporada no interior. – Ela espetou um pedaço de tomate com uma força desnecessária.
Tentei ao máximo manter uma expressão neutra, mas alguma contração involuntária dos meus lábios deve ter me traído.
– Vejo que Hilara também não lhe agrada – Ellaeni observou.
– Não é nenhum segredo que Havemont não era sua primeira opção para uma aliança – falei, incerta sobre o que Ellaeni sabia.
– Não é nenhum segredo a obsessão dela pelos zumordanos e sua magia – Ellaeni disse. – Ela provavelmente acha que eles conhecem algum feitiço que lhe dará vida e beleza eternas. Talvez eles tenham.
– Seu povo usa alguma magia? – tentei perguntar casualmente, mas senti o formigamento do meu dom aumentar com a minha curiosidade.
Ellaeni balançou a cabeça.
– Não, mas algumas pessoas de Trindor têm uma ligação com o deus da água que lhes permite pressentir coisas como tempestades e marés vermelhas; o sentido do oceano. É um dom passivo. Algumas pessoas nem acreditam que seja real, mas aqueles que têm o dom do oceano parecem ter uma sorte incomum. Eles sobrevivem. Eu não tenho esse dom, mas um dos membros da minha tripulação tem. Já vi o suficiente para acreditar.
Eu me reclinei na cadeira. Em que momento ficara decidido que havia uma diferença entre ter Afinidade e ter uma ligação com um deus? Os deuses eram venerados em toda Mynaria, mas pessoas que tinham dons eram condenadas. Religião e magia deviam estar ligadas de alguma forma, mas, se isso fosse verdade, o abismo na percepção das duas coisas pelas pessoas não fazia sentido.
Ouvimos uma batida à porta da pérgula e um pajem adentrou o recinto. – Mensagem da Princesa Amaranthine, Sua Alteza – ele disse. – Não
haverá aula hoje por causa da chuva. Em vez disso, ela a convida para visitar seus aposentos assim que tiver um tempo.
– Obrigada – falei. – Por favor, diga que aceito o convite. O pajem se curvou e partiu depressa com a minha mensagem. – Ela deve gostar de você para lhe fazer esse tipo de convite – Ellaeni
observou.
Um calor que decididamente não tinha nada a ver com magia subiu para
as minhas bochechas. Pensar que Mare gostava de mim era ao mesmo tempo excitante e assustador – excitante porque parecia que eu havia conquistado uma das pessoas mais difíceis do castelo, e assustador porque eu estava perdendo o foco em minhas obrigações. Eu precisava me concentrar no sucesso da aliança e em Thandi.
Ellaeni apenas sorriu.
– Fique à vontade para cuidar de suas coisas – ela disse. – Sei que sua
presença é esperada em certos lugares. Agradeço muito pelo convite para o almoço.
– O prazer foi meu – falei, e apertei sua mão em uma despedida. Os aposentos de Mare ficavam a uma curta distância da pérgula, e não
havia motivo para retornar ao meu quarto. Auna me importunaria para que eu arranjasse algum tipo de entretenimento para os nobres ou me encorajaria a responder à carta da minha mãe. Eu não estava com vontade de mentir para minha mãe naquele dia. Ergui minhas saias e corri para os aposentos de Mare, mas, ao dobrar a última quina, trombei com uma pessoa.
– Oh, desculpe! – Cambaleei para o lado e soltei as saias para recuperar o
equilíbrio.
– Princesa Dennaleia – Thandilimon me cumprimentou. Um sorriso
surgindo fácil em seu rosto.
– Sinto muito. – Corei de vergonha e me afastei da parede. – Eu é que peço desculpa – ele disse. – Eu não estava olhando por onde
andava. Você é exatamente quem eu queria encontrar. Achei que sua aula de equitação talvez fosse cancelada por causa da tempestade.
– Sim, foi – respondi. – O pedido de desculpa dele me deixou ainda mais embaraçada. Certamente não era culpa dele que eu praticamente o tivesse atropelado. Mordi o lábio e olhei por cima de seu ombro para onde ficava do quarto de Mare mais adiante no corredor, e dei alguns passos naquela direção, esperando que ele entendesse aquilo como um sinal de que eu ainda tinha um lugar em que precisava estar.
– Ótimo! Nesse caso, gostaria de me acompanhar em um passeio? Eu queria mostrar a você algumas partes do castelo que talvez você ainda não tenha conhecido por conta própria. – Ele me ofereceu seu braço.
– Na verdade, eu estava indo me encontrar com Amaranthine – falei.
– Tenho certeza que você poderia aproveitar para tirar uma folga dela – Thandi disse.
Hesitei. Deveria ter sido fácil trocar meus planos com Mare por meu futuro marido. O príncipe vinha primeiro, assim como minha obrigação para com ele.
– Tudo bem. – Cedi, torcendo para que minha frustração não fosse visível em meu rosto. Segurei em seu braço e começamos a nos afastar, indo na direção de onde eu viera.
– Sinto muito por ter estado tão ausente nos últimos dias. O Conselho anda absurdamente ocupado interrogando os Dissidentes que capturamos. Meu pai quer que eu compareça a todas as sessões. – Ele olhou para mim enquanto caminhávamos, seus olhos azuis examinando meu rosto.
– Deve ser muito cansativo, milorde. Já descobriram alguma pista sobre o ataque com a faca? – Se eu tinha que passar um tempo com ele, bem que poderia obter alguma informação para levar a Mare.
– Não, nada ainda. Estamos tentando descobrir quem são os apoiadores zumordanos do responsável pelo ataque, mas Hilara está sempre atrasando o processo. Ela continua pressionando para que façamos algum tipo de pacto ou aliança com eles.
– Intrigante. Qualquer um acharia que todos se concentrariam em encontrar as pessoas responsáveis o quanto antes, independentemente de quem sejam – falei.
– Concordo. De todo modo, sinto muito por não termos mais passado tanto tempo juntos. Tem sido muito difícil com o castelo isolado, e ainda há todas essas suas aulas de equitação. – Sua expressão ansiosa fazia com que eu me sentisse ainda mais culpada por não me importar com a ausência dele.
– Sim, as aulas de equitação tomam um tempo considerável – falei. – Espero que minha irmã esteja usando as poucas boas maneiras que tem. – Podemos ser bem diferentes, mas não acho que ela seja uma má
influência – eu disse. Foi a resposta mais diplomática que consegui arranjar.
– Claro que não. Tenho certeza que uma dama como você não se deixaria
levar por nenhuma de suas ideias malucas.
Se ele soubesse por que eu estava com tanta pressa, ou que eu tinha toda
intenção de deixar que ela me ajudasse a sair do castelo…
– Não acho que ela seja diferente de um jeito ruim – falei. – O que se
espera dela é diferente do que é esperado de mim ou de você. Ela é o que é, em parte, por causa disso, enquanto somos o que somos por causa do que esperam de nós.
– Bondade sua pensar desse jeito – ele respondeu. Nossa conversa foi interrompida quando ele soltou meu braço para que
pudéssemos descer um atrás do outro numa escada estreita perto dos fundos da ala real. Desci com cuidado, quase certa de que rolaria até o último degrau em um monte de seda cinza e arruinaria ainda mais minha dignidade.
Ao chegarmos ao último degrau, paramos diante de uma porta. A
madeira era grossa e pesada, marcada pelos anos. Thandilimon tirou um lampião de um gancho próximo e me conduziu porta adentro, sua mão pousada na curva da minha cintura. A luz do lampião iluminava nossos pés ao entrarmos em um corredor vazio, nossos passos ecoando no piso de pedras. As arandelas nas paredes eram em menor número e mais espaçadas do que lá em cima no castelo, com as áreas entre elas mal iluminadas e envoltas em sombras.
Thandilimon me surpreendeu ao pegar minha mão em vez de oferecer
seu braço novamente. Meu coração bateu mais forte. Respirei fundo para tentar me acalmar.
– Este caminho leva ao arsenal – Thandilimon disse. – Desculpe, milorde, mas há algo que queira me mostrar aqui embaixo? –
Ficar a sós com ele no escuro me deixava nervosa, e quanto mais ficássemos perambulando, menos tempo eu teria para desfrutar da companhia de Mare.
– Para ser sincero, eu só queria ficar longe de todo mundo um pouco.
Participar de tantas reuniões do Conselho para discutir sobre Zumorda e os Dissidentes é exaustivo. Duvido que haja alguém aqui embaixo, exceto os vassalos que patrulham a área de vez em quando. Sei que você provavelmente não tem interesse em armas, mas é aqui que guardamos os tesouros singulares que a Coroa acumulou ao longo dos anos. Talvez você também esteja curiosa com relação às passagens.
– Passagens? – eu disse.
– Sim. Há passagens subterrâneas que levam a diferentes partes do castelo, e também para a área externa, como o celeiro. Elas são nossas rotas de fuga em caso de sítio. Esta é a entrada do arsenal. – Thandilimon apontou para uma porta pesada à esquerda. – Se seguir por esta passagem, chegará ao salão principal. A biblioteca fica à esquerda, na metade do caminho.
– Há uma entrada nos fundos da biblioteca? – Eu me animei. Teria sido útil saber disso quando eu estava fazendo minha pesquisa sobre Zumorda.
– Sim. E se tomar o caminho do sul quando chegar ao último degrau daquela escada que descemos, encontrará um túnel que leva ao celeiro. Dá na sala em que guardamos a comida dos animais. Mas não recomendo que tome esse caminho. Não é iluminado e, se você tomar o caminho do lado por engano, acabará nos fundos da masmorra.
– Não imagino por que eu precisaria seguir por qualquer um deles – falei, já imaginando se haveria algum que poderia ajudar a mim e a Mare a chegarmos à cidade.
– Mare e eu costumávamos usar o túnel que dá no celeiro quando tentávamos escapar de nossas aulas de história. Não sei se algum dia descobriram como fazíamos para chegar ao celeiro. – Ele sorriu ao recordar o que devia ter sido uma boa lembrança.
Algo em seu sorriso me lembrou Mare, e a semelhança me fez sorrir também. Ele soltou minha mão e passou um braço em volta do meu corpo, roçando as pontas dos dedos suavemente no meu ombro. Eu sentia a pulsação nos meus ouvidos tão forte que certamente ele devia tê-la escutado também. Paramos diante de uma porta fechada, e ele pousou o lampião no chão. Mas em vez de abrir a porta, ele segurou minhas mãos.
– Dennaleia. – Ele me olhou nos olhos, com aquele tom de sinceridade de volta à sua voz. – Sei que as coisas não têm saído como esperado, mas acha que poderia ser feliz aqui em Mynaria algum dia? Comigo?
Minha mente estava acelerada, tentando encontrar a resposta certa. A felicidade seria mais realista assim que a aliança fosse concretizada e a agitação no reino diminuísse. Mas me parecia importante que ele acreditasse em mim, e em nós. Do contrário, eu jamais seria para ele a conselheira confiável que Casmiel esperava que eu fosse.
– Claro que sim – falei.
– Fico feliz em saber disso – ele disse com uma voz afetuosa. Então ele se inclinou e me beijou.
Esperei que as emoções brotassem como Alisendi me dissera ao
relembrar seus encontros amorosos, mas a única coisa que senti foi medo de não saber o que fazer. A boca dele era mais molhada do que eu esperava, o lábio superior estava úmido de suor. Tentei retribuir o beijo. Ele se aproximou mais e tentou me beijar mais intensamente, mas eu o afastei e me soltei dele.
– Está tudo bem? – ele perguntou.
– Er… sim. – Eu não sabia o que mais eu poderia dizer. Admitir que a
ideia de beijá-lo de novo me dava vontade de correr para os meus aposentos não era uma opção. Engoli em seco. Em breve nos casaríamos. Certamente melhoraria com o tempo.
– Não farei nada que você não quiser.
– Claro.
Ele me beijou na mão e na bochecha. Não mexi um músculo, como se
tivesse medo de espantá-lo, quando na verdade era eu quem queria fugir.
– Vamos voltar, então – ele disse, sorrindo para mim. – Posso lhe mostrar
as outras passagens.
Assenti em silêncio e o segui, me desculpando mentalmente com Mare
do fundo do meu coração. Eu teria que enviar um pajem com uma desculpa por não ter ido ao seu quarto como prometera. Eu esperava que ela me perdoasse.
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VINTE
Muito tempo depois do horário em que Denna deveria ter me visitado,
um pajem entregou um pedido vago de desculpa da parte dela. Fiquei chateada, mas o plano que eu elaborara exigia duas pessoas, e não era algo que Nils pudesse ser pego fazendo – eu precisava de ajuda. Enviei uma mensagem pedindo a Denna que me encontrasse antes da troca de turno da meia-noite. A pressão que eu sentira o dia todo no peito sumiu quando ela surgiu no corredor em frente à sala do Conselho feito uma sombra, mas não havia tempo de perscrutar meus sentimentos. Tínhamos que focar em pegar a adaga.
– Sinto muito por esta tarde – ela disse, pedindo desculpa de chofre. –
Esbarrei em Thandi enquanto me dirigia ao seu quarto, e não consegui me livrar dele. Ele me levou para os túneis, e…
– Tudo bem. – Eu a cortei. – Que bom que está aqui agora. – Tentei não
pensar no que meu irmão andara fazendo com ela nas catacumbas. Quando era mais novo, ele costumava levar garotas bonitas lá para baixo para tentar beijá-las, e pensar nele beijando Denna quando ela deveria estar conspirando comigo era irritante.
Expliquei meu plano para recuperar a faca, mostrando a Denna o grampo
de cabelo que pretendia usar para abrir a fechadura da sala de comando de Ryka. Com os detalhes acertados, tomamos nosso rumo junto à parede de pedras rústicas do corredor, aproveitando as sombras compridas projetadas pelas poucas arandelas cujas chamas ainda ardiam no meio da noite.
– Está vendo o guarda? – Denna sussurrou.
– Shh. – Levei o dedo aos lábios para pedir silêncio, esperando que o
guarda passasse pelo corredor onde estávamos escondidas.
Denna se desequilibrou um pouco ao se inclinar para espiar ao meu lado,
e eu a agarrei bem a tempo de impedir que ela derrubasse a armadura atrás da qual nos escondíamos. Por que a Capitã Ryka insistia em manter aquelas latas velhas semienferrujadas em exibição era um mistério. Olhei feio para Denna, embora eu soubesse que ela não podia me ver no escuro. A garota obviamente não tivera muita experiência de se esgueirar na infância. Até mesmo chegar ali tinha sido como fazer um cavalo andar sobre ovos.
A malha de aço tilintou quando o vassalo passou por nós. Era hora. Todo o plano dependia de conseguirmos chegar à porta da sala de comando da capitã e entrarmos durante o breve período em que o guarda estivesse atrás da dobra do corredor. Saí de trás da armadura.
– Ei, você! – o vassalo gritou, virando-se com sua alabarda em posição de ataque.
Droga.
O vassalo deu uma risadinha assim que surgi sob a luz tênue – um dos sons menos amigáveis que eu já ouvira.
– O que faz aqui, Sua Alteza? – ele perguntou, baixando a arma. – Procurando carne fresca de vassalo? – Ele movimentou sua alabarda de forma sugestiva.
Percebi que havia dado de cara com Jox – o único vassalo arrogante e idiota o bastante para falar de forma condescendente com um membro da família real. Um dia eu ainda faria com que fosse dispensado para garantir que não voltasse a incomodar mais ninguém.
– Sim, Jox. É claro. Por isso estou aqui. Porque não consigo parar de pensar em você. – Passei por ele, tentando atraí-lo para longe de Denna. Eu esperava que ela tivesse o bom senso de aproveitar a oportunidade e fugir. Poderíamos nos encontrar para pegar a faca outro dia.
– Talvez você seja mais esperta do que dizem – Jox falou, obviamente sem notar o meu sarcasmo. – Embora pareça um de nós com as calças que usa. Devia tentar usar saias às vezes. Facilitam o trabalho dos homens.
– Dica de vestimenta de um vassalo – falei. – Agora já ouvi de tudo na vida.
– Deixe que eu mostre a você o que é um homem de verdade – Jox disse. – Meu turno termina daqui a quinze minutos, mas posso encerrar um pouquinho antes. – Seu olhar de predador me fez desejar que eu tivesse uma arma melhor do que o grampo de cabelo dobrado escondido entre meus dedos.
Pelos deuses! Eu esperava que Denna tivesse escapado. Arrisquei um olhar de relance por cima do ombro de Jox e mal consegui segurar meu repertório inteiro de xingamentos. Atrás dele, Denna se esgueirava contra a parede, indo em direção à porta da sala de comando da capitã. Se ela fizesse o menor ruído, ele se viraria e a pegaria em flagrante. Então eu fiz a única coisa que me veio à cabeça: esbarrei na armadura enferrujada mais próxima e derrubei a coisa toda no chão. O metal produziu um som agudo contra o piso enquanto as partes da armadura se espalhavam.
– Ops. – Pisquei de forma sedutora. – Sinto muito, Jox. Ele cuspiu um palavrão e começou a juntar as partes. Eu me inclinei para
ajudá-lo, deixando as coisas escaparem das minhas mãos o máximo possível. Quando ele me enxotou, feliz em me ver partir, o corredor estava silencioso e vazio novamente. Passei pela porta da sala de comando intencionalmente, esperando descobrir que Denna tivesse ido embora.
A porta estava tão bem fechada quanto ao passarmos por ali da primeira
vez, mas dava para ouvir o farfalhar de papéis do lado de dentro. Contra todas as probabilidades, ela conseguira entrar. O problema era que agora eu não fazia ideia de como ela encontraria a arma, e, o mais importante, como sairia dali. A única outra forma de escapar era a janela externa do segundo andar. E juro que se Denna conseguisse escalar uma parede – na chuva, para piorar – eu comeria a sela do meu cavalo. A decorada. Com filigrana dourada encrustada e tudo.
Trotei escada abaixo até a saída mais próxima, peguei uma lanterna que
estava pendurada em um gancho perto da porta e saí para a chuva. Gotas grandes ensoparam minha camisa. Trovões retumbavam acima da minha cabeça e um raio cortou o céu enquanto eu espiava a janela escura da sala da capitã. É claro que não dava para ver nada.
Suspirei e segui com dificuldade pelo caminho que circundava mais de
perto as paredes do castelo. Não mais que vinte passos depois da janela havia uma pequena construção de pedras encoberta por árvores altas e por trepadeiras emaranhadas. A porta se abriu com um rangido ao meu toque, e um cheiro de terra úmida e ar estagnado saiu de lá de dentro. O interior da construção não era muito melhor que seu exterior; não importava onde eu parasse, as gotas davam um jeito de atravessar o telhado e cair na minha cabeça.
Ergui a lanterna, inspecionando o que havia no barracão. A maioria das
ferramentas estava empilhada desordenadamente nos cantos. Bem no fundo, o que eu precisava estava pendurado meio torto na parede: uma escada capenga que só não desmontava por causa dos pregos enferrujados. Teria que servir.
Peguei a escada e a levei até a janela, encostando-a na parede. Subir naquilo parecia a pior ideia que eu já tivera. Mas deixar Denna se virar sozinha na sala de comando da Capitã Ryka não era uma opção.
Botei meu pé no primeiro degrau da escada, que rangeu terrivelmente enquanto minhas mãos deslizavam na madeira molhada escorregadia. A cada passo que eu dava escada acima ia testando o degrau seguinte. A chuva açoitava minhas bochechas e fazia meus cabelos grudarem no meu pescoço em mechas gotejantes. Ao chegar ao último degrau, eu me agarrei ao peitoril, ficando na ponta dos dedos para espiar pela janela. Através do vidro embaçado, tudo que eu conseguia ver era um brilho muito fraco de luz, suficiente apenas para sugerir a silhueta de Denna.
Bati discretamente no vidro, com medo de bater mais forte e chamar a atenção de algum sentinela que estivesse no telhado. A última coisa que eu precisava era ser alvejada por um monte de flechas no topo de uma escada bamba. A luz da sala tremulou, mas nada mais aconteceu. Tentei novamente, desta vez tamborilando um fragmento da primeira música que Denna tocara para mim. Instantes depois, a janela se abriu com um rangido.
– Mare? – ela sussurrou.
– Não acredito que você entrou aqui de fininho! Se soubesse como estivemos perto de…
Ela me interrompeu e ergueu a faca; a lâmina brilhou quando um relâmpago cruzou o céu.
– Peguei.
– Pelos Seis! – falei, sentindo uma onda de alegria, apesar de estar molhada até os ossos. Ela me passou a faca, que eu guardei em meu cinto. – Venha! Vamos sair daqui.
– Espere… quer que eu saia pela janela? – ela perguntou.
– De que outra forma poderia sair? A troca de turno já foi e não haverá outra até o amanhecer. A Capitã Ryka já terá acordado até lá.
Denna balançou a cabeça.
– Não consigo.
– Não é tão alto assim. É da altura da sua janela. – Levei minha mão ao queixo dela e o ergui enquanto ela tentava olhar para o chão. – Não olhe para baixo.
– Mas…
– Você consegue. Vou descer alguns degraus. Tudo que você tem que fazer é passar suas pernas pela janela, e eu a ajudarei a alcançar o degrau antes de se soltar daí. É como desmontar de um cavalo.
– Não consigo. – Denna recuou da janela até que só sua mão restasse no
peitoril.
– Precisa fazer isso. – Coloquei minha mão sobre a dela. – Por favor.
Confie em mim.
Sua mão tremia sob a minha, e a apertei para acalmá-la. – Não é tão difícil com uma escada.
– Não sei, Mare… não parece muito firme.
Eu também tinha minhas dúvidas com relação à escada, mas aquele não
era o momento de admitir tal coisa.
– A escada não vai sair daqui – falei. – E assim que você tiver colocado
seus pés no degrau, descerei até o fim para segurá-la para você.
– Não consigo. – Ela puxou a mão. – Terei que… Oh, não. – Ela
arregalou os olhos. – Há alguém do outro lado da porta!
– Venha! Agora. – Terminei de abrir completamente a janela, a chuva
caindo do lado de dentro da vidraça e escorrendo em filetes. – Segure minha mão. Confie em mim.
Ela tremia feito uma folha na tempestade ao passar uma perna por cima
do peitoril. Estiquei a mão e agarrei sua panturrilha, esperando que isso lhe transmitisse um pouco de segurança.
– É como descer de um cavalo – falei. – Deite-se de barriga e desça para
a escada. Devagar.
Ela respirou fundo. Até eu conseguia ouvir as vozes agora – vozes que
nos descobririam se ela não se apressasse. Praguejei baixinho. Denna deitou-se de barriga, sua perna pendurada na janela.
– Isso mesmo. Como se estivesse desmontando. Vou guiar você. – Usei a
voz mais suave e tranquilizadora que consegui, tentando evitar o tom de urgência. Mantendo minha mão em sua perna, desci um degrau com cuidado, para dar espaço a ela.
– A porta está se abrindo! – ela sussurrou. A janela se escancarou quando
ela se mexeu para se agarrar.
– Largue agora! – falei.
Ela passou a outra perna pela janela na direção da escada, seu peito ainda
sobre a esquadria da janela. Ela era tão mais baixa que eu que seus dedões mal tocavam o primeiro degrau em segurança para se estabilizar. A luz encheu a sala e vazou fracamente para onde estávamos penduradas. Puxei Denna.
Denna deslizou para a escada, seus pés tocaram o degrau. Os músculos dos meus ombros se retesaram enquanto eu a apoiava, projetando meu peito para a frente para impedir que caíssemos da escada. A madeira instável vergou sob nossos pesos combinados, e a escada toda estalou. Apoiando minha cabeça em suas costas, pressionei nossos corpos contra a parede assim que as vozes começaram a chegar da janela.
– O que aconteceu com a porta? – uma voz perguntou.
– Não sei – Jox respondeu. – Não vi ninguém por aqui, exceto Sua Alteza Real Equina no outro corredor.
–Veja! A janela está aberta. Deve ter sido isso que você ouviu – o primeiro vassalo falou, sua voz muito perto.
Eu apertava tanto Denna que tinha certeza que meus braços ficariam dormentes. Chovia tanto sobre nós que logo sua camisa ficou tão encharcada quanto a minha, mas cada parte do corpo que encostávamos uma na outra parecia quente e pulsante, tensa por causa do medo de sermos pegas. Por fim, a janela se fechou com um estrondo, e uma expiração entrecortada veio dos meus pulmões. Esperei até ter certeza de que os vassalos tinham ido embora, e então aliviei a pressão das minhas mãos sobre o corpo de Denna.
– Vamos – falei. – Um degrau por vez. Devagar. Não olhe para baixo. Estou bem aqui.
Ela assentiu, estremecendo quando afastei meu corpo do dela e a chuva atingiu suas costas. Desci até o fim da escada primeiro, mais grata que nunca por sentir a terra molhada sob as solas das minhas botas. Denna me seguiu, com movimentos lentos e calculados. Estendi minha mão quando ela chegou ao chão, e ela saiu da escada direto para os meus braços. Ela caiu sobre mim, e por um instante temi que ela fosse chorar. Mas quando me olhou, ela tinha um sorriso discreto no rosto.
– Conseguimos – ela disse. – Não acredito que conseguimos.
– Graças a você – falei. Ela era tão inteligente e corajosa, cheia de pequenos truques que haviam tornado tudo aquilo possível. Uma ternura inesperada cresceu dentro de mim, e meus dedos foram atraídos para uma mecha de cabelos molhados grudados em sua bochecha. Prendi a mecha atrás de sua orelha. Ela segurou minha mão e a pressionou contra sua bochecha.
– Eu sabia que você distrairia o guarda. E sabia que de algum modo me tiraria daquela sala – ela disse. – Porque confio em você.
Na imensa escuridão do jardim, eu mal conseguia distinguir seus traços,
mas senti quando ela virou seu rosto para a palma da minha mão. Quando seus lábios macios tocaram meu pulso, meu sangue ferveu. Qualquer resquício de bom senso que eu tinha desapareceu quando cedi ao impulso e me inclinei para a frente. Ela prendeu a respiração quando meu foco passou a ser a curva de seus lábios.
Um trovão ribombou no céu e nos afastamos, subitamente
envergonhadas.
– Precisamos entrar – falei para acabar com aquele momento
embaraçoso, com medo do rumo que as coisas quase tinham tomado. – Quem me dera eu tivesse algo para enrolar a adaga.
– Tenho um lenço – Denna ofereceu, puxando um quadrado de seda
encharcado de um de seus bolsos.
Ergui a sobrancelha.
– Está limpo.
– Certo. Vai servir por enquanto. – Peguei o lenço e enrolei a lâmina no
tecido molhado antes de enfiá-la completamente dentro na minha bota. Levamos a escada de volta para o barracão, Denna carregando uma ponta enquanto eu carregava a outra pelos caminhos do jardim que estavam escorregadios devido à chuva, e a deixamos lá.
Denna grudou em mim feito carrapicho na cauda de um cavalo enquanto
percorríamos os túneis debaixo do castelo, até que saímos em um armário de vassouras próximo aos meus aposentos. Passamos discretamente pelos guardas do corredor e entramos no meu quarto sem sermos notadas. Assim que a porta se fechou atrás de nós, expirei pelo que parecia ser a primeira vez naquela noite.
Os olhos de Denna encontraram os meus e ela deu um sorriso de canto de
boca. E depois soltou uma risadinha. Começou sutilmente, mas então o riso cresceu e se tornou alto suficiente para acordar todo o castelo.
– Shhh! – falei, tentando controlar minha própria risada. Era inútil.
Desabamos sobre o tapete diante da lareira e rimos até as lágrimas escorrerem por nossas faces e pingarem em nossas roupas molhadas.
– Você é maluca! – falei.
– Eu sei. Não acredito que nada daquilo deu certo! Algum deus das
travessuras devia estar nos guardando. – Denna afastou as mechas de cabelo úmidas grudadas em seu pescoço, e sua pele de porcelana brilhou à luz do fogo.
– Torçamos para que esse pequeno deus continue com a gente, então. Temos mais uma aventura para planejar – falei. Puxei a faca de dentro da bota e a estendi para ela. – Consegue dizer se é uma imitação com base no que leu?
Ela pegou a lâmina da minha mão e a levou mais para perto do fogo.
– Este metal não é granulado – falou. – Se o que li for verdade, esta é definitivamente uma falsificação, mas precisamos de evidências melhores para confirmar isso. Podemos tentar encontrar um exemplo verdadeiro de arma zumordana na cidade. Ou quem sabe perguntar onde se pode conseguir uma falsificação de alto nível. – Ela me devolveu a lâmina, que eu depositei no chão.
–Viu só? Jamais terei que voltar à biblioteca novamente enquanto tiver você – provoquei.
– Mas deveria – ela respondeu com os olhos brilhando. – E então, quando vamos à cidade?
– O quanto antes. Amanhã à tarde?
– E a aula de equitação?
– Com o tanto que está chovendo, amanhã o solo estará lamacento demais. Talvez esteja lamacento na cidade também, mas obviamente você não se importa em se sujar… – Apontei para as roupas encharcadas dela, o que nos fez cair na risada de novo.
– Não me importo! Posso fazer isso.
– Tudo bem. Venha aos meus aposentos no horário em que geralmente vai para a aula de equitação. Se alguém perguntar, diga que ficaremos limpando os arreios ou algo assim. E só para garantir, é melhor você arranjar um álibi para o caso de não conseguirmos voltar a tempo para o jantar. Arranje uma desculpa para se livrar de qualquer outra obrigação.
– Minha amiga Ellaeni deve conseguir me dar cobertura. Mal posso esperar! – Ela se inclinou para a frente e me abraçou. – Obrigada por hoje – ela disse.
– De nada – respondi, retribuindo o abraço meio sem jeito. Nossas roupas estavam grudadas em nossos corpos e eu sentia o calor do corpo dela sob os tecidos. Trememos, então nos separamos e tivemos mais um momento embaraçoso.
–Vejo você amanhã – ela disse com a ansiedade brilhando em seus olhos. Denna acenou brevemente e desapareceu no corredor. Balancei a cabeça, torcendo para que a patrulha noturna não a pegasse, mas sabendo que ela provavelmente arranjaria uma boa desculpa se fosse pega.