Geometria e tecnologia na sala de aula

Camila Aparecida da Silva · Capítulo 6 de 17

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Geometria e tecnologia na sala de aula

Capítulo 2 – Os teóricos e suas contribuições

Capítulo 2 – Os teóricos e suas

 

contribuições

 

Neste capítulo, são apresentados e analisados os caminhos teóricos que desencadearam na elaboração deste texto.

Para tanto, organizamos o quadro teórico metodológico da pesquisa da seguinte maneira: primeiramente, os conceitos centrais bakhtinianos a respeito da Filosofia da Linguagem, por exemplo, elementos teóricos do que se logrou denominar de o círculo de Bakhtin como visto em Faraco (2009), no qual discutiremos aspectos centrais das contribuições de Voloshinov/Volosinov e seus influenciadores Saussure e Vossler. E, por fim, as teses centrais do Construtivismo, em particular, as proposições teóricas de Jean Piaget; o Construcionismo de Seymour Papert e principalmente a Teoria Histórico-cultural e o Sociointeracionismo, na perspectiva de Vygotsky, com uma visão que faz perceber as nuances das confluências que existem entre essas teorias e que possibilitam pensar em uma formação integral do indivíduo, valorizando os aspectos positivos que cada uma tem.

 

2.1. Bakhtin, seu círculo e demais

 

influenciadores

 

Bakhtin (apud Faraco, 2009) ansiava por estudar a linguagem para colocar em primeiro plano a maneira de se comunicar e compreender as relações humanas. Para ele o imaterial é uma produção constituída pelos signos, que constitui a consciência humana, isto é, a palavra é um signo, e o semiótico é o mundo dos signos que nos leva a questionar: como compreender o mundo sem compreender a linguagem?

No contexto da filosofia da linguagem do círculo, analisado por Bakhtin (apud Faraco, 2009) destaca-se alguns aspectos das reflexões iniciais que os membros formularam: unicidade e eventicidade do ser. Diante disso, Faraco (2009, p. 21) conclui, a partir das análises de Bakhtin, que a unicidade “[…] se dá na ação, no ato individual e responsável (não indiferente). Nesse sentido viver é agir; e agir em relação a tudo o que não é eu, em relação ao outro.”; contraposição eu/outro para Bakhtin.

Segundo Faraco (2009, p. 21) “[…] são, cada um, um universo de valores. O mesmo mundo, quando correlacionado comigo ou com o outro, recebe valorações diferentes, é determinado por diferentes quadros axiológicos”. Daí componente axiológico compreendido como valores predominantes em uma determinada sociedade.

Para uma melhor compreensão sobre esse círculo há de se levar em consideração o dualismo entre teoria e vida, transpondo o mundo teórico para o mundo da historicidade viva, da unicidade, valorizando a relação eu/outro na dimensão axiológica.

 

Esses dois mundos, […] não se comunicam porque o mundo da vida, na sua eventicidade e unicidade, são inapreensíveis pelo mundo da teoria como ele se apresenta hoje, na medida em que nele não há lugar para o ser e o evento únicos. O pensamento teórico se constitui exatamente pelo gesto de se afastar do singular, de fazer abstração da vida (FARACO, 2009, p. 18).

 

Pensar nas Ciências da Natureza nos traz à ideia de encontrar no exterior as explicações para os fenômenos, isto é, buscar nos fatos científicos as explicações para muitos questionamentos, enquanto que as Ciências do Espírito nos remete a uma busca interior por respostas, a partir da experienciação psíquica - um sentir em conjunto com os outros. As Ciências Naturais nos direcionam para o saber monológico, enquanto que as Ciências Humanas nos faz desenvolver o saber dialógico:

 

[…] as ciências naturais constituem uma forma de saber monológico em que o intelecto contempla uma coisa muda e se pronuncia sobre ela, enquanto as ciências humanas constituem uma forma de saber dialógico em que o intelecto está diante de textos que não são coisas mudas, mas a expressão de um sujeito (FARACO, 2009, p. 43).

Nesse sentido, ser letrado é mais do que ser alfabetizado. Ademais, significa ter aprendido a ler e a escrever em um contexto no qual a escrita e a leitura tenham sentido e, por conseguinte, façam parte da vida do estudante. No caso específico da linguagem matemática, ou, do letramento matemático, impõe-se a necessidade de ler o mundo, em seus significados, tendo como instrumento a sua linguagem, essencialmente, simbólica. Frente a isso, métodos e estratégias pedagógicas para ensinar Matemática não podem prescindir do conceito de letramento digital, isto é, da perspectiva de uma terceira linguagem que deve se articular com as Tecnologias.

Os pesquisadores que são inclinados a pensar sobre os modos de ensinar e aprender Matemática na escola, e sua evolução, necessitam, também, refletir a forma como a Tecnologia transforma o modo humano de pensar e agir, desnudando os vínculos entre ela, a tecnologia, o poder e o processo de constituição do conhecimento. Sem isso, não há que se falar em dialogia ou em comunicação verbal.

Assim, quando falamos em gêneros, percebemos que se está inventando gêneros de acordo com as necessidades. Eles são plásticos e se modificam de acordo com a dinâmica da vida, isto é,

 

[a] riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multifacetada atividade humana e porque em cada campo dessa atividade vem sendo elaborado um repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que tal campo se desenvolve e ganha complexidade (BAKHTIN, 2016, p. 12).

 

Existem os gêneros primários, mais próximos da vida, e à medida que eles vão sendo mais elaborados, transformam-se e complexificam-se acabando por se tornarem os gêneros secundários.

 

Cabe salientar em especial a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso (orais e escritos). De fato, também devemos incluir nos gêneros do discurso as breves réplicas do diálogo do cotidiano (saliente-se que a diversidade das modalidades de diálogo cotidiano é extraordinariamente grande em função do seu tema, da situação e da composição dos participantes), o relato cotidiano, a carta (em todas as suas diversas

formas), o comando militar lacônico padronizado, a ordem desdobrada e detalhada, o repertório bastante vário (padronizado na maioria dos casos) dos documentos oficiais e o diversificado universo das manifestações publicísticas (no amplo sentido do termo: sociais, políticas); mas aí também devemos incluir as variadas formas das manifestações científicas e todos os gêneros literários (do provérbio ao romance de múltiplos volumes) (BAKHTIN, 2016, p. 12).

 

Cada situação gera escolhas e por mais que uma escolha cotidiana seja mais simples, ela também gera uma necessidade de estrutura oral/verbal. Bakhtin (apud Faraco, 2009) menciona sobre heteroglossia (vozes), ou seja, devemos olhar os discursos a partir das situações da vida, isto é, o extra verbal, o que está além.

Quando se tem um enunciado, diz-se que é um elo dos enunciados do discurso. Esse enunciado atravessa esferas e áreas da vida. Ou seja, o enunciado não é uma coisa ou um objeto; há locutor (aquele que promove o discurso) e ouvinte, e cada um deles coloca suas apreciações no enunciado. Nenhum enunciado é neutro. Não dá para despojá-lo de tendência, pois, caso contrário, tira-se à sua vida.

Por exemplo, em uma entrevista há o “EU” e o “TU”, mas, as pessoas só olham para o outro e não veem que há um diálogo. Pensamos estar fora desse discurso, nos isentando, tirando a responsabilidade e o aspecto responsivo e é nesse ponto que entra o extra verbal (constitutivo) do enunciado.

O extra verbal é aquilo que é vivido. Não basta ter apenas a língua em comum, mas é preciso ter também vivências em comum. Os sentidos são diversos, temos vários posicionamentos, pois os indivíduos se apropriam de informações e conhecimentos mediante diferentes meios. Estão em diferentes níveis. Um exemplo disso é o sentido que tem a sustentabilidade na ótica de um empresário, agricultor, de um dono de uma cooperativa de reciclagem e demais indivíduos.

Dessa forma, é possível perceber que os discursos ocupam diferentes camadas, ora densa, ora tensa. Essas camadas são as vozes das pessoas e dos grupos; as camadas são as posições axiológicas, os discursos são emaranhados que se cruzam. Tudo o que é denso é algo mais pesado, não é aparente. A aparência do discurso (oral ou escrita) significa que há essências/sentidos constituindo-os. E essa camada também é, por vezes, tensa, pois está sempre em confronto. Um discurso nunca é harmonioso e a tensão se manifesta nesse momento.

Com base no pensamento de Bakhtin (apud Faraco, 2009), é possível considerar que há uma diferença entre: comunicação verbal e troca verbal - o ato de se comunicar não leva em conta o outro, a relação de interlocução, já a troca - verbal, ao contrário da comunicação, considera e preocupa-se com o que o outro vai entender. A troca verbal é um trocando com o outro de uma forma mais profunda e não apenas uma simples interação. A troca, também, representa comunicação, isto é, o sujeito que comunica, que distribui o objeto de interação.

É possível diferenciar, pelo exemplo a seguir, o motivo pelo qual a troca é mais profunda que a comunicação: se pensássemos nos fatores econômicos ao sermos detentores de dinheiro, teríamos condições de comprar uma garrafa de água, neste caso, o que tem valor é o dinheiro para quem vende, e a água para quem compra. Porém, quando não há o dinheiro e temos apenas um sanduíche e precisamos de água, podemos dividi-lo ao meio e propor a troca por um copo de água. Isso é muito profundo, significativo e valoroso.

Voloshinov e Bakhtin (apud Faraco, 2009), sempre que evidenciam a língua ou linguagem estão enfatizando a oralidade; eles tiram a importância da escrita, como se a fala fosse algo autônomo, organizado, Saussure (apud Sériot, 2015) compartilha do mesmo pensamento.

Na interpretação de Sériot (2015), Saussure comparava o signo a uma metáfora, como se o signo fosse uma moeda. Deve-se ter a cara e a coroa, um representa o significado e o outro o significante, têm-se o lado material, físico que pode ser percebido.

Ainda, na análise de Sériot (2015), se pensarmos no signo verbal como sendo a palavra, Saussure analisa que a palavra tem dois lados: o significante (material) e o significado (conceito). Um exemplo disso é que a palavra lousa, em que seu som é físico e, portanto, material, e o que entendemos por lousa é o seu conceito, ou seja, imaterial. Se o receptor não compreender a ideia, para ele o que foi dito não será signo, pois não terá sentido algum.

Fato, claramente, percebido, quando ouvimos uma palavra de um idioma que não dominamos, pois, só chegará a nós, nesse caso, o significante, que é o som, e não o signo: por não saber o que representa à sua tradução, ou, o seu real significado, não fará sentido algum.

A escrita independe da oralidade. Quando uma criança lê uma palavra, ela não sabe dizer ainda o que aquela palavra significa, pois para ela aquilo ainda não tem significado, ou seja, as crianças aprendem a ler, mas não a compreender.

Ademais, nas palavras de Sériot (2015), Saussure constata que a língua é um código. E codificar seria escutar a língua oral e descobrir o seu significado. Decodificar é voltar ao que era, quando a criança volta do oral para o escrito, quando aprende a transformar o significante oral em escrito. Diante disso, um professor, enfrentando um momento semelhante a esse, tende a se preocupar em fazer conexões entre o sujeito e o objeto, pois, afinal, um enunciado só se constitui como enunciado quando tem materialidade.

 

Bakhtin e Volosinov convocam em seus escritos locutores (indivíduos falantes) e não enunciadores constituídos como sujeitos pelo processo da enunciação [É impossível encontrar em Bakhtin ou Volosinov a ideia, fundamental para Benveniste, de que “é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito” (Benveniste, 1996, p.259). Diferente-mente do locutor, o sujeito da enunciação preexiste ao ato que é a enunciação, já que nela ele é “constituído”.]. Volosinov não constrói uma teoria do sujeito (SÉRIOT, 2015, p. 14-15).

 

Já Sériot (2015) menciona que Voloshinov não trabalha com letras, ele pensa em grupos sociais harmônicos, estuda o diálogo, nem o locutor, nem o receptor, mas foca no enunciado e não no sujeito.

 

Se em Bakhtin só existem locutores e não enunciadores, esta também é a razão pela qual só existem enunciados, e não uma enunciação, que admitiria um sujeito clivado. O sujeito em Bakhtin é um indivíduo concreto, real, único, ancorado numa situação, que tem a particularidade de estar em “diálogo” permanente com a fala dos outros indivíduos, isto é, de responder ao outro e de antecipar sua reação (SÉRIOT, 2015, p. 15).

A palavra é como se fosse uma parede (o todo) constituída por unidades singulares - as letras - que representam os tijolos da parede. Cada unidade exerce a sua função no todo. As letras não podem ser olhadas individualmente como grafema e fonema, mas sim, cada unidade, relacionando-se umas com as outras (SÉRIOT, 2015).

De acordo com Sériot (2015) o linguista Voloshinov apura uma dupla natureza do signo quando se refere à filosofia do entimema, isto é, uma premissa subentendida ou oculta, não formulada, mas que leva a uma conclusão por trazer entre linhas um significado. Em lógica, designa-se por entimema um raciocínio em que uma premissa não é enunciada, mas subentendida. Por exemplo: “Sócrates é homem, logo é mortal”. Subentende-se: “Todos os homens são mortais” (SÉRIOT, 2015, p. 83).

Para Sériot (2015), isso deveria ser tratado como marxismo e sociologia da linguagem. Porém, Voloshinov nunca foi membro de nenhum partido político, jamais cita Marx, política ou revolução em seus escritos, não objetiva fazer crítica social, nem qualquer programa revolucionário de ordem social, o que realmente o fascina é a relação de determinação-dependência absoluta do enunciado para com o contexto.

 

Volosinov jamais se propõe mudar o que quer que seja, não manifesta nenhum indício de interesse por um grupo social desfavorecido que seria preciso defender ou apoiar, nenhum messianismo operário […], ele jamais frequentou os bairros proletários, não propõe um programa para alfabetizar as massas iletradas (SÉRIOT, 2015, p. 73).

 

As teses marxistas de Voloshinov sobre a linguagem podem ser resumidas da seguinte maneira:

 

[…] 1. a linguagem tem caráter significante; 2. A linguagem é um fenômeno coletivo; 3. O positivismo é um “culto do fato” (MFL, p. 10) e o psicologismo idealista explica todos os fenômenos ideológicos pela consciência individual, sendo essas duas abordagens igualmente inaceitáveis. Essas três teses, que em nada, são incompatíveis com Saussure […] nada tem de especificamente marxista; nos anos 1920, elas começavam a fazer parte da bagagem geral de toda teoria linguística que