Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 5 de 8 · parte 3/3

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Grande Sertão: Veredas

bastantes morreram, no final. Esse sertão, esta terra.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

No sítio desse Dodó Ferreira, o Nicolau e o Leocádio iam ficar acoitados lá, até que pudessem sarar de todo somenos.

Nós, não. De que desde dali, rifles nas costas, riscamos de rota abatida para o Currais-do-Padre, para renovame; porque lá se tinha resguardada uma boa cavalaria. À força de inchar pé e esmorecer pernas, pelo que aquilo nem foi viagem: era rojão de escabrear, menção de cativeiros. Desgraça de estrada, as pedras do mundo, minhas léguas arrependidas. De que serve eu lhe contar minuciado – o senhor não padeceu feliz comigo – ? Saber as revezadas do capim? Ah, então, que foram: mimoso, sempre-verde, marmelada, agrestes e gramade-burro... A caminhada é assim, é ser: despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que meio me lembro, aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para terreno concertado, cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pior do que batoqueira de caatingal. Os muitos campos, com tristeza agora bota valesse menos que alpercata. O vento endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho, de todas as estirpes deles – o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a madotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado. Mas, para balear uma rês da solta, era o mister de toda sorte e diligência, por ser um gado estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando repentino na algibeira de uns e outros – bondade dos companheiros era que acudia. E deu daquele vento trazedor: chegou chuva. A gente se escondendo, divididos, embaixo dos pequizeiros, que tempesteava. Dormir remolhado, se dormia, com a lama da friagem. De madrugar, depois, se achava era pé de onça, circulando as marcas. E a gente ia, recomeçado, se andava, no desânimo, nas campinas altas. Tão território que não foi feito para isso, por lá a esperança não acompanha. Sabia, sei. O pobre sozinho, sem um cavalo, fica no seu, permanece, feito numa croa ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a pé, esses Gerais comem.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Diadorim vinha constante comigo. Que viesse sentido, soturno? Não era, não, isso eu é que estava crendo, e quase dois dias enganoso cri. Depois, somente, entendi que o emburro era mesmo meu. Saudade de amizade. Diadorim caminhava correto, com aquele passo curto, que ó dele era, e que a brio pelejava por espertar. Assumi que ele estava cansado, sofrido também. Aí mesmo assim, escasso no sorrir, ele não me negava estima, nem o valor de seus olhos. Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de que, só de calcar o pé em terra, alguma coisa nele doesse. Mas, essa idéia, que me dava, era do carinho meu. Tanto que me vinha a vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim, livre de tudo, nas minhas costas. Até, o que me alegrava, era uma fantasia, assim como se ele, por não sei que modo, percebesse meus cuidados, e no próprio sentir me agradecendo. O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Conti-nuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. Mas, então, num determinado, eu disse:

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– “Diadorim, um mimo eu tenho, para você destinado, e de que nunca fiz menção...” – o qual era a pedra de safira, que do Araçuaí eu tinha trazido, e que à espera de uma ocasião sensata eu vinha com cautela guardando, enrolada numa pouca de algodão, dentro dum saquitel igual ao de um breve, costurado no forro da bolsa menorzinha da minha mochila.

De desde que falei, Diadorim quis muito saber o presente qual era, assim apertando comigo com perguntas, que sem aperreio deixei de responder, até de tarde, quando fizemos estância. A parança que foi – conforme estou vivo lembrado –

numa vereda sem nome nem fama, corguinho deitado demais, de água muito simplificada. Aí, quando ninguém não viu, eu saquei a mochila, desfiz a ponta de faca as costuras, e entreguei a ele o mi-mo, com estilo de silêncio para palavras.

Diadorim entrefez o pra-trás de uma boa surpresa, e sem querer parou aberto com os lábios da boca, enquanto que os olhos e olhos remiravam a pedra-de-safira no covo de suas mãos.

Ao que, se sofreou no bridado, se transteve sério, apertou os beiços; e, sem razão sensível nem mais, tornou a me dar a pedrinha, só dizendo:

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– “Deste coração te agradeço, Riobaldo, mas não acho de aceitar um presente assim, agora. Aí guarda outra vez, por um tempo. Até em quando se tenha terminado de cumprir a vingança por Joca Ramiro. Nesse dia, então, eu recebo...”

Isso, de arrevés, eu li com hagá; e mesmo antes, quando apontou no rosto dele, para o avermelhar de cor, a palidez de espécie. Delongando, ainda restei com a pedra-de-safira na mão, aquilo dado-e-tomado. Donde declarei:

– “Escuta, Diadorim: vamos embora da jagunçagem, que já é o depois-de-véspera, que os vivos também têm de viver por só si, e vingança não é promessa a Deus, nem sermão de sacramento. Não chegam os nossos que morremos, e os judas que matamos, para documento do fim de loca Ramiro?!”

Ah foi ele me ouvir e se encurtar, em duro que revi, que nem ossos. Ao crespo de um com a afronta a meia-goela – e os olhos davam o que deitavam. O que durou só um átimo, tanto que ele teve mão em seu gênio, conciso com um suspiro; mas mesmo me retrouxe remoque:

– “Riobaldo, você teme?”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Tomei sem ofensa. Mas muita era minha decisão, que eu já tinha aperfeiçoado lá na Fazenda dos Tucanos, e que só vinha esperando para executar com mais regimento de ordem, quando se tivesse chegado no Curraisdo-Padre, conforme meu sistema nesses procedimentos.

– “Tem que temerei! Você, aí faz o que em seu querer esteja. Eu viro minha boa volta...”

Dar o mal por mal: assim. Eu tinha a quanta razão. Eu guardei a pedrinha na algibeira, depois melhor botei, no bolso do cinto; contei minhas favas, refavas. Diadorim respirava muito.

Dele foi o relance:

– “Riobaldo, você pensa bem: você jurou vinga, você é leal. E eu nunca imaginei um desenlace assim, de nossa amizade...” – ele botou-se adiante. – “Riobaldo, põe tento no que estou pedindo: tu fica! E tem o que eu ainda não te disse, mas que, de uns tempos, é meu pressentir: que você pode – mas encobre; que, quando você mesmo quiser calcar firme as estribeiras, a guerra varia de figura...”

Arredei: – “Tu diz missa, Diadorim. Isso comigo não me toca...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Da maneira, ele me tentava. Com baboseira, a prosável diguice, queria abrandar minha opinião. Então eu ia crer? Então eu não me conhecia? Um com o meu retraimento, de nascença, deserdado de qualquer lábia ou possança nos outros – eu era o contrário de um mandador. A pra, agora, achar de levantar em sanha todas as armas contra o Hermógenes e o Ricardão, aos instigares? Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: nãozão!

Me desinduzi. Talento meu era só o aviável de uma boa pontaria ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. Mesmo eu não era capaz de falar a ponto. A conversa dos assuntos para mim mais importantes amolava o juizo dos outros, caceteava. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma.

Diadorim disse: – “Ei, retenteia! Coragem faz coragem...”

Demais eu disse: – “Sou Capitão-General?!...”

Antes tantas astúcias, em empalhar que eu não fosse embora, que eu ficasse preso naquele urjo de guerra, sem cabo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nem ponta, sem costas nem frente, e que maçava. Recachei. A mão dele, doçura de dada, de leve na minha. Temi afracar. E em duro repostei, com outra ombrada:

– “Vou e vou. Só inda acompanho é até o Currais-do-Padre. Lá eu requeiro para mim um cavalo bom. E trovejo no mundo...”

Verdadeiro meu propósito era esse, como está dito. Eu não caturrava. Eu sou assim amor-com-amor, e ingratidão não. E

bem por isso Diadorim não persistiu, com palavras cordatas; mas por fim disse, de motejo, zombariazinha:

– “Então, que quer mesmo ir, vai. Riobaldo, eu sei que você vai para onde: relembrado de rever a moça clara da cara larga, filha do dono daquela grande fazenda, nos gerais da Serra, na Santa Catarina... Com ela, tu casa. Cês dois assentam bem, como se combinam...”

Nonde nada eu não disse. Se menos pensei em Otacília.

Nem maldisse Diadorim, de que não se calava. A mais, pirraçou:

– “Vai-te, pega essa prenda jóia, leva dá para ela, de presente de noivado...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Demorei no fazer um cigarro. Nós estávamos na beira do cerrado, cimo donde a ladeirinha do resfriado principia; a gente parava debaixo dum paratudo – pau como diz o goiano, que é a caraíba mesma – árvore que respondia à saudade de suas irmãs dela, crescidas em lontão, nas boas beiras do Urucuia. Acolá era a vereda. Com o tempo se refrescando, e o desabafo do ar, buriti revira altas palmas. A por perto, se ouvia a algazarra dos companheiros. De ver, eu tinha dó, minha pena sincera de Diadorim, nessas jornadas. De verdade, entardecia. Derradeira arara já revoava.

– “... Ou quem sabe você resolve melhor mandar de dádiva para aquela mulherzinha especial, a da Rama-de-Ouro, filha da feiticeira... Arte que essa mais serve, Riobaldo, ela faz o gozo do mundo, dá açúcar e sal a todo passante...”

Não era na Rama-de-Ouro – era na Aroeirinha. Mas, por que era que ele falava no nome de Nhorinhá, com tão cravável lembrança? Ao crer, que soubesse mais do que eu mesmo o que eu produzia no coração, o encoberto e o esquecido. Nhorinhá –

florzinha amarela do chão, que diz: – Eu sou bonita!... E tudo neste mundo podia ser beleza, mas Diadorim escolhia era o ódio.

Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por – 534 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas destino, fosse do antigo do ser, donde vem a conta dos prazeres e sofrimentos. Igual gostava de Nhorinhá – a sem-mesquinhice, para todos formosa, de saia cor-de-limão, prostitutriz. Só que, de que gostava de Nhorinhá, eu ainda não sabia, filha de Ana Duzuza. O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda – as águas levam – em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; dai o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo.

– “... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Vocês vão casar, sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas... A noiva, com o alvo véu de filó...”

Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flor. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, de sonsom, feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória recontasse.

Altas borboletas num desvoejar. Como se eu nem estivesse ali ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores, para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otacília tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço às festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez

– alguma causa que ele até de si guardava, e que eu não podia inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo.

Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando lá acima nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebrilhos, de dourado, vermelhos e alaranjado às brasas, essas esplendências, com mais realce que todas as pedras de Araçuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo que não entende.

O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum.

Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e eu gostava demais dele.

Na surgida manhã, saímos, para a parte final da caminhada.

Zé Bebelo, certa hora, me chamou. Inda que avante, Zé Bebelo mesmo devia de estar curtindo más e piores: fio que ele amargava a vitória que tinha inventado. Noção dos inimigos nossos, que, seja lá por onde, puxavam posse de sua munição e de suas montadas e cargas, socorridos de tudo quanto careciam. – “Um Hermógenes quer tomar conta do sertão dos Gerais...” – eu tirei liberdade para dizer. Mesmo mais indiretas disse; e isso me realiviou, no dizer, pouco somente, que era só por picardia.

Direto, disso, Zé Bebelo não me respondeu; ele pensava as mil coisas. Em tanto, nesses cálculos de meditação, ele ligeiro sobrezumbia com os beiços, e balangava às esquerdas-edireitas as abas enfunadas do chapéu; e às vezes assoprava sem ser por can-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas saço de marcha. O que das idéias sobrava, era que ele referia: –

“Ainda não entendo... Ainda não entendo... Até agora, reconheço, ele tem tido uma sorte... Sapo sem-colarinho, rei-gordo... Mas, deixa a gente ir e vir, que os ovos e dúzias ele paga!...” Do Hermógenes discursava – orçamento do Hermógenes. E, de ouvir que a sorte do Hermógenes existia alta, isso me penou, tanto me certificava. Aí fiquei a menos. Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo. Mas, para mim, ele estava muito errado: pelos passos e movimentos, porque gostava prático da guerra, do que provava um muito forte prazer; e por isso não tinha boa razão para um resultado final. Assim achei, espiando o alto céu, que é com as nuvens e os urubus repartido. Deponho: de que é que aquilo me adiantava? E chuvas dadas, derramadas.

Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre.

O lugar que não tinha curral nenhum, nem padre: só o buritizal, com um morador. Mas o ao em redor, em grandes pastos, era o capim melhor milagroso – que o que deixava de ser provisório rico era o meloso de muito óleo, a não ver uns fios de santa-luzia azul, e do duro-do-brejo, nas baixadas, e, nos altos com pedregal, o jasmim-da-serra. De lá vinham saindo renascidos, engordados, os nossos cavalos, isto é, os que tinham sido de Medeiro Vaz, e que agora herdávamos. Regozijei.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Escolhi um, animal vistoso, celheado, acastanhado murzelo, que bem me pareceu; e dei em erro, porque ele era meio sendeiro e historiento. Daqui veio que o nome que teve foi de “Padrim Selorico”. Mas o dono do sítio, que não sabia ler nem escrever, assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se chamava o “Senclér das Ilhas”, e que pedi para deletrear nos meus descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance, porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei outras verdades, muito extraordinárias.

Além de que, tudo o que eu tivesse de resolver, de minha vida, fui deixando para os seguintes. Dia de ser de chuva, que madrugou tarde: boi nos cinzentos. E os pássaros de passagem precisavam de gritar muito uns para os outros. Diadorim moderava o falar comigo, e me ver, recolhido em certo vexame, receoso; eu achei. Já disse ao senhor? – dia a dia ele raiava, em formosura. E chuva alta, que envinha, estava mandando urubu voar para casa. Os cavalos pastavam com mais pressa. Nunca, em todos meus tempos, eu vi inverno tamanho demorado. Era para espera. Mesmo assim, Zé Bebelo pôs ordem de se ir. Porque estávamos quase todos montados em pêlo, carecíamos de tocar para o Curral Caetano, onde se tinha quantidade grande de arreios guardados. Depois, daí, para buscar munição, na Virgem-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Mãe. Prazo não se perdia. Aos caminhos barrancosos, de sopega, feito torrão de açúcar preto se derretendo, empapados. Aos barros fomos, como perdidas criaturas, de se rir, se chorar. E –

mas o senhor sabe o que isso é? – aqueles nossos cavalos não tinham ferraduras.

Pra mais onde? Ah, aonde os altos bons: o Chapadão do Urucuia, em que tanto boi berra. Mas nunca chegamos nem na Virgem-Mãe. Afiguro, desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia, no viável.

Como a serra que vinha vindo, enquanto para ela eu ia indo, em tantos dias: longe lá, de repente os olhos da gente percebem um fio de tremor – se vê é um risquinho preto, que com léguas andadas vira cinzento e vira azul – daí, depois, parede de morro se faz. No arquear dali, foi que se pegou o primeiro caminho achado, para se passar. Bem baixamos. Os rios estavam sujos, em espumas. Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju, que estava dando para dela se sentir falta. Zé Bebelo, em assarapanto, até os dedos da mão dele não deixavam de se perpassar, contando rosário nas tiras da rédea. Que andávamos desconhecidos no errado. Disso, tarde se soube – quem que guiava tinha enredado nomes: em vez da Virgem-Mãe, creu de se levar tudo para a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Virgem-da-Laje, logo lugar outro, vereda muito longe para o sul, no sítio que tem engenho-de-pilões. Mas já era tarde.

Trovoou truz, dava vento. E chuvas que minha língua lambeu. Nelas mais não falo. Mas, quando estiou o tempo, de vez, não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim dos Gerais um calor terrível. Aí, quem sofreu e não morreu, ainda se lembra dele. Esses meses do ar como que estavam desencontrados. Doenças e doenças! Nosso pessoal, montão deles, pegou a mazelar. Mas isto eu refiro depois. O senhor já que me ouviu até aqui, vá ouvindo. Porque está chegando hora d’eu ter que lhe contar a$ coisas muito estranhas.

Quadrante que assim viemos, por esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos.

Sertão, – se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem. Mas, aonde lá, era o sertão churro,,o próprio, mesmo. Ia fazendo receios, perfazendo indagação. Descemos por umas grotas, no meio de serras de parte-vento e suas mães árvores. O

pongo de um ribeirão, o boqueirão de um rio. O Abaeté não era; se bem fosse que parecia: largo rio Abaete, no escalavrado, beiras amarelas. Aquele rio fazia uma grande volta, acolá, clareado, com

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas a vista de uns coqueiros. Ali era um lugar longe e bonito, como que me acenava. Mas não endireitamos para ele, porque o rumo determinado era outro, torando desviado muito, consoante. E

mais maninhava. Topar um vivente é que era mesmo grande raridade. Um homenzinho distante, roçando, lenhando, ou uma mulher= zinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de pau, na porta de uma choça, de buriti toda. Outro homem quis me vender uma arara mansa, que a qual falava toda palavra que tem á. Outra velha, que estava fumando o pito de barro. Mas ela enrolou a cara no xale, não se ajuizaram os olhos dela. E o gado mesmo vasqueava: só por pouco acaso um boi ou vaca, de solidão, bicho passeado sem dono. Veado, sim, vi muitos: tinha vez que pulavam, num sonhoso, correndo, de corta campo, tanto tantos – uns dois, uns três, uns vinte, em grupos – mateiros e campeiros. Faltava era o sossego em todo silêncio, faltava rastro de fala humana. Aquilo perturbava, me sombreava. já depois, com andada de três dias, não se percebeu mais ninguém. Isso foi até onde o morro quebrou. Nós estávamos em fundos fundos.

Isto é, nos arrampadouros. Tinha uma estrada, aí na subida dela houvesse coisas. Uns galhos de árvores colocados –

ramalhos e jaribaras – forma de sinal: para não se passar. Mas esse aviso havia de ser particular, para o uso de outros, não para

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o nosso destino. Não respeitamos, de jeito nenhum. Fomos indo.

No entrar numa guapira, se redobrou o achado daquelas ramas verdes, que não obedecemos. Eu vinha adiante, com o Acauã e o Nélson, instruindo o caminho. Já estávamos pelas rédeas, para outra subida de ladeira: mas aí escutamos o latir de cachorros. E

enxergamos um homem – no alto da virada – uns homens. Esses estavam com espineardas.

Os quantos homens, de estranhoso aspecto, que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos. Por certo não sabiam quem a gente era; e pensavam que três cavaleiros menos valessem. Mas, entendendo que do caminho não desgarrávamos, começaram a ficar estramontados. Um eu vi, que dava ordens: um roceiro brabo, arrastando as calças e as esporas. Mas os outros, chusmote deles, eram só molambos de miséria, quase que não possuíam o respeito de roupas de vestir. Um, aos menos trapos: nem bem só o esporte de uma tanga esfarrapada, e, em lugar de camisa, a ver a espécie de colete, de couro de jaguacacaca. Eram uns dez a quinze. Não consegui sentido no que eles ameaçavam, e vi que estavam aperrando as armas.

Queriam cobrar portagem? Andavam arrumando alguma jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima deles, logo, mas também dar recuada podia ser uma vergonha. Esbarramos,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas neles quase encostados. Íamos esperar o resto do pessoal. E eles, ali confrontes, não explicavam razão nenhuma. Só um disse:

– “Pode não... Pode não...”

E renuía com a cabeça, o banglafumém, mesmo quando falava, com uma voz de qualidade diversa, costumada daquela terra de lugar; e os outros renuindo também: – “Ah, pode não...

Pode não...” – com o vozeio soturno.

Nos tempos antigos, devia de ter sido assim.

Gente tão em célebres, conforme eu nunca tinha divulgado nem ouvido dizer, na vida. O das esporas foi se amontar num jumento – esse era o único animal-de-sela que ali tinham. Acho que montou para oferecer à gente maior vulto de respeito; tocava batendo palma de mão na anca do jegue, veio vindo, para primeiro se presenciar. Olhei para todos. Um tinha a barba muito preta, e aqueles seus olhos permeando. Um, mesmo em dia de horas tão calorosas, ele estava trajado com uma baeta vermelha, comprida, acho que por falta de outra vestimenta prestável. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente tem piolho e muquiranas...” – o Nélson disse, contrabaixo.

Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas, bo-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas cudas baludas, garruchas e bacamartes, escopetas e trabucão –

peças de armas de outras idades. Quase que cada um era escuro de feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo, amarelos de tanto comer só polpa de buriti, e fio que estavam bêbados, de beber tanta saeta. Um, zambo, troncudo, segurava somente um calaboca, mas devia de ser de braço terrível, no manobrar aquele cacete. O quanto feioso, de dar pena, constado chato o formo do nariz, estragada a boca grande demais, em três. Outro, que tinha uma foice encabada muito comprido, e um porongo pendurado a tiracol por uma embira, cochichava com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de pajelança. Artes vezes ele guinchava, feito o demônio gemedeiro. Esse, que por nome de Constantino acudia. Todos eles, com seus saquinhos chumbeiros e surrões, e polvorinhos de corno, e armamento tão desgraçado, mesmo assim não tomavam bastante receio de nossos rifles. Para o nosso juízo, eles eram doidos. Como é que, desvalimento de gente assim, podiam escolher ofício de salteador? Ah, mas não eram. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas brenhas. O Acauã que explicou, o Acauã sabia deles. Que viviam tapados de Deus, assim nos

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ocos. Nem não saíam dos solapos, segundo refleti, dando cria feito bichos, em socavas. Mas por ali deviam de ter suas casas e suas mulheres, seus meninos pequenos. Cafuas levantadas nas burguéias, em dobras de serra ou no chão das baixadas, beira de brejo; às vezes formando mesmo arruados. Aí plantavam suas rocinhas, às vezes não tinham gordura nem sal. Tanteei pena deles, grande pena. Como era que podiam parecer homens de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que tinham uso, ralado salitre das lapas, manipulando em panelas.

Que era uma pólvora preta, fedorenta, que estrondava com espalhafato, enchendo os lugares de fumaceira. E às vezes essa pólvora bruta fazia as armas rebentarem, queimando e matando o atirador. Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam viver?

E enfim os companheiros apontaram em vinda, e subiram a primeira ladeira, aquele tropeado de guerreiros, em tão grande número numeroso. Quase eu queria me rir, do susto então dos catrumanos. Mas foi não, porque eles não se aluíram do ponto onde estavam, só que olhavam para o chão, calados, acho que porque essa é a forma de declararem seus espantos. O do jegue, Teofrásio, que era quem capitaneava, deu alguma intimação para o da foice, esse que o Dos-Anjos se chamava, era o falador; e

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que foi quem veio adiante, saudar Zé Bebelo e render explicação:

– “Ossenhor uturje, mestre, a gente vinhemos, no graminhá... Ossenhor uturje...”

Ossos e queixos; e aquela voz que o homem guardava nos baixos peitos, era tôo que nem de se responder em ladainha dos santos, encomendação de mortos, responsório.

– “Ossenhor uturje, mestre... Não temos costume... Não temos costume... Que estamos resguardando essas estradas... De não vir ninguém daquela banda: povo do Sucruiú, que estão com a doença, que pega em todos... Ossenhor é grande chefe, dando sua placença. Ossenhor é Vossensenhoria? Peste de bexiga preta... Mas povoado da gente é o Pubo – que traslada do brejão, ossenhor com os seus passaram perto de lá, valor distante meia-légua... As mulheres ficaram, cuidando, cuidando... A gente vinhemos, no graminhá. Faz três dias... Cercar os caminhos. O povo de Sucruiú – estão dizendo : nem não estão enterrando mais os defuntos deles... Pode querer vir algum, com recado, trazendo a doença, e esta é a razão... Veio um, querendo pedir auxílios, relatar bobagens, essas mogúncias e brogúncias...

Mas teve de voltar, deveras retornou, não demos passa

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas gem. Estão com a maldição, a urros. Castigo de Deus Jesus! Povo do Sucruiú, gente dura de rúim... Ossenhor uturje, mestre: convém desemendar deste lado, não passar no Sucruiú, respraz... Bexiga da preta!...”

E aquele homem o Dos-Anjos tinha largado a foice no chão, botou o pé em riba; e abria os braços, depois ficou de mãos postas, acho que estava produzindo algum feitiço, com os olhos todos fechados. Ele era magro, magro, da vista da gente não se ter. Os outros deles, devagarosamente tinham vindo se chegando também. Zé Bebelo, seguro que por não se rir sem caridade, armou rosto reverso, aquele semblante serioso; e eles desconfiaram. Porque um, que era velhusco e estava com o chapéu-de-palha corroído nas todas beiras, apareceu com um dinheiro na palma da mão, oferecendo a Zé Bebelo, como em paga por perdoamento. A que era um dobrão de prata, antigo do Imperador, desses de novecentos – e-sessenta réis em cunho, mas que na Januária por ele dão dois mil-réis, ainda com senhoriagem de valer até os dez, na capital. Mas Zé Bebelo, com alta cortesia, rejeitou aquele dado dinheiro, e o catrumano velho não bem entendeu, pelo que permaneceu um tempo, com ele ofertado na mão. Assim os outros não entrediziam palavras, que só arregalados espiavam, para Zé Bebelo e para a moeda,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas olhavam como se estivessem prestando conta de suas fortes invejas. O jeito de estremecer, deles, às vezes, era todo, era de banda; mas aquilo sendo da natureza constante do corpo, e não temor – pois, quando pegavam receio, iam ficando era mais escuros, e respiravam com roncado rumor, quietos ali. Que aqueles homens, eu pensei: que nem mansas feras; isto é, que no comum tinham medo pessoal de tudo neste mundo.

Como que o senhor visse os catrumanos rir! O da foice tornou a apanhar a foice, o no jegue ficou segurando o chapéu em respeito, o velho beobobo sumiu seu dobrão de prata em alguma algibeira. A mais eles todos riram, as tantas grandes bocas, e não tinham quase nenhum dente. Riam, sem motivo justo, agora mas para nos agradar. Cônscio, o da foice criou ânimo, mesmo indagou:

– “O que mal não pergunto: mas donde será que ossenhor está servido de estando vindo, chefe cidadão, com tantos agregados e pertences?”

– “Ei, do Brasil, amigo!” – Zé Bebelo cantou resposta, alta graça. – “Vim departir alçada e foro: outra lei – em cada esconso, nas toesas deste sertão...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas O velho agiu o pelo-sinal. Ia remenicar alguma outra coisa.

Mas Zé Bebelo, completo de escutar e ver, deu não com a mão, e abriu a marcha. Tocamos. Ora vi as derradeiras caras daqueles catrumanos, que mostravam por nossa causa muitos pasmos de admiração, e a cobiça que tinham de fazer cento-e-dobro de perguntas, que por receio de atrevimento nunca perguntavam.

Só dos rifles: – “Úixe-te, isto é lazarinha moderna?...” Donde um deles, o montado no jegue, ainda gritou um conselho: que a gente então principiasse volta, no buritizal duma lagoazinha, da banda da mão direita – por via de se evitar de passar por dentro do Sucruiú – e que, retomada a estrada, no quebrar da mão esquerda, num vau perto da mata virgem, era só se andar as sete léguas, num sítio se chegava, de um tal de seor Abrão, que era hospitaleiro... Isso aquele homem recomendou, não por serviço de préstimo, eu pelo tom e jeito bem entendi: gritou, no fim assim, a fito somente de que os seus outros vissem que ele bem possuía coragem também de dar voz, perante presença nossa, de tantos grandes jagunços donos de arejo d’armas. Mas Zé Bebelo, descrendo de temer o que eles anunciavam, do arraial onde estava alastrando a varíola reinante, deu ordem de seguirmos, em reto em diante em frente.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Rir, o que se ria. De mesmo com as penúrias e descômodos, a gente carecia de achar os ases naquele povo de sujeitos, que viviam só por paciência de remendar coisas que nem conheciam. As criaturas.

Mas eu não ri. Ah, daí, não ri honesto nunca mais, em minha vida. Como que marquei: que a gente ter encontrado aqueles catrumanos, e conversado com eles, desobedecido a eles – isso podia não dar sorte. A hora tinha de ser o começo de muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas mais que, por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga. De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma.

Aqueles homens eram orelhudos, que a regra da lua tomava conta deles, e dormiam farejando. E para obra e malefícios ti-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nham muito governo. Aprendi dos antigos. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas, e secar a árvore; ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão, tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão, no prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e quando jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura... De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente.

Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor põe ouro, na outra prata; depois, para ninguém não ver, elas o senhor fecha bem. E foi o que eu pensei. Aqueles catrumanos pedindo por maldição, como era que eu podia deixar de pensar

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas neles? Há-de, que se eles tivessem me pegado sozinho, eu apeado e precisado, decerto me matavam, para roubar minhas armas, as coisas e minhas roupas. Amargo que acabavam comigo, sem escrúpulos, hom’essa, que nem tinham, porquanto eu era desconhecido e forasteiro. De doente, ou ferido perdendo meu sangue, que eu estivesse, algum deles ia ser capaz de me ceder gole duma cuia d’água? Draste eu duvidava deles.

Duvidava dos fojos do mundo. E por que era que há de haver no mundo tantas qualidades de pessoas – uns já finos de sentir e proceder, acomodados na vida, tão perto de outros, que nem sabem de seu querer, nem da razão bruta do que por necessidades fazem e desfazem. Por quê? Por sustos, para vigiação sem descanso, por castigos? E de repente aqueles homens podiam ser montão, montoeira, aos milhares mis e centos milhentos, vinham se desentocando e formando, do brenhal, enchiam os caminhos todos, tomavam conta das cidades. Como é que iam saber ter poder de serem bons, com regra e conformidade, mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso.

Haviam de querer usufruir depressa de todas as coisas boas que vissem, haviam de uivar e desatinar. Ah, e bebiam, seguro que bebiam as cachaças inteirinhas da Januária. E pegavam as mulheres, e puxavam para as ruas, com pouco nem se tinha

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mais ruas, nem roupinhas de meninos, nem casas. Era preciso de mandar tocar depressa os sinos das igrejas, urgência implorando de Deus o socorro. E adiantava? Onde é que os moradores iam achar grotas e fundões para se esconderem –

Deus me diga? Nem me diga o senhor que não – aí foi que eu pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça, e o alto poder existindo só para os braços da maior bondade. Isso foi o que eu pensei, muito redoído, no estufo do calor vingante. E foi por durante quase uma hora, montado no meu cavalo ruim chamado Padrim-Selorico, a passo por aqueles ruins campos, até se chegar perto do povoado do Sucruiú, onde que estava arranchada a horrorosa doença, por cima da pior miséria. Bobéia minha?

Porque os companheiros, indo cuidando de seu ramerrão comum, nenhum não punha tento em dessas idéias. Então era só eu? Era. Eu, que estava mal-invocado por aqueles catrumanos do sertão. Do fundo do sertão. O sertão: o senhor sabe.

Mas em tanto, então levantei o meu entender para Zé Bebelo – dele emprestei uma esperança, apreciei uma luz. Dei tino. Zé Bebelo, em testa, chefe como chefe, como executava nossa ida. Da marca de um homem solidado assim, que era

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sempre alvissareiro. Por ele eu crescia admiração, e que era estima e fiança, respeito era. Da pessoa dele, da grande cabeça dele, era só que podia se repor nossa guarda de amparo e completa proteção, eu via. Porque Zé Bebelo previa de vir, cá embaixo, no escuro sertão, e, o que ele pensava, queria, e mandava: tal a guerra, por confrontação; e para o sertão retroceder, feito pusesse o sertão para trás! E era o que íamos realizar de fazer. Para mim, ele estava sendo feito o canoeiro mestre, com o remo na mão, no atravessar o rebelo dum rio cheio. – “Carece de ter coragem... Carece de ter muita coragem...” –

eu relembrei. Eu tinha. Diadorim vindo do meu lado, rosável mocinho antigo, sofrido de tudo mas firme, duro de temporal, naquelas constâncias. Sei que amava, não amava? Os outros, os companheiros outros, semelhavam no rigor umas pobres infâncias na relega – que deles a gente precisasse de tomar conta.

Com Zé Bebelo da minha mão direita, e Diadorim da minha banda esquerda: mas, eu, o que é que eu era? Eu ainda não era ainda. Se ia, se ia. O cavalo pombo de Zé Bebelo era o de mais armada vista, o maior de todos. Cavalo selado, montado, e muito chão adiante. Viajar! – mas de outras maneiras: transportar o sim desses horizontes!...

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Desde, porém, como já entrávamos no perto do Sucruiú, conforme as léguas que os cascos de nossos cavalos contando, era de ver que voz Zé Bebelo dava, se queria em reto ou atalho.

Ah, em reto, foi. Mas nenhum de nós teve sobrosso. O que era, era. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá, no pião alto do campo, em seu sempre. Obra de um tiro de carabina. E como deviam de estar cozinhando, com tanto fogão, porque subia para o pedaço de céu um povôo de fumaças, feito andassem por lá renovando pastos desfora de tempo. Fazia fole de calor. Mas, entre as vertentes, no corguinho rabo serelepe que passamos, de beiras de terra preta, só os animais foram que beberam a toda sede: que, nós, mesmo da água corrente a gente se receava.

Donde é que decorre a peste? Até o ver o ar. A poeira e miséria.

Azul desbotado puído, sem os realces. O sol carregando de envelhecer antesmente as folhagens – o começo do mês de junho já dava parecença de alto fim de agosto. Aquele ano declarava de não se ter nem frio, pelo legal. De que valeram as tantas chuvas?

Aí este mundo de sertão tinha se perdido – eu mesmo me disse.

Como que íamos atravessar o Sucruiú, lá se chegava. O qual eram as cafuas em suas construções, no entremeio da fumaça. Essas choupanas. Gente? Não se divulgava. E certo que não se tinha medo maior. Antes todos queriam avistar de perto, de passagem,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o que aquilo de verdade fosse. Só que se tinha confiança nos bentinhos e verônicas. E de repente correu aviso que Jõe Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião e São Camilo de Lélis, que livram de todo mal vago. Como se ter? Como se aprender, também? Tempo não dava. Mas – o que vieram dizendo, de um em um, se virando para trás nos cavalos: que não se carecia. Assim aqueles dois iam praticar resumida a oração, e cada um, da gente, consigo reproduzisse, constantemente, as fortes ave òrarias e padre-nossos, que isso bastava. Assim foi que fizemos. Avante eu rezei.

Algum dia, depois de hoje, hei de esquecer aquilo. Arruado que era até bem largo, mas mal se enxergavam aquelas casas. Ao demais rezando, ao real vendo – eu vim. Casas – coisa humana.

Em frente delas todas, o que estavam era queimando pilhas de bosta seca de vaca. O que subia, enchia, a fumaça acinzentada e esverdeada, no vagaroso. E a poeira que demos fez corpo com aquele fumegar levantante, tanto tapava, nos soturnos. Aí tossi, cuspi, no entrecho de minhas rezas. Voz nem choro não se ouviu, nem outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as pessoas mortas, e até os cachorros, cada morador. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira, para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos, e as tristes caras deles, que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas branqueavam, tantas máscaras. Aos homens e mulheres, apartados tão estranhos, caladamente, seriam os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras –

isso que deviam de ter por todo remédio. Nem davam fé de nossa vinda, de seus lugares não saíam, não saudavam. Do perigo mesmo que estava maldito na grande doença, eles sabiam ter quanta cláusula. Sofriam a esperança de não morrer. Soubesse eu onde era que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos?

Os mortos ficavam sendo os maus, que condenavam. A reza re-ganhei, com um fervor. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme. Mesmo que os cavalos nossos indo iam devagar, que é como se vai, quando todos rezando sozinhos em cima deles, devagar duma procissão. Não se perturbou palavra. E

foi que dali acabamos de surgir – da arrepoeira e fumaça de estrume, e o corusco de labareda alguma, e a mormaceira. Deus que tornasse a tomar conta deles, do Sucruiú, daquele transformado povo.

Olhei o ilustre do céu. Dado dava de um estar soto-livre, conseguido se soltar das possibilidades horrorosas. Revi todos e Diadorim, que era uma cortesia de bondade. Não espiei para trás, não ver de enxergar o fim daquelas casas, no vaporoso pardo-azulado, no exalante. E o que rogava eram coisas de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas salvação urgente, tão grande: eu queria poder sair depressa dali, para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Eu levava Diadorim... Mas, de começo, não vi, não fui sentindo que queria poder levar também Otacília, e aquela moça Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, e mesmo a velha Ana Duzuza, e Zé Bebelo, Alaripe, os companheiros todos. Depois, todas as demais pessoas, de meu conhecimento, e as que mal tinha visto, além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa’uarda, a mocinha Miosótis, meu mestre Lucas, dona Dindinha, o comerciante Assis Wababa, o Vupes – Vusps... Todos, e meu padrinho Selorico Mendes. Todos, que em minha lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. Igual, levava, ah, o povo do Sucruiú, e, agora, o do Pubo – os catrumanos escuros. E que para o outro lugar levava restantes os cavalos, os bois, os cachorros, os pássaros, os lugares: acabei que levasse até mesmo esses lugares de campos tão tristes, onde era que então se estava... Todos? Não. Só um era que eu não levava, não podia: e esse um era o Hermógenes!

Aí dele me lembrei, na hora: e esse Hermógenes eu odiasse! Só o denunciar dum rancor – mas como lei minha entranhada, costume quieto definitivo, dos cavos do continuado

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que tem na gente. Era feito um nojo, por ser. Nem, no meu juízo, para essa aversão não carecia de compor explicação e causa, mas era assim, eu era assim. Que ódio é aquele que não carece de nenhuma razão? Do que acho, para responder ao senhor: a ofensa passada se perdoa; mas, como é que a gente pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se sabe? Isso eu pressentia. Juro de ser. Ah, eu.

Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam

– o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero : é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!

São os momentos, se sei. Senti um cansaço. Adiantamos ligeiro, depois que passado o vau da mata-virgem, e tenteávamos pelo encontrável. O sol ia entrando, vi o céu nos roxos, nos vermelhos. Misturamos numa baixada, no capim cacheado.

Umas lavourinhas. Daí, lá se estava, no retiro do Abrão, onde o campo largueia. Era uma boa casa. Mas, de dentro, saíram, de – 560 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas repente, por suas portas, uns homens, que fugiam corridos, feito ratos se escapulindo do toucinho de um jacá.

Sendo que Zé Bebelo assim na dianteira sempre cavalhava, vente, superintendeu que não perseguíssemos aqueles tais, nem neles se atirasse por comprazimento. O que estavam era em mão de roubando, se soube; como que tinham até sacos, para carregar dentro as coisas. Num átimo, eu reluzi quem que eles podiam ser. Só acertei. Pois não foi que um deles, errando no abrir da fuga, demorou, e perdeu as facilidades; então, veio do nosso lado, embrafustado, quase debaixo dos cavalos. Era um pretinho.

Um rapazola retinto, mal aperfeiçoado; por dizer, um menino. Nu da cintura para os queixos. As calças, rotas em todas as partes, andavam cai’caindo; ele apertou perna em perna.

Arfava chiado, como quem, por todo engano de pressa, tivesse chupado na boca um gole quente de café demais. Bezerro doente, de mal-de-ano, às vezes faz assim. Cuido que por não perder de todo as calças como vestimenta, ele se ajoelhou –

chato no chão, mais deitado do que ajoelhado. – “A benção!” –

pois disse. E a idéia dele rodou ligeira, pois, quando se notou, tinha tirado do bojo do saco o que estava lá: que era um pé de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas alpercata de homem, um candieirozinho pequeno, desses que vinham da Bahia, uma escumadeira de cozinha e um arranjado envernizado de couro preto, que nem boldrié – que tudo jogou fora, para uma banda, o longe que pôde. Seguinte o que, mostrou à gente o saco vazio, e com isto dizendo, arquejado:

– “Tirei não, nada não... Tenho nada... Tenho nada...”

Isso tudo se deu curto, que nem o mijar dum sapo; e dum modo tal inocente, de quem visse risse. E em coisa tão tola declarada assim a gente até crê razão, por ser tão afã de absurdo.

– “Donde é que vocês vieram, dond’é?” – Zé Bebelo indarguiu.

– “A gente quer voltar para casa... Semos, sim, é do Sucruiú, nhor sim...”

Arte que a aproveitar, ele tornou a atar melhor o resumo de embira, que cinturava aqueles molambos de calças. E se encolhia, temia; e se ria. Que nome era capaz de ter?

– “Guirigó... Minha graça é essa... Sou filho de Zé Câncio, seu criado, sim senhor...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Tão magro, trestriste, tão descriado, aquele menino já devia de ter prática de todos os sofrimentos. Olhos dele eram externados, o preto no meio dum enorme branco de mandioca descascada. O couro escuro dele era que tremia, constante, e tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não podia ser bom. E quando espiava para a gente, era de beiços, mostrando a língua à grossa, colada no assoalho da boca, mas como se fosse uma língua demasiada demais, que ali dentro não pudesse caber; em bezerro pesteado, às vezes, se vê assim. Menino muito especial. Jagunço distraído, vendo um desses, do jeito, à primeira, era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo, pensando que padecia agonia, e que carecesse dessa ajuda, por livração.

– “Guirigó, qu’é que vieram caçar aqui? Fala!”

– “O que qu’ a gente veio caçar, sim senhor? Eles vieram, eu também vim... Buscar de comer...”