Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 8 de 8 · parte 2/3

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Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas poeira duns oitenta... Era o Hermógenes. Contornava, feito gavião, vonje, como comigo não tinha nenhuma lei de combinação; e esse era o direito dele, de às-avessas de guerra! A um mal, o mal; mas o perigo de astúcia aquela hora mudava maior de lugar. Porque eles podiam vir e sobrevir. Ou menos retos; ou, mesmo – enquanto a gente parava ali, oferecidos, em cama-de-caça – também eles dispunham de revirar,’de supeto, no Paredão, por outra banda, e arrebatar a Mulher, contra meus só dez homens, fazer o que quisessem, e para depois emendarem caminho para o Cererê-Velho, em nós, com toda retaguarda...

Revesti isso, num relance. Arvorei a minha chefia. Meus jagunços esperavam a certa decisão: aí eles nem me olhavam. –

“Maximé...” – eu disse. Resumi. Apre, o que eu ia dizendo, no meio do som de minha voz, era o que o umbigo de minha idéia, aos ligeiros pouquinhos, manso me ensinava. E era o traçado.

Tanto que dei ordem. Repartição de gente – se carecia –: determinei assim. Metade – metade. Os com João Goanhá e João Concliz ficavam, altos, no Cererê-Velho, cumprindo espera afoita. E chamei os outros, e Marcelino Pampa de soto-comando: rompemos para o Paredão. Tudo se quatreou num pronto, no volver-voltear dos cavalos. Já um giro dava nos campos, já a gente se esquipava. E, Diadorim, que vinha atrás de mim uns

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas metros, quando virei o rosto vi meu sorriso nos lábios dele.

Íamos redeando resolutamente, dando as costas para o sol-entrando. Dividi idéia da guerra que ia ser, no brutalhal. Vindo a cavalo assim, era que eu pensava melhor, nas menos margens.

Do Cererê-Velho até no Paredão, seis léguas; e eu tinha de deixar ao menos um homem em cada meia-légua, em estação, para em caso serem capazes de traspassar recado, de tudo por tudo, com a rapidez da guerra. Eu fiz, só ia sendo. Todo o resto, que viesse, todo o igual. E meus homens cumpriam, capitalmente. Alegria do jagunço é o movimento galopado.

Alegria! Eu disse? Ah, não, eu não. O senhor de repente rebata essa palavra, devolvida, de volta para os portos da minha boca...

Que foi, o dito? Novas novidades.

Conforme vínhamos, a sério tocar, e já a bem uma légua do Paredão se estava, quando apareceu o Trigoso. Esse retornava de traquejar as beiras da banda do sul, e estivesse jejuno virgem de toda nossa ciência derradeira. Do Hermógenes nem nada sabia – pois, justo. Mas queria por força relatar. Disse coisas sem proveito. Disse. Carecia de impor no meu espírito o rebuliço, de esfriar em mim o sangue nas veias?!

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– “... No Saz – uma veredinha, três léguas abaixo –

Chefe... Vaqueiro que achei, que me disse, remendando mensagem: que é um homem, chamado Abrão, com uma moça bem arrumada... Que vêm vindo, beiradeando o rio, e a tralha deles trazem em dois burros cargueiros, e condução de dois camaradas...”

Ele falou. E foi a coisa mais de repente, na minha vida.

Otacília! Como tudo neste mundo podia ser, e como a minha mente tinha logo puxado de arranco, das palavras do Trigoso, todo verdadeiro significado! Inteirei, comigo: – Seô Habão?

Vigia se ele não traz consigo uma donzela formosíssima, ou se traz em-apenas desilusão... E o Trigoso disse, estava dizendo completo. Ela era! Otacília. Otacília. Eu tinha de escutar, outra vez, o Trigoso da verdade das coisas menos sabia. Imaginar, eu imaginava. Otacília – a vinda dela, sertão a dentro, por me encontrar e me rever, por minha causa... Mas achava a guerraria de todos os jagunços deste mundo, raivando nos Campos-Gerais. Terríveis desordens em volta dela, longe saída de casa de seu pai, sem garantias nenhumas... Que proteção ia poder dar a ela esse seô Habão, com dois pobres camaradas perrengues, tudo tão malaventurado, como se estavam? Engoli amargos. Me rodeavam meus homens, o silêncio deles me entendia, como

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas bem cientes. Reperguntei: quem sabe, se assim paravam na beira do rio, se então não deviam de ter retrocedido caminho, se encaminhando também para o Paredão?

– “Ah, que não, Chefe. Vaqueiro me disse: de lá para lá, iam indo... Fugindo do perigo para o perigoso... E, no Paredão, mesmo dito, já não tem mais pessoas de sede. As famílias todas, e os moradores, camparam no pé, desgarrados, assim que o medo chegou lá... O medo é demais de grande...”

Estremeci, mor. Eram as horas. Só de ouvirem falar no vago do Paredão, meu povo afastava os cavalos, já querendo regalopar. Entendi e mais entendi, rodei mão na cara. Incerteza de chefe, não tem poder de ser – eu soubesse bem. Mas, era eu ali, em sobregoverno, meus homens me esperando, e lá Otacília carecendo do meu amparo. E a guerra que podia dar de recomeçar, na boca dum momento, ou antes. Que de mim? Que diversas honras diferentes homem tem, umas às outras contrárias. Na estreitura, sem tempo meu, eu podia desdeixar meus homens? E tinha de ir. Não por bons-e-belos, ah. Mas minha Otacília vinha, em hora tão despertencida, de todas a vez pior. Eu podia requerer amor: – Me dê primavera? Vi tudo indeciso de mim, estarrecido – as pedras pretas no meio do

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas capim, o campo esticado. Só fiz que no forte do sentir eu pudesse era este ameaço de reza: – Me dê o meu, só, e que é o que quero e quero!... – ao Demo ou a Deus... A lá eu ia. Otacília não era minha noiva, que eu tinha de prezar como quase minha mulher? Meio do mundo.

Vai, e eu disse: lá ia, no vou e volto; e já mesmo. Se diz –

era um pulo. Para revir e dar guerra, tempo havia de ter. Os outros fossem, para o Paredão, tocassem. Já estava escurecendo.

Só mais que, nesse propósito, muitos acharam de me acompanhar: alegando que, à tal coisa, como chefe, eu carecia de não querer sozinho ir. Abanei cabeça. Em assim, aceitei dois: Alaripe e o Quipes – companhia que me bastava. Eu não ia desarrumar negócio, afracar o forte de minha gente, com mais homens arrecadados. E sendo o de ser. Arremessei ordens, joguei meu cavalo.

Porém, porém: e esbarrei, em saída. Esbarrei, para repontar Diadorim, que vinha vindo. – A lá, que é?! – eu disse, asp’ro. Diadorim quisesse me acompanhar, eu duvidava, de que motivos. Não me respondeu. Li nele a forma duma ira, como apertou os olhos em direitura do campo. – Tu não vai para o Paredão, tu teme? – eu ainda buli. Diadorim me empaliava, a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas certas. O ódio luzente, nele, era por conta de Otacília... Ele me ouviu e não disse, ladeando o cavalo. Mirou meio o chão; vergonha que envermelhou. Agora ele me servia dáv’diva d’amizade – e eu repelia, repelia. Mas, fora de minha razão, eu precisei com urgência de ser ruim, mais duro ainda, ingrato de dureza. Invocava minha teima, a balda de Diadorim ser assim. –

Tu volta, mano. Eu sou o Chefe! – pronunciei. E ele, falando de um bem-querer que tinha a inocência enorme, respondeu assaz:

– “Riobaldo, você sempre foi o meu chefe sempre...”

Ainda vi como ele – com a mão, que era tão suave em paz e tão firme em guerra – amimava o arção do selim. Repostei um feio xingo. Bramei isso, porque o azo de Diadorim me transtornava. Dei de rédea. Com um raspo de galope, peguei junto com Alaripe e o Quipes, que mais adiantados me aguardavam. Nem espiei para trás – não ver que Diadorim obedecia, mas como devia de parar estacado lá, té que o meu vulto desaparecesse. Desjustiça. Mas como a obrigação do dia me arrolava. E em tudo não pensei, tocando para ir fazer-e-acontecer, aos baques do coração. O senhor diria, dirá: como naquela hora Diadorim e eu desapartávamos um do outro –

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas feito, numa água só, um torrãozinho de sal e um torrãozinho de açúcar... Fui, com desejos repartidos.

Tropear cavalgada – nós três: o Quipes, Alaripe e eu – meio a esmo, isso é que se tinha. Refiz o frio da idéia. Mas, nos primeiros ares, nem consegui. Eu despropositava. – Diadorim é doido... – eu disse. Todo me surripiei, instanteante: tanto porque

“Diadorim” era nome só de segredo, nosso, que nunca nenhum outro tinha ouvido. Alaripe só fez que susteve cara de não entender, e disse somente: – Hem? Mas, aí, eu desmanchei o encoberto, dado dando o do passado, me desimportava; consoante expliquei: – “Diadorim” é o Reinaldo... Alaripe ficou em silêncio, para melhor me entender. Mas o Quipes se riu: –

“Dindurinh’... Boa apelidação... Falava feito fosse o nome de um pássaro. Me franzi. – O Reinaldo é valente como mais valente, sertanejo supro. E danado jagunço... Falei mais alto. – Danado... –

repeti. Alaripe, por respeito, confirmou: – Ah, danado é... Por que era que não dava outro jeito, dele comigo conversar, que não fosse com essas reverências?

E a noite já tinha completado escuro, sem lua ainda aparecida, eu não podia avistar a cara dele como formava opinião, as palavras que eu falei ficaram sendo sem dono. –

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Otacília é minha noiva, Alaripe. Se alembra dela? Antes de outros silêncios, ele me respondeu: – Alembro... Lá é um fazendão bom...

Até me desgostava o modo zeloso do Alaripe sempre guiar o caminho, cuidados com que separava os galhos e ramagens de árvore, para o meu cômodo de seguir. E a gente estava quase a passo em passo. Donde de conversar desisti muito. A que a qual a escuridão tapava toda boca.

Aonde para que eu ia? – e carecia de ir, conforme meu dever. Mas minha Otacília não devia de ter escolhido justa essa ocasião, tão destacada de propósitos, para vir aventurar entre homens de morte essa delicadeza, sem proteção nenhuma, filha-de-família... Alaripe e o Quipes não descuidavam de tomar tento em tudo, nos lados, no arredor – figurável que era tempo de guerra, em brenhas de noite, e algum inimigo menos-se-espera podia surgir para o mal. Aonde se ia? Rumo dado, reto em cima da Vereda do Saz, ou seguir seguido, rio Paracatu arriba? Tudo como que tudo se me dava à raiva – tanto por causa desse vaqueiro, trazedor de relatos. Nem eu soubesse certo se era o seô Habão, se era Otacília...

A quase metade do céu tinha suas estrelas, descobertas entre os enuveados para chuva. O setestrelo, no poente, a uma

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas braça: devia de regular umas nove horas. Nesse ponto, deu de se ouvir um rumor grande, para dentro do cerrado, removendo nas galharias. Só fizemos que esbarramos, rifles em mãos. – É anta...

– o Quipes disse, conhecedor alertamente. Alguma onça, à espera de lua. Otacília a tudo estava exposta, por culpa de maus conselhos. – O seô Habão entregou a ela a pedra de ametista... – eu falei. Alto falei; e não queria que o Alaripe ressoasse: “... entregou a ela a pedra...” Isto é: a pedra era de topázio! – só no bocal da idéia de contar é que erro e troco – o confuso assim. Diadorim sofria mais de tudo, quem sabe, por conta da dádiva daquela pedra. Otacília não devia de ter vindo. Eu... Essas andanças!

Agora, aonde era que se ia encontrar viajor, ou aquele beida-mãe de vaqueiro, para obrigar a definir notícia? Mas o vaqueiro aquele não teria o certo pouso. Só atrás de seu gado urucuiano. Todo o mundo se fugia, do Paredão e de toda parte, suas trouxas nas costas. A quando se divisou um foguinho adiante no campo, seja que pensei: gente arranchada no ar, em caminho para lugar nenhum... Não era. Somente foguinhozinho avoável assim azulmente, que em leve vento se espalhava: fogo-fá, jan-dla-foz.

O que não se achava, o que eu pensava. Eu era diferente de todos? Era. Susto disso – como me divulguei. Alaripe, o Quipes, mesmo o calado deles, sem visagens, devia de ser diverso do

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas meu, com menos pensamentos. Era? Sei que eles deviam de sentir por outra forma o aperto dos cheiros do cerradão, ouvir desparelhos comigo o comprido ir de tantos mil grilos campais.

Isso me dava ojeriza, mas também com certo consolo –

misturado. Como quando viajando assim, no escuro da noite, a idéia da gente cheia de atormentamentos, e de repente o cavalo bufa, batendo o vulto da cabeça branquenta, e chamando atenção para o cheiro do suor dele, que vale por uma persistência, com paciência de responsabilidade... Aquela noite estava podendo mais do que a minha decisão? Soubesse não sei. Noite lembrada em mim, de sereno a orvalho.

Revi madrugar, quando esbarramos, na beira duma vereda pagã, por repouso. Aurora: é o sol assurgente – e os passarinhos arrozeiros. Cá o céu tomou as tintas. Aí retoquei muita lembrança madraça, como se estivesse no antigamente. Fez falta foi um café; mas comemos farofa, bebemos gole d’água. O

Quipes apanhou araticum maduro, ele vivia cuidando de achar as frutas em árvores e moitas. E Àlaripe ajuntou gravetos e acendeu um fogo; só por calor e costume, só, que não se tinha o que quentar nem assar. Medito como aos poucos e poucos um passarinho maior ia cantando esperto e chamando outros e outros, para a lida deles, que se semelha trabalho. Me passavam

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas inveja, de como devia de ser o ninho que fizessem-tão reduzido em artinha, mas modo mandado cabido, com o aos-fins-e-fatos.

E o que pensei: que aquela água de vereda sempre tinha permanecido ali, permeio às touças de sassafrás e os buritis dos ventos – e eu, em esse dia, só em esse dia, justo, tinha carecido de vir lá, para avistar com eles; por que que era? Bobéia... Eu estava cansado, com uma dor na ilharga.

Por desenfastiar, conversei. – A veja, Alaripe: que nome será que esta vereda havia de ter, o que merecesse denominado? Alaripe, agachado ali mesmo, se virou para mim, esbarrando de assoprar o fogo: – Figuro que ela algum nome já tem, só que não se saiba. A modo que, pegando algum morador de por perto, se indaga... – ele melhor me respondeu. Mas eu contradisse que não se precisava.

Forrei chão, para um cochilo. De qualquer jeito, a paragem ali tinha de ter demora, carecia de se dar um lombo aos cavalos.

Para o que o dia ia ser, eles requeriam um descanso, e pastar; cavalo são desdenha de dormir, o senhor sabe: bicho que só come, come, come. O sono me conseguiu. Ferrei em mais de umas duas horas.

Por que tudo refiro ao senhor, de tantas passagens? Ah, pelo que quando acordei, retenha o seguinte. Acordei sentido e

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mal à parte. Amargava. Devia de ir ter cólicas. As ânsias essas, mesmo com outro cansaço. Feito sem repouso nenhum, daquelas horas. Assim: eu sem segurança nenhuma, só as dúvidas, e nem soubesse o que tinha de fazer. Acordei foi com o vozeio de Alaripe e o Quipes, que já esperavam por mim, e estavam naquela pauteação trivial deles, coisas sem nenhum fundamento. Depois, Alaripe tirou da capanga um vidro que tinha cachaça dentro, me ofereceu o primeiro gole. Era um vidro meão, claro, feito remédio de frasco. Com alívio, tomei. Mas era um alívio mesmo assim triste, e eu descri; eu quis discorrer qualquer noção. – O que é que tu acha do que acha, Alaripe? Ele não me conheceu: principiou a definir o Paredão, do CererêVelho, do Hermógenes. Atalhei: – que não isso; que da vida, vagada em si, no resumo? – A pois, isto... Homem, sei? Como que já vivi tanto, grossamente, que degastei a capacidade de querer me entender em coisa nenhuma... Ele disse, disse bem. Mas eu entiquei:

– Não podendo entender a razão da vida, é só assim que se pode ser vero bom jagunço... Alaripe esbarrou, como ia quebrar em duas uma palma seca de buritirana. Me olhou, me falou: – Se só de entender, é comigo, eu entendo. Entendo as coisas e as pessoas...

Respondeu, disse bem. De mim, então, entendia? Desjuízo, que me veio. Eu ia formar, em roda, ali mesmo, com o Alaripe e o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Quipes, relatar a eles dois todo tintim de minha vida, cada desarte de pensamento e sentimento meu, cada caso mais ignorável: ventos e tardes. Eu narrava tudo, eles tinham de prestar atenção em me ouvir. Daí, ah, de rifle na mão, eu mandava, eu impunha: eles tinham de baixar meu julgamento... Fosse bom, fosse ruim, meu julgamento era. Assim. Desde depois, eu me estava: rogava para a minha vida um remir – da outra banda de um outro sossego...

Pensei; quase disse. Aquilo durou o de um pingo no ar. Eu havia de? Ah, não, meu senhor. Deu um momento, me tirou disso; e tanto bastou. Doidice, tontura de espírito... – eu repensei, reposto em pé. Xô! O ypsilone dum jegue eu era – zote, do que arrenego, cabeça orelhalmente? Ali eu era era o Chefe, estava para reger e sentenciar: eu era quem passava julgamentos! Então, falei:

– “Vão sozinhos, vocês dois, beira-rio, procurando. Eu não posso ir mais, por meu dever. Retorno, já, para o Paredão...”

Alaripe ainda cruzcruzou: – “A gente – pode ser que lá a gente faz falta...

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Mas eu fechei. Sendo o que eu mesmo não podia, ao menos esses eu mandava. Fossem, já fossem. Eles tinham de encontrar a minha Otacília, a ela render boa proteção. Amontamos, os três.

Ainda esperei a saída deles.

Até me lembro de que, escabreado, na hora de saudar e tocar, Alaripe ainda apontou para a linha de mato, vereda-acima, achando: – Como que avisto, por detrás d’árvores, passar a marcha dum cavaleiro... Não era. Não era, porque o Quipes não viu, conforme confirmou que não viu; e o Quipes tinha olho de gavião-grande. Aí, pensei: será, o Alaripe estava sendo um homem se envelhecendo? Amigo meu – e meu estranho. Até me lembro, pensei assim.

Retornei, enquanto eles dois iam para a outra banda. Agora eu mudava, para motivos: chega estremeci de influência, aos aos-ares de guerra. Deixei de parte a cisma, do mesmo jeito com que, ainda fazia pouquinho, eu tinha afrouxado ânimo; ah, a gente larga urgente o real desses estados. Agora minha alegria era mais minha, por outro destino. Otacília ia ter boa guarda. E então, por uma vez, eu peguei o pensamento em Diadorim, com certo susto, na liberdade. Constante o que relembrei: Diadorim, no CererêVelho, no meio da chuva – ele igual como sempre, como

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas antes, no seco do inverno-de-frio. A chuva água se lambia a brilhos, tão tanto riachos abaixo, escorrendo no gibão de couro.

Só esses pressentimentos, sozinho eu senti. O sertão se abalava?

Desfechei. Naquela corrida, meu cavalo teve as dez pernas.

E cheguei no Paredão, na derradeira boa-luz da tarde.

Diadorim, me esperava, demais. Ainda vi a alegria no rosto dele.

O Paredão. O senhor ponha. Como esvoaça mosca gorda, de donde se matou boi. Tudo estava perfeito tranqüilo. Diadorim

– com chapéu xíspeto, alteado. Nele o nenhum negar: no firme do nuto, nas curvas da boca, em o rir dos olhos, na fina cintura; e em peito a torta-cruz das cartucheiras. Os mais, zelando nas armas, corriam os dedos, apalpavam por afago. Conversei com todos. Aqui a guerra – que queriam guerra. Assim os meus catrumanos: quais as caras deles iam ficando de demônios; mais feio no demônio é o nariz e os beiços...

Conferi as sentinelas. Fui ver onde tinham botado a Mulher

– ela fechada num quarto, no sobrado. Ficasse remetida lá, sobpé de guarda. O sobrado marcava o meio quase da rua. Mas, para a gente em armas, de que é que valia aquele arraial inteiro, tão

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas vazio? Determinei: deixar lá memo só uns poucos, como vigias.

Tanto o resto todo, para um ponto viemos, circunstância de umas duzentas braças, aonde um lugar mais alto desenhado, que seria para porta dos caminhos e apropriado para ali se resistir.

Formamos bons preparos. Minha mãe vivesse e viesse, ela mesma por nenhum descuido mero não havia de poder me reprovar.

Assim apreciei a gente – às mansas e às bravas – a minha jagunçada. Agora eles estavam arrumando o mundo de outra maneira. Tudo se media munição, e era fuzil e rifle se experimentando. A guerra era,de todos. A juízo, eu não devia de mestrear demais, tudo prescrevendo: porque eles também tinham melindre para se desgostar ou ofender, como jagunço sabe honra de profissão. Dos modos deles, próprios, era que eu podia me saber, certificado, ver a preço se eu estava para ser e sendo exato chefe. Com modos, eu falasse: – “Olh’, vigia, fulano: aí está bom; mas lá acolá não é melhor?” – e receava que ele respondesse, me explicando por que não era, não. Eu questionava, comigo, que eles deviam de lavorar maior raiva.

Raiva tampa o espaço do medo, assim como do medo a raiva vem. Reparei isto: como nenhum não citava o nome do Hermógenes. Aí estava direito – que no imigo, em véspera, não

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas se proseia. Mal que um disse: – “Ele não é laço: – é argola...” – Ou outro, que: – “Ele adoida...” Mas os mais não glosavam. Com o que prazi. Gastura que eu tinha era só de que, a ventos vai, um fosse acrescentar: –... Ele é pactário...

Ah. E que fosse? Menção não era de se afirmar, regalia nenhuma. Pois o demo não é de todos?! Alt’arte abri o meu maior sentir: que eu havia de ter a vitória... Dali, o Hermógenes não saía com vida, maneira nenhuma, testamental. Tive ódio dele? Muitos ódios. Só não sabia por quê. Acho que tirava um ódio por causa de outro, cosidamente, assim seguido de diante para trás o revento todo. A modo que o resumo da minha vida, em desde menino, era para dar cabo definitivo do Hermógenes

– naquele dia, naquele lugar. Pelejei para recordar as feições dele, e o que figurei como visão foi a de um homem sem cara.

Preto, possuindo a cara nenhuma, feito se eu mesmo antes tivesse esbagaçado aquele oco, a poder de balas... E tudo me deu um enjôo. Tinha medo não. Tinha era cansaço de esperança.

Também eu queria que tudo tivesse logo um razoável fim, em tanto para eu então largar a jagunçagem. Minha Otacília, horas dessas, graças a Deus havia de parar longe dali,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas resguardada protegida. O tudo conseguisse fim, eu batia para lá, topava com ela, conduzia. Aí eu aí desprezava o ofício de jagunço, impostura de chefe. Sei quem é chefe? Só o gatilho de arma-de-fogo e os ponteiros do relógio. Sensato somente eu saísse do meio do sertão, ia morar residido, em fazenda perto da cidade. O que eu pensei: ... rio Urucuia é o meu rio – sempre querendo fugir, às voltas, do sertão, quando e quando; mas ele vira e recai claro no São Francisco... Agora, Alaripe e o Quipes, regulando, deviam de já ter achado a minha Otacília, demais, pelo Paracatu-acima, tão longe; e até semelhasse invenção, isto que, na madrugada, eu mesmo também tinha estado em caminho de lá, em tão precipitados surtos. Artezinha. Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...

Nessas e noutras muito extremadas coisas eu tornava a pensar, o espírito em meia-mão, por diante permeio os outros meus entretimentos deverdade. Agora tudo estava pronto, das obrigações – afora a de esperar, que é a que regasta e se recoze.

A noite foi se esquentando assaz. Ali também, por avisante, não se acendia fogueira. Mas o campo esparramava muito vaga-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas lume. Os homens formando grupos, acocorados assim, eles conversavam. O quase que o legal, agora, era de se caçoarem uns dos outros, desafiando quem fosse ser medroso ou duvidado na coragem. Razão disso meava uma confiança, a mais, eu escutando satisfeito aquelas bobices com que eles porfiavam: – “Caranguejinho, sem cachaça tu vai?” – “Eh, não: tu!

Vai saudar o gado!” Pelos risos e debiques que divertissem, de todos eu percebia a forte certeza. Cada cada-um, dali a pouco, ia ser perigoso, de nele se encostar, feito um sapo que espirra. –

“Que te falo: amarra o burro, que a carga é sua...” – “Minha, a carga está salva... Mal a bem, oxen te, quero é ver o que vou ver...”Assim se zé-zombavam. Aos ditos ditados, feito estivessem jogando um truque, sem baralhos nenhuns. Por que é que aquilo me comprazia? E Diadorim parava calado, próximo de mim, e eu concebia o verter da presença dele, quando os nossos dois pensamentos se encontravam. Que nem um amor no ao-escuro, um carinho que se ameaçava. – “... Tiroteio fervo, se será! Aí é que vou ver um mais menino que o J’bibe...” – “Se tu não sabe, você vai saber: que eu já fiz minha fama... ““Jiribibe? Pois, aquele, eh: ele pede esmola ao rei...” E reproduziam muitas essas gaitagens.

Agora estavam acostumados com a hora do lugar, e para qualquer repente refrescados. Igual a um gado – que vem num

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pasto novo, e anda e fareja, reconhecendo tudo, mas depois tudo aceita e então começa a resfeição. Agora, agora, sim, meus homens estavam em ponto de fogo. Melhor mesmo não irem dormir, antes de forte sono, por se evitar espertina de criatura sozinha, em espera de possível má morte. Tive pena deles?

Disser isto, o senhor podia se rir de mim, declarável. Ninguém nunca foi jagunço obrigado. Sertanejos, mire veja: o sertão é uma espera enorme.

Vai, vai, uma hora eu perguntei a Diadorim: – “A Mulher dissesse alguma coisa?” Isto eu não sabia por que era que estava indagando. Aí eu não queria ciência de se a Mulher tivesse falado alguma coisa trivial. Eu quisesse achar de saber – era se ela alguma doidice de profecias havia de ter pronunciado?

Diadorim disse: – “Não.” Mas ele devia de estar curtindo outro instar de outro assunto. Sustido eu sabia: o que era dele sempre pensar – o imaginável de Otacília... Depois de remedir o tamanho de um silêncio, ele mesmo veio: – E o Alaripe, mais o Quipes; aonde foi que ficaram? Esse ciúme de Diadorim, não sei porque, daquela vez não me deu prazer de vantagem. E eu desdenhei, na meia-resposta: – Por aí... – que eu disse. Aí era o cão da noite, que meu beiço indicava. Vaga-lumes, mais de milhar. Mas o céu estava encoberto, ensombrado. Sofismei.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Meio arrependido do dito, puxei outra conversa com Diadorim; e ele me contrariou com derresposta, com o pique de muita solércia. Me lembro de tudo. O que me deu raiva. Mas, aos poucos, essa raiva minou num gosto concedido. Deixei em mim. Digo ao senhor: se deixei, sem pejo nenhum, era por causa da hora – a menos sobra de tempo, sem possibilidades, a espera de guerra. Ao que, alforriado me achei. Deixei meu corpo querer Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele.

Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que eu não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia.

Diadorim – mesmo o bravo guerreiro – ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo, do rosto... Beleza – o que é? E o senhor me jure! Beleza, o formato do rosto de um: e que para outro pode ser decreto, é, para destino destinar... E eu tinha de gostar tramadamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ela fosse uma mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer – pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas? Mais em antes se matar, em luta, um o outro. E tudo impossível. Três-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas tantos impossível, que eu descuidei, e falei. –... Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... –; o disse, vagável num esquecimento, assim como estivesse pensando somente, modo se diz um verso. Diadorim se pôs pra trás, só assustado. –

O senhor não fala sério! – ele rompeu e disse, se desprazendo. “O

senhor” – que ele disse. Riu mamente. Arrepio como recaí em mim, furioso com meu patetear. – Não te ofendo, Mano. Sei que tu é corajoso... – eu disfarcei, afetando que tinha sido brinca de zombarias, recompondo o significado. Aí, e levantei, convidei para se andar. Eu queria airar um tanto. Diadorim me acompanhou.

Era uma noite de toda fundura. Estava dando um vento, esquisito para aquele tempo, por ser um vento em-hora do lado suão, em-hora do norte, conforme se riscando um fósforo, ou jogando punhado de areia fina clara para cima, se conhecia.

Andamos. Mas, agora, eu já tinha demudado o meu sentir, que era por Diadorim uma amizade somente, rei-real, exata de forte, mesmo mais do que amizade. Essa simpatia que em mim, me aumentava. De tanto, que eu podia honestamente dizer a ele o meu bemquerer, constância da minha estimação.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Não disse. Por que que não disse, foi porque o perigo da ocasião me invocou: achei que podia ser agouro, em véspera de guerra, a conversa afeiçoada assim. Diadorim – em que era que ele devia de estar pensando?; é o que eu não soube, não sei, à minha morte esta pergunta faço... Como certo é que só do sem-mais de coisas falamos, sem nenhuma expedição. Até que o vento revirou: mudando inteiro, que vinha era só do norte, conforme neste lado da minha cara ele só se fez quente, refrescando. O sertão ventou rouco. Com formas que logo se ajuizou de poder supravir chuva forte, e carecido foi que determinamos de retornar com tudo, para se ir dormir mesmo nas casas do arraial, só uns poucos homens de vigia se deixando naquele alto, a padrasto. E isso era o exato, mas me aborreceu demais e me cansou, mais do que as outras peripécias. Consabido que na noite antes eu tinha viajado em todo regime das estrelas, e mais ainda no dia, afora as duas ou três horinhas de sono, de madrugada. Foi eu ver um catre, e me trespassei. Ainda disse uma recomendação: que, tirante caso resoluto, em hora qualquer não me chamassem. Dormi mortalmente. Essa, foi noite que eu dormi: sendo o chefe Urutu-Branco, mesmo dizer – o jagunço Riobaldo...

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Acordei último. Alteado se podia nadar no sol. Aí, quase que não se passavam mais os bandos de pássaros. Mesmo perfiz: que o dia ia dever ser bonito, firme. O calor fortalecia, e logo ia se secando o chão, umas poças de lama e as árvores com gotejos – porque de noite tinha caído uma bruega. Bebi café, comi um naco de carne gorda, repassada na farinha, mastiguei um taco de rapadura. Enquanto vi, meu pessoal discorria na mesma disposição, influentes como antes. Tornamos para o ponto demonstrado de espera, cada um caçando seu atrincheirado.

Chegou o Cavalcânti, vindo do Cererê-Velho, com recado: nenhumas novidades. Para o Cererê-Velho recambiei aviso: nenhumas novidades, minhas também. O que positivo era, e do que os meus vigiadores do rededor davam confirmação. Antes, mesmo, por mais, que eu quisesse ficar prevenido, o dia era de paz. Todos percebessem. Era uma paz gritável. – Será que não vão vir? – algum maldisse, no rifle se escorando. Vez vendo, duvidei.

Chegou a me dar desânimo, fato que não viessem – e a gente ter de adiar fim, recomeço, rodando por esse mundo a fora em vã caçada. – Ah, não! – retemperei. Homem nenhum podia deixar a mulher sojugada presa em mão de outros, e demorar desistido de ataque. Vinha que vinha, mais hora menos hora. Todos esperassem. E eu mesmo de todas minhas armas não larguei, quando

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas desci para momento de lavar o corpo no rio. Que tão perto era.

E, de lá, todo movimento dos meus eu avistava.

Duvido? Desavistei foi na mente, não foi dos olhos. Como que o avio de descangar as armas de sobre mim e as cartucheiras, e o vagar de tirar a roupa e remolhar os pulsos, e fazer menção para entrar na água com conforto – essas ações tiravam conta do meu estar, como um alívio de sossego. Eu tinha a certeza de paz, por horas. E o demo me disse? Disse; mas foi assim: tiros!

Choque que levei – foi feito um trovão. Começou a se bradar.

Os gritos, tiros. Que foi, mesmo, que eu primeiro ouvi?

Primeiro, dum pulo bruto, eu já estava lá, pegando minhas roupas, armado prestes. E vi o mundo fantasmo. A minha gente

– bramando e avisando, e descarregando: e também se desabalando de lá, xamenxame de abelhas bravas. Mas, por quê?

– eu desentendi; e tornei a entender, depressa demais: que o inimigo dera de se estourar, todo de-repentemente, da banda outra, lugar donde não devia de vir, nem ali possível de ser esperado.

Eles eram quantidade. Cru e cru que avançavam, avançando, como que já iam tomar o Paredão, as casas na ponta do arraial.

Estarreci. Que, na prema da minha ausência, o muito mundo se

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas acabava. Tudo diferente da cartada. E eu sei o que é estupor: que eu tinha pegado calça e camisa em mão, e esbarrei, num demorado sem termo, no meio de me revestir, e eu num latejo frouxo pensando: – Não chego em tempo... Não adianta... Não chego em tempo nenhum...

Sei lá o tanto que isso durou? E eu via o meu pessoal avançar também, com brabura e diligência, na outra ponta, a modo de impedir que o arraial fosse tomado... Porque o Paredão era uma rua só; e aquilo ficou de enfiada – um cano de balas.

Mas, no mesmo ar de ar em que eu via aquilo, lavorei pensando: que eu era tonto, e burro, e idiota as mil vezes, porque agora estava perdida irremediavelmente minha ocasião, e a guerra descambava, fora do meu poder... E eu acabei de me enroupar, mal mal, e escutava essas vozes: – Tu não vai lá, tu é doido? Não adianta... Não vai, e deixa que eles mesmos uns e outros resolvam, porque agora eles começaram tudo errado e diferente, sem perfeição nenhuma, e tu não tem mais nada com isso, por causa que eles estragaram a guerra... Assim ouvi, sussurro muito suave, vozinha mentindo de muito amiga minha. O meu medo? Não. Ah, não.

Mas meus pêlos crescendo em todo o corpo. Mas essa horrorizância. Daquela doçura nojenta de voz. E senti meu corpo muito grande. Me xinguei. Um sujeito vinha correndo, nele eu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas quase atirei. Desertor? Ah, não, esse o Sidurino era, correndo por um cavalo. Ah – e bem fosse! – ia voltear para o Cererê-Velho, chamar, trazer reforço, para darem retaguarda. E eu casei com meu rifle, vim, vim, vim. Desconheci temor nenhum. Vivo em vida, me ajuntei com os companheiros. Meus homens! – dei ordens. As balas estralejavam.

Foi fogo posto. Arrasar que vem de para onde não se olha: feito forte sol; e vem como sol nascendo! Rachavam lascas, espatifavam. Aí podiam descascar os arvoredos de uma dessas, floresta toda inteira... Apraz que os ares!

Ah esses meus jagunços – apragatados pebas – formavam trincheira em chão e em tudo. Eles sabiam a guerra, por si, feito já tivessem sabido, na mãe e no pai. Só se aos uivos urros, se zurrava. Aí – como tomei chegada e peguei postura. Valia ver –

comandar? Gritei: – “Chagas de Cristo!...” Os meus davam ainda outros gritos. A carabina, em mãos, coisa mexedora. A gente disparava dentro dos quintais, avançávamos. E de detrás das casas. E guardávamos o emboque da rua. Diz que lê?; diz-que escreve! Tiro ali era máquina. Aos tantos, juntos, relando – cinco deles, cinco dedos, cinco mãos. A gente tinha de caber em buracos escavacados. A cabeça da gente é que dá voltas, mesmo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas no esconderijo, como para se desviar. Mas não se tem medo a gasto. Eu dizia: fré! – e botava bililica na agulha. – Amanso! Eu queria que Diadorim não se descuidasse. Diadorim disse: –

“Toma cautela, Riobaldo...” Diadorim se descabelou, bonitamente, o rosto dele se principiava dos olhos. Eu comandava? Um comanda é com o hoje, não é com o ontem. Aí eu era Urutu-Branco: mas tinha de ser o cerzidor, Tatarana, o que em ponto melhor alvejava. Medo não me conheceu, vaca! Carabina. Quem mirou em mim e eu nele, e escapou: milagre; e eu não ter morrido: milagremente. A morte de cada um já está em edital. Dia de minha sorte. O que digo e desdigo; o senhor escute. Mas o inimigo fuzuavatiroteio total.

Tudo ali era à maldição, as sementes de matar. De ouvir o renje uimuim dessas, perto de nossos cabelos – eles sobem, de si

–; e chega a doer de nervoso: mas dói real, como se umas daquelas atravessassem até buracal do olho da gente, mas feito dor que vara do céu-da-boca, por dentro dos ossos, pontudamente, igual quando às vezes se come sorvete de gelo...

Era a cara pura da morte. – Av’ave! Marcelino Pampa, logo esse.

Nem olhou ninguém. Curvou o corpo quase se quebrando em dois, ia encostar testa no chão; e largou tudo, espaireceu as mãos, e bofou da boca diversos dois feixes de sangue. Sangue dele.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Semelhava que um boi nele tivesse pisado... E eu desfechei dez, para a frente, vingando fosse. Daí, vigiei. Um homem morre mais que vive, sem susto de instantaneamente, e está ainda com re-mela nos olhos, ranho moco no nariz, cuspes na boca, e obra e urina e restos de de-comer, nas barrigas... Mas Marcelino Pampa era ouro, merecia lágrimas dalguma mulher perto, mão tremente que lhe fechasse bem os olhos. Porque não se vê outro assim, com tão legítimo valor, capaz de ser e valer, sem querer parecer.

E uma vela acesa, uma que fosse, ali ao pé, a fim de que o fogo alumiar a primeira indicação para a alma dele – que se diz que o fogo somente é que vige das duas bandas da morte: da de lá, e da de cá... E eu peguei puxei o corpo para não ficar em cima dum vestígio de lama – porque ali de noite tinha chovido; e Diadorim panhou o chapéude-couro, com qual tapou o rosto do dono. A paz no Céu ainda hoje-emdia, para esse companheiro, Marcelino Pampa, que de certo dava para grande homem-de-bem, caso se tivesse nascido em grande cidade. Ah pápá! falei fogo. Aquilo em volta se arrebentava, balalhava.

Mas a gente tinha conseguido de firmar possessão –

agarramos mais da metade do arraial, do arruado. O sobrado restou nosso. Com anseio, olhei, para muito ver, o sobrado rico, da banda da mão direita da rua, com suas portas e janelas

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pintadas de azul, tão bem esquadriadas. Aquela era a residência alta do Paredão, soberana das outras. Dentro dela estava sobre-guardada a Mulher, de custódia. E o menino Guirigó e o cego Borromeu, a salvos. Da parte de cima, das janelas, e das portas, no rés, vez a vez meus homens descarregavam. Aquele sobrado, sobradão, parava lá, sobre sereno – me prazia tudo comandando.

Ir lá?

– “Atual, em riba, estão dois: um é o José Gervásio.

Embaixo, na venda, uns quatro...” – quem me informou disso foi o Jiribibe, em meu ouvido carecendo de altear voz, tanto que espingardaria estrondava.

– “Pouco é, para ações. Tu vai lá, Riobaldo...” – quem me disse foi Diadorim, em tanto. Surriada zuniu. O tutuco das balas, e as que batiam no chão, as raivosas, tirando terra.

Atirei, seco. Umas três ou quatro vezes. Carreguei em novamente.

– “Aqui é que é meu dever, Diadorim. Por o mais perigoso...” – eu falei, muito alerta. Tudo que Diadorim aconselhasse, eu punha de remissa; a modo de que com pressentimentos.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

– “Tu vai, Riobaldo. Acolá no alto, é que o lugar de chefe.

Com teu dever, pela pontaria mestra: que lá em riba, de lá tu mais alcança... Constante que, aqui, o negócio está garantido...”

– ele disse, mansinho, de me persuadir.

Troquei o rifle-papo pelo máuser, movi mão, fogo. Nesse ato, nem sei se matei. Às artes, lá, o sobrado, que torna mirei e admirei. Meu posto? O quanto também olhei Diadorim: ele, firme se mostrando, feito veadamãe que vem aparecer e refugir, de propósito, em chamariz de finta, para a gente não dar com o veadinho filhote onde é que está amoitado... Aquele sobrado era a torre. Assumido superior nas alturas dele, é que era para um chefe comandar – reger o todo cantão de guerra!

– “Eu vou...” –; fui.

Deixado João Curiol no meu lugar, e esse tinha muita valia.

Rastejei, tomei saída, conforme tinha de ir: pelos quintais das casas. Ainda virei, relanceando. Sempre queria ver Diadorim. O

querer-bem da gente se despedindo feito um riso e soluço, nesse meio de vida.

Avancei, furando os terreiros e as hortas das casas, eu debaixo de armas, nos arreios. Toda a parte ali tinha gente

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nossa, que com brados me saudavam: conforme vale, quando um chefe mostra mor valentia. Gente com o Jõe Bexiguento, sobrechamado o “Alpercatas”. E estava lá o João Nonato – que dava boa-sorte, com o bom ar. Avancei, rompi uma cerquinha de taquara, contornei um pano de muro, onde o Paspe tinha furado os adobes, cavando torneiras. E dei fé: que o Jiribibe vinha me acompanhando. O menino bom. Os olhinhos dele a gente só via era porque eram inventados de pretos. – “Será, da banda de lá, estão bem governando, os clavinoteiros?” – ele me disse. Aí, por que me dizia? Soubesse não que o brinquedo agora era mortal? Sobre o que, se riu, me apresentando: o que era, no fofo da terra, debaixo duma roseira, um gatinho preto-e-branco, dormindo seu completo sossego, fosse surdo, refestelado: ele estava até de mãos postas... Mas, perto de mim, veio grão d’aço – que varou cheiamente um pé de mamoeiro. –

“Vigia, te abaixa!” – eu ralhei com o Jiribibe. A gente ouvia a urração, ou cita seja, destemperada, dos inimigos, e um desentoar de cantiga, que toda pessoa era filho-da, segundo a qual. Aos canalhas! Mas mais xingava o Jiribibe, ripostando. Daí, depressa, ganhamos trincheiras, atrás dum forno de assar biscoitos: e berraram punhadão de disparos, para nosso lado, chega semelhava rajada de chuva-de-pedra. Lugar danoso!

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Aguardamos, deitados. – “Te foge, Jiribibe, que figuro eles têm gente atirando de cima de árvores...” – eu total aconselhei.

Assim rastejávamos. E pouco faltava para o quintal do sobrado: só uma cerca miúda, com um chuchuzeiro dependurado com chuchus grandes; eram uns chuchus enormes. – “Vam’ boro, Chefe!” – que o Jiribibe gritou. E caiu morto, para pra cá –

acertado na testa. Não gritei, e rastejei. Ao quando dar o derradeiro lance, na porta da cozinha do sobrado, derrubei uma bacia grande, que lá em-pé encostada estava. Aí entrei. Aquela bacia atrás de mim levou uma carga de tirázios, com a qual retiniu toda, lata velha... No eu entrar, os que ali vi me saudaram: – “Epa, Chefe!” – Respondi: – “Eh, epa!” E, naquele instante, pensei: aquela guerra já estava ficando adoidada. E

Continuar: parte 3 de 3