Grande Sertão: Veredas
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O
inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor...
De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio.
Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados?
De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto.
Ao que nós acampados em pé duns brejos, brejal, cabo de várzea. Até, lá era favorável de defender que os cavalos se espairassem – por ter manga natural, onde se encostar, e currais falsos, de pegar gado brabeza. Natureza bonita, o capim macio.
Me revejo, de tudo, daquele dia-a-dia. Diadorim restava um tempo com uma cabaça nas duas mãos, eu olhava para ele. “Seja por ser, Riobaldo, que em breve rompemos adiante. Desta vez, a gente tange guerra...” – pronunciou, a prazer, como sempre quando assim, em véspera. Mas balançou a cabaça: tinha um trem dentro, um ferro, o que me deu desgosto; taco de ferro, sem
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas serventia, só para produzir gastura na gente. – “Bota isso fora, Diadorim!” – eu disse. Ele não contestou, e me olhou de um hesitado jeito, que se eu tivesse falado causa impossível. Em tal, guardou o pedaço de ferro na algibeira. E ficava toda-a-vida com a cabaça nas mãos, era uma cabaça baiana fabricada, desenhada de capricho, mas que agora sendo para nojo. E, como me deu sede, eu peguei meu copo de corno lavrado, que não quebra nunca, e fomos apanhar água num poço, que ele me disse. Era por esconso por uma palmeira – duma de nome que não sei, de curta altura, mas regrossa, e com cheias palmas, reviradas para cima e depois para baixo, até pousar no chão com as pontas.
Todas as palmas tão lisas, tão juntas, fechavam um coberto, remedando choupã de índio. Assino que foi de avistarem umas assim que os bugres acharam idéia de formar suas tocas. Aí a gente se curvar, suspendia uma folhagem, lá entrava. O poço abria redondo, quase, ou ovalado. Como no recesso do mato, ali intrim, toda luz verdeja. Mas a água, mesma, azul, dum azul que haja – que roxo logo mudava. A vai, coração meu foi forte.
Sofismei: se Diadorim segurasse em mim com os olhos, me declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. Eu? Asco!
Diadorim parava normal, estacado, observando tudo sem importância. Nem provia segredo. E eu tive decepção de logro, por conta desse sensato silêncio? Debrucei, ia catar água. Mas,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas qual, se viu um bicho – rã brusca, feiosa: botando bolhas, que à lisa cacheavam. Resumo que nós dois, sob num tempo, demos para trás, discordes. Diadorim desconversou, e se sumiu, por lá, por aí, consoante a esquisitice dele, de sempre às vezes desaparecer e tornar a aparecer, sem menos. Ah, quem faz isso não é por ser e se saber pessoa culpada?
No que vim para um grupo de companheiros, esses estavam jogando buzo, enchendo folga. Por simples que a companheirada naqueles derradeiros tempos me caceteava com um enjôo, todos eu achava muito ignorantes, grosseiros cabras.
Somente que na hora eu queria a frouxa presença deles – fulão e sicrão e beltrão e romão – pessoal ordinário. A tanto, mesmo sem fome, providenciei para mim uma jacuba, no come-calado.
E quis – que até me perguntei – pensar na vida: “Penso?” Mas foi no instante em que todos levantaram as caras: só sendo um rebuliço, acolá, na virada que principiava a vertente – onde é que estavam uns outros, que chamavam, muito, acenando especial.
Pois fomos, ligeiro, ver o que, subindo pelo resfriado.
Passava era uma tropa, os diversos lotes de burros, que vinham de São Romão, levavam sal para Goiás. E o arrieiro-mestre relatando uma infeliz notícia, dessas da vida. – “Ele era alto, feições compridas, dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza.
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– “Olhe, pois era” – o arrieiro respondeu – “e, antes de morrer, deu o nome: que era Santos-Reis... Mais não propôs dizer, porque aí se exalou. Comandante, o senhor creia, nós tivemos grande pena...” A gente, em volta, se consternava. Aqueles tropeiros, no Cururu, tinham achado o Santos-Reis, que morria urgente; tinham acendido vela, e enterrado. Febres? Ao menos, mais, a alma descansasse. A gente tirou chapéus, em voto todos se benzendo. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da parte de Só Candelário e Titão Passos, chefes em nosso favor na outra grande banda do Rio.
– “Agora alguém carece de ir...” – Medeiro Vaz decidiu, olhando salteado; amém! – nós apreciávamos. Eu espiei, caçando Diadorim, que ali que era a mocinha de cabelos louros.
– “Sesfredo, me conta, me fala nesse acontecer...” – nem bem cem braças andadas eu já pedia a ele. Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor. – “E você não volta para lá, Sesfredo? Você agüenta o existir?” – perguntei. –
“Guardo isso, para às vezes ter saudade. Berimbau! Saudade, só...” – e ele alargou as ventas, de tanto riso. Vi que a estória da moça era falsa. De inventar )ouco se ganha. Regra do mundo é
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas muito dividida. O Sesfredo comia muito. E sabia assoviar seguido, copiando o de muitos pássaros.
Ao viável, eu tinha de atravessar as tantas terras e municipios, jogamos uma viagem por este Norte, meia geral.
Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido. A que viemos: por Extrema de Santa Maria –
Barreiro Claro – Cabeça de Negro – Córrego Pedra do Gervásio
– Acari – Vieira – e Fundo – buscando jeito de encostar no de São Francisco. Novidade não houve. Passamos, numa barca. Só sempre bater para o nascente, direitamente em cima de Tremedal, chamada hoje Monte-Azul. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. De madrugada, acordamos em sua janela um velhozinho, dono de um bananal. O velhozinho era amigo, executou o recado. Daí a cinco madrugadas, retornamos. Era para vir alguém, quem veio foi João Goanhá, próprio. E as descrições que deu foram de todas as piores. Só Candelário? Morto em tiroteio de combate, metralhadoras tinham serrado o corpo dele, de esguelha, por riba da cintura. O
Alípio, preso, levado para a cadeia de algum lugar. Titão Passos?
Ah, perseguido por uma soldadesca, tivera de se escapar para a Bahia, pela proteção do Coronel Horácio de Matos. Só mesmo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas João Goanhá era quem ainda estava. Comandava saldo de uns homens, os poucos. Mas coragem e munição não faltavam. – “E
os Judas?” – perguntei, com triste raciocínio: por que era que os soldados não deixavam a gente em paz, mas com aqueles não terçavam? – “Se diz que eles têm uma proteção preta...” – João Goanhá me esclareceu: – “O Hermógenes fez o pauto. É o demônio rabudo quem pune por ele...” Nisso todos acreditavam.
Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que eu fui o primeiro que cri.
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade.
Porque ele sabia que os Judas, reforçados, tinham resolvido passar o Rio em dois lugares, e marcharem em cima de Medeiro Vaz, para acabar com ele de uma vez, no país de lá. Onde era que o perigo, Medeiro Vaz precisava de nós.
Mas não pudemos. Mal a gente se tocou, para a Cachoeira do Salto, e esbarramos com tropa de soldados – tenente Plínio.
Foi fogo. Fugimos. Fogo no Jacaré Grande – tenente Rosalvo.
Fogo no Jatobá Torto – sargento Leandro. Volteamos. Sobre aí, me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. No formato da forma, eu não era o valente nem mencionado medroso. Eu era um homem restante trivial. A verdade que diga, eu bem defronte de mim se portava, mesmo segurava uma vara-
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de-ferrão, considerei nele certo propósito, de despique gandaiado. Apartei minhas vistas. Requeri, dei passo: – “Se sendo ordens, Chefe, eu gostava era de ir...” Medeiro Vaz limpou a goela. A meio, eu estava me lançando, mas mais negaceando prosápia: duvidoso d’ele consentir; pelo bom atirador que eu era, o melhor e mor, necessitavam de mim, haviam de querer me mandar escoteiro, dizedor de mensagem? E aí se deu o que se deu – o isto é. Medeiro Vaz concordou! – “Mas carece de levar um companheiro...” – ele propôs. Aí em tanto eu não devia de me calar, deixar alheia a escolha do segundo, que não me competia? Ah, ânsia: que eu não queria o que de certo queria, e que podia se surtir de repente... E a vontade de fim, que me ora vinha ranger na boca, me levou num avanço: – “Sendo suas ordens, Chefe, o Sesfredo comigo vai...” – falei. Nem olhei Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e despachou, em duríssimo: – “Vai, então, e no caminho não morre!” A ser que Medeiro Vaz, por esse tempo, já acusava doença a quase acabada – no peso do fôlego e no desmancho dos traços. Estava amarelo almecegado, se curvava sem querer, e diziam que no verter água ele gemia. Ah, mas outro igual eu não conheci. Quero ver o homem deste homem!... Medeiro Vaz – o Rei dos Gerais...
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Por que era que eu estava procedendo à-toa assim? Senhor, sei? O senhor vá pondo seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia, não me queixo de nenhuma coisa. Não tiro sombras dos buracos. Mas, também, não há jeito de me baixar em remorso. Sim, que só duma coisa. E
dessa, mesma, o que tenho é medo. Enquanto se tem medo, eu acho até que o bom remorso não se pode criar, não é possível.
Minha vida não deixa benfeitorias. Mas me confessei com sete padres, acertei sete absolvições. No meio da noite eu acordo e pelejo para rezar. Posso. Constante eu puder, meu suor não esfria! O senhor me releve tanto dizer.
Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo, eu selando meu cavalo e arrumando meus dobros, e já me muito entristecia.
Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie duma vagueza. No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: –
“Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: – “Viagem boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre.
Galopando junto com Sesfredo, larguei aquele lugar do Buriti das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam. E então eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfredo. Que ele, se sabia, tinha deixado, fazia muitos anos, em terras do Jequitinhonha, uma moça que apaixonava, e achava que não tinha nascido para aquilo, de ser sempre jagunço não gostava.
Como é, então, que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém.
Acho, acho, é do influimento comum, e do tempo de todos.
Tanto um prazo de travessia marcada, sazão, como os meses de seca e os de chuva. Será? Medida de muitos outros igualasse com a minha, esses também não sentindo e não pensando. Se não, por que era que eram aqueles aprontados versos – que a gente cantava, tanto toda-a-vida, indo em bando por estradas jornadas, à alegria fingida no coração?: Olererê, baiana...
eu ia e não vou mais: eu faço
que vou
lá dentro, oh baiana!
e volto do meio pra trás... – ?
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas João Goanhá, por valentão e verdadeiro, nem carecia de estadear orgulho. Pessoa muito leal e briosa. Ele me disse: –
“Agora, da gente não sei o que vai ser... Para guerra grande, eu acho que só Joca Ramiro é que era capaz...” Ah, mas João Goanhá também tinha suas cartas altas. Homem de grito grosso.
E, mesmo ignorante analfabeto, de repente ele tirava, sei não de onde, terríveis mindinhas idéias, mortes diversas. Assim a gente experimentava, cá e cá, falseando fuga. Os campos-gerais ali também tem. Tombadores. Arre, os tremedais, já viu algum? O
chão deles consiste duro enxuto, normal que engana; quem não sabe o resto, vem, pisa, vai avançando, tropa com cavalos, cavalama. Seja sem espera, quando já estão meio no meio, aquilo sucrepa: pega a se abalar, ronca, treme escapulindo, feito gema de ovo na frigideira. Ei! Porque, debaixo da crosta seca, rebole ocultado um semifundo, de brejão engolidor... Pois, em roda dali, João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse – três golpes de homens – tocaiando. Ao de manhã, primeiro passaram os do sargento Leandro, esses eram os menos, e um guia pagavam, por conhecer o caminho firme. Mas fomos lá, às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvore, que eles tinham botado para a certa informação. No depois, vinham os do tenente. Tenente, tenente, tu quer! Seguidos por ali entraram, ah. Dos nossos, uns, acolá, deram tiros, por disfarçação. Iscas! Cavalaria dos praças se
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas avexou. Ave, e pronto, de repente foi: a casca de terra sacudia, se rachou em cruzes, estalando, em muitos metros – balofou. Os cavalos entornados – era como despejar prateleiras cheias – e os soldados aiando gritos, se abraçavam com os animais caintes, ou com o ar, uns a esmo desfechavam mosquetão. Mas encalcados se afundando, pra não mais. A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi – oi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena.
Tanto por tanto, daí se encachorraram mais em nós, por beber vinganças. De campos e matas, vargens e grotas, em cada ponto para trás, dos lados e adiante da gente, ei eram só soldados, montão, se gerando. Furadodo-Meio. Serra do Deus-Me-Livre. Passagem da Limeira. Chapada do Covão. Solón Nélson morreu. Arduininho morreu. Morreram o Figueiró, BatataRoxa, Dávila Manhoso, o Campelo, o Clange, Deovídio, Pescoço-Preto, Toquim, o Sucivre, Elisiano, Pedro Bernardo – acho que foram esses, todos. Chapada do Sumidouro. Córrego do Poldro.
Mortos mais uns seis. Corrijo: com outros, que pegos presos – se disse que foram acabados! Doideamos. A Bahia estava cercada nas portas. Achavam de tomar regalia de desforra na gente, até qualquer molambo de sujeito, paisano morador. Ah, às vezes, perdiam ligeiro essa graça... Gerais da Pedra. Lá, o Eleutério se
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas apartou da gente, umas cem braças, e foi, a pé, bateu em porta duma cafua, por esclarecer. O capiau surgiu, ensinou alguma coisa, errada. Eleutério agradeceu, deu as costas, veio andando uns passos. O capiau então chamou. Eleutério virou para trás, para ouvir o que havia, e levou na cara e nos peitos o cheio duma carga de chumbo fino. Cegou, rodou, entrupicado, arreganhava os braços, todo se sarapintando das manchas vermelhas, que cresciam. O cabelo dele aumentou em pé. E a soldadesca atirava, de emboscados no mato do córrego, e na beira do cerrado, da outra banda. O capiau se encobriu detrás do forno de assar biscoito – de lá fazia pontaria com a espingarda – e balas nossas levantavam terra ao redor dali, feito um ciscado de cachorro grande. Dentro da cafua também restavam outros soldados; que deram contas a Deus. Ataliba, com o facão, pregou o capiau na taipa da cafua, ele morreu mansinho, parecia um santo. Ficou lá, espetado. Nós – eh – bom. Conseguimos aragem. Até em um ponto de a salvo conversarmos.
Serra Escura. Nem munição nem de-comer não sobravam.
De forma que a gente carecia de se separar, cada um por seu risco, como pudesse caçar escape. Se esparramavam os goanhás.
De si por si, quem vivesse viesse para cá do Rio, para reunião: na juntura da Vereda Saco dos Bois com o Ribeirão Santa Fé. Ou ir
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de direto para onde estivesse Medeiro Vaz. Ou, caso o inimigo rondasse perto demais, então no Buriti-da-Vida, São Simão do Bá, ou mais em riba, ali onde o Ribeirão Gado Bravo é vadeável.
Ao que João Goanhá mandou. A pressa era pressa. O ar todo do campo cheirava a pólvora e a soldados. Diante de mim, nunca terminava de atar as correias do gibão um Cunha Branco, sarado, cabra velho guerreiro: ele boiava língua em boca aberta. E medo, meu, medi muito maior. Se despedimos. Escorregando sem rumo, eu fui, vim, o Sesfredo comigo também, viemos. Com a graça de Deus, saímos fora da roda do perigo. Chegamos no Córrego Cansanção, não longe do Araçuaí. Por durante um tempo, carecíamos de ter algum serviço reconhecido, no viver tudo cabe. Nossas armas, com parte das roupas, campeamos um seguro lugar, deixamos escondidas. Aí, a gente se ajustou no meio do pessoal daquele doutor, que estava na mineração, que eu já disse e o senhor sabe.
Por que não ficamos lá? Sei e não sei. Sesfredo esperava de mim toda decisão. Algum remorso, de não se cumprir de ir, de desertados? Não vê que não, desafasto. Gente sendo dois, garante mais para se engambelar, etcétera de traição não sopra escrúpulos, como nem de crime nenhum, não agasta: igual lobisomem verte a pele. Só se, companheiros sobrantes, a gente
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas amiúda no ajuizar o desonroso assunto, isto sim, rança o descrédito de se ser tornadiço covarde. Mas eu podia rever proveito, caçar de voltar dali para a casa-grande de Selorico Mendes, exigir meu estado devido, na Fazenda São Gregório.
Temeriam! Assim e silva, como em outro tempo, adiante, podia flauteado comparecer no Buritis Altos, por conta de Otacília –
continuação de amor. Quis não. Suasse saudade de Diadorim? A ponto no dizer, menos. Ou nem não tinha. Só como o céu e as nuvens lá atrás de uma andorinha que passou. Talvez, eu acho, também, que foi juvenescendo em mim uma inclinação de abelhudice: assaz eu queria me estar misturado lá, com os medeiro-vazes, ver o fim de tudo. Em mês de agosto, buriti vinhoso... Araçuaí não eram os meus campos... Viver é um descuido prosseguido. Aí, as noites cambando para o entrar das chuvas, os dias mal. Desengoli. – “Tempo de ir. Vamos?” – eu disse para Sesfredo. – “Vamos, demais!” – o Sesfredo me respondeu.
Ah, eh e não, alto-lá comigo, que assim falseio, o mesmo é.
Pois ia me esquecendo: o Vupes! Não digo o que digo, se o do Vupes não orço – que teve, tãomente. Esse um era estranja, alemão, o senhor sabe: clareado, constituído forte, com os olhos azuis, esporte de alto, leandrado, rosalgar – indivíduo, mesmo.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Pessoa boa. Homem sistemático, salutar na alegria séria. Hê, hê, com toda a confusão de política e brigas, por aí, e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato, e ia desempenhando seu negócio dele no sertão – que era o de trazer e vender de tudo para os fazendeiros: arados, enxadas, debulhadora, facão de aço, ferramentas rógers e roscofes, latas de formicida, arsênico e creolinas; e até papa-vento, desses moinhos-de-vento de sungar água, com torre, ele tomava empreitada de armar. Conservava em si um estatuto tão diverso de proceder, que todos a ele respeitavam. Diz-se que vive até hoje, mas abastado, na capital – e que é dono de venda grande, loja, conforme prosperou. Ah, o senhor conheceu ele? Õ
titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor fraseia?
Wusp? É. Seo Emílio Wuspes... Wupsis... Vupses. Pois esse Vupes apareceu lá, logo vai me reconheceu, como me conhecia, do Curralinho. Me reconheceu devagar, exatão. Sujeito escovado! Me olhou, me disse: – “Folgo. Senhor estar bom?
Folgo...” E eu gostei daquela saudação. Sempre gosto de tornar a encontrar em paz qualquer velha conhecença – consoante a pessoa se ri, a gente se acha de voltar aos passados, mas parece que escolhidas só as peripécias avaliáveis, as que agradáveis foram. Alemão Vupes ali, e eu recordei lembrança daquelas mocinhas – a Miosótis e a Rosa’uarda – as que, no Curralinho,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas eu pensava que tinham sido as minhas namoradas. – “Seo Vupes, eu também folgo. Senhor também estar bom? Folgo...”
– que eu respondi, civilizadamente. Ele pitava era charutos. Mais me disse: – “Sei senhor homem valente, muito valente... Eu precisar de homem valente assim, viajar meu, quinze dias, sertão agora aqui muito atrapalhado, gente braba, tudo...” Destampei, ri que ri, de ouvir.
Mas o mais garboso fiquei, prezei a minha profissão. Ah, o bom costume de jagunço. Assim que é vida assoprada, vivida por cima. Um jagunceando, nem vê, nem repara na pobreza de todos, cisco. O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade.
São árvores que pegam poeira. A gente às vezes ia por aí, os cem, duzentos companheiros a cavalo, tinindo e musicando de tão armados-e, vai, um sujeito magro, amarelado, saía da algum canto, e vinha, espremendo seu medo, farraposo: com um vintém azinhavrado no conco da mão, o homem queria comprar um punhado de mantimento; aquele era casado, pai de família faminta. Coisas sem continuação... Tanto pensei, perguntei: –
“Para que banda o senhor tora?” E o Vupes respondeu: – “Eu, direto, cidade São Francisco, vou forte.” Para falar, nem com uma pontinha de dedo ele não bulia gesticulado. Então, era
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mesmo meu rumo – aceitei – o destinar! Daí, falei com o Sesfredo, que quis também; o Sesfredo não presumia nada, ele naquilo não tinha próprio destaque.
Mas os caminhos não acabam. Tal por essas demarcas de Grão-Mogol, Brejo das Almas e Brasília, sem confrontos de perturbação, trouxemos o seu Vupes. Com as graças, dele aprendi, muito. O Vupes vivia o regulado miúdo, e para tudo tinha sangue-frio. O senhor imagine: parecia que não se mealhava nada, mas ele pegava uma coisa aqui, outra coisinha ali, outra acolá – uma moranga, uns ovos, grelos de bambu, umas ervas – e, depois, quando se topava com uma casa mais melhorzinha, ele encomendava pago um jantar ou almoço, pratos diversos, farto real, ele mesmo ensinava o guisar, tudo virava iguarias! Assim no sertão, e ele formava conforto, o que queria. Saiba-se! Deixamos o homem no final, e eu cuidei bem dele, que tinha demonstrado a confiança minha...
Demos no Rio, passamos. E, aí, a saudade de Diadorim voltou em mim, depois de tanto tempo, me custando seiscentos já andava, acoroçoado, de afogo de chegar, chegar, e perto estar.
Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito. Bela é a lua, lualã, que torna a se sair das nuvens, mais redondada recortada.
Viemos pelo Urucuia. Meu rio de amor é o Urucuia. O
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chapadão – onde tanto boi berra. Daí, os gerais, com o capim verdeado. Ali é que vaqueiro brama, com suas boiadas espatifadas. Ar que dá açoite de movimento, o tempo-das-águas de chegada, trovoada trovoando. Vaqueiros todos vaquejando.
O gado esbravaçava. A mal que as notícias referiam demais a cambada dos Judas, aumentável, a corja! – “A tantos quantos?”
– eu pondo meu perguntar. – “Os muitos! Uma monarquia deles...” – os vaqueiros respondendo.
Mas Medeiro Vaz não se achava, os nossos, deles ninguém não sabia bem. Tocamos, fim que o mundo tivesse. Só deerrávamos. Assim como o senhor, que quer tirar é instantâneo das coisas, aproximar a natureza. Estou entendido. Esbarramos num varjeado, esconso lugar, por entre o daGarapa e o da-Jibóia, ali tem três lagoas numa, com quatro cores: se diz que a água é venenosa. E isso de que me serve? Águas, águas. O senhor verá um ribeirão, que verte no Canabrava – o que verte no Taboca, que verte no Rio Preto, o primeiro Preto do Rio Paracatu – pois a daquele é sal só, vige salgada grossa, azula muito: quem conhece fala que é a do mar, descritamente; nem boi não gosta, não traga, eh não. E tanta explicação dou, porque muito ribeirão e vereda, nos contornados por aí, redobra nome. Quando um ainda não aprendeu, se atrapalha, faz raiva. Só Preto, já molhei
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mão nuns dez. Verde, uns dez. Do Pacari, uns cinco. Da Ponte, muitos. Do Boi, ou da Vaca, também. E uns sete por nome de Formoso. São Pedro, Tamboril, Santa Catarina, uma porção. O
sertão é do tamanho do mundo.
Agora, por aqui, o senhor já viu: Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão. E
agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros, o senhor vá ver a fazenda velha, onde tinha um cômodo quase do tamanho da casa, por debaixo dela, socavado no antro do chão – lá judiaram com escravos e pessoas, até aos pouquinhos matar... Mas, para não mentir, lhe digo: eu nisso não acredito. Reconditório de se ocultar ouro, tesouro e armas, munição, ou dinheiro falso moedado, isto sim. O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam crendo e temendo. Parece que todo o mundo carece disso. Eu acho, que.
Assim, olhe: tem um marimbu – um brejo matador, no Riacho Cizlá se afundou uma boiada quase inteira, que apodreceu; em noites, depois, deu para se ver, deitado a fora, se deslambendo em vento, do cafofo, e perseguindo tudo, um
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas milhão de lavareda azul, de jãdelãfo, fogo-fá. Gente que não sabia, avistaram, e endoideceram de correr fuga. Pois essa estória foi espalhada por toda a parte, viajou mais, se duvidar, do que eu ou o senhor, falavam que era sinal de castigo, que o mundo ia se acabar naquele ponto, causa de, em épocas, terem castrado um padre, ali perto umas vinte léguas, por via do padre não ter consentido de casar um filho com sua própria mãe. A que, até, cantigas rimaram: do Fogo-Azul-do-Fim-do-Mundo. Hê, hê?...
Agora, a forca, eu vi – forca moderna, esquadriada, arvorada bem erguida no elevado, em madeira de boa lei, parda: sucupira. Ela foi num morrote, depois do São Simão do Bá, perto da banda da mão-direita do Pripitinga. A estúrdia forca de enforcar, construída, aprovada ali particularmente, porque não tinham recurso de cadeia, e pajear criminoso por viagens era dificultoso, tirava as pessoas de seus serviços. Aí, então, usavam.
Às vezes, da redondeza, vinham até trazendo o condenado, a cavalo, para a forca, pública. Só que um pobre veio morar próximo, quase debaixo dela, cobrava sua esmola, em cada útil caso, dando seguida cavava a cova e enterrava o corpo, com cruz.
No mais nada.
Semelhante não foi, quando um homem, Rudugério de Freitas, dos Freitas ruivos da Água-Alimpada, mandou obrigado
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas um filho dele ir matar outro, buscar para matarem, esse outro, que roubou sacrário de ouro da igreja da Abadia. Aí, então, em vez de cumprir o estrito, o irmão combinou com o irmão, os dois vieram e mataram mesmo foi o velho pai deles, distribuído de foiçadas. Mas primeiro enfeitaram as foices, urdindo com cordões de embira e várias flores. E enqueriram o cadáver paterno em riba da casa – casinha boa, de telhas, a melhor naquele trecho. Daí, reuniram o gado, que iam levando para distante vender. Mas foram logo pegos. A pegar, a gente ajudou.
Assim, prisioneiros nossos. Demos julgamento. Ao que, fosse Medeiro Vaz, enviava imediato os dois para tão razoável forca.
Mas porém, o chefe nosso, naquele tempo, já era – o senhor saiba Zé Bebelo!
Com Zé Bebelo, oi, o rumo das coisas nascia inconstante diferente, conforme cada vez. A papo: – “Co-ah! Por que foi que vocês enfeitaram premeditado as foices?” – ele interrogou. Os dois irmãos responderam que tinham executado aquilo em padroeiragem à Virgem, para a Nossa Senhora em adiantado remitir o pecado que iam obrar, e obraram dito e feito. Tudo que Zé Bebelo se entesou sério, em pufo, empolo, mas sem rugas em testa, eu prestes vi que ele estava se rindo por de dentro. Tal, tal, disse: – “Santíssima Virgem...” E o pessoal todo tirou os
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chapéus, em alto respeito. – “Pois, se ela perdoa ou não, eu não sei. Mas eu perdôo, em nome dela – a Puríssima, Nossa Mãe!” –
Zé Bebelo decretou. – “O pai não queria matar? Pois então, morreu – dá na mesma. Absolvo! Tenho a honra de resumir circunstância desta decisão, sem admitir apelo nem revogo, legal e lealdado, conformemente!...” Aí mais Zé Bebelo disse, como apreciava: – “Perdoar é sempre o justo e certo...” – pirlimpim, pimpão. Mas, como os dois irmãos careciam de algum castigo, ele requisitou para o nosso bando aquela gorda boiada, a qual pronto revendemos, embolsamos. E desse caso derivaram também uma boa cantiga violeira. Mas deponho que Zé Bebelo somente determinou assim naquela ocasião, pelo exemplo pela decência. Normal, quando a gente encontrava alguma boiada tangida, ele cobrava só imposto de uma ou umas duas reses, para o nosso sustento nos dias. Autorizava que era preciso se respeitar o trabalho dos outros, e entusiasmar o afinco e a ordem, no meio do triste sertão.
Zé Bebelo – ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza dá, raro de vez em quando. Aquele queria saber tudo, dispor de tudo, poder tudo, tudo alterar. Não esbarrava quieto. Seguro já nasceu assim, zureta, arvoado, criatura de confusão. Trepava de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ser o mais honesto de todos, ou o mais danado, no tremeluz, conforme as quantas. Soava no que falava, artes que falava, diferente na autoridade, mas com uma autoridade muito veloz.
Desarmado, uma vez, caminhou para o Leôncio Du, que tinha afastado todo o mundo e meneava um facãozão. Como gritou: –
“Você quer vermelho? Te racho, fré!” Ao de que, o Leôncio Du decidiu deixou o facão cair, e se entregou. Senhor ouve e sabe?
Zé Bebelo era inteligente e valente. Um homem consegue intrujar de tudo; só de ser inteligente e valente é que muito não pode. E Zé Bebelo pegava no ar as pessoas. Chegou um brabo, cabra da Zagaia, recomendado. – “Tua sombra me espinha, juazeiro!” – Zé Bebelo a faro saudou. E mandou amarrar o sujeito, sentar nele uma surra de peia. Atual, o cabra confessou: que tinha querido vir drede para trair, em empreita encobertada.
Zé Bebelo apontou nos cachos dele a máuser: estampido que espatifa – as miolagens foram se grudar longe e perto. A gente pegou cantando a Moda-do-Boi.
No regular, Zé Bebelo pescava, caçava, dançava as danças, exortava a gente, indagava de cada coisa, laçava rês ou topava à vara, entendia dos cavalos, tocava violão, assoviava musical; só não praticava de buzo nem baralho – declarando ter receios, por atreito demais a vício e riscos de jogo. Sem menos, se
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas entusiasmava com qual-me-quer, o que houvesse: choveu, louvava a chuva; trapo de minuto depois, prezava o sol.
Gostava, com despropósito, de dar conselhos. Considerava o progresso de todos – como se mais esse todo Brasil, territórios – e falava, horas, horas. – “Vim de vez!” – disse, quando retornou de Goiás. O passado, para ele, era mesmo passado, não vogava. E, de si, parte de fraco não dava, nenhão, nunca.
Certo dia, se achando trotando por um caminho completo novo, exclamou: – “Ei, que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar!...” – sério. E era. E era mas que ele estava perdido, deerrado de rota, há, há. Ah, mas, com ele, até o feio da guerra podia alguma alegria, tecia seu divertimento. Acabando um combate, saía esgalopado, revólver ainda em mão, perseguir quem achasse, só aos brados: – “Viva a lei! Viva a lei!...” – e era o pipoco-paco. Ou: – “Paz! Paz!” – gritava também; e bala: se entregaram mais dois. – “Viva a lei! Viva a lei!...” Há-de-o, que quilate, que lei, alguém soubesse? Tanto aquilo, sucinto, a fama correu. Dou-lhe qual: que, uma vez, ele corria a cavalo, por exercício, e um veredeiro que isto viu se assustou, pulou de joelhos na estrada, requerendo: – “Não faz vivalei em mim não, môr-de-Deus, seu Zebebel’, por perdão...” E Zé Bebelo jogou para o pobre uma cédula de dinheiro; gritou: – “Amonta aqui, irmão, na garupa!” – trouxe o outro para com a gente jantar.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Esse era ele. Esse era um homem. Para Zé Bebelo, melhor minha recordação está sempre quente pronta. Amigo, foi uma das pessoas nesta vida que eu mais prezei e apreciei.
Pois porém, ao fim retomo, emendo o que vinha contando. A ser que, de campinas a campos, por morros, areiões e varjas, o Sesfredo e eu chegamos no Marcavão. Antes de lá, inchou o tempo, para chover. Chuva de desenraizar todo pau, tromba: chuvão que come terra, a gente vendo. Quem mede e pesa esses demais d’água? Rios foram se enchendo. Apeamos no Marcavão, beira do do-Sono. Medeiro Vaz morreu, naquele país fechado. Nós chegamos em tempo.
Ao quando encontramos o bando, foi ali, Medeiro Vaz já estava mal; talvez por isso a alegria comum não pôde se dizer, nem Diadorim me abraçou nem demonstrou um salves por minha volta. Fiquei sincero. A tristeza e a espera má tomavam conta da gente. – “O mais é o pior: é que tem inimigo, próximo, tocaiando...” – Alaripe me disse. Muito chovido de noite-as árvores esponjadas. Mesmo dava um frio vento, com umidades.
Para agasalhar Medeiro Vaz, tinham levantado um boi – o senhor sabe: um couro só, espetado numa estaca, por resguardar a pessoa do rumo donde vem o vento – o bafe-bafe.
Acampávamos debaixo de grandes árvores. O barulhim do rio
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas era de bicho em bicheira. Medeiro Vaz jazente numa manta de pele de bode branco – aberto na roupa, o peito, cheio de cabelos grisalhados. A barriga dele tinha inflamado muito, mas não era de hidropisia. Era de dores. Quando vislumbrou de mim, aí armou no se aprumar, pelejando para me ver. Os olhos
– o alvor, como miolo de formigueiro. Mas se abriu, arriou os braços, e mediu o chão com suas costas. “Está no bilim-bilim” –
eu pensei. Ah, a cara – arre de amarela, o amarelamento: de palha! Assim desse jeito ele levou o dia quase a termo.
A tarde foi escurecendo. Ao menos Diadorim me chamou adeparte; ele tramava as lágrimas. – “Amizade, Riobaldo, que eu imaginei em você esse prazo inteiro...” – e apertou minha mão.
Avesso fiquei, meio sem jeito. Aí, chamaram: – “Acode, que o chefe está no fatal!” Medeiro Vaz, arquejando, cumprindo tudo.
E o queixo dele não parava de mexer; grandes momentos.
Demorava. E deu a panca, troz-troz forte, como de propósito.
Uma chuva de arrobas de peso. Era quase sonoite. Reunidos em volta, ajoelhados, a gente segurava uns couros abertos, para proteger a morte dele. Medeiro Vaz – o rei dos gerais ; como era que um daquele podia se acabar?! A água caía, às despejadas, escorria nas caras da gente, em fios pingos. Debruçando por debaixo dos couros, podia-se ver o fim que a alma obtém do
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas corpo. E Medeiro Vaz, se governando mesmo no remar a agonia, travou com esforço o ronco que puxava gosma de sua goela, e gaguejou: – “Quem vai ficar em meu lugar? Quem capitaneia?...” Com a estrampeação da chuva, os poucos ouviram. Ele só falava por pedacinhos de palavras. Mas eu vi que o olhar dele esbarrava em mim, e me escolhia. Ele avermelhava os olhos? Mas com o cirro e o vidrento. Coração me apertou estreito.
Eu não queria ser chefe! “Quem capitaneia...” Vi meu nome no lume dele. E ele quis levantar a mão para me apontar.
As veias da mão... Com que luz eu via? Mas não pôde. A morte pôde mais. Rolou os olhos; que ralava, no sarrido. Foi dormir em rede branca. Deu a venta.
Era seu dia de alta tarefa. Quando estiou a chuva, procuramos o que acender. Só se trouxe uma vela de carnaúba, o toco, e um brandão de tocha. Eu tinha passado por um susto.
Agora, a meio a vertigem me dava, desnorteado na vontade de falar aqueles versos, como quem cantasse um coreto: Meu boi preto mocangueiro,
árvore para te apresilhar?
Palmeira que não debruça:
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas buriti – sem entortar...
Deviam de tocar os sinos de todas as igrejas!
Cobrimos o corpo com palmas de buriti novo, cortadas molhadas. Fizemos quarto, todos, até ao quebrar da barra. Os sapos gritavam latejado. O sapo-cachorro arranhou seu rouco.
Alguma anta assoviava, assovio mais fino que o relincho-rincho dum poldrinho. De aurora, cavacamos uma funda cova. A terra dos gerais é boa.
Tomou-se café, e Diadorim me disse, firme:
– “Riobaldo, tu comanda. Medeiro Vaz te sinalou com as derradeiras ordens...”
Todos estavam lá, os brabos, me olhantes – tantas meninas-dos-olhos escuras repulavam: às duras – grão e grão –
era como levando eu, de milhares, uma carga de chumbo grosso ou chuvas-de-pedra. Aprovavam. Me queriam governando.
Assim estremeci por interno, me gelei de não poder palavra. Eu não queria, não queria. Aquilo revi muito por cima de minhas capacidades. A desgraça, de João Goanhá não ter vindo! Rentemente, que eu não desejava arreglórias, mão de mando. Engoli cuspes. Avante por fim, como que respondi às gagas, isto disse:
– “Não posso... Não sirvo...”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas – “Mano velho, Riobaldo, tu pode!”
Tive testa. Pensei um nome feio. O que achassem, achassem! – mas ninguém ia manusear meu ser, para brincadeiras...
– “Mano velho, Riobaldo: tu crê que não merece, mas nós sabemos a tua valia...” – Diadorim retornou. Assim instava, mão erguida. Onde é que os outros, roda-a-roda, denotavam assentimento. – “Tatarana! Tatarana!...” – uns pronunciaram; sendo Tatarana um apelido meu, que eu tinha.
Temi. Terçava o grave. Assim, Diadorim dispunha do direito de fazer aquilo comigo? Eu, que sou eu, bati o pé:
– “Não posso, não quero! Digo definitivo! Sou de ser e executar, não me ajusto de produzir ordens...”
Tudo parava, por átimo. Todos esperando com suspensão.
Senhor conheceu por de-dentro um bando em-pé de jagunços –
quando um perigo poja? – sabe os quantos lobos? Mas, eh, não, o pior é que é a calma, uma sisudez das escuras. Não que matem, uns aos outros, ver; mas, a pique de coisinha, o senhor pode entornar seu respeito, sobrar desmoralizado para sempre, neste vale de lágrimas. Tudo rosna. Entremeio, Diadorim se
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas maisfez, avançando passo. Deixou de me medir, vigiou o ar de todos. Aí ele era mestre nisso, de astuto se certificar só com um rabeio ligeiro de mirada – tinha gateza para contador de gado. E
muito disse:
– “A pois, então, eu tomo a chefia. O melhor não sou, oxente, mas porfio no que quero e prezo, conforme vocês todos também. A regra de Medeiro Vaz tem de prosseguir, com tenção! Mas, se algum achar que não acha, o justo, a gente isto decide a ponta d’armas...”
Hê, mandacaru! Oi, Diadorim belo feroz! Ah, ele conhecia os caminhares. Em jagunço com jagunço, o poder seco da pessoa é que vale... Muitos, ali, haviam de querer morrer por ser chefes – mas não tinham conseguido nem tempo de se firmar quente nas idéias. E os outros estimaram e louvaram: –
“Reinaldo! O Reinaldo!” – foi o aprovo deles. Ah.
Num nu, nisto, nesse repente, desinterno de mim um nego forte se saltou! Não, Diadorim, não. Nunca que eu podia consentir. Nanje pelo tanto que eu dele era louco amigo, e concebia por ele a vexável afeição que me estragava, feito um mau amor oculto – por mesmo isso, nimpes nada, era que eu não podia aceitar aquela transformação: negócio de para sempre
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas receber mando dele, doendo de Diadorim ser meu chefe, nhem, hem? Nulo que eu ia estuchar. Não, hem, clamei – que como um sino desbadala:
– “Discordo.”
Todos me olhassem? Não vi, não tremi. Visivo só vi Diadorim – resumo do aspecto e esboço dele para movimentos: as mãos e os olhos; de reguarda. Como em relance corri cálculo, de quantos tiros eu tinha para à queima-bucha dar – e uma balazinha, primeira, botada na agulha da automática – ah, eu estava com milho no surrão! De devagar, os companheiros, os outros, não se buliram, tanto esperavam; decerto que saldavam antipatia de mim, repugnados por eu estar seguidamente atrapalhando as decisões, achassem que eu agora não tinha mais direito de parecer, pois a chefia própria eu enjeitara. Quem sabe, será se praziam no poder ver nós dois, Diadorim comigo – que antes como irmãos, até ali – a gente se estraçalhar nas facas?
Torci vontade de matar alguém, para pacificar minha aflição; alguém, algum – Diadorim não – digo. Decerto isso em mim eles perceberam. Os calados. Só o Sesfredo, inesperado assim, disse um também: – “Discordo!” Por me estimar, ele me secundava. E o Alaripe, séria pessoa: – “Tem de que. Deixa o Riobaldo razoar...” Endireitei os chifres. Chapei:
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– “Vejo, Marcelino Pampa é quem tem de comandar.
Mediante que é o mais velho, e, demais de mais velho, valente, e consabido de ajuizado!” Cara de Marcelino Pampa ficou enorme.
Do que constei dos outros, concordantes, estabeleci que eu tinha acertado solerte – dei na barra! Mas, Diadorim? De olhos os olhos agarrados: nós dois. Asneira, eu naquela hora supria suscitar alto meu maior bem-querer por Diadorim; mesmo, mesmo, assim mesmo, eu arcava em cru com o desafio, desde que ele brabasse, desde que ele puxasse. Tempo instante, que empurrou morros para passar... Afinal, aí, Diadorim abaixou as vistas. Pude mais do que ele! Se riu, depois de mim. Sempre sendo que falou, firme:
– “Com gosto. Melhor do que Marcelino Pampa não tem nenhum. Não ambicionei poderes...”
Falou como corajoso. E:
– “Tresdito que é a vez de se estar contornados, unidos sem porfiar...” – o Alaripe inteirou.
Amém, todos, voz a voz, aprovavam. Marcelino Pampa então principiou, falou assim:
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas – “Aceito, por precisão nossa, o que obrigação minha é.
Até enquanto não vem algum dos certos, de realce maior: João Goanhá, Alípio Mota, Titão Passos... A tanto, careço do bom conselho de todos que tiverem, segura fiança. Assentes que vamos...”
Sobre mais disse, sem importância, sem noção; pois Marcelino Pampa possuía talentos minguados. Somente pensei que ele estava pondo um peso no lombo, por sacrifício. Ao que, em melhores tempos, aprazia bem capitanear; mas, agora aquela ocasião, a gente por baixos, e essas misérias, qualquer um não havia de desgostar de responsabilidade? Ã, aí observei: como Marcelino Pampa desde o instante expunha outro ar de ser, a sisuda extravagância, soberbo satisfeito! Ser chefe – por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores.
Meu era um alívio. Mesmo não duvidei de meu menos valer: alguém lá tem a feição do rosto igualzinha à minha? Eh, de primeiro meu coração sabia bater copiando tudo. Hoje, eu desconheço o arruído rumor das pancadas dele. Diadorim veio para perto de mim, falou coisas de admiração, muito de afeto leal. Ouvi, ouvi, aquilo, copos a fora, mel de melhor. Eu precisava. Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos? Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível?
Hem?!
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado de posses –
Davidão era o nome dele. Vai, um dia, coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de morrer.
Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas, em lei de caborje – invisível no sobrenatural –
chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate, então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava. Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco. Combate quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja: isto
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste!
Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça?
Por exemplo. Disse isso ao rapaz pescador, a quem sincero louvei. E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem – deu baixa do bando, e, com certas promessas, de ceder uns alqueires de terra, e outras vantagens de mais pagar, conseguiu do Faustino
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais deles, ignoro. No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de seu dispor, não dava altura. A tento de se acertar nos primeiros rumos de se mexer, ele me chamou, mais João Concliz. – “Os Judas estão aqui mesmo, de nós a umas quinze léguas, e sabem da gente. Deveras atacar, não atacam, com este tempo de todas chuvas e ribeirões cheios. Mas vão fechando modo de rodear a gente, de menos longe, porque a quantidade deles é à farta... Recurso, que eu acho, é dois: ou se fugir para o chapadão, enquanto tempo – mas é perder toda esperança e diminuir da vergonha... Ou, então, forçar tudo e experimentar um caminho por entremeio deles: se vai para a outra banda do Rio, caçar João Goanhá e os outros companheiros... Mais ainda não sei, quero toda razoável opinião.” Assim ele, Marcelino Pampa, disse. – “Mas, se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu, hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós...” – foi o que João Concliz achou; e estava muito certo. Eu não atinava com o que dizer, as confusões dessas horas me encostavam. O
que era, na situação, que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ramiro? E Só Candelário? Ao esmo, esses pensamentos em mim. Ai de, foi que reconheci como súcia de homens carece de uma completa cabeça. Comandante é preciso, para aliviar os aflitos, para salvar a idéia da gente de perturbações desconformes. Não sabia, hoje será que sei, a regra de nenhum meio-termo. Sem ação, eu podia gastar ali minha vida inteira, debulhando. Também, logo depois, depois de muitos silêncios e poucas palavras, Marcelino Pampa resolveu que, de tarde, nossa conversa ia ter repetição. Atontados, três.
Dali, fui para perto de Diadorim. – “Riobaldo,” – ele mal disse – “você está vendo que não temos remédio...” Aí, esbarrou, pensou um tempo, com uma mão por cima da outra.
– “E vocês, que foi que determinaram de se fazer?” – me perguntou. Respondi: – “Hoje de tarde é que se toma decisão, Diadorim. Você está mal satisfeito?” Ele endireitou o corpo.
Foi, falou: – “Sei o meu. Cá por mim, isso tudo pouco adianta.
Quente quero poder chegar junto dum dos Judas, para terminar!” Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir.
Eu tinha mais cansaço, mais tristeza. – “Quem sabe, se... Para ter jeito de chegar perto deles, até se não era melhor...” – assim ele desabafou, em trago; e recolhido num estado de segredo. Por seus grandes olhos, onde aquilo redondeou, cri que armasse
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas agarrar o comando, por meio de acender o bando todo em revolta. Qualquer loucura, semelhante, era a dele. Mas, não; mais disse: – “Foi você, mesmo, Riobaldo, quem governou tudo, hoje. Você escolheu Marcelino Pampa, você decidiu e fez...”
Era. Gostei, em cheio, de escutar isso, soprante. Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos – Marcelino Pampa, eu e João Concliz, – não se teve nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o chegar, o riscar, o desapeio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado.
Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam-de mestre pavor. – “Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa.
Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar...” – e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo – a gente olhava para ele – e de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de ar, e soluceou:
– “É um homem... Só sei... É um homem...”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– “Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou.