História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia
8 As possibilidades de aplicação do método de análise regressivo-progressivo de Henri Lefèbvre na geografia urbana
8 As possibilidades de aplicação do
método de análise regressivo-
progressivo de Henri Lefèbvre na
geografia urbana
Silvia Aparecida Guarnieri Ortigoza*
Introdução
O presente estudo pauta-se pela análise de pesquisas em geografia urbana que tiveram como base analítica o método regressivoprogressivo de Henri Lefèbvre. Cabe ressaltar que o levantamento dessas contribuições teórico-metodológias teve como universo de pesquisa as teses e dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação em Geografia, da Unesp de Rio Claro (SP).
O quadro de enfoque teórico-metodológico na área de geografia urbana tem se tornado nos últimos anos bastante diversificado, isso porque a realidade urbana brasileira e mundial tem se apresentado cada vez mais complexa e a compreensão dos diversos problemas dependem de enfoques, muitas vezes, diferenciados e inovadores.
Nesse sentido, um dos caminhos teóricos que têm se apresentado para entender o urbano hoje passa pela contribuição de Henri Lefèbvre, que busca na complexidade da vida cotidiana a explicação para a sociedade urbana. Ao observar o cotidiano, Lefèbvre nos remete a uma reflexão bastante profunda da sociedade urbana, levando-nos ao entendimento do espaço como produto e condição das relações sociais de produção.
Além disso, Lefèbvre (1973) retoma a questão da re-produção, e, de modo aprofundado, contribui para o entendimento da realidade socioespacial. Para ele, o processo da re-produção é bastante complexo, pois desloca, modifica e amplia as contradições, mascarando os reais conflitos da realidade. O processo de re-produção é, portanto, o grande fio condutor na análise da realidade sob o prisma lefebvriano. O autor apresenta como grande desafio uma perspectiva de abordagem que ultrapassa a descrição dos processos parciais, exigindo uma análise aprofundada das relações sociais de produção. Com esse percurso reflexivo desmistifica o entendimento de que a reprodução das relações capitalistas é um processo natural, ou seja, ele não analisa somente o modo de produção, mas vai além, colocando que o ponto focal da análise deve ser o entendimento da reprodução das relações de produção, pois é por meio dela que o capitalismo continua e continuará influente e dominador.
O cotidiano, nos três volumes da Critique de la vie quotidienne (Lefèbvre, 1958, v.I; 1961, v.II; 1981, v.III), foi uma categoria de análise amplamente trabalhada por Lefèbvre e entendido como elo e explicação de diversos aspectos da realidade. É, portanto, na obra desse autor, que os geógrafos têm buscado, em seus estudos, o sentido da interpretação do cotidiano urbano.
Martins (2000, p.57), ao trabalhar com essa interpretação do cotidiano, coloca que "É que no pequeno mundo de todos os dias está também o tempo e o lugar da eficácia das vontades individuais, daquilo que faz a força da sociedade civil, dos movimentos sociais".
Ter o cotidiano como categoria de análise significa se deter também no miúdo, no elementar, considerando na vida banal o momento do extraordinário, do possível. Para Lefèbvre, as respostas de mudança estão nesses momentos, que são a grande essência de seu método. A partir do cotidiano não generalizamos o domínio do mundial no lugar, pois necessariamente estaremos considerando o viver (que está no plano social) e o vivido (que está no plano pessoal) e encontrando nessas relações mútuas a identificação dos indivíduos com sua história, que é local. Por tudo isso, o cotidiano não pode ser um modelo universal, ele depende do lugar e de suas especificidades. "Se a vida de todo dia se tornou o refúgio dos céticos, tornou-se igualmente o ponto de referência das novas esperanças da sociedade. O novo herói da vida é o homem comum imerso no cotidiano" (Martins, 2000, p.57).
Segundo Lefèbvre (1981), o cotidiano é, de um lado, modalidade de organização empírica da vida humana e, de outro, um conjunto de representações que mascaram essa organização, sua contingência e seus riscos. Sua abordagem não é uma tarefa fácil, pois muitas vezes a realidade que a vida cotidiana nos passa é de muitos duplos: inconsistência e solidez; fragilidade e coesão; seriedade e futilidade; drama profundo e máscara de comédia sobre a vida.Lefèbvre procura nos mostrar os caminhos para a crítica da vida cotidiana, a qual ele classifica como uma metafilosofia do cotidiano, e que determinam as regras fundamentais de seu pensamento.
Para a realização da análise proposta neste texto é preciso apresentar o método lefebvriano, que prevê três momentos de investigação: o descritivo, o analítico-regressivo e o histórico-genético. Esse método foi proposto por Henry Lefèbvre como uma alternativa aos estudos de sociologia rural, mas pela sua riqueza, mostrou-se adaptável para diversas áreas das ciências sociais, e está formulado em seu livro De lo rural a lo urbano (Lefèbvre, 1978).
O primeiro momento do método – o descritivo – se dá pela observação do objeto de estudo, com diversas técnicas que possam ajudar na descrição.
José de Souza Martins (1996, p.21) organizou o livro Henri Lefèbvre e o retorno a dialética e nos alerta que nesse momento descritivo do método: "A complexidade horizontal da vida social pode e deve ser reconhecida na descrição do visível. Cabe ao pesquisador reconstituir, a partir de um olhar teoricamente informado, a diversidade das relações sociais, identificando e descrevendo o que vê".
Não se trata, portanto, da descrição pura e simples dos fatos, pois isso fatalmente nos levaria a uma análise parcial do fenômeno. Essa descrição, que é a primeira fase do método, deve se apoiar, sobretudo, em uma teoria crítica da vida cotidiana, nessa fase do trabalho: "o tempo de cada relação social ainda não está identificado. O pesquisador procede mais como um etnógrafo" (ibidem).
O segundo momento é o analítico-regressivo, que prevê a análise da realidade descrita, sem fechá-la totalmente, isto é, deverão ser consideradas as contradições e as possibilidades. Nessa fase do método, nos diz Martins (ibidem, p.21):
a realidade é analisada, decomposta. É quando o pesquisador
deve fazer um esforço para datá-la exatamente. Cada relação
social tem sua idade e sua data, cada elemento da cultura
material e espiritual também tem a sua data. O que no primeiro
momento parecia simultâneo e contemporâneo é descoberto
agora como remanescente de época específica. De modo que
no vivido se faz de fato a combinação prática de coisas,
relações e concepções que de fato não são contemporâneas.
O terceiro momento previsto pelo método é o histórico-genético, fase também conhecida como regressiva-progressiva, onde reencontramos o presente já descrito, retomando as modificações que a estrutura nos apresenta. Trata-se do momento em que buscaremos a gênese das formações dessas estruturas, apontando um marco geral de transformação sem perder o processo de conjunto. Segundo Lefèbvre (1978), é imprescindível nesse método considerar a interação das estruturas, a influência das estruturas recentes sobre as estruturas antigas subordinadas ou integradas às primeiras.
Martins (ibidem, p.22), ao trabalhar com este método, esclarecenos que:
Nesse momento regressivo-progressivo é possível descobrir
que as contradições sociais são históricas e não se reduzem a
confrontos de interesses entre diferentes categorias sociais. Ao
contrário na concepção lefebvriana de contradição, os
desencontros são também desencontros de tempos e, portanto,
de possibilidades. Na descoberta da gênese contraditória de
relações e concepções que persistem está a descoberta de
contradições não resolvidas, de alternativas não consumadas,
necessidades insuficientemente atendidas, virtualidade não
realizadas. Na gênese dessas contradições está de fato a
gestação de virtualidades e possibilidades que ainda não se
cumpriram.
É preciso, entretanto, antever que, embora as concepções da vida, das mudanças e da história sejam apoiadas em extensões de tempo, não significa que devam ser identificadas a partir da ideia de sucessões de etapas históricas, ou seja, recuperam-se, por esse método de investigação, as temporalidades desencontradas e coexistentes.
Nessa fase final do método, deve-se apresentar uma análise geral das modificações apontadas, sob a luz da teoria da reprodução das relações de produção. É preciso nesse momento retomar o marco de mudança já identificado reencontrando o presente. É também importante apontar as contradições emergentes, traçando as reflexões finais sobre o problema estudado.
Tanto na procura, como na análise do "marco" de mudança, devemos estar atentos, pois é a partir do momento histórico em que a reprodução das relações sociais de produção ganha outro sentido que a mundialidade do espaço consegue se manifestar.
Lefèbvre acredita que o presente não esclarece o real, por isso ele faz a regressão, procurando encontrar o marco da mudança. Esse percurso demonstrado pelo autor requer um esforço de reflexão que tem como pano de fundo o método dialético de investigação, pois nos faz enxergar que por trás de toda a coerência que o modo de produção capitalista tenta passar há um processo rico em contradição se desenvolvendo. "É dessa tensão que nasce a possibilidade da práxis revolucionária. Práxis que se funda no resgate e na unificação política dos resíduos – concepções e relações residuais que não foram capturadas pelo poder, que permaneceram nos subterrâneos da vida social, virtualidades bloqueadas" (Martins, 1996, p.23):
Trata-se de reconhecer onde estão o antigo, o novo, o
diferente, pois é a relação dialética desses três movimentos que
mantém a reprodutibilidade do sistema. O novo aparece, muitas
vezes, como tendência, uma novidade que contém diferentes
tempos históricos, mas que ao ser investigado pode nos
oferecer os elementos para uma análise que contribua para
desvendar a essência da transformação da realidade, descrita
no início do trabalho. (Ortigoza, 2001, p.22)
Ao fazer o levantamento das teses e dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unesp de Rio Claro (SP) na área de geografia urbana e que utilizaram a teoria lefebvriana aplicando o método regressivo-progressivo em suas análises, deparamos com um total de sete pesquisas desenvolvidas com o mesmo enfoque, sendo três teses (Ortigoza, 2001; Vieira, 2002; Costa, 2003) e quatro dissertações (Silva, 2003; Godoy, 2005; Carmo, 2006; Mak, 2007). Neste texto, embora o foco mais detalhado sejam as análises da teses, citaremos também os resumos de apresentação de cada uma das dissertações, para que o leitor tenha oportunidade de observar de forma mais global as possibilidades de abordagem na geografia urbana do referido método.
Singularidade teórica e pluralidade temática
As pesquisas apresentadas a seguir estabeleceram recortes empíricos diferenciados para a análise pelo uso do método lefebvriano; desse modo, vamos procurar, em cada um dos estudos, identificar os aspectos significativos que marcam as especificidades.
A construção do pensamento nas teses analisadas
Tese 1 – Ortigoza (2001) sob o título: O tempo e o espaço da alimentação no centro da metrópole paulista
Embora na sociedade atual não exista uma temporalidade
única, existe um tempo que é quantitativo, que prevalece no
espaço da metrópole. Este tempo impõe um ritmo cada vez
maior e mais distante do ritmo da vida, mas que torna-se,
através do cotidiano, o ritmo da sociedade urbana. Esta
sociedade urbana é então transformada em uma sociedade
produtivista que se desenvolve no mesmo sentido da produção.
As relações sociais de produção, ao determinarem esse tempo,
acabam produzindo espaços que nos mostram o sentido da
reprodução. (Ortigoza, 2001, p.153 e 154)
Ortigoza (2001) analisou de forma mais específica o setor de alimentação no centro de São Paulo, procurando identificar as diversas relações sociais que caracterizam as atitudes de consumo no centro da metrópole, e que acabam permitindo o desenvolvimento de algumas formas comerciais.
Portanto, o valor do espaço será entendido pela própria
espacialidade contida e articulada no processo capitalista de
produção, onde o próprio espaço torna-se objeto de troca. O
espaço, nesse caso, passa a ser o veículo que define a troca, e
o seu valor passa a ser atribuído segundo a lógica da
circulação. A apropriação do espaço ganha importância nesse
processo, pois é uma condição prévia e necessária à
valorização. É por isso que podemos dizer que a valorização do
espaço se dá de diversas formas no decorrer da história,
dependendo, sobretudo, dos avanços das forças produtivas e
das novas relações sociais que delas emergem. (ibidem, p.2)
A presente pesquisa teve, como universo espacial empírico, o centro da metrópole de São Paulo. Ortigoza (2001) reconhece como ponto de partida a densa e complexa rede de atividades com diversas contradições do espaço metropolitano e adverte que, nesse espaço, os problemas sociais e econômicos tornam-se ainda mais contraditórios e ao mesmo tempo mais difíceis de serem compreendidos.
Outro elemento importante discutido nessa tese é o ritmo do urbano, dado pelo processo de produção, que invade a vida social e acaba impondo aos cidadãos metropolitanos alguns comportamentos de consumo, dados pela escassez do tempo. Essa é uma das questões-chave dessa tese que teve como título: "O tempo e o espaço da alimentação no centro da metrópole paulista". Por meio do setor de alimentação, no centro, procurou-se entender as relações de con-sumo normatizadas (sob a pressão de um tempo quantitativo) que se dão no espaço contribuindo para a sua reprodução.
Nesse estudo, a análise do comércio e consumo de refeições fora do lar levou a autora a construir uma crítica da vida cotidiana dos metropolitanos. Fez isso por meio da discussão das múltiplas relações que reproduzem o espaço do centro da metrópole e que têm em seu bojo um tempo quantitativo, de uma sociedade produtivista, com um cotidiano altamente programado. O centro da metrópole foi, portanto, entendido como produto e condição das relações sociais de produção.
O comércio, como continuidade e parte integrante do processo
de produção, reproduz novas formas, cada qual dando margem
para que outras ainda mais padronizadas se estabeleçam.
Nesse sentido, o espaço passa a ser, cada vez mais, controlado
e normatizado, criando uma paisagem mundializada que
contém um uso pré-determinado; tudo isso acaba
estabelecendo a programação do próprio cotidiano. (ibidem,
p.3)
Outro ponto importante que foi destacado pela autora é que as formas antigas vão aos poucos sendo incorporadas, pois, afinal, a racionalidade capitalista está presente e conduz o comércio e os serviços, assim como a indústria. "Em boa verdade, no mundo ‘moderno’, o que parece mudar permanece imutável, e o que parece estagnar-se modifica-se" (Lefèbvre, 1973, p.67).
É preciso, no entanto, compreender a materialização das
formas comerciais no espaço dentro do processo de
reprodução como um todo, pois ao se reproduzirem os novos
processos guardam muito do velho, e o velho muitas vezes
modifica-se sem muita visibilidade. Em outras palavras, é só
através da análise da essência dos processos que notamos que
a reprodução não é o novo totalmente, ela o contém mantendo
algo do velho. No caso das formas comerciais, pode-se dizer
que sua essência é dada pelo uso que é a mediação entre
tempo e espaço. Nesse caso, não são as novas formas
comerciais que transformam a vida; é o uso que, dado pela vida
cotidiana, dá o novo sentido à forma, muitas vezes
transformando-a. (Ortigoza, 2001, p.3 e 4)
Ortigoza resgata a ideia de que o global só se realiza no lugar (e no cotidiano), porque as relações sociais (mundializadas, novas) têm materialidade no espaço do cotidiano, que é local.
Sob o enfoque, do espaço como produto e condição das relações sociais de produção, Ortigoza vai desvendando a essência das formas comerciais de alimentação, e por meio do cotidiano dos metropolitanos procura entender o que leva as pessoas a "comerem fora de casa" – Opção? Necessidade? Manipulação? O processo de escolha pelos tipos de serviços (à la carte, por quilo, fast food) foi também amplamente investigado, relacionado os elementos preço, qualidade, e tempo de preparo.
De maneira geral, o grande desafio que essa pesquisa de Ortigoza apresentou foi o de refletir sobre as novas relações espaço-tempo na metrópole, procurando colaborar para um melhor entendimento do espaço urbano na atualidade, analisando, sobretudo o desenvolvimento de algumas formas comerciais ligadas ao setor de alimentação. Por meio da discussão do uso dessas formas, buscou-se encontrar em alguns momentos da vida cotidiana as resistências ao moderno e ao global, e o que elas nos apresentam como possibilidade.
Para dar coerência ao pensamento construído nessa tese e estabelecer a ponte entre a teoria lefebvriana e a geografia urbana, a autora estruturou seu movimento analítico tendo como base a metodologia apresentada na tese:
A nossa pesquisa contou com uma metodologia de trabalho
qualitativa e que teve o apoio dos seguintes instrumentos de
pesquisa: revisão bibliográfica, entrevista, coleta de dados
estatísticos e de informações colhidas junto aos órgãos
competentes, utilização de mapas, tabelas e gráficos, notas e
artigos de jornais e revistas. (Ortigoza, 2001, p.10)
Já o percurso do pensamento sobre o tema foi organizado, segundo Ortigoza (2001, p.7), da seguinte forma:
O primeiro momento – o descritivo – se dá através da
observação do objeto de estudo, no nosso caso o setor de
alimentação no centro da metrópole, com o apoio de técnicas
de observação sistemática, entrevistas não dirigidas e dados
estatísticos que possam nos ajudar na descrição. [...] Ali
traçamos a problemática num nível teórico e a seguir discutimos
a materialização das formas do comércio de alimentação.
O segundo momento, que marca a análise do que foi descrito no primeiro, fica demonstrado na citação que segue:
O segundo momento é o analítico-regressivo, que prevê a
análise da realidade descrita, sem fechá-la totalmente, nesta
fase nos propusemos a fazer uma análise comparativa das
diferenças encontradas no setor de alimentação, no urbano e
no cotidiano, tanto nas novas e modernas formas e relações,
como nas possibilidades do rompimento do homogêneo, do
normatizado. Introduzimos essa discussão no capítulo II, onde
procuramos apontar as mudanças e persistências nos hábitos
alimentares. (ibidem)
Ainda nesse momento é debatida a seguinte hipótese:
Apresentamos nesse momento a hipótese de que o fast food
pode ser apontado como o retrato do individualismo e que
através dele se dá a perda do próprio sentido (da sociabilidade)
do ato de comer. As refeições a partir do fast food passam a ter
signos, espaços e tempos bastante complexos. (ibidem, p.8)
O último momento do método é, nesse estudo, apresentado do seguinte modo:
O terceiro momento previsto pelo método é o histórico-genético,
reencontramos o presente já descrito, retomando as
modificações que a estrutura do comércio de alimentação nos
apresenta e suas relações com o espaço e o tempo da
metrópole. Trata-se do momento em que buscaremos a gênese
das formações dessas estruturas, apontando um marco geral
de transformação sem perder o processo de conjunto. [...]
Nesta fase final do método sob a luz da teoria da reprodução
das relações de produção retoma-se o marco de mudança já
identificado, reencontrando o presente, traçando as nossas
reflexões finais. (ibidem, p.8)
Observa-se que todo o respaldo teórico tem coerência ao pensamento de Lefèbvre, pois foi no cotidiano que se procuraram as efetivas mudanças, as quais propiciaram o aparecimento das novas formas de comércio de alimentação, transformando o "comer fora de casa" em um hábito bastante frequente na vida das pessoas. A autora observa que as estruturas antigas do setor de alimentação vão sendo reproduzidas no tempo e no espaço e ganhando novo sentido.
Tese 2 – Vieira (2002) sob o título: O centro vive – O espetáculo da revalorização do centro de São Paulo: sobrevivência do capitalismo e apropriação do espaço
A cidade não é apenas a obra enquanto construção física, mas
verdadeiramente carrega a humanidade do homem. Assim, é
possível ler por intermédio da cidade a própria história de nossa
sociedade, inscrita na forma, cristalizada sim na obra. Deste
modo, estudar São Paulo não significa apenas estudar a cidade
de São Paulo, suas peculiaridades e idiossincrasias. Estudar
São Paulo é buscar compreender pela análise teórica, além da
empírica, o sujeito da reprodução das relações sociais de
produção. (Vieira, 2002, p.379)
Vieira (2002, p.24) inicia sua defesa do método regressivo-progressivo ao observar que:
As relações sociais, tal como as observamos no presente, têm
uma aparência que, a primeira vista, pode confundir a análise
do real se levarmos em conta apenas a sua aparência atual. Há
a necessidade de datação das relações sociais, no sentido de
que sejam identificadas as suas origens. O que observamos no
presente é a coexistência de relações sociais que tem datas
diferentes e que estão, assim, em descompasso e desencontro.
A partir dessas considerações, o autor vai avançando, colocando e valorizando as ideias de Lefèbvre quando reconhece a existência de uma dupla complexidade da realidade social: horizontal e vertical.
Trata-se, de uma concepção teórica e metodológica da
realidade, onde se identificam, por um lado, as distinções
existentes no presente, por intermédio da complexidade
horizontal, e, por outro lado, se identificam as diferentes datas
das relações no passado, por intermédio da análise da
complexidade vertical. E, mais do que isto, desvendam-se,
assim, as aparências da realidade. Sob este ponto de vista,
tem-se um instrumento metodológico, o método regressivo-
progressivo de que nos fala Lefèbvre. Por intermédio deste
instrumento, capaz de identificar no presente as diferentes
temporalidades da história, pode-se analisar o real sobrepondo-
se à concepção de contemporaneidade das relações sociais.
Se aparecem juntas no presente, as relações sociais, para
serem entendidas de maneira correta, precisam ser datadas,
precisam ter suas origens vinculadas a uma determinada data,
para que se demonstre que a coexistência delas no tempo atual
esconde a gênese em processos diferentes, no passado.
(ibidem, p.25 e 26)
O autor dessa tese faz uma fundamentação bastante profunda procurando mostrar a importância do método lefebvriano de análise, o qual permite aos geógrafos decompor as diferentes temporalidades materializadas no espaço atual.
A aplicação deste método permite observar em São Paulo uma
realidade complexa e, por vezes, caótica e confusa, como de
fato se apresenta. Mas é uma realidade cujas relações sociais,
embora apareçam simultâneas, não o são. Por vezes,
perdemos a noção de que no social e no econômico existentes
hoje coexistem muitas relações de datas diferentes. Não se
pode explicar o presente pela análise pura e simples do que
temos hoje. É preciso voltar no passado, datar as origens, para
poder mostrar as contradições e suas possibilidades de
superação. O espaço produzido no século passado, que divide
a rua com o espaço produzido no presente, por exemplo, são
apenas aparentemente simultâneos e contemporâneos.
(ibidem, p.26)
Vieira se remete a Marx ao longo de sua discussão teórica e ressalta que a proposição de Lefèbvre é "instigante e verdadeira", a partir do momento que permite reviver a essência da lógica dialética contida no próprio pensamento metodológico de Marx. Ao dividir a tese em três grandes partes, Vieira (2002, p.27) vai dando coerência ao método:
A Primeira Parte, "A Complexidade Horizontal em São Paulo",
ou sobre quando se identifica e descreve a diversidade das
relações sociais no presente, comporta o Capítulo 1,
"Identificando e Descrevendo o Real". Neste momento será
tratado o que adiante se fundamenta.
Lefèbvre (1978) expôs sucintamente os desdobramentos de
sua concepção. A complexidade horizontal da realidade social é
reconhecida num primeiro momento, a partir da descrição do
visível. Neste momento, o pesquisador deverá reconstituir a
diversidade das relações sociais, identificando e descrevendo o
que vê. Tratase mesmo da descrição, não de uma descrição
empírica, mas sim, orientada por uma informação teórica. Aqui,
o tempo de cada relação social não aparece, não é identificado.
É quase um levantamento de dados descritivos da realidade,
onde as relações são apresentadas sem a preocupação de
relacioná-las com uma data ou origem.
O autor enriquece a discussão quando coloca que: "A bem da verdade, este momento do método resgata uma categoria bastante cara aos geógrafos, tal seja, a paisagem". E prossegue ressaltando que "os elementos da paisagem guardam em si a aparência da realidade. São mais do que isto é verdade, mas em um primeiro momento é o que mostram: a aparência" (ibidem).
Nesse momento descritivo, Vieira (2002) trata a realidade de São Paulo focando a metrópole em sua dinâmica atual. Afinal, é isso que lhe propicia a hegemonia em um processo de gerenciamento e destaque no cenário nacional e internacional. Valoriza nessa descrição as novas tecnologias, a gestão de negócios e o papel do setor imobiliário instalados em São Paulo, e ainda destaca a consolidação da cidade mundial, conectada aos fluxos da economia globalizada. Ao descrever São Paulo, para entender o seu centro, o autor passa a considerar ela mesma como um centro e, ao discutir sua centralidade, acaba por refletir sobre as diversas transformações que ocorrem no presente.
Ao continuar apresentando como foi possível aplicar o método lefebvriano de análise no estudo da reprodução do centro da metrópole, Vieira (2002, p.29 e 30) explica como construiu a segunda parte do texto que equivale ao segundo momento do método:
A Segunda Parte, "A Complexidade Vertical no Centro", ou
sobre quando se decompõe a realidade e se descobre a
gênese contraditória das relações e concepções que persistem
e se vislumbra o possível, está dividida em dois capítulos, cada
qual tratando de um momento metodologicamente específico. O
Capítulo 2, "Decompondo o Real", trata do momento da
descoberta das diferentes temporalidades do presente. Neste
ponto, mergulhamos na complexidade vertical da realidade
social. [...] No caso deste estudo, equivale a recompor o quadro
atual do centro, a partir do retorno àqueles momentos que o
definiram. [...] É preciso investigar para determinar a data de
seu surgimento. Somente assim poderá ser possível
desmascarar a aparência da paisagem, tornando-a
representativa do espaço enquanto produto da sociedade.
Foi possível, nesse momento, ao autor perceber que a identidade da metrópole está fortemente marcada pela porção inicial onde se assentou o seu núcleo original. Nesse sentido, as referências à cidade estão ligadas ao centro, sua transformação é contínua, mas ele se mantém como símbolo que atrai pessoas, tecnologias e, portanto, favorece os fluxos.
Um avanço nessa tese é o fato de o autor ultrapassar o presente já apresentado e vislumbrar as possibilidades do futuro.
Finalmente, o Capítulo 3, "Construindo o Virtual", se
encarregará da análise daquilo que ainda está por vir. Depois
de identificar o presente, retomar sua realidade a partir da
decomposição, é necessário agora ultrapassar o presente, de
posse do passado e compreendendo, com base nisto, as
possibilidades ainda não realizadas.
O terceiro momento do método preconizado por Lefèbvre
(1978) foi chamado de histórico-genético, onde se deve fazer o
estudo das modificações trazidas à estrutura em questão, já
datada pelo desenvolvimento posterior e por sua subordinação
a estruturas de conjunto. É a tentativa de retornar ao que foi
anteriormente descrito, com a finalidade de reencontrar o
presente, no entanto elucidado e compreendido, vale dizer,
explicado. [...] A importância da datação dos marcos
fundamentais no estabelecimento das relações sociais está
justamente na possibilidade de apontar os resíduos sem
destruí-los, pura e simplesmente, mas aproveitando-os para
uma possibilidade de práxis revolucionária. (ibidem, p.32)
De forma sintética observamos que essa tese traz um esquema de desenvolvimento do tema que baseia suas duas primeiras partes nas complexidades horizontal e vertical e já estabelece a análise. E assim, a estrutura da tese de Vieira ficou sedimentada da seguinte forma, a primeira parte trata da "Complexidade Horizontal em São Paulo", composta pelo Capítulo 1; a segunda parte analisa "A Complexidade Vertical no Centro", composta pelo Capítulo 2, e a terceira parte, composta pelo Capítulo 3 "Construindo o Virtual".
Algumas importantes conclusões são traçadas nessa aprofundada pesquisa, com base na revalorização do espaço, e sob o ponto de vista imobiliário, o autor revela que:
A revalorização imobiliária está inserida dentro do processo
mais amplo que trata da sobrevivência do capitalismo. Como se
demonstrou até aqui, o capitalismo transforma seus elementos,
faz com eles passem por uma metamorfose capaz de modificar
a sua aparência conservando intacta a sua essência. É esta a
lógica da revalorização imobiliária. Pela incorporação do valor
subjetivo da área, assentado em seu valor histórico, agrega
valor objetivo aos imóveis, alterando suas funções, travestindo
suas formas, fazendo de sua aparência apenas um simulacro
de sua realidade. (ibidem, p.384)
Algumas conclusões servem como alerta para a relação conflituosa entre a apropriação e a dominação do espaço central, pois acaba mascarando o real papel do centro, que seria o espaço do cidadão.
A revalorização do centro só terá sentido para a cidadania e para os habitantes da metrópole se for capaz de produzir espaços onde a apropriação seja mais importante do que a dominação. Insistir na lógica dominante é construir um espaço para ser palco de conflitos, onde as possibilidades do futuro apontarão para a transgressão, para a invenção, para a superação que, enfim, instaura a produção do espaço de reprodução da vida: a apropriação. (ibidem, p.465) Notadamente, o método em questão contribuiu de forma contundente ao entendimento do objeto de estudo e no seu movimento na história, permitiu de fato uma decomposição das complexidades envolvidas no centro da metrópole de São Paulo, no tempo e no espaço.
Tese 3 – Costa (2003) sob o título: O centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Entre as realidades afloradas percebemos que a legislação
urbanística municipal contribui para a pulverização de centros
especializados no interior das cidades, fortalecendo a relação
entre o periférico, que passa a ser central, e o central que
passa a ser periférico, pelo menos para alguns tipos de ramos
comerciais e de serviços. Passa a haver também uma inversão
de procedimentos: inicialmente, os shopping centers imitavam
as cidades, mas agora as cidades imitam os shopping centers.
O centro de Recife assim entra no processo de shoppinização.
(Costa, 2003, p.180 e 181)
O processo de produção e reprodução espacial do centro de Recife foi analisado por Costa (2003) no sentido de compreender a tendência de transformação de um lugar tradicional do comércio varejista, rumo à sua reprodução em um espaço à semelhança dos shopping centers. Com esse problema de pesquisa, a autora discute amplamente a multiplicação das ruas shoppings no centro, abrigando praças de alimentação e outras formas modernas, com gerenciamento em forma de parceria dos poderes público e privado.
Ao discutir as transformações e as persistências das formas comerciais do "Centro Tradicional de Recife", decorrentes do Plano de Revalorização e das intervenções urbanísticas desse espaço, a autora acabou avaliando os conflitos e contradições gerados, cujos efeitos foram identificados no cotidiano do lugar. Esses embates foram detectados por meio da análise das estratégias de apropriação do espaço.
Nesse sentido, para organizar o pensamento em torno dessa problemática, esse estudo se propôs a construir uma abordagem inovadora que teve como base o método lefebvriano de análise. Assim, escreve a autora, "seu entendimento deve se situar entre a descrição e a imaginação, entre a compreensão e a análise. Deve-se desenvolver um estudo analítico e crítico da vida cotidiana, onde se juntem os fatos aos conceitos" (ibidem, p.1).
Costa (idem, p.1) debate amplamente o método e sua aplicação, centrando toda a discussão teórica na obra de Lefèbvre e, em uma de suas reflexões coloca que:
Nesse sentido, a especificidade dessa pesquisa está em
analisar em que medida a imagem de shopping centers e a
programação do lugar de consumo do centro recifense, e em
particular das ruasshopping, atrai antigos consumidores para
suas ruas. As estratégias criadas para sua produção, os
escapes e resíduos do cotidiano das pessoas que usam esse
espaço serão sistematicamente analisados.
E, de forma contínua, a autora vai apresentando sua justificativa em relação ao método utilizado:
Neste trabalho, utilizaremos a análise regressiva-progressiva
que caracteriza o método de abordagem da transduction de
LEFÈBVRE segundo o qual se deve partir de um grau de
verdade histórica, para o nível do subjetivo, individual,
desenvolvendo uma análise crítica da sociedade, através de
suas representações ideológicas e dos conceitos cotidianos. A
transduction constrói um objeto virtual a partir de informações,
atingindo as soluções com base em seus fundamentos, ou seja,
vai do real para o possível. (ibidem, p. 2)
Ao trabalhar com o sentido do cotidiano em Lefèbvre, Costa coloca-o como o nível da práxis e da sociedade global. Esse nível, justifica a autora, é aquele designado por um aspecto da realidade, mas não se reduz a uma tomada de vida dessa realidade e não se dissocia de outros conceitos (palavras, degraus e planos, suas conjunturas e quadros de referências, suas perspectivas e aspectos). Desse modo, Costa (ibidem, p.2) acaba concluindo que "os níveis não coincidem entre si, mas contribuem para exprimir uma complexidade diferencial e estrutural de um todo, de uma ‘totalidade’".
Procurando estabelecer uma relação entre esse aspecto teórico e seu estudo empírico, Costa (ibidem, p.3), revela que:
Portanto, para analisar o Centro de Recife, que se reproduz de
forma fragmentária e complexa, e as ruas-shopping
especificamente, é importante levar em consideração os vários
níveis espaciais de análise, visto que eles interagem entre si,
resultante de um processo de intervenções isoladas, em áreas
específicas do comércio, criando novas formas comerciais que
invadem as ruas, substituindo lugares públicos por privados, e
estabelecendo novos hábitos de consumo do lugar e no lugar.
Procurando detalhar os procedimentos de investigação Costa (ibidem, p.6 e 7) discrimina as etapas da pesquisa:
a) Documentação indireta: etapa que compreendeu
levantamento bibliográfico, teórico e relativo ao tema. Para
tanto, a descrição contribuiu na delimitação dos níveis de
análise, ou seja, das escalas espaciais que interferem, ora
percebidas isoladas, ora "encaixadas", com seus efeitos de
reencontros e conjunturas. Assim, nesse primeiro momento de
análise, veremos no nível da história, como as realidades
afloradas, emergentes, consolidam-se em um certo nível
espacial; b) Documentação direta: consistiu em observações,
coletas de dados e informações empíricas, através de
entrevistas com os produtores do espaço. Nessa etapa
pretendeu-se captar uma parte do vivido "um aspecto do drama
escondido, a situação dessa cotidianidade". A técnica da
entrevista será aqui utilizada procurando uma relação do
entrevistador e do entrevistado, onde possam aflorar os fatos
mais simples da cotidianidade.
A autora, em todo o texto da tese, procura mostrar a fundamentação teórica, os conceitos que dão embasamento à análise e a metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa. Procura, dentro da produção do pensamento geográfico, buscar o encontro com os conceitos de reprodução das relações sociais. É nas formas comerciais que se busca a possibilidade do entendimento das transformações sociais no espaço urbano. Todo esse percurso teórico-metodológico é acompanhado da ideia de que o comércio traduz as estratégias de sobrevivência do capitalismo. Costa (ibidem, p.8) apresenta o método de orientação do trabalho, com as etapas de operacionalização da pesquisa e as variáveis a serem investigadas, respeitados cada momento do método.
No primeiro capítulo é apresentado o Centro Tradicional de
Recife privilegiando a descrição, primeira etapa do método
regressivo-progressivo, quando o pesquisador deve reconhecer
a complexidade horizontal, ou seja, a diversidade das relações
sociais através da reconstituição, identificando e descrevendo o
que vê. Nesse momento, "o tempo de cada relação social ainda
não está identificado". Há, nesse capítulo, a reconstituição dos
momentos históricos que criaram as intervenções nas ruas
comerciais do Centro de Recife. Busca-se nesse capítulo,
entender a identidade do Centro Tradicional da cidade, criada
pelo conjunto de intervenções urbanas e arquitetônicas, como
também pelas relações sociais calcadas no lento tempo da
metrópole. Há, nesse capítulo, um quadro cronológico com as
principais políticas públicas, organizadas pelos comerciantes e
executadas pelas empresas públicas de urbanização municipal.
Sobre o segundo momento do método a autora revela que:
O segundo capítulo contempla a etapa seguinte do método ana
lítico-regressivo, quando nos aprofundamos na complexidade
vertical, ou seja, quando nos aprofundamos na vida cotidiana
das ruas-shopping, reconhecida como resultante de relações
sociais desiguais. Nesse momento, procuramos datar as
relações sociais para desvendar as aparentes Ao final, a autora conseguiu vislumbrar um processo de privatização do espaço público, haja vista que as Associações de Rua, por intermédio dos comerciantes, programam o uso do lugar, proíbem o comércio de rua, liberando apenas aqueles e aquilo que lhes convêm. São vários os símbolos encontrados no desenvolvimento da tese que evidenciam esse processo de privatização: grades e policiais nas ruas; o papel de gestor público, administrando a segurança; os comerciantes que buscam viabilizar suas vendas por meio de produtos populares, entre outros.
contemporaneidades e simultaneidades, descobrindo as épocas
específicas de cada relação social presente nessa ruas,
produzidas com suas velhas formas comerciais e suas novas
estratégias de sobrevivência do comércio. Elaborado a partir
das entrevistas dos comerciantes e consumidores das
ruasshopping, os depoimentos possibilitaram averiguar as
transformações e persistências do comércio do Centro, onde
destacamos: a) a popularização do ramo de comércio de
vestuário, em específico, e do comércio em geral; b) a
reprodução ampliada da concentração do capital, como
indicador de um amplo processo de revalorização espacial e c)
a segregação social do Centro. (ibidem, p. 8 e 9)
Ainda nesse momento, a autora confrontou o discurso oficial com a prática; para tanto, foram analisadas as estratégias, os instrumentos e as repercussões à luz de documentos oficiais, técnicos e políticos que participaram de sua concretização da reforma urbana no centro de Recife.
As diversas contradições encontradas são amplamente debatidas no terceiro momento do método, quando ocorre o reencontro com o presente.
No terceiro e último capítulo, procura-se analisar as
contradições não resolvidas e os conflitos latentes, ou seja, a
terceira etapa do método historico-genético, possibilita o
reencontro do presente, porém se elucida o percebido pelo
concebido teoricamente, definindo, assim, as condições e
possibilidades do vivido. A generalização da mercadoria no
Centro Tradicional de Comércio cria conflitos com o comércio
de rua. A programação é destinada a todos os lugares, públicos
e privados, criando um centro fragmentado, onde afloram
contradições. Analisaremos, nesse capítulo, dois lugares que
representam o desencontro de tempos e de possibilidades: o
Camelódromo da Dantas Barreto e o Pólo Imperatriz,
apontando as virtualidades e as possibilidades futuras de um e
de outro. (ibidem, p.9)
Uma das conclusões essenciais dessa tese é a observação de que "Nas ruas-shopping, a mercadoria comercializada solicita os consumidores a entender que qualquer semelhança é mera coincidência. Em meio a esse conflito surge o acaso, representando o afloramento de possibilidades: novas formas de comércio de rua indicam que o camelô faz a novidade" (ibidem).
Desse modo, como é amplamente discutido no texto, fica confirmado que o Centro Tradicional de Comércio de Recife vai se constituindo cada vez mais em um espaço fragmentado e conflituoso, e desse modo, essas ideias convergem com os outros dois estudos aqui apresentados no sentido de que os centros tradicionais das cidades estão deixando de ser lugar de todos para se tornar lugar de alguns.
As três teses analisadas aplicaram todos os momentos previstos no método, não como uma "camisa de força", pelo contrário, esses momentos foram sendo construídos nos encaminhamentos da investigação e apareceram como uma forma capaz de dar movimento ao pensamento elaborado pelos pesquisadores. É preciso destacar que existe toda uma preparação teórica, desde a forma como se pensa a hipótese e todo o respaldo conceitual da tese em questão, ou seja, todo o projeto tem que estar vinculado ao método, pois é ele que dá a forma de pensar a sociedade, a realidade e o espaço, essa coerência é fundamental. Enfim, para se embasar nesse método, toda a construção teórico-metodológica deverá estar assentada na visão crítica de Lefèbvre, e foi isso que encontramos nas teses apresentadas.
Aplicação do método lefebvriano de análise em
dissertações na área de geografia urbana
A seguir são citados os resumos originais das dissertações que utilizaram o método lefebvriano de análise, e embora não apareça destacado nessas partes dos textos o papel do método regressivoprogressivo para o desenvolvimento da pesquisa, na sua íntegra as referidas dissertações se orientaram em uma teoria e metodologia coerentes ao referido método.
Dissertação 1 – Silva (2003) sob o título: O tempo e o espaço do comércio 24 horas na metrópole paulista
Resumo: A metrópole paulista desempenha papel central no
comando da economia do Brasil, configurando-se como ponto
de interligação e comunicação entre o mundo e nosso país,
sendo a porta de entrada, consolidação e expansão dos mais
diversos tipos de investimentos de capital. No comércio
varejista esse movimento se torna claro quando se analisa o
papel das grandes empresas brasileiras e das multinacionais a
partir da força que os supermercados, hipermercados e lojas de
conveniência desempenham hoje no cotidiano das cidades. A
distribuição alimentar passou por inúmeras modificações nos
últimos cinquenta anos introduzindo novas for-mas de comércio
que foram adaptando-se às novas características da sociedade
brasileira. O comércio 24 horas metropolitano é um atributo
novo dentro do espaço urbano brasileiro e tem propiciado a
construção de novos elementos para a reprodução do espaço
urbano. O comércio 24 horas é o ponto central de análise desta
dissertação, que ao longo de três capítulos trata de apresentar,
desenvolver, analisar e concluir como que o comércio varejista
brasileiro criou novos métodos para distribuir as mercadorias no
espaço urbano, sendo as lojas de funcionamento 24 horas uma
das últimas novidades criadas pelo comércio na busca da
ampliação do lucro. (Silva, 2003, p.16)
Dissertação 2 – Godoy (2005) sob o título: O espaço da produção solidária dos catadores de materiais recicláveis – Usos e contradições
Resumo: Esta dissertação discute a reprodução das relações
sociais através da atividade, essencialmente urbana,
desempenhada por catadores de materiais recicláveis. O
aprofundamento teórico e metodológico, bem como o estudo de
uma realidade determinada, mostram-se neste momento
através da análise do espaço geográfico a partir de um objeto
de estudo – as cooperativas de catadores e seu objeto de troca:
os materiais recicláveis. A reprodução da vida de milhares de
pessoas depende de um mercado que incluí circuitos
econômicos de uma mercadoria, que para muitos é considerada
lixo, mas que para outros tantos é objeto de troca. Para tanto, é
necessária a análise espacial, social e econômica do mercado
de materiais recicláveis, mais precisamente de
empreendimentos pautados pela economia solidária, como são
as cooperativas de catadores de materiais recicláveis. Esse
trabalho também discute a viabilidade e a possibilidade de
emancipação destes empreendimentos. (Godoy, 2005, p.V)
Dissertação 3 – Carmo (2006) sob o título: Dinâmicas sócioespaciais na cidade de Rio Claro (SP): as estratégias políticas, econômicas e sociais na produção do espaço
Resumo: Objetiva-se, com essa dissertação, procurar a
essência da produção e da reprodução da cidade, baseada na
abordagem do consumo do e no espaço, tendo como alvo de
investigação as ações do poder público, dos moradores e dos
donos do capital, ponderando ainda o grau de influência de
cada um, e verificando como o poder público tem intermediado
esses conflitos, de forma a detectar quais os interesses
envolvidos nessa forma de planejar a cidade. Na análise dessa
problemática, tomar-se-á como área de estudo a avenida Os resultados finais das dissertações analisadas demonstram que o método regressivo-progressivo permitiu ampliar o debate, desvendar alguns enigmas e, dessa forma, contribuiu essencialmente para encontrar os marcos de mudança e as possibilidades de transformação do problema investigado.
Presidente Tancredo de Almeida Neves, na cidade de Rio Claro
(SP), sendo que essa uma área foi conquistando uma
significativa centralidade no decorrer dos anos. Espera-se com
esse estudo contribuir para o entendimento dos processos e
dinâmicas socioespaciais, recentes na cidade de Rio Claro,
interior de São Paulo. (Carmo, 2006, p. 5)
Dissertação 4 – Mak (2007) sob o título: Agentes públicos e privados na refuncionalização de formas urbanas na cidade de Campinas - SP
Resumo: O espaço geográfico e, por consequência, o espaço
urbano devem ser considerados produtos e condições das
relações humanas, portanto, um sistema indissociável de
objetos e ações. Dentro desta visão, temos que os elementos
não devem ser estudados isoladamente, de forma fragmentada,
pois isso afastaria qualquer análise da realidade. Seguindo a
metodologia do estudo da forma, estrutura, função, e processo,
este trabalho analisará um aspecto muito comum nas cidades
nos dias atuais: as edificações abandonadas. Inicialmente
definidas como brownfields, termo aqui substituído por enclaves
anacrônicos, ou seja, objetos técnicos que permanecem
"alheios" ao processo de modernização espacial. São
edificações e instalações que tiveram seu ciclo de vida
interrompido por um processo de produção social do espaço de
escalas regionais ou até mesmo globais, que a tornaram
obsoletas, degradas e disfuncionais, demandando uma
reordenação, já que estas se mostram no espaço como fraturas
temporais à espera de uma nova função ou uso. Este trabalho,
realizado na cidade de Campinas, tem o objetivo de avaliar dois
diferentes processos de recuperação de enclaves anacrônicos,
um realizado pelo poder público e outro pela iniciativa privada,
buscando alcançar o entendimento de qual destes métodos
apresenta resultados mais positivos à sociedade, fazendo-se
uso da ideia de preservação da memória e de usos e consumo
do espaço. (Mak, 2007)
Considerações finais
A geografia urbana brasileira tem se projetado de modo mais eficaz no plano nacional e mundial e, portanto, alcançado maior visibilidade nos últimos anos. Muitos desses estudos têm partido da articulação dialética entre as relações sociais de produção e a reprodução do espaço para se chegar à análise crítica do urbano. O urbano como um processo dinâmico e contraditório revela conteúdos que despertam novas formas, metodologias e abordagens de pensá-lo. Assim, na geografia urbana têm surgido nos últimos anos novos enfoques, trazendo-lhe um pensamento de caráter plural. O pensamento geográfico só tem a ganhar quando o diálogo entre o pensar e o fazer provocam novas teorias. Nesse percurso, existem as continuidades, as rupturas e, muitas vezes, conexões entre a "antiga" e a "nova" forma de pensar o objeto. O objeto é uno, a temática singular; e o método? Este se constitui no grande desafio.
Encarando o método regressivo-progressivo como um grande desafio para se pensar o urbano é que estes pesquisadores aqui citados (Ortigoza, 2001; Vieira, 2002; Costa, 2003; Silva, 2003; Godoy, 2005; Carmo, 2006; Mak, 2007) trabalharam com uma perspectiva de análise inovadora dentro da geografia. Mas, para que esse método seja aceito de forma mais ampla e consagrado, muito ainda tem que ser feito no sentido debatê-lo em outras subáreas e em novas temáticas.
O cotidiano, por sua vez, é uma categoria que tem sido muito trabalhada na geografia e, nesse sentido, o entendimento de Lefèbvre sobre ele também tem sido utilizado para enriquecer o debate. O cotidiano é onde as relações sociais de produção se estruturam na vida urbana e, portanto, é por meio dele que as mudanças no tempo e no espaço conseguem se materializar. O cotidiano como categoria de análise geográfica provoca a reflexão sobre o uso social do espaço e com isso o sentido mais amplo de sua reprodução tem sido também considerado.
As cidades apresentam uma multiplicidade de padrões culturais, diferentes formas de sociabilidade, e com isso diversos usos e apropriações do espaço; esses processos não se apresentam em sua totalidade nos lugares e, especialmente, não são visíveis de forma imediata pelo pesquisador; desse modo, os estudos aqui apresentados desafiaram, inovaram e aprofundaram a discussão em torno de temas que podem contribuir com o desvendamento da geografia urbana na atualidade. E ficam como exemplos de estudos que estão abertos ao debate em prol do enriquecimento teórico-metodológico.
Uma opinião que é unânime em todas as pesquisas aqui citadas é que esse método regressivo-progressivo permite desvendar no seu percurso do pensamento a origem contraditória de relações e concepções, e destacar os conflitos não resolvidos, as alternativas não consumadas, as necessidades insuficientemente atendidas, as virtualidades não realizadas. De fato, esse método aponta a realidade como rica em possibilidades, as quais podem ser criadas no seio da própria contradição. Desse modo, o referido método acaba apontando para um caminho de novas perspectivas teóricas para se desvendar e enxergar o mundo.
Referências
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GODOY, T. M. P. de. O espaço da produção solidária dos catadores de materiais recicláveis – Usos e contradições. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Rio Claro, 2005.
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ORTIGOZA, S. A. G. O tempo e o espaço da alimentação no centro da metrópole paulista. Tese (Doutorado) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Rio Claro, 2001.
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* Professora adjunta do Departamento de Geografia da Unesp – Rio Claro (SP).