História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

Paulo R. Teixeira de Godoy · Capítulo 14 de 14

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História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

13 A teoria geográfica nos estudos do turismo: elementos teórico-metodológicos

13 A teoria geográfica nos estudos do

turismo: elementos teórico-

metodológicos

 

Elias Júnior Câmara Gomes Sales*

Introdução

O estudo da ciência geográfica envolve uma diversidade de temas que contemplam a relação sociedade-natureza, foco dessa ciência. A proximidade com outras ciências (naturais, sociais e humanas) confere à geografia um caráter distinto na sua configuração epistemológica, ou seja, o diálogo com outras áreas do conhecimento sempre esteve presente nos debates e construções das categorias analíticas de estudo, conceitos-chave, metodologias de pesquisa, teorias e aplicações.

Desde sua fundação como ciência moderna, no início do século XIX, aproximando-se das ciências naturais com Alexander von Humboldt e Karl Ritter, passando pelas ciências sociais e humanas, nos estudos culturais, econômicos do espaço geográfico, a geografia esteve associada a outras ciências. Essa trama de questões que conjugam o espaço geográfico (categoria de análise da geografia) nos remete a procurar em outras ciências fundamentos e metodologias que auxiliem na construção epistemológica da geografia, mas ao mesmo tempo, contribuir para a construção e transformação de outras ciências que se aproximam em assuntos teóricos e práticos.

Dessa maneira, o turismo, ao estudar as formas, organização e impactos dessa atividade no contexto social, ambiental e econômico, remete à geografia algumas noções e estratégias no uso do território, utilização da paisagem, além de questões relativas às políticas públicas e privadas do turismo e o espaço.

Assim, pretende-se neste breve debate discutir algumas teorias e conceitos pertinentes à geografia, que estão sendo trabalhadas na geografia do turismo, além de discorrer acerca de temas do turismo e a aplicação dessas teorias e conceitos geográficos, destacando a interconexão dessas áreas do conhecimento e promovendo a interdisciplinaridade tão enfatizada no mundo acadêmico-científico.

 

Teorias e conceitos na geografia do turismo

Serão tratados neste trabalho algumas conceitos e teorias na geografia que servem de suporte nos estudos do turismo, definindo-os e expondo suas características e aplicações. Os conceitos de Paisagem e Território são categorias analíticas pertinentes em diversas temáticas da geografia do turismo, pois contemplam questões referentes as elementos naturais e artificializados (Paisagem), como questões que envolvem aspectos culturais, políticos, econômicos e ambientais (Território). Dessa maneira, discutir-se-ão as abordagens teóricas e práticas desses conceitos na geografia, para em seguida fazer a interconexão com o turismo, além de elencar e debater teorias que tratam do espaço geográfico e seu uso nos estudos do turismo.

A geografia caracteriza-se pelo estudo da relação sociedade – natureza ou homem-meio, sendo esse o objeto de estudo dessa ciência. A forma como essa ideia/pensamento é colocada na teoria é definida pela categoria "espaço geográfico", ou seja, a referência teórica da geografia está associada ao espaço e suas dinâmicas,

relações e processos entre a sociedade e a natureza (Esquema 1).

Esquema 1 - Objeto de estudo, categorias e conceitos geográficos

(Organizado pelo autor).

O turismo como atividade dinâmica representa um agente que interfere na construção do espaço geográfico, estando ligado com o objeto de estudo da geografia (relação sociedade–natureza), além de estar intrinsecamente conectado à categoria espaço geográfico, pois alguns elementos conceituais como a paisagem, território e lugar são usados como produtos ou atrativos para a realização da atividade turística.

A teoria geográfica concede às outras ciências uma gama de possibilidades para discutir as relações e processos que envolvem agentes e atores transformadores do espaço geográfico. Conforme aponta Rejowski (2001, p.18), o turismo apresenta múltiplas concepções temáticas, que o envolve numa trama de conhecimentos de diversas ciências: "Por ser um fenômeno de múltiplas facetas, penetra em muitos aspectos da vida humana, quer de forma direta, quer indireta. Consequentemente, tem-se desenvolvido utilizando métodos e técnicas de várias disciplinas".

Assim, o turismo representa um elo entre diversas ciências, entre essas conexões está a geografia, que tem uma história epistemológica conflitante, por estar entre as ciências naturais, humanas e sociais. Esse conflito epistemológico, que define sua base teóricometodológica, é pertinente no turismo, pois possibilita uma discussão profunda na construção do seu referencial, categorias de análises, objeto de estudo, conceitos-chave, técnicas de pesquisa entre outros fundamentos.

A geografia e o turismo caminham em perspectivas teóricas semelhantes no que se refere a alguns marcos conceituais, mas estabelecendo suas peculiaridades e objetivos distintos. Segundo Rejowski (2001, p.19), essas duas disciplinas concentram ideias e áreas em comum: "Geografia: é uma das poucas disciplinas em que o turismo tem sido reconhecido como área de interesse e, como tal, vem sendo estudado sob a denominação de geografia do turismo, geografia turística, geografia da recreação ou geografia recreacional".

Dessa forma, serão analisados alguns conceitos com base na ciência geográfica, esclarecendo sua definição e conjectura, para que, consequentemente, seja utilizado e aplicado nas pesquisas da geografia do turismo

 

Paisagem na geografia do turismo

A paisagem, um dos conceitos fundantes da ciência geográfica, foi utilizada no século XIX, inicialmente, por Alexander von Humboldt, para caracterizar os quadros naturais do espaço geográfico. Esse conceito esteve por muito tempo associado, somente, aos aspectos naturais e físicos, mas com os trabalhos de Paul Vidal de La Blache, no início do século XX, acrescentou-se o elemento cultural/humano na paisagem. A partir da metade do século XXI, o conceito de paisagem transformou-se para paisagem natural e paisagem artificial, dando caracteres aos elementos construídos e modificados pela ação antrópica.

A respeito desta última classificação de paisagem, Santos (2006, p.103), define da seguinte maneira:

A paisagem é um conjunto de formas que, num dado momento,

exprimem as heranças que representam as sucessivas relações

localizadas entre homem e natureza. [...] a paisagem é apenas

a porção da configuração territorial que é possível abarcar com

a visão [...] a paisagem se dá como um conjunto de objetos

reais-concretos.

Assim, com essa definição de paisagem na geografia, o turismo pode empreender aquilo que representa atrativos naturais ou artificiais para o desenvolvimento da atividade turística, como locus central de diversos tipos de turismo, seja o turismo rural, de aventura, litorâneo, entre outros que exploram os recursos físicos do espaço geográfico.

Dessa forma, é possível debater a necessidade da criação de conceitos operacionais para as teorias do turismo, e a paisagem (natural e artificial) representa um conceito-chave para tal construção teórica.

 

Identidade e patrimônio do conceito de território

A classificação de áreas agrupadas em territórios corresponde numa identidade própria do local, essa definição pode levar em consideração aspectos simbólicos, políticos, econômicos, culturais ou ambientais do território. Na geografia, o território é definido por esses aspectos, e sua preservação pode trazer benefícios aos grupos sociais pertencentes a esse território.

Souza (2003, p.84) define o território levando em consideração a identidade e os atributos socioculturais:

A ocupação do território é vista como algo gerador de raízes e

identidade: um grupo não pode ser mais compreendido sem o

seu território, no sentido em que a identidade sociocultural das

pessoas estaria inarredavelmente ligada aos atributos do

espaço concreto (natureza, patrimônio, "paisagem"). E mais: os

limites do território não seriam, é bem verdade, imutáveis [...]

mas cada espaço seria, enquanto território, território durante

todo o tempo, pois apenas a durabilidade poderia, é claro, ser

geradora de identidade socioespacial, identidade na verdade

não apenas com o espaço físico, concreto, mas com o território

e, por tabela, como o poder controlador desse território.

A valorização e preservação de áreas com características intrínsecas são amplamente estudadas pelo turismo. O empreendimento de territórios para a prática turística ganha, cada vez mais, força e público para essa atividade. Além de contribuir economicamente para as populações locais, pode estimular a manutenção de aspectos culturais e preservação de raízes e costumes do local.

Essa relação entre manutenção da identidade do território e prática do turismo pode levar a um ajustamento do território para o turismo, conforme lembra Cruz (2001, p.21) "Para que o turismo possa acontecer, os territórios vão se ajustando as necessidades trazidas por essa prática social. Novos objetos e novas ações; objetos antigos e novas ações: essa é a lógica da organização socioespacial promovida pela prática do turismo".

Assim como a paisagem, o território é outro conceito-chave que deve ser amplamente utilizado nas pesquisas em turismo, por tratar de questões referentes aos aspectos que enfatizam uma determinada localidade, especialmente no que tange a cultura e o patrimônio histórico.

 

A abordagem sistêmica como metodologia no

estudo da geografia do turismo

Considerando o estudo da geografia do turismo como uma abordagem interdisciplinar, enfocaremos uma metodologia que possa fazer a ligação entre teoria e prática entre duas áreas do conhecimento, analisando as bases teóricas de cada área, além de fazer a relação entre os objetos de estudo e as congruências epistemológicas. Nesse sentido, adotaremos a abordagem sistêmica como uma metodologia para o estudo da geografia do turismo.

Para que haja a interdisciplinaridade, requer-se um arranjo metodológico pertinente que possa conduzir uma pesquisa entre várias áreas do conhecimento, Rejowski (2001, p.49) discorre sobre essas questões:

O pesquisador precisa saber da existência de outros recursos

metodológicos além daqueles de sua área acadêmica

específica, os quais podem se revelar mais adequados ao

estudo do tratamento de determinado tema em turismo. Daí a

necessidade de um quadro referencial metodológico da

pesquisa em turismo, para o desenvolvimento de trabalhos

interdisciplinares.

A complementaridade entre as ciências e o turismo enriquece cada vez mais o discurso teórico-metodológico para essa área do conhecimento. Tendo em vista a conexão com outras ciências:

cada vez mais o estudo do turismo vem despertando o

interesse de várias áreas do conhecimento no meio acadêmico:

de algumas poucas disciplinas para outras das ciências

humanas e sociais; destas para disciplinas das ciências exatas

e naturais. Isto sugere que sua compreensão requer o

envolvimento de um sem-número de disciplinas. (ibidem, p.20)

Dessa forma, a abordagem sistêmica como enfoque metodológico desenvolve inúmeras relações entre o objeto de estudo das ciências e as categorias e conceitos que podem ser analisados conjuntamente.

O paradigma sistêmico na Geografia insere-se na própria

necessidade de reflexão sobre a apreensão analítica do

complexo ambiental, através da evolução e interação de seus

componentes socioeconômicos e naturais no conjunto de sua

organização espaçotemporal, sendo neste contexto que surgem

as propostas de cunho sistêmico e sua fundamentação

integrada da abordagem do objeto de estudo, e do

entendimento do todo (sistema) e de sua inerente

complexidade. (Vicente & Perez Filho, 2003, p.334-5)

No turismo, Beni (1988) desenvolveu uma metodologia com base no enfoque sistêmico, considerando as relações entre os atores e agentes que compõem o Sistema do Turismo. Esse tipo de abordagem sugere uma gama de elementos que podem ser analisados e inter-relacionados, dessa forma, sendo uma ferramenta metódica que dá sustentação as pesquisas do turismo:

Turismo constitui-se como um sistema aberto, que influencia os

locais onde se desenvolve, ao mesmo tempo que é influenciado

por elementos endógenos e exógenos a ele, sendo que as

relações e os processos decorrentes disso são, muitas vezes,

mais importantes que o fenômeno em si. (Silva, 2006, p.41-2)

No trabalho de Rejowski (2001, p.45), a autora reforça o uso da metodologia sistêmica nos estudos do turismo, para isso coloca o pensamento de Kaspar:

Visão sistêmica: emerge em função das limitações das

aproximações reducionistas e holística; segundo esta visão, a

análise do turismo como um sistema permite observar

peculiaridades do todo e, ao mesmo tempo, propriedades

específicas das partes que compõem esse todo.

Na geografia, esse pensamento metodológico remonta à década de 1960 e 1970 no Brasil, com a utilização de modelos e teorias sistêmicas, que envolvem diversos elementos que compõem a relação sociedade e natureza, objeto de estudo da ciência geográfica.

Na Geografia o uso de tal concepção é conhecido, no Brasil,

deste a década de 1970 e as contribuições da academia têm

ajudado na compreensão da questão ambiental que, inclui,

fundamentalmente, a discussão e a análise da sociedade e de

sua relação com a natureza. Ao utilizarem a teoria sistêmica, os

trabalhos produzidos com esse cunho metodológico têm

possibilitado o desenvolvimento de um paradigma de análise

particular e muito próximo dos ideais da ciência. (Silva, 2006,

p.51)

Estas breves reflexões acerca da metodologia sistêmica no turismo e na geografia servem para fundamentar e consolidar a utilização dessa abordagem no estudo da geografia do turismo. Existem outras forma metodológicas que podem servir de base nas pesquisas da geografia do turismo, como a dialética, estruturalismo, funcionalismo entre outros.

 

Complementaridade das áreas do conhecimento:

a interface entre turismo e geografia na

universidade

Visto os marcos teórico-conceituais que são complementares no estudo de geografia e turismo, a interdisciplinaridade entre as áreas também está atrelada aos grupos de pesquisa, cursos de graduação, pós-graduação e eventos científicos. A presença de disciplinas na geografia que tratam dos fenômenos do turismo e sua ligação com o espaço geográfico estão cada vez mais presentes, tanto em cursos de graduação como em de pós-graduação.

Os eventos científicos na geografia estão contando, atualmente, com um número expressivo de trabalhos relacionados com o turismo. Quatro eventos científicos da geografia, só para citar alguns, abordaram o turismo em eixos-temáticos específicos para

esta temática (Quadro 1).

Quadro 1 – Eixos ou sessões temáticas do turismo em eventos

científicos na geografia (2008 e 2009)

Evento Ano Local Número Nome do científico de eixo

eixos /

sessões

VIII Encontro 2009 Curitiba – 22 Geografia do Nacional da PR Turismo Associação

de Pesquisa

e Pós-

Graduação

em Geografia

(Anpege)

12º Encontro 2009 Montevidéu 39 Teoria e de Geógrafos – Uruguai prática dos da América fluxos Latina (Egal) turísticos e

recreativos.

XIX Encontro 2009 São Paulo 41 Atividade Nacional de – SP turística no Geografia campo Agrária brasileiro (Enga)

1º Simpósio 2008 Rio Claro – 15 Dinâmicas de Pós- SP territoriais e Graduação planejamento em Geografia – Turismo do Estado de

São Paulo

(Organizado pelo autor)

Dentre os trabalhos apresentados nos eventos científicos da geografia, a temática tratada se refere às seguintes áreas: turismo rural, turismo litorâneo, turismo urbano, turismo pedagógico e turismo cultural. A abordagem espacial focando nas relações e processos sociais é destacada nesses trabalhos, mas interligadas com a interdisciplinaridade com o turismo.

Outro aspecto que revela a complementaridade dessas duas áreas do conhecimento está nos grupos de pesquisa cadastrados no CNPq. Em 2010, segundo o Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, existem 37 grupos de pesquisa relacionados com a temática da geografia no turismo ou do turismo na geografia ou geografia do

turismo (Organograma 1).

 

Organograma 1 – Geografia do turismo nos grupos de pesquisa nas

diferentes áreas do conhecimento.

Fonte: Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq.

<http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional> (Organizado pelo autor).

Já com a denominação exata "Geografia do Turismo" existem 21 grupos de pesquisa que têm uma linha de pesquisa específica com esse tema; desses grupos, quatorze são de cursos de graduação ou pós-graduação em geografia, dois de turismo, dois de Sociologia, um de economia, um de geociências e um de arquitetura e urbanismo.

Numa pesquisa utilizando a expressão "Turismo Rural", resultaram quarenta grupos de pesquisas que trabalham com essa temática, dos quais dez grupos estão na área de geografia e dez na área de turismo, a outra metade está difusa entre antropologia, economia, planejamento urbano e regional, agronomia, engenharia agrícola, comunicação, geociências, ciência política, museologia e recursos pesqueiros e engenharia de pesca.

Essas breves consultas a eventos científicos e grupos de pesquisa revelam a forte ligação entre turismo e geografia, que vem crescendo no mundo universitário, pois a divisão entre as áreas do conhecimento repele um maior entendimento dos fenômenos humanos e naturais. O estreitamento entre as ciências reforça a base teórica de cada disciplina, complementando com os atributos teórico-metodológicos das outras ciências. Entretanto, deve ficar claro, que para que haja tal interdisciplinaridade é preciso que cada ciência tenha em evidência seus marcos teóricos, conceituais e metodológicos, para que possa auxiliar na evolução epistemológica.

 

Considerações finais

O estudo da geografia do turismo apresenta diversas formas de abordagens teórico-metodológicas que devem ser mais discutidas e aprofundadas, com intuito de fortalecer essas bases para a consolidação desse ramo interdisciplinar. A utilização dos conceitos Paisagem e Território são apenas algumas categorias que estão sendo trabalhadas na geografia do turismo; entretanto, outras concepções teóricas que são pesquisadas devem resultar em trabalhos práticos e teóricos, a fim de vislumbrar um rol de teorias e conceitos que auxiliem nos trabalhos empíricos.

A utilização da metodologia sistêmica no estudo do turismo está se consolidando, cada vez mais, e, por isso, elencar os elementos e variáveis que devem ser pesquisadas na geografia do turismo é pertinente para que o turismo consolide métodos de pesquisa, aliados a teorias e conceitos. Essas premissas são fundamentais para que qualquer ciência possa aliar o abstrato ao empírico (concreto).

Referências

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<http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional>. Acesso em: 15 maio 2010.

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* Mestrando em Geografia e membro do Núcleo de Estudos Agrários da Unesp – Rio Claro (SP). Bolsista CNPq.

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