História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

Paulo R. Teixeira de Godoy · Capítulo 11 de 14

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História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

10 Discutindo categorias e conceitos: uma contribuição geográfica dentro das análises da relação rural-urbano

10 Discutindo categorias e conceitos:

uma contribuição geográfica dentro

das análises da relação rural-urbano

 

Adriano Corrêa Maia * ** ; Darlene Aparecida de Oliveira Ferreira

Introdução

O texto em tela contém dois objetivos, o primeiro consiste na busca de um entendimento sobre as categorias em que estão baseados os fundamentos teórico-metodológicos da ciência geográfica. O segundo é a construção de uma proposição metodológica que permita uma categorização geográfica para se pensar a relação entre o rural e o urbano a partir de uma teoria espacial.

Assim, para o desenvolvimento do argumento principal, o entendimento das categorias dentro do arcabouço teórico-metodológico da geografia e sua aplicação no entendimento geográfico da relação entre o rural e o urbano, vamos posicionar o debate sobre categorias dentro da teoria do conhecimento. Após, discutiremos como as categorias vão ser absorvidas dentro de algumas matrizes geradores do pensamento geográfico (Santos, 1978, 1985; Moreira, 2007, Suertegaray, 2001).

A partir desses desenvolvimentos, pretendemos nos lançar na tentativa de construção de um caminho metodológico que permita uma leitura objetiva da relação rural-urbano por meio de categorias geográficas.

 

Categorias e a teoria do conhecimento Dentro do desenvolvimento que objetivamos realizar, a primeira delimitação a ser colocada é sobre o significado de conhecimento. Segundo o dicionário de filosofia Lalande (1999, p.172), conhecimento significa a "função ou ato psíquico que tem por efeito tornar um objeto presente aos sentidos ou à inteligência", isto é

trazer para o sujeito algo que se põe como objeto, não toda a

realidade em si mesmo, mas a sua representação ou imagem,

tal como o sujeito a constrói, e na medida das "formas de

apreensão" do sujeito correspondente as peculiaridades

objetivas. (Reale, 1962, p.48)

A partir dessa definição, temos a existência de vários tipos de conhecimentos: o senso comum, o conhecimento religioso, o conhecimento filosófico e o conhecimento científico. O conhecimento científico se diferencia dos demais níveis de conhecimento por uma série de razões, dentre as quais, a principal corresponde à necessidade de uma ordenação em suas proposições.

Esse ordenamento se dá a partir da relação (de predicação) do pensamento humano com os objetos, por meio da definição de conceitos básicos gerais. Esses conceitos correspondem ao que chamamos de categorias.

Fixemos, então, que as categorias são modos de ser, dados na

experiência inevitável das coisas. Elas são impensáveis vazias,

porque jamais tivemos a experiência de modo de ser das coisas

fora das coisas, sem as coisas, e não podemos pensar sem os

materiais da experiência, não pensamos quantidade vazia, não

pensamos qualidade, relação, senão nas coisas. Não há modo

de ser sem o ser. (Campos, 1959, p.27)

Na filosofia, a teoria geral do conhecimento investiga a relação do nosso pensamento com os objetos em geral. Dentro dela, a teoria especial do conhecimento fica encarregada com a parte referente aos conteúdos do pensamento em que a relação entre o pensamento e os objetos encontra a sua expressão mais elementar, isto é, investiga os conceitos básicos mais gerais, por meio dos quais procuramos definir os objetos. Desse modo, a teoria especial do conhecimento é, por conseguinte, essencialmente, uma teoria das categorias:

A teoria das categorias, observa Volkelt, está em relação

estreita com a metafísica; uma e outra investigam os mesmos

conceitos, mas a maneira de pôr o problema é essencialmente

diferente em ambas as ciências. A teoria das categorias fixa a

sua atenção na origem lógica destas formas do pensamento;

investiga como brotam estes conceitos das leis essenciais do

pensamento em concorrência com o caráter do que é dado

empiricamente. Deste modo, fica assente que a teoria das

categorias realiza esta investigação exclusivamente do ponto

de vista da validade. A discussão da origem lógica das

categorias é por sua vez uma explicação do caráter da sua

validade. (Hessen, 1987, p.162)

Dentro da teoria das categorias, temos claramente delineado que a concepção adotada é determinada pela posição epistemológica a qual se adota, sendo essa posição definidora da maneira de adjetivar do sujeito, de demarcar as categorias.

Assim, temos que, se o conhecimento humano for, como coloca Aristóteles, uma reprodução dos objetos, se esses têm uma forma e uma natureza próprias, então, os conceitos fundamentais do conhecimento, as categorias, representam propriedades gerais dos objetos, qualidades objetivas do ser. Por sua vez, se o pensamento produz os objetos, como apresentado por Kant, as categorias são puras determinações do pensamento, formas e funções a priori da consciência.

Essas duas concepções da essência das categorias são os pilares fundadores do conhecimento científico, e se encontram em contraposição constante: sendo as categorias as formas do ser, propriedades dos objetos; ou formas e determinações do pensamento. A primeira é a concepção realista e objetivista de conhecimento científico; a segunda é o entendimento do

conhecimento científico como idealista e apriorista (ver Quadro 1).

Quadro 1 – Categorias segundo a filosofia

 

Categorias como: Categorias como:

Propriedades gerais do Forma e funções a

objeto priori da

Formas do ser consciência

Empirismo Racionalismo

Realista Idealista

Objetivista Apriorista Aristóteles Kant

Organização: Adriano Corrêa Maia.

Assim, sendo a geografia uma disciplina do conhecimento científico, temos dentro dela a existência de uma ordenação em suas preposições, isto é, a determinação de categorias que relacionem o objeto geográfico e o pensamento humano. Portanto, a geografia, como um ramo do conhecimento científico, tem que determinar e definir as suas categorias principais, as categorias geográficas. E essas sempre deverão estar balizadas com a teoria do conhecimento e suas definições.

 

Categorias em geografia (caminhos

metodológicos)

Desde a sua sistematização como um campo do conhecimento científico, a geografia se posicionou na intersecção das ciências exatas e humanas. Como resultado, o pensamento geográfico apresentou desde seu princípio uma forte complexidade quanto à sua definição conceitual e metodológica; além de encontrar a dificuldade de assegurar um objeto de estudo próprio, uma vez que esse reunia uma série de objetos comuns à outras ciências.

A partir disso, a geografia passou a adotar como característica teórica/metodológica toda essa complexidade, na medida em que propôs ser uma ciência-ponte ("ciência de síntese") entre os aspectos da natureza e os aspectos da sociedade, ou entre as ciências naturais e as ciências humanas. Desse modo, a episteme geográfica se consolidou como uma disciplina ou ciência (?) cujo objeto de estudo é a relação entre o homem e o meio, concentrando-se no estudo do espaço geográfico.

Partimos então da seguinte consideração: a Geografia como

área de conhecimento sempre expressou (desde sua

autonomia) sua preocupação com a busca da compreensão da

relação do homem com o meio (entendido como entorno

natural). Neste sentido ela se diferenciou e se contrapôs as

demais ciências, que por força de seus objetos e das

classificações, foram individualizadas em Ciências Naturais e

Sociais. Este paradoxo acompanha a Geografia, ainda que hoje

possa ser seu privilégio. Constitui um paradoxo, porque, na

medida em que na Modernidade se expandiu a racionalidade e

se constituiu a ciência moderna, o caminho foi a disjunção, a

separação, a compartimentação do conhecimento; a divisão

entre as ciências naturais e as ciências sociais. (Suertegaray,

2001)

Consequentemente, o desenvolvimento das questões relativas à atribuição de categorias em geografia sempre partiu desse pressuposto:

Objeto de estudo – Relação homem x meio

Categoria principal – Espaço geográfico

Mesmo, portanto, com toda a complexidade teórico-metodológica, a consolidação da geografia como uma disciplina científica exigiu a construção de um sistema de categorias e conceitos particulares, com o objetivo de formular um conhecimento prévio de parcela da realidade.

Repetimos que o ato de definir, claramente, o objeto de uma

ciência é tambem o ato de construir-lhe um sistema próprio de

identificação das categorias analíticas que reproduzem, no

âmbito da ideia, a totalidade dos processos, tal como eles se

produzem na realidade. [...] A construção de um sistema interior

a cada ciência particular só pode ser feita se as categorias da

análise são ajustadas às categorias do real. É o chegar a uma

síntese e ninguém ignora que sem síntese não há ciência.

(Santos, 1978, p.119)

A busca desse nível de teorização dentro do conhecimento geográfico foi possível mediante um esforço de abstração de alguns de seus pensadores, empenho no qual só foi possivel chegar por meio da atribuição de categorias que definem a realidade que se queira abstrair.

Sintetizando a discussão até o momento, temos que para a concessão de categorias em geografia, o objetivo da disciplina é discutir a relação homem/meio por meio do espaço geográfico, consequentemente, o espaço torna-se a categoria central da disciplina, um conceito que expressa a articulação entre natureza e sociedade, o objetivo da disciplina.

Em nosso caso particular isto supõe o reconhecimento de um

objeto próprio ao estudo geográfico, mas isso não basta. A

identificação do objeto será de pouca significação se não

formos capazes de definir-lhe as categorias fundamentais. Sem

nenhuma dúvida, as categorias sob um ângulo puramente

nominal mudam de significação com a história, mas elas

também constituem uma base permanente e, por isso mesmo,

um guia permanente para a teorização. Se queremos alcançar

bons resultados nesse exercício indispensável devemos

centralizar nossas preocupações em torno da categoria –

espaço – tal qual ele se apresenta, como um produto histórico.

São os fatos referentes à gênese, ao funcionamento e à

evolução do espaço que nos interessam em primeiro lugar.

(Santos, 1978, p.116-17)

Definindo o espaço como a categoria principal da geografia, temos a necessidade, para o desenvolvimento de uma análise geográfica, de capturar/apreender a relação dessa categoria com a realidade. Isso se dá por meio das categorias analíticas.

Desse modo, temos que para uma "interpretação" do espaço geográfico – a sua gênese, o seu funcionamento e a sua evolução – necessitamos inicialmente conceitualizá-lo, para após delimitarmos as suas categorias analíticas. Sem esse procedimento estaríamos impossibilitados de desmembrar o todo mediante um processo de análise, para reconstruí-lo depois por meio de um processo de síntese. Consequentemente, toda a análise feita dentro da disciplina geográfica parte de uma formulação do conceito de espaço geográfico, uma vez que é a categoria principal e definidora do campo de atuação da área particular da ciência. A importância desse fato é destacada por Harvey (2006, p.129) quando afirma que "naturalmente a própria consideração do espaço e espaço-tempo tem crucial efeito sobre as teorias e entendimentos que particularmente se desenvolvem".

Então, a partir da categoria espaço geográfico e sua definição conceitual, a episteme geográfica vai buscar um arcabouço de categorias operacionais, pois, por meio delas, irão ser realizadas as "leituras" da relação entre o homem e o meio. As categorias analíticas (operacionais) serão as perspectivas balizadoras da geografia.

No desenvolvimento da historia do pensamento, o espaço geográfico encontrou varias definições (Corrêa, 1995), resultando na utilização de várias categorias analíticas. Temos, então, uma conceitualização do espaço geográfico sob diferentes ópticas e, decorrente disso, vários exemplos de categorias analíticas utilizadas

para a sua apreensão: a paisagem, o território e o lugar. 1 Consequentemente, cada conjunção hierárquica (níveis ou camadas) desses conceitos analíticos com a categoria espaço pode expressar uma possibilidade de leitura do espaço geográfico. A partir disso, temos vários caminhos metodológicos dentro do pensamento geográfico, todos objetivando desenvolvimentos metodológicos que busquem capturar a relação do espaço com a sociedade, a relação homem e meio por intermédio do espaço geográfico.

Como exemplo, encontramos o caminho metodológico traçado por Moreira (2007, p.108), que a partir de sua concepção da ciência geográfica traça sua via metodológica pela consideração inicial de "que a ciência é uma forma de representação que vê e organiza o mundo através do conceito, restringindo a relação entre a imagem e a fala a esse nível de representação", e considera a geografia uma forma particular de ciência que tira sua especificidade de relacionar imagem e fala por meio da categoria paisagem.

Continuando, o autor coloca que essa especificidade vem do fato da produção da sua forma de representação de mundo – a geografia concebe o mundo como espaço. Essas duas categorias necessitam para isso mobilizar a categoria operatória intermediaria do território. Então, a paisagem, o território e o espaço formam a tríade das categorias da representação e construção da ideia de mundo da geografia. Moreira (2007) também ressalta que o deslocamento

entre estas categorias é realizado pelos princípios lógicos2 da geografia, que são indicados: localização, distribuição, extensão, distância, posição e escala.

Paisagem, território e espaço – com o primado no espaço – são

assim as categorias da geografia. Analisar espacialmente o

fenômeno implica antes descrevê-lo na paisagem e a seguir

analisá-lo em termos de território, a fim compreender-se o

mundo como espaço. [...] Mas são os princípios lógicos a base

dessa base. São eles que criam o espaço, por estarem

presentes também nele, convertem a paisagem em território e o

território em espaço. (ibidem, p.116-17)

Já o desenvolvimento dado por Santos (1978, 1985, 1986) parte da concepção de que o espaço constitui uma realidade objetiva, um produto social em permanente processo de transformação. Com isso, o espaço impõe a sua própria realidade; por isso a sociedade não pode operar fora dele. Sendo assim, para estudar o espaço, é necessário apreender a sua relação com a sociedade, pois é essa que expressa a compreensão dos efeitos dos processos (tempo e mudança). Para isso, Santos (1985) especifica as noções de forma, função e estrutura como elementos fundamentais para a compreensão da produção do espaço; assim, coloca que as categorias analíticas representarão o verdadeiro movimento da totalidade, o que permitirá fragmentá-la para em seguida reconstruí-la. Em outras palavras, as categorias analíticas apropriadas dão a possibilidade de capturar a marca da sociedade sobre a natureza e as relações existentes antes, durante e depois dessa metamorfose. Essas categorias, no desenvolvimento de Santos (1985, p.71), são estrutura, processo, função e forma, que definem o espaço em relação à sociedade. Assim,

forma, função, estrutura e processo são quatro termos

disjuntivos, mas associados, a empregar segundo um contexto

do mundo de todo dia. Tomados individualmente, representam

apenas realidades parciais, limitadas, do mundo. Considerando

em conjunto, porém, e relacionados entre si, eles constroem

uma base teórica e metodológica a partir da qual podemos

discutir os fenômenos espaciais em totalidade.

Também temos, dentro do pensamento geográfico brasileiro, o desenvolvimento dado por Suertegaray (2001) que, pensando a geografia como uma representação que perpassa a interface e a transfiguração da realidade, considera o espaço geográfico um todo uno e múltiplo, aberto a múltiplas conexões que se expressam por meio de diferentes categorias analíticas da geografia, como os

conceitos de paisagem, território, lugar e meio.3

Suertegaray (2001) aponta que essas categorias analíticas representam possibilidades para diferentes leituras do espaço, e a totalidade estaria numa interpolação entre todas as leituras. Para retratar a ideia, coloca o espaço geográfico como um círculo, no qual as categorias analíticas são setorizadas em quatro partes

(Figura 1), cada parte representando uma visão analítica privilegiada por um ou outro geógrafo.

 

Figura 1 – Categorias operacionais do espaço na visão de

Suertegaray (2001).

O espaço geográfico é representado pelo movimento do círculo, no qual seu giro expressa a ideia de um espaço geográfico com um todo uno, múltiplo e complexo. Essa representação é elaborada no sentido de expressar a concepção de que:

o espaço geográfico pode ser lido através do conceito de

paisagem e ou território, e ou lugar, e ou ambiente; sem

desconhecermos que cada uma dessas dimensões está contida

em todas as demais. Paisagens contêm territórios que contêm

lugares que contêm ambientes valendo, para cada um, todas as

conexões possíveis. (Suertegaray, 2001)

Suertegaray (2001) acredita que essa concepção teórica metodológica abre possibilidades analíticas para a geografia, que possibilita uma frutífera articulação com as conexões derivadas da fronteira tênue entre cada um desses conceitos.

A partir dos debates e desenvolvimentos dos caminhos metodológicos apresentados, observamos que o busca de categorias metodológicas é de extrema importância para um trabalho de análise dentro da ciência geográfica. Decorrente em nossas pesquisas de caráter geográfico, verifica-se a necessidade de definição das categorias e os caminhos metodológicos que estruturam nossa base teóricometodológica. Essas definições devem ser pautadas por alguns pontos-chave, que propiciam uma análise realmente geográfica dos nossos objetos de estudo. Esses pontos, em nosso entendimento, são:

1) a definição de que a geografia se caracteriza como tendo por

objeto de estudo as relações entre o homem e o meio

(natureza), se concentrando assim no estudo do espaço

geográfico, a categoria principal da ciência geográfica;

2) a definição conceitual de espaço geográfico (categoria

principal) é de vital importância para o desenvolvimento das

categorias operacionais;

3) as categorias operacionais são as categorias que

assumiremos para "captura" desse espaço;

4) a definição de um apropriado caminho metodológico que faz

a transposição entre a categoria de espaço (categoria principal)

e as categorias analíticas (operatórias);

5) a definição das categorias auxiliares.4

 

Determinação relacional de categorias – uma

proposta de caminho

epistemológicometodológico

Após a discussão sobre as categorias dentro da geografia, vamos propor um caminho metodológico que permita uma aproximação da realidade, quando objetivamos fazer uma análise geográfica da relação urbano-rural no espaço urbano.

Partimos da seguinte proposição: para fazermos uma análise geográfica da relação rural-urbano temos que investigar como se dá a relação homem-meio no espaço geográfico. Como o espaço geográfico é uma categoria que expressa a articulação da natureza com a sociedade, e é a categoria máxima da geografia, temos que capturá-la, em sua unicidade de objeto e na sua multiplicidade de elementos caracterizadores.

Para a construção do nosso caminho metodológico existe a necessidade de encaminharmos a definição de alguns pontos:

1) qual a definição de espaço que tomaremos;

2) quais categorias operatórias assumiremos para a "captura"

desse espaço;

3) qual caminho metodológico que faz a transposição entre a

categoria de espaço e as categorias operatórias;

4) qual a definição das subcategorias como rural e urbano.

 

A definição de espaço

Para a definição de espaço geográfico, partiremos da concepção proposta por Harvey (1980, 2006). Em Justiça social e a cidade, Harvey (1980) argumenta que é de essencial importância refletir sobre a natureza do espaço, uma vez que, somente a partir dessas reflexões bem consolidadas, é que poderemos ter ferramentas para um possível entendimento dos processos espaciais.

Assim, Harvey (1973, p.3-4) define uma divisão tripartida para o modo de entendimento do conceito de espaço:

Se tomarmos o espaço como absoluto ele se torna uma "coisa

em si mesma" com uma existência independente da matéria.

Ele possui então uma estrutura que podemos utilizar para

clarificar ou para individualizar fenômenos. A característica de

um espaço relativo propõe que ele deve ser entendido como

uma relação entre objetos, a qual existe somente porque os

objetos existem e se relacionam. Há outra acepção segundo a

qual o espaço pode ser tomado como relativo, e proponho

chamá-lo espaço relacional – espaço tomado, à maneira de

Leibniz, como estando contido em objetos, no sentido de que

um objeto existe somente na medida em que contém e

representa dentro de si próprio as relações com outros objetos.

O entendimento do espaço-tempo de Harvey compreende os espaços absoluto, relativo e relacional. Com essa divisão tripartida do espaço, propõe que o método de aproximação espaço-tempo mais profícuo é uma questão resolvida por meio do contexto empírico no qual queremos relacionar. Portanto, a essência do conceito de espaço está na relação dialética entre os termos. Como exemplo, analisa a Basílica de Sacre Coeur em Paris (Harvey, 1979), onde "era impossível somente um entendimento político-econômico de origem sobre a temática sem levar em conta outras relações perspectivas" (Harvey, 2006, p.125).

Desse modo, a aproximação espacial colocada por Harvey não possui uma resposta ontológica para a sua questão, e que em seu conceito de espaço geográfico os três espaços estão presentes.

espaço é nem absoluto, relativo ou relacional nele mesmo, mas

ele pode torna-se um ou todos simultaneamente dependendo

das circunstâncias. O problema de propor uma conceitualização

do espaço esta resolvida dentro da prática humana com

respeito a ele. Em outras palavras, não há perguntas filosóficas

para questões filosóficas levantadas sobre a natureza do

espaço – a resposta está na prática humana. A questão "o que

é espaço?" é consequententente substituída pela questão

"como é que diferentes práticas humanas criam e fazem uso de

diferentes conceitualizações do espaço?". A relação de

propriedade, por exemplo, cria espaços absolutos dentro dos

quais o controle monopolítico pode operar. O movimento de

pessoas, bens, serviços e informações ocorrem no espaço

relativo, porque eles pegam dinheiro, tempo, energia e similares

para superar a fricção da distância. Parcelas de terra também

capturam benefícios porque contêm relações com outras

parcelas ... na forma de aluguel o espaço relacional torna-se,

dentro dele mesmo, um importante aspecto de prática social

humana. (Harvey, 1980, p.4-5)

Temos, portanto, que a opção de utilização de uma ou outra concepção de espaço está subordinada à natureza do fenômeno investigado, sendo que o elemento principal está na consideração de que os três espaços permaneçam em uma constante tensão dialética

Essa conceituação de espaço geográfico permite um salto sobre a liminaridade da espacialidade, uma vez que estamos de modo inexorável situados dentro das três estruturas simultaneamente.

Nas análises da relação urbano-rural, temos que a visão relacional de espaço constitui-se uma ferramenta de análise importante, e proporciona alternativas analíticas para o modo tradicional e positivista de geografia, que limitou a visão espacial da relação, uma vez que se concentrou exclusivamente sobre o espaço absoluto e relativo e sobre o aspecto material e conceitual do espaço-tempo (evitando o vivido e o relacional).

 

As categorias de "captura" do espaço

De todas as categorias analíticas empregadas na geografia, temos que para o nosso desenvolvimento teórico-metodológico sobre a análise da relação rural-urbano o conceito de lugar seria o mais apropriado.

A utilização do conceito se dá em razão do caráter relacional e social (Harvey, 1996), que possibilitam a captura das novas dinâmicas geradas na interseção entre o rural e o urbano. Desse modo, podemos compreender o rural e o urbano e suas interseções tanto como localizações (espaço absoluto), quanto como configurações de "permanências" relativas internamente heterogêneas (espaço relativo), dialética contida na dinâmica geral de espaço-tempo de processos socioecológicos (espaço relacional), ou seja, processos específicos contidos e expressos dentro do processo global.

Consequentemente, essa conceituação de lugar permite analisar as dinâmicas da relação rural e urbano em sua inter-relação, uma vez que considera o espaço geográfico não somente por seu ambiente físico (espaço absoluto), mas também pelas diferentes respostas humanas (espaço relativo e relacional) às oportunidades e limitações apresentadas pelos ambientes.

Assim, a conceituação de lugar proposta irá abordar as questões em termos da relação entre processos gerais e questões particulares (Massey, 1984, 2008). A ideia de lugares com limites fechados e identidades únicas, construídas por meio de relações profundas e históricas, que permitia a análise do rural e o urbano como "elementos" físicos e sociais "estáticos", não se adapta a essa conceituação. Aqui, o lugar não possui um sentido único compartilhado por todos, do mesmo modo que as pessoas não possuem uma identidade única, mas a identidade dos lugares vai ser explicada no plural, pois os lugares vão possuir diversas identidades e vão estar repletos de relações com o meio, o mundo; é nesse sentido que vamos ter um sentido global de lugar (Massey, 1994).

Desse modo, "o que dá ao lugar sua especificidade não é algum tipo de história longamente internalizada, mas o fato de que ele é construído a partir de uma constelação particular de relações sociais que se encontram e se enlaçam num lócus particular" (Massey, 1994, p.322). Lugares serão, portanto, pontos de encontro de redes de relações sociais, movimentos e comunicações cujas relações recíprocas tenham sido construídas em escala muito maior do que aquelas definidas para o lugar naquele momento. Essas relações com o sistema amplo não são apenas ritualísticas, mas relações reais com conteúdos econômicos, políticos e culturais reais.

Assim, pela relação do conceito de espaço (como uma trialética dos espaços absoluto, relativo e relacional) com o lugar, pretendemos buscar a compreensão profunda e multifacetada da expressão espacial da relação rural/urbano. Portanto, para compreender o lugar temos que buscar o entendimento de como o rural e o urbano dialeticamente constroem esse espaço, por meio de elementos políticos, econômicos, culturais e vivências expressas localmente, mas nunca deixando de lado as relações estruturais globais na qual o rural e o urbano também estão inseridos.

 

O caminho metodológico que nos leva do espaço

geográfico as categoriais analíticas

Diferentemente do caminho lógico-metodológico, 5 utilizado correntemente nos desenvolvimentos epistemológicos dentro da ciência geográfica, vamos relacionar o espaço geográfico – definido pela matriz espacial de Harvey – com a categoria analítica de lugar por um caminho epistemológico-metodológico (Silva, 1986).

Fundamentado em nosso objetivo principal – a apreensão do entendimento da essência do espaço – partimos (e chegamos) na seguinte proposição "a forma espacial é a expressão do lugar, que é a riqueza real, assim como a população que o habita e trabalha" (Silva, 1986, p.95). Consequentemente, "caberia à Geografia descrever e explicar esse espaço, pois é de espaço que se trata, mostrando que a forma espacial é apenas a manifestação visível (ou não) do espaço – superfície da terra – a paisagem percebida. Ora, trata-se de compreendê-la" (ibidem).

Assim, pela matriz espacial de Harvey temos a possibilidade de apreensão da unidade do objeto. Vejamos como perpassamos o caminho epistemológico-metodológico:

"há um espaço absoluto, abstrato. Podemos propô-lo concreto, relacionado à materialidade do mundo", esse espaço é o lugar; há um espaço relativo que se refere a uma relação entre objetos, "que existe somente porque os objetos existem e se relacionam". Do primeiro pressuposto, decorre que as relações são também materiais porque os objetos o são, o lugar;

há um espaço relacional, "à maneira de Leibniz", que se refere aos objetos, sendo contidos por estes: "um objeto existe somente na medida em que contém e representa dentro de si as relações com outros objetos", desse modo, o espaço relacional é também material, como consequência dos pressupostos anteriores, o lugar.

Resultante desse caminho, temos que os lugares e as relações de que trata a geografia são sempre materiais e se expressam em uma forma espacial que é o espaço concreto e "Esse espaço concreto é em parte empírico" (Silva, 1986, p.95-6).

 

A definição das categorias auxiliares como rural

e urbano

Resultante de reflexões anteriores sobre a relação rural-urbano (Maia, 2009a, 2009b), temos definido alguns parâmetros, que serão balizadores para as análises sobre o espaço dentro dessa relação.

O mais importante é a separação entre rural-urbano e campocidade com as seguintes definições e distinções: campo e cidade como formas concretas, materializadas e compostas de paisagens produzidas pelo homem; urbano e rural como representações sociais, conteúdos das práticas de cada sujeito, cada instituição, cada agente na sociedade. Assim, abandonaremos o vínculo direto entre espaço-forma e rural, ou espaço-forma e urbano. Com isso, tais categorias serão desvinculadas entre si, adquirindo o conteúdo analítico desejado dentro do nosso estudo.

Biazzo (2007) também mostra esse caminho quando propõe a distinção do rural e urbano do seu conteúdo concreto e passa a tratá-los por meio das ruralidades e das urbanidades. Com isso, urbanidades e ruralidades se combinam em cada recorte do espaço geográfico, mais do que isso, se combinam nos atos e na visão de mundo de cada individuo, são atributos, não substantivos.

Conforme analisado em estudo prévio, em ambos os espaços

se manifestam identidades sociais que configuram ruralidades e

urbanidades. Em paisagens do campo e das cidades (formas,

con-juntos de objetos) existem urbanidades e ruralidades

(conteúdos-heranças, origens, hábitos, relações, conjuntos de

ações) que se combinam, gerando novas territorialidades,

admitindo-se que cada local ou região pode abrigar diferentes

territorialidades superpostas, relativas a diferentes agentes

sociais. Para reforçar essa busca por uma nova visão, sustenta-

se que não há espaços rurais ou espaços urbanos. Há

urbanidades e ruralidades que, combinadas, ensejam as

territorialidades particulares de cada localidade, município ou

recorte regional. Trata-se de não encarar rural e urbano como

substantivos, pois desta forma nada especificam e seu

significado se esvazia. (Biazzo, 2007, p.19)

Assim, temos a definição de rural e urbano como categorias sociológicas, que expressam comportamentos socioculturais, sendo

assim categorias auxiliares 6 que vão interagir com as categorias geográficas, formando a base teórica das análises.

Dessa maneira, temos numa análise geográfica da relação ruralurbano que a categoria principal é o espaço geográfico, a categoria operatória sendo o lugar e rural e urbano tendo a função

de "categorias auxiliares" (conforme Quadro 2), mas sempre lembrando que para utilizá-las juntamente com as categorias geográficas e operatórias teremos que fazer uma integração entre a imaginação geográfica e a imaginação sociológica (como proposta por Harvey no capitulo II de Justiça social e a cidade).

Quadro 2 – Proposta de categorias para uma análise geográfica da

relação ruralurbano

Categoria principal Espaço geográfico Categoria operatória Lugar Categorias "auxiliares" Rural Urbano

Organização: Adriano Corrêa Maia.

Em consequência desse desenvolvimento, podemos analisar as interações entre o rural e o urbano em um mesmo espaço, uma vez que sendo constructos socioculturais vão estar mutuamente presentes, interagindo e disputando a hegemonia do lugar. Assim, as análises que relacionam elementos do rural e do urbano não podem ser realizadas com a negligência de suas intenções dialéticas, pois as dinâmicas dessas construções refletem e condicionam o espaço.

 

Considerações finais

Apresentamos a discussão das categorias na ciência geográfica com o objetivo de propor um caminho teórico-metodológico que procure mostrar como a relação rural-urbano pode ser considerada a partir de um referencial relacional na análise do espaço, com isso possibilitando o encontro de "novos" elementos embasadores para a construção teórica da relação do rural com o urbano.

Considerando o lugar constituído pelos espaços absoluto, relativo e relacional em sua expressão trialética, temos que conformase uma expressão única, composta pelo "encontro de trajetórias" (Massey, 2008), com vários elementos político-sociais, sendo assim, um elemento híbrido em disputa pelo seu domínio (Rose, 1994), no qual o rural e o urbano estariam na sua base.

Pela relação do conceito de espaço (como uma trialética dos espaços absoluto, relativo e relacional) com o lugar, temos a compreensão profunda e multifacetada da expressão espacial da relação rural/urbano. Portanto, para compreender o lugar, temos que buscar o entendimento de como o rural e o urbano dialeticamente constroem esse espaço, mediante elementos políticos, econômicos, culturais e vivências expressas localmente, mas nunca deixando de lado as relações estruturais globais na qual o rural e o urbano também estão inseridos.

Com um desenvolvimento teórico, a partir da matriz espacial, proposta por David Harvey, que qualifica relacionalmente a construção do lugar, mostramos que os conceitos de rural e o urbano estão presentes e são estruturadores do espaço, de uma maneira trialética construindo de forma perspectiva o lugar. Assim, podemos falar de uma perspectivação, para indicar que todo o desenvolvimento dado durante o texto tem a intenção de possibilitar um "outro" modo de análise da relação rural-urbano no espaço geográfico, de forma que seja sobre uma óptica perspectiva do espaço, isto em razão de a conceituação de espaço colocada sempre ser pautada por um modo relacional e contextual; assim sendo, o contexto, tan-to empírico como abstrato, do conceito de espaço é o determinador de sua "realidade", e consequentemente perspectivador do lugar.

Para finalizar, queremos deixar claro que esse desenvolvimento teórico-metodológico reflete um primeiro momento de reflexão sobre a temática da relação rural e urbano no espaço geográfico. Sendo assim, o próximo passo é a avaliação empírica de toda esta explanação.

 

Referências

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* Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia, Unesp – Rio Claro (SP).

** Professora doutora assistente do Departamento de Geografia, no Programa de Pós-Graduação em Geografia, Unesp – Rio Claro (SP).

1 Também podemos citar área, ambiente, entre outros.

2 Princípio Lógico – "Proposição posta no início de uma dedução, não sendo deduzida de nenhuma outra no sistema considerado e, por conseguinte, colocada até nova ordem fora da discussão. [...] Mas geralmente, chamam-se princípios de uma ciência ao conjunto de proposições diretivas, características, às quais todo o desenvolvimento ulterior deve ser subordinado. Princípio, neste sentido, e principal evocam sobretudo a ideia do que é primeiro em importância e, na ordem do assentimento, do que é ‘fundamental’" (Lalande, 1999, p.861).

3 Paisagem – "paisagem como um conceito operacional, ou seja, um conceito que nos permite analisar o espaço geográfico sob uma dimensão, qual seja o da conjunção de elementos naturais e tecnificados, socioeconômicos e culturais. Ao optarmos pela análise geográfica a partir do conceito de paisagem, poderemos concebê-la enquanto forma (formação) e funcionalidade (organização). Não necessariamente entendendo forma–funcionalidade como uma relação de causa e efeito, mas percebendo-a como um processo de constituição e reconstituição de formas na sua conjugação com a dinâmica social. Neste sentido, a paisagem pode ser analisada como a materialização das condições sociais de existência diacrônica e sincronicamente. Nela poderão persistir elementos naturais, embora já transfigurados (ou natureza artificializada). O conceito de paisagem privilegia a coexistência de objetos e ações sociais na sua face econômica e cultural manifesta" (Suertegaray, 2001). Território – "o conceito de Território, tratamos o espaço geográfico a partir de uma concepção que privilegia o político ou a dominação-apropriação. Historicamente, o território na Geografia foi pensado, definido e delimitado a partir de relações de poder. Observa-se que, historicamente, a concepção de território associa-se a ideia de natureza e sociedade configuradas por um limite de extensão do poder.Para este autor, ‘territórios são no fundo relações sociais projetadas no espaço’. Por consequência, estes espaços concretos podem formar-se ou dissolver-se de modo muito rápido, podendo ter existência regular, porém periódica, podendo o substrato material permanecer o mesmo" (Suertegaray, 2001).

Lugar – o conceito de "Lugar constitui a dimensão da existência que se manifesta através ‘de um cotidiano compartidoentre as mais diversas pessoas, fir-mas, instituições–cooperação e conflito são a base da vida em comum’ (Santos, 1997). O conceito de lugar induz a análise geográfica a uma outra dimensão – a da existência – ‘pois refere-se a um tratamento geográfico do mundo vivido’ (Santos, 1997). Este tratamento vem assumindo diferentes dimensões.Mas o lugar pode também ser trabalhado na perspectiva de um mundo vivido, que leve em conta outras dimensões do espaço geográfico, conforme se refere Santos (1997), quais sejam os objetos, as ações, a técnica, o tempo" (Suertegaray, 2001).

4 Chamamos de categorias auxiliares as categorias que não são geográficas.

5 O caminho lógico-metodológico corresponde em estruturar as categorias, de forma lógica, com os níveis de entendimento do pensamento humano, como o universal, o singular e o particular.

6 Categorias auxiliares denominamos as categorias não geográficas e que auxiliam nas análises das categorias geográficas.