História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia
Parte II
5 Dos modelos à explicação: a Nova
Geografia em David Harvey
Danilo Piccoli Neto*
Introdução
A obra Explanation in Geography de David Harvey (1969) figura entre os marcos da Nova Geografia e de todo o pensamento geográfico, pela sua densidade de conteúdos e formas explicativas na busca de uma sistematização teórica e metodológica do conhecimento e da explicação científica em geografia. Objetiva-se com o presente texto elencar algumas das principais contribuições que esse trabalho propiciou para o movimento de renovação da geografia e para o corpus teórico/metodológico da disciplina.
Buscam-se também correlações com o momento histórico da geografia na época de redação da obra, especialmente no contexto anglo-americano, colocando os elementos históricos mais destacados que remontam à constituição e gênese da chamada Nova Geografia, e posteriormente, a postura ideológica e concepção de ciência possíveis de serem traçadas em David Harvey nesse período. Alguns pontos iniciais da trajetória de David Harvey são retomados, como os tempos de universidade e os escritos que antecedem a publicação de Explanation, dentre eles, o capítulo no livro de Chorley & Haggett (1967), Models in Geography, que projeta o jovem professor.
O momento é singular ante os quarenta anos completados pela obra Explanation in Geography em 2009, leitura altamente indicada em geografia teorética, História do Pensamento Geográfico, e para a retomada de novos debates acerca dos futuros desdobramentos epistemológicos em geografia.
As décadas de 1950 e 1960 – Emergência da
Nova Geografia
No período que vai de 1930 a 1950, a geografia anglo-americana esteve dominada pela visão regional ou de diferenciação de áreas e buscava construir uma síntese das características de uma região (Paterson, 1984, p.20). Para cumprir essa tarefa, realizava um inventariado peculiar das características particulares de cada lugar (Barnes, [no prelo]), com extensos campos e detalhamento descritivo de elementos da paisagem, mostrando quadros compartimentados, com o clima, o relevo, a hidrografia, a economia dominante, os hábitos culturais etc.
O cenário começa a se alterar com as mudanças paradigmáticas advindas do seio da própria ciência em geral, com novas teorias especialmente no campo da física teórica, com Einstein e Bohr, que vão refletir na filosofia da ciência e no modo como o conhecimento é adquirido; novos esforços são oferecidos por escolas como a do Círculo de Viena, e o pós-guerra coloca a necessidade de uma nova forma de aplicação do conhecimento científico. Evidentemente, essas mudanças se espalham pelos demais ramos naturais e sociais da ciência e atingem o campo do saber geográfico, uma verdadeira revolução no modo de se fazer estudos em geografia é eminente.
Na década de 1950, começa a emergir a visão de "ciência espacial", primeiramente na Universidade de Washington, em Seattle, onde trabalhos como The Basic-Service Ratio and the Areal Support of Cities e The Role of Transportation and the Bases for Interaction, de Ullman (1953 e 1956); Studies of Highway Development and Geographic Change, de Garrison et al. (1959); e The functional bases of the central place hierarchy, de Berry & Garrison (1958), continham a ideia de que o objeto da geografia era a dimensão espacial da superfície terrestre, e que, para estudá-lo, era necessário o uso de matemática, técnicas estatísticas e formulações teóricas. Ao mesmo tempo, surgiam no âmbito da economia críticas com respeito à falta do caráter espacial nos sistemas econômicos, o que fez que em 1954 fosse fundada a Regional Science Association, por Isard, e que teve rápida aproximação com os trabalhos da Nova Geografia que começava a se delinear (Paterson, 1984, p.21).
A Nova Geografia ganha sua expressão estatística e matemática e sob Burton (1963) e Curry (1967) esse movimento ganha o rótulo de "revolução quantitativa", o que de certa forma evidencia mais o lado operacional estatístico dessa corrente, sem frisar a parte teórica que trazia consigo uma nova maneira de se proceder para a aquisição do conhecimento científico em geografia, no Brasil, denominado "Geografia Teorética".
Não faltam contribuições e debates nesse período para que a geografia se enquadre no modelo científico. O trabalho de Bunge (1962), Theoretical Geography, traz a questão do uso do método científico; no trabalho de Golledge & Amadeo (1968), On laws in geography, tem-se a referência à formulação de leis; a preocupação com a construção de modelos é tema da obra Models in Geography de Chorley & Hagget (1967); enquanto as questões referentes à formulação teórica encontram-se em Theoretical Geography de Bunge (1962), e The quantitative revolution and theoretical geography de Burton (1963).
Na Inglaterra, essa "ciência espacial geográfica" foi dominada pela escola de análise locacional, especialmente nos centros de Bristol e Cambridge, e, de acordo com James (apud Paterson, 1984, p.21), Chorley, Hagget e Harvey foram os líderes mais destacados nesse movimento.
Inovações e contribuições – um paralelo com o
momento histórico É na Universidade de Cambridge que Harvey forma-se como geógrafo no ano de 1957 e finda seu doutorado em 1961. Em Cambridge, ocupavam assento acadêmico até 1966 duas grandes referências da Nova Geografia que em muito contribuíram para oferecer bases conceituais e práticas ao movimento renovador em curso – e pelo próprio chamamento carinhoso que Harvey (1969, p.ix) faz no prefácio de Explanation a essas duas personalidades, podemos ter noção de seu impacto no meio acadêmico e da disposição em divulgar os novos conhecimentos – eram os "gêmeos terríveis" da geografia britânica, Richard Chorley e Peter Haggett.
Nesse período, Harvey realiza estágio de assistente de ensino durante sua pós-graduação e auxilia os trabalhos dos dois professores, ligados aos métodos quantitativos e à modelagem. Desse período resultam artigos acadêmicos com referências e usos de técnicas quantitativas aplicadas em geografia, como cadeias de Markov e, especialmente, um capítulo no livro Models in Geography, de Chorley & Haggett (1967), intitulado "Models of the Evolution of Spatial Patterns in Human Grography", que pela grande aceitação do livro projeta o nome de Harvey; a análise desse capítulo será retomada adiante. Em seu doutorado, intitulado Aspects of agricultural and rural change in Kent, 1815–1900, Harvey também aplica técnicas estatísticas e modelos como o de Lösch. Esses podem ser considerados os pré-manuscritos que irão ser mais bem desenvolvidos por Harvey em Explanation. Barnes (2006, p.40) também faz menção à influência do professor Tony Wrigley, demógrafo histórico, que introduziu Harvey ao pensamento mais geral do século XIX, o positivismo de Auguste Comte e o pensamento de Marx; o que vem a sustentar a base filosófica de Harvey, enquanto Chorley e Haggett auxiliam na formação da base do método científico.
A continuidade desse processo se dá na Universidade de Bristol, onde Harvey encontra subsídios e elementos para concretizar seu primeiro livro, e é nesse local que se dá a maior parte da redação da obra, onde o jovem Harvey já se encontra como professor e tem novamente a figura de Haggett, recém-contratado pela universidade em 1966, como professor de geografia urbana e regional, e agora seu colega de trabalho. Explanation in Geography é resultado de quase uma década de ensino de graduação na Universidade de Bristol sobre a "nova base" científica para trabalhar a geografia, e não menos do que isso, é fruto de debates com colegas na Suécia e nos Estados Unidos, já que Harvey realizou um pós-doutoramento na Universidade de Uppsala entre 1960 e 1961, e muito provavelmente tomou conhecimento da vertente da Nova Geografia que se desenvolvia na Suécia, a visão temporo-espacial dos trabalhos iniciais de Hägerstrand.
Barnes (2006, p.34) sintetiza esse momento fundamental na carreira de Harvey e na elaboração de Explanation:
The broader point is that the Department of Geography at
Cambridge during the period Harvey was a student, and later a
young lecturer at Bristol, was a "truth spot". That is, it was one
of an initially small number of sites in Europe and North
America, and which by the mid- 1960s included Bristol, where
geographical practices were remade in the likeness of natural
science in a movement dubbed "the quantitative revolution"
(Barnes 2001, 2004). That revolution was to move the discipline
from the dark ages of its ideographic past to the dazzling
promise of a nomothetic future. As a young, bright, ambitious
student interested in ideas, Harvey inevitably was caught up in
the change even though it went against the grain of his "strong
‘Arts’ background" (Harvey 1969a: v). Indeed, it may have been
that Arts background that made him move away from his earlier
sometimes fumbling attempts at quantitative analysis to the later
philosophical and discursive treatment found in 1 Explanation .
Trata-se de um verdadeiro guia de estudos e referencial para se proceder a uma pesquisa científica em geografia. Observando o livro desse modo, vê-se que, ao se propor um guia, é porque claramente um novo modo de se fazer as coisas é possível, e sendo novo, necessita de maior clarificação dos procedimentos. Harvey (1969, p.v) coloca que, acima de tudo, o livro foi escrito para a sua própria educação, ou seja, foi a forma que o autor encontrou para concatenar o processo de aprendizagem que vinha desenvolvendo, na perspectiva de tornar claro a si mesmo todo o acúmulo de conhecimento e informação adquirido durante sua formação acadêmica e na sua prática de ensino, que, como vimos, sofreu grande influência da Nova Geografia que vinha surgindo.
Esse novo modo também não pode ser algo esparso, sem nexo, deve estar ligado a um corpus teórico que viabilize a tomada operacional de análise, já que Explanation visa dar uma contribuição à geografia, quanto à sua forma de proceder para tornar a pesquisa realmente científica. E nesse ponto a obra traz contribuições relevantes quanto ao método hipotético-dedutivo em geografia, necessário para os pressupostos e anseios de tornar a geografia uma disciplina científica.
Os geógrafos tiveram de avançar nesse sentido. No campo da geografia física a derivação de teorias a partir de postulados e axiomas possibilitou a capacidade de dedução, como a paisagem produtora de processos e as formas provavelmente resultantes de leis físicas. Na área de geografia humana, hipóteses relacionadas ao comportamento humano possibilitaram deduções de padrões espaciais.
Outra contribuição foi o uso de técnicas quantitativas. Para Harvey, também, a quantificação foi necessária, mas longe de ser suficiente: essa medida foi uma ferramenta necessária, mas muito mais importante foi para os geógrafos humanos e físicos para avaliar e implantar a filosofia que subderrotou o "poder fantástico" do modelo científico (Johnston, 2008). A leitura que Harvey (1969, p.viii) fez desse momento resulta em Explanation, "this book is therefore about the ways in which geographical undestanding and knowledge can be acquired and the Standards of rational argument and inference that are necessary to ensure that this process is
reasonable 2 ".
De acordo com Johnston (2008), o modelo de Harvey em relação à Nova Geografia foi a representação de uma teoria – isto é, um resultado de uma série de leis, como declarações. Tais representações se tornaram a fonte de hipóteses, conduzindo a testes de validade empírica da teoria. O exemplo de uma teoria em geografia humana que ilustra esses conceitos fundamentais é a teoria dos lugares centrais: base para um grande volume de trabalhos geográficos na década de 1950 de 1960.
Harvey mostra que ela era derivada de um conjunto de postulados fundamentais econômicos (assumindo leis) sobre o comportamento do consumidor e fornecedor com minimização dos custos de trans-porte para os consumidores de acordo com a natureza dos produtos/ serviços que estão sendo fornecidos. Esses são ligados em uma única teoria, a partir da qual é possível deduzir o arranjo espacial dos centros de serviço. Modelos poderiam ser derivados mostrando a morfologia esperada do arranjo espacial em diferentes contextos, que tinham características comuns, tais como o arranjo hexagonal de centros em hierarquias de nidificação. Hipóteses específicas poderiam então ser testadas em determinadas situações empíricas (Johnston, 2008; Barnes, 2006). Para Harvey (1969, p.169), o mais importante desses conceitos era a teoria: "without theory of some kind the explanation and cognitive description of
geographic events is inconceivable 3 ".
Trilhando o caminho da explicação: modelos em
geografia humana
É sob o "contínuo ato de escolher e na ressalva perpétua do julgamento", palavras de Lawrence Durrel, que Harvey abre o capítulo "Modelos da evolução dos padrões espaciais na geografia
humana", contido na obra 4 Models in Geography. Palavras que já dão indícios de uma apreensão parcial da realidade, que só é possível por meio de recortes específicos, recortes que necessitam de uma escolha e que não podem ser cristalizados estarão sempre a julgo e possíveis de serem postos em xeque.
Partindo de uma concepção de Hartshorne sobre o objetivo de a pesquisa geográfica fornecer descrição e interpretação precisa da superfície da Terra, Harvey (1974, p.101) coloca a importância da análise de áreas, da gênese das formas culturais, mas, mais do que isso, compreender os processos da mudança no espaço e no tempo, sendo o tempo uma dimensão negligenciada pelos geógrafos anglo-saxônicos, falha atribuída a Hartshorne por Sauer (ibidem, p.102). Contudo, a ligação entre tempo e espaço foi uma característica marcante na escola de cunho determinista originada em Ratzel, especialmente pelo uso de "zonas e estratos", ainda que de forma bastante ingênua; geógrafos alemães focaram o desenvolvimento da paisagem no tempo, que seria aperfeiçoado por Sauer e a "Escola de Berkeley"; em França, a permanência da dimensão tempo se manteve forte, especialmente, pela relação simbiótica entre o homem e a terra durante um longo período de tempo, pelo que primava a geografia francesa (ibidem, p.102).
A menção que Harvey faz a esses estudos é para demonstrar que esses são na melhor das hipóteses metáforas, mas que podem acarretar em seu lado negativo a falsas analogias, e o pior que vem a seguir: a forma pela qual são moldadas essas metáforas parece impedir o julgamento objetivo (ibidem, p.103). E é nesse ponto que Harvey (ibidem) é mordaz para com aqueles que não julgam ser importante os critérios de ciência, é preciso fazer uma escolha:
pode enterrar a cabeça como o avestruz nos grãos de areia de
uma história humana ideográfica, conduzida sobre o espaço
geográfico único, carregar o cenho devido a generalização
ampla e produzir uma tese descritiva magistral sobre o que
aconteceu, quando e onde. Ou pode tornar-se um cientista e
tentar, pelos procedimentos normais da investigação científica,
verificar, rejeitar ou modificar as ideias estimulantes e excitantes
com que seus predecessores o presentearam.
Deixando de lado, portanto, os avestruzes, Harvey busca demonstrar qual é o "salto" explicativo entre os estudos mais "metafóricos" até o início do século, com aqueles posteriores, mais preocupados na coesão dos enunciados e mais próximos à complexidade da realidade. Era preciso testar adequadamente as teorias e, assim, em dado momento, era preciso uma formalização, um trato hipotético e uma disposição lógica, dessa maneira, os procedimentos científicos poderiam ser feitos, testes e modificações de hipóteses tornar-se-iam possíveis para explicar a evolução dos sistemas espaciais, "a maneira mais adequada de aperfeiçoar essa estrutura lógica é aperfeiçoar al-gum modelo elaborado da realidade que expresse as noções contidas na teoria" (ibidem, p.104). Será nos modelos que Harvey encontrará esse elemento.
Modelos mais simples ou de maior cunho descritivo poderiam tornar-se modelos operacionais mais consistentes, seja por princípios lógicos, seja pela poderosa ferramenta algébrica, nas palavras de Harvey (1974, p.104). Harvey faz, então, toda uma explicação de construção de um modelo padrão simples ideal, e aponta que, em razão da complexidade dos fenômenos, seria ingenuidade esperar grandes predições desse modelo, sendo o mais desejável compor sistemas de modelos, em que determinadas saídas seriam entradas em outros modelos alimentando sistemas altamente complexos.
São apresentados em seguida diversas classes de modelos com suas respectivas expressões espaciais, modelos uniformes, aleatórios, competitivos, contagiosos. Harvey (1974, p.106-7) chama a atenção para as qualidades métricas do tempo e do espaço, que podem ser ilusórias se não forem tratadas com cuidado, exigindo até uma completa compreensão da natureza do tempo e do espaço. Sucessivas formas de modelagem são apresentadas, desde séries temporais até modelos que exigem maior formulação matemática, mantendo a sapiência de que "nenhum modelo único explica a realidade exclusivamente a não ser, é claro, a própria realidade. Podemos, assim, construir frequentemente vários modelos bastante diferentes para explicar a mesma realidade e cada um deles poderia ser igualmente bom" (ibidem, p.138-9).
Os germens para a criação consistente de Explanation in Geography já se encontravam presentes nesse capítulo do livro que o antecedeu, como se pode observar até aqui. É interessante reproduzir a seguir as ideias que permeavam a concepção de ciência que Harvey (1974, p.146) havia sistematizado até fins da década de 1960:
Não estamos dourando a pílula de uma simples declaração
elegante em jargão científico, mas tentando verdadeiramente
desnudar os elementos da realidade que por muito tempo
permaneceram ocultos ao nosso olhar. Acima de tudo,
chegamos a compreender que precisamos, cada vez mais, dos
modelos para nos ajudar em nossa tentaiva de compreender os
princípios que governam a organização humana do espaço. Um
modelo é "um artifício pragmático" para ser usado livremente
enquanto servir ao seu propósito, para ser posto fora sem
remorso quando deixa de fazê-lo. O cientista, portanto, se for
completamente um cientista, é o único entre os usuários de
metáforas por não se tornar "viciado" numa forma particular de
compreender. (Rapoport, 1953, p.206)
É possível extrair algumas considerações a respeito dessas concepções. Primeiramente, "compreender os princípios que governam" é uma típica postura que está alinhada tanto ao "espírito positivista" quanto ao "espírito historicista", um momento da história da ciência repleto de controversas e caminhos obscurantistas; em um segundo momento, a menção a uma "organização humana do espaço" pode ser vista como uma salutar contribuição para um objeto de estudo que caracterize a geografia. Por fim, nem tudo está perdido no campo da filosofia da ciência! Harvey, da forma como cita Rapoport, deixa transparecer que reconhece o critério demarcador da falseabilidade, deve-se sempre buscar eliminar o erro, aquele que o reconhece pode propor novas teorias com um poder de explicação mais completo que as que a precederam.
Estrutura e conteúdo da obra Explanation in
Geography: a geografia se consolidando como ciência
A obra está dividida em seis partes, totalizando 24 capítulos em 486 páginas, em um trabalho de fôlego, que apenas pela estrutura "física" já demonstra um vigor e uma tendência ao detalhamento explicativo. As partes estão divididas na forma de grandes blocos que estruturam o pensamento científico e a forma de se realizar uma explicação em ciência, e mais especificamente dentro do campo geográfico: (i) sendo a primeira parte dedicada à filosofia e à necessidade de explicação; (ii) a segunda parte dedicada ao pano de fundo metodológico e a explicação em geografia; (iii) a terceira, ao papel das teorias, leis e modelos na explicação geográfica; (iv) a quarta, à linguagem de modelos para a explicação geográfica; (v) a quinta, aos modelos para descrições em geografia; (vi) e por fim, a sexta parte trata dos modelos para explicações em geografia.
O enfoque maior de Explanation não poderia ser outro que não fosse a explicação. Mas um tipo especial de explicação, a que Harvey (1969, p.13) se propõe a debater, indagando e apresentando uma construção racional do que significa uma explicação, que seria definida como "an explanation may be regarded as making an unexpected outcome an expected outcome, of making a curious
event seem natural or normal 5 ", porque pode ser mostrado para ser gerado por processos similares e em condições semelhantes às dos eventos anteriores do mesmo tipo. Harvey segue mostrando que existem três caminhos para isso: (i) a aproximação dedutivo-preditiva (provavelmente o mais importante); (ii) a visão relacional (como a ligação dos planetas e das maçãs caindo pela lei da gravidade); e (iii) por analogia.
Pode-se perceber seu empenho em buscar na filosofia da ciência elementos que auxiliem na resposta da aquisição do conhecimento, e para isso Harvey debruça-se sobre os filósofos da linha do empirismo lógico, como Richard Braithwaite, Rudolph Carnap, Carl Hempel e Ernest Nagel. No índice de autores, as chamadas desses respectivos nomes mostram grande número de citações. Outra referência muito citada e com desenvolvimento ao longo dos capítulos que tratam da explicação nas ciências naturais (capítulo 4) e na ciência social e história (capítulo 5) é Karl Popper, em que é colocado um dos elementos importantes do racionalismo crítico, a falseabilidade.
Fica evidente, portanto, que a forma de explicação especial que Harvey quer colocar é a "explicação racional", a explicação científica: declarações verificáveis por outros, porque os procedimentos envolvidos na sua produção podem ser repetidos e/ou estão abertos a testes. A estrutura do livro importa-se em desenvolver "a hard inner core of methodology – the analysis of explanation as a formal procedure – and a rather more general outer zone concerned with philosophy, speculation, perception, images,
and the like 6 " (Harvey, 1969, p.23).
Há uma clara distinção entre o modo indutivo, apresentado como "caminho baconiano", e o dedutivo, que mostra a percepção que o pesquisador tem do mundo, formulando hipóteses para que sejam validadas e conseguindo o status de leis e teorias, sintetizando o conhecimento adquirido e propiciando a construção de modelos da realidade. Esse trecho da obra é largamente reproduzido, especialmente por meio dos esquemas contidos na página 34. O problema com a disciplina, para Harvey, não são as perguntas que os geógrafos fazem, mas a metodologia que utilizam para respondê-las (Johnston, 2008). É importante notar que Harvey não vê distinção entre as estruturas metodológicas das chamadas "geografia física" e "geografia humana", uma vez que ambas são parte da ciência, e por conseguinte, devem seguir a linguagem do método científico.
A formulação teórica é quesito fundamental e foi uma contribuição importante à forma com que Harvey coloca essa questão. Mas somente ela em si não seria suficiente para colocar em prática a pesquisa científica, e por isso que Harvey parte para a execução da pesquisa, a forma com a qual as teorias podem ser expressadas. Primeiramente, essa resposta é dada pela matemática; em última instância a teoria requer o uso da linguagem matemática – "a linguagem da ciência", nas palavras de Harvey (1969, p.179) – e somente com essa linguagem podem ser tratadas as interações complexas de forma consistente (ibidem, p.76). Da linguagem matemática resultam dois campos pertinentes aos estudos geográficos: (i) a geometria, como a língua de forma espacial da geografia (a ser definida como o estudo dos "objetos e eventos no espaço" – p.191), e a (ii) probabilidade, da qual a linguagem da possibilidade é necessariamente usada. Isso se deve ao fato de que existe um mundo controlado por leis precisas e bem definidas, por meio da lógica formal; no entanto, existe um mundo empírico, irregular e caótico, que necessita de medições e verificações; esse mundo é "governado por processos imutáveis", onde a previsão precisa raramente é possível, sobretudo dada a extensão de nossa ignorância sobre esses processos, sendo muito mais conveniente seguir uma teoria probabilística do que qualquer outra teoria (ibidem, p.260). A geografia científica não será uma geografia determinista por isso, mas sim, inclui declarações probabilísticas de explicações prováveis, daí o uso de estatísticas na avaliação de hipóteses.
A tarefa de verificação é avaliar a relação entre o observado no mundo empírico e o mundo abstrato teórico. Isso nunca é fácil, mas, se as regras são aplicadas com êxito, a explicação é alcançada; essas características transformam meras especulações em teorias científicas, elas representam um infalível método, segui-las, diz Harvey, é o sucesso garantido, conforme aponta Barnes (2006, p.33).
Uma importante contribuição é dada quanto ao uso de modelos em geografia. Harvey dedica duas seções do livro à modelagem em geografia: os modelos de cunho descritivo (Parte V), e modelos de cunho explicativo (Parte VI), dando continuidade e aprofundando o tema que tratou em seu capítulo sobre modelos publicado no livro Models in Geography (Harvey, 1974). Esses são, com efeito, os capítulos sobre o método: o primeiro tipo de modelo trata de uma medição e como retratar o mundo, como coletar as informações, classificá-las e exibi-las; o segundo tipo mostra os procedimentos para testes de hipóteses de causa e efeito, mostrando ainda a visão em sistemas, tanto como uma teoria geral quanto na forma de análise de sistemas.
Reflexão
Podemos traçar uma reflexão no campo político. A chegada do Partido Trabalhista Britânico ao poder tem certa correlação com a referida obra de Harvey. Apesar do caráter estritamente didático, e da postura, em princípio, apolítica e "neutra" que permeia toda a obra, bem diferenciada dos demais livros do autor que irão suceder Explanation, está latente, ainda que oculta, a grande contribuição que Harvey faz à geografia, mas mais do que isso, a uma geografia pragmática que pode ter no partido de ideologia de "esquerda" o caminho pavimentado para a ação, que vise construir uma sociedade mais igualitária, diminuindo as diferenças regionais e utilizando todo rigor e precisão científica para engendrar uma engenharia social. Essa visão nos é oferecida por Barnes (2006, p.34):
Cambridge was populated by an intellectual elite, and if
something was seriously wrong with the state of Britain (and
many thought there was), then this elite was surely in a position
to do something about it. The modernization of Britain was firmly
on the agenda, and a new structure of knowledge and power
was needed to accomplish that task. Explanation did not attempt
single- handedly to modernize Britain. But it provided a "new
structure of knowledge" to a hitherto unbending and
conservative discipline, geography, which like Britain in the late
1950s and early 1960s was in desperate need of shaking off the
confining shackles of its past and modernizing. Harvey, as part
of that Cambridge intellectual elite, was "in a position to do
something about it", which he did. As he says, there was "the
idea that we could break out of tradition. There was a modern
geography waiting to be constructed and we were the ones who
could do it".7
O instrumental oferecido em Explanation pode sustentar vários tipos de ideologia servindo de geografia pragmática tanto para governos ditos de "esquerda" ou de "direita", e isso pode ser observado nas palavras de Barnes (2006, p.35), ao citar o depoimento de Harvey (2002): "For those of us involved in geography [during the 1960s], rational planning (national, regional, environmental, and urban) backed by ‘scientific’ methods of enquiry seemed to be the path to
take 8 ". Isso demonstra a "neutralidade" da ciência, mas não a do cientista e do político. Um exemplo semelhante dá-se com os avanços em física, que permitiram desenvolver as tecnologias espaciais para lançamentos de satélites, que em muito fizeram avançar as telecomunicações e a democratização do conhecimento e acesso à informação, mas que também colocaram satélites espiões e militares, que podem impor sérias restrições a liberdade individual e serem armas letais em campos de combate. Depende aí para quem o conhecimento científico é ofertado, e quais os reais anseios de quem direciona os investimentos (política representando a sociedade).
O problema reside no fato de esse instrumental científico ser utilizado de maneira a colocar em prática uma engenharia social totalitária, antidemocrática. Os perigos e desastres desse tipo de política puderam ser vistos ao longo do século XX, com regimes totalitários de "direita" e de "esquerda". Um cientificismo exagerado, calcado em filosofias díspares como o positivismo e o historicismo, acarretou em malefícios comuns e em sérios dogmatismos, como crenças em "verdades" universais e absolutas que, atestadas pela "estatística" ou pela "história", promovem ações que podem ocasionar grandes desastres, tanto na sociedade como no corpo de uma disciplina.
Curiosamente, uma das críticas mais severas feitas à geografia teorética brasileira (ou sob o termo quantitativa em muitos manuais), de servir ao planejamento auxiliando um regime militar de "direita", foi justamente um dos motivos pelo qual Harvey confecciona sua obra, que é oferecer elementos ao planejamento, mas no caso dele, a um governo de ideologia política e afeita ao poder antagônica ao que se tinha no Brasil; ideologias díspares, mas perspectivas de intervenção comuns.
A planificação possível e a engenharia social intervencionista no espaço propiciada pelos aparatos positivistas sob seu ideal de comprovação de verdade via matematização e modelagens determinísticas são completamente antagônicas a um ideal de liberdade. A crítica feita ao positivismo em geografia, especialmente no Brasil, talvez tenha pecado em coadunar positivismo e um suposto capitalismo liberal, seja por ingenuidade, seja por ignorância, pois, em princípio, o positivismo serviu muito mais a ideologias de intervenção, aqui via um Estado militar totalitário de "direita", na Inglaterra via um partido social-democrata, e pode-se até colocar na União Soviética, via um Estado totalitário de "esquerda".
Harvey nos dá o retrato de um cientista plural, que caminhou por vários momentos históricos e de muitos atritos, mas que soube pesar a contribuição que cada modelo teórico/filosófico pode proporcionar de acordo com o viés de estudo que se propõe e que cada um desses pode, a seu modo, contribuir para a aquisição do conhecimento. Desse modo, em termos do corpus teórico da disciplina, Explanation mostra o empenho do singular geógrafo David Harvey em buscar sintetizar e colocar a disposição da geografia toda uma discussão fervorosa do período 1950-1970, e que consistia em uma ampla revisão e reestruturação do pensamento geográfico e de sua epistemologia, mudando completamente o quadro dessa disciplina para as gerações futuras de geógrafos.
Um bom contexto, sobre o papel desempenhado por Explanation no momento em que foi lançado e os caminhos futuros que David Harvey percorreu, é apresentado por Johnston (2008):
But Harvey abandoned his generation – or many of them – for
an alternative project, to which he attracted a new generation of
converts. Indeed, according to his autobiographical essay, in
some ways he abandoned the first project long before he
completed it – having a "lust to wander and diverge, to
challenge authority, to get off the beaten path of knowledge into
something different, to explore the wild recesses of the
imagination as well as of the world" (Harvey, 2002, p.167). He
did finish it, however, but responded to Stephen Gale’s (1971)
review by saying that he was at a disadvantage because Gale
had read the book and "I have never read it. What is more, I
have no intention of doing so now". Explanation was behind
him, but remains a permanent and potent reminder of a crucial
decade in geography’s turbulent recent history; extremely
influential when published, as not only a pioneering exploration
of ‘scientific method’ and its philosophical underpinnings but
also one of the first substantive geographical engagements with
the social sciences.9
Harvey é singular na medida em que pode ser colocado como um dos poucos geógrafos que estiveram de corpo e alma envolvidos em três momentos cruciais e decisivos da geografia, na Revolução Quantitativa, na Renovação Crítica e na Virada Cultural. Estudar cada um desses momentos históricos, ou mesmo se aprofundar em cada uma dessas linhas teóricas implica, em dado momento, adentrar alguma obra de David Harvey, que no caso específico aqui tratado marca referência obrigatória nos estudos teoréticosquantitativos com a obra Explanation in Geography.
David Harvey raras vezes retornou a seu primeiro livro, o conteúdo não foi revisado nas poucas novas edições, sua mudança para uma geografia crítica ocorreu em curto período de tempo, com o lançamento já em 1973 de Social Justice and the City, que mesclava elementos da teoria marxista com alguns pressupostos neoclássicos. Daí por diante, o Harvey da "revolução quantitativa" deu lugar ao Harvey militante do materialismo-dialético, e posteriormente ao Harvey dos "espaços da esperança". Mas, sem dúvida, independentemente do caminho trilhado, Explanation figura ao lado das grandes obras teoréticas da década de 1960 e 1970, marco referencial para estudos do empirismo lógico, da lógica formal e da forma de explicação científica em geografia. Obra e autor certamente terão seu reconhecimento no corpo histórico e teórico da disciplina Geografia.
Referências
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<http://www.geog.ubc. ca/~tbarnes/pdf/QuantRevolution.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2010.
_______. Between deduction and dialectics: David Harvey on knowledge. In: CASTREE, N; GREGORY, D. (Org.) David Harvey: a critical reader. Oxford: Blackwell, 2006, p.26-46.
BERRY, B.; GARRISON, W. L. The functional bases of the central place hierarchy. Economic Geography, n.34, p.145-54, 1958.
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BURTON, I. The quantitative revolution and theoretical geography. Canadian Geography, n.7, p.151-2, 1963.
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* Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia, Unesp – Rio Claro (SP). Bolsista Fapesp.
1 Tradução do autor: "O ponto principal é que o Departamento de Geografia na Universidade de Cambridge durante o período em que Harvey era um estudante e, posteriormente, a Universidade de Bristol, onde Harvey era um jovem professor, eram um ‘ponto de verdade’, ou seja, eram alguns dos locais, de um número inicialmente pequeno na Europa e América do Norte, onde em meados da década de 1960 as práticas geográficas foram refeitas, à semelhança dos métodos das ciências naturais, em um movimento chamado de ‘revolução quantitativa’ (Barnes 2001, 2004). Essa revolução mudaria a disciplina da Idade das Trevas e seu passado ideográfico para a deslumbrante promessa de um futuro nomotético. Como jovem e brilhante aluno, ambicioso interessado nas idéias, Harvey foi inevitavelmente apanhado por esta mudança, mesmo que fosse contra a semente de seu ‘forte conhecimento das ‘artes’’ (Harvey, 1969a: v). Na verdade, pode ter sido esse conhecimento das artes que o fez afastar-se da sua anterior, às vezes desastrada, tentativa de análises quantitativas, para o mais filosófico e discursivo tratamento encontrado em Explanation".
2 Tradução do autor: "este livro é, portanto, sobre as formas em que a compreensão geográfica e conhecimento podem ser adquiridos e as normas da argumentação racional, considerando que são necessárias para garantir que o processo seja razoável".
3 Tradução do autor: "sem teorias explicativas o cognitivo e a descrição dos acontecimentos geográficos são inconcebíveis".
4 Contida na tradução para o português: Modelos integrados em geografia.
5 Tradução do autor: "uma explicação pode ser considerada como fazer de um resultado inesperado um resultado esperado, fazer um evento curioso parecer um evento natural ou normal".
6 Tradução do autor: "o núcleo duro interno da metodologia – a análise da explicação como um procedimento formal – e uma zona um pouco mais geral preocupada com a filosofia, a especulação, a percepção, imagens e similares".
7 Tradução do autor: "Cambridge foi povoada por uma elite intelectual, e se havia algo de muito errado com o estado da Grã-Bretanha (e muitos pensaram que havia), então essa elite estava certamente em posição de fazer algo sobre isso. A modernização da Grã-Bretanha esteve firmemente na ordem do dia, e uma nova estrutura de conhecimento e poder era necessária para realizar essa tarefa. Explanation não tenta sozinho modernizar a Grã-Bretanha. Mas, fornece a ‘nova estrutura de conhecimento’ para uma disciplina inflexível e até conservadora, a geografia, que, como a Grã-Bretanha no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, tinha uma necessidade desesperada de livrar-se dos grilhões de confinamento do seu passado e se modernizar. Harvey, como parte da intelectualidade da elite de Cambridge, estava ‘em posição de fazer algo sobre isso’, o que ele fez. Como ele diz, ‘a ideia de que poderia romper a tradição... Houve uma geografia moderna a espera para ser construída e nós éramos os únicos que poderiam fazê-lo".
8 Tradução do autor: "Para aqueles de nós envolvidos na geografia [durante a década de 1960], o planejamento racional (nacional, regional, ambiental e urbano) apoiado pelos ‘métodos’ científicos de inquérito, parecia ser o caminho a se tomar".
9 Tradução do autor: "Mas Harvey abandonou sua geração – ou muitos deles – para um projeto alternativo, para qual ele atraiu uma nova geração de convertidos. Com efeito, de acordo com seu ensaio autobiográfico, de certa forma ele abandonou o primeiro projeto muito antes de tê-lo completado – com um ‘desejo de vagar e divergir, para desafiar a autoridade, para sair do caminho batido do conhecimento em algo diferente, para explorar os recantos selvagens da imaginação, bem como do mundo’ (Harvey, 2002, p.167). Ele o terminou, entretanto, mas respondeu a revisão de Stephen Gale (1971)*, dizendo que ele estava em desvantagem porque Gale tinha lido o livro e ‘Eu nunca o li. Além do mais, não tenho intenção de fazê-lo agora’. Explanation estava atrás dele, mas continua a ser um lembrete permanente e potente de uma década crucial na turbulenta história recente da geografia; extremamente influente quando publicado, não apenas como um pioneiro da exploração do ‘método científico’ e os seus fundamentos filosóficos, mas também um dos substanciais compromissos geográficos para com as ciências sociais" [* O texto mencionado de Stephen Gale é: On the heterodoxy of explanation: a review of David Harvey’s Explanation in Geography. Geographical Analysis n.3, p.285-322].