História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

Paulo R. Teixeira de Godoy · Capítulo 3 de 14

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História do pensamento geográfico e epistemologia em Geografia

2 Alexander Von Humboldt: viajante naturalista e entusiasta da harmonia da natureza

2 Alexander Von Humboldt: viajante

naturalista e entusiasta da harmonia

da natureza

 

Danilo Piccoli Neto* ** ;Flamarion Dutra Alves

Introdução

Este texto centrar-se-á nos noventa anos entre o nascimento e o falecimento de Humboldt, em sua trajetória intelectual, política, especialmente enfocando o caráter humano e o contexto social do naturalista prussiano.

Propõe-se também com o texto, em segunda instância, adentrar de forma geral o legado científico deixado por Humboldt, que extravasa a data de seu falecimento, adentra o início da constituição da geografia como ramo do saber científico e, portanto, oferece rico material teórico e metodológico para o corpus inicial da disciplina, tendo influências e contribuições pertinentes até a presente data.

As obras de Humboldt são um legado à posteridade da sistematização e constituição do pensamento científico moderno que se estruturava durante o século XIX; ao mesmo tempo, marcam o final da era dos grandes homens detentores de conhecimentos vastos, abarcando diversos ramos do saber.

Por fim, este texto não deixa de ser uma homenagem e um reconhecimento ao célebre Alexander Von Humboldt, que no ano de 2009 teve completos 150 anos de seu falecimento.

 

Educação e contribuições à ciência em geral

Todo cientista é um descendente de Humboldt.

Estamos todos em sua família.

(Emil Du Bois-Reymond1)

Em Berlin, no principado de Brandenburgo, em 14 de setembro de 1769, nascia Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander Freiherr Von Humboldt, homem que viria a contribuir de maneira extremamente frutífera para o conhecimento científico, e que faria parte do quadro de personalidades marcantes dos séculos XVIII e XIX, ao lado dos maiores naturalistas, cientistas e homens dotados de um espírito de conhecimento e vontade de desbravar as fronteiras de um novo mundo. Mundo esse entendido tanto como as sociedades e fenômenos que se apresentavam exteriores ao mare nostrum europeu e que estavam encobertos aos olhos daquela sociedade por séculos, quanto como as fronteiras do próprio saber humano, que avançavam largamente na velocidade a vapor e nos adventos ópticos que enxergavam do micro ao macrocosmos.

Seu intelecto pôde ser desenvolvido sem grandes percalços materiais no castelo de Tegel. Era filho de família nobre, seu pai, o maçom e major Alexandre George Von Humboldt, era estandarte e amigo do rei Frederico da Prússia, o que lhe possibilitou dispor de bens e recursos para engendrar seus projetos e sonhos mais ousados. Sua tolerância e apresso pela liberdade podem ser fruto da pluralidade de seu próprio núcleo familiar, uma vez que sua mãe, Maria Elisabeth Von Colomb, também detentora de considerável fortuna, viúva do barão Holwede, descendia de franceses Huguenotes da Borgonha, que tiveram de se refugiar na Alemanha após a revogação do Édito de Nantes (Aragão, 1960, p.467). O núcleo familiar era completo contando com seu irmão mais velho, Guilherme de Humboldt, também dotado de um intelecto marcante nas fronteiras do saber, re-estrutarador da Universidade de Berlin e um dos responsáveis pela criação da cátedra de geografia, a qual Humboldt ocuparia já em idade avançada.

Alexander Von Humboldt estudou seis meses de finanças na Universidade de Frankfurt an der Oder, adquirindo consistente formação em economia política por intermédio do fisiocrata Wilhelm Dohm (Capel, 2007), e seu apreço pela botânica pôde ser mais refinado nas aulas do professor Wildenow. Posteriormente, esteve na Universidade de Göttingen, importante centro para estudos físicos, contando com eminentes cientistas como Heyne e Blumenbach (Bruhns, 1873). Nesta última, pode conviver e ouvir os relatos de George Adan Foster, jovem escritor com fama já consagrada pelos relatos da viagem com James Cook. Durante as férias de 1789, realizou excursão científica no Reno, resultando no tratado Mineralogische Beobachtungen über einige Basalte am Rhein, 1790 (ibidem). Outro colega de universidade seria Andrés Del Rio, mexicano que agregaria ânimo ao ideário e ímpeto expedicionário do jovem prussiano na Escola de Minas de Freiburg, local onde Humboldt cursou engenharia e se aprofundou nos ramos da geologia, sob auspícios de A. G. Werner. Em Hamburgo, viria a se concentrar nos estudos de comércio e em línguas clássicas (Aragão, 1960, p.468; Penna, 1960, p.678).

Publicaria, em 1793, Florae Fribergensis Specimen, resultado das pesquisas sobre as vegetações encontradas nas minas e Versuche über die gereizte Muskel- und Nervenfaser (1797), sobre a irritabilidade muscular, fato recém-descoberto por Luigi Galvani. Ingressou no grupo de Weimar em 1794, onde contribuiu para o novo periódico de Schiller, Die Horen, com a alegoria filosófica Die Lebenskraft, oder der rhodische Genius, 1795, artigo que demonstra características do vitalismo e que o acompanhou, em certos aspectos, até a idade madura (Bruhns, 1873).

Na estrutura científica de sua época, Humboldt se destacou como naturalista, abarcando os campos da zoologia, química, astronomia, sociologia, física, geologia e botânica, mas foi à geografia que o prussiano dedicou especial atenção e é considerado, até mesmo, um dos fundadores do ramo da geografia física (termo que empregava diferentemente do contexto atual, e que às vezes constava como física terrestre ou física do mundo). Essa perspectiva é evidenciada nas palavras de Aragão (1960, p.465): "só não avançou mais, só não foi muito além nos seus ensinamentos, por se ter limitado ao campo geográfico, demasiado amplo para os conhecimentos ainda rudimentares dos cientistas de sua época".

Dessa maneira, além das reconhecidas contribuições à geografia, foram realizadas importantes contribuições ao conhecimento em geral. Em conjunto com Gay Lussac, realizou decomposição analítica do ar, resultando na descoberta das proporções de oxigênio e hidrogênio na composição da água no ano de 1805, fato esse que foi o estágio inicial das pesquisas de Lussac para a posterior lei sobre a dilatação dos gases, denominada Lei de Gay-Lussac (Aragão, 1960, p.468). No campo arqueológico, fez constatações importantes sobre a cronologia das civilizações pré-colombianas do Peru e do México, desmistificando a associação linguística dessas civilizações com o greco-romano, como havia sido proposto até então (Herrmann, 1960).

Em seu ambiente social, Humboldt pode relacionar-se com gran des personalidades da época, como Goethe e Schiller, durante sua estada em Jena, em 1797, onde tomaria contato com os ensinos de J. C. Loder sobre anatomia, e F. Von Zach e J. G. Köhler sobre astronomia. Os naturalistas George Foster e Aimé Bonpland seriam importantes bases formativas (Penna, 1960, p.678). Em Paris, cidade a qual, na efervescência da era das luzes, lhe permitiu

conhecer Cuvier,2 3 Delambre,

Jussieu,4 5 6 7 Desfontaines, Laplace, Fourcroy e

Berthollet, 8 aprofundando-se nas leituras de Kant.

Humboldt seria ainda um grande fomentador das ciências, quando aos sessenta anos, por convocação da corte do rei Frederico Guilherme da Prússia, ocuparia a função de conselheiro científico e artístico (Penna, 1960, p.680). Realizaria também funções de Estado, como acessor do Departamento de Mineração e Fusão de Minérios em Berlim e diretor geral das Minas da Francônia (Aragão, 1960, p.468).

É corrente na atualidade o pensamento de que as grandes ideias que sustentam amplas matrizes de pensamento não se fazem sozinhas, e esse cenário de efervescência cultural em que Humboldt viveu em muito será basilar para sua formação, suas contribuições e seu reconhecimento como grande naturalista.

 

Um homem aberto ao conhecimento e a

desbravar o mundo

Ele foi o maior cientista viajante, que já viveu

– Eu sempre o admirei, agora eu o adoro.

(Charles Darwin 9)

Desde há muito tempo, Humboldt foi daqueles cuja personalidade preencheu o espírito dos europeus que lançavam suas expectativas, sonhos e curiosidades para o além-mar, desejosos em desbravar os novos mundos "intocados", que pouco a pouco começavam a se integrar em um sistema de mundo unificado. Quando, aos oito anos de idade, a criança Humboldt deparou-se com a questão do então rei da Prússia, Frederico, o Grande, se desejaria ser um conquistador, seu espírito respondeu: "Sim, Sire, mas com a minha cabeça" (Aragão, 1960, p.467).

Quando não por problemas familiares, foram as celeumas políticas que se mostraram imensos entraves para seu sonho de desbravamento. O pai faleceu precocemente, deixando um Humboldt extremamente ligado à persona materna, o que foi um obstáculo a viagens mais longas, só possíveis com o falecimento da mãe. Fato político e histórico notório foi o cerco empreendido pela armada britânica ao continente Europeu.

O Diretório francês planejava um projeto de circum-navegação, e tão logo Humboldt tenha tomado conhecimento, inscreveu-se para integrar a equipe de cientistas. A viagem, no entanto, foi suspensa e convertida posteriormente por Napoleão a uma expedição à África.

O comandante militar francês vira-se fascinado com o Egito, e no desejo de catalogar e relatar tais fascínios, procurou reunir 160 cientistas renomados da época para tal tarefa (ibidem, p.468). Pelas características imprevisíveis que o curso da história reserva, a expedição não logrou sucesso, pois, nos momentos que precediam a partida dos navios de Marselha, a esquadra britânica, comandada pelo almirante Nelson, infligia pesada derrota à armada francesa em Abukir, colocando a Europa em bloqueio continental (ibidem, p.468). Mais uma vez, Humboldt veria seu desejo postergado.

Depois de outra tentativa fracassada, Humboldt segue com o amigo Bonpland para a Espanha, com o intuito de chegar à América. De posse de um plano expedicionário, seguem para um diálogo com o secretário de Estado, Dom Mariano Luiz de Urquijo, e, além disso, Humboldt, sendo de família nobre, dispondo de relações privilegiadas, contou com o apoio do embaixador saxônico, barão Von Forelli, para uma anuência com o rei de Espanha, Carlos IV (ibidem, p.470). Essa anuência é de extrema importância, pois é nela que Humboldt, além da permissão conseguida para o Novo Mundo, consegue uma carta do rei com

instruções a todos os capitães-generais, comandantes de

província, governadores, enfim, aos diversos funcionários da

coroa, para que facilitassem de todas as maneiras a passagem

dos viajantes pela América Espanhola. (ibidem, p.470)

Diener (2001, p.107) nos dá a dimensão desse fato para o logrado sucesso alcançado pelas obras pós-expedição, colocando que, se, por um lado, Humboldt menciona um rico referencial bibliográfico de autores hispânicos e hispano-americanos abarcando do século XVI ao XIX, por outro, ele teve acesso a um tipo de informação extremamente relevante, que era guardada sob grande sigilo, como documentos confidenciais de circulação restrita ou mesmo nula fora do fechado âmbito espanhol, e pela receptividade da coroa ao reconhecido cientista, o prussiano teve acesso praticamente ilimitado a esse legado científico gigantesco. Diener complementa: "equipado com uma sólida formação científica e achando-se em posse de fortuna pessoal considerável, [Humboldt] pôde tirar o máximo proveito da sua viagem e avançar nos estudos americanistas durante seu trajeto" (ibidem).

Em 15 de julho de 1799, aportavam em Cumaná, Venezuela, Humboldt e o companheiro Bonpland, após praticamente um mês de viajem da partida de La Corunã, em 5 de junho de 1799, no veleiro El Pizarro. Após novembro, rumaram para Caracas, com Bonpland por terra e Humboldt por mar. Nessa cidade, levantaram dados científicos, como medição de temperatura do ar, e adquiriram equipamentos para ultrapassar os lhanos rumo ao Orenoco; permaneceram no local até fins de 1800. Da viagem empreendida ao Orenoco, podem-se relatar a descoberta de espécies animais e vegetais e, especialmente, a confirmação definitiva das ligações entre as bacias do Orenoco e do Amazonas, que ainda permaneciam ignoradas pelas sociedades geográficas europeias (ibidem, p.472). Interessante observar a percepção de Humboldt para com os ameríndios, pois, de acordo com Diener (2001, p.113), o prussiano "faz referência à vida dos índios e às relações empíricas que estes mantêm com a geografia, que os leva a ser, em suas palavras [de Humboldt], ‘excelentes geógrafos’ e, portanto, uma boa fonte de informação".

É digna de nota a capacidade de Humboldt para coadunar conhecimentos adquiridos, que, utilizando-se de coordenadas astronômicas, pode colocar com precisão incrível para a época a localização de diversas áreas, como o lago Guaiania, cuja localização era desconhecida e de atributos místicos. É nesse ponto da viajem que Humboldt trava contato com oficiais portugueses, já devidamente alertados em ordem régia ao capitão-geral do Pará, Dom Francisco Maurício de Souza Coutinho, para

examinar com o maior cuidado se um tal barão de Humboldt ou

outro qualquer estrangeiro, andava viajando pelo território

daquela capitania, pois constava, que o tal barão, natural de

Berlin, andava explorando as partes superiores da capitania do

Maranhão, regiões desertas e até então desconhecidas de

todos os naturalistas. (Carvalho apud Penna, 1960, p.681)

E assim, as relações de Estado prevaleceram sobre as relações de ciência e pesquisa, no conhecido caso em que é negada a permanência de Humboldt em território português, e onde ele e o amigo Bonpland são encarcerados e têm seus bens e anotações confiscados, somente livres do cárcere pela intervenção do padre jesuíta Zéa (Aragão, 1960, p.472).

Do saldo do trajeto de Caracas até Angusturra, têm-se mais de três mil quilômetros de rios navegados e dezesseis mil itens colecionados e inventariados, dentre plantas, peles, rochas etc. (ibidem, p.472). Em 18 de dezembro de 1800, Humboldt e Bonpland se encontravam em Havana, onde pretendiam integrar a expedição de circum-navegação do globo empreendida por Baudin, porém os navios acabavam de zarpar da Europa, o que fez que Humboldt aproveitasse o tempo para viajar até Lima, à espera das embarcações. Durante esse percurso, aportam em Cartagena onde seguem por terra até Santa Fé de Bogotá, cidade na qual encontram o botânico José Celestino Mutis, responsável pela Expedición Botánica e que forneceu importantes conhecimentos sobre o ar atmosférico andino (ibidem, p.473).

Em janeiro de 1802, estavam em Quito, local no qual Humboldt parece desenvolver com mais afinco a percepção sobre os modos de vida do povo das colônias, especialmente o habitante nativo que guardava os costumes da pré-colonização. Em contato com a história inca e vendo na prática o trato com o habitante da colônia, o naturalista coloca em seus relatos e nas cartas endereçadas a seu irmão o repúdio aos atos praticados pelos espanhóis e antevê na efervescência das ruas o sentimento latente de liberdade, que culminaria na independência das colônias. O padre botânico Zéa e o assistente de Mutis, Francisco José de Caldas, desempenharam papel importante na contextualização dos fatos cotidianos e nos anseios do povo para os relatos de Humboldt. Zéa e Caldas foram executados posteriormente pela justiça espanhola, como nos mostra Aragão (1960, p.473).

Em Quito, deixa-se transparecer o Humboldt que zela pelo ideal da

liberdade,10 condenando a falta de imprensa livre, criticando o sistema de educação imposto às colônias, e até escrevendo folhetins com Carlos Montúfar, esse fuzilado posteriormente pelos espanhóis pelo símbolo que foi da emancipação colonial, como o foi Simon Bolívar (ibidem). É dessas experiências vividas que nascem os conteúdos das obras Ensaio do estado político do Reino da Nova Espanha e Ensaio político sobre a ilha de Cuba, onde combate fortemente o modelo de escravidão (Humboldt, 1822; Penna, 1960, p.680). Humboldt foi um homem de firmes convicções políticas liberais, defendendo sempre as aspirações dos grupos sociais oprimidos e as instituições livres (Capel, 2007, p.21). Dos manuscritos deixados por Humboldt, fica o reconhecimento na frase de Simon Bolívar: "Alexander Von Humboldt fez mais pela América que todos os seus conquistadores, ele é o verdadeiro descobridor da América".

Sobre essa questão, Aragão (1960, p.466-7) mostra um Humboldt de "sensível espírito humanístico", que percebe a maturidade política das colônias para se tornarem independentes. Essa faceta do naturalista, admirado com o "espírito de liberdade", pode ser considerada um tanto ingênua para a questão da América Espanhola e característica de um espírito humanístico idealista. Quem lhe tenta abrir os olhos é a figura do então presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, amigo e admirador de Humboldt. Na carta de Jefferson, de 1813, em resposta ao amigo Humboldt, consta o trecho que diz:

That they will throw off their European dependence I have no

doubt; but in what kind of government their revolution will end I

am not so certain. [...] And Mexico, where we learn from you

that men of science are not wanting, may revolutionize itself

under better auspices than the Southern provinces. These last, I

fear, must end in military despotisms. The different casts of their

inhabitants, their mutual hatreds and jealousies, their profound

ignorance and bigotry, will be played off by cunning leaders, and

each be made the instrument of enslaving others. But of all this

you can best judge, for in truth we have little knowledge of them

to be depended on, but through you.11

Os dois viriam a trocar uma série de correspondências, depois da extensão aos Estados Unidos da viagem de Humboldt a Cuba, e esse presentearia Jefferson com os resultados de suas pesquisas. Jefferson procura Humboldt até mesmo para auxiliar nas questões territoriais sobre os limites entre a Louisiana e a América Espanhola e sobre a etnia das populações que se poderia encontrar nessa região, bem como se existiam reservas minerais (Moheit, 1993, p.296).

Na América, Humboldt viria ainda a escalar o vulcão Chimborazo, realizando medições barométricas e experiências magnéticas e hidráulicas; faria observações astronômicas da passagem de Mercúrio sob o disco solar em Lima; observaria os satélites de Júpiter na aldeia de Jaen e, com medições lunares, corrigiria o mapa de La Condamine; catalogaria novas espécies e recolheria mais amostras mineralógicas; observaria as propriedades do guano e seu potencial econômico para a região; seria expectador das atividades do vulcão Cotopaxi; contemplaria as minas de Taxco e as montanhas de Nevada, as ruínas de Tula e tomaria contato com artefatos de civilizações pré-colombianas. Um dos ápices da viagem, em termos de descobertas científicas, foi a constatação da corrente do Pacífico Sul e os efeitos dela ocasionados.

 

Contribuições à constituição inicial da geografia

como ramo científico

Eu o considero o cientista mais importante que encontrei.

(Thomas Jefferson12) Na visão de La Blache (2001, p.5), temos um Humboldt preocupado com a coordenação e a classificação dos fatos, em que a conexão dos fatos é mais importante do que o fato em si, mesmo que esse seja algo novo. Ainda de acordo com La Blache (2001, p.5), a vertente mais ligada aos eventos da natureza "física", especialmente os estudos de botânica, transmitem à geografia o método de classificação das ciências naturais; contudo, isso não passa pela exclusão dos fatores humanos. Humboldt lança diversas bases para a geografia física, como em climatologia (termo provavelmente de sua autoria), botânica, orografia, oceanografia, geologia etc.; além disso, traz para a geografia fatores pouco explorados que agem sobre as populações, como a estatística, a economia política, a pesquisa da origem da línguas e das migrações humanas (Aragão, 1960, p.465).

Para La Blache (2001), o modo de visão de Humboldt sempre busca constituir quadros gerais, em que "uma vez conhecida sua repartição terrestre, as próprias relações apresentar-se-ão ao espírito". É com essa conduta metódica, que, segundo La Blache (2001, p.5), "das observações de temperatura que era possível reunir, ele retirava o traçado das linhas isotermas". Exemplo singular é o livro Quadros da natureza. De acordo com La Blache (2001), "ele [Humboldt] se destaca por mobilizar os fatos, convertê-los em fórmulas correntes e em dados comparáveis entre si", sendo as sistematizações tipológicas e os quadros de observação, portanto, uma das grandes e influentes contribuições desse cientista à geografia. Contudo, é importante levar em conta a consideração de Capel (2007, p.17) quanto a Humboldt buscar identificar e compreender as relações aparentemente desconexas dos fenômenos, cuja conexão não pode ser deduzida de um sistema taxonômico.

Em Humboldt já há uma perspectiva a formulação de leis terrestres e da interligação entre os diversos fenômenos (La Blache, 2001, p.6). O método comparativo que permite generalizações universais e a perspectiva histórica de evolução, em detrimento de uma natureza imutável, são as maiores contribuições de Humboldt para a ciência na visão de Capel (2007, p.17).

A Figura 1 é um dos trabalhos de Humboldt em conjunto com o botânico Joakim Frederik e integra o Physikalischer Atlas organizado por Heinrich Berghaus, o primeiro atlas a tratar a geografia física do mundo. Nela pode-se ter a noção do modo como o prussiano representava a conexão; no topo, constam os grandes elevados montanhosos, com suas respectivas zonas climáticas e latitudes, onde a vegetação aparece em níveis correlacionados com a altitude. O mapamundi traz as divisões fitogeográficas integrando-se perfeitamente com o gráfico estatístico das principais famílias de plantas à direita, que está dividido nas zonas fria, temperada e quente, mostrando a incidência de determinadas espécies em cada uma das zonas.

Figura 1 – Forma de representação clássica de Alexander Von

Humboldt sobre conexões de fenômenos. Fonte: Physikalischer

Atlas (Berghaus, 1845, p.259).

De Schelling ficam em Humboldt características de uma natureza orgânica, ligada a alguns pressupostos vitalistas de impulso vital, que mantém no prussiano elementos do transcendental, apesar de sua forte relação com a empiria e a busca de explicação dos fenômenos de forma precisa (como vimos no caso do lago assombrado por espíritos na América, o qual Humboldt desmistifica). A parte estética, como observamos, pode ser atribuída a influências de Schiller, sendo possível atribuir também, de acordo com Vitte (2007), influências kantianas, demonstradas por Capel (2007, p.18), pela aceitação de Humboldt da distinção kantiana de "sistemas da natureza"e "descrições da natureza".

Ainda quanto ao movimento romântico, o convívio com Goethe foi de influências mútuas. Capel (2007, p.15) nos relata a visita que Humboldt fez a Goethe em 1794, quando tomou conhecimento de um projeto de novela intitulado "Sobre o Universo" com uma concepção harmônica da natureza.

A ciência humboldtiana, que se estendeu para além do próprio Humboldt, traz o empirismo baconiano, muito presente no modelo científico do século XIX, e a preocupação com a mensuração precisa dos fenômenos, para aí proceder em generalizações, formulando leis, trabalhando com o que o prussiano denominava "física terrestre". Humboldt coloca que sua ideia de física terrestre difere da tradicional história natural "descritiva", quando declara: " [traveling naturalists] have neglected to track the great and constant laws of nature manifested in the rapid flux of phenomena…and to trace the reciprocal interaction of the divided physical

forces 13 " (apud Jardine et al., 1996, p.289).

Humboldt não se considerava um explorador, mas sim um viajante científico, que media com precisão o que os exploradores tinham relatado incorretamente (Cannon, 1978, p.75). A real busca é a interconexão dos fenômenos naturais, sua forma de sistematização, é por meio de leis matemáticas, gráficos, tabelas e mapas (ibidem, p.104-5). Para Capel (2007, p.15), existe fortemente em Humboldt a ideia de "harmonia", que, aliada à sua estada em Freiberg e aos seus estudos de Geognosia, provavelmente levou à ideia de "harmonia da natureza", e de que essa poderia ser empiricamente demonstrada. Esse é o grande projeto humboldtiano, um todo harmonioso, com partes intimamente relacionadas, e movido por forças internas, tudo passível de uma concepção idealista empiricamente demonstrável. A síntese dessas abordagens pode

ser observada no Organograma 1, a seguir:

Organograma 1 – Síntese das abordagens teórico-metodológicas de

Alexander Von Humboldt. Organização: Danilo Piccoli Neto e

Flamarion Dutra Alves.

Dentre inúmeras contribuições, como a melhor sistematização dos dados em cartas e mapas ou a idealização de perfis, está a genial ideia de isolinhas, amplamente difundidas em estudos climáticos e de geomorfologia, em que variáveis de mesma intensidade ou valor são conectadas por linhas, como no exemplo das curvas de nível.

A ideia de isolinhas já é notada nos textos redigidos após a expedição à Ásia; frutos de avaliações geomagnéticas para fins mineralógicos, aliados a uma ideia de Halley sobre magnetismo (Capel, 2007, p.19), ganham destaque porém em Cosmos: "While the geography of plants and animals depends on these intricate relations of the distribution of sea and land, the configuration of the

surface, and the direction of isothermal lines 14 " (Humboldt, 1858, p.163); além dela, é possível observar a visão de complexidade da natureza, da interrelação dos fenômenos, características que vão permear os volumes dessa grandiosa obra compilatória, reconhecida por muitos como a maior realizada por Humboldt, na qual ele dedicaria empenho até o final de sua vida.

Paul Claval (2006, p.64-6) atenta para o fato de que a postura de Humboldt em não se ater somente à justaposição dos fenômenos, e sim na procura das propriedades globais dos conjuntos, aliado à sua base empírica de campo e um entendimento da diferenciação regional da Terra, partindo das reflexões de Kant, fez que, como naturalista, introduzisse um conceito base para a geografia moderna: o de meio.

A América pode ser considerada o grande laboratório "vivo", onde o extraordinário conhecimento teórico de Humboldt pode ser colocado na prática com grande vigor, gerando inúmeros trabalhos e descobertas que contribuíram para a constituição inicial do saber geográfico. O prussiano compilaria diversos dados gerando cartas, mapas, gráficos e esquemas, constituindo o que seria o primeiro atlas temático em que se caracteriza um continente que não fosse a Europa (Beck apud Kohlhepp, 2006, p.268), presente que foi dado ao amigo Thomas Jefferson.

A diversidade de economias e prosperidade dos locais visitados fez que Humboldt realizasse estudos regionais comparativos, reforçados também pela diversidade do relevo, do clima e da vegetação, como os presentes nas obras Aspects of Nature in Different Lands and Different Climates (Humboldt, 1849) e Views of Nature: or Contemplations on the Sublime Phenomena of Creation (Humboldt, 1850). Na introdução da segunda obra, Humboldt nos diz: "I here present to the public a series of papers which originated in the presence of the noblest objects of nature, on the Ocean, in the forests of the Orinoco, in the Savannahs of Venezuela, and in the

solitudes of the Peruvian and Mexican Mountais 15 " (ibidem, p.IX). Quanto ao papel das regiões na obra de Humboldt, Capel (2007, p.20) nos chama a atenção para "quais são as raízes dessa valorização da ‘fisionomia das regiões’ é algo que está por se estudar".

Contribuiria sobremaneira para com a climatologia, dividindo as terras quentes, frias e temperadas, com base no conhecimento local dos habitantes da América; da viagem à Ásia viriam o "exame das causas das variações das isotermas em relação a sua disposição teórica segundo os paralelos e o papel das massas continentais e sua configuração topográfica" (Capel, 2007, p.19).

De visão arrojada, também notaria em um dos volumes a necessidade de uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico, sendo o "pai intelectual" do canal do Panamá (Kohlhepp, 2006, p.268). Demais obras surgiriam em conluio com outros cientistas, como os volumes de Equinoctial Regions of America, traduzidas para o inglês em 1907, e escrita com o amigo Bonpland.

Humboldt trabalha no segundo volume de Cosmos de maneira inicial e próxima ao que viria a ser a geografia descritiva tradicional, e trabalha o elemento paisagem (landschafts) como retrato e ligação entre observador e objeto, por meio da arte (pintura). O estudo da paisagem em Cosmos é um desdobramento de suas preocupações iniciais com a ideia de natureza, que são primeiramente tratadas nas obras Aspects of Nature in Different Lands and Different Climates (Humboldt, 1849) e Views of Nature: or Contemplations on the Sublime Phenomena of Creation (Humboldt, 1850), e que serão sistematizadas empiricamente após a viagem para a América em

Personal Narrative of Travels to the Equinoctial Regions of America During the Years 1799-1804. Não poderia faltar em Cosmos a menção às técnicas para o cultivo de plantas, sendo a botânica verdadeira paixão do prussiano.

 

Argumentações, críticas e considerações finais

É ainda corrente o ideário de que Humboldt seria o grande expedicionário europeu que viria a descobrir o intocado continente americano. Essa ideia está na frase transcrita anteriormente aqui de Simon Bolívar, em que há de considerar uma particularidade histórica de conter uma ideia de libertação do governo da metrópole espanhola, mas também persiste na atualidade como em Aragão (1960, p.465): "podendo [Humboldt], pois, ser considerado o descobridor científico da América do Sul". Vale ressaltar que na América Espanhola já ha-via estudos, e que uma rede de pesquisa em universidades e centros especializados se constituiria logo no primeiro século de colonização, como a Universidade do México que data de 1551, fazendo parte de uma estratégia de ocupação planejada da metrópole europeia em conhecer sua colônia para dela poder extrair recursos.

Não se pode de maneira alguma descartar a genialidade de Humboldt em analisar o cenário que vivenciou, especialmente na América; do mesmo modo, não se podem descartar os homens de ciência que realizaram estudos antes da chegada do prussiano, a retomada do papel desses estudos e pesquisadores também se faz importante nos dias atuais, para caracterizar a grande diversidade que foi a constituição da América, que chegou até o presente de forma enviesada.

O quadro sinótico conhecido como Naturgemälde ou "Quadro físico dos Andes" é um exemplo destes impasses. Há quem considere ser esse estudo fruto de cópia dos estudos de Francisco José de Caldas, que já havia publicado croquis do gênero (Diener, 2001, p.109). No entanto, Humboldt, antes da viagem à América, já vinha pesquisando a relação entre altitude e vegetação em seus estudos dedicados à Geografia das plantas, mas a publicação do quadro só surgiu após a viagem. Não cabe julgar quem "copiou" quem, muitas ideias comuns fluem em diversas partes do globo sem o contato entre os idealizadores, mas cabe levar em consideração a perspectiva oferecida por La Blache (2001) de um Humboldt compilador, atento à classificação dos fatos.

O prussiano certamente soube absorver as ideias de Caldas, mas o hispano-americano não viu no prussiano o devido reconhecimento, percebido na introdução espanhola de Geografia das plantas, 1805, escrita pelo próprio Caldas, que deixa transparecer certo descontentamento: "respeitando as luzes, os vastos conhecimentos e os grandes talentos deste viajante extraordinário [Humboldt], porém respeitamos muito mais a verdade" (Diener, 2001, p.110).

Como grande pesquisador reconhecido e reverenciado mundialmente com trabalhos de impacto, seria incomum acreditar que Humboldt estaria a salvo de críticas e das análises posteriores da história sobre a ocorrência dos fatos em seu tempo. Atualmente no México, discute-se como se deve entender a obra de Humboldt em relação à América, total inovação ou gigantesca compilação? (ibidem, p.111). A obra Ensaio político sobre o Reino da Nova Espanha é discutida com extrema virulência (ibidem), sendo esse trabalho considerado pioneiro na área de geografia regional e política. Por todas as referências que vêm à luz nos estudos de Humboldt, muitas vezes de trabalhos relegados ao esquecimento, ou pouco valorizados, Diener (2001, p.112) exemplarmente coloca que "podemos afirmar que um dos grandes descobrimentos da sua viagem consistirá, precisamente, em dar a valoração que merece à literatura científica da Espanha e América Espanhola".

Mais uma vez se recorre à caracterização de La Blache (2001) quanto a Humboldt, e essa é possível compreender na própria visão que o prussiano assume quando seu colega Berghaus, organizando atlas mundial, coloca o nome de "Corrente de Humboldt", a corrente fria do Pacífico Sul a que o prussiano fez menção em suas obras. Humboldt vê na homenagem do colega atitude exagerada, já que ele apenas trouxe o fato à tona, pois tal corrente já era conhecida há trezentos anos por pescadores e que o jesuíta José de Acosta já havia mencionado tal fato de as águas serem frias em seus relatos, sua única contribuição "consiste em ter sido o primeiro em medir a temperatura desta corrente de água" (Minguet apud Diener, 2001, p.106).

Vemos nesse fato o prussiano em uma atitude completamente modesta, que se assemelha a um Humboldt catalogador, que ligou conhecimentos já existentes para propor uma ideia nova. Fato é que essa concepção é inteiramente inovadora, apesar de relatos e medições pretéritos. O grande marco de Humboldt é justamente criar uma teoria para o fato das formações atmosféricas não atingirem o continente e gerarem os desertos na parte oeste do continente sul-americano.

Se conferir seu nome ao fenômeno pode ser considerada uma homenagem extremada por Humboldt, e se esse vê com modéstia sua descoberta com base em relatos existentes, não se pode deixar de constatar que esse homem, preocupado em fazer grandes compilações, com um conhecimento enciclopédico, não se ateve apenas a reproduzir, mas mostrou articular tudo isso para propor teorias explicativas. Talvez aí resida uma das maiores contribuições de Humboldt, não em descobrir explicações para fenômenos, medir com precisão locais a partir de conhecimentos astronômicos, mas sim em coadunar compilações para ousar em propor algo novo. Reside aí, talvez, o espírito que caracteriza os grandes homens da ciência.

 

Referências

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* Doutorando em Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia, Unesp – Rio Claro (SP). Bolsista Fapesp.

** Doutorando em Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia, Unesp – Rio Claro (SP). Bolsista CNPq.

1 Médico e fisiologista alemão, descobridor do potencial de ação em nervos e fundador da eletrofisiologia.

2 Barão Georges Cuvier. Naturalista francês que formulou as leis da anatomia comparada.

3 Jean Baptiste Joseph Delambre. Matemático e astrônomo francês. Solicitou à Academia de Ciências Francesa uma base de medidas universalmente aceita, da qual, após inúmeros encontros, resultou o metro.

4 Antoine Laurent de Jussieu. Médico e botânico francês, idealizador do sistema taxonômico de plantas denominado "Sistema de Jussieu".

5 René Louiche Desfontaines. Botânico francês.

6 Pierre Simon Laplace. Matemático, astrônomo e físico francês que organizou a astronomia matemática. Formulou a "Equação de Laplace", equação diferencial de extrema relevância utilizada em largos campos da ciência.

7 Antoine François de Fourcroy. Químico e político francês descobridor do fosfato de magnésio; criador do Museu Nacional de História Natural e re-estruturador do ensino superior, colégios e liceus franceses.

8 Claude Louis Berthollet. Químico francês, definiu pela primeira vez o conceito de equilíbrio químico.

9 Carta enviada pelo renomado biólogo no período de sua viagem no HMS Beagle ao seu tutor, o botânico e geólogo britânico John Stevens Henslow.

10 Lembremos que Humboldt trocava correspondências com seu irmão, não menos ilustre, Guilherme de Humboldt, que além de ajudar a constituir a Universidade de Berlim, o sistema educacional prussiano e dar contribuições à linguística como sistema, foi um grande contribuinte dos ideais liberais, escrevendo Os limites da ação do Estado, inspirando autores como John Stuart Mill.

11 Tradução dos autores: "Que eles vão sair de sua dependência europeia não tenho dúvidas, mas em que tipo de governo vai acabar a sua revolução não estou tão certo. [...] E o México, onde podemos aprender com você que os homens da ciência não estão querendo, pode revolucionar a si mesmo melhor do que as províncias do sul. Estes últimos, temo eu, devem terminar em despotismos militares. Os moldes diferentes dos seus habitantes, seus ódios e invejas mútuas, a sua profunda ignorância e intolerância, será a saída de líderes ardilosos, e cada um será o instrumento de escravizar os outros. Mas de tudo isso, você pode julgar melhor, pois na verdade temos pouco conhecimento com que podemos contar, mas através de você".

12 Estadista e filósofo político. Terceiro presidente dos Estados Unidos da América.

13 Tradução dos autores: "[viajantes naturalistas] têm negligenciado acompanhar as grandes e constantes leis da natureza manifestadas no fluxo rápido dos fenômenos... e traçar a interação recíproca das forças físicas divididas".

14 Tradução dos autores: "Embora a geografia das plantas e dos animais dependa destas intrincadas relações da distribuição de terra e mar, a configuração da superfície, e da direção das linhas isotérmicas".

15 Tradução dos autores: "eu aqui apresento para o público uma série de papéis que se originaram na presença dos objetos mais nobres da natureza, sobre o Oceano, nas florestas do Orenoco, nas savanas da Venezuela, e na solidão das montanhas do Peru e do México".