Histórias de Cronópios e de Famas

Julio Cortázar · Capítulo 13 de 69

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Histórias de Cronópios e de Famas

Correios e telecomunicações

 

Uma vez que um parente nosso muito afastado chegou a ser ministro, conseguimos que ele nomeasse boa parte da família para a sucursal do Correio da rua Serrano. Mas durou pouco. Dos três dias que estivemos lá, passamos dois atendendo o público com uma rapidez extraordinária, que provocou a surpreendida visita de um inspetor do Correio Central e um tópico elogioso em La Razón. No terceiro dia estávamos certos de nossa popularidade, pois as pessoas já vinham de outros bairros para despachar a correspondência e mandar vales postais a Purmamarca e outros lugares igualmente absurdos. Então meu tio mais velho deu sinal verde e a família começou a atender o público de acordo com seus princípios e preferências. No guichê de franquia postal, minha segunda irmã dava de presente uma bola colorida a cada comprador de selos. A primeira a receber a sua bola foi uma senhora gorda que ficou como que paralisada, com a bola na mão e o selo de um peso já umedecido que se enroscava aos poucos em seu dedo. Um jovem cabeludo recusou-se a receber sua bola, e minha irmã o repreendeu severamente, enquanto na fila do guichê começavam a levantar-se opiniões desencontradas. Ao lado, vários provincianos empenhados em remeter insensatamente parte de seus salários para parentes remotos, recebiam com certo assombro copinhos de bagaceira e de quando em quando pastel de carne, tudo isso por conta de meu pai, que além do mais recitava aos gritos os melhores

conselhos do viejo Vizcacha1. Enquanto isso, meus irmãos, pela janela de encomendas, as besuntavam com piche e as enfiavam num balde cheio de penas.

Depois as apresentavam ao assombrado remetente e lhe faziam notar com quanta alegria seriam recebidos os embrulhos assim melhorados. "Sem barbante à vista", diziam. "Sem o lacre tão vulgar, e o nome do destinatário que parece enfiado debaixo da asa de um cisne, repare só." Para ser franco, nem todos se mostravam encantados.

Quando os curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe encerrou o ato da maneira mais linda, fazendo voar sobre o público uma multidão de flechinhas coloridas, fabricadas com os formulários dos telegramas, vales postais e cartas registradas. Cantamos o hino nacional e retiramo-nos na mais perfeita ordem; vi chorar uma menina que era a terceira colocada na fila da venda de selos e sabia que tinha perdido a vez de ganhar uma bola.