Histórias de Cronópios e de Famas

Julio Cortázar · Capítulo 23 de 69

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Histórias de Cronópios e de Famas

Possibilidades da abstração

 

Trabalho há anos na UNESCO e em outros organismos internacionais, mas apesar disso conservo algum senso de humor e especialmente uma notável capacidade de abstração, isto é, se eu não gosto de um sujeito apago-o do mapa com uma simples decisão, e enquanto ele fala e fala eu me passo para Melville e o coitado pensa que o estou escutando. Da mesma maneira, se uma moça me agrada posso abstrair-lhe a roupa mal ela entra no meu raio visual, e enquanto ela fala como a manhã está fria eu fico longos minutos admirando-lhe o umbiguinho. Às vezes é quase doentia essa facilidade que eu tenho.

Segunda-feira passada, foram as orelhas. Na hora da chegada era extraordinário o número de orelhas que se deslocavam na galeria de entrada. Encontrei seis orelhas em meu escritório; na cantina, ao meio-dia, havia mais de quinhentas, simetricamente dispostas em fila dupla. Era divertido observar de quando em quando duas orelhas que pairavam no ar, saíam da fila e se afastavam. Pareciam asas.

Terça-feira escolhi algo que julgava menos frequente: os relógios de pulso. Enganei-me, porque na hora do almoço pude ver perto de duzentos que sobrevoavam as mesas com um movimento para trás e para frente, lembrando particularmente a ação de cortar um bife. Quarta-feira preferi (com certo embaraço) algo mais fundamental e escolhi os botões. Ó espetáculo! O ar da galeria repleto de cardumes de olhos opacos que se deslocavam horizontalmente, enquanto dos lados de cada pequeno batalhão horizontal se balançavam pendularmente dois, três ou quatro botões. No elevador a saturação era indescritível: centenas de botões imóveis, ou mal se mexendo, em assombroso cubo cristalográfico. Recordo sobretudo uma janela (era de tarde) contra o céu azul. Oito botões vermelhos desenhavam uma delicada vertical, e aqui e ali se moviam suavemente uns pequenos discos nacarados e secretos. Essa mulher devia ser tão bonita.

A quarta-feira era de cinzas, dia em que os processos digestivos me pareceram uma ilustração adequada à circunstância, pelo que, às nove e meia, fui melancólico espectador da chegada de centenas de saquinhos cheios de uma papa acinzentada, proveniente da mistura de corn flakes, café com leite e croissants. Vi na cantina como uma laranja se dividia em muitos gomos, que num momento dado perdiam sua forma e desciam um após o outro até formarem a certa altura um depósito esbranquiçado. Nesse estado a laranja percorreu o corredor, desceu quatro andares e após entrar num escritório foi imobilizar-se num ponto situado entre os dois braços de um sofá. Um pouco mais além via-se em análogo repouso um quarto de litro de chá forte. Como um estranho parêntese (a minha faculdade de abstração costuma exercer-se arbitrariamente), podia vislumbrar também uma baforada de fumaça que se afunilava verticalmente, dividia-se em duas bolhas translúcidas, subia novamente pelo tubo e depois de uma graciosa voluta se dispersava em resultados barrocos. Mais tarde (eu estava em outro escritório) achei um pretexto para tornar a visitar a laranja, o chá e a fumaça. Mas a fumaça desaparecera e em vez de laranja e do chá havia dois desagradáveis tubos retorcidos. Mesmo a abstração tem seu lado penoso; cumprimentei os tubos e voltei ao meu escritório. Minha secretária chorava, lendo o decreto pelo qual eu tinha sido dispensado. Para me consolar resolvi abstrair suas lágrimas, e durante certo tempo me deleitei com essas diminutas fontes cristalinas que nasciam no ar e se esborrachavam nas pastas, no mata-borrão e no boletim oficial. A vida está cheia de belezas assim.