Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

Flávio Medeiros Jr. · Capítulo 6 de 8

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Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

Por um fio

 

Um hom em tem m uito tem po para pensar quando a escuridão e o silêncio são absolutos. Nesses m om entos, em que se encontra irrem ediavelm ente entregue a si m esm o, a própria m ente torna-se a única com panheira, ainda que, pelo m enos no m eu caso, não sej a a m ais desej ável.

Desligo o fraco lam pião a gás, que providenciava m inha única fonte de luz, j á que a cham a consom e oxigênio, no m om ento o m eu bem m ais caro. Além do m ais, tudo que eu podia ver eram as paredes do estreito cubículo que cham o de “cabine do com andante”, e no vidro da escotilha um a im agem distorcida pelas som bras desse m eu rosto sulcado por anos de duras batalhas. Não estam os a um a profundidade suficiente para que o oceano lá fora estej a tão absolutam ente escuro; isso significa que ainda é noite. Vez ou outra um rangido percorre toda a extensão do subm ergível, com o se ele se aj eitasse brevem ente durante o sono em seu leito de lam a. Mas na m aior parte do tem po estam os reduzidos a isso: um punhado de alm as penadas no boj o de um túm ulo subm arino. Meus hom ens, com sua fidelidade canina, esperam por m im . Eu, com toda m inha experiência e paciência de pescador, tam bém espero. A estratégia nada m ais é do que a m ais refinada inteligência colocada a serviço da guerra, ainda que a princípio “inteligência” e “guerra” possam parecer duas palavras incom patíveis quando colocadas em um a m esm a frase.

A despeito de estar sendo construído sobre o alicerce de m ilhares de m ortos, este conflito que j á dura centenas de anos, m as que com o advento da hipocrisia dos governantes recebeu o nom e eufem ístico de “Guerra Fria”, teve sua origem em um a sequência de brilhantes m anobras estratégicas. Prim eiro, quando piratas ingleses valeram -se de artim anhas e intrigas para arrancar o Im pério Azteca das m ãos dos espanhóis, e em seguida transform aram aqueles selvagens em plum ados nos principais aliados do Im pério Britânico. Por outro lado, quando os derrotados espanhóis foram bater às portas do Im pério Francês em busca de socorro, foi um a j ogada inteligente a dos franceses anexando a Península Ibérica a seus dom ínios. Som ando-se a isso a invasão da Prússia e a aliança com o czar russo, concretizou-se a form ação da principal potência continental da Europa. Aos britânicos restou o controle quase absoluto das Am éricas e das distantes possessões na Ásia e África, o que faz deles o m aior im pério do m undo, porém o m ais disperso, relativam ente enfraquecido pelas distâncias excessivas. Assim foi estabelecido o frágil equilíbrio das forças antagônicas que com andam o planeta, que persiste através das eras com o a disputa eterna de dois vam piros invisíveis, m as sedentos de sangue.

Já faz tem po que os principais países em conflito não realizam significativas invasões territoriais. A guerra perm anece lim itada a escaram uças em águas distantes ou em territórios neutros, ou nas regiões incertas das fronteiras. Em geral, em lugares tão afastados dos grandes aglom erados populacionais que a im prensa j oga um im portante papel na m anipulação da opinião pública, m inim izando as próprias derrotas ou am pliando desm esuradam ente os atos heróicos de seus exércitos.

O refinam ento da civilização trouxe os avanços tecnológicos; na m aioria das vezes, adm ito e declaro aqui a mea culpa, criados para agir a serviço da m orte e do dom ínio do sem elhante. Trouxe tam bém a cham ada “diplom acia”, que para m im não passa de um a tentativa hipócrita de m inim izar as perdas, e os curiosos “códigos de ética”.

As luzes da m em ória afastam a escuridão sufocante do am biente, e m e transportam alguns poucos m eses ao passado, para um a m esa escondida pela penum bra em um dos cantos m enos barulhentos de um bar de m arinheiros de Le Havre. Meu im ediato, o experiente Tenente Le Beau, talvez sob efeito do excesso de rum , desabafava algum as inquietações profundas:

– Talvez o senhor possa m e explicar, Alm irante, por que não m andam os os botes salva-vidas para o fundo do m ar j unto com o m aldito navio.

Le Beau m al era capaz de conter sua frustração. O navio Abraham Lincoln, da m arinha estadunidense, vinha infligindo pesadas baixas em nossa frota do Atlântico, tendo inclusive afundado sete navios cargueiros que deveriam abastecer com suprim entos os com batentes franceses e ibéricos no front do Brasil. Eu m e encarreguei de caçá-lo pessoalm ente, e finalm ente o localizam os ao largo da baía de La Baule, num a noite de tem pestade. Conhecendo o poder de fogo do Lincoln, não lhes dem os tem po para reagir. Em ergim os a bom bordo do inim igo com o um narval enfurecido, e despej am os m etade da nossa carga de torpedos em seu flanco. O gigante se partiu em dois e, enquanto o m etal rasgado rangia em seus derradeiros suspiros, nossa tripulação uivava em j úbilo. Entrem entes, as cham as dos incêndios nos perm itiram vislum brar cerca de dez botes salva-vidas que se afastavam do local da tragédia, lutando contra as ondas do m ar revolto. Le Beau im ediatam ente destacou dois m arinheiros para operarem as m etralhadoras de proa, m as em seguida ordenei que ignorassem aquele com ando e retornassem aos seus postos. Desde então percebi um a sutil cortina de ressentim ento que se erguera entre m inha pessoa e a de m eu im ediato, e agora era o m om ento de colocar tudo às claras. Dei um gole prolongado em m eu copo de rum e respondi:

– A verdadeira am eaça j á estava elim inada, Le Beau. O Lincoln j am ais im portunará alguém que não os peixes. Nossa m issão foi cum prida com sucesso, não havia razão para prosseguir com a m atança.

– O Lincoln era apenas um a m áquina – ele se inclinou para frente por sobre a m esa, os dedos das m ãos crispados e os dentes à m ostra em um sorriso feroz. – O senhor sabe m uito bem disso. Não passava de um casulo de m etal cuspindo fum aça de vapor pelas cham inés e fogo dos canhões pelo oceano afora, m as ele não tinha alm a nem vontade própria. O verdadeiro inim igo, que alim entava as caldeiras e disparava os canhões, estava naqueles botes salva-vidas. Foram eles que assassinaram dezenas dos nossos soldados que agora j azem no fundo daquelas águas, e eles sim plesm ente passaram rem ando por sobre suas carcaças rum o à segurança da costa porque nós perm itim os que escapassem .

– É provável que nem todos tenham conseguido, Im ediato – eu tentava parecer casual. – A tem pestade estava forte naquela noite e sem um a orientação adequada é possível que m uitos deles tam bém tenham sucum bido ao m ar.

Le Beau se recostou, fazendo a cadeira ranger, e franziu o cenho. Balançava a cabeça debilm ente para os lados em um a negativa inconsciente, com o um garoto inconform ado por ter sido privado pelos pais do direito de praticar seu esporte predileto.

– Isso não m e satisfaz, senhor. Desculpe a franqueza, m as deixar que Netuno realize a m elhor parte do m eu trabalho não m e deixa feliz.

– Talvez essa não sej a a “m elhor parte” do seu trabalho. Você ainda confia em m im , Le Beau?

– Com o sem pre, Alm irante. Não ouse colocar isso em dúvida.

– Nesse caso, peço que dê tem po ao tem po. Tenho certeza de que este velho lobo do m ar ainda viverá o suficiente para ver você com preender o significado de tudo isso.

Olhando para m eu im ediato eu via a m im m esm o nos prim eiros anos dessa loucura. Cresci em um a pequena aldeia nas m ontanhas, m as m eu am or pela ciência levou-m e ainda m uito j ovem para longe da m inha fam ília. Na cidade grande pude m e aprofundar nos oceanos de conhecim ento da física, da m ecânica, da engenharia naval, e eu sonhava um dia poder alcançar sucesso o suficiente para dar a m eus pais e irm ãos um a vida m ais digna. Até que a notícia chegou e m e atingiu com o um torpedo.

Eu nunca vi aquelas cenas na realidade. Eu não estava lá, na aldeia das m ontanhas, quando os soldados ingleses chegaram . Jam ais senti o calor das cham as que consum iram as casas daquelas fam ílias de agricultores. Jam ais ouvi os gritos de terror e de dor, inclusive os de m eus pais e irm ãos. Não vi m inha j ovem irm ã ser capturada viva por aqueles hom ens im undos e fedidos, não os vi rasgarem suas roupas e...

Acordo banhado em suor, e m eu grito ecoa pelas paredes da m inúscula cabine. Tudo é escuridão, e dou graças a Deus por isso. Era um sonho. O m esm o sonho de novo, que m e levou a vender m eu talento para a guerra, essa tirana sanguinária a quem m e vej o obrigado a servir, e a quem odeio por m e fazer sentir com o o pior dos seres.

Não sou dado à falsa m odéstia; reconheço que tenho m uito valor. A prim eira nave subm ergível que construí foi um sucesso estrondoso entre os franceses, que m e acolheram com alegria. É a m esm a que m e acom panha até hoj e, aqui nesse escuro fundo de m ar, equipada com o passar dos tem pos com o m elhor que existe em term os de arm am ento. Hoj e com ando pessoalm ente a unidade m ais antiga, m as ainda a m ais tem ível de toda a frota francesa de subm ergíveis que faz trem erem as tripulações dos navios ingleses no Atlântico e no Canal da Mancha. O poder explosivo de m eus torpedos é insuperável. Minhas m etralhadoras de repetição da proa transform am carne em poeira sangrenta. Meus pioneiros m ísseis terra-ar perm anecem sendo um a exclusividade da m arinha francesa, e podem atingir um a fortaleza voadora sem que o subm ergível tenha ainda que estar visível na superfície do oceano. Assim eu m e tornei o rei dos m ares, enquanto o m aldito estadunidense que se encontra em algum lugar na escuridão que m e cerca dom inou os ares com seus dirigíveis de batalha, em favor do Im pério Britânico.

Era inevitável que nos encontrássem os um dia. As histórias contadas pelos tabloides a respeito do m eu nêm ese, m uitas delas provavelm ente lendas, praticam ente fazem de nós dois irm ãos gêm eos. Certa vez ousaram afirm ar isso literalm ente, referindo-se a nós dois com o “gêm eos nascidos em lados opostos da guerra”. O que se pode dizer de concreto é que o hom em era discípulo e protegido do Doutor Fergusson, o brilhante cientista inglês radicado na Am érica, pioneiro na construção de aeróstatos que, graças a suas valiosas contribuições ao increm ento da m aquinaria de guerra britânica, acabou sendo assassinado por um espião francês nos Estados Unidos. Mal sabia a Inteligência Francesa que seu protegido era um cientista ainda m ais brilhante, que dedicou todo o seu talento e fúria ao increm ento da frota de dirigíveis, para que se tornassem o que são hoj e: fortalezas voadoras quase im batíveis, cada unidade dotada de um poder de fogo capaz de riscar do m apa um a cidade inteira. Sua velocidade de m anobra e a possibilidade de se deslocarem nas três dim ensões do espaço dão a elas um a significativa vantagem sobre os sim ples navios, de deslocam ento bidim ensional na superfície da água, enfrentando, além disso, um a resistência m uito m aior aos seus m ovim entos do que aquela im posta pelo ar.

Eis porque o m aior adversário reconhecido das fortalezas voadoras são os m eus subm ergíveis: além de contarm os com a m esm a vantagem do deslocam ento tridim ensional, que nos perm ite buscar abrigo nas profundezas com o fazem os agora, o oceano nos fornece a dádiva da invisibilidade, possibilitando nossos ataques com enorm e velocidade e absoluta surpresa. Os estadunidenses foram obrigados a investir na criação de potentes cargas de profundidade, bom bas que explodem vários m etros sob o m anto das águas e que, efetivam ente, j á nos causaram consideráveis baixas. É por essa razão que j á se contam em dezenas os confrontos entre esses dois grandes inim igos, a frota aérea estadunidense e a frota subm arina francesa, que escreveram sem nenhum a dúvida um capítulo m uito particular na história desta longa guerra. Perm anece o frágil equilíbrio das forças antagônicas que com andam o planeta. Perm anece a disputa eterna dos dois vam piros sedentos de sangue.

Olho na direção da escotilha da cabine, e tenho a im pressão de que posso vislum brar os contornos circulares do vidro, um a tênue bola azul escura que ainda m al se destaca do todo negro que nos cerca. Isso significa que lá na superfície j á deve estar am anhecendo.

Recordo-m e da tarde anterior, ainda que j á m e pareça ter se passado pelo m enos um ano. Estávam os patrulhando às escondidas a costa ocidental da Irlanda, algum as m ilhas a oeste de Westport, onde os ingleses m antêm um a im portante fábrica de navios. Caso pudéssem os com provar que ali estariam sendo construídos navios de guerra, o porto de Westport se transform aria instantaneam ente em alvo m ilitar.

O m ar estava excepcionalm ente calm o, algo incom um para aquela região em particular e o céu verm elho antecipava um a noite m uito fria. Talvez fosse um a boa oportunidade para arriscarm os um a aproxim ação m aior, para darm os um a boa olhada em nosso alvo.

Encontrava-m e no alto da torre externa, a gola do sobretudo erguida contra a inclem ência de um vento gelado, perscrutando o horizonte com m inha luneta em busca de algum sinal de vida na costa pedregosa, quando percebi um a som bra alongada passar pelo m eu cam po de visão diante dos raios m oribundos do sol poente. A estratégia da fortaleza voadora foi im pecável: posicionou-se num ponto onde pudesse perm anecer pelo m aior tem po possível cam uflada, graças à ofuscação provocada pelo sol na linha do horizonte, e aproxim ou-se de nós silenciosam ente pouco acim a da superfície do m ar. Quando dei o alerta aos berros, j á se encontrava bem em cim a de nós. Eu acabava de fechar a escotilha externa e dava as prim eiras ordens a um bando de m arinheiros esbaforidos, quando o subm ergível foi sacudido por um a violenta explosão bem do lado de fora do casco. A eletricidade, nossa fonte de vida sob as águas, piscou terrivelm ente, m as resistiu. Ordenei, em caráter em ergencial, o disparo livre de todas as baterias externas dos canhões de bom bordo, e o lançam ento de quatro m ísseis terra-ar disparados em cone invertido por sobre nossa nave. Mal a ordem havia sido cum prida e novas explosões nos fizeram balançar de m aneira aterrorizante. O casco rangeu com o se fosse ceder, várias luzes de bordo se apagaram , e diferentes setores do subm ergível reportavam à ponte de com ando, com vozes aflitas, um a série de pontos de alagam ento ou panes elétricos.

Minha voz ergueu-se acim a daquela balbúrdia ordenando a subm ersão de em ergência, e com o acionar de um a série de botões por m ãos trêm ulas que ansiavam por aquela ordem os tanques de lastro abriram -se de um a vez, provocando som sem elhante a diversos sinos badalando sob o m ar. A água salgada inundou os com partim entos, e afundam os com total velocidade até atingirm os o fundo lam acento, onde estancam os com um baque surdo. Durante um m inuto ou dois não houve nenhum som além da confusão de gritos da tripulação, fossem m otivados pelo pânico ou sim plesm ente trocas de com andos na tentativa de estabilizar nossa precária situação. Mas logo as explosões recom eçaram e pareciam estar ocorrendo bem perto de nossa posição.

– Cargas de profundidade! – gritou Le Beau – Desliguem as luzes elétricas e o equipam ento não essencial!

– Silenciem os m otores! – com pletei.

A ordem foi obedecida à risca, e até m esm o os gritos cessaram , em bora talvez m ais pelo absoluto pavor do que por obediência. O boj o da em barcação ficou com pletam ente escuro, até que os tênues focos dos lam piões a gás com eçaram a acender em um ponto ou outro dos corredores e conveses, lançando som bras fantasm agóricas ao redor. Perm anecem os na penum bra, em total silêncio, ouvindo as explosões lá fora. As prim eiras ainda fizeram com que o subm ergível balançasse, m as aos poucos os estrondos foram ficando m ais fracos, com o um a tem pestade que se afastasse de nossa posição, até que cessaram com pletam ente. Pela prim eira vez suspirei, aliviado. Ainda estávam os vivos, e pelo que conhecia a respeito do m eu inim igo, eu sabia que isso não significava pouca coisa.

Analisando por certo ângulo, um subm ergível sem energia não é m uito m ais que um esquife m ortuário enfeitado com equipam entos tecnológicos. O ar j á seria um bem precioso em circunstâncias norm ais. Sepultado por inexoráveis toneladas de água salgada, assom brado pelo espectro da im possibilidade de sair dali, e sentindo nos pulm ões a ardência da atm osfera m aculada por nuvens de fum aça, é necessário m uito valor para que um pobre m ortal não se entregue aos tentáculos da claustrofobia e do pânico. Cam inhando pelos corredores eu podia sentir com o algo palpável o desespero da tripulação; ignorava respeitosam ente os incontroláveis gem idos e trem ores de um e outro. Intim am ente, agradecia com ovido por seus esforços heroicos na tentativa de m anter a calm a e a disciplina diante do desastre.

Não dem orou m uito para que Le Beau se aproxim asse e, aos sussurros, m e fizesse um relatório sum ário a respeito dos danos j á contabilizados. A situação não era nada boa.

– Recebem os inform es sobre cinco feridos sem gravidade e m ais dois que inspiram m aiores cuidados. Três focos de incêndio j á foram com pletam ente controlados. Parte do arm am ento de bom bordo está inutilizada, assim com o as saídas traseiras dos m ísseis terra-ar. O lem e em perrou, as hélices de popa não respondem . Perdem os dois terços das baterias elétricas e grande parte do suprim ento de ar, não apenas pelos reservatórios que foram atingidos, m as tam bém pelos vazam entos no casco. Três conveses estão com pletam ente inundados, m as j á devidam ente isolados. O reservatório de piroxila felizm ente não foi afetado pelo ataque.

– Não vej o m uito que possam os fazer aqui no fundo...

– Um a inspeção externa poderia nos dar um a ideia m ais precisa da real extensão dos danos, principalm ente na parte traseira, que com prom eteram m uito nossa capacidade de m anobra.

– Obviam ente precisaríam os em ergir para fazer isso.

– Estive pensando em lançar um sino de m ergulho com dois ou três escafandristas a bordo...

– Para isso teríam os que acionar m otores para o bom beam ento de ar dentro do sino. Ar, a propósito, que não é um bem que possam os desperdiçar no m om ento. E com o j á anoiteceu, teríam os que acionar luzes para a inspeção, o que seria um descuido fatal. O m ar neste local não m e parece ter profundidade suficiente para nos m anter livres de localização por parte do inim igo, principalm ente com as luzes acesas.

– Talvez com a chegada da m anhã tenham os um a lum inosidade externa suficiente para...

– Quanto m ais luz houver lá fora, m ais fácil será para que a fortaleza voadora nos aviste do alto. Não sabem os se eles ainda dispõem de cargas de profundidade. Portanto, creio que terem os que pensar em algo diferente, e bem rápido, Le Beau.

O im ediato rosnou um a praga pouco lisonj eira.

– Detesto m e sentir com o um rato preso em um a ratoeira subm arina. Gostaria de ter o tem po necessário para pousar m eus dedos em torno da garganta de cada inglês vivo, e um a lâm ina bem afiada para testar a resistência do couro de seus am igos aztecas.

– Que em seus sonhos, pelo m enos, você possa encontrar algum alívio. Bem , não vej o m elhor rem édio do que aproveitar a proteção da escuridão para ficarm os bem quietos e descansarm os um pouco. Creio que vou até m inha cabine.

– Se m e perm ite vou perm anecer aqui por enquanto, Alm irante. Não vej o com o o ódio que m e consom e o peito m e perm ita desfrutar de qualquer repouso.

– Quero que m e inform e sobre qualquer novidade, e de um a form a ou de outra m e cham e para rendê-lo em quatro horas.

Retirei-m e para m eus aposentos com o auxílio de um lam pião a gás, sem conseguir evitar um sorriso triste diante da im petuosidade e raiva m anifestas por Le Beau. Sim , não era o m om ento de confessar, m as um dia fui exatam ente com o ele. Quem poderia m e censurar por isso? Qual hom em neste planeta, independente das cores da bandeira que defende, poderia dizer que conseguiu viver sua vida im une aos efeitos diretos ou indiretos desse conflito insano que j á perdura por gerações? Foi j ustam ente o ódio, com o j á disse, e o desej o de vingança, que im pulsionaram m inha inteligência e m inha m ão criadora para dentro da tem pestade. Isso prevaleceu durante um a eternidade, até o m om ento preciso em que algum a coisa m udou, com o se as águas turvas se tornassem de repente um pouco m ais lím pidas, perm itindo-m e ver contornos e detalhes inesperados.

Aconteceu pouco tem po, um ano ou dois, antes que Le Beau se j untasse a m inha tripulação. Meu im ediato era o Tenente Rochelle, um bom m arinheiro, que depois de prom ovido assum iu o tim ão do subm ergível Calamar.

Estávam os havia seis dias esquadrinhando as águas próxim as à entrada do Mediterrâneo, à caça de um destroyer inglês que causava terror na frota unificada dos ibéricos, atacando com rapidez e precisão navios solitários de patrulha ao longo da costa atlântica. Era um a noite de m uita neblina quando detectam os o navio de bandeira britânica, tentando passar despercebido com ilum inação reduzida pelo nevoeiro, em direção à costa africana. Estávam os todos cansados e irritados com a dem ora da m issão, j á que naqueles dias tediosos não havíam os nos deparado ainda com nenhum a pista do inim igo, em bora os relatórios sobre ataques continuassem chegando. Dei a ordem com prazer, e um a salva de torpedos colocou o navio a pique. Com em oram os brevem ente com rum , antes de tom arm os o rum o de volta para Le Havre. Na m etade do dia seguinte recebem os a com unicação: havíam os afundado o navio errado. De fato a bandeira era inglesa, e a atitude furtiva provavelm ente devia-se ao tem or da tripulação por estar atravessando o oceano ao largo da costa de países sabidam ente hostis. Em vez de um destroyer, eu havia ordenado a destruição de um navio de passageiros, o Príncipe de Gales, que se dirigia a um a colônia inglesa na África. Havia relatos de alguns sobreviventes, m as confirm ou-se a m orte de m ais de oitenta civis.

Na guerra, enganos desse tipo são relativam ente com uns. Em term os práticos, com andantes das Forças Arm adas e políticos os condenam oficialm ente, m as são na realidade tratados com o “perdas aceitáveis”. Um incidente infeliz. Um a fatalidade.

A m im fez um m al im enso reconhecer-m e com o o protagonista de um a “fatalidade” com o aquela. Mais do que nunca m inhas poucas horas de sono passaram a ser assoladas pelos pesadelos, que retratavam em cores carregadas o m assacre de m inha vila natal pelo exército colonial inglês. Com o j á disse, eu não estava presente no dia fatídico, m as m eu espírito se encarregava, através dos sonhos, de torturar-m e com im agens que, eu tinha um a dolorosa certeza, eram tão terríveis com o as que de fato ali se desenrolaram . Mas agora os pesadelos vinham acrescidos de um requinte de crueldade: eu via m inha fam ília no convés de um navio de passageiros, no m om ento em que surgia ao largo, vinda das profundezas, um a nave subm ergível. O meu subm ergível! Meu pai apontava, assustado, para as linhas brancas de espum a que m arcavam a trilha m ortal dos torpedos se aproxim ando. Eu acordava banhado em suor no m om ento da explosão, quando a bola de fogo envolvia m inha m ãe e irm ãos.

Para m im não bastava o rótulo de um “incidente infeliz”. Eu tinha certeza de que não era com esses term os que os poucos sobreviventes definiam o episódio, e certam ente não se referiam à m inha pessoa com tanta condescendência. Por outro lado, eu sabia que m eu coração não era o de um m onstro assassino. Por analogia, a despeito das atrocidades com etidas contra m eu povo e fam iliares, seria j usto considerar que, nas fileiras do im enso exército britânico espalhado ao redor do m undo, houvesse pessoas boas e j ustas com o eu m e considerava, que por um a trágica fatalidade m e via obrigado a rotular com o “inim igos”, m as que talvez pudessem ser pessoas de agradável convívio e até am igas, em um m undo hipotético m elhor que este.

Desde então destituí m eu ódio de sua patente de general em m inha vida, e o coloquei em segundo plano sob estreita vigilância. Passei a m e esforçar para que a razão equilibrada e a sensibilidade, ainda que nos m om entos m ais críticos, participassem sem pre de m inhas decisões de com ando. Tudo que eu esperava era que pudesse ter a oportunidade de fazer com que m eu bom im ediato com partilhasse dessa visão. Mas encalhado no fundo do m ar, envolto pela escuridão im penetrável, eu adm ito que, naquele exato m om ento, os inim igos que enfrentávam os não estavam colaborando m uito com m inha nova concepção da guerra.

Minhas reflexões são interrom pidas por um a tím ida batida à porta da cabine. Volto a acender o lam pião e abro a porta. Mesm o sob a luz m ortiça sou capaz de perceber o olhar desanim ado de Le Beau.

– Com licença, Alm irante. O senhor pediu que eu o inform asse ao final do turno de quatro horas...

– Perfeitam ente, Im ediato. Algum a novidade sobre nossa atual situação?

– Nada em relação ao inim igo. Não há com o saber se ele ainda se encontra à nossa espera na superfície.

– Ah, ele está lá, pode ter certeza.

Le Beau m e contem pla com um olhar enigm ático. Ele quer saber de onde vem tam anha convicção. Eu explico:

– Enquanto eu estava lá em cim a, na torre externa, pude dar um a boa olhada na fortaleza voadora que nos surpreendeu. Era o Albatroz.

– O Albatroz... – A exclam ação de m eu im ediato traduz um a legítim a surpresa, m esclada com um toque de veneração.

– Isso m esm o, Le Beau: é a nau capitânea da frota aérea estadunidense, enfrentando a nau capitânea da frota subm arina francesa. Que ironia, não?

– Então o com andante deles deve ser...

– O próprio. Dizem os j ornais que eu e ele som os “gêm eos”, sabia disso? Caso isso sej a verdade, acredito que possa prever seu com portam ento a partir do m eu próprio. Se eu estivesse lá, acim a das águas, saberia com certeza que consegui avariar seriam ente este subm ergível. Saberia que é só um a questão de tem po até que ele tenha que voltar à superfície, se ainda for capaz de tanto. Portanto estej a certo, Le Beau: ele vai esperar. Pelo m enos por enquanto, ele vai estar lá fora aguardando.

Meu im ediato suspira, desanim ado.

– Nesse caso, tem o que ele não tenha que esperar m uito, senhor.

– Que notícias são essas, que você m e traz na escuridão de m inha cabine?

– A pane elétrica é m ais séria do que im aginávam os a princípio. Todo o sistem a de lançam ento dos m ísseis terra-ar encontra-se com prom etido. Os canhões que ainda funcionam tam bém terão, em caso de necessidade, que ser abastecidos e m ovim entados à m ão. Porém o m ais grave é nossa reserva de oxigênio...

– Isso não m e surpreende. Aqui m esm o, enquanto falam os, j á posso perceber um a m aior dificuldade para respirar.

– Exatam ente. Em m uito poucas horas, não terem os alternativa senão em ergir para renovar as reservas de ar. Bem , a não ser que...

A hesitação de Le Beau não m e passa despercebida, antes m esm o da pausa em sua fala.

– Continue, Im ediato.

– Com o o senhor sabe, existe o sistem a de oxigenação de em ergência. Isso deve resolver o problem a de oxigenação da tripulação essencial da ponte de com ando por vinte e quatro horas.

A insinuação por trás daquela sim ples frase tem a força de um a traiçoeira e invisível correnteza subm arina, e nada m ais precisa ser explicado. O “sistem a de oxigenação de em ergência” foi um a exigência do Com ando Naval para aum entar as chances de recuperação de um subm ergível após um a tragédia. É tecnologia secreta e legitim am ente francesa. Através de um processo relativam ente sim ples, o aquecim ento de oito quilos de clorato de potássio pode liberar três quilos de oxigênio, convertendo-se em cloreto de potássio. Com o disse Le Beau, Isso deve resolver o problem a de oxigenação da tripulação essencial da ponte de com ando por vinte e quatro horas. Mas apenas da ponte de com ando, nada m ais.

– A tripulação da ponte consiste em seis tripulantes, Le Beau.

– Estou ciente disso, Alm irante.

– Então tam bém deve estar ciente de que a tripulação com pleta desta nave é de trinta hom ens, correto?

Le Beau perm anece cabisbaixo e em silêncio. Eu não posso condená-lo; sua obrigação é m anter-m e a par de todas as alternativas possíveis.

– Grato pela lem brança, m as você conhece bem m inha m aneira de pensar: ou todos se salvam ou ninguém se salva. Entendido?

– Perfeitam ente, senhor.

– Nesse caso, que outras opções tem os?

Ele lança um olhar para a escotilha da cabine, por trás da qual a água do oceano j á assum ia um tom nitidam ente azulado.

– Para que não m orram os asfixiados, devem os retornar à superfície em no m áxim o três horas. E ainda assim , pelo que o senhor supõe, sobreviver não será um a tarefa fácil.

Levanto-m e da cam a e dou dois passos até a escotilha. Não havia m e dado conta de que, j á faz m uitos anos, o oceano é m eu lar. É aqui que eu vivo, e é aqui que eu quero m orrer. Mas não agora. Ainda não.

– Está a par das notícias sobre os avanços tecnológicos da frota aérea am ericana, Im ediato?

– Não sei ao certo, Alm irante...

– Nossa Inteligência apurou que eles estão tentando transform ar as fortalezas voadoras em veículos anfíbios, capazes de se deslocar tanto no ar quanto sob as águas. Sabia disso?

O sorriso de desdém de Le Beau é bem visível na penum bra. Sua voz destila desprezo quando diz:

– Sem qualquer sucesso, im agino.

– Correto. Ainda sem nenhum sucesso – tenho o cuidado de sublinhar a palavra “ainda”. – Se eu estivesse ao com ando daquela fortaleza voadora lá em cim a, sabe o que estaria se passando em m inha m ente?

Ele perm anece em silêncio, na expectativa.

– Eu estaria vendo neste incidente um a oportunidade inestim ável para colocar m inhas m ãos em um autêntico subm ergível francês.

– Isso j am ais aconteceu, Alm irante!

– E não seria j usto que acontecesse j ustam ente com a nau capitânea da frota, não concorda? Eu preferiria m orrer a colocar nossa tecnologia à disposição do Im pério Britânico.

– Tenho certeza de que essa é a opinião da tripulação inteira.

– Eu tam bém . Mas nada im pede que defendam os o que é nosso até o últim o instante. Não tem os m ais m ísseis terra-ar e nossas m anobras com os canhões laterais estão com prom etidas. Mas enquanto aqueles ingleses tentam se aproxim ar para pegar seu prêm io, acredito que possam os fazer um belo estrago com as m etralhadoras de proa, você não acha?

– Com certeza. Seria um prazer tentar, ainda que eu não acredite que sej a o suficiente para deter um a fortaleza voadora.

– Com o está nosso depósito de piroxila?

– Cheio quase até o topo.

– Então, por favor, providencie a instalação de cargas explosivas no depósito. Quando não houver m ais nada a fazer a não ser capitular, creio que ainda podem os proporcionar um belíssim o espetáculo pirotécnico a nossos inim igos e, quem sabe, dependendo da sua proxim idade, fazer com que eles m esm os participem da festa.

Le Beau faz um a continência im pecável e pede licença para se retirar. Eu praticam ente acabava de declarar sua sentença de m orte e a de toda a m inha tripulação, m as podia perceber claram ente o orgulho com o qual ele se incum biria dos preparativos. É um bom soldado. Todos são, eu os escolhi a dedo. Nenhum deles m erecia term inar sua história assim , tão j ovem . Essa era um a das brutais insanidades da guerra.

A piroxila era um a invenção francesa, m as j á disponível do lado britânico, graças à eficiência da espionagem . Mais potente que a pólvora em seu potencial explosivo, e ocupava m enos espaço, o que era essencial em veículos subm ergíveis, onde espaço físico é precioso. É ela que abastecia nossos m ísseis e canhões. Em últim o caso eu não hesitaria em fazer m eu navio em pedaços, antes que o inim igo pudesse fazer dele um troféu.

As duas horas seguintes, que passo na ponte de com ando, parecem sem anas. Ao final desse tem po, o sim ples ato de respirar j á representa um esforço heroico. Pelas escotilhas posso ver o oceano clareando inexoravelm ente. Estam os em águas ainda m ais rasas do que eu havia im aginado. Logo o risco de serm os detectados pelo inim igo a partir do céu será alto dem ais. Nesse caso, se eles ainda tiverem cargas de profundidade, estarem os perdendo nossa única chance de lutar pela sobrevivência. Não há m ais por que adiar o confronto. Dou a ordem :

– Tripulação, postos de com bate. Tenente, esvaziar tanques de lastro. Vam os subir e ver do que esses am ericanos são feitos.

O acionar dos m otores faz o subm ergível estrem ecer, m as o som foi tristem ente m ais tênue do que eu estava acostum ado. Minha querida nave está nas últim as. Ouço o ranger das escotilhas inferiores, e o boj o inteiro balança. As bom bas que drenam a água contida nos tanques de lastro iniciam um zum bido preguiçoso. Lentam ente, com eçam os a em ergir.

– Peço perm issão para operar um a das m etralhadoras de proa, senhor.

– Será um prazer tê-lo ao m eu lado, Le Beau. Mas antes, por favor, designe um de seus hom ens de m aior confiança para ficar a postos j unto ao detonador da piroxila.

O Nautilus, orgulho m aior da frota subm arina francesa, ainda que m ortalm ente ferido, desponta na superfície exibindo ao sol nascente toda a beleza de seu perfil m etálico. Im ediatam ente abro a escotilha superior e salto para a proa, auxiliado por um m arinheiro que transporta as fitas de cartuchos da m unição. Le Beau salta logo atrás de m im com seu próprio aj udante, e vai logo dando o alerta:

– Fortaleza inim iga às dez horas!

Crispo m inhas calej adas m ãos em torno das alças m etálicas da m etralhadora e giro-a na direção indicada. O que vej o é surpreendente.

O Albatroz encontra-se a cerca de trinta m etros, m uito próxim o à linha d’água. Em caso de um a tem pestade, as ondas m ais altas seriam capazes de lam ber o fundo de sua cabine retangular, pendurada no ponto central sob o gigantesco balão dirigível. Essa cabine, para m inha surpresa, encontra-se em posição oblíqua, encurvada sobre seu eixo horizontal para estibordo. Observando m elhor, todo o balão está encurvado. Em vez do tradicional form ato de charuto, exibe a grotesca form a de um a banana, com a parte central m ais baixa que as extrem idades. Percebo que, no lado superior, cerca de m etade de seu form idável conj unto de hélices, que possibilitavam sua flutuação e m ovim entação em altas velocidades, está im óvel. A im pressão que aquele quadro deixa é de que o Albatroz m al está sendo capaz de se m anter no ar, lutando com todas as forças para não sucum bir ao oceano.

O vento m arinho faz com que o colosso gire lateralm ente, e só então m e deparo com a causa do fenôm eno: toda a parte posterior da cabine alongada, onde deveria estar a casa de m áquinas, encontra-se enegrecida e parcialm ente destruída. Um a tênue fum aça escura ainda brota dos profundos cortes no m etal em seu flanco e na parte inferior. Le Beau pronuncia em voz alta o diagnóstico que eu tam bém j á deduzira; sua voz sai carregada de excitação:

– Sacre Bleu! Foi um de nossos m ísseis, Alm irante! Daqueles quatro que disparam os em caráter de em ergência e às cegas, antes de subm ergirm os, um deles atingiu o alvo em cheio!

De fato, para nossa surpresa, o inim igo encontra-se em situação m uito sem elhante à nossa. Ainda que os danos sofridos j ustificassem seu abandono da contenda, perm anecera ali durante toda à noite, à espera, apagando seus incêndios e tentando recuperar sua navegabilidade com o nós fazíam os sob as águas. Agora, tanto quanto nós m esm os, encontra-se bem disposto para o com bate.

O dirigível gira a proa em nossa direção, e as inúm eras placas m etálicas sem elhantes a escam as que recobrem seu balão um pouco m urcho cintilam ao sol. O zum bido dos m otores, pelo m enos os que ainda restam , aum enta de intensidade. Ele se aproxim a devagar, m as decididam ente.

Ouço quando Le Beau desarm a a trava de sua m etralhadora. O estalido m etálico do prim eiro cartucho encaixando-se no cano de disparo coincide com m eu gesto apressado de m ão, indicando que ele aguarde. Elevo a m ira da m inha arm a e dou ordem ao im ediato para que, a qualquer custo, aguarde m eu prim eiro disparo.

Agora o adversário está tão próxim o que eu posso ver as silhuetas dos tripulantes pela am pla e retangular escotilha frontal da cabine. Os canhões de bom bordo encontram -se, graças à posição anorm al da m esm a, voltados para o alto. Certam ente não seriam capazes de m irar em um alvo na superfície do oceano. Os canhões de estibordo estão excessivam ente inclinados para baixo, e o dirigível teria que chegar bem perto de nós para obter um a capacidade de m ira segura, assim com o os canhões inferiores, ou o que restava deles, que teriam que estar quase sobre o subm ergível para serem efetivos, considerando a baixa altitude do balão. Bem diante da proa, entretanto, dois canos de m etralhadora sem elhantes aos do Nautilus apontam para nós em atitude am eaçadora. É quando o dirigível se aproxim a um pouco m ais que os raios do sol nascente inundam a j anela anterior, e então eu o percebo com clareza. Bem ao centro, apoiado na borda incom odam ente inclinada, o hom em usa o quepe de com andante, além de um a cam iseta de listras horizontais azuis e brancas à m oda dos m arinheiros, coberta por um a j aqueta azul de gola elevada. Pela prim eira vez na história daquela guerra as duas cham adas “lendas vivas”, o Alm irante Nem o e o Com andante Robur, encaram -se olhos nos olhos.

Le Beau lim pa o suor da fronte na m anga do casaco. Ele saltita de um pé para o outro com incontida excitação. Em m inha m ente vem a im agem de um m astim feroz aguardando que o dono o libere da corrente para estraçalhar um agressor, e m e invade um a ponta de tem or de que, a despeito de todo o respeito e a obediência habituais, dessa vez eu não sej a capaz de contê-lo por m uito tem po.

– Senhor, eles j á estão m ais próxim os do que poderíam os sequer desej ar! Devem os atirar, antes que eles...

– Contenha-se, Le Beau – interrom po, m esclando serenidade com firm eza. – Não atire até que eu dê o com ando.

Durante vários segundos é com o se o próprio m ar interrom pesse seu balanço incansável, e o próprio vento silenciasse. Do alto de seu castelo voador relutante, Robur m e encara absolutam ente im óvel, por trás dos canos m ortíferos de suas arm as. Por um instante fugaz, que naquele m om ento parece um a eternidade, m inha m ente sente a ferroada do tem or de estar errado; de que eu sej a um néscio rom ântico, acreditando tolam ente na dignidade hum ana; de que um pedaço m ortífero de m etal incandescente exploda em m eu crânio a qualquer m om ento, espalhando pelos sete m ares pedaços do m eu cérebro encharcado de ingenuidade.

Mas, com o eu disse, é apenas por um instante. Aprum o a coluna vertebral, sem no entanto retirar os dedos do gatilho de m inha própria arm a e retribuo seu olhar. O silêncio é quase intolerável, só finalm ente interrom pido pela exclam ação de espanto de Le Beau.

O Com andante Robur ergue o braço em um a continência respeitosa, e então o gigantesco Albatroz gira sobre seu eixo, tom ando lentam ente o rum o da costa irlandesa e nos deixando para trás. Obviam ente, retribuo a saudação da m esm a form a, e m antenho a posição até que a som bra do leviatã j á não prenuncie m ais qualquer am eaça.

Um inevitável suspiro de alívio acaricia m inhas narinas castigadas pelo sal do vento m arinho. Ao m eu lado, um im ediato boquiaberto m e encara com olhos de peixe.

– Alm irante Nem o...

– “Por que eles não dispararam ?”, é a pergunta que está fisgada com o um anzol em sua garganta.

– Eles poderiam ... e nós tam bém poderíam os...

– E que honra poderia haver nisso? “Códigos de ética”, Le Beau. Lem bra-se daquela noite no bar em Le Havre?

– Mas Alm irante, nós estávam os visivelm ente incapacitados para o com bate!

– E eles tam bém estavam , não é certo? Não existe sentido nenhum em atacar um inim igo indefeso. A despeito do que possam dizer sobre Robur, nada tenho de pessoal contra aquele hom em . Pelo contrário, adm iro seu valor e o respeito o suficiente para não querer ser o responsável por sua m orte de m aneira tão degradante, executado friam ente com o um anim al em um m atadouro. O Albatroz não será um a am eaça tão cedo. Muito m enos o Nautilus. O m elhor a fazer, e ao que parece eu e ele concordam os nisso, é retornar para nossas tocas e lam ber nossas feridas, antes que sej am os capazes de realizar de novo o bom com bate.

– O senhor não tinha com o saber – retruca Le Beau, zom beteiro. – Se ele decidisse acionar aquelas m etralhadoras...

– Em um a coisa os tabloides estavam certos, Im ediato: Nem o e Robur são gêm eos nascidos em lados diferentes da m esm a guerra. Acabam os de com provar isso, suponho.

– Certo. Mas suponha por um m om ento que o senhor estivesse enganado a respeito do hom em ...

Cam inho sobre o m etal m olhado da proa e coloco a m ão am igavelm ente no om bro ainda tenso daquele j ovem im petuoso.

– Esta é um a guerra longa e penosa. Este m undo j á viu, graças a ela, m uita dor e m uita infelicidade. Após todo esse tem po, m eu caro, aquilo que ainda nos torna hum anos está preso por um fio, dependurado sobre o abism o da selvageria. Hom ens de honra precisam viver sob um código de ética que nos faça lem brar que, apesar de tudo, ainda som os hum anos. Eu apostei que Robur era um desses hom ens de honra, que se Deus perm itir ainda poderá usar o tem po que lhe resta para dar um bom exem plo para toda um a geração de soldados.

Naquele m om ento um dos oficiais surge à escotilha, e anuncia:

– Alm irante, j á renovam os as reservas de oxigênio. Acredito que isso nos perm ita seguir subm ersos por m ais algum as m ilhas, caso a Marinha inglesa decida vir em nosso encalço. Podem os finalm ente tom ar o rum o de casa e realizar os reparos definitivos com m ais tranquilidade.

– Pois vam os acolher o abraço do oceano e seguir viagem . Não m e parece que haj a m ais em oções que valham a pena aqui fora.

Meu im ediato é um j ovem teim oso. A cam inho da ponte de com ando, insiste:

– Ainda afirm o que o senhor poderia ter se enganado a respeito de Robur. Nesse caso, receio que estaríam os irrem ediavelm ente m ortos.

– Se eu estivesse enganado a respeito de m eu “irm ão gêm eo”... Bem , Le Beau, que graça teria viver em um m undo assim ?

O Nautilus m ergulha nas águas calm as, lentam ente afastando-se da zona de conflito. O sol e o céu claro prenunciam um dia m orno e agradável.