Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
Máscaras
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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Os prim eiros aztecas na lua
Quando você é um agente duplo, precisa aprender a conviver com algum as situações desagradáveis. Alguns sentim entos, por exem plo. O prim eiro é a culpa; não é fácil agir furtivam ente contra o país que considera sua pátria. No m eu caso, a Inglaterra, onde nasci. É preciso estar constantem ente passando em revista os vários m otivos que o levam a agir em favor do inim igo para conseguir ir adiante, e convencer-se deles m uitas vezes é difícil. Além disso, existe o m edo e a vergonha diante da sim ples perspectiva de ser descoberto por seus com patriotas. Por outro lado, ao m esm o tem po em que procuro m e convencer da nobreza de m inhas intenções no m om ento em que vendi secretam ente m eus serviços à França, apoiado precariam ente nos om bros m uitas vezes sólidos das coisas desprezíveis que vi e vivenciei, não há com o evitar a baixa autoestim a e ignorar o desapontam ento pelo desprezo e pelo desdém no fundo dos olhos daqueles que você serve secretam ente. Afinal, antes de qualquer outra coisa você é um traidor, e é um nativo de um país inim igo, e eles não conseguem deixar de cogitar se, um a vez traidor, você não vai fazer de novo. Se isso um a vez serviu para salvar m inha vida e dar origem à existência dupla que eu hoj e levo, ironicam ente é um fardo que sou obrigado a carregar em dias perigosos e noites insones.
Todos aqueles sentim entos engalfinhavam -se em m inha alm a no m om ento em que cruzei a soleira da porta e o grupo de hom ens levantou-se em sinal de respeito; respeito a m im , o agente duplo. Eu ainda não sabia por que havia sido convocado com tanta urgência, m as sabia m uito bem quem eram os hom ens que m e aguardavam . A presença inesperada de um deles, em particular, era a m ais intim idadora.
– Mister Prendick...
A m elodiosa voz de tenor de Dupin era inconfundível. Ele fez um gesto para que eu m e acom odasse na cadeira vaga à sua esquerda. Obedeci, inconscientem ente retirando o lenço do bolso do colete para enxugar as gotículas que brotavam de m inha testa.
C. Auguste Dupin, acom odado à cabeceira da grande m esa oval, era o chefe do Serviço Secreto francês e m eu superior hierárquico m áxim o naquele lado som brio da m uralha da Guerra Fria onde eu há m eses m e aventurava. À direita dele, sentado exatam ente diante de m im , estava um hom em que, ainda que eu nunca houvesse encontrado pessoalm ente, era de reconhecim ento obrigatório por qualquer agente do Serviço Secreto inglês, no qual eu obviam ente tam bém m ilitava: o Professor Aronnax, em inente naturalista francês, conhecido com o um dos hom ens-chave da elite científica que prestava serviços ao governo da Grande France.
Ao seu lado, um j ovem loiro de constituição robusta, que foi-m e apresentado com o Axel Lidenbrock, agente de contato com o Serviço Secreto prussiano. Eu j á ouvira sobre suas habilidades com o brilhante estrategista, e seus ousados planos de atingir o território britânico através de um suposto túnel escavado por baixo do Canal da Mancha.
Do m eu lado direito sentava-se outra figura publicam ente conhecida, o cientista Félix Nadar, especialista em navegação aérea e balonism o, grande adversário do Com andante Robur, o estadunidense que com andava a frota das tem íveis fortalezas voadoras que assolavam o Atlântico sob a bandeira britânica.
Diante dele, outro personagem que eu desconhecia. Sua constituição física superava em força a do agente Lidenbrock, e os calos em suas m ãos volum osas atestavam um passado de trabalho duro. A cabeleira vasta e desgrenhada, associada à barba e ao nariz grande e achatado, faziam lem brar a carranca de um leão. No entanto, retribuiu m eu olhar desconfiado com um am plo sorriso, quase infantil. Naquele m om ento só m e foi anunciado seu nom e: Michel Ardan.
Entretanto, o hom em que m ais m e fazia inflam arem os nervos estava sentado na cabeceira oposta da m esa, apoiado sobre um cotovelo e com o olhar, ainda que encoberto pelas vastas sobrancelhas, aparentem ente perdido em algum m undo inescrutável além do canto da sala. De sua silhueta inconfundível destacava-se a calva coroada por um a faixa de cabelos brancos e a espessa barba, tam bém grisalha, que havia ostentado durante a m aior parte da vida. Era ele em pessoa, o todo-poderoso Ministro da Ciência Jules Verne, um dos hom ens m ais brilhantes do século e o m aior responsável por tornar o Im pério Francês um doloroso osso de peixe na garganta de seus nêm eses britânicos. Fiquei por alguns segundos fitando discretam ente aquele hom em que era quase um a lenda, e que parecia pairar naquele canto da m esa com o um a nuvem de fum aça sobrenatural, um espectro de outra dim ensão; definitivam ente, com o alguém que estivesse acim a de todos nós e alheio às preocupações m undanas que nos assolavam . Foi o único que continuou sentado quando entrei no recinto, seu perfil esquerdo voltado para o centro da m esa, aparentando um a inquietante displicência, e não m oveu um m úsculo sequer enquanto Dupin m e apresentava aos dem ais.
O com andante francês saudou-m e com sua polidez habitual:
– Espero que sua viagem tenha sido sem contratem pos.
Confirm ei o que ele de fato queria saber: consegui viaj ar incógnito da Inglaterra à França, sem levantar suspeitas. Dupin prosseguiu, após dirigir um rápido olhar em torno da m esa:
– Indo diretam ente ao ponto, Mister Prendick, o senhor foi convocado para esta reunião por ser o hom em m ais indicado, de acordo com a opinião da m aioria, para um a m issão de capital im portância para o Im pério Francês...
Perm aneci em silêncio durante a pausa, em bora cada vez m ais curioso. O que veio a seguir foi um a pergunta:
– O senhor j á ouviu falar de um hom em cham ado Im pey Barbicane?
Estreitei os olhos, buscando fundo na m em ória, m as tive que m e render:
– Lam ento dizer que não, senhor.
– Talvez tenha conhecim ento de um a associação denom inada “Clube do Canhão”?...
– Ah, sim ! – recordei – Um a das agrem iações exóticas dos cidadãos dos Estados Unidos da Am érica. Mantiveram um status considerável nos conflitos entre franceses e ingleses nos m eados do século, quando o clube foi fundado, fornecendo arm am ento para o Im pério Britânico. Se não m e engano, os cham ados “Anj os Exterm inadores” encontram -se ainda profundam ente envolvidos na interm inável guerra brasileira, entre as forças ibéricas de invasão e os defensores aztecas e m aias...
– Precisam ente. Ocorre que o m encionado Mister Barbicane é ninguém m enos que o presidente do Clube do Canhão, com sede em Baltim ore, nos Estados Unidos. As únicas preocupações dessa sociedade, desde sua fundação, têm sido a destruição da hum anidade – com um obj etivo “filantrópico”, é claro – e o aperfeiçoam ento das arm as de guerra, form idáveis instrum entos de civilização, especialm ente quando suas bocas de fogo encontram -se voltadas na direção das cidades francesas.
Não sei se ele esperava algum a reação à ácida ironia, m as perm aneci im passível.
– A verdade é que o envolvim ento do Clube do Canhão tem sido surpreendido em ocorrências, digam os, “não oficiais”, com o nas escaram uças arm adas j am ais adm itidas na am pla fronteira entre os Estados Unidos e Nova Albion.
Dupin fez um a pausa, e enquanto alisava o próprio bigode lançou um olhar furtivo, prim eiro para Aronnax, e depois para o m inistro Verne. Prosseguiu em tom m ais grave:
– O que ocorre, Mister Prendick, é que nossos agentes infiltrados no Im pério Britânico nos brindaram recentem ente com notícias no m ínim o alarm antes a respeito de um a surpreendente m udança de rum os nas atividades, antes tão truculentas, do fam igerado clube. De acordo com elas, o Clube do Canhão estaria colaborando com o governo inglês nos preparativos para um a m issão tripulada à Lua.
Ele interrom peu seu discurso observando m inha reação, que não poderia ser diferente das m ais honestas surpresa e incredulidade. Olhei para cada um dos presentes, m as ninguém dem onstrava estar surpreso com o eu: Aronnax parecia entretido com algum a coisa m inúscula e invisível que teria descoberto sobre o tam po da m esa; Lidenbrock e Nadar m e exam inavam com as sobrancelhas arqueadas, o prim eiro sem conseguir evitar um m eio sorriso irônico; o tal Ardan cruzou os braços e recostou-se na cadeira, abrindo m ais um daqueles sorrisos francos e inquietantes; Verne perm anecia im óvel, um a estátua de perfil que eu com eçava a m e perguntar se estaria m esm o viva. Dupin interrom peu m inha estupefação:
– O senhor certam ente ainda não havia ouvido nada a esse respeito...
– Com toda franqueza, há m uito tem po não ouvia algo que m e parecesse m ais despropositado, coronel. Se não bastasse a im possibilidade técnica que a ideia aparenta carregar desde sua concepção, não consigo perceber o proveito que algo assim poderia trazer ao Im pério Britânico. Por que alguém desej aria viaj ar até a Lua?
– Porque ela está lá, Mister Prendick – Todos se voltaram para o dono da voz de trovão, o m isterioso Michel Ardan, que m e fitava com um olhar penetrante. – Muito m e surpreende que o senhor, sendo inglês, não considere isso m otivo suficiente.
– Franceses com o Jean Baudoin e Bernard Fontenelle tam bém trataram desse tem a, Monsieur Ardan – retruquei – m as tiveram a sensatez de m anter o assunto no cam po da ficção...
– Mas não podem os esquecer que foi outro grande francês, Cy rano de Bergerac, quem escreveu: “A Lua é um m undo com o este, ao qual o nosso serve de lua”. Ou sej a, assim com o a Terra, a loira Febe está lá – apontou um dedo calej ado para cim a, – virgem , bela e ansiosa para ser conquistada.
Naquele m om ento, do outro lado da m esa, Aronnax pigarreou. Estava claro que tinha algo a dizer, porém olhou antes para Dupin de m aneira inquisitiva. Este o encoraj ou com um aceno de cabeça quase im perceptível, e então o cientista disse:
– Quanto à viabilidade técnica, Mister Prendick, não há m otivos para m ostrar-se tão pessim ista. Nossos agentes apuraram dados valiosos relativos aos planos do Clube do Canhão, que foram com plem entados por nossa própria pesquisa, e revistos pelo m inistro Verne...
Aronnax m encionara o nom e do m inistro em tom de absoluta veneração, e esperou um segundo para certificar-se de que o hom em não teria nada a dizer. Com o ele perm anecesse na habitual im obilidade, com o se sequer estivesse ouvindo a conversa, prosseguiu:
– De acordo com nossos cálculos, estando o satélite no perigeu, que seria a m enor distância entre ele e a Terra, correspondente a 481.000 quilôm etros, qualquer proj étil dotado de um a velocidade inicial de 11.000 m etros por segundo necessariam ente alcançará a Lua.
– Pois m uito bem , estou certo de que os senhores fazem um a boa ideia do tam anho da arm a que seria capaz de im pulsionar um proj étil a essa velocidade. Isso sem falar no tam anho e peso do tal proj étil, um a vez que estam os falando de um a viagem tripulada!
– Na verdade fazem os um a ideia bastante exata – intercedeu Nadar, com um a ponta de orgulho na voz. – Tal canhão deverá ter 270 m etros de com prim ento, diâm etro interno de 3 m etros e paredes com 1 m etro e 80 centím etros de espessura. Por questões de segurança e viabilidade econôm ica, teria que ser forj ado com ferro fundido, resultando em um a form idável arm a com o peso total de 68.040 toneladas.
Lidenbrock em itiu um fino e prolongado assovio. Ainda não estava a par daqueles dados assustadores. Nadar ignorou a m anifestação e continuou:
– Quanto ao proj étil, a m elhor opção por razões de aerodinâm ica seria o form ato cilindrocônico, e deveria ter cerca de 3 m etros de diâm etro. Pesaria por volta de nove toneladas.
– Devo confessar que estou absolutam ente atônito e igualm ente im pressionado com o que dizem , senhores – confessei, – m as principalm ente por perceber que tudo isso é um assunto sério. Entretanto, apesar da ignorância dos assuntos científicos que m e provoca tam anho espanto diante da ideia, conheço o suficiente de arm as de fogo para opor ainda um a obj eção à viabilidade desse proj eto audacioso: a quantidade de pólvora necessária para im pulsionar tal proj étil à velocidade requerida, em um a arm a dessa envergadura, m e parece algo não apenas perigoso, m as sim plesm ente proibitivo!
– Nesse ponto o senhor está coberto de razão. Para um resultado seguro seriam necessárias cerca de 726 toneladas de pólvora...
Não consegui reprim ir um a breve risada de descrença, m as Nadar parecia j á estar esperando por isso. Prosseguiu sem sequer pestanej ar:
– A não ser que contássem os com um a solução alternativa...
Olhou para Aronnax, devolvendo-lhe a palavra. Este recebeu a incum bência sem ressalvas:
– Em outras circunstâncias, Mister Prendick, sendo o senhor um agente britânico eu j am ais poderia revelar o que direi a seguir, pois se trata de um a das m ais espetaculares invenções francesas nestes tem pos de conflito; porém , lam entavelm ente, nesse palco inseguro em que se transform ou o m undo, a espionagem funciona para todos os lados. Não fom os capazes de capturar os espiões ingleses que roubaram nosso segredo antes que repassassem a inform ação, portanto j á sabem os que os britânicos tam bém j á possuem a fórm ula da piroxila.
– Piroxila? – indaguei, m eneando a cabeça em confissão de ignorância.
– Tam bém cham ada de “algodão-pólvora”. O algodão, com binado a frio com ácido nítrico, transform a-se em um a substância insolúvel, altam ente com bustível e explosiva. É capaz de im prim ir aos proj éteis um a velocidade quatro vezes m aior do que a da pólvora. Além disso, acrescentando a ela um a parte de seu peso em nitrato de potássio, seu poder de expansão ainda aum enta consideravelm ente.
– Onde seriam necessárias 726 toneladas de pólvora – voltou a interrom per Nadar, – bastariam 181 toneladas de piroxila. Sim , saberm os que ainda assim não é pouco, m as acredite: dessa m aneira o proj eto se torna perfeitam ente viável.
Houve um m om ento de silêncio, quando todos m e fitavam em expectativa. Era m inha vez de fazer a pergunta que estavam esperando. Não precisei refletir m uito para descobrir qual era:
– Então, ao que parece, a coisa é m esm o séria. O que nos traz ao ponto: por que é que os senhores estão m e relatando tudo isso? O que esperam de m im ?
O grupo trocou olhares satisfeitos, dem onstrando que a reunião tom ava o rum o planej ado. Foi Aronnax quem retom ou a palavra:
– Existe um a questão fundam ental em relação à viabilidade desse proj eto, Mister Prendick, que teoricam ente deveria estar trazendo um a dificuldade capital para as pretensões britânicas...
O cientista baixou a m ão para algum lugar oculto e retornou com um rolo de papel am arelado. Esticou-o sobre a m esa e, enquanto Nadar aj udava a fixar um a das pontas do pergam inho, vi abrir-se diante de m im um a representação do m apa-m úndi, as possessões de cada bloco de poder m arcadas em cores diversas. Toda a Europa até a fronteira com a Rússia, além dos países nórdicos e algum as regiões no norte da África e no litoral atlântico da Am érica do Sul, estavam m arcadas em azul, sim bolizando as possessões da Grande France. Excetuava-se obviam ente a Grã-Bretanha. A Rússia, aliada até certo ponto relutante dos franceses, era sim bolizada por um a enorm e m ancha cinzenta. Com exceção de um a m iríade de cores nos continentes africano e asiático m eridional, além dos herm éticos e xenófobos reinos do Oriente, o restante do m undo era assustadoram ente verm elho. Era a cor do Im pério Britânico, onde se dizia, com m uito orgulho por parte do m eu povo, que o sol j am ais se punha. A situação era no m ínim o curiosa: o Im pério Francês parecia um m onstro azul prestes a abocanhar o pequeno m orango verm elho da Grã-Bretanha; entretanto, o m onstro se transform ava em um pequeno cam undongo azul cercado de todos os lados pelo verdadeiro m onstro verm elho, ocupando a m aioria das porções de terra do planeta.
Aronnax prosseguiu com a explicação:
– Para que todos os cálculos que descrevem os possam dar o resultado esperado, existe um a condição: o canhão precisa realizar seu disparo em um a posição perpendicular à superfície terrestre, o que só pode ser obtido se estiver localizado entre zero e 28 graus de latitude, norte ou sul. Com o o senhor pode observar, apesar da extensão das possessões britânicas no m undo, suas opções nessa faixa são relativam ente lim itadas.
Debrucei sobre o m apa e exam inei as terras dentro dos lim ites m encionados. Com efeito, a Europa inteira encontrava-se fora da área de exigência, e a Grã-Bretanha m ais ainda. Havia possessões britânicas viáveis no norte africano. Entretanto, a célebre instabilidade política daqueles territórios e a proxim idade de outras pequenas regiões de litígio dom inadas pelos franceses tornariam o em preendim ento excessivam ente arriscado se colocado em prática na região. A m aior parte da Am érica do Sul, excetuando-se pontos isolados onde floresciam as civilizações azteca e m aia, era coberta pela natureza em estado selvagem , exceto na parte oriental, na fronteira com o Brasil dos ibéricos, que ia pouco além do antigo e pretensioso Tratado de Tordesilhas, onde aqueles aliados dos franceses travavam um a sangrenta e incansável guerra contra o Im pério Azteca, na tentativa de em brenhar-se continente adentro. Tam bém não seria um local seguro para a instalação do canhão lunar. Igualm ente distante e selvagem seria a Austrália, que tam bém descartei de im ediato. Grande parte dos navios de suprim entos e recursos hum anos enviados para lá vinham sofrendo “acidentes” no traj eto ao longo da costa africana ou além dela. Falava-se em um a espécie de bloqueio em preendido pelos dem oníacos subm ergíveis franceses.
Observei a Am érica do Norte; no México, um a estrela m arcava a posição de Tenochtitlan, a poderosa capital do Im pério Azteca, braço direito de Londres na conquista do planeta. O restante do continente era dividido ao m eio por um a longa linha vertical, dividindo as cham adas “Nações de Janus”: os Estados Unidos, a face voltada para o oceano Atlântico, e Nova Albion, banhada pelo Pacífico. O prim eiro havia sido colonizado por im igrantes britânicos, o segundo por um a m iscigenação de aztecas e indígenas nativos. A longa fronteira, com o j á salientara Dupin, era um a região de violentas disputas entre dois povos que não se entendiam , m as viam -se obrigados a conviver razoavelm ente em paz por estarem am bos obrigados a servir à Coroa Britânica. Apesar disso havia um a pequena porção de terra, no extrem o sul dos Estados Unidos, localizada abaixo do paralelo 28. Apontei para esse local com o hipotética opção para a instalação da arm a, assim com o todo o território m exicano, que m e parecia a opção m ais adequada. Isso era questão a ser respondida por Lidenbrock, o estrategista, com seu carregado sotaque prussiano:
– Procure se colocar no lugar de um inglês, Mister Prendick. Creio que conseguirá fazê-lo com certa facilidade...
Ele olhou ao redor, deixando clara a tentativa de fazer hum or. Ninguém pareceu ter achado graça, m as ele não se im portou nem um pouco com isso. Prosseguiu:
– Com o passar do tem po o Im pério Britânico tem ficado cada vez m ais fam oso pela sua brutalidade, inclusive no tratam ento condenável que costum a dispensar a seus prisioneiros. Sabem os que isso é um a herança de sua prolongada associação com os selvagens aztecas, cuj a presença entre as fileiras dos exércitos britânicos j á tornou a violência um a rotina j am ais questionada, tal é a m aneira agressiva com que aqueles bárbaros em plum ados se com portam em relação a seus inim igos. Por outro lado, o Im pério Francês cresceu form ando alianças; não vam os discutir aqui se algum a vez os franceses se aproveitaram do terror dos povos am eaçados pelo potencial invasor inglês ou azteca. A im agem m undial da França é a de um im pério civilizado. Para aum entar ainda m ais essa im pressão, a França nom eia com o seu Ministro da Ciência ninguém m enos que o honorável Jules Verne, aqui presente, que com suas ideias fez aum entar em escala vertiginosa a qualidade de vida nas possessões da Grande France, e que prom ete ainda m uito m ais.
O prussiano olhou para o velho m inistro em busca de algum sinal de sim patia, m as viu-se frustrado com pletam ente. Assim ele não teve outro rem édio senão continuar se dirigindo à m inha pessoa.
– É sintom ático que, tentando equilibrar essa balança, os britânicos haj am nom eado tam bém um gênio com o seu próprio Ministro da Ciência. A fam a do m inistro Herbert George Wells o precede, não j ulgo necessário ficarm os exaltando as concepções que ele introduziu para m elhorar a vida e a autoestim a do cidadão britânico. Mas todos sabem , dos dois lados do Canal da Mancha, que ainda falta algo para que Wells sej a de fato consagrado, e saia da som bra do gigante Verne. Eis porque, Mister Prendick, a conquista da Lua precisa ser um feito inquestionavelm ente britânico! Mas com o isso seria possível? Com o perm itir que o cidadão de Londres vibre e se inflam e com um a realização que não lhe pareça apenas outra dessas histórias m al contadas que perdem sua credibilidade no tortuoso traj eto entre as colônias e a Metrópole? Ora, o proj étil carregando em seu boj o os conquistadores da Lua precisa decolar do território da Grã-Bretanha! O inglês com um precisa avistar seu rastro de fogo e ouvir o estam pido do lançam ento, levando a glória da Rainha para além do planeta!
– Concordo com sua análise psicológica da situação, Herr Lidenbrock, porém as dificuldades técnicas para tal realização ainda m e parecem intransponíveis.
– É fácil encontrar os m otivos para descartar os Estados Unidos com o local de lançam ento: Nova Albion j am ais aceitaria essa afronta, tal o grau de rivalidade entre as duas nações irm ãs. Tudo que os ingleses não precisam hoj e é de um recrudescim ento das anim osidades naquele país de índios. É óbvio que a solução m ais fácil seria lançar o proj étil do território m exicano. Eu diria m ais, a proverbial susceptibilidade dos filhos de Quetzalcoatl poderia fazer estrem ecer laços de união historicam ente tão caros, se percebessem que os britânicos estariam desprezando as evidentes vantagens de se levar a cabo o proj eto em território azteca por um a sim ples questão de vaidade e prepotência inglesas.
– Os britânicos têm sido engenhosos – interveio Dupin – louvando a bravura de seus aliados aztecas, para assim colocá-los em m aioria entre os soldados das suas tropas de infantaria nas regiões de conflito m ais sangrentas, obviam ente com andados por oficiais ingleses na retaguarda. “Bucha de canhão”, para dizer a verdade. Exaltar assim a vaidade desses indígenas poderia tornar-se um tiro pela culatra, se agora os britânicos decidissem negligenciar as óbvias vantagens geográficas para negar o sítio de lançam ento ao Im pério Azteca.
– Im agine então – continuou Lidenbrock – que a Rainha decida “adoçar a boca” de Moctezum a III. Com o? Bem , o proj étil será lançado de solo inglês, m as levará em seu boj o um a tripulação azteca! Isso daria ao em preendim ento a aparência de um a ação conj unta entre as duas principais forças do Im pério Britânico. Mais ainda, apareceria aos olhos dos aztecas com o um a distinção e um a prova de confiança. Claro que o com andante da m issão deverá ser um inglês legítim o, m as para viagem tão arriscada, nada com o preencher o restante do espaço do proj étil com , com o bem destacou Monsieur Dupin, “bucha de canhão”.
– Sua análise continua bastante plausível, m as ainda não atinei com sua solução para um grave obstáculo para o sucesso dos planos que o senhor descreve: a barreira do paralelo 28. A distância entre as ilhas britânicas e o equador, pelo que os senhores descreveram , sim plesm ente inviabilizaria o proj eto.
Um silêncio m ais tenso preencheu o am biente com o um a nuvem escura. Com o presidente daquele encontro, Dupin decidiu assum ir a responsabilidade de tocar em um ponto delicado.
– Talvez, Mister Prendick, o senhor j á tenha ouvido falar em um cientista cham ado Cavor.
– Já li algo a seu respeito nos periódicos ingleses, m as não m e recordo do que se tratava...
– Certam ente nada relacionado às ultim as inform ações que reunim os a respeito desse hom em , que trabalha estreitam ente vinculado à m áquina de guerra britânica. De acordo com rum ores recolhidos por nossos agentes em território inglês, Cavor teria sido capaz de um feito espantoso: a criação de um a liga m etálica perm eável à força da gravidade, que o hom em m odestam ente teria denom inado “cavorita”.
Balancei a cabeça, sem com preender.
– O senhor disse “perm eável à força da gravidade”? O que isso quer dizer?
– Vej a bem – interveio Aronnax em socorro do com andante, – existem várias form as de energia radiante: a luz, o calor, a radiatividade, a gravidade. Quase todas as substâncias têm algum grau de “perm eabilidade”, digam os assim , a essas form as de energia. O vidro, por exem plo, é bastante perm eável à luz, que o atravessa com facilidade, m as retém o calor, dem onstrando um a im perm eabilidade relativa. Portanto, um a substância perm eável à gravidade seria aquela que a força de atração atravessa livrem ente sem exercer qualquer efeito sobre ela. Usando outra m etáfora cientificam ente incorreta, m as esclarecedora para leigos, é com o se a tal cavorita fosse total ou parcialm ente “invisível” para a força da gravidade, que tem um efeito dim inuído ou nulo sobre ela.
– Se ainda não o fiz com adequada suficiência, volto a destacar que m eus conhecim entos científicos estão m uito aquém relativam ente aos dos senhores. Apesar disso, m e parece que tal substância não pode existir...
– O fato é que registram os um estranho incidente em um a localidade próxim a a Canterbury – voltou a relatar Dupin, – um a explosão que a im prensa atribuiu a um suposto “ciclone”, ainda que as condições clim áticas daquele dia praticam ente inviabilizassem essa hipótese. Foi assim que localizam os o laboratório secreto de Cavor e desde então seguim os de perto as pistas relativas a suas atividades. Não há certeza, m as existe um a razoável possibilidade de que a substância realm ente exista. O entusiasm o incontido que o m inistro Wells vem m anifestando em seus círculos m ais íntim os relativam ente à tal cavorita...
– Esse hom em é um m entiroso!
Não houve quem não se sobressaltasse ao ouvir a voz profunda, que irrom peu na outra extrem idade da m esa com o a lava de um vulcão que estivesse inativo por anos a fio. Pela prim eira vez pude ver o rosto de Jules Verne por inteiro, e ele estava verm elho de indignação. Seus velhos olhos faiscavam por baixo das sobrancelhas grisalhas, e ele se apoiava no tam po da m esa com o se a qualquer m om ento fosse saltar sobre ela à m oda de um grande felino. Por falar em “energia radiante”, senti com o se raios de calor em anassem de seus olhos na m edida em que ele fitava cada um de nós, enquanto falava lenta e pausadam ente:
– Herbert Wells é um m entiroso. Enquanto eu coloco em prática a ciência, esse hom em a inventa. Preenche as lacunas de sua ignorância com as sandices que ousa im aginar. Se o plano de enviar um proj étil à Lua depender de algo cham ado “cavorita”, está condenado ao fracasso desde o berço. Acreditem , senhores, vocês só terão algo a tem er caso estej am deixando passar algum a inform ação da qual nem desconfiam , m as que, tenho certeza, nada tem a ver com substâncias m ilagrosas abortadas pela im aginação de um tolo. Agora, se m e dão licença...
O ancião ergueu-se com o um antigo leviatã que houvesse despertado e em ergido das águas de um oceano. Irradiando respeito e dignidade com o se m obilizasse ondas contra os presentes, deu as costas à m esa da tertúlia e, com os passos lentos de quem nada m ais deve ao tem po, cam inhou em direção à grande porta, desaparecendo através dela.
Cada um dos que ficaram para trás conservava no rosto um a expressão grave. Aronnax enxugava gotas de suor que inundavam sua testa enrugada. Félix Nadar olhou para os próprios j oelhos com um a som bra de tristeza diante dos olhos. Foi Dupin, evidentem ente, quem reiniciou os trabalhos:
– Com o pode ver, Mister Prendick, o m inistro Verne rej eita totalm ente a teoria da cavorita. A verdade é que ele fez questão de estar presente neste encontro, unicam ente para deixar clara tal opinião. Um a opinião de peso, evidentem ente. Mas por outro lado... – fez um a pausa, com o se hesitasse, e por um fugaz instante seus olhos cansados pareceram haver m ergulhado em algum passado conturbado e longínquo – Eu m esm o confesso j á ter visto, com m eus próprios olhos, coisas das quais a m aioria dos hom ens sãos que conheço duvidariam veem entem ente. Foi assim que aprendi a não confundir o incom um com o abstruso. É por m eio desses desvios do plano ordinário que a razão deve se conduzir, se é que existe algum cam inho, em sua busca da verdade. Além do m ais, é bem sabido que as ideias de Wells têm se revelado bastante originais e inovadoras. Sim , ele tem seus delírios, que acabam virando m otivos de ironia nas páginas dos periódicos ingleses e, principalm ente, nos franceses. Mas após m uito deliberar, decidim os que neste caso não podem os correr riscos. Todos os indícios apontam para um a convergência das pessoas envolvidas nesse proj eto em torno das ilhas britânicas, e com o penso j á haver ficado bem dem onstrado, o lançam ento a partir dessa latitude seria inviável sem algum a coisa com as propriedades da cavorita, pelo m enos até que alguém nos ofereça outra solução m enos im provável. Im agine as consequências da existência da substância; por m ais que a pretensa perm eabilidade à gravidade sej a parcial, um proj étil cuj as paredes estej am construídas com placas dessa liga m etálica m odificaria radicalm ente as perspectivas em favor dos britânicos! Com peso reduzido e m enor resistência ao im pulso em direção à Lua, o lançam ento poderia de fato ser realizado em pontos distantes do equador terrestre, inclusive do território inglês. As especificações do canhão, com o peso e com prim ento, poderiam ser m enos dram áticas, e a quantidade de piroxila gasta para o im pulso inicial seria m uito reduzida!
– A partir da infinidade de cálculos e inform ações aqui trazidos nesta tarde, coronel Dupin, deduzo que vocês, franceses, tam bém estão tentando construir seu canhão lunar...
– Eu não esperava m enos de sua inteligência, Mister Prendick. Obviam ente, sua localização tem que perm anecer um segredo de Estado e estam os sendo obrigados a seguir com o m aior rigor possível as especificações que enum eram os, pois não contam os com nenhum m ilagre sem elhante à cavorita, m as o senhor pode dizer que estam os vivendo um a verdadeira “corrida espacial”. O com andante de nossa m issão e líder da tripulação, que j á se encontra em treinam ento, será o senhor Michel Ardan, que inúm eros serviços j á prestou em sua associação espontânea às m issões de nossos exércitos e se apresentou com o voluntário.
– Tudo por um a boa aventura, e sem m otivos para tem ores – decretou o leão sorridente. Dupin prosseguiu com o se não houvesse sido interrom pido:
– Chegar ao satélite terrestre antes dos ingleses representaria um “tiro pela culatra” de seu portentoso canhão, abalando sua im agem e sua autoestim a. Isso, num a guerra travada não apenas com arm as, m as tam bém com ideias e conquistas de hom ens de valor, representa m uito.
– Existem indícios que favorecem nossas teorias a respeito do lançam ento a partir da Inglaterra – voltou a falar Lidenbrock, m ais relaxado com a ausência de Verne. – Recentem ente surpreendem os a viagem sigilosa de um grupo de oficiais do exército azteca para Londres, acom panhados pessoalm ente por Barbicane, do Clube do Canhão. Infelizm ente perdem os seu rastro por trás das cortinas da segurança inglesa, m as suspeitam os que entre esses hom ens estej a a tripulação do proj étil. O com andante seria um certo capitão Bedford, am igo pessoal de Cavor e hom em de sua total confiança. O incidente de Ly m pne, próxim o a Canterbury, j á foi relatado pelo coronel Dupin, m as poucas sem anas depois disso perdem os a pista de Cavor, e portanto do local escolhido para a m ontagem do canhão. Perdem os m uitos agentes de valor logo que com eçavam a se aproxim ar de algum a inform ação realm ente útil.
Ele parou e olhou para m im atentam ente. É claro que reprim i o sorriso de satisfação pelo que foi dito. Sim , estou trabalhando para o inim igo, m as não deixo de sentir orgulho de m inhas origens, de m inha form ação e de m eus com panheiros de farda.
– Mas nem tudo está perdido – era Dupin retom ando a palavra em tom grave, e tentando fazer arrefecer m eus brios. – Nosso principal agente ainda está ativo em Londres, e parece estar próxim o de descobrir a localização do canhão e a data provável do lançam ento do proj étil. Suspeitam os que tal data deva estar próxim a ao dia 4 de dezem bro, quando a Lua estará ao m esm o tem po próxim a ao zênite e em sua m aior aproxim ação à Terra. É por isso que precisam os dos seus serviços, Mister Prendick: com o agente da Inteligência inglesa, o senhor pode avançar m ais profundam ente do que qualquer francês infiltrado, com m enores riscos.
– Dia 4 de dezem bro... Isso nos deixa pouco m ais de um a sem ana. E o que exatam ente o senhor espera que eu faça em tem po tão escasso?
– Descubra a localização do canhão e a data de lançam ento. Além disso, descubra o que puder sobre a tal cavorita. Se ela existir m esm o, esperam os que o senhor consiga fazer algo para atrasar o program a espacial britânico, se não interrom pê-lo definitivam ente.
– O senhor está falando de sabotagem .
– Sim , m as de um a m aneira m ais eufem ística. Na m elhor das hipóteses, gostaria que o senhor, se possível, nos trouxesse um a am ostra da cavorita, um a vez que ela efetivam ente exista. Isso aj udaria a dim inuir as tensões recentes surgidas entre este gabinete e o m inistro Verne, com o deve im aginar. Nem preciso dizer a respeito da urgência da m issão; tem os m otivos para supor que nosso prazo está se esgotando.
– Certam ente. E quando é que eu parto?
– Seu transporte o esperará am anhã em Le Havre.
Dupin estendeu a m ão de dedos longos e passou-m e alguns papéis.
– Aqui estão as instruções form ais. E quero deixar bem claro, Mister Prendick: estou bem fam iliarizado com os sentim entos que o levam a colaborar conosco. Saiba que o bom êxito nesta m issão contribuirá para o que o senhor alm ej a e, além disso, será tido em alta conta pelo próprio Im perador. Assim sendo, para o bem de todos nós, desej o-lhe boa sorte.
Parti im ediatam ente. Durante a viagem de trem para o porto de Le Havre repassei cada detalhe da m issão e reconsiderei cada palavra ouvida no escritório de Dupin. Por m ais que a ideia de enviar um proj étil tripulado à Lua m e parecesse um a sandice e que a concepção de algo com o a tal cavorita soasse com o um a tolice descom unal, a seriedade com que os franceses estavam tratando o assunto m erecia o m eu respeito. Afinal eu não era um cientista, e a atuação desses hom ens na guerra eterna que se travava ente nossos povos j á trouxera diante dos m eus olhos coisas que eu só seria capaz de conceber em sonhos ou pesadelos.
Aquela reflexão evocou m em órias antigas, lançando-m e até poucos anos no passado, quando m inha vida e m inha concepção do m undo m udaram para sem pre. Eu ainda era um fiel e idealista agente do Serviço Secreto britânico, quando fui escalado para um a estranha m issão; um em inente cientista francês, cuj o trabalho pioneiro estava sendo im pedido de avançar pelo excesso de zelo e pudores de seus com patriotas, havia decidido oferecer seus serviços aos ingleses, que pelas razões apontadas por Axel Lidenbrock ou outras quaisquer, cada vez m ostravam -se m ais flexíveis em relação aos lim ites éticos dispensáveis ao tratam ento com o ser hum ano ou ao avanço da ciência. O hom em foi acolhido e enviado secretam ente a um a ilha rem ota na costa africana, onde lhe foram dadas todas as garantias e condições para prosseguir com seus experim entos. Entretanto, os ingleses não forj aram seu vasto im pério confiando às cegas em um ex-adversário. O cientista, cuj o nom e era Moreau, tinha com o único com panheiro um sargento inglês cham ado Montgom ery , que deveria acom panhá-lo com o sua própria som bra. Com o passar do tem po, porém , os relatórios de Montgom ery com eçaram a perder a regularidade e até m esm o a sanidade do hom em parecia estar ficando com prom etida. Suspeitava-se que a pressão da função a ele atribuída naquele fim de m undo estava afetando seus nervos, e que o pobre diabo estivesse sendo consum ido pela bebida. Foi assim que entrei em ação; enviado sob disfarce para a ilha secreta, cheguei com o sendo um náufrago de um navio pesqueiro. Nem m esm o Montgom ery sabia m inha verdadeira identidade, m as com habilidade consegui ser acolhido por ele, e depois pelo próprio Moreau. O que vi naquela ilha esquecida por Deus até hoj e m e assom bra nas noites de pesadelo. O cham ado “trabalho” do cientista dissidente envolvia a vivissecção de anim ais de toda espécie, tentando aproxim ar sua aparência e inteligência à dos hum anos! Ele pretendia, e esse era o grande interesse que lhe garantia o apoio dos britânicos, criar em laboratório um novo tipo de soldado, m ais forte, m ais feroz e m ais eficiente na arte de m atar. As criaturas que vi e as coisas que presenciei quase roubaram m inha sanidade, e só posso atribuir à Providência Divina o m om ento em que suas experiências com eçaram a sofrer reveses. A deterioração psicológica de Montgom ery e sua entrega ao álcool eram reais, o que funcionou com o um catalizador quando tudo ruiu. Por razões pessoais relativas ao m eu próprio equilíbrio em ocional não posso entrar em detalhes, m as confesso que, assim que vi a oportunidade, sabotei o trabalho de Moreau condenando-o definitivam ente ao fracasso. Destruídos os registros científicos e elim inado o cientista, e àquela altura j á livre do pobre e falecido Montgom ery, foi fácil para m im plantar “evidências” de que Moreau não era nenhum dissidente, m as um espião que pretendia, com o m eus superiores tem iam , aj udar a destruir o Im pério Britânico por dentro. Por essa m issão fui condecorado e prom ovido, m as m inha vida nunca m ais foi a m esm a. Passei a sentir um constante desconforto na com panhia de m eus sem elhantes, com o se tom ado por um a convicção irracional de que eles eram , com o aquele povo-fera que conheci na ilha, bestas hum anizadas que a qualquer m om ento poderiam regredir a seu estado selvagem original. Essa sensação acentuava-se em m eu trabalho j unto ao Serviço Secreto, levando-m e a incontroláveis reações de pânico. O pior era saber que as experiências de Moreau poderiam eventualm ente ter dado certo, e então teríam os um a guerra m uito m ais im piedosa e desum ana do que a hipócrita Guerra Fria que vivem os hoj e, repleta de com bates arm ados e escaram uças cuj a dura realidade é reduzida com palavras de um revoltante eufem ism o pelos periódicos dos dois lados. Eu reconhecia que a atitude dos ingleses e seus aliados aztecas era a m ais feroz, o que em assuntos de guerra se traduz em um perigo considerável. Decidi então, buscando um a chance de salvar m inha alm a, oferecer m eus préstim os aos “civilizados” franceses, atuando dos dois lados e sem pre buscando um equilíbrio de forças. Eu via claram ente que eles estavam longe de vencer a guerra, e sabia que seria catastrófico para o m undo se os ingleses, m eus com patriotas, assum issem a suprem acia. Essas foram as condições que ofereci a Dupin, e a atual m issão estava dentro de seus lim ites: não visava subm eter m eu povo ou provocar derram am ento de sangue inocente, m as sim tentar corrigir um desequilíbrio que am eaçava irrom per, equalizando as forças naquele “cabo-de-guerra” de alcance m undial.
Peguei no sono sentado no trem , e acordei sobressaltado na entrada do porto de Le Havre, com a sensação fugaz de que duas patas peludas term inadas em garras haviam estado há pouco cravadas em torno da m inha garganta.
* * *
A costa norte da França ao longo do Canal da Mancha era algo im pressionante de se ver. De Dunkerque, próxim a da divisa com a província da Bélgica, até Brest, no Oceano Atlântico, toda a costa era praticam ente um a única fortaleza, um a m uralha fortificada com quilôm etros de extensão, guarnecida por centenas de canhões perm anentem ente apontados para o arqui-inim igo do outro lado do canal, ocupada por m ilhares de soldados bem treinados e perm anentem ente alertas. A cham ada “Linha Bonaparte”, em hom enagem ao célebre general que iniciou sua construção logo após consolidar a aliança do Im pério Francês com o czar da Rússia, era considerada a fronteira m ais vigiada do m undo. É claro que a m uralha bélica tinha seu correspondente à altura do lado inglês, m as os franceses adoravam vangloriar-se de sua segurança e inexpugnabilidade. Em Le Havre, situada aproxim adam ente no m eio de seu com prim ento total, estava o principal porto francês, e a base da espetacular frota de naves subm ergíveis com andada pelo célebre Alm irante Nem o, que patrulhava incansavelm ente o Canal da Mancha e toda a costa atlântica do país. Com seus m ísseis balísticos, lançados dos subm ergíveis que apareciam de surpresa em qualquer ponto do oceano, Nem o era o principal antagonista das fortalezas voadoras do am ericano Robur. Ele continuava sendo um m istério, desde que surgira com o fiel aliado da Grande France. Ninguém parecia saber ao certo sua nacionalidade, m as sua aparência física sugeria algum país do norte da África ou do sudeste asiático. Diziam alguns que era um indiano cuj a fam ília havia sido chacinada por invasores ingleses no seu país, daí seu ódio pelo Im pério Britânico. O velho m arinheiro de barba negra, com o eu, era um hom em fora de sua terra natal, o que talvez explicasse a sim patia com que sem pre m e tratava.
Assim que cheguei ao porto, encontrei-o no cais olhando pensativo para o horizonte.
– Muito trabalho, Alm irante?
– Não m uito, m eu caro, o que não estou certo de que sej a um a boa coisa. As coisas parecem estar especialm ente tranquilas nas ilhas e há sem anas não nos deparam os com um dos charutos voadores daquele estadunidense. É com o se o Im pério Britânico estivesse em suspenso, esperando por... algum a coisa.
– A fam osa calm aria antes da tem pestade?
– Que todo bom m arinheiro é capaz de reconhecer. Mas paciência, estarem os preparados quando eles sentirem saudades de nós lá no Outro Mundo.
– “Outro Mundo” era um a designação em tom depreciativo que os europeus do continente se acostum aram a usar para referirem -se às Am éricas, depois que souberam que os am ericanos se referiam à Europa com o o “Velho Mundo”, dando à palavra “velho” um a conotação igualm ente pouco lisonj eira.
– Quanto a você – prosseguiu Nem o, – destaquei o subm ergível Calamar para levá-lo até o ponto de encontro, na costa próxim a a Winchester. Existem alguns desfiladeiros litorâneos onde poderem os desem barcá-lo com m aior segurança.
Agradeci ao Alm irante e m e dirigi para o subm ergível. Com eçava ali, num a progressão ascendente, a parte m ais arriscada de m inha m issão.
* * *
Subi por um a trilha íngrem e e acidentada, e do alto do penhasco pude ver a som bra do Calamar, com o um a enorm e baleia, retornando para as águas profundas do canal. Cam inhei por dois quilôm etros até alcançar a estrada, onde perm aneci durante quarenta m inutos até avistar a coluna de fum aça que denunciava a aproxim ação de m eu transporte. Esses veículos m ovidos a eletricidade e vapor, dispensando a tração anim al, ainda m e fascinavam . Em bora a invenção fosse francesa, sua tecnologia j á com eçava a popularizar-se tam bém por toda a Grã-Bretanha. Aquele, em particular, ostentava o brasão do Ministério das Relações Internacionais. O m otorista estava sozinho, e sorriu quando abriu a porta do passageiro a fim de m e acolher. O hom em sim pático e atarracado usava o nom e de John Withm ore, e atuava com o secretário do m inistro. Mas em bora não dem onstrasse o m enor vestígio de sotaque, seu nom e verdadeiro era Jean Passepartout, o principal agente francês infiltrado na Inglaterra. Enquanto fazia o veículo retornar em direção a Londres, colocou-m e a par da atual situação relacionada ao m istério do canhão lunar. Eu tinha algum as perguntas a fazer:
– Então você esteve pessoalm ente em Ly m pne?
– Sim , m as infelizm ente j á era tarde. Algum as pessoas no Ministério, ligadas diretam ente a Wells, haviam deixado escapar que Cavor estava desenvolvendo no local algo secreto e extraordinário. Mas antes que eu inventasse um pretexto para viaj ar a Canterbury houve a tal explosão e por pura sorte Cavor e Bedford não se encontravam no laboratório. Aparentem ente alguns operários locais, gente ignorante paga por hora que nem fazia ideia de com que estavam lidando, estavam realizando algum trabalho de rotina nas forj as quando tudo foi pelos ares. Três m ortos e não sobrou m uita coisa para investigar. Um a coisa m e pareceu estranha...
Agucei os ouvidos. Após essa frase, pela m inha experiência, costum ava vir algo relevante em casos nebulosos desse tipo.
– Um sobrevivente, que escapou apesar das queim aduras graves, relatou que seu trabalho consistia na m ontagem de um a geringonça com plexa, feita de lentes e espelhos. Mas ele obviam ente não sabia para que aquilo iria servir, apenas que era parte de algo m aior.
– Lentes e espelhos...
Não, no m om ento aquilo não m e dizia nada. Mudei o rum o das perguntas:
– Dupin disse que você estava prestes a descobrir o local e a data do lançam ento...
Passepartout franziu a testa e coçou a cabeça, o que não prenunciava boas notícias.
– Esse é nosso problem a m ais urgente, Prendick, e confesso estar bastante apreensivo. A agente que conseguiu essa inform ação preciosa é Marie Jeanette Kelly, que atua em Whitechapel sob o disfarce de um a prostituta irlandesa cham ada Mary Jane. Conseguiu atrair, com o cliente, um m ilitar do alto escalão que teria dado com a língua nos dentes após algum as taças de brandy. Marie deveria ter se encontrado com igo esta m anhã para repassar a inform ação, m as sim plesm ente não apareceu. Na últim a vez em que nos falam os ela estava preocupada, com m edo de ser descoberta e chegou a m e pedir rem oção para outro trabalho. Diante dessa suspeita, j ulguei por bem aguardar sua chegada antes de agir. Se algo estiver errado, um inglês legítim o pode ter m elhores chances de safar-se...
– Fez m uito bem . Com o posso encontrar essa tal “Mary Jane”?
– Ela aluga um quarto m odesto em um a viela próxim a a Dorset Street. Posso deixá-lo nas proxim idades, e nos encontram os após o cair da noite no Reform Club, onde às terças o m inistro habitualm ente j oga algum as partidas de uíste. Sei que você tem acesso ao clube, e é possível que lá possam os colher algum a inform ação relevante.
Era um bom plano. Passepartout deixou-m e em Dorset Street, região m iserável repleta de im igrantes e fugitivos de áreas de conflito, e cam inhei a pé até encontrar o endereço indicado: Miller’s Court, núm ero 13.
Não m e surpreendi com o que vi logo que m e aproxim ei do edifício. Na verdade, era o que eu tem ia. Dois agentes da Scotland Yard guardavam a porta, im pedindo a entrada de um pequeno grupo de curiosos m altrapilhos. Apresentei m inha credencial e tive a passagem im ediatam ente liberada. À porta do quarto de Mary Jane encontrei um a figura conhecida: o Inspetor Lestrade era um dos m ais com petentes investigadores da Yard, e sua presença naquela cena de crim e indicava que eu deveria tom ar m uito cuidado com atitudes e palavras.
– Agente Prendick? Bem , se o Serviço Secreto tem interesse em um aparentem ente sim ples caso de hom icídio, ele não pode ser tão sim ples assim ...
– Já conseguiram apurar algum a coisa por aqui, Inspetor? – falei da form a m ais desinteressada possível, arriscando um a olhada para dentro do quarto.
Havia pouca m obília: um a pequena m esa com duas gavetas a um canto, encim ada por um espelho trincado; um pequeno sofá e um abaj ur; um a m esinha de centro m anchada. Meu olhar se deteve sobre a cam a no canto oposto, e não consegui reprim ir um gem ido. Eu realm ente não estava preparado para o que vi. Lestrade riu do m eu susto.
– O paraíso de um investigador crim inal, não concorda?
Toda a roupa de cam a estava encharcada de sangue. Sobre a m ancha rubra, o corpo de um a j ovem que não devia ter m ais de 25 anos, com um talho profundo no pescoço que quase lhe decepara a cabeça, sendo contido apenas graças à resistência da coluna espinhal. Um a abertura am pla e vertical ia do espaço entre as clavículas até o púbis, as costelas abertas com o se quisessem abraçar de volta as vísceras que j á não m ais se encontravam ali, na cavidade abdom inal. Tirei um lenço do bolso e o com prim i contra m inha boca e nariz.
– Eu entendo – Lestrade bateu am igavelm ente no m eu om bro. – Tive um a reação sem elhante na prim eira vez...