Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
O som e o aroma da morte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
O som e o arom a da m orte
Ainda estava escuro com o breu quando o barco se aproxim ou do porto de La Boca. A chuva gelada e incessante nos açoitava com o um m au presságio, desde que o vapor foi engolido pela bacia do Prata, quase sete horas antes. Na m edida em que o estuário se afunilava, aproxim ando de m aneira preocupante as duas m argens em conflito, a tensão se desenhava de form a cada vez m ais evidente nas fisionom ias da tripulação.
O capitão Servadac procurava acalm ar os nervos, exaltando a velocidade e a agilidade do Pèlerin. Afirm ava que o clipper era capaz de atingir, em condições ideais, m ais de vinte nós, deixando qualquer “banheira a vapor” do inim igo literalm ente “a ver navios”.
Infelizm ente, pensava com igo m esm o, as condições estavam longe de serem ideais. Olhei m ais um a vez para o velam e do m astro da proa, que m e parecia pesado, encharcado com o estava pela chuva. Além do m ais, nossa aproxim ação de Buenos Aires significava nossa chegada ao ápice do triângulo que delim itava o estuário. Na m argem direita ficava, naquele ponto, a linha m al definida que dem arcava o final do território brasileiro controlado por tropas ibéricas. Dali em diante, corríam os o risco de serm os surpreendidos pelos rápidos e pequenos veleiros de assalto dos piratas incas e aztecas. Enseadas escuras na m argem direita tam bém podiam ocultar baterias de canhões inim igos que colocariam o Pèlerin a pique, caso nos desviássem os excessivam ente naquela direção. Enquanto na Europa as relações conflituosas entre as duas potências se escondiam por trás das hipocrisias diplom áticas, aqui no Outro Mundo as lutas pela posse do território eram francas, abertas e terrivelm ente encarniçadas.
Percebi, para m eu relativo conforto, que o capitão Servadac tinha plena consciência daquela possibilidade, pela form a com o orientava o tim oneiro a acom panhar, dentro do possível, cada reentrância da linha costeira na m argem esquerda.
A chuva ficou m ais forte e aj eitei o colarinho do m eu sobretudo, ao m esm o tem po am aldiçoando o frio e bendizendo aquela cortina escura adicional, que aj udava a nos esconder do inim igo naqueles m eados da m adrugada.
Quando vi ao longe as prim eiras luzes do porto retornei à cabine para recolher m inha bagagem , preparando-m e para descer à terra. Fiquei surpreso ao ver Maucler, m eu intrigante com panheiro naquela m issão, recostado em seu catre e ressonando com o um a criança em sua viagem de férias, alheio à tensão am biente.
Minha m ente retornou até um m ês antes, quando o vi pela prim eira vez no escritório de Auguste Dupin, chefe m áxim o do Serviço Secreto da Grande France. O com andante fez rapidam ente as apresentações:
– Monsieur Maucler, este é Axel Lidenbrock, agente de contato com nossos aliados prussianos, e um de nossos m ais brilhantes estrategistas. Axel, este é o agente Maucler, seu com panheiro de viagem .
Apertei a m ão estendida daquele hom em m agro, de cabelos negros revoltos, rosto delineado por ângulos agudos e m arcado por sulcos que acentuavam as linhas de expressão. Não pude deixar de notar seu olhar desconfiado, avaliando-m e. Um estrategista sem pre repara nesses detalhes.
De qualquer m aneira, eu j á tinha ouvido falar de Maucler. Havia sido um dos discípulos m ais dedicados de Dupin quando ingressou no Serviço Secreto e, graças ao m estre aperfeiçoara de m aneira notável sua capacidade dedutiva. Acabaria se tornando um agente de elite, com brilhante desem penho em m issões de infiltração por trás das fileiras britânicas ao redor deste conturbado m undo. Era a prim eira vez que eu o via pessoalm ente. Im aginava que fosse m ais velho. E m enos franzino, talvez.
Dupin nos convidou para sua m esa de trabalho com um gesto de m ão. Sentam o-nos lado a lado diante dele. O chefe iniciou, em tom tranquilo, as explicações acerca da m issão:
– Senhores, notícias instigantes nos chegam das terras ao sul. Nossos am igos do Serviço Secreto Ibérico nos trazem novidades diretam ente das Am éricas...
– Com o seria de se esperar. Acaso existe algum a questão que aflij a a Ibéria e que não estej a relacionada ao front brasileiro?
– Desta vez não se trata do Brasil, Axel. Infelizm ente a situação naquelas terras banhadas de sangue continua a m esm a, alternando pequenos avanços territoriais com reveses lam entáveis. As novidades em questão se referem a interessantes perspectivas que parecem se abrir a partir da Confederação Argentina.
Arqueei as sobrancelhas. Enquanto na am pla faixa atlântica da Am érica do Sul as tropas ibéricas continuavam com o há vários anos m ergulhadas em com bates sangrentos, acuadas entre o oceano e o selvagem território dom inado pelos aztecas, a Confederação Argentina, m ais ao sul, parecia j á figurar com o território consolidado. A situação geográfica favorável, lim itada pelo oceano a leste e ao sul, e pela Cordilheira dos Andes a oeste, deixava apenas o norte do país exposto aos confrontos diretos em m aior escala com o inim igo. Os ibéricos haviam , assim , sido capazes de estabelecer ali um a base de operações estável. A Confederação Argentina abrigava o grosso das tropas que reforçavam o esguio território em disputa cham ado Brasil, tropas que subiam ao longo da costa até a Am érica Central através do m ar e de com boios terrestres na região m ais ao sul. Tam bém funcionava com o porto seguro para os navios provenientes da Europa, assegurando sua integração com o Im pério Francês. Era com um a dissem inação de notícias bom básticas referentes aos conflitos no litoral do Brasil, e com parada a ele a situação da Argentina costum ava passar despercebida, com o se fosse um oásis de paz, em bora se saiba que a proxim idade com o inim igo j am ais faria daquela região um roteiro preferencial para as férias das ricas fam ílias europeias.
Dupin pigarreou, arrancando-m e de m eus devaneios, e prosseguiu:
– Os ibéricos inform am que certo cientista argentino pode ser responsável por um a invenção de grande interesse para o Im pério, em term os estratégicos. Com a crescente tensão entre as duas potências voltando a dar sinais de aquecim ento aqui na Europa, tal invenção adquire um a im portância especial, um a vez que parece ser capaz de se transform ar em um a arm a com capacidade destrutiva sem precedentes.
– Com certeza o m ais prudente seria afastar tal dispositivo daquela região instável o quanto antes – m anifestou Maucler. – Não tenho dúvidas de que terem os problem as, caso os ingleses sej am inform ados dessa possibilidade.
– Infelizm ente isso parece j á ter acontecido – lam entou Dupin. – Notícias de Londres atestam que um ou m ais agentes britânicos j á estariam sendo m obilizados para interceptar o referido cientista e sua invenção antes que coloquem os nossas m ãos neles.
– Bem , nesse caso m e parece que tem os aqui um a situação de em ergência. Sem querer passar por preguiçoso, m as apenas em função da distância e do tem po escasso, não teríam os no próprio território sul-am ericano algum agente capacitado para resgatar esse precioso personagem antes que sej a tarde?
– Aí reside nosso m aior problem a, Axel. Com o grande parte dos hom ens de ciência, apesar de ser o pai de um a invenção letal, nosso ilustre personagem resiste a ceder sua obra para fins m ilitares. É aí que entra seu papel nesta m issão...
Aquilo realm ente m e surpreendeu, e confesso que tam bém m e divertiu. Jam ais m e considerei um diplom ata habilidoso, principalm ente diante de situação tão delicada. Manifestei, portanto, essa preocupação. Dupin esboçou um sorriso irônico e rebateu:
– Não se iluda, Axel. Mais do que qualquer um estou ciente de que seu talento considerável foi direcionado para outras funções. Entretanto, o cientista Javier Méndez foi contem porâneo e am igo de seu tio Otto durante seus anos de especialização na Universidade de Ham burgo. É até possível que ele tenha conhecido você ainda criança. Nossa esperança é que a abordagem , por parte de um legítim o Lidenbrock, o torne m ais m aleável, e o convença de nossas intenções no sentido de m anter sua invenção com o recurso estratégico, utilizando-a para fins pacíficos... a m enos que um a trágica – m as im provável – reviravolta no cam po da política internacional nos obrigue ao contrário.
– Percebo – confirm ei, com um vigoroso aceno de cabeça. – E suponho que nosso am igo Maucler aqui, graças a suas num erosas incursões em território hostil, sej a especialista em preparar um bom chá das cinco para esse m em orável encontro...
O riso descontraído de m eus interlocutores contribuiu para am enizar a tensão, que com eçava a acum ular enquanto o relato prosseguia.
– Não exatam ente. Maucler, com o você bem ressaltou, j á tem vasta experiência em m issões no exterior, inclusive infiltrado nas tropas inglesas. A possibilidade de term os que lidar com espiões britânicos nessa m issão exige a participação de um hom em experim entado com o ele, para sua segurança e a do nosso precioso cientista.
– Sim , estou a par do invej ável currículo de nosso bom Maucler. Sua com panhia, estej a seguro, será m ais do que apreciada.
– Vocês partem am anhã – prosseguiu Dupin, revirando alguns papéis sobre a escrivaninha. – Méndez vive na cidade portuária de Mar Del Plata, onde se encontra atualm ente sob a discreta escolta de agentes ibéricos. Program am os sua viagem a Buenos Aires, para se encontrar com nosso com issário local, no dia em que vocês deverão chegar à cidade. Algum a dúvida?
– Se m e perm ite, Monsieur Dupin – falou Maucler, num tom um pouco vacilante -, gostaria de saber com o devem os agir caso o señor Méndez, a despeito de toda a habilidade de Herr Lidenbrock, continue se negando a ceder sua invenção aos nossos cuidados. Em últim o caso, m esm o que não sej a o desej ável, podem os tom ar posse do dispositivo à sua revelia...
Dupin deu de om bros. Suspirou, parecendo relutar em pronunciar as palavras, e finalm ente disse:
– Aí reside um a questão bastante estranha. Segundo os inform es dos ibéricos que j á viram tal aparelho em ação, ninguém foi capaz de fazê-lo funcionar, a não ser o próprio inventor. O hom em costum a, inclusive, se vangloriar desse fato desconcertante: o aparelho só funciona quando acionado por suas próprias m ãos. Assim sendo, por favor, procurem cuidar com especial zelo da saúde do nosso cientista, enquanto não solucionam os m ais esse m istério, por m ais estranho que ele possa parecer.
Maucler e eu trocam os um olhar onde se liam incredulidade e interrogação. Dupin levantou-se, o que tornava encerrada aquela preleção. Nós dois seguim os seu exem plo, m as antes que saíssem os do escritório ele nos disse, ainda em tom relutante:
– A propósito, isso m e leva a outro favor pessoal que quero pedir a vocês, e que sej a cum prido com extrem a discrição...
Dupin baixou o tom de sua voz de tenor, que se reduziu praticam ente a um cochicho:
– Não quero que se im pressionem m ais que o prudente com os detalhes pitorescos desses relatos provenientes da Confederação Argentina. Relatórios anteriores dão conta de que nosso com issário local anda m anifestando algum as ideias um tanto... exóticas. Quero que vocês prestem bastante atenção, e m e tragam um testem unho confiável, sobre a conveniência ou não de m anter o hom em em um cargo de tam anha im portância estratégica.
– O senhor quer que vej am os se o hom em ficou doido ou não.
– Em resum o, Axel. São palavras que corroboram sua confessa pouca aptidão para a diplom acia. Por outro lado, conto com essa precisão e aguda obj etividade para dar um final feliz à tarefa.
E ali estávam os nós, num a fria e encharcada m adrugada de j unho, a bordo do clipper Pèlerin, baixando âncora no fortificado porto de La Boca. Foi com o se o próprio navio suspirasse aliviado quando a passarela de m adeira bateu contra as pedras do ancoradouro, liberando o acesso da tripulação à terra firm e. Com eçaram todos a baixar os engradados da carga, ignorando alegrem ente a chuva que os fustigava. Maucler e eu protegem os as cabeças com nossas m alas pessoais e correm os diretam ente para o barracão que ostentava a insígnia das autoridades portuárias da Confederação.
Sentado sob a luz de um lam pião, o oficial com andante do porto conversava em voz baixa com um hom em elegante de terno e colete. Os cabelos negros, que j á abriam espaço para um a testa am pla, eram bem partidos de lado. Os óculos de aro redondo e o bigode espesso de pontas finas com pletavam a im agem de hom em culto e de gostos refinados. Suas pálpebras subiram e desceram ante nossa entrada esbaforida, com o se j á esperasse por algo parecido. Educadam ente, ele se levantou.
– Buenas noites, señores – disse ele em portunhol, passando em seguida a um francês de sotaque carregado. – Sou o com issário Leopoldo Lugones, responsável pela força de segurança da Confederação Argentina. Espero que possam os com pensar com folga a recepção descortês proporcionada pelos deuses do clim a.
– Talvez o que parece descortesia possa ser m ais bem interpretado com o sim patia, com issário – rebateu Maucler, decididam ente m elhor diplom ata que eu -, se lem brarm os que a situação, até onde sabem os, anda tensa na outra m argem do Prata. A chuva fria e a escuridão nos serviram perfeitam ente com o escolta.
– Isso lá é verdade – respondeu Lugones, erguendo delicadam ente um a cortina e contem plando a água que escorria pela vidraça. – Os bugres têm se em penhado especialm ente, nas últim as sem anas, nos ataques contra as forças defensoras da Província Cisplatina, no extrem o sul do território brasileiro. Interrom per a continuidade do nosso território com a outra m argem do Prata poderia representar um duro golpe contra nossa capacidade de apoiar nossos hom ens no front com recursos hum anos e provisões.
O hom em silenciou por um m om ento, com o se aquela conversa houvesse evocado preocupações profundas, m as a seguir, com o se despertando de um sonho, voltou-se para nós e sorriu levem ente.
– Mas que espécie de anfitrião sou eu, afinal, que além de blasfem ar contra as divindades protetoras da Grande France ainda deixo nossos convidados m olhados e tiritando de frio? Por favor, m e acom panhem , cavalheiros.
Levou-nos pela porta dos fundos, onde um a m arquise nos protegeu da chuva por tem po suficiente para que pudéssem os adentrar aos tropeções num a carruagem que ali nos aguardava. Lugones entrou por últim o e fez um sinal para o cocheiro, que atiçou os cavalos na direção de sua portentosa m ansão no bairro de San Telm o. Explicou-nos que, após a epidem ia de febre am arela, a m aior parte das fam ílias de classe alta havia abandonado o bairro, m as que seu sangue de aventureiro, herdado de sua nobre fam ília de desbravadores e grandes proprietários de terra, o im pediu de se render ao m osquito. Passada a crise ele ali continuava, firm e e em penhado no com bate a outra ordem de “insetos”, que am eaçavam a Confederação Argentina e o Im pério.
O hom em não m e parecia nenhum doido. Esnobe, apenas.
Após nos instalarm os em dois dos vários quartos da m ansão e tom arm os um banho quente, descem os j untos ao escritório de Lugones, que nos esperava com um charuto aceso. Ao contrário da vez anterior, ele foi diretam ente ao ponto:
– Logo que am anhecer irem os ao hotel onde se hospeda, desde a tarde de ontem , o professor Méndez. Não fica longe daqui, e penso que os senhores estão tão ansiosos quanto eu para ver o Dispositivo Ôm ega em segurança.
– “Dispositivo Ôm ega”?
– De fato, o nom e foi dado pelo próprio inventor, j á que nada m ais é do que um proj etor do que ele cham ou de “força ôm ega”.
– Parece um nom e carregado de boa intensidade dram ática, não?
– Nada m ais distante da realidade daquele hom em , eu lhes asseguro – disse ele, com um gesto de desdém . – Na verdade, Javier Méndez viveu um a infância e j uventude m odestas e sem grandes, e eu arriscaria dizer, nem m esm o “m édias” am bições. Seu gênio inventor despertou em idade m uito precoce e ele se contentava em trocar suas engenhosas descobertas por recursos não m ais que básicos para sua sobrevivência e seus pequenos prazeres de rapaz. Desdenhava seus triunfos com m odéstia quase áspera ante os elogios que recebia e provavelm ente teria perm anecido no obscurantism o, tendo os louros de suas invenções herdados por outros, se não fosse o recrudescim ento da guerra no Brasil. Quando se viu na im inência de ter de aderir ao alistam ento obrigatório e sendo avesso desde aquele então a todo tipo de violência, optou por em penhar-se, pela prim eira vez na vida, em favor do próprio aperfeiçoam ento. Enviou cartas à Metrópole e acabou sendo aceito para sua especialização na Universidade de Ham burgo. Quando retornou à Confederação Argentina, agora com o renom ado cientista, aprofundou os estudos iniciados na Prússia que culm inariam na descoberta da “força ôm ega”.
Inclinei-m e para frente na poltrona, decididam ente curioso.
– E de que natureza, exatam ente, seria essa “força ôm ega”?
Lugones pareceu deliciar-se com nossa curiosidade e deu um a baforada em seu charuto, antes de responder:
– Anda por aí à flor da terra, senhores, m ais de um a força trem enda cuj a descoberta se aproxim a. Dessas forças interetéreas que acabam por m odificar sólidos conceitos da ciência e que, j ustificando as afirm ações da sabedoria oculta, dependem cada vez m ais do intelecto hum ano. Certam ente chegará o dia em que a m ente hum ana saberá reger essas forças diretrizes do cosm o sem as m áquinas interm ediárias. Mas até que isso aconteça, são hom ens com o Méndez que nos perm item vislum brar e, com o m odernos Prom eteus, roubar um a fagulha do fogo que perm anece ainda reservado aos deuses.
Dupin estava certo. O hom em era doido. Surpreendi-m e ao perceber que, diferentem ente de m im , Maucler parecia ter sido capaz de acom panhar o sentido daqueles devaneios:
– O senhor está dizendo que o Dispositivo Ôm ega perm ite ao hom em fazer uso de um a dessas “forças diretrizes do cosm o”. O senhor j á o viu em ação, com issário?
– Por certo que sim . E devo confessar que o efeito é decididam ente im pressionante. O m ais perturbador, porém , foi o fato de que eu m esm o e outros agentes tentam os, com o consentim ento do orgulhoso cientista, acionar o aparelho, sem o m enor resultado positivo. Conform e ele m esm o afirm a, por algum a razão m isteriosa apenas Javier Méndez é capaz de utilizar o Dispositivo Ôm ega de form a efetiva.
– Em term os práticos, com issário – insisti, tentando não parecer im paciente -, o que é essa cham ada “força ôm ega”?
– Javier Méndez – principiou Lugones, aj eitando-se na poltrona e apagando o charuto em um cinzeiro – descobriu a potência m ecânica do som . Ao que parece, tudo com eçou com suas observações sobre com o as vibrações em anadas por um diapasão podem se transm itir a outro diapasão que estej a no m esm o tom ou com o determ inadas ondas sonoras de alta frequência provocam um deslocam ento de ar que é capaz de fazer vibrar as vidraças, ou em casos extrem os, trincar os cristais m ais finos. Sua teoria era de que, se fosse capaz de direcionar ondas sonoras em determ inada progressão proporcional, sua som atória provocaria um a am pliação da força vibracional do som , a ponto de despedaçar blocos de m atéria sólida à distância. Méndez previa que um a m áquina com tal capacidade facilitaria em m uito a abertura de estradas em terrenos acidentados, pulverizando obstáculos representados por blocos de granito, por exem plo.
– Um proj eto am bicioso, convenham os...
– Mas que se transform ou em algo real, Herr Lidenbrock, quando Méndez conseguiu, segundo ele m esm o após repetidos e incansáveis experim entos, encontrar a progressão adequada e m ilim etricam ente exata de sua sequência de diapasões de altíssim a frequência. Eu m esm o testem unhei quando o Dispositivo Ôm ega praticam ente pulverizou um bloco de granito de um m etro cúbico.
O silêncio que se abateu sobre a sala dava conta do efeito que aquelas palavras tiveram sobre nós. Lugones sorriu com preensivam ente, e insistiu:
– Vej o em seus rostos a m esm a curiosidade incrédula que m e dom inou quando ouvi essa história do próprio cientista, cavalheiros. Mas lhes asseguro que ela rapidam ente se transform ou em espanto e j úbilo, diante da dem onstração prática do Dispositivo Ôm ega; e posteriorm ente em confusão e estranheza, quando eu e dois de m eus agentes tentam os acionar com nossas próprias m ãos o m isterioso aparelho, sem qualquer efeito visível além de seu agudo zum bido característico. Minha tranquilidade ao relatar-lhes essa história provém do fato de que os senhores, dentro de poucas horas, poderão com prová-la por si m esm os.
– Com preendo com o isso deve ser reconfortante, com issário – com entei, lançando um olhar significativo para Maucler. – Sem um a boa dem onstração prática, esse fascinante dispositivo pareceria ter saído diretam ente dos devaneios de um louco.
Lugones voltou-se por um m om ento e observou a j anela atrás de si. A chuva finalm ente dera um a trégua e um a lum inosidade arroxeada com eçava a insinuar-se pela vidraça.
– Com eça a am anhecer. Suponho que logo poderem os esclarecer de form a contundente todas as suas dúvidas. Para o m om ento, sugeriria aos senhores um a boa xícara de café para despertar-nos para o novo dia...
Acolhem os a sugestão com vívido entusiasm o. Lugones apanhou distraidam ente um a sineta de prata sobre a m esa e a fez tilintar por um m om ento.
O que aconteceu a seguir foi um a das coisas m ais assustadoras que presenciei em toda m inha vida. Arrisco-m e a dizer que, felizm ente, eu não estava arm ado durante aquela am ável reunião, ou a m esm a poderia ter se encerrado com um a desgraça.
A porta à nossa direita se abriu e um vulto horrendo invadiu o escritório, num passo grotesco e cam baleante. À prim eira vista passaria por um hom em baixo e atarracado, além de um pouco corcunda, m as a enorm e quantidade de pelos negros e espessos que lhe cobria todo o corpo não deixava dúvidas: tratava-se de um anim al!
Vi quando Maucler tam bém se encolheu em sua poltrona, igualm ente surpreso, enquanto o enorm e chim panzé, porque agora sim , eu havia sido capaz de identificar a espécie a que pertencia a besta, nos ignorava com pletam ente e cam inhava para j unto do seu am o. Eu j á tivera a oportunidade de ver um a daquelas criaturas certa vez, recolhido à j aula com o parte da carga em um navio que chegava à França, proveniente de um a expedição científica à África. Recordo-m e da m aneira furiosa com que a besta assustadora sacudia as barras de seu encerro e de seus gritos agudos que faziam trem er o próprio estôm ago de quem ouvia.
Os olhos do m aldito Lugones brilhavam por trás dos óculos redondos, saboreando o efeito que a cena nos causava. O com issário fez um afago carinhoso na cabeça do m acaco e, m al sendo capaz de conter o riso, disse:
– Señores, apresento-lhes m eu secretário especial, Yzur.
– Com issário Lugones, isto é um chim panzé.
A afirm ação não podia ser m ais óbvia, m as foi a única coisa que m e ocorreu dizer naquele m om ento. Em resposta, o chim panzé exibiu um am plo sorriso de dentes pontiagudos e am arelos, que ia quase de um a orelha saltada à outra. Seus olhinhos castanhos, de expressão perturbadoram ente hum ana, fitavam a m im e a Maucler alternadam ente. Dessa vez Lugones deu livre vazão ao riso e disse:
– Por certo que ele é. Já está com igo há três anos, desde que o adquiri de um circo que havia falido.
Para nosso m aior espanto, o com issário dirigiu-se em seguida ao m acaco:
– Yzur, queira fazer o favor de preparar a m esa para nosso desj ej um .
Com o se houvesse com preendido, o m acaco balançou a cabeça afirm ativam ente com vigor e em seguida deixou calm am ente o escritório, sum indo de nossa vista. Nós o acom panham os com olhares estarrecidos até que desaparecesse. Aqueles olhares im ediatam ente voltaram -se para seu m estre. Com o se aquela cena houvesse sido algo totalm ente norm al e corriqueiro, Lugones falou com a voz calm a:
– É possível que os senhores não saibam , m as os hom ens naturais de Java atribuem a falta de linguagem articulada dos m acacos à abstenção, não à incapacidade. “Não falam ”, dizem eles, “para que não os façam trabalhar”.
– Um reflexo, por certo, do prim itivism o do povo de Java...
– Mas que não deixa de nos sugerir um interessante postulado antropológico: poderiam ser os grandes prim atas, com o chim panzés e orangotangos, hom ens antigos que, por um a razão ou outra, deixaram de falar, ocasionando a atrofia de seus órgãos de fonação e dos próprios centros cerebrais da linguagem ?
– Trata-se da teoria da regressão das espécies – disse Maucler em tom neutro, abandonando seu m utism o com o se pretendesse evitar, assim , a atrofia de seus órgãos fonadores -; o m acaco descenderia do hom em degradado.
– Precisam ente. Debilitou-se até a supressão a relação entre uns e outros, fixando o idiom a da espécie em um grito inarticulado. Se essa teoria chegasse a ser dem onstrada, estariam explicadas todas as anom alias que fazem do m acaco um ser tão singular, não concordam ?
– E com o supõe o senhor que seria possível dem onstrar teoria tão... exótica?
Lugones fez um a pausa, saboreando o suspense. Seu sorriso m e dizia que nos conduzira exatam ente para onde pretendia. Respondeu à pergunta de Maucler com os olhos estreitos e fisionom ia grave:
– Não haveria senão um a dem onstração possível: voltar o m acaco à linguagem .
Ainda que possa parecer um a descortesia, foi m inha tensão reprim ida que explodiu em um a ruidosa e incontida gargalhada.
– Com issário Lugones, m acacos não falam !
– Vej a por esse outro ângulo, Herr Lidenbrock: não existe qualquer razão científica para que os m acacos não falem . Sua linguagem natural, com posta de gritos por m eio dos quais são capazes de se com unicar com seus sem elhantes, é assaz variada; sua laringe, ainda que notavelm ente diferente da hum ana, nunca o é tanto com o a do papagaio que, no entanto, fala! Quanto ao cérebro, tam bém notavelm ente m ais com plexo que o daquela ave, é de fato rudim entar; m as devo recordar-lhes que o do idiota tam bém é rudim entar, e apesar disso há cretinos capazes de pronunciar algum as palavras.
– A m enos que eu estej a enganado, com issário, o cérebro anim al não possui a área de Broca, responsável pela fala, nem m esm o o dos prim atas.
– Isso é fato, Monsieur Maucler. Entretanto, a im portância da área de Broca parece ser, de acordo com alguns estudos, superestim ada. A com plexidade insondável das conexões nervosas do cérebro tem produzido surpreendentes resultados no sentido da criação de vias alternativas para o restabelecim ento de determ inadas funções em pessoas acidentadas. Os esforços de nossos m édicos na recuperação de feridos de guerra com acom etim ento neurológico, em nosso sofrido país, dem onstra esse fato com sobra. A experiência indica que, havendo o potencial, tudo se resum e aos estím ulos adequados.
Um a luz acendeu no fundo de m inha m ente atônita, no m om ento em que percebi onde aquele hom em queria chegar.
– O senhor está querendo dizer que está tentando ensinar aquele chim panzé a falar?
– Não poderia haver espécim e m ais adequado, eu lhe asseguro. Yzur é um anim al notável. A educação do circo, em bora reduzida à im itação, desenvolveu m uito suas faculdades. É saudável, dócil e ainda j ovem , e é sabido que a j uventude constitui a época m ais intelectual do m acaco. Com o aptidão adicional herdada da própria espécie, com o devem saber, o prim ata tem o gosto por aprender, com o atesta sua tendência im itativa. Sua boa m em ória e capacidade de atenção parecem ser m ais desenvolvidas, com parativam ente, que as de um a criança, sendo por todos esses m otivos um suj eito pedagógico dos m ais favoráveis.
Dupin estava coberto de razão. O hom em estava decidida e irrem ediavelm ente doido. Com o se não houvesse percebido m inha incredulidade, ele prosseguiu com a explicação:
– O prim eiro passo consiste em desenvolver seu aparelho fonador, de m odo sem elhante com o se estim ulam os surdos-m udos antes de levá-los à articulação. Sua extraordinária m obilidade m ím ica sugere a realização de um a verdadeira ginástica dos lábios e da língua, e nesse cam po posso lhes afirm ar que Yzur tem alcançado progressos adm iráveis. O passo lógico seguinte seria o ensino da palavra m ecânica, para levá-lo progressivam ente à palavra sensata. Com eçam os pelos fonem as e sua articulação, as vogais e as consoantes, e quase sim ultaneam ente a associação entre sons e ideias.
Naquele m om ento, o chim panzé voltou a surgir à porta do escritório. Parou ao lado da m esm a, com o se nos franqueasse a passagem , e com eçou a dar pequenos saltos enquanto em itia sons com o “uh-uh-uh”. Lancei um olhar irônico na direção de Lugones, o professor de prim atas.
– Bem , parece que por enquanto seu aluno ainda não foi capaz de transcender o ciclo básico...
– O processo, de fato, é árduo e m uito lento, Herr Lidenbrock. Mas cada pequeno resultado proporciona um enorm e estím ulo, disso estej a certo. Com o o professor Méndez fará em poucas horas, espero tam bém poder brindar-lhes em breve com grandes surpresas.
Lugones levantou-se e fez um gesto com a m ão, indicando-nos o cam inho que passava por Yzur em direção à sala de j antar. Após aquela dissertação, não foi surpresa encontrarm os a m esa do café perfeitam ente arrum ada para nos receber. Com tão intensivo treinam ento, aquilo pelo m enos era algo que, ao m eu j uízo, o chim panzé seria capaz de fazer com facilidade.
Durante o desj ej um o assunto derivou para outros rum os, com o a inevitável situação política do Brasil e da Confederação Argentina no interm inável conflito contra os aztecas. O sol arriscava um a aparição tím ida entre nuvens quando, cerca de um a hora depois, ganham os a rua m olhada e entram os na carruagem que nos esperava, tom ando o rum o do hotel onde se hospedava Javier Méndez. Ficava localizado no novo e puj ante bairro da Recoleta.
Durante a viagem fiquei observando Leopoldo Lugones e m e dei conta de que, apesar de suas ideias excêntricas, eu sim patizava com o hom em . Não dem orei a descobrir o porquê. A despeito de todas as diferenças tem peram entais ele m e fazia lem brar m eu próprio tio, Otto Lidenbrock. É certo que, enquanto m eu tio é um hom em extrem am ente im paciente e im petuoso, pouco hábil ao lidar com seus afetos e distraído para as coisas do cotidiano, com o ocorre, aliás, com a m aioria dos gênios científicos, Lugones m ostrava-se bem m ais sociável, cheio de rodeios em suas explanações e atento a detalhes insignificantes. Porém , am bos são hom ens apaixonados quando se referem a seus obj etos de estudo, e não hesitam ao defenderem ideias obscuras e estranhas, caso farej em no fundo das m esm as o hálito da verdade. Meu tio conseguiu, paradoxalm ente, que eu refreasse em grande parte m eu sarcasm o e descrença j uvenis, que eu m anifestava com frequência ao reprovar suas teorias m ais exóticas, provocando com ele discussões terríveis. Mas recordo-m e de um a das tantas vezes em que as relações entre franceses e britânicos deterioraram perigosam ente; ele sugeriu que o Im pério Francês deveria considerar o plano de construir um acesso subterrâneo sob o Canal da Mancha, para invadir o território inglês de surpresa caso surgisse a necessidade. A ideia provocou-m e risos em um a intensidade que, vej o agora, devem ter parecido ofensivos. Ironicam ente, sugeri que ele j am ais tentasse transform ar aquela ideia em prática, sob risco de ver-se irrem ediavelm ente desm oralizado, m aculando para sem pre sua im agem de geólogo conceituado. No entanto, para m inha surpresa, o hom em esperou pacientem ente que eu term inasse m eu “espetáculo” e, com um a calm a e um a doçura inesperadas a ponto de m e desarm ar com pletam ente, afirm ou que “não seria seu prim eiro nem segundo erro, em seus esforços no sentido de superar os lim ites conhecidos da ciência”. Retruquei, ainda assim , questionando até que ponto valia a pena correr o risco em experim entos tem erários, ainda que baseados em conhecim entos sólidos. A lição que recebi naquele m om ento, talvez por ter sido enunciada em um raro m om ento de sensibilidade de um hom em racional e orgulhoso, ficou gravada a fogo em m inha alm a. Disse-m e Otto Lidenbrock: “A ciência, m eu rapaz, é construída com erros, m as são erros que vale a pena com eter, porque conduzem pouco a pouco à verdade.”
Olhei novam ente para Lugones, que fitava o horizonte pela j anela da carruagem com ar sonhador. Em que porcentagem seria aquele hom em um louco e em que m edida poderia ser considerado um desbravador destem ido das trevas que envolvem o halo lum inoso proj etado pela cham a da ciência? Decidi, em honra de m eu tio, que valia a pena observar m ais um pouco antes de decretar o veredito. Talvez Méndez, que conhecia bem m eu tio e conhecia tam bém Lugones, pudesse m e aj udar a lançar um a luz sobre aquela questão.
Minhas reflexões foram interrom pidas quando a carruagem estacou com um solavanco. Descem os em um descam pado coberto de cascalho, que continuava num a trilha tortuosa entre as árvores de um form oso bosque até a escadaria do im ponente edifício, que funcionava com o sede do hotel.
Já nos aproxim ávam os das escadarias da entrada quando, de entre as colunas do hall, surgiram dois hom ens uniform izados. Lugones estacou por um m om ento, surpreso. Percebi num instante que sua perturbação não se devia à presença dos dois hom ens, um a vez que ele j á nos havia inform ado que deixara no hotel quatro de seus agentes com o escolta do cientista. O problem a eram as expressões em seus rostos. Um deles adiantou-se e se apressou em dizer:
– Lam entam os m uito, com issário, m as houve um contratem po terrível...
– O que está dizendo, Herrera? Onde está Méndez?
– Pretendíam os contatar o senhor nesse instante, com issário. Ele acaba de ser encontrado... – a voz do agente trem ia.
– Encontrado?...
Evitando olhar seu superior nos olhos, Herrera fez um gesto em direção ao pé da escadaria que conduzia aos andares superiores, onde um pálido gerente saltava de um pé para o outro, enquanto secava o suor do rosto com um lenço. Aquilo não podia ser nada bom .
Fom os conduzidos rapidam ente à porta de um dos quartos do terceiro andar. Os outros dois agentes, de olhares não m enos constrangidos, aguardavam do lado de fora, j untam ente com um hom em de ar assustado que traj ava o uniform e dos funcionários do hotel.
A porta do quarto abriu-se lentam ente e pudem os ver o corpo volum oso de Javier Méndez deitado na cam a, sob os lençóis, o rosto j á exibindo os prim eiros sinais da palidez da m orte. Lugones perm aneceu de pé sob o um bral da porta. O gerente aproxim ou-se dele por trás e cochichou com voz trêm ula:
– O señor Méndez deu ordens para que fosse despertado logo ao am anhecer, às sete horas. Com o não atendeu aos cham ados, nosso funcionário usou sua chave para abrir a porta e o encontrou exatam ente assim . Dei ordens expressas para que nada fosse tocado até que o com issário chegasse, e seus agentes perm anecem desde então vigiando aqui no corredor.
– Onde perm anecem os desde ontem , quando o professor Méndez se recolheu, com issário – disse um dos agentes, apontando para um a cadeira postada cerca de dez m etros adiante, de frente para o corredor. – Podem os assegurar que ninguém entrou ou saiu deste quarto até que o cam areiro nos cham ou, aos gritos, há cerca de m eia hora.
Lugones cam inhou vagarosam ente para o interior do quarto, que era m ais com prido do que largo. Maucler e eu o seguim os de perto e depois de nós vieram o gerente, seu funcionário e dois dos agentes. Do lado oposto da cam a onde j azia o cadáver do cientista a j anela estava aberta de par em par e a luz do sol perm itia um a boa visualização de todo o am biente. Não havia m arcas de violência em nenhum a parte. A m ala de Méndez era parcialm ente visível através da porta do arm ário entreaberto e não parecia haver nada fora do lugar.
– Parece ter sido m orte natural; “m orte por visita de Deus”, com o costum am decretar os legistas ingleses – arriscou o gerente, ainda cochichando. – Um a trágica coincidência que ele houvesse acabado de chegar a Buenos Aires...
– Você, m eu bom hom em , o que foi que viu? – indagou Lugones, ignorando o gerente e dirigindo-se diretam ente ao cam areiro. Este se adiantou dois passos e pude perceber que m ancava. Sua perna direita era, evidentem ente, um a prótese.
– Bati na porta do quarto às sete horas em ponto – disse o hom em , com voz trêm ula, esfregando as m ãos e despej ando as palavras rapidam ente, em seu francês com um forte sotaque característico dos falantes do portunhol. – Com o o professor não respondeu, usei a chave da gerência para entrar. Tudo fazia parecer que ele ainda dorm ia, por isso hesitei, e o cham ei pelo nom e m ais algum as vezes. Depois m e aproxim ei cautelosam ente, preocupado por sua im obilidade. Toquei seu rosto e percebi que estava frio. Coloquei m eu dedo sob as narinas e constatei que não respirava. Então corri pra fora, e gritei pelos agentes...
– Não passaram nem cinco m inutos entre o m om ento em que o cam areiro entrou no quarto e o m om ento em que saiu e cham ou por m im , que m e encontrava em m eu turno no final do corredor – com pletou um dos agentes.
Percebi que, enquanto Lugones interrogava as testem unhas, Maucler se m ovia pelo interior do quarto. Prim eiro chegou bem perto do corpo e o exam inou de cim a abaixo, m inuciosam ente, porém sem tocá-lo. Aí tocou levem ente o rosto pálido com as costas da m ão. Depois sacou um lenço do bolso e com ele ergueu a ponta do lençol, exam inando-o por baixo. Cam inhou até o arm ário e entreabriu a porta, exam inando todo o interior. Deu um a rápida olhada no banheiro, j á que se tratava de um a suíte. Havia um criado m udo j unto à cabeceira do falecido. Maucler abriu a pequena gaveta e retirou de lá, ainda usando o lenço, o que parecia ser um fino alm anaque de papel barato e am arelado. Um a das páginas estava m arcada com um a tira de papelão branco, am arrada em um a das pontas com um fino barbante. Maucler m ostrou-m e a tira de papel, onde estava escrito em portunhol: “Que tengas uma buena estadía conosco.”
Percebendo m eu olhar curioso em direção à brochura, ele disse:
– Trata-se de um a espécie de guia para turistas, contendo os principais locais de hospedagem e alim entação em Buenos Aires. Vej a aqui, há um a pequena m arca à frente do endereço de um hotel...
– Este, onde nos encontram os?
– Não, na verdade o hotel assinalado fica em La Boca, próxim o ao porto.
O gerente bufou, torcendo o nariz, e não pôde deixar de resm ungar:
– Não pode ser um lugar respeitável, isso é certo...
Atrás dele o cam areiro pigarreou, constrangido. Ergueu a m ão vacilante, com o um aluno que pede a palavra ao professor.
– Senhores, se não precisarem m ais de m im , peço licença para retornar às m inhas responsabilidades.
O gerente consultou Lugones com um olhar inquisitivo, m as este apenas fez um gesto para que o cam areiro pudesse sair. O hom em apressou-se em deixar o cenário m acabro, a perna postiça fazendo um barulho surdo ao chocar-se contra a m adeira que cobria o piso. Quando desapareceu, o gerente se voltou e deu de om bros.
– Peço que perdoem o pobre Gonçalo. Este é seu prim eiro em prego após retornar do front brasileiro. Perdeu um a das pernas em um bom bardeio na Província Cisplatina e foi trazido para o Hospital Militar, onde perm aneceu por sem anas. Sobreviveu, m as desgraçadam ente m utilado. Ver um dos hóspedes m orto em sua prim eira sem ana de trabalho não deve ser agradável. O pobre hom em j á teve m ais do que sua j usta cota de tragédias.
Enquanto ele falava, observei que Maucler se abaixava e apalpava a m adeira plana e quadrada na parte de cim a do criado m udo. Passou o dedo indicador na superfície vazia, e esfregou-o contra o polegar, aparentem ente analisando a poeira. Depois disso, deu a volta na cam a e parou no centro do espaço estreito entre a cam a e a j anela, onde tocou cuidadosam ente o batente da m esm a em toda a extensão do parapeito. Olhou para fora por algum tem po, com o se desfrutasse do belo visual proporcionado pelos j ardins ao redor do hotel. Percebi que, de repente, algo cham ou sua atenção no chão do quarto, num lugar que não podíam os ver de onde nos encontrávam os.
Maucler abaixou-se e, ainda usando o lenço, apanhou no chão um m inúsculo obj eto negro, im possível de identificar m esm o a um a distância tão curta. Ele voltou para j unto de nós ainda fitando o fragm ento na ponta de seu dedo, e estendeu-o na m inha direção. Lugones e eu estreitam os os olhos, o com issário aj eitando os óculos para tentar identificar o obj eto achatado em form a de gota d’água. Maucler não deu tem po para que decifrássem os o m istério por nós m esm os:
– É um a pétala de flor. Um a pétala negra.
– Negra? – estranhei, sem conseguir atinar para o tipo de flor que pudesse ter um a pétala com o aquela.
Maucler arqueou as sobrancelhas e voltou-se para o gerente.
– Os senhores costum am enfeitar os quartos do hotel com arranj os de flores?
– Por certo que sim – disse ele, com o se houvesse se ofendido com a pergunta. – Inclusive considero um a falha grave que não haj a um arranj o bem aqui, no quarto de um hóspede tão ilustre! Mas não m e recordo de j á term os algum a vez usado flores negras em nossos enfeites...
Ao m eu lado, Lugones sacou um a pequena lupa do bolso do paletó e exam inou a pétala que repousava na ponta do dedo de Maucler. Soltou um grunhido e afastou-se com o olhar pensativo, enquanto as sobrancelhas erguiam -se em sinal de surpresa.
– Viola acherontia... – m urm urou o com issário, m ais para si m esm o.
Retornam os à sua residência j untos. Lugones fez a viagem de volta na carruagem inteiram ente m ergulhado em seus pensam entos. Observei atitude sem elhante em m eu colega Maucler. Os dois, por cam inhos certam ente diversos, procuravam j untar as peças do quebra-cabeça em que se transform ara nossa m issão, com o inesperado assassinato de Méndez. Assassinato, sim , a despeito da teoria do gerente do hotel sobre um a m orte natural. Para m im a m aior prova disso era j ustam ente o fato de que não encontram os, naquele quarto, o m enor sinal do suposto Dispositivo Ôm ega. Pelo testem unho categórico do agente que estava de plantão no corredor, o cam areiro não tivera tem po nem oportunidade de retirar qualquer obj eto do quarto sem que ele tivesse visto. E além do cam areiro, ninguém m ais entrara no quarto naquela noite além de Méndez. Manifestei essas im pressões para Maucler, e ele resm ungou algo com o “de fato, o cam areiro não teve tem po...”, retornando depois a seu m utism o reflexivo.
Chegando à m ansão, Lugones nos conduziu diretam ente à biblioteca, onde voltam os a desfrutar da com panhia do grotesco chim panzé Yzur, que dem onstrou com pequenos saltos e cam balhotas – m as nenhum a palavra sequer – a alegria de reencontrar seu m estre.
O com issário tinha ali um a vastíssim a coleção de livros e periódicos, espalhados em estantes que cobriam com pletam ente as paredes de duplo pé direito. Ele procurou algum a coisa ao redor da sala e finalm ente fez um sinal para o m acaco. Observei fascinado quando Yzur em purrou para j unto de Lugones um a escada, presa superiorm ente a um trilho que corria rente às paredes. O hom em subiu alguns degraus e retirou da prateleira um fascículo am arelado, que estendeu sobre a m esa localizada no centro da biblioteca. Era um caderno de um a edição antiga do principal j ornal de Buenos Aires. Constatei que aquela edição trazia a data de aproxim adam ente dez anos atrás. Finalm ente, com um a exclam ação de triunfo, Lugones apontou para um a notícia no alto de um a das páginas.
– Ah, eu sabia, aqui está! “Sergio Sandes” é o nom e do hom em ...
– Suponho que exista um a relação entre esse hom em e a m isteriosa pétala negra, com issário. Talvez sej a o m om ento de nos esclarecer esse dram ático enigm a...
– Claro que sim , Herr Lidenbrock! Queiram desculpar m eu recente com portam ento introspectivo, m as confesso que os rum os tom ados por este caso m e resultaram extrem am ente surpreendentes. Com o pode ver pela data do j ornal, tive que m ergulhar profundam ente nas águas escuras da m em ória para resgatar esta im portante pista.
Li a m anchete apontada por Lugones, escrita em portunhol: “Cientista local realiza prodigios en el reino de los vegetais.”