Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
Prefácio - Ficção alternativa com “F” e “A” maiúsculos
Ficção alternativa com “F” e “A” m aiúsculos
Hom ens e Monstros constitui a um só tem po um fix-up de fina estirpe, com fortes elem entos de história alternativa e um rom ance de ficção alternativa instigante e original.
Que salada m ista é essa?
Calm a. É fácil de explicar e m ais fácil ainda de entender.
Afinal, com o dizia Jack, o Estripador — não por coincidência, um dos personagens que você conhecerá a seguir — vam os por partes.
Fix-up é um a narrativa longa, algo sem elhante ao rom ance, só que com posta por histórias m enores, que podem ser lidas de form a independente, com o contos ou noveletas, que seriam com o azulej os, benfeitos por si sós, capazes de com por um m osaico m ais belo e com plexo do que qualquer um deles, se tom ado individualm ente. O fix-up representa um a tradição venerável, conquanto m ais frequente na literatura fantástica do que em outros tipos de literatura de gênero e no pobre e reles mainstream. Neste sentido, Homens e Monstros é constituído por seis noveletas. Cada um a das peças desse m osaico faz sentido isoladam ente. Tanto é que as duas últim as j á foram publicadas em antologias fantásticas de ficção curta. Contudo, apesar de fazerem sentido sozinhas, com o o leitor terá oportunidade de constatar, estam os diante de um daqueles casos clássicos em que o todo é m aior do que a som a das partes.
Em bora o fix-up que você tem em m ãos não constitua história alternativa de per si, ao m enos não de um ponto de vista castiço — um a vez que se apropria de personagens ficcionais de outros autores e não apenas de personagens históricos reais, transform ando-os em seus próprios personagens literários — ao propor um ponto de divergência e alinhavar sua linha histórica alternativa a partir dessa divergência, a citar, a sobrevivência do Im pério Asteca sob suserania britânica, Flávio Medeiros delineia seu texto norteado pela filosofia de trabalho da história alternativa, criando um m undo sem elhante ao nosso e, ao m esm o tem po, inteiram ente distinto em seus m atizes steampunks. Um m undo onde a tecnologia avançou m ais rápido. Um a Terra diferente, na qual os Im périos Britânico e Francês se digladiam num a genuína guerra fria vitoriana que, aliás, é o subtítulo desta obra.
Homens e Monstros é, isto sim , ficção alternativa bona fide — com “F” m aiúsculo e “A” m aiúsculo, iniciais tanto de “Fantástico” quanto de “Fantasia” — escrita na m elhor tradição estabelecida por Kim Newm an em Anno Dracula e, aqui no Brasil, por Octavio Aragão em A Mão que Cria. Em vez de propor resultado diverso para um evento histórico crucial e estabelecer um m undo ficcional a partir das consequências desse ponto de divergência, com o se faz nos trabalhos de história alternativa, na ficção alternativa a divergência não se situa na história, m as sim num resultado diverso de âm bito literário. Em Anno Dracula, por exem plo, Kim Newm an propõe a sobrevivência do Conde Drácula à sanha dos caçadores de vam piros capitaneados por Van Helsing e em seguida nos m ostra com o seria um m undo onde a elite do Im pério Britânico houvesse sido vam pirizada por Drácula e pelos outros vam piros da literatura vitoriana.
Flávio Medeiros Jr. segue os passos de Newm an e Aragão, m as avança m ais longe, ao se apropriar de personagens literários dos contos e rom ances científicos de Edgar Allan Poe, Jules Verne, H.G. Wells, Arthur Conan Doy le, Robert Louis Stevenson e vários outros autores dos clássicos fantásticos da literatura vitoriana, presentes no im aginário popular até hoj e.
Quanto às partes referidas pelo Red Jack, o fix-up abre com “O Som e o Arom a da Morte”, onde vem os um a dupla de agentes secretos do Im pério Francês atuando na Confederação Argentina em busca de um a grande invenção que talvez venha a se tornar a arm a definitiva.
A noveleta que em presta seu título ao livro nos brinda com um a nova versão do clássico “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, com um final enxuto e surpreendente, num texto perm eado pelo clim a da guerra fria vitoriana.
Em “Máscaras”, um agente britânico é enviado para aferir a lealdade de um dissidente francês que vem em preendendo experiências biológicas revolucionárias num a ilha deserta. Só que, antes de chegar lá, o agente se envolve num a m issão secundária em busca de um operativo prussiano em pleno coração da África Negra, tropeçando um a m egalópole siderúrgica, num a tram a m ovim entada e m irabolante na qual absolutam ente nada e ninguém são exatam ente o que parecem .
“O Lam ento da Águia” é a única peça deste m osaico que apresenta personagens astecas e nos m ostra com o a civilização europeia, sobretudo a britânica, influenciou a cultura asteca sem , no entanto, destruí-la. Em busca do esclarecim ento que lhe perm itirá ascender na carreira m ilitar, o protagonista Itzcoatl se em brenha no território dos Estados Unidos, aqui um estado-m em bro do Im pério Britânico, para desvendar o desaparecim ento de seu irm ão gêm eo e o m istério acerca de um surto epidêm ico m ortal.
“Os Prim eiros Aztecas na Lua” é ficção alternativa por excelência: um a noveleta que hom enageia boa parte dos rom ances científicos vitorianos, com ênfase especial a Da Terra à Lua, de Jules Verne e A Máquina do Tempo, de H.G. Wells. É a história de um agente duplo, com seus dram as de consciência e suas lealdades divididas, às vésperas de um a grande conquista científica que parece prestes a rom per o equilíbrio de forças da guerra fria franco-britânica.
Últim a peça deste m osaico candente, “Por um Fio” responde a pergunta que m uitos fãs de Jules Verne j á se fizeram : o que aconteceria se o subm arino Nautilus do m isterioso Capitão Nem o com batesse o Albatross, de Robur o Conquistador? Nesta ficção alternativa, enquanto o Alm irante Nem o com anda a esquadra de subm ersíveis do Im pério Francês, Robur lidera a frota de dirigíveis m ilitares do Im pério Britânico. Autêntico duelo de titãs!
Enfim , cum prido m eu papel de atiçar seu apetite, leitor incauto, incito-o a m ergulhar de cabeça neste universo ficcional surpreendente e fascinante.
Gerson Lodi-Ribeiro [1]
Novembro de 2011.