Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
Homens e monstros
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Hom ens e m onstros
Éram os considerados um a dupla de hom ens estranhos. Ninguém ousava dizer isso abertam ente, é claro, m as não passavam despercebidas, aos m eus olhos experim entados de soldado, as expressões irônicas ou de desaprovação, fossem nos salões ilum inados, fossem nas esquinas enevoadas de Londres. Fato é que eu não m e im portava nem um pouco, nem Utterson, se é que m eu prim o sonhador efetivam ente se dava conta de algo.
Nossas cam inhadas dom inicais eram quase um ritual. Há vários anos, salvo quando o clim a desfavorável nos contraindicava a atividade de form a m ais incisiva, repetíam os nosso com prom isso form al, j am ais sacram entado de m aneira explícita, pelo m enos duas ou três vezes em cada m ês.
Alguns, m elhor conhecedores de nossas raízes, diriam que se tratava de um a necessidade íntim a de convivência, j á que por razões casuais ou trágicas a fam ília que tínham os se resum ia em um ao outro.
Muitas vezes, nessas cam inhadas, nós quase não nos falávam os. Eu respeitava a introspecção de Utterson, que afinava de m aneira perfeita com m inha m isantropia. A sim ples com panhia um do outro j á nos bastava. A cada dom ingo percorríam os um traj eto pelas ruas de Londres, que com o tem po acabaram se convertendo em percursos “oficiais”.
Por sua vez, os cam inhos tortuosos da vida acabaram nos im pondo um a separação forçada, quando a indignação perante as barbaridades que nos chegavam na form a de notícias m e levaram , im pulsivam ente, a m e alistar para a Cam panha da Índia. Ironicam ente, foi um m esm o episódio o responsável por nossa separação: o afundam ento do Príncipe de Gales, trágico incidente que gerou um a onda de alistam ento voluntário nas forças arm adas, quando ficou m ais claro que nunca que a Pax Britannica havia m orrido e que as disputas com o Im pério Francês, nos quatro cantos do m undo, continuavam sangrentas com o não queriam adm itir nossos políticos e diplom atas. Estive fora, com batendo no Raj , por longos e sangrentos três anos. Nesse ínterim , Utterson foi obrigado a se confrontar com seu quinhão pessoal de tragédia, j á que seu pai, últim o parente vivo, fora m orto no trágico episódio do Príncipe de Gales. Enquanto eu pegava em arm as, m eu prim o assum ia o com ando solitário do escritório de advocacia da fam ília.
Foi com im enso alívio que, assim que retornei à Inglaterra, retom am os nosso hábito das cam inhadas dom inicais e senti que os laços que nos uniam encontravam -se m ais sólidos do que nunca. Preservam os nossa m aneira tradicional de nos referirm os um ao outro pelo nom e de fam ília, cuj a form alidade era um dos m aiores m otivos de estranham ento por parte dos que conosco conviviam ; não nos tratávam os com o “Rick” e “Gabe”, com o seria de se supor diante de tam anha intim idade, m as com o Enfield e Utterson. Havia, entretanto, um a diferença m arcante em nossas cam inhadas pós-retorno: um a necessidade íntim a de falar, de trocar im pressões pessoais que dessem vazão a nossa perplexidade diante dos rum os que o m undo tom ava. Os reveses da vida haviam nos m ostrado, de m aneira aguda e profunda, que m ais além da frágil aparência de ordem e civilização em que vivíam os, no coração do Im pério Britânico, existia um a realidade brutal, selvagem , sangrenta, que parecia arrastar a hum anidade de form a inexorável para o abism o. Nossas conversas passaram gradualm ente da fase de constatação estupefata para a de reflexão filosófica sobre o assunto, e nessa seara se m antinham em sucessivas m arés de descrença alternada com esperança, m arés que pareciam não vislum brar seu fim , tal a volatilidade inerente ao tem a.
– A tragédia hum ana, Enfield, que decreta a inevitabilidade de seu destino – disse Utterson, pensativo, em um de seus m om entos m ais pessim istas – reside no fato de que o ser hum ano tem dentro de si duas naturezas em perm anente luta, sem chances de reconciliação, tal é a diferença de obj etivos a que nos pretende arrastar: por um lado, sua natural inclinação para o Bem ; pelo outro, a ânsia de dom ínio e subm issão de seu sem elhante, que o conduz autom aticam ente à violência nos âm bitos físico, m oral e psicológico.
– Você usou bem a palavra “naturezas”, Utterson, j á que a m eu ver trata-se de duas tendências inerentes a sua própria constituição, tão hum anas com o são seus sistem as biológicos. Essa conduta instintiva, que conduz ao conflito, foi essencial ao ser hum ano algum dia, quando era obrigado a lutar diariam ente por sua própria sobrevivência contra as am eaças da Natureza. A necessidade de vencer obstáculos corriqueiros com o a fom e, o frio e a defesa da prole conduziram naturalm ente a um a postura egoísta e individualista.
– Atitude que deveria, a m eu ver, ter sido am enizada quando as conquistas da civilização perm itiram ao hom em desfrutar de um a segurança m aior no que concerne à sobrevivência e dedicar-se, assim , à m aior aproxim ação em ocional e intelectual em relação a seu sem elhante. A união por ideais nobres deveria cum prir igualm ente, num m undo civilizado, o papel de assegurar a sobrevivência m útua. Mas com preendo que deixar um a postura em prol da outra não sej a tarefa sim ples. A natureza instintiva é com o um a fera erigida em m onarca, que obviam ente tende a lutar com todas as forças para m anter-se no trono. O problem a é que essa conduta belicosa, tendo perdido no m undo m oderno seu sentido de preservadora da sobrevivência, agora age em sentido contrário, conduzindo a hum anidade cada vez m ais em direção ao precipício da aniquilação. Por que parece ser tão difícil para o hom em m oderno perceber isso?
– Porque o selvagem m oderno aprendeu todos os artifícios que lhe perm item fingir-se de civilizado, m eu caro – respondi, com um am argo sorriso irônico. – No m om ento em que rotulam os nossos clássicos adversários na luta pela suprem acia m undial, os franceses, com o “com edores de rãs”, vai por trás dessa expressão um conteúdo m uito m ais que pouco lisonj eiro. Era bem claro, na Índia, com o a resistência dos grupos rebeldes estava soberbam ente fortalecida por seu apoio financeiro e bélico. Eles, por outro lado, que nos cham am pej orativam ente de “rosbifes”, nos acusam de condutas bárbaras inspiradas por nossa aliança com os aztecas, a qual nos garante a suprem acia nas Am éricas.
– Que ninguém nos ouça, m eu prim o, m as é inegável que nossa proxim idade com um povo de cultura tão brutal cause, m esm o aqui às m argens do Tâm isa, um a considerável apreensão. É de se pensar o que seria de nós se os ibéricos, vassalos do Im pério Francês e exploradores pioneiros das Am éricas, houvessem se aliado aos aztecas em nosso lugar...
Aquela suposição m otivou algum as quadras de silêncio pensativo. Escavando nas catacum bas da m em ória em busca de m eus conhecim entos de História, acabei respondendo:
– Talvez fosse um m undo bem diferente, sem dúvida. Os ibéricos, na época divididos em espanhóis e portugueses, brigando entre si pela suprem acia no continente ocidental, tendiam a um a conduta m ais agressiva em relação aos povos colonizados, fazendo largo uso da escravidão e do genocídio. Talvez os aztecas nem houvessem sobrevivido à colonização se não ocorresse a Noche Triste, quando Cortéz e seus hom ens foram inteiram ente dizim ados com o represália contra um m assacre de indígenas. Aproveitando a oportunidade proporcionada pelo dom ínio daquele riquíssim o im pério em aberto, nossos antepassados propuseram um a união entre ingleses e aztecas contra a Espanha, o inim igo em com um . Trocar os recursos naturais m exicanos por conhecim ento e tecnologia foi um estratagem a genial, que acabou transform ando o Im pério Azteca em aliado e vassalo do Im pério Britânico. Convenham os, nossos rapazes m ereceram a vitória naquela disputa...
– Se os espanhóis houvessem prevalecido, talvez sequer houvessem enfraquecido a ponto de serem assim ilados pelos franceses em sua expansão territorial pelo continente europeu. Talvez um a Península Ibérica forte lograsse equilibrar m elhor as forças no m undo.
– Ou talvez não, Utterson. Vej a que tudo não passa de um j ogo de interesses, tanto as alianças quanto as disputas sangrentas. Se hoj e som os aliados dos aztecas e os franceses de russos e prussianos, acredito que tudo não passa de um a conj unção de conveniências m útuas, que pode quebrar-se com o cristal ante o m enor sacolej o. Os franceses nos tem em e tem em os aztecas. Nós tem em os franceses e prussianos, m as com o você bem disse, encaram os os aztecas com desconfiança. Os aztecas, pode ter certeza, odeiam os franceses e ibéricos que teim am em invadir suas terras ao sul, e nos respeitam em grande parte por tem erem , eles tam bém , nossa suprem acia bélica.
– E talvez os prussianos respeitem os franceses apenas por verem em nós, ingleses, um a am eaça m aior. – riu Utterson.
– Assim com o aconteceu com os ibéricos no passado rem oto. É j ustam ente isso, m eu caro: por baixo da cartola e das polainas o ser hum ano continua sendo pouco m ais que um selvagem reprim ido pela educação.
– O que leva a acontecim entos surpreendentes, com o o episódio recente daquele tenente de seu pelotão... com o era m esm o? Newton?
– Lawton. Charles Lawton. É um triste exem plo, m as bastante apropriado. Chegam os j untos ao Raj , m as ele rapidam ente chegou ao posto de tenente. Era o m ais destem ido entre todos nós, beirando as raias da insanidade. Quando foi ferido, retornou à Inglaterra com o herói. Quem diria que, m eses depois, estaria confessando o assassinato do próprio tio por m otivos absolutam ente m esquinhos? Você acom panhou o j ulgam ento...
– Jam ais constatei tam anha frieza ao confessar um crim e hediondo. Se não fosse m acabro dem ais, eu afirm aria que ele parecia sentir orgulho enquanto confessava aquilo. É assustador pensar que você esteve lutando ao lado dele, om bro a om bro.
– Quando era um dos m ais queridos cam aradas, naquele front infernal repleto de selvagens de turbante. Eis que retornam os ao ponto inicial de nossa conversa: o ser hum ano carrega dentro de si o fardo da luta entre duas naturezas. Por m ais que durante algum tem po o hom em civilizado predom ine, a qualquer m om ento corre o risco de que o m onstro deflagre seu golpe fatal e assum a o controle.
Por coincidência, o acaso em nossa peram bulação nos havia conduzido naquele dia, de m aneira inédita, a um a rua secundária num bairro m ovim entado de Londres. Tinha um próspero com ércio nos dias úteis, m as aos dom ingos se transform ava em um a passagem relativam ente vazia. A duas portas da esquina, em um pátio j á quase inteiram ente tom ado pelas som bras, naquele fim de tarde em que os últim os raios de sol penavam para superar a atm osfera nevoenta, ainda podia-se vislum brar a silhueta de um a porta m etálica sem sineta ou aldrava. O próprio prédio que se erguia ao redor da porta, um paredão de dois andares sem j anelas aparentes, e notável por seu aspecto de suj eira e prolongada negligência, dom inava o pátio e lhe conferia um clim a ainda m ais sinistro. Quando passávam os pelo outro lado da rua, bem na linha de entrada do pátio e diante da porta, Utterson m e fez estacar e apontou a bengala na direção da m esm a.
– Por falar em coisas m acabras, Enfield, algum a vez j á reparou naquela porta?
Cocei o queixo por um m om ento e respondi com um abano de cabeça:
– Confesso que não. Nas vezes em que passo por aqui, geralm ente com as loj as abertas e o com ércio efervescente, sem pre encontro vitrines m ais atraentes às quais dedico m inha atenção. Por quê?
– No período em que você esteve fora, por algum as vezes acrescentei este trecho do traj eto às m inhas cam inhadas solitárias e, em um a ou outra oportunidade, tive a chance de vislum brar o estranho m orador daquele edifício.
– Hum . Alguém conhecido?
– De form a nenhum a. Longe de m im ter entre m inhas relações um indivíduo tão sinistro...
Olhei para m eu prim o com curiosidade e, para m inha surpresa, constatei pela sua expressão que ele estava sendo totalm ente sincero. Sem perceber m inha perturbação, prosseguiu:
– Um a vez quase nos esbarram os logo ali, na esquina, e ele m e lançou um olhar que literalm ente m e paralisou, fazendo o suor brotar em m inha fronte. Ele parece... com o direi? Talvez o m ais preciso que eu consiga ser sej a afirm ando que ele não parece ser um homem! Era pequeno e se vestia de m aneira com um , m as sua presença evocava algo estranho, pelo m enos foi o que aconteceu com igo; um a sensação indefinida, m as incôm oda e desagradável, provocando um efeito fortem ente negativo em quem com ele se confronta. Era pálido, m as de um a form a estranha, doentia. Esverdeada, não seria exagero afirm ar. Sua im agem em m ovim ento sugere algum a deform idade, em bora eu não sej a capaz de apontar precisam ente a que m á-form ação possa estar m e referindo. A fronte pronunciada term inando em sobrancelhas espessas e negras reforça seu aspecto troglodítico e, sob as m esm as, destaca-se o brilho de um par de olhos selvagens. Eu m e desculpei im ediatam ente pelo encontrão. Num prim eiro m om ento ele m e olhou com ódio profundo, que passou a desprezo logo depois. Inesperadam ente ele sorriu, ou m elhor, arreganhou seus dentes tortos em um sorriso desagradável e, com um a voz sussurrante, entrecortada e rouca que m e fez gelar até os ossos, respondeu: “É preciso tom ar cuidado nas esquinas de Londres. Os tem pos andam perigosos...” Reconhecendo naquelas palavras um a espécie de am eaça, retruquei que eu acabava de pedir desculpas pelo que havia sido um m ero acidente e que essa era a m elhor conduta a ser adotada entre cavalheiros. Para m inha consternação ainda m aior, ele sibilou: “Cavalheiros... ética... Sistem as efêm eros, que se esvaem com o espum a.” E deixando-m e estupefato, virou-m e as costas e avançou a passos rápidos em direção à porta. Ainda no m eio do cam inho sacou do bolso um a chave, que com toda intim idade girou na fechadura, abrindo-lhe passagem . Segundos depois, havia desaparecido.
Só então ele se deu conta do estranham ento com que eu o fitava. Decidi esclarecer logo:
– Não acredito que você sej a tão distraído, m eu prim o! Repare bem na localização desta casa. Até m esm o eu, que não desfruto do m esm o grau de intim idade que você, sou capaz de reconhecer que essa casa m isteriosa fica exatam ente nos fundos da propriedade de seu grande am igo, Henry Jeky ll! Foi por isso que, num prim eiro m om ento, tive a im pressão de que era dele que você falava!
Utterson agora olhava boquiaberto para a casa, os olhos arregalados por trás das lentes de seus óculos. Havia em palidecido de form a notável.
– Raios m e partam se você não tem razão, Enfield – disse, em tom sonhador. – O que explica outras coisas, m as não posso crer que sej a verdade...
Seu rosto recobrou a cor, ou m elhor, enrubesceu de m aneira excessiva quando ele se deu conta de m eu olhar inquisidor. Utterson, ainda visivelm ente abalado, olhou para os próprios pés e balbuciou:
– E, no entanto, não sei se tenho liberdade para com partilhar com você certos detalhes. Afinal, além de m eu am igo, Jeky ll é tam bém m eu cliente...
Naquele m om ento a luz do sol j á desaparecera. Na rua principal, logo adiante, as lam parinas a gás dos postes haviam sido acesas. Foi por essa razão que vim os quando a som bra de um hom em usando cartola surgiu, antes que o m esm o em ergisse por trás da esquina. Instintivam ente, em purrei Utterson para as som bras na entrada de um a loj a, bem a tem po de nos ocultarm os da visão da figura atarracada que, envolta em um a capa barata, surgiu apressadam ente, olhando nervosa para todos os lados. Seguiu esbaforida na diagonal em direção à porta m etálica e, quando passou sob um facho de luz, percebi que segurava um bastão fino e curto. Pelo reflexo m etálico no topo, parecia ser um a bengala quebrada. Àquela distância, sob a ilum inação precária, não pude divisar detalhes de sua fisionom ia, m as ainda assim com preendi o que m eu prim o quis dizer quando m encionou o m al-estar que aquela figura inspirava. O hom enzinho, do m esm o m odo com o Utterson havia descrito um pouco antes, desapareceu na escuridão que se destacou quando abriu a porta. Ele m al a havia fechado atrás de si quando ouvim os o som de apitos alguns quarteirões adiante. Todos conhecíam os o significado daquilo. Algum agente da Scotland Yard soava o alarm e.
Utterson e eu nos entreolham os em um entendim ento m udo e correm os j untos na direção do barulho. Em um beco, duas quadras adiante, dois guardas de capacete alto debruçavam -se sobre um corpo caído. Um a poça escura, que se espalhava sob sua cabeça repleta de fios grisalhos, não deixava dúvidas para um soldado com m inha experiência em cam pos de batalha: aquele hom em estava m orto, com a cabeça partida.
Um dos guardas virou o corpo, que se encontrava de bruços, e ao ver o rosto em itiu um a exclam ação de reconhecim ento:
– Meu Deus, é Sir Danvers!
Ficam os im ediatam ente consternados. Sir Danvers Carew era um dos hom ens m ais conhecidos e atuantes no Parlam ento Inglês. Porém o que m ais m e chocou foi um detalhe, que m al pude divisar na penum bra do beco. Cutuquei Utterson com o cotovelo e apontei com o queixo em direção ao roliço pedaço de m adeira lisa que se encontrava caído ao lado do cadáver; a perfeita m etade de um a bengala, lascada em pontas irregulares no local onde se partira após um violento im pacto.
Na volta para casa, dentro do cabriolé, Utterson retornou a sua habitual introspecção e não disse um a palavra sequer. Apenas quando desceu em frente a sua propriedade, quando eu m e dispunha a seguir no m esm o carro em direção a m inha própria residência, ele pediu que eu ficasse m ais um pouco, pois tinha algo im portante a m e relatar.
Seguim os diretam ente para seu escritório, onde ele m uito solenem ente retirou um envelope da parte m ais protegida de seu cofre. Antes que o abrisse, olhou-m e com seriedade e fez um a advertência:
– Entenda, caro prim o, que sem pretender m enosprezar a confiança existente entre nós, devo ressaltar que só divulgarei essas inform ações sigilosas, quebrando o que considero m ais sagrado em term os de ética profissional, devido à gravidade dos recentes episódios e ao tem or que os m esm os fazem crescer em m inha alm a. Este é o testam ento de m eu grande am igo Henry Jeky ll, que ele passou a m inhas m ãos, por ser eu seu advogado, há poucas sem anas. Eu o guardo por força de m eu dever profissional, a despeito dos protestos que, com o am igo, m anifestei em relação ao seu conteúdo.
Utterson retirou alguns papéis do envelope e, com o cenho carregado, procurou determ inado trecho. Pigarreou e, a despeito do desconforto que sentia, disse:
– Aqui Henry Jeky ll, m édico, doutor em Direito Civil, doutor em Leis, m em bro da Sociedade Real, estabelece claram ente que, em caso de sua m orte, todas as suas posses deverão ser passadas para seu “am igo e benfeitor Edward Hy de”, livrem ente de qualquer condição ou obrigação, exceto pelo pagam ento de pequenas quantias para os em pregados de sua casa. Ora, sou um de seus am igos m ais próxim os desde a j uventude e j am ais ouvi falar de nenhum Edward Hy de que pudesse fazer parte de suas relações! Mas m eu estranham ento passou a indignação quando Jeky ll se recusou term inantem ente a m e dar qualquer explicação sobre a identidade de tal beneficiário, ou sequer acerca do tipo de relação que porventura houvesse algum a vez tido com ele. Pensei que se tratasse de algum tipo de loucura, m as diante do que hoj e presenciam os, com eço a tem er por algum a desgraça...
– Você acredita que aquele estranho personagem que vim os se esgueirando para dentro daquela porta sej a o fam igerado Edward Hy de?
– E quem m ais seria? Ou será possível que Jeky ll com eteria a dupla insanidade de ceder a chave da porta dos fundos de sua casa a m ais de um estranho m isterioso?
Confirm ei com um gesto de cabeça, sem conseguir evitar a expressão grave em m eu sem blante.
– Com preendo a origem de seus tem ores, Utterson. Se Hy de for m esm o, com o tudo parece indicar, o assassino de Sir Danvers, Jeky ll pode estar correndo grande perigo de vida ao dar abrigo ao crim inoso.
– Principalm ente se supuserm os que Hy de conhece a existência deste docum ento!
– De acordo. Proponho que am anhã bem cedo você faça um a visita a Jeky ll e o inform e acerca dos acontecim entos desta noite.
– Sim , e gostaria im ensam ente que você m e acom panhasse à casa dele, Enfield. Pode ser útil ter outra testem unha à m ão, caso eu precise reafirm ar o que j á sabem os com m aior veem ência.
Concordei com ele e m arcam os um encontro nas prim eiras horas da m anhã, na esquina da rua onde ficava a entrada principal da casa de Henry Jeky ll. Fom os recebidos à porta por um solene e bem vestido serviçal, que Utterson cum prim entou com um breve sorriso.
– O Doutor Jeky ll está disponível, Poole?
– Vou verificar im ediatam ente, Mister Utterson.
O m ordom o nos conduziu até um átrio confortável, revestido de laj otas e decorado com ricos arm ários de carvalho. Retornou pouco depois e declarou que Jeky ll receberia Utterson em seu escritório. Perm aneci onde estava e Poole m e ofereceu um a xícara de chá, que prontam ente aceitei. Curiosam ente, percebi algum a turvação na fisionom ia do serviçal, que evitava m e encarar diretam ente, com o se sua m ente estivesse ocupada com preocupações alheias a m inha pessoa. Fiquei com um a forte im pressão de que Utterson e eu não éram os os únicos a suspeitar de que algo de terrivelm ente errado estivesse acontecendo naquela casa. Decidi que era um a boa oportunidade para tentar obter algum a inform ação adicional.
– Seria im pressão m inha, Poole, ou foi m esm o Mister Edward Hy de a pessoa que vi um dia desses, entrando pelo prédio dos fundos desta propriedade?
A m ão do hom em trem eu brevem ente no m om ento em que servia m eu chá, e percebi que ele engoliu em seco antes de responder:
– É possível que sim , Mister Enfield. Mister Hy de tem um a chave, j á que está tem porariam ente hospedado no edifício do laboratório.
– Seu patrão parece ter um a grande confiança naquele hom em , Poole – retruquei, com m eu m elhor sorriso.
– Sim , senhor, isso lá ele tem . Todos tem os ordens para obedecê-lo.
– Será possível que eu j á tenha m e encontrado com Hy de algum a vez nesta casa?
– Creio que não, senhor – negou ele, prontam ente. – Ele com eçou a frequentar esta casa no período em que o senhor esteve fora da Inglaterra. Além disso, nós pouco o vem os deste lado da casa, pois na m aior parte das vezes ele entra e sai pelo laboratório.
Poole pediu licença, com o se polidam ente pretendesse escapar do incôm odo interrogatório e saiu do átrio. Mas não dem orou m uito para que retornasse, seguindo preocupado os passos de um enfurecido Utterson, que seguiu diretam ente para a porta de saída, obrigando-m e a m e apressar para alcançá-lo.
– Bem , tenha um bom dia, Poole.
Foi tudo o que ele disse antes de se retirar pisando duro. Tom am os um tílburi j untos, rum o a sua residência. No cam inho ele m e inteirou do conteúdo da rápida entrevista que teve com Jeky ll.
– Já no princípio da conversa apelei para a confiança de que m e j ulgo m erecedor, após tantos anos de leal am izade. Com o ele não fez qualquer obj eção a esse fato, roguei para que ele m e dissesse quem , afinal de contas, é o m isterioso Edward Hy de de seu testam ento. Im ediatam ente percebi a m udança em sua fisionom ia, norm alm ente plácida e cordial. Jeky ll ficou pálido e seus olhos escureceram . Seu tom de voz ficou ligeiram ente ríspido quando retrucou: “Entendo onde você pretende chegar, Utterson, m as j á lhe disse m ais de um a vez que não posso nem pretendo fazer nenhum a alteração em m eu testam ento. Você não com preende m inha posição, que é difícil e m uito estranha. É um daqueles casos que não podem ser resolvidos em palavras.” Não tive alternativa a não ser relatar o que vim os na noite passada e sobre nossas suspeitas, de que Hy de fosse o responsável pelo brutal assassinato de Sir Danvers. Diante do que eu disse Jeky ll ficou ainda m ais pálido, m as quando eu esperava que suas palavras tam bém se tornassem m ais agressivas, ele m e surpreendeu pousando sua m ão suavem ente sobre m eu om bro e dizendo, em tom sereno e am igável: “Você sabe que confio em você, e agradeço suas preocupações, m as acredite: a coisa não é tão grave quanto você im agina, e para dar um descanso ao seu coração vou lhe dizer que, no m om ento em que eu assim desej ar, posso m e livrar de Hy de. Caso se confirm e sua suspeita e ele sej a m esm o culpado pela m orte de Danvers, com certeza vai pagar por isso. No m ais, peço que receba estas últim as palavras sem qualquer m ágoa: isso ainda é um assunto particular, e peço-lhe que o deixe adorm ecido.”
Utterson parou de falar abruptam ente e m e fitou com olhos cortantes, com o se esperasse que eu m e m anifestasse reforçando sua indignação. Mas eu não sabia o que dizer, porque as palavras de Jeky ll m e pareciam m ais enigm áticas do que ofensivas. Eu não era capaz de sequer vislum brar o que poderia haver por trás daquele bizarro relacionam ento entre ele e Hy de. Diante de m eu silêncio, Utterson voltou a se refugiar dentro de si m esm o, em bora resm ungasse em voz alta para quem quisesse ouvir:
– Maldito Harry ! Só pode estar envolvido em um a enorm e confusão! Ele foi um tanto selvagem quando j ovem , m as perante a lei de Deus não existe prescrição. Tem que ser algum pecado antigo, o câncer de algum a desgraça escondida. Mas o castigo nesses casos ainda é inexorável, m esm o depois da falta ser esquecida e perdoada pelo am or próprio.
– Só consigo ver um cam inho a seguir – disse eu, interrom pendo seus devaneios. – Tem os que descobrir por que Hy de assassinou Sir Danvers. Só assim poderem os ter um a ideia de quais podem ser suas m otivações, e se Jeky ll corre de fato algum perigo real ao desfrutar de sua presença.
– E com o podem os fazer isso?
– Tenho um a ideia que pode funcionar. Enquanto estive na Índia, servi sob o com ando do Capitão Jack Chaney ...
– Lem bro-m e dele. Era o albionense que você m e apresentou certa vez, no j ulgam ento de Charles Lawton.
– Ele m esm o. Chaney, filho de um inglês com um a azteca, nasceu em Nova Albion, no Outro Mundo. Sofreu m uito para sobreviver, graças a sua origem hum ilde e seu espírito rebelde, m as encontrou seu lugar no exército. Destacou-se no com bate aos bandos guerrilheiros apaxicas, na fronteira com o México. Os ingleses o designaram para servir com o oficial aqui na Inglaterra, o que ele viu com o um a grande honra. Adotou nosso país com o seu lar adotivo e acabou servindo conosco no Raj . Um grande hom em , sem dúvida. Recordo-m e que certa vez, ainda na Índia, eu o vi conversando com ninguém m enos que Sir Danvers Carew. Rum ores diziam que este viaj ara até lá a fim de recrutar um hom em para servir em um a m issão secreta, num a ilha rem ota da costa africana. De fato, quando finalm ente ele se foi, levou j unto o sargento Montgom ery, de nossa unidade, que j am ais voltam os a ver. Diziam que Montgom ery havia sido um a sugestão pessoal de Chaney. Com o fiquei curioso e desfrutava de algum a am izade com o Capitão, tentei sondá-lo discretam ente em busca de m aiores inform ações, m as foi inútil. Só consegui apurar que Chaney conheceu Sir Danvers em um a viagem deste últim o à Am érica, e que havia sido m uito útil a ele em algum a m issão obscura.
– Muito bem , e você acha que Chaney pode nos dar algum a inform ação relevante que nos leve a entender no que Sir Danvers estava m etido e com o isso pode estar relacionado ao Hy de?
– Não é m uito, reconheço – dei de om bros -, m as é um cam inho viável...
– E você por acaso sabe onde encontrar Chaney em Londres?
– Na últim a vez em que nos vim os, ele m e disse que estava participando da m esa de uíste do Ministro Phileas Fogg no Reform Club.
– Hum ! – surpreendeu-se Utterson – Um grupo seleto!
– Sim . A despeito de sua origem hum ilde, o destaque alcançado por Jack Chaney nos m eios m ilitares fez dele o único m estiço a ser adm itido no Reform . Apesar da rigidez do clube na seleção de seus associados, a ausência de antecedentes e parentes ilustres é por vezes m ais auxílio do que im pedim ento à ascensão social e a m arcada personalidade do capitão recom endava-se por si. Sei que você tam bém é um sócio ativo, prim o Utterson, graças ao seu saudoso pai...
– Em bora não m uito assíduo, é verdade. Mas frequento o suficiente para saber que o grupo de Fogg segue sua disciplina rígida de horários e rotinas, e a reunião dos j ogadores de uíste ocorre nas terças-feiras à noite, precisam ente às nove horas.
– Com o am anhã, por exem plo. Penso, portanto, que tenham os um a boa chance de encontrar Jack Chaney no Reform Club, se você desfrutar de prestígio suficiente para m e levar com o convidado.
– Creio que isso não será problem a. É frequente que o clube adm ita convidados ocasionais apresentados por sócios, principalm ente depois que o Diógenes Club foi destruído naquele ataque terrorista e vários de seus m em bros em éritos acabaram m igrando para o Reform . Hom ens destacados com o My croft Holm es e o próprio Sir Danvers frequentaram o Reform , pela prim eira vez, com o convidados.
– Alguns rum ores afirm am que a bom ba que dem oliu o Diógenes estava destinada a elim inar Danvers Carew. Sua sobrevivência naquele episódio foi um a derrota para os franceses, portanto, que Hy de parece ter-lhes feito o favor de corrigir.
– Você acredita que os atos de Hy de tenham a ver com os franceses? – surpreendeu-se Utterson, arregalando os olhos.
– Não faço ideia. Entretanto, a hipótese de que Sir Danvers possa ter sido o alvo de um a bom ba terrorista sugere que ele tenha sido um hom em com m uita coisa a esconder, não acha?
Entram os em acordo e m arcam os nosso encontro para a entrada do Reform Club na noite seguinte, às sete horas. Se Chaney estivesse presente, haveria tem po de sobra para conversarm os.
* * *
Eu não gostava de am bientes com o o do Reform Club. Sentia-m e com o um gato de rabo com prido num a loj a de cadeiras de balanço. Sentei-m e em um a m esa do canto, enquanto Utterson circulava pelo salão à cata de inform ações úteis. O assunto do m om ento nos pequenos grupos, que contribuía para que o am biente do salão estivesse m ais carregado que o norm al, com o um a nuvem de tem pestade, era o enterro de Sir Danvers Carew, que ocorrera naquela tarde. Eu não havia com parecido graças à necessidade de tratar de assuntos pessoais, m as Utterson relatou-m e que o sepultam ento havia se convertido em um grande evento, com toda a pom pa m erecida por um Cavaleiro da Ordem antiga e prestigiada a que ele pertencia. Centenas de pessoas presentes, entre nobres, autoridades diversas, fam iliares, am igos, curiosos, j ornalistas e com pletos desconhecidos. Utterson havia visto Chaney de relance na m ultidão, m as não se preocupou em aproxim ar-se dele devido ao nosso encontro pré-com binado. E ali estava eu, encolhido em um a m esa, olhando desconsolado ao redor em busca de um rosto am igo.
Havia, com efeito, alguns rostos fam iliares no salão. O grupo do Ministro Fogg se destacava, tendo entre outros seu inseparável secretário John Withm ore, dois ou três parlam entares e alguns industriais locais, além do astuto My croft Holm es, todos acom panhando em silêncio o discurso repleto de caretas e gestos grandiloquentes de um j ovem loiro e corpulento que eu sabia ser Lorde Redcar, grande latifundiário de Swathinglea, que com toda certeza estava se lam entando das queixas “inj ustas” dos trabalhadores de suas m inas de carvão e de suas reivindicações trabalhistas “absurdas”. A Grã-Bretanha vivia os dias m ais difíceis de um a grave crise econôm ica, e as lam entações dos em presários, principalm ente dos ram os ligados à indústria, j á se tornavam corriqueiras naquelas reuniões. Phileas Fogg, aparentem ente alheio a tudo aquilo, m as fiel a seus rígidos hábitos que todos conheciam , vez por outra consultava discretam ente as horas em seu relógio de bolso.
Meu prim o Utterson trocava confidências, logo adiante, com um grupo de advogados. Na m esa à m inha frente, do outro lado do salão, um a figura digna de pena atraía m eu olhar, talvez pela m aneira com o suas vestes finas, m as descuidadas, contrastavam com o restante dos associados. Quando chegam os Utterson m e disse que se cham ava Moore, e que chegara ao fundo do poço depois que perdeu um ente m uito querido no naufrágio do Príncipe de Gales, o m esm o que vitim ara seu pai. Naquele dia Moore chegara ao clube m ais cedo que o habitual e j á se entregara à bebida, o que Utterson receava significar um m au m om ento em sua vida torturada. O pobre coitado ergueu por um instante seus olhos escuros, sum idos no rosto m al barbeado, para olhar em m inha direção, e não pude deixar de cum prim entá-lo com um aceno solidário de cabeça. Ele pareceu sequer ter percebido e voltou, novam ente, o olhar perdido em direção ao copo de uísque sobre a m esa.
Foi naquele m om ento que vi o Capitão Jack Chaney adentrar o salão traj ando um im pecável terno escuro. A linha reta da boca, o queixo quadrado e proem inente e as sobrancelhas arqueadas, que davam aos olhos um aspecto de perm anente preocupação, eram inconfundíveis. Acenei im ediatam ente e ele estacou, surpreso com m inha presença inesperada naquele am biente. Veio im ediatam ente em direção a m inha m esa e m al tive tem po de m e levantar antes que m e cum prim entasse, usando suas duas m ãos para sacudir m eu punho em um balanço efusivo.
– Cabo Enfield, quem diria vê-lo novam ente em um cam po de batalha tão diferente daquele a que estam os am bos acostum ados!
– Eu diria o m esm o, Capitão. Ainda m ais não sendo o senhor nativo destas ilhas, e conhecendo os critérios de exigência que tornam fam osos os clubes com o o Reform , penso que sua presença aqui tenha um valor especial...
Chaney descartou m eu com entário com um gesto de descaso.
– Nada dem ais, Enfield! Há m uito a Inglaterra tornou-se m inha pátria adotiva e nunca m e canso de declarar abertam ente m eu am or por esta cidade em especial. Sei que pelas costas j á andam m e cham ando de “Jack London”...
– De qualquer form a o prazer em revê-lo é todo m eu, Capitão. Mas devo adiantar que nosso encontro aqui não se deve absolutam ente a um a coincidência, e sim a um a tentativa deliberada de encontrá-lo o m ais rapidam ente possível.
A expressão de preocupação nos olhos de Chaney acentuou-se ainda m ais.
– Bem , m eu caro, e que tipo de problem a m otivaria tam anha urgência?
Fiz um sinal para que se sentasse e ele o fez prontam ente, sem desgrudar os olhos de m im . Olhei brevem ente para Utterson, que de longe m e fez um sinal encoraj ador e perm aneceu onde estava.
Relatei-lhe os acontecim entos daquela noite fatídica, quando m eu prim o Utterson e eu j ulgam os ter visto a fuga do assassino de Sir Danvers. O capitão sobressaltou-se e perguntou por que diabos ainda não havíam os procurado a Scotland Yard. Confidenciei-lhe nossas suspeitas de que o suposto assassino seria, por algum m otivo m isterioso, protegido de Henry Jeky ll, um dos m elhores am igos de Utterson e um cavalheiro que desfrutava de elevado conceito em nossa com unidade. Aquilo deixou m eu antigo oficial absolutam ente chocado. Jeky ll era, ele m esm o, sócio do Reform Club, em bora pouco frequente às reuniões regulares.
– Antes de tom arm os providência tão drástica, um a vez que rapidez e prontidão não servirão para trazer nosso Sir Danvers de volta à vida, optam os por tentar esclarecer o que pode estar acontecendo por trás dessa insanidade antes de colocar em risco, talvez, até a vida m esm a de outro hom em de valor. Eis porque recorri ao senhor, Capitão. Além de ser um hom em de m inha total confiança, sei que conhecia algo sobre a vida e as atividades de Sir Danvers. Sei que correm os o risco de estar incorrendo em algum a im prudência indesculpável, pedindo algo que pode significar um a indiscrição, ou colocando-o em um a situação difícil de quebra de decoro, e se for o caso j á peço desculpas antecipadam ente, em m eu nom e e no nom e de Utterson. Mas espero que em sua bondade com preenda o que nos m ove: não só a proteção do nom e de Jeky ll, m as talvez, com o j á disse, de sua própria vida.
Assim term inei m eu relato e procurei, ansiosam ente, ler suas repercussões no olhar de Chaney. O capitão m anteve silêncio por alguns segundos, suspirou e colocou os dedos polegar e indicador em pinça na base de seu nariz, apertando as pálpebras com o se tivesse dor ou cansaço nos olhos. Um garçom passou por perto e ele pediu um a dose de rum . Perm aneceu sentado, com o olhar perdido e os lábios com prim idos, tam borilando na m esa com os dedos m agros. Sua luta interna parecia ser tão intensa que era com o se eu não estivesse ali, e com ecei a sentir-m e incom odado, com o se não tivesse o direito de estar presenciando aquela convulsão interna de um hom em que eu tanto respeitava.
Quando recebeu sua bebida, Chaney deu um longo trago e lim pou a boca na m anga do paletó. Com eçou a falar olhando para o infinito, com o se fosse para si m esm o.
– É verdade que conheço algo sobre a vida e as atividades de Sir Danvers. Eu diria m ais: sei de fatos que nem sequer teria o direito de m encionar para quem quer que fosse, não estando presente neste m undo, com o agora, o protagonista dos m esm os, para apresentar sua j ustificativa para tudo o que foi dito e que foi feito. Entretanto, você m e apresenta um argum ento de peso, m eu am igo. O dever de hom ens de bem é, em prim eiro lugar, defender a honra e a integridade de seus pares. E nesse caso, adm ito, os vivos têm a preferência.
Chaney deu outro gole em seu rum e prosseguiu, dessa vez olhando fixam ente para m im .
– O fato de você m encionar especificam ente Jeky ll m e parece bastante significativo. Fez-m e lem brar de um episódio anos trás, quando eu ainda era um arroj ado e inconsequente soldado na defesa das fronteiras de Nova Albion. Naquele então eu servia em um a unidade relativam ente tranquila, na fronteira m exicana. Vez por outra enfrentávam os algum a escaram uça contra algum bando de selvagens apaxicas, não m ais que isso. Um belo dia, recebem os um pelotão proveniente de Tenochtitlan, com notícias alarm antes sobre um a doença que se alastrava em algum lugar rem oto da Am érica Central, um m al tão terrível que a sim ples perspectiva de que atingisse os grandes centros populacionais aztecas era m otivo de verdadeiro pânico entre a população local. De acordo com os hom ens, um vilarej o, felizm ente rem oto, próxim o à costa oriental do México, havia sido o ponto de partida da doença m isteriosa, que em poucas sem anas havia dizim ado inteiram ente o tal povoado e duas ou três vilas de pequeno porte ao redor dele. Você conhece bem nossos am igos aztecas. Estabeleceu-se um a fronteira m ilitar a um a distância segura em torno dos locais infectados. As cidades acom etidas foram im piedosam ente bom bardeadas e incendiadas até o últim o edifício. Pessoas provenientes da região, apresentassem ou não sinais visíveis da doença, eram abatidas m ortalm ente à distância e os corpos deixados para apodrecer sob o sol inclem ente daquelas latitudes, pelo tem po suficiente para que, segundo se acreditava, não houvesse m ais o risco de contam inação pelos cadáveres. Por m ais cruel que isso possa parecer, aparentem ente foi eficaz no sentido de im pedir que a praga se espalhasse pelo Im pério Azteca e além .
– Mas, Capitão, que terrível doença é essa, que levou a m edidas de contenção tão drásticas?