Incarceron

Catherine Fisher · Capítulo 3 de 4 · parte 2/4

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Incarceron

“Com Jared como testemunha.”

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Quando Keiro virou-se, o chão ondulou novamente. Finn olhou para aquilo. O tremor levantou as lajes como se uma onda de água bramisse sobre eles. Antes que ele percebesse estava coberto de geada até para se mover, o mundo inteiro mudou. Ele caiu colidindo contra o chão, então estava rolando ladeira abaixo, descendo uma ladeira que não devia estar lá. Batendo contra um pilar ele arfou, dor disparando para baixo de seus lado.

O corredor estava inclinando.

Com uma doentia certeza ele pensou que a torre do Sapiente estava desabando, que ela tinha sido quebrada em sua fina base. Então a escada de cordas roçou nele e ele a agarrou. Keiro já estava na borda, inclinando-se sobre o convés de madeira de prata. Finn arrastou-se para cima; tão logo quanto ele pode vir, eles enlaçaram as mãos.

“Eu o peguei. VÁ!”

O navio levantou. Com um uivo de medo Finn deslizou para dentro do convés; a geringonça toda balançou e balançou e então ele flutuou, cordas rompendo-se uma por uma abaixo dele.

Havia uma abertura na parede da torre à frente, a vastidão da plataforma onde Blaize tinha aportado a embarcação. Mas enquanto Gildas puxava com toda a sua força o fio para girar o raio da roda, o navio deu um solavanco e eles todos caíram, entulho caindo em forma de cascata em cima dentro do convés e velas.

“Alguma coisa está nos puxando para baixo,” ele rugiu.

Keiro pendurou-se no lado. “Deus! Há uma âncora!”

Ele subiu de volta. “Deve haver um guincho. Vamos!”

Eles acharam um labirinto de passagens e galés. Alcançando e arremessando as portas abertas, Finn olhou se cada cabine estava vazia; não havia suprimentos, nem carga, nem tripulação. Antes que ele tivesse tempo para pensar sobre isso, Keiro gritou da escuridão abaixo.

No nível mais abaixo o convés era escuro. Um eixo tracionador circular enchia o espaço; Keiro estava pressionando a tranca no interior do lugar. “Ajude-me.”

Juntos, eles empurram. Nada mudou; o mecanismo estava rígido, a corrente da âncora pesada.

Novamente eles puxaram, Finn sentindo os músculos de suas costas estalar, e devagar, com um longo relutante rugido, o eixo tracionador estalou dentro em movimento.

Em geral, galé ou galera podem designar qualquer tipo de navio movido a remos.

Finn cerrou os dentes e puxou de novo, o suor escorrendo em seu rosto; ao seu lado ele ouviu Keiro suspirar e resmungar.

Então outro corpo estava lá. Attia, ainda pálida, trabalhando na tranca próxima a ele.

“Que... bem... você faz?” Keiro murmurou.

“Bem o suficiente,” ela retrucou de volta, e Finn viu para sua surpresa que ela estava sorrindo, seus olhos estavam brilhantes sob o emaranhado de cabelo, a cor de volta ao seu rosto.

A âncora vibrou violentamente. O navio balançou, então abruptamente levantou.

“Nós conseguimos!” Keiro cavou seus calcanhares dentro e empurrou, e muito vagarosamente o eixo tracionador estava virando rapidamente sobre seu peso, a grande corrente da âncora raspando acima através do chão e dando laçadas obedientemente à medida que eles a forçavam ao redor.

Quando eles a tinham toda e o mecanismo no chão parou Finn correu para cima pelos degraus da escada da escotilha, mas quando ele saiu correndo dentro do convés ele parou com um grito de susto.

Eles estavam navegando na nuvem. Os fragmentos em torno dele, rompendo para dar vislumbres de Gildas xingando na direção do leme, as grandes velas aumentando, um pássaro seguindo elas num pedaço de luz.

“Onde nós estamos?” Attia murmurou atrás dele.

Em seguida, o navio saiu da névoa, e eles viram que eles estavam num oceano azul no ar, a torre inclinada do Sapiente já bem mais atrás.

Ofegante, Keiro inclinou-se na grade e gritou com prazer.

Finn em pé ao lado dele, olhou para trás. “Por que ele não tentou nos parar?”

Alcançando dentro de sua jaqueta, ele tocou a sutileza da Chave de cristal.

“Quem se importa com o maldito!” Seu irmão de juramento disse.

E então ele virou e socou Finn duro no estômago.

Attia gritou. Finn desmoronou, toda a respiração indo, a dor da surpresa dentro dele, sem ar a escuridão que apareceu nublou sobre sua visão.

Do leme Gildas gritou alguma coisa, suas palavras perdendo-se longe.

Lentamente, a agonia diminuiu. Quando Finn pôde respirar ele ergueu os olhos e viu Keiro com ambos os braços esparramados na grade, olhando para ele com um gracejo.

“O que...?”

Keiro estendeu a mão e puxou ele para cima, cambaleando, face a face. “Isso vai ensiná-lo a não puxar uma espada para mim novamente,” ele disse.

Sapphique amarrou as asas aos seus braços e voou sobre oceanos e planícies, sobre cidades de vidro e montanhas de ouro. Animais fugiram; pessoas apontaram para cima. Ele voou tão alto, ele viu o céu sobre ele e o céu disse “Volte, meu filho, porque você já subiu alto demais.”

Sapphique riu, como ele raramente fazia,” Não desta vez. Desta vez eu vou insistir até você abrir.”

Mas Incarceron se irritou e golpeou-o para baixo.

—Lendas de Sapphique.

“Ela disse que Jared tem que ir.” Ela se virou e olhou para seu pai, querendo saber se era essa sua atitude. “Eu disse a você. Estava prestes a acontecer.” O Diretor passou por ela e sentou-se na poltrona próxima à janela de seu quarto, olhando para os jardins do prazer, onde partidos de cortesãos andaram na noite fria. “Eu acho que você terá que obedecer, minha querida. É um preço pequeno a se pagar para se obter um reino.”

Ela estava pronta para explodir em seu temperamento, mas ele se virou e olhos para ela, aquele olhar frio e medidor que ela tanto temia.

“Tirando isso nós temos coisas mais importantes para discutir. Venha e se sente.”

Ela não queria. Mas ela foi até a cadeira próxima à mesa e sentou-se. Ele piscou a pálpebra fechada e manteve-o na mão.

Ele disse baixinho, “Você tem algo que me pertence.”

Ela sentiu sua pele arrepiar com o perigo. Por um momento ela achou que não poderia falar, mas então sua voz surgiu, surpreendentemente calma.

“Tenho? O que seria?”

Ele sorriu. “Você é mesmo notável, Claudia. Mesmo que eu tenha lhe criado, você sempre me surpreende. Mas eu avisei-lhe antes sobre passar dos limites comigo.” Ele colocou o relógio em seu bolso e se inclinou para frente. “Você está com a minha Chave.”

Ela deu uma lufada de desânimo. Ele se inclinou de volta para trás e cruzou uma perna sobre a outra, o couro das botas brilhando. “Sim. Você não nega, e isso é sábio. Foi engenhoso plantar uma imagem da chave na gaveta, muito engenhoso. Acho que devo agradecer Jared por isso.

Quando chequei meus estudos naquele dia, deslizei a gavetas aberta e olhei para dentro dela; não acho que para pegar a chave. E as joaninhas—que toque criativo, quão tolo vocês devem ter me feito.”

Ela balançou a cabeça, mas ele ficou indiferente e andou em direção à janela. “Você falou sobre mim com Jared, Claudia. Vocês riram juntos por terem roubado a chave de mim? Tenho certeza que você deve ter gostado disso.”

“Eu a peguei porque tinha de fazê-lo.” Ela apertou as mãos. “Você escondeu isso de mim. Você nunca me contou.”

Ele parou e olhou para ela. Ele tinha posto seu cabelo para trás agora, e seu olhar era tão calmo e ponderado como sempre. “Sobre o quê?”

Ela levantou-se lentamente e encarou-o. “Sobre Giles,” ela disse.

Ela esperava espanto, um momento de silêncio. Mas ele não estava assustado. Ela soube, com súbita surpresa, que ele estava esperando por esse nome, que o pronunciando, ela tinha caído em uma espécie de armadilha.

Ele disse, “Giles está morto.”

“Não, ele não está.” As joias em seu pescoço fizeram cócegas; com uma fúria repentina ela as puxou e atirou no chão, então cruzou os braços e todas as suas palavras reprimidas explodiram.

“Sua morte foi forjada. Você e a Rainha a forjaram. Giles está em Incarceron, trancado. Você tirou sua memória para que ele não soubesse quem é. Como você pôde fazer isso?” Ela chutou um banquinho; ele caiu e rolou. “Eu posso entender porque ela fez isso, porque ela queria que seu filho inútil fosse Rei, mas você! Eu já estava noiva de Giles. Seu precioso plano teria funcionado de qualquer forma. Por que você fez isso conosco?”

Ele levantou uma sobrancelha, “Conosco?”

“Eu não conto? O fato de que eu iria acabar com Caspar não significa nada para você? Você pensou em mim?” Ela estava tremendo. Toda a raiva de sua vida estava saindo, frustração por todas as vezes que ele havia partido e a deixado por meses, tinha sorrido para ela e não a tocado.

Ele esfregou sua barba rala com o polegar e o indicador. “Eu pensei em você.” Sua voz era calma.

” Era óbvio que você gostava de Giles. Mas ele era um menino teimoso, muito gentil, muito honrado. Caspar será um Rei tolo. Você será capaz de controlá-lo de forma muito mais eficaz.”

“Essa não é a razão pela qual você o fez.”

Ele desviou o olhar. Ela viu seus dedos tocando a lareira. Ele pegou uma estatueta de porcelana delicada e examinou-a, então a deixou de lado. “Você está certa.”

Ele ficou em silêncio; ela queria tanto que ele falasse que poderia gritar. Parecia um ano antes de ele voltar e sentar na cadeira e falar calmamente. “Temo que o verdadeiro motivo seja um segredo que você nunca saberá por mim.”

Vendo seu espanto, ele ergueu a mão. “Eu sei que você me despreza, Claudia.

Tenho certeza que você e seu Sapiente me acham um monstro. Mas você é minha filha e eu sempre agi por seus interesses. Além disso, a prisão de Giles era um plano da Rainha, não meu.

Ela me forçou a concordar.”

Ela bufou com desprezo. “Forçou! Ela te controla!”

Ele sacudiu a cabeça para cima e sussurrou, “Sim. E você também.”

Por um segundo, o veneno em sua voz a atingiu. “Eu?”

Suas mãos estavam em punhos nos braços da cadeira de madeira. “Deixa pra lá, Claudia. Esqueça.

Não pergunte o motivo, porque a resposta pode destruir você. Isso é tudo o que vou dizer.” Ele se levantou, alto e sombrio, e sua voz era desoladora. “Agora, sobre a chave. Nada do que você tem feito tem me passado despercebido. Eu sei sobre sua busca por Bartlett, sobre sua comunicação com Incarceron. Eu sei sobre esse prisioneiro que você acredita ser Giles.”

Ela olhou com espanto e ele deu sua risada seca. “Há milhões de prisioneiros em Incarceron, Claudia, e você acredita que encontrou o certo? Tempo e espaço são diferentes lá. Esse rapaz pode ser qualquer um.”

“Ele tem uma marca de nascença.”

“Ele tem! Deixe-me dizer uma coisa sobre a prisão.” Sua voz era cruel agora, ele veio até ela e a olhou. “É um sistema fechado. Nada entra. Nada sai. Quando os prisioneiros morrem seus átomos são reutilizados, sua pele, seus órgãos. Eles são feitos uns dos outros. Reparados, reciclados. E

quando os tecidos orgânicos não estão disponíveis, eles são reparados com metal e plástico. A águia de Finn não significa nada. Pode até não ser seu. As memórias que ele pensa ver podem não ser dele.”

Horrorizada, ela queria fazê-lo parar, mas nenhuma palavra surgiu. “O rapaz é um ladrão e um mentiroso.” Ele continuou, sem remorsos. “Um de uma gangue de assassinos que caçava os outros. Suponho que ele tenha lhe contado isso?”

“Sim,” ela retrucou.

“Quanta honestidade. Ele te contou que em troca da sua cópia da Chave uma mulher inocente foi levada à morte no fundo de um precipício? Depois que ter prometido que ela estava a salvo?”

Ela ficou em silêncio.

“Não,” ele disse. “Eu achei que não.” Ele se afastou. “Quero que toda essa bobagem acabe. Eu quero a Chave. Agora.” Ela balançou a cabeça.

“Agora, Claudia.”

“Eu não a tenho,” ela sussurrou.

“Então Jared...”

“Deixe Jared fora disso!”

Ele a agarrou. Sua mão era fria e ele agarrou seu pulso como ferro. “Eu quero a Chave, ou você vai se arrepender por me desafiar.”

Ela tentou se livrar dele, mas ele segurava firme. Ela olhou para ele através de seu cabelo em movimento. “Você não pode me machucar. Eu sou tudo que você tem para fazer com que seu plano funcione e você sabe disso!”

Por um momento, eles se encararam. Então ele balançou a cabeça e a soltou. Um círculo de pele branca sem sangue apareceu em seu pulso como a marca de uma algema.

“Eu não posso machucá-la.” Ele disse com a voz rouca.

Seus olhos se arregalaram.

“Mas há esse Finn. E há Jared.”

Ela se afastou. Estava tremendo, com as costas frias com suor. Por um momento, eles se entreolharam. Então, não confiando em si mesma para falar, ela se virou e correu para aporta, mas as palavras dele a apanharam, ela teve que ouvi-las.

“Não há maneira de sair da prisão. Traga-me a Chave, Claudia.”

Ela bateu a porta atrás dela. Um servo passando a olhou surpreso. No espelho em sua frente, Claudia viu o porquê; seu reflexo mostrava uma criatura desgrenhada, vermelha, amarrada com infelicidade. Ela queria gritar de raiva. Em vez disso, ela andou até seu quarto e fechou a porta e se jogo sobre a cama.

Ela bateu no travesseiro e enterrou sua cabeça nele, se encolhendo, seus braços ao redor do corpo. Sua cabeça era um labirinto confuso, mas conforme ela se movia, papel amassava no travesseiro e ela levantou a cabeça e viu um bilhete preso lá. Era de Jared. Eu preciso te ver.

Descobri algo inacreditável.

Assim que ela o leu, ele se tornou cinzas.

Ela não pôde sequer sorrir.

***

Empoleirado no equipamento do navio, Finn segurou firme, vendo bem abaixo lagos de líquido amarelo sulforoso, viscoso e malcheiroso. Ao redor da paisagem, animais pastavam, estranhas criaturas desajeitadas daqui, o rebanho se dividindo com terror e fugindo conforme a sombra do navio caia sobre eles. Do outro lado havia mais lagos, pequenos arbustos insignificantes eram a única coisa verde que crescia perto deles, e distante à direita um deserto se estendia até onde ele podia ver as sombras.

Eles estiveram navegando por horas. Gildas havia pilotado primeiro, nobre e constante, até que ele gritou irritado para alguém aliviá-lo e Finn tomou a vez, sentindo a estranheza do cargo, ferido por correntes de ar e brisas. Acima deles, as velas bateram; os ventos atingiam e cortavam a tela branca. Ele havia navegado duas vezes através das nuvens. Na segunda vez a temperatura caíra alarmantemente e pelo tempo que eles tinham emergido, o convés e o ponto central tinham sido congelados por agulhas de gelo que caíram e bateram nas tábuas.

Attia lhe trouxe água. “Muito disso,” ela disse “mas nenhum alimento.”

“O que, nada?”

“Não.”

“Do que ele vive?”

“Há apenas alguns pedaços que Gildas tem.” Enquanto ele bebia, ela tinha tomado o volante, suas pequenas mãos sobre o raio de espessura. Ela disse, “Ele me contou sobre o anel.”

Finn limpou a boca.

“Era muito para mim. Devo-lhe muito mais agora.”

Ele se sentiu orgulhoso e mal humorado ao mesmo tempo; ele tinha tomado a roda traseira e disse, “Nós ficaremos juntos. Além disso, eu não achei que funcionaria.”

“Estou impressionada que Keiro o deu.”

Finn encolheu os ombros. Ela estava assistindo de perto. Mas então ela tinha olhado para o céu.

“Olhe para isso! Isso é tão maravilhoso. Toda minha vida eu vivi em um pequeno túnel escuro alinhado com choupanas e agora, todo esse espaço...”

Ele disse, “Você tem alguma família?”

“Irmãos e irmãs. Todos mais velhos.”

“Pais?”

“Não.” Ela balançou a cabeça. ” Você sabe...”

Ele sabia. A vida na Prisão era curta e imprevisível.

“Você sente falta deles?”

Ela ainda estava segurando o timão com força. “Sim. Mas...” ela sorriu. “É estranho como as coisas funcionam. Quando fui capturada, eu achei que fosse o fim da minha vida.

Mas em vez disso, levou a isso.”

Ele balançou a cabeça, depois disse, “Você acha que o anel te salvou? Ou foi o emético de Gildas?”

“O anel.” Ela disse firmemente. “E você.”

Ele não tinha tanta certeza.

Agora, olhando para Keiro espreguiçando no convés, ele sorriu. Chamado para tomar sua vez, seu irmão de juramento tinha dado um olhar para a roda e ido buscar alguma corda; então, ele amarrou e sentou ao lado dele, os pés para cima. “O que podemos possivelmente acertar?” ele disse a Gildas.

“Seu tolo,” o Sapiente havia rosnado. “Basta manter seus olhos abertos, isso é tudo.”

Passaram por cima das colinas de cobre e montanhas de vidro, florestas inteiras de árvores de metal. Finn havia visto assentamentos cortados em vales impenetráveis onde os habitantes viviam em isolamento; grandes cidades e uma vez um castelo com bandeiras em suas torres.

Aquilo o tinha assustado, pensando em Claudia. Arco-íris de spray se arqueavam sobre eles; eles tinham voado por estranhos efeitos atmosféricos, uma ilha refletida, remendos de calor, borrões picantes de fogo roxo e dourado. Uma hora atrás, um bando de aves de cauda longa havia subitamente gritado e circulado e bombardeado o convés, fazendo Keiro desviar. Então igualmente rapidamente elas haviam desaparecido, uma mera direção de obscuridade no horizonte. Uma vez, o navio tinha ido muito baixo; Finn tinha se inclinado sobre milhas e milhas de casebres fedorentos, as pessoas correndo de habitações feitas de lata e madeira, coxos e doentes, seus filhos apáticos. Ele tinha ficado contente quando o vento tinha levantado o navio a sair. Incarceron era um inferno.

E ainda assim ele possuía sua Chave.

Ele a tirou e tocou os controles. Ele tinha tentado isso antes, mas nada tinha acontecido. Nada aconteceu agora também, e ele se perguntou se um dia funcionaria novamente. Mas estava quente. Isso significava que eles estavam indo na direção certa, em direção a Claudia? Mas se Incarceron era tão grande, quantas vidas poderia demorar para chegar à saída?

“Finn!”

O grito de Keiro era nítido. Ele olhou para cima.

À frente, algo cintilou. Primeiro ele pensou que era luz; então ele viu que a escuridão não era a usual melancolia da Prisão, mas um banco de nuvens escuras de tempestade, em frente seu caminho. Ele lutou, raspando as palmas das mãos nos cabos.

Keiro estava rapidamente desvencilhando o leme.

“O que é isso?”

“Tempo.”

Estava escuro. Relâmpagos cintilaram dentro dele. E conforme eles navegaram mais perto, trovões, um ronco baixo, uma risada obscura. “A Prisão,” ele sussurrou. “Ela nos encontrou.”

“Pegue Gildas,” Keiro murmurou.

Ele encontrou o Sapiente embaixo, debruçado sobre as cartas e mapas sob a lâmpada. ” Olhe para estes.” O velho olhou para cima. Seu rosto sombreado pela luz do lampião.

“Como isso pode ser tão vasto? Como podemos esperar seguir Sapphique por tudo isso?”

Consternado, Finn olhou para o monte de cartas escorregando para fora da mesa, cobrindo o chão. Se isso mostrava a extensão de Incarceron, então sua jornada poderia durar para sempre.

“Nós precisamos de você. Há uma tempestade pela frente.”

Attia correu para dentro. “Keiro diz para se apressar.”

Como que em resposta o navio se inclinou. Finn agarrou a mesa conforme os mapas escorregavam e rolavam. Então ele voltou para o convés.

Nuvens negras ao redor do mastro, as flâmulas prateadas batendo e rompendo. O navio estava quase tombado; ele teve que se agarrar à amurada e subir até o leme se agarrando a qualquer coisa a seu alcance.

Keiro estava suando e praguejando. “Essa é a feitiçaria do Sapiente!” ele gritou.

“Eu acho que não. É Incarceron.”

O trovão retumbou novamente. Com um grito, o vendaval os atingiu; os dois se agarraram a roda, se agachando sob o escasso esconderijo. Objetos bateram contra eles, pedaços de metal, folhas, pedaços de detritos como granizo. Então uma neve de minúsculos grãos brancos, vidro moído, parafusos, pedras que destruíram as velas.

Finn virou.

Ele viu Gildas se escondendo atrás do mastro principal, se agarrando, um braço ao redor de Atitta.

“Fique aí!” ele gritou.

“A Chave!” O grito de Gildas foi arrancado pelo vento. “Deixe-me levá-la para baixo. Se você se perder...’’

Ele sabia. E ainda assim ele odiava a ideia de se separar dele.

“Faça.” Keiro rosnou.

Finn soltou a roda.

Imediatamente ele foi arremessado para trás, esbofeteado, caindo, ao longo do convés. E a Prisão atacou. Ele sentiu que o zoom sobre ele, e capotando, ele gritou em terror.

Do coração da tempestade, uma águia caiu do céu, negra como um trovão, suas garras como relâmpagos. Estendia-se para a chave, pronta para levá-la e a ele.

Finn se atirou para um lado. Um emaranhado de cordas se chocou contra ele, ele pegou a mais próxima e a chicoteou, girando ao redor, o fim da pesada corda estava tão perto do peito da ave que ela desviou e passou, voando alto para virar e atacar novamente.

Ele mergulhou passado Gildas para o abrigo da plataforma. “Ela está voltando!”

Attia gritou.

“Ela quer a chave.” Gildas abaixou. Chuva batia neles; um trovão retumbou novamente, e desta vez foi uma grande voz, um murmúrio de raiva longe e alto.

A águia mergulhou. Keiro, exposto pela roda, se enrolou para se fazer pequeno.

Viram como ela circulou e gritou com raiva, seu bico largo. Então, de repente, ela virou-se para o leste e voou para longe.

Finn puxou para fora a Chave. Ele tocou-o e instantaneamente Claudia estava lá, de olhos molhados, com os cabelos desalinhados, “Finn,” disse ela, “Ouça-me. Tu—”

“Você ouça,” ele agarrou apertado enquanto o navio balançava e oscilava.

“Precisamos de ajuda, Claudia. Você tem que falar com seu pai. Você tem que levá-lo a parar a tempestade ou vamos todos morrer!”

“Tempestade?” Ela balançou a cabeça. “Ele não é... Ele não vai ajudar. Ele quer você morto. Ele descobriu tudo, Finn. Ele sabe!”

“Então—”

Keiro gritou. Finn olhou para cima e o que viu fez seus dedos se agarrarem na Chave, de modo que segundos antes da imagem desligar, Claudia também viu.

Uma grande parede de metal sólido. A Parede do Fim do Mundo.

Subindo de profundezas desconhecidas que circundam o escondido do céu.

E eles estavam indo direto para ela.

A entrada é através do Portal, Apenas o Diretor terá uma chave, E esta será a única maneira de sair

Apesar de todas as prisões terem suas frestas e fendas.

—Relatório de Projeto; Manor Sapiens

Era tarde; o sino na Torre de Ébano marcava dez badaladas. No entardecer do verão, mariposas voavam nos jardins e um pavão distante chorou conforme Claudia correu através pelo mosteiro.

Servos passaram por ela e se e esforçaram-se para fazer reverência, carregados com cadeiras e tapeçarias e grandes ancas da caça. Todo o alvoroço dos preparativos da festa estava acontecendo durante horas. Ela franziu a testa, irritada, não ousando perguntar a um deles onde ficava o quarto de Jared.

Mas ele estava esperando.

Quando ela virou em um canto úmido por uma fonte de quatro cisnes de pedra, a mão dele saiu e agarrou-a. Puxou-a através de um arco e ela ficou sem fôlego enquanto ele fechava a porta de carvalho já quase fechada e colocou seus olhos na fenda.

Uma figura se aproximou. Ela achou ter reconhecido o secretário de seu pai.

“Medlicote. Ele está me seguindo?”

Jared colocou um dedo em seus lábios. Ele parecia mais pálido e torcido que o habitual, e havia uma energia nervosa sobre ele que a preocupou. Ele levou-a para baixo por alguns degraus de pedra, por um pátio esquecido, até um caminho cheio de alburnos amarelos pendurados. Na metade do caminho ele parou e sussurrou: “Há um edifício extravagante aqui em baixo que eu tenho usado. Há escutas no meu quarto.”

Uma imensa lua pairava sobre o palácio. As cicatrizes dos Anos de Fúria encheram sua face de marcas de varíola; seu brilho prateado iluminava o pomar e a estufa, refletindo nas janelas com vidraças de diamante que pendia aberta no calor. Uma pequena explosão musical vinha de uma sala, com vozes, risos e o tilintar de pratos. A escura figura de Jared escorregou entre dois pilares de pedra onde ursos dançavam, através de arbustos que cheiravam a bálsamo de lavanda e limão, para uma pequena estrutura construída em uma parede, no canto mais esquecido do jardim murado. Claudia vislumbrou uma torre, um parapeito em ruínas cobertas de hera.

-Arbusto ornamental, da família das Leguminosas, com flores amarelas dispostas em ramos terminais pendentes.

Ele destrancou a porta e a conduziu para dentro.

Era escuro e fedia a solo úmido. Luz cintilou sobre ela; Jared tinha uma tocha; ele apontou para uma porta interna.

“Rápido.”

A porta estava mofada com a idade, a madeira tão frágil que desmanchava. Dentro da sala escura, as janelas haviam sido bloqueadas com hera; enquanto Jared acendia lâmpadas, Claudia olhava em volta. “Como em casa.” Ele tinha colocado seu microscópio eletrônico em uma mesa instável, desempacotado algumas caixas de instrumentos e livros.

Ele se virou; na luz das chamas seu rosto estava desfigurado. “Claudia, você deve olhar isso. Isso muda tudo. Tudo.”

Sua angústia a assustou. “Calma,” ela disse calmamente. “Você está bem?”

“Bem o suficiente.” Ele se inclinou sobre o microscópio, os dedos longos ajustando-o habilmente.

Então ele recuou. “Você se lembra do fragmento de metal que eu peguei no escritório? Dê uma olhada nisso.”

Intrigada, ela colocou o olho na lente. A imagem era desfocada; ela refocou muito ligeiramente.

E então sentou-se muito quieta, tão rígida que Jared sabia que ela tinha visto, e naquele instante, entendido.

Ele foi e sentou-se exausto no chão, entre as heras e urtigas, o robe Sapiente em torno dele, sua bainha arrastando no chão. E ele a observou enquanto ela olhava.

***

Era a Parede no Fim do Mundo.

Se Sapphique tinha realmente caído de cima para baixo, ele deve ter levado anos.

Enquanto Finn contemplava ele sentiu o ricochetear do vento por sua imensidão, fazendo uma trilha que rugiu para eles. Restos do coração de Incarceron foram destruídos no topo e então caiu em um redemoinho sem fim; uma vez preso naquela ventania, nada poderia escapar.

“Precisamos voltar!” Gildas estava titubeando no comando; Finn subiu depois dele.

Juntos eles se espremeram ao lado de Keiro, se arrastando, tentando fazer o navio desviar antes que atingisse a corrente ascendente.

Com o trovão, veio o Apagar das Luzes.

Na escuridão Finn ouviu Keiro xingar, sentiu Gildas contorcer-se ao redor dele, segurando firme.

“Finn, puxe a alavanca! No convés.”

Sua mão tateou, encontrou, e ele puxou.

Luzes piscaram, dois feixes de luz horizontal vindos da proa do navio. Ele viu como a parede estava perto. Os discos de luz jogados em rebites enormes, maiores que casas, os painéis enormes aparafusados, esmagados pelo impacto dos fragmentos, incomensuravelmente rachados e com cicatrizes e corroídos.

“Podemos voltar atrás?” Keiro gritou.

Gildas deu-lhe um olhar de desprezo. E naquele momento, eles caíram.

Mergulhando para baixo, derrubando vigas e longarinas e cordas, o navio caiu pelo lado da Parede como um grande anjo de prata, as velas batendo, se despedaçando em questão de segundos, até que logo quando eles pensaram que ela se iria se partir acima deles, o cone de aspiração os pegou. O mastro quebrou, o barco disparou novamente, girando fora de controle, os faróis girando na Parede, escuridão, um rebite, escuridão. Preso nas cordas, Finn se agarrou em um braço que poderia ser o de Keiro. O vento furioso se precipitou no topo, o fluxo da corrente vindo de uma ruidosa escuridão, e conforme eles prosseguiam no fino ar, as nuvens e a tempestade ficaram para trás, a parede um simples pesadelo que os sugava para perto. Eles estavam tão perto, Finn podia ver que sua superfície rachada estava enredada com fechaduras e pequenas portas, aberturas onde morcegos sopraram para fora e navegaram na tempestade com facilidade. Polido pela colisão de bilhões de átomos o metal brilhava no farol.

O navio balançava. Por um longo segundo Finn teve a certeza que deslizaria bem para cima dele; ele agarrou Keiro e fechou seus olhos, mas quando ele os abriu tinha se endireitado e Keiro estava se chocado contra ele, sacudindo as cordas.

A popa virou. Houve um escorregão enorme, um grande empurrão.

Gildas rugiu: “Attia! Ela deixou a âncora escapar.”

Attia deve ter ido para baixo e puxado os pinos.

A subida ficou mais lenta, as velas se rasgando. Gildas puxou-se para cima e trouxe Finn para perto. “Temos que ir direto para a Parede e pular.”

Finn o encarou, sem expressão. O Sapiente retrucou,” É a única saída! O navio vai cair e levantar e cair eternamente! Temos que levá-lo até lá!”

Ele apontou. Finn viu um cubo escuro. Ele se projetava do metal batido, uma abertura oca na escuridão. Parecia minúsculo; suas chances de entrar lá remotas.

“Sapphique pousou em um cubo.” Gildas tinha que segurar-se nele. ” Tem que ser aquele.”

Finn olhou para Keiro. Dúvida atingiu os dois. Conforme Attia veio até a escotilha e foi em direção a eles, Finn sabia que seu irmão de juramento achou que o velho homem era louco, consumido com sua busca. Ainda assim, que outra escolha eles tinham?

Keiro encolheu os ombros. Imprudente, ele girou o volante e dirigiu o navio diretamente para a Parede. Nos faróis dianteiros o cubo esperava, um enigma negro.

***

Claudia não podia falar. Sua surpresa, sua consternação eram grandes demais. Ela viu animais.

Leões.

Ela contou-os entorpecida; seis, sete... três filhotes. Uma alcateia. Era essa a palavra, não...? “Eles não podem ser reais,” ela murmurou.

Atrás dela, Jared suspirou. “Mas eles são.”

Leões. Vivos, perambulando, um rugindo, o resto dormindo em uma área gramada, algumas árvores, um lago onde aves estavam espalhadas na água.

Ela se inclinou para trás, encarou o microscópio, olhou de novo.

Um dos filhotes arranhou o outro; eles rolaram e lutaram. Uma leoa bocejou e deitou, as patas planas.

Claudia se viu. Encarou Jared através da luz da lâmpada e ele olhou para trás, e por um momento não havia nada a ser dito, apenas pensamentos que ela não se atrevia a ter, implicações que ela estava muito aterrorizada para pensar.

Finalmente ela disse. “Quão pequenos?”

“Incrivelmente pequenos.” Ele mordeu as pontas de seu longo cabelo preto.

“Miniaturizados para cerca de um milionésimo de nanômetros... Infinitesimal.”

“Eles não... Como é que eles ficam...?”

“É uma caixa de gravidade. Auto ajustável. Eu achei que a técnica estivesse perdida. Parece ser todo um zoológico. Há elefantes, zebras...” Sua voz desapareceu; ele sacudiu a cabeça “Talvez seja um protótipo... tentando-o primeiro em animais. Quem sabe?”

“Então isso significa...” Ela se esforçou para dizer. “Que Incarceron...”

“Estivemos procurando por um edifício enorme, um labirinto subterrâneo.” Ele olhou para frente para a escuridão. “Como fomos cegos, Claudia! Na biblioteca da Academia há registros que propõem que tais coisas—mudanças trans-dimensionais—já foram possíveis. Todo esse conhecimento foi perdido na guerra. Ou assim nós pensamos.”

Ela se levantou, não conseguia ficar parada. O pensamento dos leões menores que um átomo de sua pele, a grama na qual eles deitavam ainda menor, as minúsculas formigas que eles esmagavam com suas patas, as pulgas em seu pêlo... Era muito difícil de digerir. Mas para eles o mundo era normal. E para Finn...?

Ela caminhou em urtigas, sem nem perceber. Ela se forçou a dizer, “Incarceron é minúscula.”

“Deduzo que sim”

“O Portal...”

“Um processo de entrada. Cada átomo do corpo entra em colapso.” Ele olhou para cima e ela viu o quão mal ele parecia. “Você vê? Eles fizeram uma Prisão para prender tudo o que temiam e a diminuíram de forma que seu Diretor pudesse tê-la na palma de suas mãos. Que solução para os problemas de um sistema abarrotado, Claudia. Que maneira de diminuir os problemas do mundo.

E isso explica muito. A anomalia espacial. E pode haver uma diferença de tempo muito, muito pequena.”

Ela voltou ao microscópio e viu os leões rolarem e brincarem. “Então é por isso que ninguém pode sair.” Ela olhou para cima. “Isso é reversível, Mestre?”

“Como eu posso saber? Sem examinar cada—” Ele parou. “Você percebe que vimos o Portal, o portal de entrada? No escritório de seu pai havia uma cadeira.”

Ela encostou-se à mesa. “O objeto de iluminação. As ranhuras no teto.”

Era aterrorizante. Ela teve que voltar a andar, para cima e para baixo, pensar nisso de verdade.

Então ela disse, “Eu tenho algo para te contar também. Ele sabe. Ele sabe que nós temos a Chave.”

Sem olhar para ele, não querendo ver o medo em seus olhos, ela lhe contou sobre a raiva de seu pai, suas demandas. Tendo terminado, ela se viu agachada a seu lado, sua voz próxima de um sussurro. “Eu não irei devolver a Chave. Tenho que tirar Finn de lá.”

Ele ficou em silêncio. A gola de seu casaco alta em seu pescoço. “É impossível,” ele disse.

“Tem que haver algum jeito...”

“Oh, Claudia.” A voz de seu tutor era leve e doce. “Como pode haver?”

Vozes. Alguém rindo alto.

Instantaneamente ela levantou e apagou as luzes. Jared parecia muito deprimido para se importar. Na escuridão, eles aguardaram, ouvindo os gritos dos foliões bêbados, uma balada mal cantada sumindo através do pomar. Claudia sentiu seu coração batendo tão forte no silencio que quase machucou. Sinos fracos badalaram horas na torre do relógio e nos estábulos do Palácio.

Em uma hora teria início o dia de seu casamento. Ela não desistiria. Não ainda.

“Agora que nós sabemos sobre o Portal e como ele funciona... podemos manuseá-lo?”

“Possivelmente. Mas não há caminho de volta.”

“Eu poderia tentar.” Ela disse rapidamente. ” Ir e procurar por ele. O que eu tenho aqui? Uma vida com Caspar...”

“Não.” Ele se sentou e a encarou. “Você pode sequer começar a imaginar a vida lá?

Um inferno de violência e brutalidade? E aqui—se o casamento não acontecer os Lobos de Aço vão atacar. Seria um terrível derramamento de sangue.” Ele se esticou e pegou suas mãos. “Eu espero ter ensinado você a enfrentar os fatos.”

“Mestre—”

“Você tem que ir adiante com o casamento. Isso é o que resta. Não há caminho de volta para Giles.”

Ela queria se afastar, mas ele não deixava. Ela não sabia que ele era tão forte.

“Giles está perdido para nós. Mesmo se ele estiver vivo.”

Ela deslizou suas mãos e apertou as dele, tensa de angústia. “Eu não sei se posso,” ela sussurrou.

“Eu sei, mas você é corajosa.”

“Eu serei tão solitária. Eles estão te mandando embora.”

Os dedos dele eram gelados. “Eu te disse. Você tem muito a aprender.” Na escuridão ele deu um de seus raros sorriso. “Eu não vou a lugar algum, Claudia.”

***

Eles não podiam fazer isso. O navio não iria se manter estável, mesmo com todos eles puxando na direção. Suas velas eram trapos, seus cabos espalhados por toda parte, seus anteparos foram esmagados e ainda seguia em ziguezague, a âncora balançava e o arco oscilava em direção ao cubo, distante, para cima e para baixo. “É impossível,” Keiro rosnou.

“Não.” Gildas parecia iluminado com alegria. “Nós podemos fazer isso.

Mantenham-se fortes.” Ele agarrou o leme e olhou para frente.

De repente o navio caiu. Os faróis encolhendo na abertura do cubo; conforme eles se aproximavam Finn viu que era filmado transversalmente com uma vilosidade estranha que parecia a superfície de uma bolha. Arco-íris iridescentes brilhavam sobre ele.

“Caracóis gigantes,” Keiro murmurou. Mesmo agora ele era capaz de fazer piada, Finn pensou.

Mais perto, mais perto. Agora o navio estava tão perto que agora eles podiam ver o reflexo de suas luzes, inchadas e distorcidas. Tão perto que o gurupé tocou o filme, o afundou, o trespassou de modo que bateu com repentina suavidade, desaparecendo em um sopro fraco de ar doce.

Aos poucos, lutando contra a corrente contrária, o navio girou no cubo escuro. A luta diminuiu.

Vastas sombras sobrecarregaram os faróis.

Finn olhou para o cubo de negritude. Enquanto ele se abriu como se fosse engoli-lo, ele sentiu como se fosse extremamente pequeno, como se fosse uma formiga rastejando em uma prega de tecido, um pano de piquenique colocado sobre a grama muito longe e há muito tempo atrás, onde um bolo de aniversário com sete velas estava meio comido e uma menina com cabelos castanhos encaracolados estava entregando-lhe um prato de ouro, tão educadamente.

Ele sorriu para ela e o pegou.

O navio rachou, o mastro lascado, derrubado, uma chuva de madeira caindo ao seu redor. Attta caiu sobre ele, trazendo um brilhante cristal que escorregou por sua camisa.

“Pegue a Chave,” ela gritou.

Mas o navio bateu no fundo do cubo e escuridão desabou sobre ele. Como um dedo esmagando uma formiga. Como a queda de um mastro principal.

Mastro que se projeta, quase na horizontal, para frente da proa de um navio.

 

O PRÍNCIPE PERDIDO

 

O desespero é profundo. Um abismo que engole sonhos.

Uma parede no fim do mundo. Atrás dela aguardo a morte. Porque todo nosso esforço acabou nisso.

—Diário de Lorde Calliston

A manhã do casamento amanheceu morna e sem chuva. Até o tempo havia sido planejado; as árvores estavam em plena floração e os pássaros cantavam, o céu estava azul e sem nuvens, a temperatura ideal, a brisa suave e docemente perfumada.

De sua janela, Claudia viu os exasperados servos realizando o transporte de cargas de presentes, viu mesmo dali de cima o brilho de diamantes, o fascínio do ouro.

Ela colocou o queixo no parapeito de pedra e sentiu seu calor arenoso. Havia um ninho um pouco acima, uma andorinha que mergulhava para dentro e para fora regularmente com bicos com moscas. Filhotinhos invisíveis piavam conforme os pais iam e vinham.

Ela sentiu seus olhos pesarem e seus ossos cansados. A noite inteira ela havia ficado acordada e olhado para cima para as cortinas de carmesim da cama, ouvindo o silêncio do quarto, seu futuro pairando sobre ela como uma cortina pesada prestes a cair. Sua antiga vida estava acabada—a liberdade, os estudos com Jared, os longos passeios e as subidas em árvores, o descuido de fazer tudo a seu gosto. Hoje ela se tornaria a Condessa de Steen, iria entrar na guerra de intrigas e traições que era a vida no Palácio. Em uma hora eles viriam dar-lhe banho, preparar seu cabelo, pintar suas unhas, vesti-la como uma boneca.

Ela olhou para baixo.

Havia um telhado distante, a inclinação de alguma torre. Por um momento de sonho, ela achou que se amarrasse todos os lençóis de roupa de cama juntos, ela poderia descer, lentamente, de mão em mão, até seus pés tocarem os quentes ladrilhos. Ela poderia escorregar até em baixo e pegar um cavalo dos estábulos e fugir, fugir da forma que estava, na sua camisola branca, para as verdes florestas nas montanhas ao longe.

Foi um pensamento aconchegante. A garota que desapareceu. A princesa perdida.

Isso a ver sorrir. Mas então uma chamada a trouxe de volta; ela viu Lorde Evian resplandecente em azul e arminho, olhando para ela.

Ele gritou algo; ela estava muito acima para ouvir o quê, mas ela sorriu e acenou com a cabeça, e ele se inclinou e foi embora, seus pequenos sapatos com esporões batendo.

Observando-o, ela soube que a Corte era como ele, que por trás de sua perfumada e elaborada fachada ocultava-se uma teia de ódios e assassinatos secretos, e sua parte nisso começaria em breve, e para sobreviver ela deveria ser tão forte quanto eles. Finn nunca poderia ser resgatado.

Ela tinha que aceitar isso.

Levantou-se, engolindo em pânico, e caminhou até a penteadeira.

Estava repleta de flores, buquês compactos, ramalhetes e buquês. Eles estiveram chegando durante a manhã inteira, então o quanto tinha um cheiro requintado e doentio.

Atrás dela, na cama, o vestido branco deitava espalhado. Ela olhou para si mesma.

Tudo bem. Ela se casaria com Caspar e se tornaria Rainha. Se havia uma trama, ela faria parte disso. Se haviam assassinatos, ela sobreviveria a eles. Ela iria governar.

Ninguém nunca lhe diria o que fazer novamente.

Ela abriu a gaveta de penteadeira, tirou a chave, e pousou-a sobre a mesa. Ela brilhava, suas facetas de cristal captavam a luz do sol, sua águia esplêndida.

Mas primeiro ela tinha que dizer à Finn. Deixá-lo saber que não havia escapatória.

Dizer a ele que seu noivado estava acabado.

Ela estendeu a mão, mas assim que a tocou houve uma batida na porta e instantaneamente ela deslizou a chave suavemente para dentro da gaveta e pegou um pincel. “Entre, Alys.”

A porta se abriu. “Não é Alys,” seu pai disse.

Ele ficou ali, obscuro e elegante, emoldurado pelo lintel dourado. “Posso entrar?”

“Sim,” ela disse.

Seu paletó era novo, um veludo preto, uma rosa branca na lapela, calças de cetim até os joelhos.

“Toda essa ornamentação é incômoda. Mas é preciso ser perfeita em tal dia.” Olhando para seu vestido simples, ele tirou o relógio e o abriu, de forma que o sol pegasse o cubo cinza pendurado na corrente. “Você só tem suas horas, Claudia. Você deveria se vestir agora.”

Ele inclinou se cotovelo na mesa. “É isso que veio me dizer?”

“Eu vim dizer o quanto estou orgulhoso.” Seus olhos acinzentados pegaram os dela, e a luz neles era aguçada e afiada. ” Hoje é o dia que eu planejei e programei por décadas. Muito antes de você nascer. Hoje, o Arlexi chega ao coração do poder. Nada deve dar errado.” Ele se levantou e andou até a janela, como se a tensão não o permitisse ficar parado. Ele sorriu. “Confesso não ter dormido pensando nisso.”

“Você não é o único.”

Ele a olhou de perto. “Você não deve temer, Claudia. Tudo está arranjado. Tudo está pronto.”

Algo em seu tom a fez olhar para cima. Por um momento ela olhou para ele e viu sub a máscara, viu um homem tão ferozmente impulsionado por seu sonho de poder que sacrificaria qualquer coisa para consegui-lo. E com um frio arrepio ela viu que ele nunca o compartilharia. Não com a Rainha, ou Caspar. “O que quer dizer com... tudo?”

“Só que as coisas ficarão em nosso favor. Caspar não passa de um trampolim.”

Ficou parada. “Você sabe, não é? Sobre os assassinatos... os Lobos de Aço. Você é um deles?”

Ele cruzou o quarto em um passo e a segurou pelo braço com tanta força, que ela arfou. “Cale-se,” ele vociferou “Você acha que não há dispositivos de escuta, mesmo aqui?”

Ele a levou até a janela e a lançou aberta. Cepas de alaúde e tambor flutuam para cima, os gritos de um comandante guiando seus homens. Envolvida pelo barulho sua voz era rouco e baixa. “Só faça sua parte, Claudia. Só isso.”

“E então você os mata.” Ela disse num puxão.

“O que acontece depois não lhe diz respeito. Evian não tinha o direito de se aproximar de você.”

“Não tinha? Quanto tempo antes de eu estar no seu caminho também? Quanto tempo antes que eu caia do meu cavalo?”

Ela o chocara. “Isso nunca aconteceria.”

“Não?” Seu desprezo era ácido; ela queria queimá-lo. “Porque sou sua filha?”

Ele disse: “Porque aprendi a amar você, Claudia.”

Havia algo ali que a prendeu. Algo estranho. Mas ele se afastou. “Agora. A Chave.”

Ela franziu a testa. Depois foi até a penteadeira e abriu a gaveta. A Chave brilhava; ela a pegou e colocou em cima, junto com as flores.

O Diretor veio e a olhou. “Nem mesmo o precioso Jared poderia ter descoberto todos os mistérios desse misterioso dispositivo.”

“Eu quero dizer adeus,” ela disse, obstinada. “A Finn e aos outros. Para explicar a eles. Então eu te darei a chave. No casamento.”

Os olhos dele eram claros e frios. “Você sempre tem que testar minha paciência, Claudia.”

Por um momento, ela achou que ele simplesmente ia tomá-la. Mas ele andou para a porta.

“Não deixe Caspar esperando muito. Ele fica muito... mal-humorado.”

Ela trancou a porta atrás dele e sentou-se, segurando a chave em ambas as mãos. Eu aprendi a te amar. Talvez ele até tenha pensado que era verdade.

Ela ligou o campo.

Então ela pulou para trás tão rápido que a chave caiu com um estrondo no chão.

Attia estava em seu quarto.

“Você tem que nos ajudar,” a garota disse de uma só vez. “O navio colidiu. Gildas está ferido.”

O campo se alargou, ela viu um lugar escuro, ouviu um uivo distante como de vento. Pétalas explodiram das flores em sua mesa, como se um vendaval daquele lugar tivesse se mudado pra cá.

Attia foi deixada de lado; Finn disse, “Claudia, por favor. Jared pode ajudar...?”

“Jared não está aqui.” Indefesa, ela viu os destroços de uma estranha nave jogados como lixo no chão. Keiro estava arrancando um pedaço de vela em tiras e amarrando no braço e no ombro de Gildas; ela viu que o sangue já estava escoando dela. “Onde vocês estão?”

“A Parede.” Finn parecia cansado. “Acho que nós chegamos tão longe quanto pudemos. Este é o fim do mundo. Há uma passagem à frente, mas não sei se ele pode atravessar...”

“É claro que posso,” Gildas rebateu.

Finn fez uma careta. “Não por muito tempo. Nós devemos estar perto, Claudia, do portal.”

“Não há portal.” Ela sabia que sua voz era monótona.

Ele a olhou, “Mas você disse—”

“Eu estava errada. Sinto muito. Está tudo acabado, Finn. Não há portal e não há nenhum jeito de sair. Nunca. Não de Incarceron.”

***

Jared entrou no Salão Principal. Estava repleto de cortesãos, príncipes, embaixadores, Sapientes, duques e duquesas. Era um desnorteamento de cetins coloridos e o cheiro de suor e fragrâncias poderosas, e isso o fazia sentir-se um pouco fraco. Havia assentos ao longo da parede; ele escolheu um e sentou, inclinando a cabeça para trás contra a pedra fria. Todos ao redor dele, convidados no casamento de Claudia, riam e conversavam. Ele viu o noivo, com seu bando de jovens amigos, já bebendo, rindo ruidosamente de alguma piada. A Rainha não estava presente ainda, nem o Diretor.

Uma dobra de seda a seu lado o fez virar. Lord Evian se curvou. “Você parece um pouco cansado, Mestre.”

Jared olhou para trás. “Uma noite sem dormir, senhor.”

“Ah sim. Mas em breve, todas as nossas preocupações acabarão.” O homem gordo sorriu e se abanou com um pequeno leque preto. “Por favor, dê a Claudia todos os meus melhores desejos.”

Ele curvou-se novamente e se afastou. Jared disse de repente: “Um momento, meu senhor. No outro dia... Quando você fez uma certa promessa...”

“Sim?” A forma presunçosa de Evian tinha desaparecido; ele parecia cauteloso.

“Você mencionou Aquele de Nove-Dedos.”

Evian o encarou. Ele agarrou o braço de Jared e o arrastou para a multidão.

Passando tão rápido que as pessoas olhavam conforme iam sendo empurradas. No corredo, ele sussurrou: “Nunca diga esse nome em voz alta. É um nome sagrado e santo para aqueles que acreditam.”

Jared soltou seu braço. “Tenho ouvido sobre muitos cultos e crenças. Certamente todos os que a Rainha permite. Mas esse—”

“Este não é o dia para discutir religião.”

“É sim.” Os olhos de Jared estavam claros e nítidos. “E nós temos pouquíssimo tempo. Será que ele tem nome, esse herói de vocês?”

Continuar: parte 3 de 4