Incarceron

Catherine Fisher · Capítulo 1 de 4 · parte 1/4

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Incarceron

Sinopse

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Incarceron Vol.1 – Incarceron

(Catherine Fisher)

SINOPSE

 

Incarceron—uma prisão futurística, longe de vista, onde os descendentes dos prisioneiros originais vivem em um mundo sombrio marcado por rivalidade e selvageria.

É uma mistura aterrorizante de alta tecnologia—um prédio vivo que impregna a história como um personagem sempre alerta e sempre-vingativo, e uma típica sala de tortura medieval— correntes, grandes salões e masmorras.

Um jovem prisioneiro, Finn, tem visões assombradoras de uma vida passada, e não pode acreditar que ele nasceu aqui e sempre esteve aqui. No mundo exterior, Claudia, filha do Diretor de Incarceron, está presa em sua própria forma de prisão—um mundo futurístico construído lindamente para parecer com uma era passada, um casamento iminente que ela tem pavor. Ela não sabe nada sobre Incarceron, exceto que existe. Mas chega um momento quando Finn, dentro de Incarceron, e Claudia, do lado de fora, simultaneamente encontram um dispositivo—uma chave de cristal, através da qual eles podem falar um com o outro. E assim nasce o plano para a fuga de Finn...

 

ÁGUIA DE CRISTAL, CISNE ESCURO

 

Quem pode mapear a vastidão de Incarceron?

Seus salões e viadutos, seus precipícios?

Apenas o homem que conheceu a liberdade

Pode definir a sua prisão.

—Canções de Sapphique

 

Finn havia sido lançado de cara e amarrado às lajes de pedra do corredor. Seus braços, bem abertos, estavam presos com correntes tão pesadas que mal conseguia levantar seus pulsos do chão. Ele não podia levantar seu peito para conseguir ar suficiente.

Estava exausto, com a pedra gelada contra sua bochecha. Mas os Civicry estavam finalmente chegando.

Ele os sentiu antes de escutá-los; vibrações no chão, começando pequenas e crescendo até que faziam tremer seus dentes e seus nervos. Então, ruídos na escuridão, o movimento dos caminhões de migração, o lento estrondo das rodas metálicas. Arrastando sua cabeça para trás, ele sacudiu seu sujo cabelo de seus olhos e viu como os sulcos paralelos do piso se fechavam diretamente embaixo de seu corpo. Ele estava preso justo no meio da via.

O suor molhava sua testa. Agarrando as correntes congeladas com uma luva, elevou seu peito e conteve sua respiração. O ar era ácido e cheirava a azeite. Não era o caso gritar ainda. Eles estavam muito longe e não o escutariam sobre o clamor das rodas até que estivessem dentro do grande corredor. Teria que cronometrá-lo com pontualidade.

Muito tarde, e os caminhões não se deteriam, ele seria esmagado. Desesperadamente, tratou de evitar o outro pensamento. Que eles viessem, escutassem e nem sequer se importassem.

Luzes.

Pequenas, flutuantes, luzes de mão. Concentrando-se, ele contou nove, onze, doze; então as contou novamente para ter um número que fosse firme, que se interpusesse à náusea em que se afogava sua garganta.

Limpando seu rosto com a manga desgastada de sua camisa para reconforta-se um pouco, ele se lembrou de Keiro, seu sorriso, a última bofetada brincalhona enquanto ele revisava a fechadura e saia novamente à escuridão. Ele sussurrou o nome, um sussurro amargo. “Keiro.”

Grandes corredores e galerias invisíveis. A névoa permanecia no ar metálico. Os caminhões avançavam e grunhiam.

Ele podia ver as pessoas agora, com muito esforço. Elas emergiam da escuridão tão protegidos do frio que era difícil saber se eram garotos, idosos ou mulheres curvadas.

Provavelmente garotos, os maiores, se eles conservavam algum, viajariam nos bondes, com os bens. Uma roída bandeira branca e negra ondulava sobre o caminhão líder; ele podia ver seu desenho, uma ave heráldica com uma seta prateada no bico.

“Parem!” Gritou. “Olhem! Aqui embaixo!”

O movimento das máquinas tremia sobre o chão. Fazia eco em seus ossos e dentes.

Ele apertou suas mãos enquanto o incrível peso e ímpeto dos caminhões se aproximavam dele, o cheiro do suor das massivas filas de homens empurrando, o ranger e deslizamento dos bens empilhados. Ele esperou, forçando o seu terror a se acalmar, segundo à segundo provando seu valor ante a morte, sem respirar, sem se permiti romper-se, porque ele era Finn, o observador de estrelas, ele podia fazer isso. Até que de repente, sofrendo a erupção de um pânico suarento, ele se levantou e gritou. “Escutem-me! Parem! Parem! ”

Eles continuaram vindo.

O ruído era insuportável. Agora ele gritava e chutava, pela terrível realidade do momento em que os caminhões carregados seguiriam a diante, o atropelariam, o escureciam, esmagariam seus ossos e corpo em uma lenta e inevitável agonia.

Até que se lembrou da lanterna.

Era minúscula, mas ainda a conservava, Keiro se assegurou disso. Arrastando o peso das correntes, ele rodou e colocou suas mãos em seu casaco, os músculos de seus pulsos retorcendo-se espasmodicamente. Seus dedos deslizaram sobre o delgado e gelado tubo.

As vibrações percorriam seu corpo. Ele levantou a lanterna, mas a deixou cair e rolar, fora do alcance de seus dedos. Ele maldisse e se estirou, a ascendendo com seu queixo.

A luz brilhou.

Ele estava gemendo de alivio, mas os caminhões continuaram. Certamente os Civicry podiam vê-

lo. Eles deveriam ser capazes de vê-lo! A lanterna era uma estrela na imensa escuridão do corredor, através de suas escadas e galerias e milhares de câmaras labirínticas. Ele sabia que Incarceron havia sentido sua audácia, e o choque dos caminhões era seu rude entretenimento, esse que a prisão observaria e na qual não interviria.

“Sei que podem me ver! ” gritou.

As rodas tinham a altura de um homem. Sacudiam-se no piso, com faíscas que saltavam do pavimento. Um garoto gritou, com uma voz aguda, e Finn grunhiu e encolheu-se, sabendo que tudo tinha sido em vão, sabendo que era o final, e então o protesto dos freios o impactou, o estremecido chiado chegou até seus ossos e dedos.

As rodas se elevaram. Elas estavam altas. Elas estavam sobre ele.

Elas estavam paradas.

Ele não podia se mover. Seu corpo estava hesitante e cheio de terror. A luz piscante iluminava nada mais que um rebite da grossura de um punho em uma rosca oleosa.

Então, atrás daquilo, uma voz perguntou. “Qual o seu nome, Prisioneiro?”

Eles estavam reunidos na escuridão. Ele levantou sua cabeça e viu corpos encapuzados.

“Finn. Meu nome é Finn.” Sua voz era um sussurro; ele teve de engolir. “Eu não achei que vocês fossem parar...”

Um grunhido, alguém mais disse, “Parece Escória para mim.”

“Não! Por favor! Por favor, me levantem.” Eles estavam calados e ninguém se moveu, então ele tomou ar e disse duramente, “A Escória saqueou nossa Ala. Eles mataram meu pai e me deixaram desse jeito para qualquer um que passasse.”

Ele tentou amenizar a agonia em seu peito, firmando seus dedos nas correntes enferrujadas. “Por favor. Eu estou lhe implorando.”

Alguém chegou mais perto. O bico de uma bota parou perto de seu olho; sujo; com um buraco remendado.

“Que tipo de Escória? “

“O Comitatus. O líder chama a si mesmo de Jormanric o Senhor da Ala.”

O homem cuspiu perto da orelha de Finn. “Este aí! Ele é um bandido louco.”

Por que nada estava acontecendo? Finn se contorceu desesperado. “Por favor! Eles devem voltar!”

“Eu digo para nós andarmos por cima dele. Por que interferir?”

“Porque nós somos Civicry, e não Escória.” Para a surpresa de Finn, uma mulher.

Ele escutou o ruído de suas roupas de seda debaixo do grosseiro cassaco de viajem. Ela se ajoelhou e ele viu suas mãos com luvas arrancar à corrente. Seus punhos estavam sangrando; a ferrugem fez laços empoeirados sobre sua pele suja.

O homem disse inquieto, “Maestra, escute...”

“Pegue o alicate, Sim. Agora.”

Seu rosto estava perto ao de Finn. “Não se preocupe, Finn. Eu não te deixarei aqui.”

Dolorosamente ele olhou para cima, e viu uma mulher de mais ou menos vinte, seu cabelo era vermelho, seus olhos escuros. Por um momento ele a cheirou. Um cheiro de sabão e lã úmida, e um perfume de cortar o coração que caiu na sua memória, dentro daquela caixa preta trancada dentro dele. Um quarto. Um quarto com fogo de madeira de macieira. Um bolo em uma travessa de porcelana chinesa.

O choque deve ter aparecido em seu rosto; da escuridão de seu capuz ela olhou para ele pensativa. “Você estará seguro conosco.”

Finn olhou para trás. Ele não podia respirar.

Um berçário. As paredes de pedra. As cortinas ricas e vermelhas.

Um homem veio apressadamente e deslizou o alicate debaixo da corrente.

“Cuidado com seus olhos,” ele resmungou. Finn abaixou sua cabeça na manga, sentindo pessoas se aglomerando ao redor. Por um momento ele pensou que uma das crises que ele temia, estava vindo sobre ele; fechou seus olhos e sentiu o familiar calor e tontura varrendo seu corpo. Ele combateu aquilo, engolindo saliva, apertando a corrente enquanto o pesado alicate a cortava, tosquiando, abrindo-as. A memória estava enfraquecendo; O quarto e o fogo, o bolo com minúsculas bolas prateadas sobre uma travessa com bordas de ouro. Mesmo enquanto ele tentava manter. Aquilo tinha ido, e a frígida escuridão de Incarceron tinha voltado, o fedor azedo e metálico de rodas oleadas.

Os elos deslizaram e brandiram. Ele se içou para cima em alivio, arrastando em respirações profundas. A mulher pegou seu punho e o virou. “Isto precisará de curativo.”

Ele congelou. Não conseguia se mover. Os dedos dela eram frios e limpos, e ela tinha o tocado em sua pele, entre a manga rasgada e a luva, e ela estava olhando para a minúscula tatuagem de um pássaro coroado.

Ela franziu. “Isto não é uma marca de Civicry. Parece...”

“O quê?” Ele ficou alerta de uma vez. “Como o quê?”

Um estrondo quilômetros longe do salão. A corrente no seu pé escorregava.

Curvado sobre ela o homem com o alicate hesitou. “Isto é estranho. Esta corrente. Este parafuso.

Está frouxo...”

A Maestra olhou para o pássaro. “Como o do cristal.”

Um berro, atrás deles.

“Que cristal?” Finn disse.

“Um objeto estranho. Nós o achamos.”

“É o mesmo pássaro? Você tem certeza?”

“Sim.” Distraída, ela se virou e olhou para o parafuso. “Você não estava realmente—”

Ele tinha de saber sobre isto. Tinha de mantê-la viva. Ele a agarrou e a puxou para o chão. “Se abaixe,” ele sussurrou. E então, raivoso, “Você não entende? É tudo uma armadilha! ”

Por um momento seus olhos olharam fixamente dentro dos dele e ele viu sua surpresa fraturada em horror. Ela tirou o braço do aperto dele rapidamente, Com uma flexão estava de pé e gritando, “Corram! Todo mundo corra!” Mas as grades no chão estavam sendo abertas; braços saíram, corpos se levantaram, armas bateram na pedra.

Finn se moveu. Ele arremessou o homem com o alicate para trás, chutou a falsa algema para longe e torceu a corrente a tirando. Keiro estava gritando com ele; um cutelo passou rapidamente por sua cabeça e ele se jogou para baixo, rolando, e olhou para cima.

O salão estava preto com fumaça. Os Civicry estavam gritando, correndo para o abrigo das grandes colunas, mas a Escória já estava nas carroças, atirando indiscriminadamente, flashes vermelhos das grosseiras espingardas de pederneiras tornando o salão irritante.

Ele não podia ver ela. Poderia estar morta, poderia estar correndo. Alguém o empurrou e colocou uma arma em sua mão. Ele achou que fosse Lis, mas toda a escória usava um elmo escuro e ele não poderia dizer.

Então ele viu a mulher. Ela estava empurrando crianças debaixo da primeira carroça, um menino pequeno estava soluçando e ela o agarrou e o arremessou para frente dela. Gás estava assobiando das pequenas esferas que caiam e quebravam como ovos, aquele fedor fazendo os olhos de Finn lacrimejar. Ele puxou seu elmo e o colocou, as almofadas encharcadas sobre seu nariz e boca aumentando sua respiração. Pelo buraco da grade de olho o salão estava vermelho, as imagens claras.

Ela tinha uma arma e estava atirando.

“Finn!”

Era Keiro, mas Finn ignorou o grito, Ele correu até o primeiro caminhão, mergulhando para baixo dele, e agarrando o braço da Maestra; quando ela virou, ele jogou a arma para longe e ela gritou em raiva e tentou acertar seu rosto com sua luva malhada, os espinhos arranhando o seu elmo.

Enquanto ele a arrastava para fora, as crianças o chutavam e lutavam com ele, e uma cascata de comida foi atirada em volta deles, capturada, guardada, deslizou eficientemente dentro da calha abaixo da grade.

Um alarme soou.

Incarceron mexeu.

Painéis suaves deslizaram do lado dos muros; com um clique, holofotes de luzes brilhantes apontaram para baixo do teto invisível, percorrendo para frente e para trás sobre o piso distante, pegando a Escória enquanto eles davam o fora como ratos, suas sombras fortes enormes.

“Evacuar!” Keiro gritou.

Finn empurrou a mulher para frente. Perto deles um vulto correndo estava perfurada com luz e evaporou silencioso, pego em pânico no meio. Crianças gemeram.

A mulher se virou, sem ar com abalo, olhando para trás no resto de seu povo. Então Finn a arrastou para a calha.

Pela máscara seus olhos encontraram os dela.

” Aqui para baixo,” ele arfou. “Ou nós iremos morrer.”

Por um momento ele quase achou que ela não iria.

Então ela cuspiu nele, arrebatando ela mesma para fora de suas mãos, e pulando dentro da calha.

Uma faísca de fogo branco queimou sobre as pedras; instantaneamente, Finn pulou atrás dela.

A calha era de seda branca, forte e esticada. Ele deslizou por aquilo para baixo em uma falta de ar que o derrubou para fora no outro final dentro de uma pilha de peles de animais roubadas e componentes de metal triturados.

Já rebocada para um lado, com uma arma apontada para sua cabeça, a Maestra observava em desprezo.

Finn se levantou dolorido. Em volta, a Escória estava deslizando em túneis, sobrecarregados com a pilhagem, alguns mancando, alguns apenas cocientes. O último de todos, aterrissando de seu lado levemente de pé, veio Keiro.

As grades bateram fechadas.

As rampas caíram.

Vultos turvos arfaram e tossiram, tirando as máscaras.

Keiro removeu a sua lentamente, revelando seu rosto belo manchado com poeira.

Finn avançou sobre ele em fúria.

“O que aconteceu? Eu estava em pânico lá fora! Por que demorou tanto?”

Keiro sorriu. “Se acalme. Aklo não conseguia fazer o gás funcionar. Você os manteve falando bem o bastante.” Ele olhou para a mulher. “Por que se importar com ela?”

Finn contraiu os ombros, ainda fervendo. “Ela é uma refém.”

Keiro levantou uma sobrancelha. “Muito problema. “Ele balançou sua cabeça para o homem segurando a arma; o homem puxou o gatilho de volta. O rosto da Maestra estava branco.

“Então eu não ganho nada extra por arriscar minha vida lá em cima.” A voz de Finn estava firme.

Ele não se moveu, mas Keiro olhou para ele. Por um momento eles olharam um para o outro.

Então seu irmão de juramento disse friamente, “Se ela é o que você quer.”

“Ela é o que eu quero.”

Keiro olhou para a mulher de novo, e balançou os ombros... “Gosto não se discute.”

Ele balançou a cabeça e a arma foi abaixada. Então ele deu um tapa no ombro de Finn, o que fez uma nuvem de poeira rosa voar de suas roupas. “Muito bem, irmão,” ele disse.

Nós escolheremos uma Era do passado e a recriaremos.

Nós faremos um mundo livre da ansiedade de mudança!

Será o Paraíso!

—Decreto do Rei Endor

A árvore de carvalho parecia genuína, mas ela tinha sido envelhecida geneticamente. Os galhos eram tão grandes que escalá-los era fácil; enquanto ela amarrava sua saia e subia mais alto, galhos quebravam e um líquen verde sujou suas mãos.

“Claudia! São quatro horas!”

O grito de Aly veio de algum lugar no jardim de rosas. Claudia o ignorou, e repartindo as folhas, ela olhou para longe.

Daquela altura ela podia ver toda propriedade; A cozinha, o jardim, a estufa e o laranjal. A macieira deformada no pomar, o celeiro onde as danças eram celebradas no inverno. Ela podia ver o longo gramado verde declinando para o lago e as Faias escondendo o caminho até Hitchercross. Mais distante para oeste as chaminés da fazenda Altan fumegavam, e o campanário da velha igreja na colina de Harmer. Seu cata-vento refletindo o sol. Um pouco mais distante, por quilômetros e quilômetros, o campo da Diretoria se revelava para ela, as pradarias e as vilas e estradas, uma nevoa com uma miscelânea de cores que iam do azul ao verde pairava sobre os rios.

Ela suspirou e se esquivou para baixo em direção ao tronco. Aquilo era tão calmo.

Tão perfeito em sua desilusão. Ela iria odiar deixar aquilo.

“Claudia! Se apresse!”

O chamado era mais fraco. Sua ama deve ter voltado em direção a casa, porque um monte de pombos se dispersou, como se alguém estivesse andando em direção a eles.

Conforme Claudia escutava, o relógio do estábulo começava a apontar a mudança de hora, vagarosas badaladas deslizando dentro da tarde quente.

O campo brilhou.

Distante, na estrada alta, ela viu a carruagem.

Seus lábios se apertaram. Ele estava adiantado.

Era uma carruagem preta, e mesmo de lá ela podia perceber as nuvens de poeira levantadas pelas rodas da carruagem na estrada. Quatro cavalos negros a puxavam, e servos acompanhavam aquilo, ela contou oito deles e aspirou uma risada silenciosa. O Diretor de Incarceron estava viajando com estilo. O brasão de seu escritório estava pintado na porta da carruagem e uma longa bandeira tremulava no vento. Na caixa um motorista de farda batida com as rédeas, ela ouviu o barulho do chicote claro no ar.

Acima dela um pássaro piava e voava de ramo para ramo. Ela ficou bem quieta e empoleirou-se em uma cobertura de folhas perto de seu rosto. Então ele cantou; Um breve e suave gorjeio. Um tipo de tentilhão, talvez.

A carruagem tinha chegado à vila. Ela viu o ferreiro indo até sua porta, algumas crianças correram para fora de um celeiro. Assim que a carruagem passava, cachorros latiam e os cavalos se apertavam entre as estreitas casas.

Claudia alcançou seu bolso e tirou sua viseira. Aquilo era não-Era e ilegal, mas ela não se importava. Deslizando-a para seus olhos, sentiu-se tonta por um segundo enquanto as lentes se ajustavam ao seu sistema óptico; então a cena toda se ampliou e ela viu todas as características do homem claramente: O mordomo de seu pai, Garrh, no cavalo líder, o sombrio secretário, Lucas Medlicote; os homens do exército com seus casacos manchados.

A viseira era tão eficiente que ela quase podia ler os lábios do cocheiro enquanto jurava; então os postes da ponte passaram rapidamente e ela percebeu que eles haviam chegado ao rio e no chalé. Senhorita Simmy estava correndo até o portão com o pano de prato ainda em suas mãos, galinhas estavam em pânico atrás dela.

Claudia franziu. Ela tirou a viseira e este movimento fez o pássaro voar; o mundo deslizou de volta e a carruagem era pequena. Aly pranteou “Claudia! Eles estão aqui!

Você vai vir e se vestir!”

Por um momento ela achou que não iria. Brincou com a ideia de deixar a carruagem passar barulhentamente, descer da árvore, caminhar, abrir a porta, e ficar parada na frente dele, com o cabelo emaranhado e o velho vestido verde com rasgos em suas bordas. O desgosto de seu pai seria severo, mas ele não iria dizer nada. Se ela aparecesse pelada ele provavelmente não falaria nada, somente “Claudia. Minha querida.” E o beijo gelado seria estampado debaixo de sua orelha.

Ela balançou do galho e desceu, questionando se haveria algum presente.

Geralmente tinha. Caro e bonito, escolhido pôr ele por uma das mulheres da corte. Da última vez foi um pássaro de cristal em uma gaiola de ouro que lançava um penetrante assobio. Mesmo assim toda propriedade era cheia de pássaros, na maioria pássaros reais, que voavam e brigavam, e piavam fora das janelas.

 

Espécie de pássaro.

Pulando da árvore, ela correu pelo gramado até os grandes degraus de pedra.

Assim que ela os desceu, a mansão estava à sua frente, sua pedra morna brilhando com o calor, a glicínia balançando roxa sobre as torres e pelos cantos arredondados, o fosso profundo e escuro com três cisnes elegantes lá dentro. No telhado várias pompas haviam se acomodado, com vários arrulhos e andar pomposo; algumas delas voaram para a torre de canto e se esconderam dentro de lacunas e fendas, em pilhas de palha que se levaram gerações para coletar. Ou pelo menos é o que você acharia.

Uma janela abriu; Aly com seu rosto quente suspirava “Onde você estava! Não consegue ouvi-los?”

“Eu consigo ouvi-los. Pare de pânico.”

Enquanto ela apressava os passos a carruagem estava rangendo pelas madeiras da ponte; ela viu a balanço negro daquilo pelo corrimão; a escuridão gelada da casa estava em volta dela, com seu perfume de alecrim e lavanda. Uma serva saiu da cozinha, deu uma apressada reverencia, e desapareceu. Claudia subiu rapidamente as escadas.

No seu quarto Aly estava tirando as roupas do armário. Uma suave anágua, o vestido azul e ouro por cima dela, o corpete rapidamente vestido. Claudia ficou parada lá deixando ela mesma ser amarrada rapidamente dentro daquilo, a gaiola odiada que ela era mantida dentro. Por cima dos ombros da ama viu o pássaro de cristal na minúscula prisão, seu bico entreaberto, e franziu para aquilo.

“Fique parada.”

“Eu estou parada!”

“Suponho que você estava com Jared.”

Claudia encolheu os ombros. Melancolia se abateu sobre ela. Não se incomodaria em explicar.

O corpete estava muito apertado, mas ela estava acostumada com aquilo. Seu cabelo era ferozmente penteado e um colar de pérolas foi posto em seu pescoço; ele estalou em repouso em seus ombros suaves. Sem ar a velha deu um passo para traz. “Você estaria mais bonita se não estivesse com esta carranca.”

“Eu faço carranca se eu quiser.” Claudia virou para a porta, sentindo todo vestido balançar. “Um dia eu vou gritar, berrar e espernear na cara dele.”

“Eu acho que não.” Aly enfiou o velho vestido verde dentro do baú. Ela deu uma olhada para o espelho e colocou seus cabelos cinza debaixo da touca, tirou um rejuvenescedor facial a laser, o abriu, e habilidosamente eliminou as olheiras debaixo dos olhos.

“Se eu serei Rainha, quem vai me parar?”

“Ele vai.” Sua ama replica seguindo ela pela porta. “E você tem tanto medo dele quanto todo mundo.”

Isto era verdade. Andando calmamente pelas escadas, ela sabia que aquilo sempre havia sido verdade. Sua vida estava dividida em duas: O tempo em que seu pai estava lá, e quando ele estava longe. Ela vivia duas vidas, assim como os servos, a casa inteira, a propriedade, e o mundo.

Enquanto cruzava o chão de madeira entre uma dupla linha de jardineiros suados e sem ar e as mulheres leiteiras, lacaios e carregadores de tocha, em direção à carruagem que parou com um estrondo na calçada do pátio, ela se perguntou se ele tinha alguma ideia daquilo. Provavelmente.

Ele não perdia nada.

Ela esperou no degrau. Cavalos aspiraram, o velho Ralph andou para frente apresado; dois homens empoeirados em uniformes saltaram de trás da carruagem, abriram a porta, e puxaram os degraus para baixo.

Por um momento o vão da porta estava escuro.

Então sua mão segurou o colchoeiro; seu chapéu escuro saiu, seus ombros, sua bota, seu calção preto.

John Arlex, Diretor de Incarceron, ficou de pé e removeu a poeira de si mesmo com suas luvas.

Ele era um homem alto e hermético, sua barba cuidadosamente aparada, seu casaco e colete do mais fino dos tecidos. Já havia sido seis meses desde que ela tinha visto ele, mas parecia exatamente o mesmo. Ninguém com seu status precisava mostrar sinais da idade, mas ele não parecia precisar usar um rejuvenescedor facial. Ele a olhou e sorriu graciosamente; seus cabelos negros, amarrados com um laço negro, estavam elegantemente penteados.

“Claudia. Como você está bem, minha querida.”

Ela deu um passo para frente e fez um reverência, então ele levantou sua mão e ela sentiu o beijo gelado. Seus dedos eram sempre gelados e levemente úmidos, desagradáveis de se tocar. Ele sempre usava luvas, como se soubesse disso, mesmo quando fazia calor. Ela se perguntou se ele pensou que ela havia mudado. “Assim como você, pai,” ela murmurou.

Por um momento ele continuou olhando para ela, o calmo olhar cinzento, duro e limpo como sempre. Então ele virou.

“Permita-me apresentar nosso convidado. O chanceler da rainha, Lorde Evian.”

A carruagem balançou. Um homem extremamente gordo saiu de lá, e com ele uma onda de perfume que parecia descer quase visivelmente as escadas. Atrás dela Claudia sentia o interesse coletivo dos servos. Ela sentiu apenas desânimo.

O chanceler usava um terno azul de seda com um elaborado babado na gola, tão alto que ela se perguntava como ele conseguia respirar. Ele estava certamente com o rosto vermelho, mas seu comprimento estava assegurado e seu sorriso cuidadosamente simpático. “Minha senhorita Claudia. Na última vez que lhe vi, você era nada mais que um bebê de colo. Quão prazeroso é lhe ver de novo.”

Ela não estava esperando um visitante. O quarto de convidados principal estava todo bagunçado com as instruções de costura do vestido de noiva dela, espalhadas pela cama desarrumada. Ela teve de usar suas táticas de atraso.

“A honra é nossa,” ela disse. “Talvez você gostasse de vir até o salão. Nós temos sidra e bolos que acabaram de sair do forno, como um descanso após sua viagem.” Bem, ela esperava que eles tivessem. Virando, ela viu que três dos servos tinham ido e os buracos na linha tinham se fechado rapidamente atrás deles. Seu pai lhe deu um olhar calmo, então subiu os degraus, balançando a cabeça em sinal de comprimento gracioso pela linha de rostos que faziam cortesias e abaixavam seus olhos atrás deles.

Sorrindo rigidamente, Claudia pensou rápido. Evian era o homem da rainha. A bruxa deve ter mandado ele para olhar a noiva. Bem, estava tudo bem por ela. Esteve se preparando para isto por anos.

Na porta seu pai parou. “Sem Jared?” ele disse levemente.

“Eu espero que ele esteja bem?”

“Eu acho que ele está trabalhando em um processo muito delicado. Provavelmente ainda nem percebeu que você chegou.” Era verdade, mas soou como uma desculpa.

Incomodada com seu sorriso frio ela os liderou, as bordas de sua saia balançando dentro do salão.

Era um salão todo de madeira escura com um grande armário de mogno, cadeiras esculpidas, e uma mesa de cavalete. Ela estava aliviada ao ver uma jarra de cidra e um prato de biscoitos de mel entre lavanda e alecrim espalhados.

Lorde Evian aspirou aos perfumes doces. “Magnífico!” ele disse. “Mesmo a corte não poderia igualar a autenticidade.”

Provavelmente porque a maioria dos arranjos da corte era gerada por computador, ela pensou docemente e disse, “Na Diretoria, meu senhor, nos orgulhamos de que tudo está na Era. A casa é verdadeiramente velha. Foi completamente restaurada depois dos Anos de Fúria.”

Seu pai estava silencioso. Ele sentou na cadeira trabalhada na ponta da mesa e observou solenemente enquanto Ralph colocava cidra para dentro de taças de prata. A mão do velho tremia enquanto ele levantava a travessa. “Bem-vindo à casa, senhor.”

“Bom ver você também, Ralph. Um pouco mais grisalho nas sobrancelhas, eu acho, e sua peruca seria melhor preenchida com um pouco mais de pó.”

Ralph faz uma reverência. “Eu darei um jeito nisso, Diretor, imediatamente.”

Os olhos do Diretor observaram a sala. Ela sabia que ele não deixaria escapar a menor pane em um painel de acrílico no canto da janela, ou das pré-fabricadas teias de aranha no teto de gesso.

Então ela disse rapidamente “Como está Sua Graciosa Majestade, meu senhor?”

“A rainha está com a saúde perfeita.” Evian falou com a boca cheia de bolo. “Ela está bastante ocupada com os preparativos do casamento. Será um grande espetáculo.”

Claudia franziu “Mas certamente...”

Ele acenou sua mão roliça. “Claro que seu pai não teve tempo para lhe contar sobre a mudança de planos.”

Algo dentro dela ficou gelado. “Mudança de planos?”

“Nada terrível criança, nada para se preocupar. Uma alteração de datas, isto é tudo.

Por causa do retorno do Conde da Academia.”

Ela clareou seu rosto e tentou não demonstrar nenhum sinal de ansiedade, mas seus lábios devem ter ficado mais apertados e as juntas de seus dedos ficaram brancas, porque seu pai ficou parado suavemente e disse, “Mostre o quarto para Sua Senhoria, Ralph.”

O velho servo curvou-se e entrou pela porta, que rangeu abrindo. Evian ficou de pé, uma cascata de migalhas caiu de seu terno. Assim que eles chegaram à porta, sumirão em uma questão de minutos.

Claudia xingou silenciosa. Algo mais para ser visto.

Eles escutaram os passos pesados subindo as escadas rangentes, os murmúrios respeitosos de Ralph, e o bumbo do coração do homem gordo apreciando as pinturas, as urnas da china, as luminárias, enquanto subia as escadas. Quando sua voz finalmente padeceu a certa distância da casa Claudia olhou para seu pai. Então ela disse: “Você adiantou o casamento.”

Ele levantou uma sobrancelha. “Ano que vem, este ano, qual é a diferença? Você sabia que isso viria.”

“Eu não estou preparada. “

“Você tem estado preparada por um longo tempo.”

Ele deu um passo pra frente dela, o cubo de prata na corrente de seu relógio refletindo a luz. Ela deu um passo para trás. Se ele iria deixar de usar o tom rígido da Era, iria ser insuportável; a ameaça da sua personalidade não revelada a deixou fria. Mas ele manteve uma suave cortesia “Me deixe explicar. No último mês uma mensagem veio dos Sapienti. Eles tiveram o suficiente do seu noivo. Eles pediram... Para ele deixar a Academia.”

Ela franziu. “Por quê?”

“Os vícios usuais. Bebida, drogas, violência, deixar meninas servas grávidas.

Pecados de jovens estúpidos por séculos. Ele não tem interesse por educação. Por que ele deveria? Ele é o Conde de Steen e quando ele fizer dezoito se tornará rei.”

Ele andou para a parede de painéis e olhou para uma pintura lá. Um garoto sardento e bochechudo olhando para baixo até eles. Estava vestido com um terno marrom com babados, e encostado em uma árvore.

“Caspar, Conde de Steen. Príncipe herdeiro do reino. Títulos excelentes. Seu rosto não mudou, não é? Ele era simplesmente imprudente então. Agora ele é fútil, brutal, e acha que está além do controle.” Ele olhou para ela. “Um desafio, seu futuro marido.”

Ela mexeu os ombros, fazendo o vestido zunir. “Eu posso lidar com ele.”

“É claro que pode. Tenho certeza disto.” Ele veio até ela e ficou parado à sua frente, seus olhos cinza a avaliando. Ela olhou direto de volta.

“Eu lhe criei para este casamento, Claudia. Dei-lhe gosto, inteligência, crueldade.

Sua educação foi mais rigorosa do que a de qualquer um no reino. Línguas, músicas, esgrima, aulas de cavalgada, todos os talentos que você insinua possuir eu lhe nutri. A despesa era nada para o Diretor de Incarceron. Você é uma herdeira de grandes propriedades. Eu lhe tratei como uma rainha e uma rainha você será. Em todo casamento, um lidera, e um segue. Entretanto isto é simplesmente um arranjo dinástico, será assim aqui.”

Ela olhou para a pintura. “Eu consigo lidar com Caspar. Mas sua mãe...”

“Deixe a rainha comigo. Ela e eu nos entendemos um a o outro.” Ele pegou sua mão. Segurando o seu dedo do anel levemente entre dois dele; tensa, ela segurou a si mesma parada.

“Será fácil,” Ele respirou.

Na quietude da sala morna um pombo-torcaz piou fora da janela.

Cuidadosamente, ela tirou sua mão da dele e se levantou. “Então, quando?”

“Semana que vem.”

“Semana que vem!”

“A rainha já começou os preparativos. Em dois dias nós iremos partir para a corte.

Certifique-se de estar pronta.”

Claudia não disse nada. Ela se sentia vazia e aturdida.

John Arlex virou em direção à porta. “Você fez bem aqui. A Era está impecável, exceto por aquela janela. Troque-a.”

Sem se mover ela disse baixo. “Como foi seu tempo na Corte?”

“Tedioso.”

“E seu trabalho? Como está Incarceron?”

Por uma fração de segundos ele ficou parado. O coração dela pulsou. Então ele se virou, sua voz era fria e curiosa. “A prisão está em excelente ordem. Por que você pergunta?”

“Sem motivo.” Ela tentou sorrir, querendo saber como ele monitorava a prisão, onde ela era, porque seus espiões disseram que ele nunca havia deixado à corte. Mas o mistério de Incarceron era a sua última preocupação no momento.

“Ah sim, eu quase esqueci.” Ele colocou uma bolsa de couro na mesa e a abriu. “Eu trouxe um presente da sua futura Sogra.” Ele puxou aquilo e ajeitou.

Ambos olharam.

Uma caixa de madeira de sândalo, amarrada com uma fita.

Relutante, Claudia foi em direção à pequena caixa, mas ele disse, “Espere,” tirando um pequeno bastão scanner, e movendo-o por cima da caixa. Imagens brilharam pela sua haste. “Inofensivo.”

Ele guardou o bastão. “Abra.”

Ela levantou a tampa. Dentro, em um quadro de ouro e perolas, tinha uma miniatura esmaltada de um cisne negro em um lago, emblema de sua casa. Ela pegou aquilo e sorriu, satisfeita apesar de si mesma, com o delicado azul da água, e com o longo pescoço do pássaro. “É bonito.”

” Sim, mas observe.”

O cisne estava movendo. Ele parecia deslizar tranquilamente primeiro; então ele se empinou, e abriu suas grandes asas, e ela viu como uma flecha veio lentamente das árvores e penetrou seu peito. Ele abriu seu bico dourado e cantou uma música terrível e estranha. Então ele mergulhou debaixo d’água e desapareceu.

O sorriso de seu pai estava ácido. “Que charmoso,” ele disse.

A experiência será algo arrojado e podem haver perigos que não previmos. Mas Incarceron será um sistema de grande complexidade e inteligência. Não poderia haver guardião mais benévolo ou mais misericordioso por seus reclusos.

—Relatório do Projeto; Martor Sapiens

Era um longo caminho de volta ao eixo, e os túneis eram baixos. A Maestra andava com sua cabeça abaixada; estava silenciosa, seus braços em volta de si. Keiro havia colocado Grande Arko para vigiá-la, Finn ficava bem no final atrás dos feridos.

Nessa parte da ala, Incarceron era escura e geralmente desabitada. Aqui, a Prisão raramente se aborrecia e se movia, jogando luzes infrequentes para lá e enviando poucos Besouros. Diferente da pedra do caminho anterior, esse solo era feito de uma malha metálica que dava uma leveza sob os pés; enquanto Finn caminhava, ele viu o brilho dos olhos de um rato onde rastejou, o pó caindo sobre seus rastros metálicos.

Ele estava rígido e ferido, e como sempre depois de uma emboscada, irritado. Para todos os outros a tensão presa havia explodido, mesmo os feridos vibravam conforme tropeçavam, e as risadas barulhentas deles tiveram uma energia de alívio. Ele mexeu sua cabeça e olhou para trás.

Às costas deles, o porão estava ventoso e com ecos. Incarceron estaria escutando.

Ele não podia conversar e não queria rir. Um olhar desolado aos poucos comentários brincalhões alertou os outros a pararem; ele viu Liz acotovelar Amoz e levantar as sobrancelhas. Finn não se importava. Estava com uma raiva contida em si mesmo, misturada com medo, fúria e orgulho fumegante, porque nenhum outro tinha coragem para ser preso assim, para ficar ali deitado naquele enorme silêncio e esperar a morte vir rolando sobre ele.

Em sua mente, ele sentia as enormes rodas novamente, muito mais alto que a sua cabeça.

E ele estava irritado com a Maestra.

O Comitatus não tomava prisioneiros. Era uma das regras. Keiro era uma coisa, mas quando eles voltassem para o Covil ele teria que explicá-la para Jormanric, e isso o deixava gelado. Mas a mulher sabia algo sobre a tatuagem no seu pulso, e ele tinha que descobrir o que era aquilo. Ele poderia nunca ter outra chance.

Caminhando, ele pensou sobre aquele flash de visão. Como sempre, tinha doído, como se a memória —se fosse uma—tivesse acendido e lutado até algum lugar profundo, dolorido, um lugar perdido no passado. E era difícil manter nítido; ele já tinha esquecido a maior parte, exceto o bolo sobre o prato, decorado com bolas prateadas. Estúpido e inútil.

Dizendo a ele nada sobre quem era, ou de onde tinha vindo.

O fosso tinha uma escada do lado; os batedores invadiram primeiro, então os Prisioneiros e o bando de guerra, os mais fracos em melhores condições e os feridos. O último de todos, Finn desceu, observando como os lados lisos estavam se abrindo aqui e ali onde as samambaias pretas e murchas rebentaram. Aquilo teria de ser limpo, caso contrário a Prisão poderia senti-los, selar este canal e reabsorver o túnel inteiro, como ocorreu no ano passado, quando eles tinham voltado de uma incursão para encontrar o velho Covil destruído, e somente uma larga passagem branca, com imagens abstratas em vermelho e dourado.

“Incarceron está dando de ombros,” Gildas tinha dito, com raiva.

Esta foi a primeira vez que ele tinha ouvido a Prisão rir.

Estremeceu, se lembrando disso agora, uma risada fria e divertida que ecoou nos corredores. Isso tinha calado Jormanric em plena fúria, tinha feito os pelos da própria pele dele eriçarem de terror.

A Prisão estava viva. Ela era cruel e indiferente, e ele estava dentro dela.

Ele saltou o último degrau para dentro do Covil. A grande câmara era tão barulhenta e desorganizada como sempre, o calor de seu fogo ardente avassalador.

Enquanto as pessoas se aglomeravam ansiosamente ao redor da pilhagem, puxando os sacos de grãos abertos, rebocando a comida, ele atravessou a multidão e foi direto para a pequena cela que ele dividia com Keiro. Ninguém o impediu.

Lá dentro, ele trancou a frágil porta e sentou-se na cama. O quarto era frio e cheirava a roupa não lavada, mas estava silencioso. Devagar, ele deixou-se deitar.

Ele inspirou, e inalou o terror. Veio para ele como uma onda, aterrador; sabia que o martelar do coração o mataria, sentia o suor gelado nas suas costas e acima dos lábios. Até agora tinha mantido isso longe, mas essas trementes batidas do coração eram as vibrações de uma roda gigante; enquanto ele comprimia a palma da mão em seus olhos fechados ele via as bordas metalizadas agigantar-se acima dele, posicionada em uma gritante fonte de faíscas.

Ele poderia ter sido morto. Ou, pior ainda, esmagado e mutilado. Porque ele teve que dizer que iria fazer? Porque ele tinha que conviver com sua estúpida, reputação impulsiva?

“Finn?”

Ele abriu os olhos.

Depois de um momento, ele rolou.

Keiro estava de costas para a porta.

“Há quanto tempo você está aí?” A voz de Finn saiu quebrada, e ele clareou rapidamente a garganta.

“Tempo o bastante” Seu irmão de juramento sentou no outro lado da cama.

“Cansado?”

“É uma palavra para isso.”

Keiro assentiu. Então disse, “Sempre há um preço a pagar. Qualquer Prisioneiro sabe disso.” Ele olhou para a porta. “Nenhum deles poderiam ter feito o que você fez.”

“Eu não sou um Prisioneiro.”

“Você é, agora.”

Finn sentou-se e alisou o cabelo sujo. “Você poderia ter feito.”

“Bem, sim, eu poderia.” Keiro sorriu. “Mas então, sou extraordinário, Finn, um artista do roubo.

Devastadoramente bonito, absolutamente cruel, totalmente destemido.”

Ele inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse esperando por um bufo desdenhoso; quando isso não veio sorriu e tirou o casaco e a jaqueta escura. Libertou o peito e deixou cair à espada e a espingarda, então procurou entre a pilha de roupas e tirou uma camisa vermelha chamativa com detalhes em preto.

Finn disse, “Próxima vez é você, então.”

“Você sabe de alguma vez que eu não peguei meu turno irmão? O Comitatus tem de ter nossa reputação martelada dentro das cabeças ocas deles. Keiro e Finn. Os Destemidos, Os Melhores.”

Ele derramou água da jarra e enxaguou. Finn olhava cansado.

Keiro tinha a pele suave, músculos flexíveis. Entre todos esses deformados infernais e pessoas famintas, de meio-homens e mendigos pestilentos, seu irmão de juramento era perfeito. E ele tomava muito cuidado para continuar desse jeito. Agora, colocando sua camisa vermelha, Keiro colocou a joia que tinha roubado em seu cabelo e olhou para ele mesmo no fragmento de espelho. Sem se virar ele disse, “Jormanic quer você.”

Finn estava esperando por isto; mesmo assim aquilo o deu arrepios. “Agora?”

“Agora mesmo. É melhor você se limpar.”

Ele não queria. Mas depois de um momento ele derramou água fresca e esfregou a graxa e o óleo nos seus braços.

Keiro disse, “Eu vou te auxiliar com a mulher. Com uma condição.”

Finn deu uma pausa “Como?”

“Que você irá me contar sobre o que isto realmente é.”

“Não há nada...”

Keiro jogou a toalha esfarrapada nele. “Finn Vidente das Estrelas não vende mulheres nem crianças. Amoz sim, ou qualquer um dos casos difíceis, você não.”

Finn olhou para cima; Os olhos azuis de Keiro o olhavam diretamente.

“Talvez eu esteja ficando como o resto de vocês.” Ele secou seu rosto no farrapo arenoso, então, não se incomodando em se trocar, foi em direção à porta. Na metade do caminho a voz de Keiro o parou.

“Você acha que ela sabe algo sobre você.”

Pesarosamente, Finn se virou. “Às vezes eu queria ter escolhido alguém menos afiado para cuidar das minhas costas. Certo. Sim. Tem uma coisa que ela disse... que talvez... que eu preciso perguntar para ela sobre. Eu preciso dela viva.”

Keiro moveu-se passando ele na porta. “Bem, não soe muito sagaz ou ele irá matar ela na sua frente. Deixe-me fazer a maioria da argumentação.” Ele checou para ouvintes do lado de fora e olhou para trás por cima de seus ombros. “Faça cara de bravo, e fique calado, irmão. É nisso que você é bom.”

***

A porta para a cela de Jormanric tinha os costumeiros dois guarda-costas na frente, mas um largo sorriso de Keiro fez o mais próximo grunhir e se afastar. Após seu irmão de juramento entrar, Finn quase se asfixiou com um familiar doce e forte cheiro de ket, sua fumaça pesada no ar, que ficou presa na garganta dele; ele engoliu, tentando não respirar profundamente.

Keiro acotovelou o braço do irmão de juramento, na frente do lado direito, e Finn arrastou após o chamativo casaco entre a multidão desmazelada.

Muitos deles eram meio-homens. Alguns tinham garras metálicas nas mãos, ou tecido plástico em remendos onde a pele tinha se perdido. Um tinha um olho falso que olhava exatamente como um olho normal, exceto que ele era cego, a íris de uma safira.

Eles eram o mais baixo dos baixos, escravizados e desprezados pelos puros; homens que a Prisão tinha reparado, algumas vezes cruelmente, às vezes só por capricho. Um homem anão, corcunda e cabelo crespo, não saiu do caminho rápido o bastante. Keiro o derrubou com um golpe.

Tipo de droga.

Keiro tinha um ódio peculiar pelos meio-homens. Ele nunca falava com eles, e mal reconhecia que eles existiam, de preferência os tratava como cães que infestavam o Covil.

Como se, Finn pensava, a própria perfeição dele fosse um insulto pelas suas existências.

A multidão se dispersou e eles ficaram entre um bando de guerra. O Comitatus de Jormanric era um exército vacilante e irresponsável, destemidos somente em suas próprias imaginações.

Grande e Pequeno Arko; Amoz e seu gêmeo, Zoma; Lis a menina frágil, quem ficava furiosa nas batalhas; e sua irmã de juramento, Ramill, quem nunca disse uma palavra. Uma multidão de velhos presos e ousados garotos bocas-grandes, assassinos astutos, e algumas mulheres peritas em venenos. E cercados pela sua guarda obrigatoriamente musculosa, o próprio homem.

Jormanric, como sempre, estava mastigando ket. Seus poucos dentes trabalhavam automaticamente, vermelhos com o suco doce que manchava seus lábios e barba. Atrás dele seu guarda mastigava em harmonia.

Ele devia ser totalmente imune à droga, Finn pensou. Mesmo que não pudesse ficar sem ela.

“Keiro!” A voz do Senhor da Ala era lenta. “E Finn, o Vidente das Estrelas.”

A última palavra tinha o peso da ironia. Finn fez uma careta. Ele puxou Amoz para trás e ficou ombro a ombro com seu irmão de juramento.

Jormanric sentou-se esparramado na cadeira. Ele era enorme, e o trono esculpido tinha sido feito especialmente para ele; os braços foram entalhados com batidas calculadas e pintados com ket.

Um escravo, mais conhecido como o cão-escravo estava acorrentado a ele, ele os usava para saborear seu alimento envenenado, e nenhum deles permaneceram por muito tempo. Este era novo, tirado da última incursão, era um amontoado de trapos e cabelos emaranhados. O Senhor da Ala usava uma cota de guerra metálica e seu cabelo era longo e oleoso, entrançados e amarrados com encanto. Sete pesados anéis de caveiras rodeavam seus dedos grossos.

Ele olhou o Comitatus com uma olhar penetrante disfarçado.

“Uma boa incursão, pessoal. Comida e metal cru. O bastante para que a parte de cada um seja abundante.”

Um zumbido da sala. Mas todos significava apenas o Comitatus; os parasitas viveriam dos restos.

“E ainda não tão rentável quanto poderia ter sido. Algum idiota irritou a Prisão.”

Ele cuspiu o ket e pegou outro pedaço na caixa marfim em seu cotovelo, dobrando-o cuidadosamente em sua bochecha. “Dois homens foram mortos.” Ele mastigou lentamente, com os olhos fixos em Finn. “E um refém foi feito.”

Finn abriu a boca, mas Keiro pisou firmemente em seu pé. Não era uma boa ideia interromper Jormanric. Ele falava lentamente, com pausas irritantes, mas sua aparência de estupidez era enganadora.

Havia um pedaço fino de saliva vermelha pendurada na barba de Jormanric. Ele disse, “Explique-se, Finn.”

Finn engoliu, mas Keiro respondeu, sua voz fria. “Senhor da Ala, meu irmão de juramento correu grande risco voltando lá. Os Civics poderiam facilmente não ter parado ou mesmo retrocedido.

Por sua causa nós fomos alimentados o bastante por dias. A mulher era um capricho do momento, e uma pequena recompensa. Mas, é claro que o Comitatus é seu, a decisão é sua. Ela não significa nada, de uma maneira ou de outra.”

O é claro era um brilhante sarcasmo. Jormanric não parava de mascar; Finn não poderia dizer se as palavras afiadas da ameaça velada tinham sequer sido registradas.

Então ele viu a Maestra. Ela estava esperando ao lado, vigiada, correntes ligadas às suas mãos.

Havia sujeira em seus rosto, e seu cabelo estava desfeito. Ela devia estar aterrorizada, mas ela permaneceu firme, seu olhar sobre Keiro e então, frigidamente, nele.

Ele não poderia receber aquele desprezo. Ele abaixou o olhar, mas Keiro cutucou-o uma vez e ele forçou-se a ficar ereto, encarando-os todos. Parecer fraco, parecer duvidoso aqui, era estar acabado. Ele poderia nunca confiar em nenhum deles, exceto Keiro. E por isso, somente por causa do juramento.

Esperando arrogantemente ele voltou-se para o brilho de Jormanric.

“Quanto tempo você esteve conosco?” O Senhor da Ala demandou.

“Três anos.”

“Não é mais um inocente, então. O vazio deixou os seus olhos. Já não pula mais com os gritos. Já não chora mais quando as luzes se apagam.”

O Comitatus deu um riso contido. Alguém disse, “Ele não matou ninguém ainda.”

“Já está na hora de fazer,” Amoz murmurou.

Jormanric assentiu, o metal em seus dedos ressoando. “Talvez, seja isso.” Seus olhos assistiram Finn, e Finn olhou diretamente para trás, porque essa era uma máscara turva que o Senhor da Ala usava, um inflado, lento disfarce sobre a sua crueldade astuta. Ele sabia o que vinha agora; quando Jormanric disse, quase sonolento, “Você poderia matar essa mulher,” ele nem mesmo piscou.

“Poderia, Senhor. Mas eu preferiria ter um lucro. Ouvi dizer que eles a chamam de Maestra.”

Jormanric levantou uma sobrancelha. “Resgate?”

“Estou certo de que eles pagariam. Aqueles veículos estavam carregados de mercadorias.” Ele pausou, não necessitando que Keiro dissesse para ele não falar muito.

Por um momento o temor estremeceu as costas, mas lutou para isso sumir. Qualquer pagamento de resgate significaria que Jormanric poderia levar uma parte. Que certamente seria manejado a ele. Sua ganância era lendária.

A cela era escura, suas velas pingavam. Jormanric derramou um copo de vinho e virou uma porção para o cão, e assistiu-o lamber. Não até que o escravo sentou-se, ileso, e tomou-o mesmo. Então levantou as mãos e virou-a para mostrar os sete anéis. “Você vê isso, garoto? Esses anéis contêm vida. Vidas que eu roubei. Cada um deles foi uma vez inimigos, mortos lentamente, torturados até agonizar. Cada um deles está preso aqui em um laço ao redor dos meus dedos. Suas respirações, energias, forças, tiradas deles e guardadas em mim, até eu precisar deles. Nove vidas que um homem pode viver, Finn, movendo de um para o outro, afastando a morte. Meu pai fez isso, eu farei isso. Mas por enquanto eu só tenho sete, ainda.”

O Comitatus olhou uns para os outros. Atrás as mulheres sussurravam; alguns se esforçavam para ver os anéis por cima das cabeças da multidão. As caveiras prateadas brilhavam no ar carregado de drogas. Uma piscada para Finn, tortuosa. Ele mordeu os lábios provando o ket; era salgada como sangue, fazia borrões flutuarem no canto dos seus olhos. O suor ensopou suas costas. A câmara era insuportavelmente quente; lá no alto nos abrigos ratos espreitavam, e um morcego esvoaçou de volta para a escuridão.

Despercebido, num canto, três crianças estavam escavando as pilhas de grãos.

Jormanric soltou-se. Era um homem enorme, uma cabeça maior do que ele próprio.

Encarou Finn. “Um homem leal ofereceria a vida dessa mulher para seu líder.”

Silêncio.

Não havia nenhuma saída. Finn sabia que teria que fazer isso. Ele olhou para a Maestra. Ela olhou de volta, pálida, seu rosto magro.

Mas a voz relaxada de Keiro quebrou a tensão. “A vida de uma mulher, Senhor?

Uma criatura temperamental e tola, uma coisa frágil e indefesa?” Ela não parecia indefesa.

Ela parecia furiosa, e Finn a amaldiçoou por isso. Por que ela não poderia chorar e implorar, e lastimar! Como se ela tivesse percebido, ela abaixou a cabeça, mas cada centímetro dela era de puro orgulho.

Keiro acenou graciosamente com uma mão. “Não força suficiente para um homem desejar, mas se você quiser, é sua.”

Isso foi muito perigoso. Finn ficou estarrecido. Ninguém provocava Jormanric.

Ninguém o fazia parecer ridículo. Eles não estão tão longe com o ket para não sentir aquele golpe.

Se você quiser isso. Condição de quem está muito desesperado. Alguns do bando de Guerra entenderam. Zoma e Amoz trocaram sorrisos dissimulados.

Jormanric olhou com raiva. Ele fitou a mulher e ela encarou de volta. Então, cuspiu a erva vermelha e pegou sua espada.

“Eu não sou tão exigente quanto garotos vaidosos,” ele rosnou.

Finn deu um passo à frente. Por um momento ele só queria arrastar a mulher para longe, mas Keiro tinha seu braço em um agarre de ferro e Jormanric se voltou para a Maestra; sua espada estava no pescoço dela, a ponta afiada alvejou a delicada pele abaixo do queixo, forçando a cabeça a elevar-se. Estava acabado. Não importa o que ela sabia, Finn pensou amargamente, ele nunca descobriria agora.

Uma porta foi golpeada atrás.

Uma voz ácida estourou, “A vida dela não tem valor, homem. Dê ela ao garoto. De qualquer maneira, ele merece a recompensa.”

A multidão se afastou repentinamente. Um pequeno homem atravessou, suas roupas as verde-escuras dos Sapienti. Ele era velho, mas estava ereto, e mesmo o Comitatus deslocou-se de lado para ele. Ele veio e ficou ao lado de Finn; Jormanric encarou-o pesadamente.

"Gildas. O que isso te importa?”

“Faça como eu digo.” A voz do velho era áspera; ele falou como se fosse para uma criança. “Você vai conseguir suas duas últimas vidas em pouco tempo. Mas ela” —ele estendeu seu dedo polegar para a mulher— “não será uma delas.”

Qualquer outra pessoa estaria morta. Qualquer outra pessoa teria sido transportada para fora e pendurado para baixo no eixo pelos calcanhares, enquanto os ratos comiam suas entranhas. Mas depois de um segundo Jormanric baixou a espada. “Você me promete.”

“Eu te prometo.”

“As promessas dos sábios não devem ser quebradas.” O velho disse, “E não vão ser.”

Jormanric olhou para ele. Então embainha a espada. “Pegue-a.”

A mulher arfou.

Gildas a fitou irritado. Quando ela não se moveu, agarrou seu braço e puxou para perto. “Tire-a daqui,” ele murmurou.

Finn hesitou, mas Keiro se moveu vez, puxando a mulher às pressas através da multidão.

O aperto do velho, rápido como uma garra, capturou o braço de Finn. “Houve uma visão?”

“Nada importante.”

“Eu julgo isso.” Gildas olhou para Keiro, então para trás. Seus pequenos olhos negros estavam alerta; eles se moviam com uma inteligência impaciente. “Eu quero todos os detalhes, garoto.”

Ele olhou para a marca de passado no pulso de Finn. Em seguida, ele soltou.

Instantaneamente Finn empurrou através da multidão, para fora.

A mulher estava esperando do lado de fora, no Covil, ignorando Keiro. Ela se voltou e seguiu na frente de Finn de volta para a cela minúscula e ele fez um sinal para o guarda ir embora, com um aceno de cabeça.

A Maestra voltou-se. “Que espécie de buraco de Escória é esse?” ela sibilou.

“Escute. Você está viva...”

“Não graças a você.” Ela alterou-se; estava mais alterada que ele, e sua raiva era venenosa. “O

que quer que você queira de mim, pode esquecer. Vocês assassinos podem apodrecer no inferno.”

Atrás dele, Keiro inclinou-se no batente da porta, sorrindo. “Algumas pessoas não tem absolutamente nenhuma gratidão,” ele disse.

Finalmente, quando tudo estava pronto, Manor convocou o conselho dos Sapienti e pediu por voluntários. Eles deviam estar preparados para deixar família e filhos para sempre. Para dar suas costas à grama verde, as árvores, a luz do sol. Nunca mais ver as estrelas.

Continuar: parte 2 de 4