Incarceron

Catherine Fisher · Capítulo 2 de 4 · parte 1/4

Páginas do PDF

Incarceron

Cuidado com a neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Cuidado com o homem

Que você acha que conhece.

—Canções de Sapphique

 

A voz de Finn. Enquanto ela puxava as luvas e flexionava o florete, sua voz sussurrou de novo dentro da máscara.

Você tem de me ajudar a Escapar...

“En garde, por favor, Claudia.” O espadachim era um pequeno homem grisalho que suava abundantemente. Sua espada cruzou com a dela; ele deu sinais com pequenos e precisos movimentos de um esgrimista habilidoso. Automaticamente ela respondeu, praticando ataques, a defesa seis, defesa sete, defesa oito—como se ela fizesse isto desde que ela tinha seis anos.

Tinha algo de familiar sobre a voz do garoto. Dentro da escuridão quente da máscara ela mordeu seus lábios, atacou, tomou guarda, revidou, acertando a jaqueta acolchoada do maestro com um ruído surdo.

O sotaque, as vogais levemente lentas. Era como eles falavam na corte.

“Finta de ataque direto, descansar, por favor.”

Ela obedeceu, com calor, a luva já estava amolecida com suor, o florete chicoteando, os pequenos cliques do reconfortante exercício que lhe era familiar, o controle da espada forçando sua mente a rapidez.

Você tem de me ajudar a Escapar.

Medo. Medo no sussurro, de ser ouvido, de dizer o que ele disse. E a palavra Escapar como uma coisa sagrada, proibida, cheio de medo.

“Quarto contra ataque, por favor, Claudia. E mantenha sua mão alta.”

Ela desviou distraidamente, as lâminas dos floretes deslizando além de seu corpo.

Atrás do maestro Lorde Evian saiu da porta principal dentro do pátio e parou em cima dos degraus, pegando rapé. Ele a observou, elegantemente equilibrada.

Claudia franziu a sobrancelha.

Ela tinha tanta coisa para pensar. A aula de esgrima era sua própria escapatória. Na casa era um caos; Suas roupas sendo empacotadas as últimas medidas para o vestido de casamento, os livros que ela recusava deixar para trás, os mascotes que ela insistiu em levar com ela. E agora isto.

Uma coisa—Jared terá que carregar a chave. Ela não estará segura na sua bagagem.

Eles estavam lutando agora. Ela deixou todos os pensamentos irem, concentrando nos golpes, os desvios, a flexão do florete enquanto ela golpeia, de novo, e de novo.

Até ele finalmente dar um passo para trás. “Muito bem, minha senhora. Seu ponto de controle continua excelente.”

Lentamente ela tirou sua máscara e apertou sua mão. De perto, ele parecia mais velho, e um pouco triste.

“Eu lamentarei perder tal pupila.”

A mão dela firmou na dele. “Perder?”

Ele deu um passo para trás. “Eu... Parece... Depois do casamento...”

Claudia conteve sua raiva. Ela soltou sua mão e se levantou. “Depois do meu casamento eu ainda vou requerer os seus serviços. Por favor, desconsidere qualquer coisa que meu pai disse sobre isto. Você irá viajar conosco para a Corte.”

Ele sorriu, e se curvou. Sua dúvida aparecia; enquanto ela se afastava e pegava um copo de água com Alys, ela sentiu o calor da humilhação queimar seu rosto.

Eles estavam tentando isolá-la. Ela tinha esperado isto; Jared a tinha avisado disto.

Na corte da Rainha Sai eles a queriam sozinha sem ninguém para confiar, ninguém para conspirar junto. Mas ela não estava tendo nada daquilo.

Lorde Evian tinha gingado. “Bastante admirável, minha querida.” Seus pequenos olhos aproveitavam a imagem dela na bermuda de esgrima.

“Não me ampare,” ela repreendeu, acenando para Alys sair, ela pegou um copo e a jarra, procurou por um banco e ficou parada no limite da grama verde. Depois de um momento Evian veio atrás dela. Ela se virou para ele. “Eu preciso falar com você.”

“A casa nos vê,” ele disse discretamente. “Qualquer um pode ver.”

“Então balance o seu lenço e ria. Ou qualquer coisa que um espião faz.”

Seus dedos fecharam a caixa de rapé. “Você está brava, Lady Claudia. Mas não comigo, eu acho.”

Isto era verdade. Mas ainda assim ela olhou para ele. “O que você quer de mim?”

Ele sorriu serenamente para os patos no lago, os pequenos patos pretos com pressa.

“Até agora, nada. Obviamente nós não faremos nada até depois do casamento. Mas então, nós precisaremos de sua ajuda. Teremos de lidar com a Rainha primeiro—ela é a mais perigosa. E

então, quando você estiver em segurança como Rainha, seu marido encontrará algum tipo de acidente...”

Ela bebeu a água gelada. Invertido no copo ela viu a torre de Jared refletida, o seu azul atrás dela, as pequenas janelas perfeitamente em Protocolo.

“Como sei que isso não é uma armadilha?”

Ele sorriu. “A Rainha suspeita de você? Ela não tem motivo.”

Claudia encolheu os ombros. Ela só tinha encontrado a Rainha nos festivais. A primeira vez tinha sido no seu noivado, e tinha sido anos atrás. Ela se lembrava de uma mulher loira e magra em um vestido branco, sentada em um trono que parecia ter centenas de degraus até ele, e ela teve de subir cada um deles, concentrando, carregando uma cesta de flores que era quase tão grande quanto ela.

As mãos da Rainha, as unhas com um vermelho brilhante.

A palma fria na sua testa.

As palavras. “Quão encantadora, Diretor. Quão doce.”

“Você pode estar gravando isto,” ela disse. “Você pode estar me testando... Minha lealdade.”

Evian suspirou um pequeno som. “Eu lhe asseguro...”

“Assegure o quanto quiser, pode ser verdade.” Ela largou o copo e pegou a toalha que Aly tinha deixado, limpando seu rosto com sua maciez. Então ela se virou. “O que você sabe sobre a morte de Giles?”

Isto o assustou. Seus olhos pálidos se abriram ligeiramente. Mas ele estava acostumado com decepção; ele respondeu sem fazer nada. “Príncipe Giles? Ele caiu do cavalo.”

“Isto foi um acidente? Ou ele foi assassinado?”

Se ele estivesse gravando aquilo, ela sabia que estaria acabada agora.

Seus dedos entrelaçados juntos. “Realmente, minha cara...”

“Conte-me. Eu preciso saber. De todas as pessoas isto é o que mais me preocupa.

Giles era... Nós éramos noivos. Eu gostava dele.”

“Sim” Evian olhava para ela astutamente. “Eu vejo.” Ele parecia incerto, então, como se ele fizesse sua mente, ele disse, “Tem algo estranho sobre a morte.”

“Eu sabia! Eu disse a Jared—”

“O Sapiente sabe sobre isto?” Ele olhou para cima em alarme. “Sobre mim?”

“Eu confiaria em Jared com minha vida.”

“Estas são as pessoas mais perigosas.” Evian se virou, observando a casa. Um dos patos desviou em sua direção; ele deu um safanão e ele foi embora, grasnando.

“Nós nunca sabemos onde os ouvintes estão” ele disse calmamente, olhando depois disto. “Isto e o que Haraarna fez conosco, Claudia. Eles nos crivaram com medo. “

Por um momento ele parecia quase abalado; então ele esfregou uma dobra invisível no seu terno de seda e disse na sua voz mudada, “Príncipe Giles cavalgou naquela manhã sem nenhum dos seus atendentes de costume. Era uma bela manhã de primavera, ele estava bem, com boa saúde, um garoto risonho de quinze anos. Duas horas depois um mensageiro trovejou em um cavalo branco suado; ele saltou dele e correu para dentro do hall da corte, correu as escadas, e se atirou para os pés da Rainha. Eu estava lá, Claudia. Eu vi o rosto dela quando eles disseram a ela sobre o acidente. Ela e uma mulher pálida, como todos eles são, mas então ela estava branca. Se isto fosse uma encenação, seria de profissional. Eles trouxeram o garoto de volta em um carro fúnebre feito rapidamente de ramos, o casaco deles em cima de seu rosto. Adultos estavam chorando.”

Impaciente, Claudia disse, “Continue.”

“Eles o deitaram em cerimônia. Usando um excelente manto de ouro e uma túnica de seda branca bordadas com a águia coroada. Centenas em fila passaram por ele.

Mulheres soluçando. Crianças trouxeram flores. O quão bonito eles estava, eles disseram.

Quão jovem.”

Ele olhou para a casa.

“Mas havia uma coisa estranha. Um homem. Seu nome era Bartlett. Um homem que cuidava dele nos seus primeiros anos. Ele estava velho agora e fraco. Eles o permitiram ver o corpo de tarde, quando todas as pessoas tinham saído. Eles o trouxeram pelas pilastras e sombras da Câmara de Cerimônias e ele subiu os degraus com dificuldade e olhou para Giles. Eles pensaram que ele iria chorar e lamentar e gemer com dor. Pensaram que ele iria despedaçar suas roupas com agonia.

Mas ele não o fez.”

Evian olhou para cima e ela viu que seus olhos pequenos estavam perspicazes. “Ele riu, Claudia.

O velho riu.”

***

Depois de duas horas andando pela floresta metálica a neve começou.

Tropeçando em uma raiz de cobre e saindo de um sonho acordado, Finn percebeu que aquilo já vinha caindo por algum tempo; isto já tinha revestido as folhas com uma fina camada de gelo fino. Ele olhou para trás, sua respiração fumegante.

Gildas estava um pouco atrás, falando com a garota. Mas onde estava Keiro?

Finn virou rapidamente. A manhã toda ele tinha ficado incapaz de parar de pensar naquela voz, a voz do exterior, onde estavam as estrelas. Claudia. Como ela foi capaz de falar com ele? Ele sentiu a protuberância da chave dentro de sua camisa, sua estranheza o confortava. “Onde está Keiro?” ele disse.

Gildas parou. Ele colocou seu bastão no chão e inclinou-se nele. “Esta escoltando a frente. Você não o ouviu te contar?” De repente ele olhou para frente e olhou duro para Finn, seus olhos azuis claros como cristal em seu pequeno rosto enrugado. “Você está bem? Tem uma visão vindo a você, Finn?”

“Eu estou bem. Desculpe-me desapontá-lo.” Doente com a avidez na voz do Sapiente, Finn olhou para a garota. “Nós precisamos tirar esta corrente de você.”

Ela tinha enrolado aquilo em volta dela como um colar para parar de balançar. Ele podia ver a pele machucada dela debaixo do colarinho onde ela tinha preenchido com pana. Ela disse calmamente, “Eu consigo lidar. Mas onde nós estamos?”

Virando, ele olhou para os quilômetros de floresta. Um vento estava crescendo, as folhas metálicas se emaranhando e rangendo. Bem abaixo, a madeira estava perdida debaixo das nuvens de neve, e lá no alto da prisão estava uma opressão distante, suas luzes sob a nevoa e fracas.

“Sapphique veio deste caminho.” Gildas soou tenso com agitação. “Nessa floresta ele derrotou suas primeiras dúvidas, o desespero negro que o disse que não havia nenhum caminho. Aqui ele começou a escalar para fora.”

“Mas o caminho leva para baixo,” Attia disse tranquilamente.

Finn olhou para ela. Debaixo da sujeira e do cabelo cortado seu rosto estava iluminado com uma estranha alegria. “Você já esteve aqui antes?” ele perguntou.

“Não. Eu era de um pequeno grupo Civicry lá atrás. Nós nunca deixamos a Ala.

Isto é tão... Maravilhoso.”

A palavra o fez pensar na Maestra, e o arrepio de culpa o atravessando, mas Gildas o empurrou e continuou caminhado. “Isto parece levar para um declive, mas se a teoria de que Incarceron é subterrânea for verdadeira, nós devemos subir eventualmente. Talvez depois das árvores.”

Consternado, Finn olhou para as léguas de floresta. Como podia Incarceron ser tão vasta? Ele nunca tinha imaginado que isto seria assim. Então a garota disse “Aquilo é fumaça?”

Eles seguiram o dedo apontado dela. Muito longe, na nevoa distante, uma fina coluna subia e se dissipavam. Isto parece fumaça de algum fogo, ele pensou.

“Finn! Me dê uma mão!”

Eles viraram. Keiro estava arrastando alguma coisa da moita de cobre e aço; enquanto eles corriam até ele Finn viu um pequeno carneiro, uma de suas pernas grosseiramente reparada, os circuitos expostos.

“Vocês ainda são ladrões então,” Gildas disse acidamente.

“Você sabe a regra do Comitatus.” Keiro soou alegre. “Tudo pertence à Prisão, e a Prisão é nossa Inimiga.”

Ele já tinha cortado a garganta dele. Agora olhava em volta. “Nós podemos abrir ele aqui. Bem, ela pode. Ser útil.”

Nenhum deles se moveu. Gildas disse “Isto é estúpido. Nós não temos ideia de quais prisioneiros estão aqui. Ou a força deles.”

“Nós temos de comer.” Keiro agora estava bravo, seu rosto obscurecido. Ele jogou o carneiro no chão. “Mas se você não quer isto, ótimo!”

Havia um silencio estranho. Então Attia disse simplesmente, “Finn?”

Ele percebeu que ela iria fazer aquilo se ele pedisse para ela. Ele não queria ter aquele poder.

Mas Keiro estava com um olhar furioso, então ele disse “Tudo bem. Eu vou te ajudar.”

Lado a lado eles ajoelharam e cortaram o carneiro. Ela pegou emprestado a faca de Gildas e trabalhou eficientemente; ele percebeu que ela tinha feito muito isso antes, e quando ele ficou desajeitado, ela o empurrou para o lado e dissecou a carne crua. Eles pegaram apenas um pouco; eles não tinham nenhuma forma de carregar mais ou alguma forma de cozinhar depois a carne, ainda. Apenas metade da besta era orgânica; o resto era uma miscelânea de metal, ingenuamente colocada juntas. Gildas investigou os restos com seu bastão. “A prisão alimenta estas bestas um pouco pior estes dias.”

Ele soou um pouco sério. Keiro disse, “O que você quer dizer, velho?”

“O que eu disse. Eu consigo lembrar quando as criaturas eram todas de carne.

Então circuitos começaram a aparecer, pequenas coisas, fios em vez de veias, de cartilagem. O

Sapiente sempre estudou e dissecou qualquer tecido que ele pudesse encontrar. Uma vez eu ofereci recompensas por carcaças trazidas a mim, embora a Prisão sempre foi muito rápida.”

Finn balançou a cabeça. Eles todos sabia que os restos de qualquer criatura morta desapareciam durante a noite, que Incarceron enviava seus Besouros instantaneamente e coletava a matéria prima para reciclagem. Nada nunca é enterrado aqui, nada queimava.

Mesmo aqueles do Comitatus que tinham sido mortos eram deixados, enrolados nas suas possessões preferidas, decorados com flores, em um lugar no abismo. Pela manhã eles já tinham sumido.

Para a surpresa deles Attia falou. “Meu povo sabia disto. Por um longo tempo agora os cordeiros tem nascido desse jeito, e os cachorros. Ano passado, no nosso grupo, uma criança nasceu. Seu pé esquerdo era feito de metal.”

“O que aconteceu com ele?” Keiro perguntou calmamente.

“A criança?” Ela respondeu. “Eles a mataram. Tais coisas não podem ser permitidas a viver.”

“A Escoria é mais bondosa. Nós deixamos todo tipo de aberrações viver.”

Finn olhou para ele. A voz de Keiro era ácida; ele se virou e foi em direção às árvores. Mas Gildas não se moveu. Invés disso ele disse, “Não vê o que isto quer dizer, garoto tolo? Isto quer dizer que a Prisão está ficando sem material orgânico…”

Mas Keiro não estava escutando. Ele levantou sua mão, alerta.

Um som estava aumentando na floresta. Um sussurro alto, uma brisa de ferrugem.

Pequena no começo, mal levantando as folhas, isto agitou os cabelos de Finn, o manto de Gildas.

Finn se virou. “O que é isto?”

O Sapiente se moveu, o empurrando. “Rápido. Nós devemos procurar abrigo, Rápido!”

Eles correram por entre as arvores, Attia sempre nos calcanhares de Finn. O vento cresceu rapidamente. Folhas começaram a elevar, voando por eles. Uma cortou Finn na bochecha; colocando sua mão na picada súbita ele sentiu um corte, e viu sangue. Attia engasgou, sua mão protegendo seus olhos.

E de uma vez eles estavam em uma nevasca de lascas de metal, as folhas de cobre, metal e prata um turbilhão afiado na tempestade repentina. A floresta gemeu e se inclinou, galhos quebraram com estalos que badalaram no teto invisível.

Enquanto ele corria se esquivando e sem ar, Finn escutou o rugido da tempestade como uma grande voz. Isto gritou com ele, o pegou e o jogou; sua raiva o fez colidir com uma árvore de metal, aquilo o ferio e bateu nele. Tropeçando, ele sabia que as folhas eram suas palavras, flechas de ódio, que Incarceron o estava o provocando, seu filho, nascido nas suas celas e ele parou, se inclinando, arfando, “Eu te escuto! Eu te escuto! Pare!”

“Finn!” Keito o puxou para baixo. Ele deslizou, o chão dando espaço, caindo dentro de um oco entre as raízes emaranhadas de um imenso carvalho.

Ele caiu em cima de Gildas, que o empurrou. Por um momento cada um deles tomou ar, escutando as folhas mortais cortando o ar lá fora, o gemido e o zunido. Então a voz abafada de Attia veio de trás.

“O que é este lugar?”

Finn se virou. Atrás deles ele viu um buraco opaco e arredondado, parecia fundo de baixo do carvalho de metal. Muito baixo para ficar de pé nele, aquilo estendia para trás dentro da escuridão. A garota estava debruçada sobre suas mãos e joelhos, rastejando lá dentro. Folhas afiadas fazendo sons afiados debaixo dela, ele cheirou mofo, cheiro estranho, viu que nas paredes germinavam fungos, contorcidos, esporos espanavam, massas flácidas e cresciam.

“É um buraco,” Keiro disse acidamente. Ele levantou seus joelhos, limpou musgo de seu casaco, então olhou para Finn. “A chave está segura, Irmão?”

“Claro que está,” Finn murmurou.

Os olhos azuis de Keiro estavam duros. “Bem, me mostre.”

Estranhamente relutante Finn colocou sua mão dentro de sua camisa. Ele tirou a chave, e eles viram o cristal brilhando na escuridão. Estava frio, e Finn aliviado, calado.

Os olhos de Attia arregalaram.

“A Chave de Sapphique!”

Gildas virou para ela. “O que você disse?”

Mas ela não estava olhando para o cristal. Ela estava olhando para uma imagem riscada meticulosamente na parede de trás da árvore, manchada por séculos de sujeira e coberto com líquen verde, a imagem de um homem alto magro de cabelos negros sentado em um trono, em suas mãos apoiado uma abertura hexagonal de escuridão.

Gildas pegou a chave de Finn. Ele a colocou dentro da abertura. Instantaneamente ela começou a crescer; luz e calor queimavam dela, os mostrando o rosto sujo um do outro, os cortes inclinados, brilhando nos mais longos recessos do buraco.

Keiro balançou a cabeça. “Parece que nós estamos indo no caminho certo,” ele murmurou.

Finn não respondeu. Ele estava observando o Sapiente; o brilho de respeito e prazer no rosto do velho. A obsessão. Isso o gelou até o osso.

Nós proibimos o crescimento e, portanto, a decadência. Ambição e, portanto, desespero.

Porque cada um é apenas o reflexo distorcido do outro. Acima de tudo, o Tempo é proibido. A partir de agora nada vai mudar.

—Decreto do Rei Endor

“Não acho que você vai querer todo esse lixo.” Caspar escolheu um livro da pilha e abriu. Olhou preguiçosamente para as letras brilhantes iluminadas. “Temos livros no Palácio. Nunca me preocupei com eles.”

“Você me surpreende.” Claudia sentou na cama e olhou desesperadamente para o caos em volta.

Como ela podia ter tantas posses? E tão pouco tempo!

“E os Sapienti tem milhares.” Ele jogou-o de lado. “Você é tão sortuda, Claudia, que nunca teve que ir à Academia. Pensei que ia morrer de tédio. Em todo caso, não estamos saindo com os falcões? Os criados podem arrumar tudo. Eles servem para isso.”

“Sim.” Claudia estava roendo as unhas; percebeu e parou.

“Você está tentando se livrar de mim, Claudia?”

Ela olhou para cima. Ele a estava observando, seus pequenos olhos fixos naquele olhar inerte.

“Eu sei que não quer se casar comigo,” ele disse.

“Caspar...”

“Está tudo bem, não me importo. É coisa da dinastia, isso é tudo. Minha mãe explicou. Você pode ter quantos amantes quiser, depois que tivermos um herdeiro. Eu certamente terei.”

Ela o olhou, incrédula. Não podia ficar quieta; levantou-se e marchou pela sala dividida. “Caspar, ouça o que diz! Alguma vez você já pensou em que tipo de vida teremos juntos, naquele mausoléu de mármore que você chama de palácio? Vivendo uma mentira, um faz de conta, mantendo falsos sorrisos em nossos rostos, vestindo roupas de uma época que nunca existiu, posando e enfeitando-se e imitando maneiras que só devem existir em livros? Você já pensou sobre isso?”

Ele ficou surpreso. “Sempre foi assim.”

Ela sentou-se ao lado dele. “Você nunca quis ser livre, Caspar? Para ser capaz de caminhar sozinho em uma manhã de primavera e partir para ver o mundo? Para encontrar aventura e alguém que você possa amar?”

Era demais. Ela soube assim que havia dito. Demais para ele. Sentiu-o enrijecer e franzir a testa, e olhar para ela. “Eu sei do que tudo isso se trata.” Sua voz era dura. “É porque você preferiria que fosse meu irmão. O santo Giles. Bem, ele está morto Claudia, então esqueça-o.” Então seu sorriso voltou, estreito e capcioso. “Ou é por causa de Jared?”

“Jared?”

“Bem, é obvio, não é? Ele é mais velho, mas algumas garotas gostam.”

Queria esbofetear ele, levantar-se e esbofetear seu pequeno rosto com aquele sorriso irônico.

Sorriu para ela. “Vi como olha para ele, Claudia. Como disse, não me importo.”

Ela se levantou rígida com a raiva. “Seu pequeno sapo miserável.”

“Você está com raiva. O que prova que é verdade. Seu pai sabe sobre você e Jared, Claudia? Devo dizer-lhe, o que acha?”

Ele era venenoso. Era um lagarto com uma língua chicoteante. Seu sorriso era ácido.

Ela se inclinou e aproximou de seu rosto e ele se afastou.

“Se disser isso de novo, para mim, para qualquer um, vou matar você. Você entendeu, meu senhor Steen? Eu pessoalmente, com um punhal através do seu pequeno corpo fraco. Vou matar você como mataram Giles.”

Tremendo de cólera ela marchou para fora e bateu a porta com um estrondo que ecoou pelo corredor. Fax, o guarda-costas estava descansando do lado de fora. Quando passou, ele se levantou, com uma lentidão insolente, e enquanto corria debaixo dos retratos para as escadas, sentiu os olhos dele em suas costas, o sorriso frio.

Ela os odiava.

Todos eles.

Como ele podia dizer isso!

Como podia sequer pensar nisso! Vociferando escada abaixo, atravessou as portas duplas, criadas abrindo passagem para ela, seu humor como um trovão. Que mentira obscena! Contra Jared!

Jared, que nunca sonharia, nem sequer pensaria em tal coisa!

Ela gritou por Alys, que veio correndo. “O que há de errado, senhora?”

“Meu casaco de montaria. Agora!”

Enquanto esperava se irritou, andando de um lado para outro, olhando pela porta da frente aberta para a eterna perfeição dos gramados, o céu azul, os pavões dando seus gritos estranhos.

Sua raiva era quente e um conforto. Quando o casaco chegou, o jogou sobre ela, e retrucou, “Vou cavalgar.”

“Claudia... Há muito que fazer! Partiremos amanhã.”

“Você faz isso.”

“O vestido de casamento... os ajustes finais.”

“Você pode rasga-lo em pedaços, não estou preocupada.” Então saiu, correndo escada abaixo e atravessando o pátio, e enquanto corria, olhou para cima e viu seu pai, de pé na janela impossível de seu escritório que não existia, nem mesmo estava lá.

Estava de costas para ela, falando com alguém. Alguém no escritório com ele? Mas ninguém nunca foi lá.

Desacelerando, assistiu por um momento, perplexa. Então, com medo dele se virar, correu para os estábulos e encontrou Marcus já selado, batendo os cascos no chão com impaciência. O cavalo de Jared estava pronto também, uma criatura altiva e magra chamada Tam Lin, que provavelmente era alguma brincadeira secreta do Sapiente que nunca compreendeu.

Olhou em volta. “Onde está o Sábio?” perguntou a Job.

O menino, sempre calado murmurou, “Voltou para a torre, senhora. Esqueceu alguma coisa.”

Ela olhou para ele. “Job me escute. Você conhece todos na propriedade?”

“Quase.” Ele varria o chão afobadamente, levantando nuvens de poeira. Queria dizer-lhe para parar, mas isso o teria deixado ainda mais nervoso, então disse, “Um velho chamado Bartlett.

Aposentado, um empregado do Tribunal. Ainda está vivo?”

Ele ergueu a cabeça. “Sim, minha senhora. Ele tem um chalé em Hewelsfield. Basta descer o caminho do moinho.”

Seu coração bateu forte. “Ele está... Sua mente ainda está clara?”

Job assentiu e deu um sorriso. “Ele está afiado. Mas não diz muito, não sobre seus dias na Corte.

Apenas olha se perguntar a ele.”

A sombra de Jared escureceu a passagem e ele entrou um pouco sem fôlego.

“Desculpe, Claudia.”

Ele impulsionou-se para a sela, e quando ela colocou os pés nas mãos unidas de Job, disse calmamente: “O que você esqueceu?”

Seus olhos escuros encontraram os dela. “Um certo objeto que eu não queria deixar desprotegido.” Sua mão moveu-se discretamente para seu casaco, o manto verde escuro de gola alta do Sapiente.

Ela assentiu, sabendo que era a chave.

Enquanto cavalgavam, ela se perguntou por que se sentia tão estranhamente envergonhada.

***

Eles fizeram uma fogueira com os fungos secos e um pouco de pólvora instantânea da bolsa de Gildas e cozinharam a carne enquanto o furacão enfurecia-se lá fora. Ninguém falava muito. Finn estava tremendo de frio, e os cortes em seu rosto doíam; ele percebeu que Keiro ainda estava cansado também. Era difícil saber sobre a garota. Ela sentou-se ligeiramente afastada, comendo rapidamente, seus olhos observando e não perdendo nada.

Finalmente Gildas limpou as mãos engorduradas em seu manto. “Houve qualquer sinal dos presos?”

“As ovelhas estavam perambulando," Keiro disse negligentemente. “Nem mesmo uma cerca.”

“E a prisão?”

“Como eu poderia saber? Olhos nas árvores, provavelmente.”

Finn estremeceu. Sentia a cabeça ecoando e estranha. Queria que eles dormissem, de modo que ele pudesse pegar a Chave novamente e falar-lhe. Com ela. A garota Estrangeira. “Não podemos seguir em frente, então podemos descansar. Não acha?”, disse “Parece bom,” Keiro disse preguiçosamente. Ele arrumou sua trouxa no fundo de um buraco. Mas Gildas estava encarando a imagem entalhada no tronco da árvore. Ele se arrastou mais para perto, estendeu a mão, e começou a friccionar suas mãos cheias de veias nela. Frisos de líquen caíram. O rosto estreito pareceu surgir da sujeira e da pele verde de musgo, suas mãos segurando a Chave tão cuidadosamente desenhada, pareciam reais. Finn percebeu que a Chave devia estar ligada em algum circuito na própria árvore e por um momento um borrão de visão o pegou desprevenido, uma sensação de que todo Incarceron era uma grande criatura em cujas entranhas de arame e osso eles rastejavam.

Ele piscou.

Ninguém pareceu ter notado, embora a garota estivesse olhando para ele. Gilda estava dizendo: “Ele está nos levando pelo caminho que tomou. Como um fio através do labirinto.”

“Então ele deixou sua própria imagem?” Keiro falou lentamente.

Gildas franziu a testa. “Obviamente não. Isso é um santuário, criado pelos Sapienti que o seguiram. Devemos encontrar outros sinais pelo caminho.”

“Não posso esperar.” Keiro virou-se e se enrolou.

Gilda olhou para trás. Então disse para Finn: “Retire a Chave. Precisamos cuidar dela. O caminho será mais longo do que pensamos.”

Pensando na vasta floresta lá fora Finn se perguntou se eles vagariam nela para sempre.

Cuidadosamente ele estendeu a mão e retirou a Chave do hexágono; ela saiu com um leve estalido, e instantaneamente o buraco foi escurecido e as lascas de folhas sibilantes embaçaram as luzes distantes da Prisão.

Finn estava rígido e desconfortável, mas se manteve imóvel, escutando. Depois de um bom tempo ele soube pela respiração pesada do velho homem que Gildas estava dormindo. Ele não estava certo sobre os outros. Keiro estava virada para o outro lado.

Attia sempre parecia silenciosa, como se tivesse aprendido que manter-se quieta e despercebida à mantinha viva. Lá fora, a floresta rugia com a tempestade. Ele ouviu o estalar dos galhos, a agitação de seu desprezo surgindo de longas distâncias, sentiu a força do vento batendo nas árvores, estremecendo o tronco de ferro acima dele.

Eles tinham irritado Incarceron. Eles haviam aberto uma de suas portas proibidas e cruzado alguns limites. Talvez fosse prendê-los aqui para sempre, antes de mal terem começado.

Por fim, ele não podia esperar mais.

Com cautela, fazendo esforço infinito para evitar o farfalhar das folhas, ele puxou a Chave de seu bolso. Estava gélida, congelada pelo frio. Seus dedos deixaram marcas manchadas nela, e até mesmo a águia dentro dela estava difícil de ver até que esfregou a condensação de sua superfície.

Ele a segurou firmemente. “Claudia,” sussurrou.

A Chave estava fria e morta.

Nenhuma luz mudou nela. Não se atreveu a falar mais alto.

Mas então Gildas murmurou, ele teve a chance e se enroscou, trazendo a chave mais perto. “Você pode me ouvir?” disse para ela. “Você está aí? Por favor, responda.”

A tempestade enfureceu-se. Gemia entre seus dentes e nervos. Ele fechou os olhos e sentiu desespero, que tinha imaginado tudo isso, que a garota não existia, que ele havia realmente nascido de algum Ventre aqui.

E então, como se fora de seu próprio medo, veio uma voz, uma observação suave.

“Risada? Tem certeza de que foi o que ele disse?”

Os olhos de Finn se abriram. Uma voz de homem. Serena e considerando.

Olhou ao redor freneticamente, com medo de que os outros tivessem ouvido, e então uma garota disse, “...Claro que tenho certeza. Por que o velho deveria rir, Mestre, se Giles estava morto?”

“Claudia.” Finn sussurrou o nome antes que pudesse parar.

Instantaneamente Gildas virou; Keiro sentou-se. Praguejando, Finn enfiou a chave em seu casaco e rolou para ver Attia o encarando. Percebeu imediatamente que ela tinha visto tudo.

Keiro pegou sua faca. “Você ouviu isso? Alguém lá fora.” Seus olhos azuis estavam alertas.

“Não.” Finn engoliu. “Era eu.”

“Falando durante o sono?”

“Ele estava falando comigo,” Attia disse calmamente.

Por um momento Keiro olhou para os dois. Então recostou-se, mas Finn sabia que ele não estava convencido. “Ele estava agora?” seu irmão de juramento disse suavemente.

“Então, quem é Claudia?”

***

Eles andaram a meio galope rapidamente até a alameda, as folhas verde-escuro dos carvalhos formavam um túnel sobre suas cabeças. “E você acredita em Evian?”

“Nisso eu acredito.” Ela olhou para frente para o moinho crescente no sopé da colina. “A reação do velho foi toda errada, Mestre. Ele deve ter amado Giles.”

“A dor afeta estranhamente as pessoas, Claudia.” Jared parecia preocupado. “Você disse a Evian que iria encontrar esse Bartlett?”

“Não. Ele— “

“Você disse a alguém? Alys?”

Ela bufou. “Diga a Alys e estará circulando no salão de criados em minutos.” Isso a lembrou. Ela diminuiu a velocidade do cavalo ofegante. “Meu pai pagou o espadachim.

Ou pelo menos tentou. Ele disse mais alguma coisa para você?”

“Não. Ainda não.”

Eles ficaram em silêncio enquanto ele se inclinou e destrancou o portão, liberando a parte traseira do cavalo para arrastá-lo. Do outro lado a alameda estava esburacada, ladeada por cercas vivas, rosas caninas entrelaçadas entre urtigas e salgueirinhas, as umbelas brancas de canabrás.

Jared chupou um ferrão em seu dedo. Então disse, “Esse deve ser o lugar.”

Era uma cabana pequena meio obscurecida por uma enorme castanheira que cresceu ao lado dela. Enquanto cavalgavam mais perto Claudia fez uma careta para seu Protocolo perfeito, o telhado de palha com buracos, as paredes úmidas, as árvores retorcidas do jardim. “Um casebre para os pobres.”

Jared sorriu seu sorriso triste. “Temo que sim. Nesta Era apenas os ricos conhecem conforto.”

Eles deixaram os cavalos amarrados, aparando a longa grama viçosa da borda. O portão estava quebrado, pendurado amplamente; Claudia viu como tinha sido forçado recentemente, como as lâminas de grama foram arrastadas sob ele, ainda molhadas de orvalho.

Jared parou. “A porta está aberta,” disse.

Ela deu um passo à frente dele, mas ele disse, “Um momento, Claudia.” Tirou o pequeno scanner e o deixou zunir. “Nada. Ninguém aqui.”

“Então entramos e esperamos por ele. Eu só tenho hoje.” Ela andou pelo caminho lascado; Jared a seguiu rapidamente.

Claudia escancarou a porta que rangeu e pensou que algo se moveu lá dentro.

“Olá?” disse calmamente.

Silêncio.

Ela colocou a cabeça para dentro.

O cômodo estava escuro e cheirava a fumaça. Uma janela baixa o iluminava, a veneziana aberta e encostada na parede. O fogo estava extinto na lareira; quando entrou viu a panela enegrecida em suas correntes, o espeto, cinzas flutuando pelo esquema abaixo da grande chaminé.

Dois pequenos bancos alinhados no canto da chaminé; perto da janela havia uma mesa e cadeira e um guarda-louça com alguns pratos de estanho amassados e uma jarra.

Pegou a jarra e cheirou o leite no interior.

“Fresco.”

Havia uma pequena porta no curral das vacas. Jared o atravessou e olhou em volta, inclinando-se sob a verga da porta.

Ele estava de costas, mas ela sabia por seu silêncio repentino, que algo estava errado. “O que?”

ela disse.

Ele se virou, e seu rosto estava tão pálido, que ela pensou que estivesse doente. Ele disse: “Temo que estejamos muito atrasados.”

Ela se aproximou. Ele ficou bloqueando seu caminho. “Quero ver,” ela murmurou.

“Claudia...”

“Deixe-me ver, Mestre.” E abaixou-se por debaixo do braço dele.

O velho estava deitado no chão do curral. Era bastante óbvio que seu pescoço estava quebrado.

Deitado de costas, os braços abertos, uma mão enterrada na palha. Seus olhos estavam abertos.

O curral cheirava a esterco velho. Moscas zumbiam sem parar e vespas entravam e saiam pela porta aberta; uma pequena cabra balia lá fora.

Gélida com medo e raiva ela disse: “Eles o mataram.”

“Nós não sabemos.” Jared pareceu voltar à vida de repente. Ele ajoelhou-se ao lado do velho, tocou no pescoço e no pulso, correu o scanner sobre ele.

“Eles o mataram. Ele sabia algo sobre Giles, sobre o assassinato. Eles perceberam que estávamos vindo pra cá.”

“Quem poderia ter percebido?” Ele se levantou rapidamente, voltando para a sala.

“Evian sabia. Minha conversa com ele deve ter sido grampeada. E tem Job.

Perguntei a ele...”

“Job é uma criança.”

“Ele está com medo do meu pai.”

“Claudia, eu estou com medo do seu pai,”

Ela olhou novamente para a pequena figura na palha, deixando sua raiva fluir, segurando seus braços ao redor de si mesma, "Dá para ver as marcas," ela sussurrou.

Marcas de mão. Duas manchas roxas como marcas escuras de polegares, fundo na carne manchada. “Alguém grande. Muito forte.”

Jared abriu com um solavanco a porta do guarda-louça e pegou pratos.

“Certamente ele não caiu.”

Ela virou-se.

Ele bateu a gaveta, foi para a chaminé, e olhou para cima. Em seguida, para espanto dela, ele subiu em um dos bancos e esticou os braços na escuridão, tateando às cegas.

Fuligem caiu como chuva.

“Mestre?”

“Ele viveu na Corte, Claudia. Deve ter sido alfabetizado.”

Por um momento ela não entendeu. Então se virou e olhou rapidamente ao redor, encontrou a cama, levantou o colchão, rasgou a palha infestada de piolhos.

Lá fora, um melro gritou e voou.

Claudia olhou. “Eles estão voltando?”

“Talvez. Continue procurando.”

Mas quando ela se moveu o pé ficou preso em uma tábua que rangia, e quando se ajoelhou e a puxou, balançou-se em um eixo com a facilidade de uso constante.

“Jared!”

Era o depósito de tesouros do velho. Uma bolsa surrada com algumas moedas de cobre, um colar quebrado com a maioria das pedras soltas, duas penas, uma dobra de pergaminho, e, cuidadosamente escondido totalmente no fundo, uma bolsa de veludo azul com cordão, pequena como a palma da sua mão.

Jared pegou o pergaminho e o folheou. “Parece uma espécie de testamento. Sabia que ele teria isso escrito! Se tivesse sido ensinado pelo Sapiente, é apenas...” Olhou por cima. Ela tinha aberto a bolsa azul. Para fora dela, deslizou um pequeno objeto oval de ouro, suas costas gravada com a águia coroada. Ela o virou.

O rosto de um menino olhava para eles, seu sorriso tímido e direto, seus olhos castanhos.

Claudia sorriu para ele, amarga. Olhou para seu tutor. “Deve valer uma fortuna, mas ele nunca vendeu. Deve tê-lo amado muito.”

Gentilmente ele disse, “Tem certeza...?”

“Oh sim, eu tenho certeza. É Giles.”

 

ACORRENTADO, MÃOS E PÉS

 

Sapphique cavalgou para fora de Tanglewood e viu a Fortaleza de Bronze. As pessoas estavam correndo em suas paredes por todo lado.

“Venha para dentro,” eles o encorajavam. “Rápido! Antes que ele ataque!”

Ele olhou em volta. O mundo era metal e o céu era metal. As pessoas eram formigas nas superfícies da Prisão.

“Você se esqueceu,” ele disse, “que você já está Dentro?”

Mas eles rapidamente passaram e disseram que ele estava demente.

—Lendas de Sapphique

A tempestade atormentou a noite toda, terminando tão subitamente que Finn acordara de uma vez pelo silêncio. Este parecia estranho depois do vento, mas pelo menos queria dizer que ele poderia se mexer agora, antes que a Prisão mudasse de ideia. Keiro se arrastara para fora e se esticava, gemendo com câimbra. Depois de um minuto sua voz veio novamente, raramente mudo. “Olhe isso.”

Quando Finn se levantou, ele viu que a floresta estava pelada. Cada folha, cada onda metálica de folhagem jazia amontoada em imensos montes.

As árvores haviam rompido em flores. Flores de bronze, escarlate e dourada, cintilavam em cima da colina e abaixo no vale até onde ele podia ver.

Atrás dele, Attia riu. “É bonito.”

Ele virou-se, surpreso, percebendo que ele vira isso somente como um obstáculo.

“É?”

“Oh sim. Mas você... você é acostumado com cores. Vindo de Fora.”

“Você acredita em mim?”

Ela acenou lentamente. “Sim. Tem alguma coisa diferente em você. Você não se encaixa. E o nome que você chamou enquanto dormia, essa Claudia. Você lembra dela?”

Foi isso que ele dissera a eles. Ele olhou para cima. “Escute, Attia, preciso de sua ajuda. É que...

às vezes eu preciso ficar sozinho. A Chave... isso ajuda as visões. Às vezes eu preciso ficar longe de Keiro e Gildas. Você entende?”

Ela acenou gravemente, seus olhos fixados nele. “Eu lhe disse, sou sua serva.

Apenas me diga quando, Finn.”

Ele sentiu-se envergonhando. Olhando seu rosto, ela não disse nada mais.

Desde então eles tinham se apressado por uma paisagem de várias cores, entre plantações de árvores que desfilavam morro abaixo, o chão da floresta se interrompeu e se ligou com riachos em leitos estranhos separados, cortados com fendas. Insetos que Finn nunca imaginara rastejavam em grandes montes de folhas que bloqueavam o caminho; encontrando desvios em volta destes, perderam horas. E no alto, nos ramos nus, gralhas pulavam e voavam em bandos, seguindo os viajantes com brilhante curiosidade até que Gildas os amaldiçoou, e acenou o punho para elas. Depois, silenciosamente, todas voaram para longe.

Keiro acenou. “Então os Sapienti ainda têm um pouco de magia, afinal.”

Sem ar, o velho olhou-o, bravo. “Eu queria que funcionasse em você.”

Keiro sorriu para Finn, e Finn se permitiu um sorriso. Ele se sentiu mais iluminado de algum modo, e quando ele andou com dificuldade depois de Gildas abaixo dos corredores da mata, ele começou a perceber algo que devia ser como felicidade. A Fuga começara. O Comitatus estava bem atrás; toda aquela vida de corpo-a-corpo brutal, de assassinato e mentiras e medo estava acabada. As coisas seriam diferentes agora.

Sapphique lhe mostraria a saída.

Andando sobre um emaranhado de raízes ele quase sentiu desejo de rir alto, mas ao invés disso, ele pôs a mão na blusa e tocou a Chave.

Ele puxou a mão de uma só vez.

Estava quente.

Ele deu uma olhada em Keiro marchando em frente. Então ele virou. Attia estava onde ela sempre caminhava. Em seus calcanhares.

Perturbado, ele parou. “Eu não quero uma escrava.”

Ela parou também. “Qualquer coisa que você dizer.” Os olhos dela o observavam com aquele olhar magoado.

Ele disse, “Há um riacho aqui, posso escuta-lo. Diga aos outros que vou beber um pouco d’água.”

Sem esperar, ele caminhou para fora do caminho em uma profunda moita de espinhos platinados, depois se encurvou no meio dos pequenos arbustos. Umbelas de fios flexíveis subiam em torno dele, juncos ocos onde micro besouros trabalhavam ocupadamente.

Apressadamente ele pegou a Chave.

Era um risco. Keiro poderia vir. Mas ela estava quente agora nos seus dedos, e havia as pequenas e familiares luzes azuis no cristal. “Claudia?” ele sussurrou ansiosamente. “Você pode me ouvir?”

“Finn! Finalmente!”

A voz dela estava tão alta que o fez engolir; ele espiou em volta. “Calma! Seja rápida, por favor.

Eles virão procurar por mim.”

“Quem virá?” Ela parecia fascinada.

“Keiro.”

“Quem é ele?”

“Meu irmão de juramento...”

“Tudo bem. Agora escute. Há um pequeno painel de dedo na base da Chave. É invisível, mas a superfície é levemente elevada. Pode encontrá-la?”

Os dedos dele buscaram, deixando manchas sujas. “Não,” ele disse, frustrado.

“Tente! Você acha que ele tem um artefato diferente?” A pergunta não era para Finn. A outra voz perguntara a ela, a mesma que ele se lembrou ser de Jared. “É quase certamente idêntico.

Finn, use as pontas dos dedos. Procure a ponta, as facetas perto da ponta.”

O que eles pensavam que ele era! Ele arranhou, com as mãos doloridas.

“Finn!” O murmúrio de Keiro estava bem atrás dele. Ele pulou, enfiando a Chave de volta, arfando.

“Pelo amor de Deus! Não posso beber em paz?”

A mão de seu irmão o empurrou de volta para baixo num monte de folhas. “Se abaixe e cale a boca. Temos visitantes.”

***

Claudia sentou-se nos calcanhares e xingou com frustração. “Ele se foi. Por que ele se foi?”

Jared foi até a janela e olhou para fora ao caos absoluto no pátio. “Melhor assim. O

Diretor está subindo os degraus.”

“Você ouviu o jeito que ele pareceu? De novo, estava tão... assustado.”

“Eu sei como ele se sente.” Jared puxou um pequeno bloco do bolso de seu casaco de cavalgada e empurrou pra ela. “Este é o rascunho completo do testamento do velho.

Leia na hora que viajarmos.”

Portas batendo. Vozes do lado de fora. O pai dela. E o de Caspar.

“Depois apague isso imediatamente, Claudia. Eu tenho uma cópia.”

“Deveríamos fazer alguma coisa. Sobre o corpo.”

“Não estávamos lá, lembra?”

Ele mal tinha falado as palavras, adiante a porta se abriu. Claudia calmamente deslizou o bloco para baixo de seu vestido.

“Minha querida.” Seu pai entrou e ficou diante dela. Ela se levantou para encontra-lo. Ele usava sua sobrecasaca usual, o cachecol no pescoço sedosamente caro, suas botas o melhor couro. Mas hoje ele usava uma pequena flor branca na lapela, como se para marcar a ocasião, e isso era tão diferente dele que ela o olhou com surpresa.

“Você está pronta?” ele perguntou.

Ela acenou. Ela estava usando um vestido azul escuro de viagem e capa, com um bolso especial costurado nesta para a Chave.

“Uma ótima manhã para a Casa de Arlex, Claudia. O começo de uma nova vida para você, para todos nós.” O cabelo dele com as mexas de cinza estava severamente preso para trás, seus olhos escuros de satisfação. Ele calçou as luvas antes de pegar a mão dela.

Ela olhou para ele sem sorrir, e o velho morto na palha estava na mente dela, seus olhos abertos.

Ela sorriu e fez uma reverência. “Estou pronta, senhor.”

Ele acenou. “Eu sempre soube que você estaria. Eu sempre soube que você nunca me decepcionaria.”

Como minha mãe decepcionou? Ela imaginou friamente. Mas não disse nada, e seu pai deu a Jared uma curta saudação e a conduziu para fora. Eles invadiram o grande salão, sobre o chão de polvilhado de lavanda, abaixo entre as fileiras de servos fascinados, o Diretor de Incarceron e sua maravilhosa filha, se preparando para o casamente que a faria uma rainha. E num sinal de Ralph a equipe torceu e aplaudiu e jogou doces íris sob os pés; eles tocaram minúsculos sinos prata em honra do matrimonio que eles nunca veriam.

Jared caminhava atrás, uma bolsa de livros sobre um braço. Ele apertava as mãos dos servos, e as empregadas se aparvalhavam em cima dele, empurrando pequenos pacotes de bala para ele, prometendo manter a torre salva, não tocar nos preciosos instrumentos dele, alimentar o filhote de raposa e os pássaros.

Quando Claudia tomou seu lugar no assento e olhou para trás, sentiu um terrível nó na garganta.

Todos eles sentiriam falta de Jared, suas maneiras gentis, sua frágil boa aparência, sua disposição para medicar a tosse das crianças e aconselhar seus filhos rebeldes. Nenhum deles parecia triste em vê-la ir.

Mas de quem era a culpa? Ela jogara o jogo. Ela era a senhora, a filha do Diretor.

Fria como gelo. Dura como pregos.

Ela ergueu a cabeça e sorriu para Alys. “Quatro dias de viagem. Eu pretendo cavalgar pelo menos metade disso.”

Sua governanta franziu as sobrancelhas. “Eu duvido que o Conde vá. E provavelmente ele irá querer que você vá na carruagem dele por algum tempo.”

“Bem, eu ainda não estou casada com ele. Quando eu estiver, ele brevemente descobrirá que é o que eu quero que conta.” Se eles a imaginavam dura, ela seria dura. E assim, quando os cavalos foram montados e os cavaleiros se reuniram e as carruagens começaram o lento retorno à portaria, tudo que ela queria era ter ficando ali, na casa onde ela vivera desde que nascera, e se inclinou para fora da janela e acenou e chamou todos os seus nomes, seus olhos doendo com lágrimas imprevistas. “Ralph! Job! Mary-Ellen!”

E eles acenaram de volta, uma tempestade de lenços e os pombos se elevando das empenas e as abelhas nas madressilvas zunindo enquanto a carruagem rugia sobre a ponte levadiça de madeira. Nas águas verdes escura do canal ela viu a casa refletida, viu pássaros aquáticos e cisnes seta sobre ela, e atrás dela numa grande procissão de carroças e carruagens e cavaleiros e cães de caça e falcoeiros de seu cortejo, da família do Diretor de Incarceron, em um dia os planos dele começaram a se realizar.

***

Eles eram homens e mesmo assim como poderiam ser?

Eles tinham no mínimo dois metros e meio de altura. Caminhavam com um andar angular estranho, seguindo como garças, ignorando os grandes montes de folhas afiadas, triturando em linha reta através deles.

Finn sentiu a mão de Keiro segurar tão apertado em seu braço que machucou.

Então seu irmão respirou uma única sílaba em sua orelha.

“Pernas de pau?”

Claro. Quando um deles passou, ele os viu de perto, pinças metálicas da altura do joelho, e os homens caminhavam sobre elas com habilidade, dando longos passos, e ele viu também que eles usavam o peso para tocar certos pontos das árvores, pequenos nós nos troncos, e que as arvores instantaneamente germinavam frutos semi-orgânicos que os homens colhiam.

Virando a cabeça ele procurou por Gildas, mas onde quer que o Sapiente e a garota estivessem escondidos, eram invisíveis para ele.

Ele observou a fileira de homens a trabalhar pelas árvores. Quando eles desceram a encosta, pareceram se contrair, e Finn viu claramente o homem no final tremular, como se ele passasse por alguma perturbação no ar.

Depois de um momento só as suas cabeças e ombros apareciam. Então eles se foram.

Keiro esperou um longo momento antes de levantar. Ele deu um fraco assobio e um amontoado de folhas próximo se agitou. A cabeça prateada de Gildas subiu. Ele disse, “Foram?”

“Longe o suficiente.”

Keiro observou Attia se arrastar apressadamente, então ele virou. Dando uma olhada em seu irmão adotivo disse calmamente, “Finn?”

Estava acontecendo. Olhando ao brilho que o ar tinha feito. A pele de Finn arrastava-se com coceiras, sua boca estava seca, sua língua parecia grossa. Ele esfregou a mão na boca. “Não,” ele resmungou.

“Segure-o,” Gildas repreendeu.

De algum lugar distante Keiro disse, “Espere.”

E depois Finn estava caminhando. Caminhando direto para o lugar, o vazio entre dois grandes ramos de cobre onde o ar tinha se movido como se pó caísse da coluna de luz ali, como se uma fenda no Tempo se abriu ali. E quando ele veio até ali, ele parou, estirando os dois braços diante de si como se estivesse cego. Era um buraco de fechadura do mundo.

Através dela, uma corrente de ar soprou.

Pequenos relâmpagos de dor o ferroaram. Ele lutou por ele, sentindo, tocando as pontas, trazendo seu rosto para perto, colocando seus olhos na fenda de luz, vendo através dela.

Continuar: parte 2 de 4