Incarceron
“Com Jared como testemunha.”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Evian respirou embravecido. “Eu realmente não posso dizer.”
“Você vai dizer, meu senhor,” Jared disse agradavelmente, “ou vou fazer um tumulto tão grande sobre seu plano de assassinato que cada guarda do Palácio vai ouvir.”
A testa de Evian formigou com suor. “Acho que não.”
Jared olhou para baixo; o homem gordo tinha um punhal em sal mão, a lâmina dura contra o estômago de Jared. Com esforço, ele encontrou os olhos do homem. “De qualquer maneira, meu senhor, você seria descoberto. Tudo que peço é um nome.”
Por um momento eles estavam face a face. Então Lord Evian disse, “Você é um homem corajoso, Sapiente, mas não cruze comigo de novo. Quanto ao nome, existe sim, escondido no tempo, perdido na lenda. O nome daquele que disse ter escapado de Incarceron. No mais misterioso dos nossos ritos ele é conhecido como Sapphique. Isso satisfaz sua curiosidade?”
Jared olhou para ele por uma fração de segundo. Então o empurrou para o lado. E correu.
***
Keiro estava selvagem de raiva; ele e Gildas estavam gritando com ela. “Como você pode nos abandonar?” o Sapiente queimava. “Sapphique escapou. Claro que há uma saída!”
Ela ficou em silêncio. Estava olhando para Finn. Ele sentou-se encolhido contra um ângulo decorativo, tomado pela angústia. Sua jaqueta estava rasgada e haviam cortes em seu rosto, mas agora mais do que nunca ela tinha certeza de que ele era Giles. Agora que era tarde.
“E você vai se casar com ele,” ele disse calmamente.
Gildas xingou. Keiro deu a seu irmão de juramento um olhar mordaz. “Que importa com quem ela se casa! Talvez ela tenha decidido que gosta mais dele que de você.” Ele virou, as mãos nos quadris, e a enfrentou arrogantemente. “É isso, Princesa?
Isso foi tudo uma pequena diversão, um jogo?” Ele sacudiu a cabeça. “Lindas flores! Doce vestido!”
Ele se aproximou tanto que ela quase sentiu como se ele pudesse esticar a mão e agarrá-la. Mas então Finn disse, “Cale-se, Keiro.” Ele se levantou e a encarou. “Apenas me diga o motivo. Por que é tão impossível?”
Ela não podia. Como diria isso a eles? “Jared descobriu algumas coisas. Vocês têm que acreditar em mim.”
“Que coisas?”
“Sobre Incarceron. Acabou, Finn. Por favor. Faça uma vida para você aí. Esqueça o Lado de Fora...”
“E quanto a mim?” Gildas agarrou. “Passei anos planejando minha fuga!
Percorri a prisão inteira antes de encontrar um Vidente das Estrelas, e nunca encontrarei outro!
Nós viajamos até o Fim do Mundo, garota! Eu não vou desistir dos meus sonhos de toda uma vida!”
Ela levantou e seguiu em direção a ele, furiosa. “Você o usou como meu pai me usou. Ele não passa de uma escapatória para você; você não se importa com ele! Nenhum de vocês!”
“Isso não é verdade!” Attia sibilou.
Claudia a ignorou. Olhando firmemente para Finn disse, “Sinto muito. Gostaria que as coisas pudessem ter sido diferentes. Sinto muito.”
Houve algum tipo de comoção do lado de fora de sua porta, ela se virou e gritou.
“Eu não vou ver ninguém! Mande-os embora!”
Finn disse: “Sabe do que estou fugindo? De não conhecer a mim mesmo. Tendo essa escuridão dentro de mim, esse vazio. Eu não posso viver com isso. Não me deixe aqui, Claudia!”
Ela não podia mais suportar. Não a raiva de Keiro, não o idoso raivoso, não ele. Ele a estava machucando, e nada disse era culpa dela, nada disso. Ela estendeu a mão para a chave. “Isso é adeus, Finn. Tenho que desistir da chave. Meu pai sabe sobre tudo.
Acabou.”
Seus dedos se fecharam sobre o elo. Vozes argumentaram fora da porta.
Então Attia disse, “Ele não é seu pai, Claudia.” Todos eles se viraram para ela.
Ela estava sentada no chão, braços ao redor de seu joelho. Ela não se levantou ou disse qualquer outra coisa, só sentou no silêncio chocante que criou, seu encardido rosto estreito e calmo, o cabelo escuro gorduroso.
Claudia veio até ela. “O quê?” Sua própria voz soou pequena e não familiar.
“Temo que seja verdade.” Attia estava fria e distante. “Eu não ia te contar, mas você está me forçando, e é hora de você saber. O Diretor de Incarceron não é seu pai.”
“Sua vadia mentirosa!”
“Não, é verdade.”
Keiro sorriu.
Claudia sentiu como se o mundo tivesse sido abalado. De repente o burburinho lá fora era demais; virando as costas para eles, ela abriu a porta atrás de si. Jared estava lá, e dois guardas atrás dele.
“O que é isso?” Sua voz era afiada. “Deixem-no passar.”
“Ordens de seu pai, lady—”
“Meu pai,” ela gritou, “pode ir para o inferno!” Claudia a empurrou de volta para o quarto e bateu a porta. “Claudia, ouça—”
“Por favor, Mestre! Agora não!”
Ele viu o campo de luz. Claudia espreitou de volta para ele. “Tudo bem. Conte-me,” ela disse.
Por um momento, Attia não disse nada. Então ela se levantou, tirou a sujeira de seu braço nu.
“Eu nunca gostei de você. Altiva, egoísta, mimada. Você se acha tão forte... Não duraria minutos aqui. E Finn vale dez de você.”
“Attia,” Finn rosnou, mas Claudia disse rispidamente, “Deixe-a falar.”
“Lá na torre do Sapiente nós encontramos uma lista de Prisioneiros que já estiveram nesse lugar.
Todos procuraram seus próprios nomes, mas eu não.” Attia se aproximou de Claudia. “Procurei o seu.”
Finn se virou, gelado. “Você disse que não estava lá.”
“Eu disse que ela não estava em Incarceron. Mas esteve.”
Ele sentiu tanto frio. Olhando para Claudia, ele viu que o rosto dela estava branco; foi Jared que disse calmamente, “Quando?”
“Ela nasceu aqui. E ela viveu aqui por uma semana. Então, nada. Ela sumiu dos registros. Alguém tirou uma bebê de uma semana de idade da Prisão e aí está ela, olhe, a filha do Diretor. Ele devia estar muito desesperado por uma filha. E devia haver uma que morreu, ou ele teria escolhido um filho.”
Keiro disse, “Você a reconheceu pela foto de um bebê? Isso—”
“Não apenas um bebê” Attia manteve seus olhos em Claudia. “Alguém colocou pinturas dela no livro. Imagens, como nós. Dela crescendo. Dela tendo tudo o que queria, roupas, brinquedos, cavalos. Dela...”
“Ficando noiva?” Keiro disse astutamente.
Finn voltou com um suspiro. “Eu estava lá? Eu estava na imagem também? Attia!”
Seus lábios sopraram. “Não.”
“Tem certeza?”
“Eu te diria se estivesse.” Ela ficou séria. “Eu diria, Finn. Era apenas ela.”
Ele virou para Claudia. Ela parecia aturdida com choque. Ele olhou para Jared, que murmurou, “Eu também encontrei o nome de Sapphique aqui. Parece que ele realmente Escapou.”
Gildas girou e os dois Sapienti trocaram olhares. “Você vê o que isso significa.” O velho homem estava triunfante. Ele estava sangrando e mancando, mas todo seu corpo estava carregado com energia. “Levaram-na para fora. Sapphique saiu. Existe uma maneira. Talvez se nós trouxermos as chaves juntas, possamos desbloqueá-lo.”
Jared franziu a testa. “Claudia?” ele disse.
Ela não pôde se mover por um instante. Então ela ergueu a cabeça e olhou Finn duramente nos olhos e ele viu que seu olhar era feroz e amargo. “Mantenha a chave ligada o tempo todo”, ela disse. “Quando eu entrar, terei que encontrá-lo.”
Todos os meus anos para este momento.
Todos os meus caminhos para esta parede.
Todas as minhas palavras para este silêncio.
Todo meu orgulho para esta queda.
—Canções de Sapphique.
Ela caminhou de um lado para o outro examinando o chão ansiosamente, vestida com calças escuras e jaqueta. “Então?”
“Cinco minutos.” Jared trabalhava nos controles sem olhar. Ele já tinha colocado o lenço sobre a cadeira e operado o dispositivo; o lenço tinha desaparecido, mas ele não podia fazê-lo voltar.
Claudia olhou para porta.
Ela tinha rasgado seu vestido de casamento em uma fúria que tinha surpreendido até a si mesma, cortando em pedacinhos a renda e rasgando os babados da saia totalmente. Tudo aquilo estava terminado. Protocolo estava acabado. Ela estava em guerra agora. Correndo aqui para baixo nos porões escuros, ela tinha passado através da raiva e confusão e o vazio de um passado perdido.
“Tudo bem.” Jared ergueu o olhar. “Eu acho que eu entendo o que é isso, mas onde essa máquina vai levar você, Claudia...?”
“Eu sei onde ela me leva. Para longe dele.” O conhecimento de que ele não era seu pai ainda soava em sua cabeça como um grande retumbar de sons, ecoando sem parar, de modo que ela sentiu que nunca iria ouvir mais nada daquela calma de menina, devastada com palavras. Jared disse, “Sente na cadeira.”
Ela pegou sua espada e aproximou-se e parou. “E você? Quando ele descobrir...”
“Não se preocupe comigo.” Ele pegou o braço dela gentilmente e a fez sentar. “Já é hora que eu enfrente seu pai. Eu estou certo que será bom para mim.”
Seu rosto escureceu. “Mestre... se ele machucar você...”
“Tudo com que você precisa se preocupar é encontrar Giles e trazê-lo de volta. A justiça deve ser feita. Boa sorte, Claudia”. Ele levantou a mão dela e a beijou formalmente.
Por um momento ela foi atingida pelo pensamento de que ela nunca iria ver ele novamente; tudo o que ela queria fazer era pular e abraçar ele, mas ele afastou-se para o painel de instrumentos e olhou para cima. “Pronta?”
Ela não podia falar. E então, pouco antes e seus dedos tocarem o painel, ela disse apressadamente, “Adeus, Mestre.”
Ele pressionou o quadrado azul, e aconteceu. Das fendas do teto da cabine a luz branca caiu, tão cegamente brilhante e tão rápida que ela tinha ido embora assim quem ela chegou, e tudo o que ela podia ver era o preto resultante gravado em sua retina.
Ele trouxe suas mãos ao longo de seu rosto.
A sala estava vazia. Ele podia sentir foi o cheiro tênue de doçura.
“Claudia?” ele sussurrou.
Nada. Por um longo tempo ele esperou em silêncio. Ele queria ficar, mas ele tinha que sair da sala de estudos; o Diretor não deve saber o que tinha acontecido enquanto fosse possível, e se eles o encontrassem aqui... Apressadamente ele empurrou os controles de volta, deslizou para fora através da grande porta de bronze, e trancou-a atrás dele.
Todo o caminho para cima através do porão Jared suava de medo. Devia haver algum alarme que ele tinha ignorado, algum gatilho gritando que seu exame minucioso tinha falhando em detectar.
A cada passo ele esperava por esbarrar no Diretor ou um dos guardas do Palácio, e pelo tempo que ele subiu ao corredor regular, ele estava pálido e tremendo e teve que se reclinar numa alcova e tomar uma profunda e cuidadosa respiração, uma criada passou olhando para ele curiosamente.
No Grande Salão, o barulho da multidão estava mais alto. Enquanto ele movia-se entre eles ele sentiu a crescente tensão, a expectativa aumentando quase para histeria. A escadaria que Claudia devia descer estava completamente à vista, com lacaios enfileirados em perucas empoadas.
Quando ele escorregou em direção ao assento junto a lareira ele viu a Rainha, gloriosa em roupas de ouro e uma tiara de diamantes, cintilando um olhar irritado para isto.
Mas as noivas estavam sempre atrasadas.
Jared se inclinou para trás e esticou suas pernas. Ele estava tonto com o medo e fadiga e ele sentia alguma coisa a mais que surpreendeu ele: uma estranha paz. Ele perguntou-se quanto tempo ela duraria.
Então ele viu o Diretor.
Alto e solene, o homem que não era o pai de Claudia. Jared observou o Diretor sorrir, assentir, trocando uma pequena conversa graciosa com os cortesões esperando.
Uma vez ele pegou seu relógio e olhou para ele, segurando ele em seu ouvido como se em tudo o tumulto ele precisasse checar se ele estava indo. Então ele colocou-o de lado e franziu a testa.
Impaciência crescendo, lentamente.
A multidão murmurava. Caspar se aproximou e disse alguma coisa a sua mãe, ela falou com ele rapidamente, e ele voltou para seus partidários. Jared observou a Rainha.
Seu cabelo estava elaboradamente escovado para cima, seus lábios vermelhos na embranquecida palidez de seu rosto. Um servo foi chamado, um mordomo com suaves cabelos prateados, ele arqueou-se e sumiu discretamente. Jared esfregou seu rosto.
Deve estar o pânico lá em cima em seus aposentos, as criadas procurando por ela, manuseando o vestido, aterrorizadas em suas próprias peles. Provavelmente todas elas tinham fugido. Ele esperou que Alys não estivesse lá—a velha enfermeira seria culpada.
Ele encostou-se contra a parede e tentou reunir toda a sua coragem.
Ele não tinha muito tempo para esperar.
Havia uma perturbação nas escadas. Cabeças viradas. Mulheres esticavam-se para ver, um farfalhar de vestidos e fracos aplausos que acabou dentro do atordoamento, porque o servo de cabelo de prata estava correndo para baixo, sem fôlego, e em suas mãos ele tinha o vestido, ou melhor, o que restou dele. Jared secou o suor de seus lábios. Ele nunca tinha visto Claudia tão furiosa como quando ela tinha rasgado ele em pedaços.
Confusão eclodiu.
Um grito de ira, ordens, o choque de armas. Lentamente, Jared levantou.
A Rainha estava com o rosto branco; ela virou para o Diretor. “O que é isto? Onde ela está?”
Sua voz estava gelada. “Eu não tenho ideia, madame, mas sugiro...”
Ele parou. Seus olhos cinza encontraram com os de Jared no meio da agitada multidão.
Eles olharam um para o outro e um súbito silêncio crescendo na multidão que percebeu e lançou-se para trás entre eles, como se as pessoas tivessem medo de ficar em pé naquele corredor de raiva.
O Diretor disse, “Mestre Jared. Você sabe onde minha filha está?”
Jared conseguiu dar um pequeno sorriso “Lamento que não possa dizer, Senhor.
Mas posso lhe dizer isso. Ela se decidiu contra o casamento.” A multidão estava inteiramente em silêncio.
Seus olhos brilhando com fúria, a Rainha disse, “Ela está rejeitando meu filho?”
Ele fez uma reverência. “Ela tinha mudado de ideia. Foi de repente, ela sentiu que não poderia enfrentar qualquer um de vocês. Ela deixou o Palácio. Ela implora sua indulgência.”
Claudia odiaria aquela última parte, ele pensou, mas ele tinha que ser muito cuidadoso. Ele fortificou a si mesmo para a reação. A Rainha deu um sorriso de puro veneno; ela virou-se pra o diretor. “Meu querido John, que golpe para você! Depois de todos seus planos e esquemas! Eu tenho que dizer que nunca pensei neles como muito boa ideia. Você escolheu sua substituta tão mal.”
Os olhos do diretor nunca deixaram os de Jared, e o Sapiente sentiu que o olhar de brasílico lentamente petrificou sua coragem. “Onde ela foi?”
Jared engoliu. “Casa.”
“Sozinha?”
“Sim.”
“Em uma carruagem?”
“Num cavalo.”
O Diretor virou. “Uma patrulha atrás dela. De uma vez!” Ele acreditou? Jared não estava certo.
“É claro, eu tenho pena de seus problemas domésticos,” a Rainha disse cruelmente, “mas você percebe que eu nunca vou sofrer um insulto como este novamente. Não haverá casamento, mesmo que ela volte rastejando em suas mãos e joelhos.”
Caspar murmurou “Vadia ardilosa e ingrata,” mas sua mãe o silenciou com um olhar.
“Limpem a câmara,” ela disse afiadamente. “Eu quero todos fora.”
Como se isso fosse um sinal, um tumulto de vozes irrompeu, incitando perguntas, sussurros chocados.
No meio de tudo isso Jared ainda permaneceu em pé, e o Diretor em pé o observando, e havia um olhar naqueles olhos que o Sapiente não podia vencer agora. Ele virou-se pra longe.
“Você fica.” A ordem de John Alex era áspera e irreconhecível.
“Diretor.” Lorde Evian levantou-se perto deles. “Eu acabei de ouvir... Tais notícias...
É verdade?”
Sua afetação tinha ido; ele estava pálido com intensidade. “Verdade. Ela se foi.” O Diretor dispensou um olhar sombrio para ele. Está acabado.
“Então... a Rainha?”
“Permanece a Rainha.”
“Mas... Nosso plano...”
O Diretor o silenciou com um lampejo de raiva. “Basta, homem! Você não ouviu o que eu disse?
Volte para seus pompons e perfumes. Isto é tudo o que temos agora.”
Como se ele não pudesse entender o que tinha acontecido, Evian agarrou friamente os babados de seu terno com força, puxando um botão solto. “Nós não podemos deixar terminar assim.”
“Nós não temos escolha.”
“Todos nossos sonhos. O fim do Protocolo.” Ele estendeu suas mãos dentro do casaco. “Eu não posso. Eu não vou.”
Ele moveu-se antes que Jared percebesse o que estava acontecendo, a faca cintilando fora, cortando a Rainha. Quando ela virou, a faca atingiu na altura de seu ombro; ela gritou em choque.
Instantaneamente a roupa de ouro estava salpicada com sangue, pequenos pingos que passavam brotando aos poucos enquanto ela engasgou e agarrou Caspar, tropeçando dentro dos braços dos cortesões. “Guardas!” o Diretor gritou.
Ele sacou sua espada. Jared virou.
Evian foi cambaleando para trás, o terno rosa manchado com sangue. Ele deve ter visto que ele tinha falhado; a Rainha estava histérica, mas não morta, e não havia chance para atacar novamente. Pelo menos não nela. Soldados correram para dentro suas afiadas lanças forçando ele em volta a um anel de aço. Ele olhou para Jared sem vê-lo, para o Diretor, para o pálido terror de Caspar.
“Eu fiz isso pela liberdade,” ele disse calmamente. “Num mundo que nada oferece.”
Com uma rápida precisão, ele virou a faca e com ambas as mãos cravou-a dentro de seu coração.
Ele caiu sobre ela, estatelou-se para baixo, sacudindo-se violentamente por um momento e ficou imóvel. Enquanto Jared empurrava os guardas para passar e inclinava-se sobre ele, ele viu que a morte tinha sido quase instantânea; o sangue estava ainda brotando lentamente através da roupa de seda.
Ele olhou para baixo, horrorizado, para o rosto rechonchudo, os olhar fixos nos olhos.
“Estupido,” o Diretor atrás dele. “E fraco.” Ele estendeu a mão para baixo e arrastou Jared para cima e o virou rudemente.
“Você é fraco, Mestre Sapiente? Eu sempre pensei assim. Nós vamos ver agora se eu estava certo.” Ele olhou para o guarda. “Leve o Mestre para seus aposentos e o tranque lá.
Traga-me todos os dispositivos que estiverem lá. Designe dois homens para o lado de fora.
Ele não sai e não recebe visitantes.”
“Senhor.” O homem fez uma reverência.
A Rainha tinha sido levada para fora e a multidão dispersou-se; todos de uma vez o grande Salão pareceu vazio. As guirlandas de flores e flores de laranjeira ondulando ligeiramente pela brisa das janelas abertas. Enquanto Jared era levado pela porta ele pisou nas pétalas caídas e doces grudentos; os detritos de um casamento que nunca aconteceria.
Pouco antes deles o empurrarem para fora, ele olhou para trás e viu o Diretor em pé com ambas as mãos na altura da lareira, inclinado sobre ela lareira.
***
Nada aconteceu além de uma luz branca. Quando Claudia abriu seus olhos, eles picaram; sua visão estava aquosa e pequenos pontos escuros flutuaram lá por um minuto, escurecendo as paredes da cela.
Era certamente uma cela. Fedia. O cheiro era forte, ela vomitou e então tentou não respirar de novo, o cheiro de umidade, urina e corpos apodrecidos e palha.
A palha era tudo ao redor dela; ela estava sentada nela e uma pulga pulou para fora sobre sua mão. Com um silvo de nojo ela pulou para cima e livrou-se dela, estremecendo e coçando.
Então isso era Incarceron.
Era do jeito como ela tinha esperado.
A cela tinha paredes de pedra e as pedras estavam gravadas com nomes antigos e datas, coberto com liquens leitosos e uma incrustação de algas. Acima, a aresta da abóbada estava perdida na escuridão. Não havia janelas, as paredes eram altas, mas pareciam estar cobertas. Nada mais.
Mas a porta da cela estava aberta.
Claudia tomou outra respiração, tentando não tossir. A cela estava em silêncio, um pesado e opressivo silêncio que era frio e úmido. Um audível silêncio. E no canto da cela, ela viu um Olho.
Um pequeno Olho vermelho que a observava impassivelmente.
Ela se sentiu normal. Nem dormente ou doente. Ela olhou para si mesma, suas mãos segurando a Chave. Ela era realmente tão minúscula? Ou era alguma noção de tamanho relativo—era essa a normalidade, o lado de fora do Reino um lugar de gigantes?
Ela cruzou a porta. Não tinha sido trancada por um longo tempo. Correntes penduradas lá, mas elas estavam corroídas dentro de uma massa de ferrugem, e as dobradiças estavam comidas ao longo tanto que a porta pendeu em um ângulo. Ela abaixou dentro da passagem.
Era um pavilhão de pedra e imundo, e esticava-se pela escuridão.
Ela olhou a Chave, operando mais imagens. “Finn?” ela sussurrou. Nada aconteceu.
Só, ao longo do corredor, alguma coisa cantarolava. Uma lamentação em um tom baixo, como uma máquina sendo ativada. Ela jogou a Chave fora apressadamente, seu coração batendo. “É
você?”
Nada.
Ela deu dois passos, então parou. O som veio de novo, longo à frente, um suave e estranhamente questionador som. Ela viu o Olho vermelho abrir, virando lentamente através de um meio círculo, em seguida ele parou e girou de volta em direção a ela. Ela manteve-se muito quieta.
“Eu vejo você,” uma voz disse suavemente. “Eu reconheço você.” Não a de Finn. Nem de ninguém que ela conhecia.
“Eu nunca me esqueci de nenhuma de minhas crianças. Mas você não esteve aqui por um tempo.
Eu não estou certo de que eu entenda isso.”
Claudia limpou o rosto com a mão suja. “Quem é você? Eu não vejo você.”
“Sim você pode. Você está em pé sobre mim, respirando-me.”
Ela recuou, olhando para baixo, mas havia somente um chão de pedra, a escuridão.
O Olho vermelho a observou. Ela respirou o ar doentio. “Você é a Prisão.”
“Eu sou.” Ela soava fascinada. “E você é a filha do Diretor.”
Ela não podia falar. Jared tinha dito que ela era uma inteligência, mas ela não tinha esperado que fosse assim.
“Vamos ajudar uns aos outros, Claudia Arxela?” A voz era calma e tinha um leve eco.
“Você está procurando por Finn e seus amigos. Eu não estou certa disso?”
“Sim.” Ela deveria ter dito isso?
“Eu vou conduzir você para eles.”
“A Chave vai fazer isso.”
“Não use a Chave. Ela interfere com meus sistemas.”
Ela estava enganada, ou aquilo tinha sido inquietação, quase aborrecimento? Ela começou a andar vagarosamente, para dentro do corredor escuro. “Eu vejo. E o que você quer em troca?”
Um som. Poderia ter sido um suspiro, ou leve sorriso. “Não é uma questão que já me fizeram antes. Eu quero que você conte-me o que está do lado de fora. Sapphique prometeu fielmente que ele voltaria e contaria para mim, mas ele nunca o fez. Seu pai não fala dele. Eu começo a me perguntar, do fundo do meu coração, se há um Lado de fora, ou se Sapphique passou apenas para a morte e você vive em um lugar aqui que eu sou incapaz de detectar. Eu tenho um bilhão de Olhos e sentidos, e ainda eu não posso ver fora. Não é apenas um sonho dos prisioneiros de Escapar, Claudia. Mas então, como posso eu escapar de mim mesma?”
Ela chegou a um canto. A passagem bifurcava em duas, ambas escuras, gotejantes e idênticas.
Ela franziu a testa e segurou firmemente a Chave. “Eu não sei. É praticamente o que eu estou tentando fazer. Tudo bem. Leve-me para Finn. E enquanto vamos eu vou contar a você o que está do Lado de Fora.”
Luzes piscaram em frente. “Por aqui.” Ela pausou.
“Você realmente sabe onde eles estão? Isso não é um truque?”
Silêncio. Então, “Oh, Claudia. Quão irritado seu pai estará com você. Quando ele descobrir.”
Ele caiu o dia todo e a noite toda. Ele caiu em um buraco de escuridão. Ele caiu como uma pedra cai, como um pássaro com a asa quebrada, como um anjo expulso. Sua aterrissagem machucou o mundo.
— Lendas de Sapphique
“Mudaram.” Keiro olhou atentamente para a Chave. “As cores.” Finn ergueu o cristal sob um raio de luz. As luzes vermelhas estavam zunindo, piscando em um arco-íris silencioso. A Chave parecia mais quente em sua mão.
“Talvez ela esteja no Lado de Dentro.”
“Então por que ela não fala com a gente?”
À frente, Gildas virou-se, uma sombra mancando na escuridão. “Este é o caminho?
Finn?”
Ele não tinha ideia. Os destroços do navio ficaram muito para trás; o cubo tinha se tornado um funil, estreitando-se enquanto eles saíram dele, os lados e o telhado se fechando, tornando-se uma pedra preta facetada o brilho familiar das paredes de obsidiana.
“Mantenham-se perto de mim,” ele murmurou. “Nós não sabemos até que ponto o campo protetor vai.”
Gildas mal ouvia. Desde que ele tinha falado com Jared a possessão febril de sua busca tinha voltado a ele novamente; ansiosamente ele mancava a frente, examinando os leves arranhões nas paredes, murmurando consigo mesmo. Ele parecia ignorar seus ferimentos, mas Finn suspeitava que eles eram mais graves do que ele admitia.
“O velho tolo está ficando louco,” Keiro murmurou em desgosto. “E então há ela.”
Attia hesitava. Ela parecia estar caminhando deliberadamente devagar; nas sombras ela parecia perdida em pensamentos.
“Foi uma bela manobra a que ela fez.” Keiro seguiu em frente. Ele deu um olhar afiado para Finn.
“Um verdadeiro golpe entre as pernas.”
Finn assentiu. Claudia tinha ficado tão parada. Como alguém esfaqueado com um ferimento profundo se mantém parado, de modo a não sentir dor.
“Mas,” Keiro disse, “Isso significa que existe uma saída. Assim nós podemos sair também.”
“Você é insensível. Você só pensa em si mesmo.”
“E você, irmão.” Seu irmão de juramento olhou em volta, alerta. “Se há um Lado de Fora e você foi algum tipo de rei lá fora, então estou protegendo você como ouro. Príncipe Keiro soa bem para mim.”
“Eu não estou certo que eu possa fazer isso... Ser isso.”
“Você pode. É tudo simulação. Você é um mestre das mentiras, Finn.” Keiro olhou para ele de soslaio. “Você será um naturalmente.”
Por um momento eles trocaram um olhar. Então Finn disse, “Você consegue ouvir alguma coisa?”
Um murmúrio. Flutuando abaixo no corredor, uma rajada de vozes suaves. Keiro desembainhou sua espada. Attia aproximou-se. “O que é isso?”
“Alguma coisa à frente.” Keiro ouviu atentamente, mas o som não veio novamente.
Ainda em pé, uma mão contra a parede, Gildas sussurrou, “Talvez seja Claudia. Ela nos encontrou.”
“Então ela foi muito rápida com isso.” Keiro seguiu em frente suavemente. “Fiquem juntos. Finn, vá no fundo e mantenha a Chave segura.”
Gildas bufou, mas tomou seu lugar entre eles.
Era uma voz. Estava falando em algum lugar à frente, e enquanto eles rastejavam em direção a isso, o corredor tornou-se confuso; grandes correntes colocadas através dele, algemas e grilhões, espalhadas num amontoado de ferramentas, um Besouro quebrado nas costas. Eles passaram por pequenas celas, algumas com portas trancadas, e através da grade de uma Finn viu um pequeno quarto escuro com ratos subindo sobre um prato vazio, uma pilha de panos sujos em um canto, o que poderia ter sido um corpo. Tudo era silêncio. Ele sentiu que esse era um lugar esquecido até mesmo por seus criadores, um canto de si mesma que até Incarceron tinha ignorado por séculos. Tinha sido em algum lugar como esse que o povo da Maestra tinha encontrado a Chave, com os ossos dissecados do homem que a tinha feito, ou a roubado?
Pisando ao redor de um grande pilar que ele percebeu que estava começando a se esquecer dela.
Já parecia há muito tempo, e ainda assim o barulho na ponte, o único olhar dela, ainda estavam dentro dele, esperando por ele para dormir, para pensar que ele estava seguro. E sua compaixão.
Attia o agarrou; ele percebeu que tinha ido caminhando passando por eles.
“Fiquei atento, irmão.” Silvou o rosto feroz de Keiro. Coração batendo, ele tentou limpar sua cabeça. O formigamento em seu rosto desapareceu. Ele tomou uma profunda respiração.
“Tudo bem?”, Gildas sussurrou.
Ele assentiu. O ataque quase se abateu sobre sobre ele. Isso fez com que ele se sentisse doente.
Espreitando em torno do canto, ele olhou fixamente.
As vozes estavam falando em uma língua que ele nunca tinha ouvido falar, de cliques e guinchos e sílabas forçadas. Ela estava se dirigindo ao Besouro e Varredores e Moscas, e os ratos metálicos que saiam das paredes para levar os cadáveres. Milhões deles agachados imóveis no chão do grande salão, cordas enfileiradas e passarelas aéreas, todos eles voltados para uma estrela brilhante que brilhava como uma faísca na escuridão.
Incarceron instruiu suas criaturas e as palavras que falava eram uma miscelânea de sons, uma poesia de estalidos e burburinhos.
“Eles podem ouvir?” Keiro sussurrou.
“Não são apenas palavras.” Era uma vibração também, profunda no coração da escuridão, um som como um grande coração batendo, um grande relógio badalando.
A voz parou. De uma só vez as máquinas giraram e marchando em fila para longe, movendo-se em silenciosas fileiras dentro da escuridão até que o último tinha ido, mal fazendo um som.
Finn moveu-se, mas Keiro o agarrou apertado.
O Olho ainda observava. Sua luz iluminava o salão vazio. Então a voz disse suavemente, “Você tem a Chave com você, Finn? Eu devo pegá-la agora?”
Ele engasgou. Ele queria correr, mas o aperto de Keiro dizia não. Mordendo seus lábios, ele ouviu uma divertida risadinha baixa da Prisão. “Claudia está do Lado de Dentro.
Você sabe disto? É claro que eu pretendo manter você dois separados. Eu sou tão grande, que será muitíssimo fácil. Você não falará comigo, Finn?”
“Ela não tem certeza que estamos aqui,” Keiro murmurou.
“Soa certa para mim.”
Ele tinha uma vontade irracional de sair da proteção da Chave, abrir os braços e sair. Mas Keiro não o deixou ir, e se contorceu ao redor de Attia. “De volta, rápido.”
“É claro que eu sou somente uma máquina,” Incarceron disse acidamente.
“Diferente de você. Ou você está? Você é todo tão puro? Talvez eu deva tentar uma pequena experiência minha própria.”
Keiro o empurrou, em pânico. “Corra!”
Era tarde demais. Houve um silvo e um estalido. A espada voou da mão de Keiro e retiniu contra a parede, ficou lá de cabeça para baixo.
E Finn foi arrastado de volta, batendo contra as pedras, a Chave em sua cintura presa nele lá, a adaga que ele mantinha ricocheteando em seu braço com enorme poder.
“Ah. Agora eu sinto você, Finn. Agora eu sinto seu medo.”
Ele não conseguia se mover. Por um momento de terror que ele pensou que estava sendo sugado para dentro da própria estrutura da parede; em seguida Gildas estava lá puxando ele, e ele deixou a faca ir e sua mão estendeu-se livre, e ele percebeu que a parede tinha se tornado um imã.
Sucatas de ferro, lascas de bronze estavam voando em uma feroz tempestade horizontal; a parede tornou-se um instantâneo grumo com utensílios, construindo um elo de correntes, lidados pela imensidão. Finn esquivava-se, xingando, quando um retiniu bem ao lado de sua orelha. “Desça-me!” ele gritou.
Seu corpo foi esmagado entre a Chave e o imã.
Gildas já tinha segurado o cristal; o velho homem cavou seus calcanhares e exclamou, “Ajude-me,” e as pequenas mãos de Attia agarraram apertado. Lentamente, como se eles fossem puxados longe por dedos invisíveis puxando o peso da Chave dele, ele tombou para frente, tropeçando.
“Vá. Vá! ”
Incarceron riu sua profunda risada. “Mas você não pode ir. Não sem seu irmão.”
Prestes a fugir, ele parou.
Keiro estava junto à parede. Ele tinha uma mão estranhamente apoiada a ela, o dorso de sua mão para a parede preta. Por um momento Finn pensou que ele estava tentando afastar a espada e gritou “Deixe isso!”, mas então Keiro virou e deu a ele um frio olhar de fúria.
“Não é a espada.”
Finn agarrou o braço de seu irmão de juramento e puxou. Estava preso apertado.
“Solte.”
“Eu não estou segurando nada,” Keiro disse. Ele virou seu rosto para longe. Finn olhou mais perto.
“Mas...”
Seu irmão girou e olhou para ele e Finn ficou chocado pela raiva em seus olhos.
“Sou eu, Finn. Você não percebe? Você é tão estúpido? Eu!”
A unha de seu dedo indicador direito. Estava apertada à parede, e quando Finn agarrou sua mão e puxou-a longe, ela ficou lá, uma pequena blindagem segura pelo imã com uma atração que nada poderia quebrar.
“Eu devo deixar ele ir?” A Prisão disse maliciosamente.
Finn olhou para Keiro e Keiro olhou de volta. “Sim,” ele sussurrou.
Com uma violência que fez todos eles estremecerem, cada pedaço de metal caiu da parede em um retumbante estampido.
Claudia parou. “O que foi isso?”
“O quê?”
“Esse barulho!”
“Sempre há ruídos na Prisão. Por favor, continue acerca da Rainha. Ela soa tão—”
“Ele veio lá de baixo.” Claudia olhou para baixo a escura arcada que ela estava passando. Ela viu uma passagem baixa, mal a cabeça elevada rodeada com teias de aranhas.
Incarceron riu, mas havia uma nota de ansiedade em seu humor. “Para encontrar Finn você deve ir em frente.”
Ela ficou em silêncio. Repentinamente ela sentiu sua presença tensa ao seu redor, como se não respirasse, ficou esperando. Ela sentiu-se pequena e vulnerável. Ela disse, “Eu acho que você está mentindo para mim.”
Por um momento, nada. Um rato correu para passagem, ela viu, e escapuliu ao redor. Então a voz disse pensativamente, “Sua opinião de Finn é tolamente romântica; o Príncipe perdido, o herói aprisionado. Você lembra-se de um pequeno garoto e quer estar com ele.
Mas mesmo se Finn é realmente Giles, isso foi uma vida inteira de distância e um mundo atrás e ele não é o mesmo agora. Eu o mudei.”
Ela olhou para dentro da escuridão. “Não.”
“Oh sim. Seu pai está certo. Para sobreviver aqui homens descendem para as profundezas de seus seres. Eles tornam-se bestas, não se importando, nem mesmo vendo a dor dos outros. Finn tem roubado, talvez matado. Como pode certamente um homem retornar para um trono, e governar outros? Quão pode ser ele confiável novamente? Os Sapienti eram sábios, mas eles fizeram um sistema sem compreensão, Claudia. Sem perdão.”
Sua voz estava arrepiante para ela. Ela não queria ouvir, ser arrastada para dentro de suas persuasivas dúvidas.
Ela ativou a Chave, convertendo-se numa passagem baixa, e começou a correr.
Seus sapatos escorregando sobre os escombros que cobriam o chão, ossos e palha, uma criatura morta tão desidratada, que cedeu quando ela pulou sobre ela.
“Claudia. Onde você está?”
Ela estava em tudo ao redor dela, na frente dela, embaixo dela.
“Pare. Por favor. Ou eu terei que parar você.”
Ela não respondeu. Abaixando sob um arco, ela encontrou três tuneis que se reuniam, mas a Chave estava tão quente agora, quase queimando sua mão, e ela mergulhou no túnel da esquerda, passando correndo pelas portas das celas que estavam abertas.
A Prisão retumbou. O chão ondulou, erguendo-se embaixo dela como um tapete.
Ela ofegou quando ele a arremessou para cima; ela aterrissou com um grito, uma perna ensanguentada, mas ela ganhou forças e correu em frente, por que não podia ter certeza de onde ela estava, não com a Chave.
O mundo balançou. Ela inclinava-se de um lado para outro lado. Escuridão fechada, cheiros nocivos vazavam das paredes, morcegos rodeavam em nuvens. Ela não gritaria. Agarrando as pedras, ela arrastou a si mesma para frente, mesmo quando a passagem ergueu-se para cima e tornou-se uma colina, uma íngreme, escorregadio declive, e todos os escombros que se localizavam em cima deslizaram para baixo sobre ela.
E então, logo quando ela queria se deixar ir e deslizar de volta, ela ouviu vozes.
Keiro flexionou seus dedos. Seu rosto estava corado e seus olhos não se encontrariam com os de Finn. Foi Gildas que quebrou o silêncio. “Então eu tenho estado viajando com um meio homem.”
Keiro o ignorou. Ele olhou para Finn, que disse. “Há quanto tempo você sabe?”
“Minha vida toda.” A voz de seu irmão de juramento estava subjugada.
“Mas você. Você era aquele que mais os odiava. Desprezava-os...”
Keiro balançou sua cabeça em irritação. “Sim. Eu os odeio. Eu tenho mais motivos para odiá-los do que você. Você não vê que eles me assustam totalmente?” Ele lançou um olhar para Attia, então gritou para a prisão, “E você! Eu juro que se eu pudesse encontrar seu coração, eu cortaria ele aberto!”
Finn não sabia como ele se sentia. Keiro era tão perfeito, tudo o que ele sempre quis ser. Bonito, arrojado, sem falhas, vivo com aquela confiança prazerosa que ele sempre tinha invejado.
Ele nunca ficava duro de medo.
“Todos os meus filhos pensam isso,” Incarceron disse maliciosamente.
Keiro caiu contra a parede. Estava parecendo ter saído dele. Ele disse, “Ela assusta-me porque eu não sei o quão longe ela vai.” Levantando sua mão, ele flexionou os dedos.
“Ela parece real, não é? Ninguém pode dizer. E como eu sei quanto mais de mim é assim?
Dentro de mim, os órgãos, o coração. Como eu sei?” Havia um tipo de agonia na questão, como se ela tivesse sido perguntada silenciosamente milhões de vezes antes, como se atrás da bravata e da arrogância estivesse o medo que ele nunca tinha revelado.
Finn olhou ao redor. “A Prisão poderia contar a você.”
“Não. Eu não quero saber.”
“Não importa para mim.” Finn ignorou o bufo de Gildas e olhou para Attia.
Calmamente ela disse, “Então nós somos todos falhos. Mesmo você. Eu sinto muito.”
“Obrigado”. Keiro estava zombando. “A piedade de uma menina-cão e um Vidente das Estrelas.
Isso realmente me faz sentir melhor.”
“Nós estamos apenas—”
“Poupe-me. Eu não preciso disso.” Ele afastou a mão estendida de Finn e puxou a si próprio de pé. “E não pensem que isso me muda. Eu ainda sou eu.”
Gildas mancou passando. “Bem, você não conseguiu piedade de mim. Vamos continuar.”
Keiro olhou para suas costas com uma rigidez de ódio que fez Finn mover-se para frente; seu irmão de juramento apanhou sua espada do chão, mas quando ele deu um passo no encalço do Sapiente, a Prisão tremeu e estremeceu.
Finn agarrou a parede.
Quando o mundo parou de se mover, o ar estava espesso com poeira; que pairava como uma névoa, e havia um zumbido em seus ouvidos. Gildas estava silvando com dor.
Attia estendeu a mão para cima; ela apontou através dos gases venenosos. “Finn, o que é aquilo?”
Por um momento ele não tinha ideia. Então ele viu que era um rosto. Um rosto que estava estranhamento limpo, com espertos olhos brilhantes e um emaranhado de cabelos amarrados às pressas. Um rosto que estava olhando fixamente para ele fora das brumas do passado sobre as chamas minúsculas de velas em cima de um bolo que ele inclinou-se sobre e soprou com um fatigante suspiro.
“É você?” ela sussurrou.
Ele assentiu, em silêncio, sabendo que essa era Claudia.
Vocês nos agradecerão por isso. Energia não será gasta em máquinas frívolas. Nós aprenderemos a viver de forma simples, não perturbados por ciúmes e desejos. Nossas almas serão tão serenas quanto os mares sem marés.
—Decreto do Rei Endor
Os soldados chegaram depois de duas horas. Jared esteve esperando por eles; ele tinha ficado na cama duro no silencioso quarto e ouvido os sons do palácio através da janela aberta; os cavalos galopando muito distantes, os treinadores, a debandada, os gritos.
Era como se Claudia tivesse colocado uma vara num formigueiro e agora elas estavam tomadas pelo pânico, sua Rainha ameaçada e sua paz desaparecida.
A Rainha. Conforme ele se sentou rigidamente, ele olhou para os homens e esperou que ele não tivesse que enfrentar sua fúria.
“Mestre.” O servo uniformizado parecia envergonhado. “Você vem conosco, senhor.”
Sempre o Protocolo. Ele os salvava de enfrentar a verdade. Quando eles o levaram para baixo das escadas, os guardas caíram discretamente por trás, suas armas velhas seguradas como bastões de trabalho.
Ele já havia sido tomado por todas as emoções. Terror, arrogância, desespero.
Agora tudo o que havia restado era uma espécie de resignação maçante.
Não importa o que o Diretor fizesse com ele, tinha que ser suportado. Claudia tinha que ter tempo.
Para sua surpresa eles o levaram para os antigos quartos do estado, onde os aflitos embaixadores discutiam e mensageiros corriam para dentro e para fora, até uma pequena sala na ala leste.
Quando eles o anunciaram ele viu que era um dos salões privados da Rainha, repleto de frágeis móveis dourados, um elaborado relógio sobre a lareira repleta de querubins e pastoras com sorrisos afetados.
Apenas o Diretor estava aqui.
Ele não estava sentado na cadeira, mas sim de pé, encarando a porta. Duas poltronas foram arrumadas em ângulos acessíveis a lareira, onde uma grande tigela de pot-pourri descansava no topo dela.
Ainda parecia uma armadilha.
“Mestre Jared.” O Diretor indicou uma cadeira com um longo dedo. “Por favor, sente-se.”
Ele estava contente em fazê-lo. Ele sentia-se sem fôlego e tonto.
“Um pouco de água.” O Diretor a despejou e trouxe lhe deu a taça. Enquanto bebia Jared sentiu o pai de Claudia... Não, não o pai dela... Observando-o atentamente.
“Obrigado.”
“Você não comeu?”
“Não... Eu suponho... Em toda a agitação...”
“Você deveria cuidar melhor de si mesmo.” A voz era áspera. ” Muitas horas trabalhando nesses dispositivos proibidos.”
Ele acenou com a mão. Jared viu que a mesa próxima à janela estava coberta com pedaços de seus experimentos, os scanners, as câmeras, os dispositivos para bloquear alarmes. Ele não disse nada. “É claro que você entende que tudo isso é ilegal.” Os olhos do Diretor eram gelados. “Nós sempre permitidos aos Sapienti uma certa margem, mas você parece que vem tendo grande vantagem.” Então ele disse, “Onde está Claudia, Mestre?”
“Eu lhe disse—”
“Não minta para mim. Ela não está em casa. Não há cavalos faltando.”
“Talvez... Ela possa estar a pé.”
“Eu acredito que ela esteja.” O Diretor está sentado diante dele. Seus calções de cetim preto vincando elegantemente. “E talvez você tenha achado que não estava mentindo quando disse casa.”
Jared baixou o copo. Eles se encararam.
“Como ela descobriu?” John Arlex disse.
Jared decidiu, meio que repentinamente, dizer a verdade. “A garota na Prisão contou a ela, Attia, amiga de Finn. A partir de alguns registros que ela havia descoberto.”
O Diretor assentiu em lenta apreciação. “Ah sim. Como ela recebeu isso?”
“Ela estava... Muito chocada.”
“Furiosa?”
“Sim.”
“Eu não esperaria nada mais.”
“E magoada.”
O Diretor lançou lhe um afiado olhar penetrante, mas Jared devolveu calmamente.
“Ela sempre esteve tão segura quanto a ser sua filha, senhor. Sabia quem era. Ela... Se importa com você.”
“Não minta para mim.” O súbito rosnado o atingiu com sua raiva. O Diretor levantou e andou pela sala. “Sempre houve apenas uma pessoa com quem Claudia tenha se importado na vida, Mestre Sapiente. E essa pessoa é você.”
Jared ficou parado. Seu coração martelou. “Senhor...”
“Você pensou que eu era cego?” O Diretor se virou. “Certamente não. Oh, ela teve sua enfermeiras e suas camareiras, mas Claudia está muito acima de seu nível e ela soube disso cedo.
Toda vez que eu chegava em casa eu via como vocês riam e conversavam, como ela se agitava com seu casaco se ele estava frio, andava trazendo leites temperados e doces, como vocês tinham suas piadas privadas, seus estudos juntos.” Ele cruzou os braços e olhou para fora da janela.
“Comigo ela era distante, reservada. Ela não me conhecia. Eu era um estranho, o Diretor, um grande homem na Corte, alguém que vinha e ia. Alguém com quem ser cauteloso. Mas você, Mestre Jared, você era tutor dela, irmão dela, e mais pai dela do que eu jamais fui.”
Jared estava gelado agora. Por trás do controle de ferro do Diretor estava uma chama de ódio; ele nunca havia sentido a profundidade disso antes. Ele tentou respirar calmamente.
“Como você acha que era, Mestre?” O diretor andou ao redor. “Você acha que eu não senti isso?
Você acha que eu não sofri, não sabendo o que fazer, como mudar isso, ciente de que com cada palavra que eu falava eu a estava enganando; todos os dias, só por estar lá, por deixá-la pensar que ela era minha.”
“Ela... Isso é o que ela não vai esquecer.”
“Não me diga como ela pensa!” John Arlex veio e ficou sobre ele. “Eu sempre tive inveja de você.
Não é bobagem? Um sonhador, sem família, tão frágil que alguns golpes poderiam matá-lo. E o Diretor de Incarceron está doente de raiva.”
Jared conseguiu dizer “Eu... sou muito afeiçoado a Claudia...”
“Você sabe, é claro, há rumores sobre vocês.” O Diretor oscilou abruptamente e sentou-se novamente. “Eu não acredito neles; Claudia é voluntariosa, mas não estúpida.
No entanto, a Rainha acredita, e deixe-me dizer Jared, no momento a Rainha está gritando por vingança. Em qualquer um. Evian está morto, mas o enredo obviamente incluía outros. Você, por exemplo.”
Ele estremeceu. “Senhor, você sabe bem que não é assim.”
“Você sabia disso. Não sabia?”
“Sim, mas...”
“E você não fez nada. Não contou a ninguém.” Ele se inclinou para frente. “Isso é traição, Mestre Sapiente, e poderia levá-lo facilmente à forca.”
No silêncio, alguém chamou do lado de fora. Uma mosca zumbia ao redor da sala e batendo contra a janela.
Jared tentou pensar, mas não havia tempo. O Diretor retrucou: “Onde está a Chave?”
Ele queria mentir. Inventar algo. Mas ao invés disso ele manteve silêncio.
“Ela levou com ela, não é?”
Ele não respondeu. O Diretor xingou. “O mundo inteiro acha que Giles está morto.
Ela poderia ter tido tudo, o reino, o trono. Será que ela acha que eu deixaria Caspar entrar em seu caminho?”
“Você estava na trama?” Jared disse lentamente.
“Trama! Evian e seus sonhos ingênuos de um mundo sem protocolo! Nunca houve um mundo sem Protocolo. Eu teria deixado os Lobos De Aço lidar com a Rainha e Caspar, e em seguida eles seriam executados, simples. Mas agora ela se voltou contra mim.”
Ele estava olhando fixamente do outro lado da sala. Jared disse gentilmente, "A história que você disse a ela... Sobre a mãe dela.”
“Isso era verdade. Mas quando Helena morreu o bebê estava doente e eu soube que ele morreria também. E o que seria dos meus planos? Eu precisava de uma filha, Mestre. E eu sabia onde conseguir uma.’’ Ele se sentou na poltrona em frente. “Incerceron é um fracasso. Um inferno. Os diretores sempre souberam disso, mas não há remédio, então nós mantivemos segredo. Eu achei que resgataria uma alma de lá, pelo menos. Nas profundezas da prisão eu encontrei uma mulher que estava tão desesperada que ela estava disposta a participar com sua filha recém-nascida. Eu paguei bem. Seus outros filhos sobreviveram por causa disso.”
Jared concordou. A voz do Diretor tinha baixado; parecia que ele estava falando para si mesmo, como se ele tivesse justificado isso infinitamente ao longo dos anos.
“Ninguém percebeu, exceto a Rainha. Aquela bruxa deu uma olhada para a criança e soube.”
E repentinamente, entendimento atingiu Jared. Fascinado, ele disse, “Claudia sempre quis saber por que você concordou com a trama contra Giles. Foi porque a Rainha...” Ele parou, sem saber as palavras, mas o Diretor acenou com a cabeça sem olhar para cima.