Incarceron
Cuidado com a neve
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Ele viu uma tremulação de cores. Era tão brilhante que fez seus olhos lacrimejarem, o fez arfar.
Formas se moviam lá, um mundo verde, um céu tão azul quanto em seus sonhos, uma grande criatura negra e âmbar zunindo se arremessando na direção dele.
Ele gritou e cambaleou para trás, sentiu Keiro agarrar os dois braços detrás.
“Continue olhando, irmão. O que você vê? O que é, Finn?”
Ele desmoronou. Toda a força se foi de suas pernas e ele caiu no monte de folhas.
Attia empurrou Keiro para longe. Rapidamente ela despejou água numa xicara e a segurou para Finn; cegamente, ele pegou e engoliu de uma vez, depois fechou os olhos e pôs a cabeça nas mãos, tonto e enjoado. Sentiu ânsia. Então vomitou.
Acima dele, vozes protestaram. Quando ele pode ouvir, ele percebeu que a de Attia era uma delas.
“...tratando ele daquele jeito. Você não vê que ele está doente!”
A risada de Keiro era desdenhosa. “Ele vai superar isso. Ele é um vidente. Vê coisas. Coisas que precisamos saber.”
“Você não se importa com ele?”
Finn ergueu a cabeça. A garota está encarando Keiro, suas mãos em punhos dos lados. Seus olhos tinham perdido a olhar ferido; agora eles ardiam com fúria.
Keiro manteve o sorriso zombeteiro. “Ele é meu irmão. Claro que me preocupo com ele.”
“Você só se preocupa com você mesmo.” Ela virou para Gildas. “E você também.
Mestre. Você...”
Ela parou. Gildas, obviamente não estava escutando. Ele ficou apoiando um braço na árvore de metal, olhando fixamente adiante. “Venha aqui,” ele disse em voz baixa.
Keiro estendeu a mão e Finn pegou-a, se levantando grogue. Eles andaram até o Sapienti e ficaram atrás dele; olhando, eles viram o que ele viu.
A floresta acabava aqui. Adiante uma estreita estrada corria para uma cidade. Ela ficava atrás de muros em uma paisagem escaldante de planícies nuas. Casas se aglomeravam, construídas de emplastros de metal, torres e ameias construídas de estranha madeira negra, cobertas com estanho e folhas de cobre.
Pela estrada toda até a cidade, em longas filas barulhentas de risadas e gritos e música, em multidões e carroças carregando crianças e rebanhos de ovelha, centenas e centenas de pessoas estavam andando.
***
Com seus joelhos em cima do assento da carruagem, Claudia leu o pequeno bloco enquanto Alys dormia. A carruagem pulou; do lado de fora, os verdes bosques e campos de Wardenry chacoalhavam em uma nuvem de poeira e moscas.
Meu nome é Gregor Bartlett. Este é meu testamento. Eu rezo que aqueles que encontrarem-no o mantenha a salvo, e quando a hora chegar, o use porque uma grande injustiça foi feita e somente eu estou vivo e sei sobre ela.
Eu trabalhei no Palácio desde meus primeiros anos de vida. Eu era um menino firme e um mensageiro, então um servo da casa. Eu me tornei de confiança, cresci para ser importante. Eu era o criado da Câmara para o falecido Rei, e eu me lembro de sua primeira esposa, a frágil e atraente mulher do outro lado do mar que ele casara quando os dois eram jovens. Quando seu primeiro filho, Giles, nasceu eu fui responsável por ele. Eu arrumei a ama, nomeei as empregadas do quarto do bebê. Ele era o Herdeiro; nenhuma despesa foi poupada por seu conforto. Enquanto o garoto crescia eu comecei a ama-lo como a mim mesmo. Ele era uma criança feliz. Mesmo quando sua mãe morreu e o Rei casou novamente, ele viveu na sua ala do Palácio, rodeado de seus preciosos brinquedos e animais de estimação, sua própria criadagem. Eu não tenho filhos.
O garoto se tornou minha vida.
Você deve acreditar nisso.
Gradualmente, eu senti uma mudança. Enquanto ele crescia, seu pai vinha até ele cada vez menos. Havia um segundo filho agora, Conde Caspar, um barulhento bebê, mimado pelas mulheres da Corte. E havia a nova Rainha.
Sia é uma mulher estranha, distante. Eles dizem que o Rei olhou para fora de sua carruagem uma vez quando ele estava passando na estrada da floresta, e ela estava lá, na encruzilhada. Dizem que quando ele passou por ela ele viu seus olhos – eles são estranhos olhos, com pálidas íris – e depois desse momento ele não pode parar de pensar nela. Ele enviou mensageiros de volta, mas ninguém estava lá. Ele procurou nas vilas e propriedades próximas, emitiu proclamações, ofereceu recompensas para seus nobres, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Então, semanas depois; quando ele caminhava nos jardins do Palácio, ele levantou os olhos e ela estava lá, sentada ao lado da fonte.
Ninguém conhece seu parentesco, ou de onde ela vem. Eu acredito que ela é uma feiticeira. O
que se tornou claro logo após que seu filho nasceu, foi seu ódio por Giles. Ela nunca mostrou isso ao Rei ou sua Corte; para eles ela era cuidadosa ao honrar o Herdeiro. Mas eu vi isso.
Ele ficou noivo aos sete anos da filha do Diretor de Incarceron. Uma arrogante garotinha, mas ele parecia gostar dela...
Claudia sorriu. Olhando de relance para Alys ela se debruçou na janela. A carruagem de seu pai estava atrás; ele devia estar dividindo ela com Evian. Ela rolou o texto para baixo.
...a felicidade de sua festa de aniversário, uma noite quando nós remamos no lago sob as estrelas e ele me disse quão feliz ele estava. Eu nunca esquecerei as palavras dele para mim.
A morte de seu pai o afetou muito. Ele se tornou solitário. Não comparecia às danças e jogos.
Ele estudava muito. Eu imagino agora, se ele começara a temer a Rainha. Ele nunca disse isso.
Agora eu passarei ao final. O dia antes do acidente de equitação? Eu recebi uma mensagem que minha irmã, que vivia em Casa, estava doente. Eu pedi a Giles para me dar licença para ir até ela; o amado menino estava tão preocupado, e insistiu que as cozinhas me fizessem um pacote de iguarias para levar para ela. Ele também se certificou que eu tivesse uma carruagem. Ele se despediu de mim nos degraus da Corte Externa. Foi a última vez que eu o vi.
Quando eu cheguei, minha irmã estava em excelente saúde. Ela não tinha conhecimento de quem mandara a mensagem.
Meu coração me receou. Eu pensei na Rainha, eu queria retornar no mesmo tempo, mas o cocheiro, que devia ser um homem da Rainha, recusou, dizendo que os cavalos estavam exaustos.
Eu não sou mais um cavaleiro, mas eu selei um cavalo da pousada e cavalguei de volta, galopando muito, a noite toda. Eu não tentarei escrever as agonias de preocupação que senti. Eu vim pela colina e vi os milhares pináculos da Corte, e eu vi em cada um deles uma flamula negra tremular.
Eu me lembro de pouco depois disso.
Eles colocaram seu corpo em um esquife na Grande Câmara do Conselho, e depois estava pronto, eu pedi licença para aproximar dele. Uma mensagem veio da Rainha, com um homem para me escoltar. Ele era o secretário do Diretor, um homem alto e calado chamado Medlicote...
Claudia estava tão surpresa que assoviou. Alys roncou e virou.
... Eu subi os degraus como uma criatura quebrada. Meu garoto estava deitado lá e eles o tinham deixado bonito. Eu me abaixei para beijar sua face com as lágrimas cegando meus olhos.
Então eu parei.
Oh, eles fizeram um bom trabalho. Quem quer que fosse o garoto, ele era da idade e cor certa, e a maquiagem fora usada cuidadosamente. Mas eu sabia, eu sabia.
Não era Giles.
Eu acho que ri. Um grito sufocado de alegria. Eu rezo que ninguém percebeu, que ninguém saiba.
Eu solucei, me retirei, encenei o inconsolável velho. E ainda assim eu sei o segredo que a Rainha, e talvez o Diretor, não querem que ninguém saiba.
Que Giles está vivo.
E onde mais ele poderia estar, senão em Incarceron?
Alys grunhiu e bocejou e abriu os olhos. “Já estamos próximos da pousada?” ela perguntou com sono.
Claudia olhou o pequeno bloco, os olhos arregalados. Ela olhou para a ama como se nunca tivesse visto-a antes. Depois olhou para baixo e leu a última frase de novo.
E de novo.
Não me desafie, John. E fique de guarda.
Há tramas na Corte, e conspirações contra nós. Quanto a Claudia, pelo que você diz, ela já viu o que procura. Como é divertido que ela nem reconheceu.
—Rainha Sia para o Diretor; carta privada
Levou horas antes que ela pudesse ficar a sós com Jared. Houve uma confusão para encontrar seus quartos a hospedeira se inclinando e esfregando, a refeição, a conversinha interminável de Evian, a calma cuidadosa do seu pai, as reclamações de Caspar sobre seu cavalo.
Mas, finalmente, bem depois da meia-noite, ela bateu na porta do seu sótão e entrou.
Ele estava sentado na janela olhando as estrelas com um passado bicando pão das suas mãos. Ela disse, “Você nunca dorme?”
Jared sorriu. “Claudia, isso é estupidez. Se pegarem você aqui, você sabe o que vão pensar.”
Ela disse, “Eu estou te colocando em perigo, eu sei. Mas temos de conversar sobre o que ele escreveu.”
Ele ficou um momento em silêncio. Então liberou o passado, fechou a janela, e se virou, e ela viu as sombras debaixo dos seus olhos. “Sim.”
Eles se olharam. Finalmente, ela disse, “Eles não mataram Giles. Eles o aprisionaram.”
“Claudia...”
“Eles não iriam derramar o sangue de Havaarna! Ou talvez a Rainha tenha medo.
Ou meu pai...” Ela olhou para cima. “É verdade. Meu pai deve saber.”
O vazio na sua voz chocou a ambos. Ela se sentou na cadeira. “E há algo mais. Esse garoto Finn.
O prisioneiro. A voz dele... parece familiar.”
“Familiar?” Ele olhou atentamente para ela.
“Eu a ouvi antes, Mestre.”
“Você imagina isso. Não faça essa suposição, Claudia.”
Ela ficou quieta por um momento. Então encolheu os ombros. “Para o caso de precisarmos tentar novamente.”
Jared anuiu. Ele trancou a porta, prendeu um pequeno dispositivo nela e o ajustou.
Então se virou.
Claudia já tinha a Chave. Ela ativou o canal de comunicação, e então o pequeno circuito visual que eles tinham descoberto. Ele ficou atrás dela, observando o holograma das asas de águia batendo silenciosamente.
“Você deletou o bloco?”
“É claro. Completamente.”
Enquanto a Chave começava a brilhar, ele disse quietamente. “Eles não tiveram problema em derramar o sangue do velho, Claudia. Eles podem até saber que já procuramos a casa dele. Podem temer o que encontramos.”
“Por eles você quer dizer meu pai.” Ela olhou para cima. “Ele não vai me machucar.
Se me perder, ele perde o trono. E eu vou proteger você, Mestre, eu juro.”
O sorriso dele era triste. Ela sabia que ele não acreditava que ela podia.
Muito baixinho, a Chave falou. “Pode me ouvir?”
Claudia disse, “É ele! Toque o painel, Finn. Toque-o! Você encontrou?”
“Sim.” Ele parecia hesitante. “O que vai acontecer se eu tiver encontrado?”
“Seremos capazes de ver um ao outro, achamos. Não vai te machucar. Tente, por favor.”
Houve um segundo de silêncio, alguns estalos. E então Claudia quase pulou para trás. Fora da chave um feixe de luz era projetado silenciosamente. Abriu para um quadrado, e encolhido nele, assustado e magro, havia um garoto.
Ele era alto e muito magro, seu rosto faminto e ansioso. Seu cabelo era liso e longo, amarrado para trás em um nó, e suas roupas eram as mais desmazeladas que ela já tinha visto, com sujos cinzentos e esverdeados, muito gastas. Uma espada e uma faca enferrujada estavam presas no seu cinto.
Ele a encarava com surpresa.
***
Finn viu uma rainha, uma princesa.
Seu rosto era limpo e claro, seu cabelo brilhava. Ela usava um vestido de alguma seda lustrosa, e um solar de pérolas que poderia valer uma fortuna se um comprador pudesse se encontrar rico o suficiente. Ele viu imediatamente que ela nunca passou fome, que sua mente era clara e inteligente. Atrás dela um homem moreno e sério observava, usando um casaco de Sapiente que provocava vergonha ao trapo de Gildas.
Claudia ficou em silêncio por tanto tempo que Jared olhou para ela. Ele viu que ela estava chocada, provavelmente pela condição do garoto, então ele falou suavemente.
“Parece que Incarceron não é nenhum paraíso.”
O garoto olhou para ele. “Isso é uma piada, Mestre?”
Jared balançou a cabeça tristemente. “Não, de fato. Conte-nos como você chegou à esse artefato.”
Finn olhou ao redor. A ruina estava silenciosa e escura; a sombra de Attia estava encolhida na entrada, observando a escuridão do lado de fora. Ela deu a ele um pequeno aceno de segurança.
Ele olhou de volta para a projeção, temendo que a luz os entregasse.
Enquanto ele os contava sobre a águia no seu pulso, ele observou Claudia. Ele era bom em ler rostos, mas o dela era difícil, tão controlado, tão cheio de segredos, embora o leve arregalar dos seus olhos disse a ele que ela estava fascinada. Então ele começou a contar mentiras, sobre encontrar a Chave em um túnel deserto, apagando a Maestra, a sua morte, a sua vergonha, como se nada disso tivesse acontecido. Attia olhou para ele, mas ele manteve seu rosto afastado. Ele os contou sobre o Comitatus, sobre a luta terrível que ele teve com Jormanric, como ele tinha derrotado o gigante em um único combate, roubado três anéis-caveira de suas mãos, tirado seus amigos do inferno. Sobre como eles estavam seguindo a trilha sagrada para fora da Prisão.
Ela ouviu com atenção, fazendo breves perguntas. Ele não tinha ideia de se ela acreditava em alguma coisa. O Sapient estava em silêncio, uma vez apenas levantando uma sobrancelha, quando Finn falou das Gildas.
“Então os Sapienti ainda sobrevivem? Mas o que aconteceu ao Experimento, às estruturas sociais, ao suprimento de comida? Como tudo ruiu?”
“Não se importe com isso,” Claudia disse impacientemente. “Você não vê o que a marca significa, Mestre? Não vê?” Ela se inclinou para frente, ávida. “Finn. Por quanto tempo você esteve em Incarceron?”
“Eu não sei.” Ele fez uma careta. “Eu... só lembro...”
“O quê?”
“Os últimos três anos. Eu tenho... Memórias, mas—” Ele parou. Ele não queria contar a ela sobre os ataques.
Ela assentiu. Suas mãos estavam apertadas sobre seu colo, ele viu. Um anel de diamante brilhava em um dedo. “Ouça, Finn. Eu pareço familiar para você? Você me reconhece?”
O coração dele deu um salto. “Não. Eu deveria?”
Ela estava mordendo o lábio. Ele sentiu sua tensão. “Finn, me escute. Acho que você pode ser...”
***
“Finn!”
O grito de Attia foi reprimido. Uma mão a agarrou e tapou sua boca. “Tarde demais,” Keiro disse alegremente.
Fora da escuridão Gildas entrou e olhou para a projeção. Por um segundo ele e Jared dividiram um olhar assustado.
Então a tela ficou preta.
O Sapiente soprou uma oração. Ele se virou e olhou para Finn, e a obsessão estava de volta aos seus duros olhos azuis. “Eu vi! Eu vi Sapphique!”
Finn de repente se sentiu muito cansado. “Não,” ele disse, observando Attia tentar se soltar o aperto de Keiro. “Não era.”
“Eu vi, garoto tolo! Eu o vi!” O velho se ajoelhou dolorosamente ante a Chave. Ele estendeu a mão e a tocou. “O que ele disse, Finn? Qual era a mensagem dele para nós?”
“E por que você não nos contou que você podia ver pessoas com isso?” Keiro repreendeu. “Não confia em nós?”
Finn encolheu os ombros. Ele, não Claudia, tinha feito a maior parte da conversa, ele percebeu.
Mas ele tinha de continuar a mantê-los imaginando, então ele disse, “Sapphique... nos alerta.”
“De quê?” Cuidando de sua mão mordida, Keiro lançou a garota um olhar azedo.
“Vadia,” ele murmurou.
“Do perigo.”
“De que tipo? Todo o lugar é—”
“De cima.” Finn murmurou aleatoriamente. “Perigo de cima.”
Juntos, eles olharam para cima.
Instantaneamente Attia gritou e se jogou para o lado; Gildas praguejou. A rede caiu como uma teia de uma super-aranha, cada ponta pesada; caiu em cima de Finn, jogando-o no chão com o impacto, um levantamento de poeira e morcegos berrando. Por um momento a respiração estava presa para ele, então ele percebeu que Gildas estava lutando e se enrolando ao seu lado, que dois deles estavam presos nas cordas pesadas e pegajosas como resina lamacenta.
“Finn!” Attia se ajoelhou e puxou a rede; a mão dela se prendeu e ela a puxou bruscamente.
Keiro tinha tirado sua espada; ele a empurrava para o lado e cortava os cabos, mas eles estavam presos com metal e as cordas retiniam. Ao mesmo tempo um alarme agudo na ruina começou a lamentar, um gemido alto.
“Não perca seu tempo,” Gildas resmungou. Então, furiosamente, “Saia daqui!”
Keiro encarou Finn. “Não deixo meu irmão.”
Finn lutou para se levantar, mas não pôde. Por um momento todo o pesadelo de estar preso ante aos vagões da Civicry voltou para sua mente; então ele arfou, “Faça como ele diz.”
“Nós podemos tirar essa coisa de você.” Keiro olhou ao redor loucamente. “Se nós tivéssemos algum tipo de eixo.”
Attia agarrou uma estrutura de metal da parede. Ele se desfez em ferrugem em suas mãos e ela o deixou cair com um gemido.
Keiro puxava a rede. O óleo negro escurecia suas mãos e seu casaco; ele praguejava, mas continuava puxando, e Finn tentava levantar, mas depois de um segundo eles todos caíam, derrotados pelo peso.
Keiro se agachou. “Vou encontrar você. Vou te resgatar. Dê-me a Chave.”
“O quê?”
“Dê para mim. Ou eles vão encontra-la em você e tomá-la.”
Os dedos de Finn se fecharam sobre o cristal quente. Por um momento ele viu o olhar assustado de Gildas através da rede; o Sapient disse, “Finn, não. Nós nunca o veremos novamente.”
“Cale sua boca, velho.” Furioso, Keiro se virou. “Dê para mim, Finn. Agora. ”
Vozes do lado de fora. O latir de cachorros na trilha.
Finn se sacudiu. Ele apertou a Chave entre a rede oleada; Keiro a agarrou e a puxou, seus dedos passando óleo na águia perfeita. Ele a colocou dentro da jaqueta, então tirou um dos anéis de Jormanric e colocou no dedo de Finn. “Um para você. Dois para mim.”
O alarme parou.
Keiro recuou, olhando ao redor, mas Attia já tinha sumido. “Vou encontrar você, eu juro.”
Finn não se moveu. Mas logo quando Keiro sumiu na noite da Prisão, ele agarrou as correntes e sussurrou. “Vai funcionar só comigo. Sapphique fala apenas comigo.”
Se Keiro o ouviu, ele não sabia. Porque bem quando as portas se abriram, luzes atingiram seus olhos, os dentes dos cachorros estavam estalando e rosnando para suas mãos e seu rosto.
***
Jared olhou para ela horrorizado. “Claudia, isso é loucura...”
“Podia ser ele. Podia ser Giles. Ah sim, ele parece diferente. Mais magro. Mais desgastado. Mais velho. Mas podia facilmente ser ele. Idade certa, constituição certa.
Cabelo.” Ela sorriu. “Olhos certos.”
Ela caminhou pelo quarto, consumida em inquietação. Ela não queria dizer como a condição do garoto a tinha apavorado. Ela sabia que a falha do Incarceron Experiment era um golpe terrível, que todos os Sapienti seriam atingidos por isso.
Agachando-se de repente perto do fogo morrendo, ela disse, “Mestre, você precisa dormir e eu também. Amanhã vou insistir para que você viaje comigo. Podemos ler as Histórias de Alegon até Alys dormir e então podemos conversar. Hoje à noite, eu só direi isso. Se ele não for Giles, poderia se tornar. Podemos descobrir quem ele é. Com o testamento do velho e a marca no pulso do garoto, haverá dúvida. Dúvida suficiente para parar o casamento.”
“O DNA dele...”
“Não é Protocolo. Você sabe disso.”
Ele balançou a cabeça. “Claudia, não posso acreditar... Isso é impossível...”
“Pense nisso.” Ela se levantou e atravessou o quarto. “Porque mesmo se o garoto não for Giles, Giles está em algum lugar. Caspar não é o Herdeiro, Jared. E eu tenciono provar isso. Se isso significa ir contra a Rainha e meu pai, eu farei.”
Ela parou na porta, não querendo deixa-lo nessa dor, querendo dizer algo que aliviaria seu sofrimento. “Temos de ajuda-lo. Temos de ajudar todos daquele inferno.”
Ele deu as costas para ela, mas assentiu. Desoladamente, falou. “Vá para cama, Claudia.”
Ela saiu pelo correndo turvo. Uma vela queimava ao longe, em uma alcova.
Enquanto ela caminhava com seu vestido sussurrando contra o chão, e a sua porta ela parou e olhou para trás.
A hospedaria parecia silenciosa. Mas do lado de fora da porta que devia ser de Caspar, um pequeno movimento repentino a assustou, e ela mordeu o lábio em desalento.
O homem grande, Faz, estava deitado ali sobre duas cadeiras.
Ele estava olhando diretamente para ela. Ironicamente, com um olhar malicioso que deu a ela arrepios, ele acenou com a caneca na mão.
Em antigos estatutos a Justiça foi sempre cega. Mas e se ela vê, vê tudo, e seu Olho é frio e sem Misericórdia? Quem se salvaria de tal olhar?
Ano após ano Incarceron reforçou seu domínio. Fez um inferno do que deveria ter sido o Céu.
O Portão está trancado; aqueles de fora não podem ouvir nossos gritos. Então, em segredo, comecei a moldar uma chave.
—Diário de Lorde Calliston
Quando passou sob o portão da Cidade, Finn viu que ele tinha dentes.
Ele era desenhado como uma boca escancarada, dentada com incisores de metal que pareciam navalhas afiadas. Ele pensou que havia algum mecanismo que fechava o portão em emergências, criando um bloqueio em mordida intransponível.
Deu uma olhada em Gildas, encostado cansadamente na carroça. Finn disse, “Deve haver alguém do seu povo aqui.”
O Sapiente coçou o rosto com as mãos atadas e disse secamente, “Se há, eles não inspiram muito respeito.”
Finn amarrou a cara. Isso tudo era culpa de Keiro. A primeira coisa que os homens-garça fizeram depois de tira-los da armadilha foi procurar a trouxa de Gildas. Eles jogaram fora os pós e pomadas, as penas de escrever cuidadosamente embrulhadas, o livro das Canções de Sapphique que ele sempre carregava. Nada daquilo importava. Mas quando eles encontraram os pacotes de comida, ele tinham se olhado. Um deles, um cara esquelético, virou nas pernas de pau e disse bruscamente, “Então, vocês são os ladrões.”
“Escuta, amigo,” Gildas disse sombriamente, “não sabíamos que a ovelha era sua.
Todo mundo tem que comer. Eu te pagarei, com minha sabedoria. Sou um Sapiente de alguma habilidade.”
“Oh, você pagará, velho.” O olhar do homem tinha sido raso. Ele olhara para seus companheiros; eles pareceram divertidos. “Com suas mãos, eu pensaria, quando as Justiças virem isso.”
Finn tinha sido preso tão fortemente que as cordas queimaram sua pele. Arrastado para fora, tinha visto uma pequena carroça, arreada em um burro; os Homens–garça pularam nela, deslizando habilmente fora dos estranhos aparelhos de metal.
Amarrado atrás, Finn tropeçara ao lado do velho ao longo da estrada que levava à Cidade. Duas vezes ele olhara para trás, esperando ver Keiro ou talvez Attia, só de relance, um breve aceno, mas a floresta estava longe agora, um reflexo distante de cores impossíveis, e a estrada corria em linha reta, como uma flecha, para baixo na longa ladeira metálica, o chão de cada lado cravejado com espinhos e recortado por abismos.
Impressionado com tais defesas, ele murmurou, “Do que eles têm tanto medo?”
Gildas olhou com cara feia. “Ataque, obviamente. Estão ansiosos para estar dentro antes do Apagar das Luzes.”
Mais que ansiosos. Quase todos da grande multidão que tinham visto mais cedo, já estavam dentro do muro; enquanto eles se apressavam ao portão, um clarim soou na cidadela, e os homens-garça instigaram ferozmente o burro, tanto que Gildas estava sem ar com o ritmo, e quase caiu.
Agora, salvo do lado de dentro, Finn ouviu o tinir de uma ponte levadiça e o chacoalhar de correntes. Será que Keiro e Attia tinham chegado aqui também? Ou eles estavam lá na floresta?
Ele sabia que os homens-garça teriam encontrado a Chave se ele tivesse ficado com ela, mas o pensamento de Keiro a ter, e talvez conversar com Claudia, deixaram-no nervoso. E havia outro pensamento que o preocupava, mas ele não pensaria nisso. Ainda não.
“Vamos.” O líder do partido de forrageamento, o puxou pra cima. “Temos que fazer isso esta noite. Antes do Festival.”
Enquanto se arrastava pelas ruas, Finn pensou que nunca vira tantas pessoas. Os caminhos e passagens estavam enfeitados com lanternas; quando as luzes da Prisão foram apagadas o mundo foi transformado instantaneamente em uma rede de minúsculas centelhas prateadas cintilantes, belas e brilhantes. Havia milhares de presidiários, armando barracas, barganhando em vastos bazares, procurando por abrigo, arrebanhando ovelhas e cavalos em currais e mercados quadrados. Viu mendigos sem as mãos, cegos, sem lábios e orelhas. Viu doenças desfigurantes que o fizeram ofegar e virar as costas. E ainda, nenhum meio-homem. Aqui também, parecia, a abominação era restrita aos animais.
O barulho de cascos se chocando era ensurdecedor; o fedor de esterco e suor, de palha triturada e a repentina doçura vivida de sândalo, de limões. Cachorros corriam em todo lugar, lutando sobre sacos de alimento, remexendo em esgotos, e furtivamente atrás deles os pequenos ratos de cobre que se reproduziam tão rápido se esgueiravam em fendas e soleiras, seus pequeninos olhos vermelhos.
E ele viu que imagens de Sapphique estavam em cada esquina, montadas acima das soleiras e janelas, um Sapphique que erguia sua mão direita para mostrar o dedo que faltava, que segurava na esquerda o que Finn reconheceu, com um silencioso pulo em seu coração, como uma Chave de cristal.
“Você vê...?”
“Vejo.” Gildas sentou sem fôlego num degrau enquanto seus captores se moviam pela multidão.
“Isso é obviamente algum tipo de festival. Talvez em honra de Sapphique.”
“Aquelas Justiças...”
“Deixe a conversa comigo.” Gildas se endireitou, tentou ajustar o manto. “Não diga uma palavra.
Uma vez que souberem quem eu sou, seremos libertados e está bagunça toda será resolvida. Um Sapiente será ouvido.”
Finn fechou a cara. “Espero que sim.”
“O que mais você viu, lá atrás na ruina? O que mais Sapphique disse?”
“Nada.” Ele ficara sem mentiras, e seus braços doeram de ser amarrados na frente.
Medo estava se enfiando em sua mente como um frio de água fria.
“Não que veremos a Chave de novo,” Gildas disse amargamente. “Ou aquele mentiroso Keiro.”
“Eu confio nele,” Finn disse entre os dentes.
“Muito idiota, você.”
Os homens voltaram. Eles puxaram seus prisioneiros para um lado, e os empurraram por uma arcada em uma parede e subiram uma ampla e indistinta escadaria que fazia uma curva para a esquerda. No topo uma grande porta de madeira os confrontou; pela luz das duas lanternas que a guardavam, Finn viu que um enorme olho fora entalhado profundamente na madeira negra; o olho o encarou e ele pensou por um momento que ele estava vivo, que o observava, que era o Olho de Incarceron que estudada curiosamente toda sua vida.
Então os homens-garça bateram na madeira e a porta abriu. Finn e Gildas foram guiados para dentro, um homem de cada lado deles.
A sala, se isso era uma sala, estava completamente escura.
Finn parou instantaneamente; ele respirava com dificuldade, ouvindo ecos, um estranho farfalhar. Seus sensos o alertaram de um grande vazio, diante dele, ou talvez ao lado; ele estava apavorado de dar outro passo em caso de ele despencar em profundezas desconhecidas. Uma memória remota se mexeu em sua mente, um sussurro de algum lugar sem luz, sem ar. Ele se puxou para cima. Ele tinha que se manter alerta.
Os homens se afastaram, e ele se sentiu isolado, não vendo nada, tocando ninguém.
Então, não muito longe na frente dele, uma voz falou.
“Somos todos criminosos aqui. Não é assim?”
Era uma pergunta deprimida, calma, modulada. Ele não tinha ideia se a pessoa que falava era homem ou mulher.
Gildas disse imediatamente, “Não. Eu não sou um criminoso, nem foram os meus antepassados.
Eu sou Gildas Sapiens, filho de Amos, filhos de Gildas, que entrou em Incarceron no Dia do Fechamento.”
Silêncio. Depois, “Eu não pensei que restasse um de vocês.” A mesma voz. Ou era?
Vinha superficialmente da esquerda agora; Finn olhou nessa direção, mas não viu nada.
“Nem eu nem o garoto roubamos você,” Gildas vociferou. “Outro companheiro nosso matou o animal. Foi um erro, mas—”
“Fique calado.”
Finn ofegou. A terceira voz, idêntica às primeiras duas da direita. Devia ter três delas.
Gildas fez um ar de aborrecimento. Até seu silêncio estava zangado.
A voz central disse pesadamente, “Somos todos criminosos aqui. Somos culpados.
Mesmo Sapphique, aquele que Escapou, teve que pagar o débito para Incarceron. Vocês pagarão o débito em sua carne e com seu sangue. Vocês dois.”
Talvez a luz estivesse crescendo, ou talvez os olhos de Finn estivessem se ajustando.
Porque agora ele podia vislumbrá-las; três sombras sentadas diante dele, vestidas em mantos negros que cobria todos seus corpos, usando cocares negros estranhos que ele percebeu de uma vez que eram perucas. Perucas de cabelo liso e negro como corvos. O efeito era grotesco porque os locutores eram muito velhos. Ele nunca vira mulheres tão velhas.
Suas peles eram como couro com rugas, seus olhos de branco leitoso. Cada uma delas tinha a cabeça abaixada; quando seus pés rangeram desconfortavelmente, ele viu como suas faces viraram para seguir o som, e ele percebeu que elas eram cegas.
“Por favor...” ele murmurou.
“Não há apelo. Esta é a sentença.”
Ele deu uma olhada em Gildas. O Sapiente estava observando alguns objetos nos pés das mulheres. Nos degraus em frente da primeira, ficava uma roca áspera de madeira, e dela uma linha saia, um tecido fino prateado. Ele serpenteava e se enrolava nos pés da segunda mulher, como se ela nunca se movesse do banco onde estava sentada, e escondida nessa confusão estava uma vara de medição. A linha, suja e desfiada até agora, corria sobre a cadeira da terceira, para onde um par de tesouras afiadas se apoiava.
Gildas parecia afetado. “Eu ouvi falar se vocês,” ele murmurou.
“Então você saberá que somos as Três Sem Misericórdia, As Implacáveis. Nossa justiça é cega e trata somente de fatos. Vocês roubaram aqueles homens, a evidencia é apresentada.” A idosa do meio inclinou a cabeça. “Concordam, minhas irmãs?”
De cada lado, vozes idênticas sussurraram, “Concordamos.”
“Então deixe a punição dos ladrões ser realizada.”
Os homens vieram para frente, agarraram Gildas, e o forçaram a se ajoelhar. No escuro Finn viu o contorno de um bloco de madeira; os braços do velho foram puxados para baixo e presos através dele no pulso. “Não!” ele ofegou. “Escutem-me...”
“Não fomos nós!” Finn tentou lutar. “Isso está errado.”
Os três rostos idênticos pareceram surdos bem como cegos. A central levantou um dedo magro; uma faca cintilou na escuridão.
“Eu sou um Sapiente da Academia.” A voz de Gildas estava rouca e apavorada.
Gotas de suor sobressaiam em sua testa. “Não serei tratado como um ladrão. Vocês não têm direito...”
Ele foi preso em um cabo rígido; um homem nas suas costas, outro agarrando seus pulsos atados.
A lâmina da faca estava levantada. “Cale-se, velho tolo,” um deles murmurou.
“Podemos pagar. Temos dinheiro. Posso curar doenças. O garoto... o garoto é um vidente. Ele fala com Sapphique. Ele viu as estrelas!”
Isso veio como um grito de desespero. Na mesma hora o homem com a faca parou; seu olhar piscou para as idosas.
Juntas disseram, “As estrelas?” As palavras eram um murmúrio sobreposto, um sussurro interrogativo. Gildas, ofegando por ar, viu sua chance. “As estrelas, Sábias Mulheres. As luzes das quais Sapphique fala. Perguntem a ele. Ele é um Nascido nas Celas, um filho de Incarceron.”
Estavam silenciosas agora. Suas faces cegas viraram na direção de Finn; a do meio ergueu a mão, acenando, e o homem-garça, o empurrou para frente de modo que ela tocou seu braço e o agarrou. Finn se manteve bem parado. As mãos da velha eram ossudas e secas, as unhas longas e quebradas. Ela apalpou pelos seus braços, por seu peito, alcançando seu rosto. Ele queria se desvencilhar dela, tremer, mas se manteve parado, resistindo os dedos frios, ásperos em sua testa, sobre seus olhos.
A outra mulher o encarou, como se uma sentisse por todas. Depois, ambas mãos se pressionaram contra seu peito, a Justiça do meio murmurou, “Sinto seu coração. Ele bate corajosamente, carne da Prisão, osso da Prisão. Sinto o vazio nele, os céus rasgados na mente.”
“Sentimos a tristeza.”
“Sentimos a perda.”
“Ele me serve.” Gildas se levantou e ficou de pé precipitadamente. “Só a mim. Mas eu o dou a vocês, irmãs; ofereço-o a vocês em reparação de nosso crime. Uma justa troca.”
Finn o encarou, assombrado. “Não! Você não pode fazer isso!”
Gildas virou. Ele era uma pequena forma encolhida na escuridão, mas seus olhos estavam duros e espertos com a repentina inspiração, sua respiração irregular. Ele olhou propositalmente para o anel no dedo de Finn. “Não tenho escolha.”
As três idosas viraram-se uma para as outras. Elas não falaram, mas algum reconhecimento pareceu passar entre elas. Uma trepidou uma repentina risada que fez Finn suar e o homem atrás dele murmurar com terror.
“Vamos?”
“Deveríamos?”
“Poderíamos?”
“Aceitamos.” Elas falaram em uníssono. Então a idosa da esquerda se debruçou e pegou a roca.
Seus dedos rachados a giraram; ela pegou a linha e a puxou entre o dedo e o polegar. “Ele será o Escolhido. Ele será o Tributo.”
Finn engoliu. Sentiu-se fraco, suas costas brilharam com suor firo. “Que tributo?”
A segunda irmã mediu o fio, um palmo pequeno. A terceira idosa pegou a tesoura.
Cuidadosamente ela cortou a linha e esta caiu silenciosamente na poeira.
“O Tributo que devemos,” ela sussurrou, “para a Besta.”
***
Keiro e Attia alcançaram a Cidade pouco antes do apagar das luzes, a última légua atrás da carroça da qual o motorista nunca os perceberam. Fora do portão eles saltaram.
“E agora?” ela sussurrou.
“Vamos em frente. Todo mundo está indo.”
Ele caminhou a passos largos e ela olhou com ódio para suas costas, depois correu atrás dele.
Havia um portão menor, e à esquerda uma fenda estreita no muro. Ela imaginou para que era isso, depois viu que os guardas estavam fazendo as pessoas caminharem através dela.
Ela olhou para trás. A estrada estava vazia. Longe, na silenciosa planície as defesas esperavam; no alto, o que poderia ter sido um pássaro voava em círculos como uma fagulha prateada na névoa escura.
Keiro a empurrou para frente. “Você primeiro.”
Quando se aproximaram, o guarda correu um olho hábil sobre eles, depois mexeu a cabeça bruscamente em direção à fenda. Attia a percorreu. Era escuro, um corredor fedorento, e ela emergiu na rua de paralelepípedos da Cidade.
Keiro deu um passo atrás dela.
Instantaneamente, um alarme tocou. Keiro virou; um bipe suave, urgente na parede. Logo acima, Incarceron abriu um Olho e ficou olhando.
O guarda, que estivera fechando o portão, parou. Ele girou, puxando a espada.
“Bem, você não parece...”
Com um soco no estômago Keiro o curvou; outro o mandou batendo no muro. Ele ficou amassado. Keiro tomou folego, depois cruzou até o painel e desligou o alarme com uma pancada.
Quando voltou, Attia estava olhando-o. “Por que você? Por que não eu?”
“Quem se importa?” ele caminhou rapidamente por ela. “Ele provavelmente sentiu a Chave.”
Ela olhou suas costas, no rico justilho e no rabo de cavalo que ele prendia tão cuidadosamente para trás. Em voz baixa, de modo que ele não pode ouvi-la, ela disse, “Então por que você está assustado?”
***
Quando a carruagem se curvou quando ele saltou para dentro, Claudia suspirou com alivio.
“Pensei que você nunca viria.”
Ela se virou da janela e as palavras morreram em sua boa.
“Estou tocado,” seu pai disse secamente.
Ele tirou uma luva e espanou a poeira do assento. Depois ele descansou sua bengala e um livro do lado, e gritou, “Dirija.”
A carruagem rangeu quanto os cavalos foram chicoteados. No momento do chacoalhar dos arreios e da volta balançante no pátio da pousada Claudia tentou parar a si mesma de cair na armadilha. Mas a ansiedade era demais. “Onde está Jared? Pensei...”
“Pedi a ele para viajar com Alys na terceira carruagem esta manhã. Achei que devíamos conversar.”
Era um insulto, claro, entretanto Jared não se importaria e Alys ficaria felicíssima em tê-lo para si. Mas tratar um Sapient como um servo... Ela estava rígida de fúria.
Seu pai a observou por um momento, depois olhou para fora da janela, e ela viu que ele tinha deixado um pouco mais de cinza em sua barba, de modo que sua aparência de grave distinção estava mais forte do que nunca.
Ele disse, “Claudia, poucos dias atrás você me perguntou sobre sua mãe.”
Se ele tivesse batido nela, ela não conseguiria ter ficado mais estupefata. Depois, instantaneamente, ela estava em alerta. Era próprio dele, tomar a iniciativa, para virar o jogo, para atacar. Ele era um mestre em jogar xadrez na Corte. Ela era um peão em seu tabuleiro, um peão que ele faria uma rainha, apesar de tudo.
Lá fora, uma suave chuva de verão estava encharcando os campos. Cheirava doce e fresco. Ela disse, “Sim, perguntei.”
Ele olhou para fora para o campo, seus dedos brincando com as luvas pretas. “É muito difícil para mim, falar sobre ela, mas hoje, nessa jornada em direção a tudo pelo que eu sempre trabalhei, talvez a hora tenha chegado.” Claudia mordeu o lábio.
Tudo que sentiu foi medo. E por um momento, só um fragmento de tempo, algo que ela nunca sentira antes. Sentiu pena dele.
Nós pagamos o tributo dos melhores e mais queridos e agora aguardamos o resultado. Se demorar séculos, não esqueceremos. Como lobos, ficaremos de guarda. Se tivermos que nos vingar, nos vingaremos.
—Os Lobos de Aço
“Casei na meia-idade.” John Arlex assistiu a vegetação densa do verão escurecer o interior da carruagem com reflexos da luz do sol. “Eu era um homem rico—nossa família sempre foi parte da Corte —e o cargo de Diretor havia sido meu na juventude. Uma grande responsabilidade, Claudia. Você não tem ideia do quanto.”
Deu um leve suspiro.
A carruagem sacudia sobre pedras. No bolso do casaco de viagem, ela sentiu a chave de cristal bater contra seu joelho, lembrou-se do medo de Finn, seu rosto faminto.
Eram todos assim, os Prisioneiro que seu pai vigiava?
“Helena era uma mulher bonita e elegante. Nosso casamento não era arranjado, mas um encontro casual em um baile de inverno na Corte. Ela era uma Dama da companhia da última Rainha, a mãe de Giles, uma órfã, a última de sua linhagem.”
Ele parou, como se quisesse que ela dissesse alguma coisa, mas ela não disse. Ela sentia que se falasse quebraria o encanto, que ele pararia. Ele não olhou para ela.
Suavemente ele disse, “Eu estava muito apaixonado por ela.”
As mãos dela estavam apertadas. Ela as fez relaxar.
“Depois de um breve cortejo nos casamos na Corte. Um casamento tranquilo, não como será o seu, mas houve um discreto banquete depois, e Helena sentou-se à cabeceira da minha mesa e riu. Ela se parecia muito com você, Claudia, um pouco mais baixa. Seu cabelo era belo e macio.
Ela sempre usava uma fita de veludo preta em volta do pescoço, com um retrato de nós dois nela."
Ele alisou o joelho distraidamente.
“Quando ela me disse que estava grávida eu estava mais feliz do que posso dizer.
Talvez eu tivesse pensado que o tempo se foi, que eu nunca teria um herdeiro. Que os cuidados com Incarceron passaria da família, que a linhagem dos Arlexi morreria comigo.
Em todo caso, eu cuidei ainda mais dela. Ela era forte, mas as restrições do Protocolo tinham que ser observadas.”
Ele olhou para cima. “Tivemos tão pouco tempo juntos.”
Claudia respirou. “Ela morreu.”
“Quando a criança nasceu.” Ele olhou para longe, pela janela. Sombras das folhas brilhavam em seu rosto. “Tivemos uma parteira e uma das mais renomadas dos Sapienti no atendimento, mas nada poderia ser feito.”
Ela não tinha ideia do que dizer. Nada a havia preparado para isso. Ele nunca tinha falado com ela assim antes. Seus dedos estavam unidos para trás. Ela disse, “Nunca a vi então.”
“Nunca.” Seu olhar sombrio virou-se para ela. “E depois eu não aguentava ver a imagem dela.
Havia um retrato, mas eu o tinha trancado. Agora só existe isso.”
Ele tirou de dentro de sua camisa um pequeno medalhão de ouro, puxou a fita preta por sobre sua cabeça e o estendeu. Por um momento ela estava quase com medo de pegá-lo; quando o pegou, estava quente com o calor do seu corpo.
“Abra-o,” ele disse.
Ela desamarrou. No interior, olhando um para o outro em dois quadros ovais estavam duas miniaturas, primorosamente pintadas. À direita, seu pai, com ar sério e mais jovem, seus cabelos de um rico castanho. E em frente, em um vestido decotado de seda escarlate, uma mulher com rosto doce e delicado, sorrindo, uma minúscula flor em sua boca.
Sua mãe.
Seus dedos tremeram; olhando para cima para ver se ele percebeu, viu que ele a estava olhando.
Ele disse, “Farei uma cópia para você na Corte. Mestre Alan, o pintor, é um excelente artista.”
Ela queria que ele tivesse um ataque de nervos, gritasse. Queria que ele se zangasse, ficasse arrasado pela dor, alguma coisa, qualquer coisa que ela pudesse responder. Mas havia apenas sua calma sombria.
Ela sabia que ele tinha vencido essa rodada do jogo. Em silêncio ela devolveu o medalhão.
Ele guardou no bolso.
Nenhum dos dois falou durante algum tempo. A carruagem fazia barulho ao longo da estrada; eles passaram por uma aldeia de casas em ruínas e uma lagoa onde os gansos se levantaram e bateram as asas brancas no susto. Então a estrada subiu, para a sombra verde de um bosque.
Claudia se sentiu quente e embaraçada. Um marimbondo entrou pela janela aberta; ela o espantou e limpou suas mãos e rosto com um pequeno lenço percebendo como a poeira marrom da estrada apareceu no linho branco.
Finalmente ela disse, “Estou feliz que tenha me contado. Por que agora?”
“Não sou um homem comunicativo, Claudia. Mas só agora estou pronto para falar sobre isso.”
Sua voz era áspera e rouca. “Esse casamento vai ser o auge da minha vida.
Dela também, se tivesse vivido. Devemos pensar nela, do quanto se sentiria orgulhosa e feliz.”
Ele levantou os olhos e eles eram cinzentos como aço. “Nada deve estragar as coisas, Claudia.
Nada deve ficar no caminho do nosso sucesso.”
Ela encontrou seus olhos; ele sorriu seu sorriso lento. “Agora. Tenho certeza de que prefere a companhia de Jared que a minha.” Havia uma frieza nas palavras que ela não perdeu. Ele pegou sua bengala e bateu no teto da carruagem; do lado de fora, o cocheiro apitou baixo, puxando os cavalos para uma parada inquieta, bufando e batendo os cascos.
Quando ficaram quietos, o Diretor se inclinou e abriu a porta. Ele desceu e se esticou.
“Que bela vista. Olhe minha querida.”
Ela desceu ao lado dele.
Um grande rio corria abaixo deles, brilhando sob o sol de verão. Ele percorria ricas terras, os campos dourados com cevadas amadurecidas, e ela viu que as borboletas estavam elevando-se nas nuvens dos prados floridos ao lado da estrada. O sol estava quente em seus braços; ela levantou o rosto para ele com gratidão, fechando seus olhos e vendo apenas um calor vermelho, sentindo o cheiro da poeira e alguns pungentes mil-em-ramas esmagados na sebe.
Quando ela abriu os olhos novamente ele tinha ido, caminhando de volta para as carruagens que os seguiam, batendo sua bengala, dizendo uma palavra gentil ao Lorde Evian, que subiu e enxugou o suor de seu rosto vermelho.
E o Reino estendia-se diante dela para o calor distante do horizonte nevoento, e por um segundo ela desejou que pudesse correr em sua quietude de verão, fugir para a paz da terra vazia. Em algum lugar que ninguém mais estaria.
Em algum lugar onde ela estaria livre.
Um movimento em seu cotovelo. Lorde Evian ficou ali, bebendo de uma garrafa de vinho pequena. “Lindo,” ele respirou. Ele apontou um dedo gordo. “Vê?”
Ela viu um brilho milhas de distância nas montanhas distantes. Um reflexo brilhante de diamante branco. E ela soube que era a luz do sol sobre o telhado da grande Corte de Vidro.
***
Keiro comeu o último pedaço de carne e recostou-se, empanturrado. Bebeu a última gota de cerveja e procurou em volta por alguém para encher a caneca.
Attia ainda estava sentada perto da porta, ele a ignorou. A taberna estava cheia; ele precisou chamar duas vezes para ganhar atenção. Então a dona da taverna veio com um jarro e enquanto servia perguntou, “E sua amiga? Ela não come?”.
“Ela não é minha amiga.”
“Ela veio atrás de você.”
Ele deu de ombros. "Não é possível deixar de ser seguido por garotas. Quero dizer, olhe para mim.”
A mulher riu e balançou a cabeça. “Tudo bem, bonitão. Pague.”
Ele contou algumas moedas, bebeu a cerveja e levantou, se alongando. Sentiu-se melhor depois do banho, e o colete vermelho-fogo sempre pareceu bem nele.
Caminhando entre as mesas ele ignorou Attia quando ela levantou para segui-lo e estava quase no meio do beco escuro antes que a voz dela o fizesse parar.
“Quando é que vamos encontrá-los?”
Ele não se virou.
“Deus sabe o que está acontecendo com eles. Você prometeu...”
Keiro virou. “Por que você não se perde?”
A garota olhou para trás. Ela era uma coisinha tímida, ele havia pensado, mas esta era a segunda vez que ela o confrontava, e estava ficando chato. “Eu não vou a lugar nenhum,” ela disse calmamente.
Keiro sorriu. “Você acha que vou abandoná-los, não é?”
“Sim.”
Sua franqueza o atingiu. Isso o fez se zangar. Ele se virou e seguiu em frente, mas ela veio atrás dele como uma sombra. Como um cão.
“Eu acho que você quer, mas não vou deixar. Não vou deixar você pegar a Chave.”
Ele disse a si mesmo que não a responderia, mas as palavras saíram de qualquer jeito. “Você não tem ideia do que vou fazer. Finn e eu somos irmãos de juramento. Isso significa tudo. E eu mantenho minha palavra.”
“Mantém?” A voz dela deslizou como uma cópia dissimulada de Jormanric. “Eu não mantive minha palavra desde que eu tinha dez anos e esfaqueei meu próprio irmão. É assim que funciona, Keiro? É como o Comitatus ainda está conosco, dentro de você?”
Ele então se virou, mas ela estava pronta para ele. Ela pulou, arranhando seu rosto, chutando e empurrando-o de modo que ele cambaleou e caiu para trás contra a parede. A Chave caiu, um ruído na calçada imunda; ambos tentaram pega-la, mas ela foi mais rápida.
Keiro sibilou com raiva. Ele pegou os cabelos dela, arrastou-a para trás com brutalidade. “Dê-
me!”
Ela gritou e se contorceu.
“Chega disso!”
Ele puxou mais forte. Com um uivo de dor Attia jogou a Chave na escuridão; instantaneamente Keiro a largou e procurou pela chave, mas assim que a encontrou, caiu com um grito.
Ele ficou caído no chão, pequenas luzes azuis viajavam dentro dele.
De repente, com um silêncio alarmante, um campo de imagens surgiu em torno dele. Eles viram uma garota vestida em um suntuoso vestido, as costas contra uma árvore, iluminada por uma luz de brilho glorioso. Ela olhava para os dois. Quando ela falou, sua voz estava acentuada com suspeita.
“Onde está Finn? Quem diabos são vocês?”
***
Tinham lhe dado uma refeição de bolos de mel e algumas sementes estranhas e uma bebida quente que borbulhava ligeiramente, mas ele tinha medo de prova-lo, caso estivesse com drogas.